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                <title type="main">Húmus</title>
                <title type="short">Humus</title>
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                <author>
                    <name type="short">Brandao</name>
                    <name type="full">Brandão, Raul</name>
                    <idno type="viaf">17219789</idno>
                </author>
                <principal xml:id="uhk">Ulrike Henny-Krahmer</principal>
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                <date>2016</date>
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                <bibl type="digital-source"> Brandão, Raul. "Húmus." <seg rend="italic">Luso Livros</seg>, <date when="2013">2013</date>, <ref target="https://www.luso-livros.net/Livro/humus/">https://www.luso-livros.net/Livro/humus/</ref>. </bibl>
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                    <date when="1917">1917</date>
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            <abstract>
                <p>
                    <quote>
                        <p>A obra-prima de Raul Brandão, é o primeiro romance existencialista
                            português que inclui traços do expressionismo literário. Trata-se de um
                            romance-monólogo, centrado em dois monólogos interiores: o primeiro
                            orador, sem nome, e o seu alter-ego – um filósofo lunático chamado
                            “Gabiru”. Ambos registam a vida que decorre numa pequena vila, ao longo
                            de um ano, exprimindo o que veem e o que sentem, em perspetivas
                            diferentes, expondo assim a contradição entre o mundo aparente e o
                            autêntico.</p>
                        <p>Publicado pela primeira vez em 1917 e escrito durante a primeira Grande
                            Guerra (1914-1918), “Húmus” é a primeira obra portuguesa de carácter
                            existencialista – um movimento tornado popular durante o século XX em
                            plena convulsão das guerras mundiais, como maneira de reafirmar a
                            importância da liberdade e individualidade humana, em abordagens sobre a
                            angústia existencial, a existência de Deus, a vida e a consciência.</p>
                    </quote>
                    <bibl>"Húmus." <seg rend="italic">Luso Livros</seg>, <date when="2013">2013</date>, <ref target="https://www.luso-livros.net/Livro/humus/">https://www.luso-livros.net/Livro/humus/</ref>.</bibl>
                </p>
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                    <term type="author.continent">Europe</term>
                    <term type="author.country">Portugal</term>
                    <term type="author.gender">male</term>
                    <term type="text.language">Portuguese</term>
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                <head>Capítulo I</head>
                <head>A VILA</head>
                <ab type="dateline">13 de Novembro</ab>
                <p>Ouço sempre o mesmo ruído de morte que devagar rói e persiste...</p>
                <p>Uma vila encardida — ruas desertas — pátios de lajes soerguidas pelo único
                    esforço da erva — o castelo — restos intactos de muralha que não têm serventia:
                    uma escada encravada nos alvéolos das paredes não conduz a nenhures. Só uma
                    figueira brava conseguiu meter-se nos interstícios das pedras e delas extrai
                    suco e vida. A torre — a porta da Sé com os santos nos seus nichos — a praça com
                    árvores raquíticas e um coreto de zinco. Sobre isto um tom denegrido e uniforme:
                    a humidade entranhou-se na pedra, o sol entranhou-se na humidade. Nos corredores
                    as aranhas tecem imutáveis teias de silêncio e tédio e uma cinza invisível,
                    manias, regras, hábitos, vai lentamente soterrando tudo. Vi, não sei onde, num
                    jardim abandonado — inverno e folhas secas — entre buxos do tamanho de árvores,
                    estátuas de granito a que o tempo corroera as feições. Puíra-as e a expressão
                    não era grotesca mas dolorosa. Sentia-se um esforço enorme para se arrancarem à
                    pedra. Na realidade isto é como Pompeia um vasto sepulcro: aqui se enterraram
                    todos os nossos sonhos... Sob estas capas de vulgaridade há talvez sonho e dor
                    que a ninharia e o hábito não deixam vir à superfície. Afigura-se-me que estes
                    seres estão encerrados num invólucro de pedra: talvez queiram falar, talvez não
                    possam falar.</p>
                <p>Silêncio. Ponho o ouvido à escuta e ouço sempre o trabalho persistente do
                    caruncho que rói há séculos na madeira e nas almas.</p>
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                <ab type="dateline">15 de Novembro</ab>
                <p>Debaixo destes tetos, entre cada quatro paredes, cada um procura reduzir a vida a
                    uma insignificância. Todo o trabalho insano é este: reduzir a vida a uma
                    insignificância, edificar um muro feito de pequenas coisas diante da vida.
                    Tapá-la, escondê-la, esquecê-la. O sino toca a finados, já ninguém ouve o som a
                    finados. A morte reduz-se a uma cerimónia, em que a gente se veste de luto e
                    deixa cartões de visita. Se eu pudesse restringia a vida a um tom neutro, a um
                    só cheiro, o mofo, e a vila a cor de mata-borrão. Seres e coisas criam o mesmo
                    bolor, como uma vegetação criptogâmica, nascida ao acaso num sítio húmido. Têm o
                    seu rei, as suas paixões e um cheirinho suspeito. Desaparecem, ressurgem sem
                    razão aparente de um dia para o outro num palmo do universo que se lhes afigura
                    o mundo todo. Absorvem os mesmos sais, exalam os mesmos gases, e supuram uma
                    escorrência fosforescente, que corresponde talvez a sentimentos, a vícios ou a
                    discussões sobre a imortalidade da alma.</p>
                <p>As paixões dormem, o riso postiço criou cama, as mãos habituaram-se a fazer todos
                    os dias os mesmos gestos. A mesma teia pegajosa envolve e neutraliza, e só um
                    ruído sobreleva, o da morte que tem diante de si o tempo ilimitado para roer. Há
                    aqui ódios que minam e contraminam, mas como o tempo chega para tudo, cada ano
                    minam um palmo. A paciência é infinita e mete espigões pela terra dentro:
                    adquiriu a cor da pedra e todos os dias cresce uma polegada. A ambição não
                    avança um pé sem ter o outro assente, a manha anda e desanda, e, por mais que se
                    escute, não se lhe ouvem os passos. Na aparência é a insignificância a lei da
                    vida; é a insignificância que governa a vila. É a paciência, que espera hoje,
                    amanhã, com o mesmo sorriso humilde: — Tem paciência — e os seus dedos ágeis
                    tecem uma teia de ferro. Não há obstáculo que a esmoreça. — Tem paciência — e
                    rodeia, volta atrás, espera ano atrás de ano, e olha com os mesmos olhos sem
                    expressão e o mesmo sorriso estampado. Paciência... paciência... Já a mentira é
                    de outra casta, faz-se de mil cores e toda a gente a acha agradável. — Pois
                    sim... pois sim.</p>
                <p>Cabem aqui seres que fazem da vida um hábito e que conseguem olhar o céu com
                    indiferença e a vida sem sobressalto, e esta mixórdia de ridículo e de figuras
                    somíticas. Mora aqui a insignificância, e até à insignificância o tempo imprime
                    carácter. Mora aqui, paredes meias com a colegiada, o Santo, que de vez em
                    quando sai do torpor e clama: — O inferno! O inferno! Mora um chapéu, uma saia,
                    o interesse e plumas. Moram as Teles, e as Teles odeiam as Sousas. Moram as
                    Fonsecas, e as Fonsecas passam a vida, como bonecas desconjuntadas, a fazer
                    cortesias. Moram as Albergarias, e as Albergarias só têm um fim na existência:
                    estrear todos os semestres um vestido no jardim. Moram os que moem, remoem e
                    esmoem, os que se fecham à pressa e por dentro com uma mania, e os que se
                    aborrecem um dia, uma semana, um ano, até chegar a hora pacata do solo ou a hora
                    tremenda da morte. Moram os que enriquecem no fundo das lojas, onde as fazendas
                    petrificaram. Mora aqui o egoísmo que faz da vida um casulo, e a ambição que
                    gasta os dentes por casa, o que enche a existência de rancores e, atrás de ano
                    de chicana, consome outro ano de chicana. Moram na viela íngreme e cascosa, que
                    revê humidade em pleno verão, velhas a quem só restam palavras, presas,
                    alimentadas, encarniçadas, como um doido sobre uma coroa de lata que lhes enche
                    o mundo todo. Mora de um lado o espanto e a árvore; do outro o absurdo. E todos
                    à uma afastam e repelem de si a vida. Moram aqui a D. Engrácia e a D.
                    Biblioteca. Mora aqui a Teles que passa a vida a limpar os móveis, só e fechada
                    com os móveis reluzentes, talvez resto de um sonho a que se apega com desespero,
                    e velhas só mesuras, só baba, só rancor. Ter uma mania e pensar nela com
                    obstinação! Criá-la. Ter uma mania e vê-la crescer como um filho!... Mora aqui a
                    D. Restituta, sempre a acenar que sim à vida, e a Orsula, cuja missão no mundo é
                    fazer rir os outros. Todos os dias a morte os leva, todos os dias toca a
                    finados. O nada a espera e a D. Procópia a abrir a boca com sono, como se não
                    tivesse diante de si a eternidade para dormir, e a D. Felizarda a invejar as
                    plumas da D. Biblioteca. Tudo isto se passa como se tudo isto não tivesse
                    importância nenhuma; tudo isto se passa como se tudo isto não fosse um drama e
                    todos os dramas, um minuto e todos os minutos. Mora aqui a D. Hermengarda e a D.
                    Penarícia — mania! mania! mania! — hoje, amanhã, sempre — e a morte joga com a
                    regularidade mecânica de um pêndulo. Toda esta gente usa a vida como quem usa
                    uma ninharia. Aí vem a Adelina... A Timótea se tivesse de envenenar a vila,
                    envenenava-a às pinguinhas. Há os que se gastam como quem gasta uma pedra sobre
                    outra pedra. O Félix procurador não avança palavra sem dobrar a língua, e
                    conserva no escritório, em rimas de papel cobertas de pó, a história da
                    ganância, da vida e da morte de várias gerações. O severo Elias deixa morrer a
                    mãe à fome e todos os anos dá contos de réis aos asilos. Regula a consciência
                    como quem dá corda a um relógio. Dívidas são dívidas. Tem regras fixas. Para não
                    ver o céu dobra-se sobre livros exatos: de um lado Deve, do outro Haver. O drama
                    do Anacleto é um drama respeitável, um drama por partidas dobradas, na máxima
                    ordem e no máximo escrúpulo. Cabem aqui dentro as velhas cismáticas, atrás de
                    interesses, de paixões ou de simples ninharias, dissolvendo-se no éter, e logo
                    substituídas por outras velhas, com as mesmas ou outras plumas nos penantes, com
                    os mesmos ou outros ridículos, fedorentas e maníacas; os homens a quem se foram
                    apegando pela vida fora dedadas de mentira, prontos para a cova — e o Gabiru e o
                    seu sonho. Cabe aqui o céu e as lambisgoias com as suas mesuras, a morte e a
                    bisca-de-três. E cabe aqui também uma velha criada, que se não tira diante dos
                    meus olhos. Obsidia-me. Carrega. Obedece.</p>
                <p>Serve as outras velhas todas. A Joana é uma velha estúpida.</p>
                <p>Serviu primeiro na vila, serviu depois na cidade. Serviu um antropologista
                    exótico, que fundira cem contos a juntar caveiras, e de quem a Joana dizia ao
                    amolecer-lhe os edemas dos pés: — Este senhor é um 2° Camões! Serviu a D.
                    Hermínia e a D. Hermengarda. Serviu com uma saia rota, as mãos sujas de lavar a
                    louça, uma camisa, os usos e seis mil réis de soldada. Lavou, esfregou, cheira
                    mal. Serviu o tropel, a miséria, o riso, que caminha para a morte com um vestido
                    de aparato e um chapéu de plumas na cabeça. Para contar fio a fio a sua história
                    bastava dizer como as mãos se lhe foram deformando e criando ranhuras,
                    nodosidades, côdeas, como as mãos se foram parecendo com a casca de uma árvore.
                    O frio gretou-lhas, a humidade entranhou-se, a lenha que rachou endureceu-lhas.
                    Sempre a comparei à macieira do quintal: é inocente e útil e não ocupa lugar, e
                    não vem primavera que não dê ternura, nem inverno sem produzir maçãs. A vida
                    gasta-a, corroem-na as lágrimas, e ela está aqui tal qual como quando entrou
                    para casa da D. Hermengarda. Faz rir e faz chorar. Os meninos borraram-na —
                    adorou os meninos. Os doentes que ninguém quer aturar, atura-os a Joana. Já
                    ninguém estranha — nem ela — que a Joana aguente, e a manhã a encontre de pé, a
                    rachar a lenha, a acender o lume, a aquecer a água. Há seres criados de
                    propósito para os serviços grosseiros. Por dentro a Joana é só ternura, por fora
                    a Joana é denegrida. A mesma fealdade reveste as pedras. Reveste também as
                    árvores.</p>
                <p>É uma velha alta e seca, com o peito raso. O hábito de carregar à cabeça
                    endireitou-a como um espeque, o hábito das caminhadas espalmou-lhe os pés: a
                    recoveira assenta sobre bases sólidas. Parece um homem com as orelhas despegadas
                    do crânio e olhos inocentes de bicho. É destas criaturas que dão aos outros em
                    troca da soldada o melhor do seu ser, que se apegam aos filhos alheios e choram
                    sobre todas as desgraças. E ainda por cima dedicam-se, aturam os meninos, e
                    quando as mandam embora, porque não têm serventia, põem-se a chorar nas escadas.
                    — É preciso escodeá-la — asseverou a D. Hermengarda quando lhe foi em pequena
                    para casa. Escodeia-a. Noite velha e já ela bate de cima com a tranca no soalho,
                    a chamá-la. — E não te servindo a porta da rua é a serventia dos cães. Mas ela
                    apega-se. Nunca teve outra ama como aquela senhora. Venera-a. Anos depois diz
                    das pancadas: — Merecia-as. Já não é preciso chamá-la: a Joana ergue-se num
                    sobressalto, alta noite, noite negra, e dorme com um olho fechado e outro
                    aberto. Velha, tonta, abre de vez em quando os olhos, põe o ouvido à escuta num
                    movimento instintivo, à espera de uma imaginária ordem: ouve sempre a voz da D.
                    Hermengarda a chamá-la.</p>
                <p>Mal se compreende que depois de uma vida inteira, esta mulher conserve intacta a
                    inocência de uma criança e o pasmo dos olhos à flor do rosto. Trambolhões, fome,
                    o frio da pobreza — o pior — e, apesar de amolgada, com uma saia de estamenha,
                    no pescoço peles, as mãos gretadas de lavar a louça, uma coisa que se não
                    exprime com palavras, um balbuciar, um riso... Misturou à vida ternura. Misturou
                    a isto a sua própria vida. Aqueceu isto a bafo.</p>
                <p>Tem as mãos como cepos.</p>
                <milestone rend="asterisks" unit="section"/>
                <ab type="dateline">16 de Novembro</ab>
                <p>Sempre as mesmas coisas repetidas, as mesmas palavras, os mesmos hábitos. Há
                    momentos em que o caixão que passa às costas de um galego, me chama à realidade,
                    ao espanto. Desvio logo o olhar, reentro à pressa na vida comezinha. Finjo que
                    sorrio e esqueço. Toda a gente forceja por criar uma atmosfera que a arranque à
                    vida e à morte.</p>
                <p>O sonho e a dor revestem-se de pedra, a vida consciente é grotesca, a outra está
                    assolapada. Remoem hoje, amanhã, sempre, as mesmas palavras vulgares, para não
                    pronunciarem as palavras definitivas. E, como a existência é monótona, o tempo
                    chega para tudo, o tempo dura séculos. Formam-se assim lentamente crostas:
                    dentro de cada ser, como dentro das casas de granito salitroso, as paixões tecem
                    na escuridão e no silêncio, teias de escuridão e de silêncio. Na botica
                    sonolenta ao pai sucede o filho sobre o tabuleiro de gamão. Quero resistir,
                    afundo-me. Começo a perceber que o hábito é que me fez suportar a vida. Às vezes
                    acordo com este grito: — A morte! a morte! E debalde arredo o estúpido aguilhão.
                    Choro sobre mim mesmo como sobre um sepulcro vazio. Oh! como a vida pesa, como
                    este único minuto com a morte pela eternidade pesa! Como a vida esplêndida é
                    aborrecida e inútil! Não se passa nada, não se passa nada. Todos os dias dizemos
                    as mesmas palavras, cumprimentamos com o mesmo sorriso e fazemos as mesmas
                    mesuras. Petrificam-se os hábitos lentamente acumulados. O tempo mói: mói a
                    ambição e o fel e torna as figuras grotescas. Não há anos, há séculos que dura
                    esta bisca-de-três — e os gestos são cada vez mais lentos. Desde que o mundo é
                    mundo que as velhas se curvam sobre a mesma mesa do jogo. O jogo banal é a bisca
                    — o jogo é o da morte... O candeeiro ilumina e a sombra rói as fisionomias, a
                    majestosa Teodora, a Adélia, a Eleutéria das Eleutérias, o padre. Retraem-se no
                    escuro outras figuras indecisas e atentas, e ainda mais no escuro outras figuras
                    invisíveis e atentas sobre o jogo paciente. Chegamos todos ao ponto em que a
                    vida se esclarece à luz do inferno. Mas nenhuma arrisca um passo definitivo. O
                    relento sabe bem, e o tempo passa, o tempo gasta-as como o salitre aos santos
                    nos seus nichos. Se o desespero aumenta não se traduz em palavras. A vila cria o
                    mesmo bolor... Pouco e pouco também a Teles esqueceu o sonho e esfrega, sem os
                    ver, os móveis reluzentes. A D. Procópia odeia a D. Biblioteca, mas nem ela sabe
                    o que está por detrás daquele ódio, contido pelo inferno. Toda a gente se
                    habitua à vida. Matar matava-a eu, mas várias palavras me detêm. Detém-me também
                    um nada... As velhas com o tempo adquiriram a mesma expressão, com o tempo
                    chegaram a temer um desenlace. Debruçadas sobre a mesa as figuras não bolem. Não
                    bolem outras figuras que se envolvem no escuro, e o que me interessa não são as
                    palavras do padre — Jogo — nem o que a Adélia diz baixinho à Eleutéria, para que
                    a velha temerosa ouça: — A nossa Teodora está cada vez mais moça!... — o que me
                    interessa são as figuras invisíveis: é a dor dessas figuras imóveis, e sobre
                    elas outra figura maior, curva e atenta, que há séculos espera o desenlace.</p>
                <p>A vida é fictícia, as palavras perderam a realidade. E no entanto esta vida
                    fictícia é a única que podemos suportar. Estamos aqui como peixes num aquário. E
                    sentindo que há outra vida ao nosso lado, vamos até à cova sem dar por ela. E
                    não só esta vida monstruosa e grotesca é a única que podemos viver, como é a
                    única que defendemos com desespero. — Pois sim... pois sim... Estamos aqui a
                    representar. Estamos aqui todos ao lado da morte e do espanto a jogar a
                    bisca-de-três. Estamos aqui a matar o tempo. Este passo, que é único e um só,
                    damo-lo como se fosse uma insignificância. Reparem, vê-se daqui a vila toda...
                    Lá está a Adélia, o Pires e a Pires como figuras de cera. Ninguém mexe. Num
                    canto mais escuro a prima Angélica não levanta a cabeça de sobre a meia. Tanta
                    inveja ruminou que desaprendeu de falar. Chega o chá, toma o chá, e apega-se
                    logo à mesma meia, a que mãos caridosas todos os dias desfazem as malhas, para
                    ela, mal se ergue, recomeçar a tarefa. Um dia — uma semana — um século — e só o
                    pêndulo invisível vai e vem com a mesma regularidade implacável — prá morte! prá
                    morte! prá morte!</p>
                <p>Reduzimos a vida a esta insignificância... Construímos ao lado outra vida falsa,
                    que acabou por nos dominar. Toda a gente fala no céu, mas quantos passaram no
                    mundo sem ter olhado o céu na sua profunda, na sua temerosa realidade? O nome
                    basta-nos para lidar com ele. Nenhum de nós repara no que está por trás de cada
                    sílaba: afundamos as almas em restos, em palavras, em cinza. Construímos
                    cenários e convencionamos que a vida se passasse segundo certas regras. Isto é a
                    consciência — isto é o infinito... Está tudo catalogado. Na realidade jogamos a
                    bisca entre a vida e a morte, baseados em palavras e sons. Há decerto uma coisa
                    chamada consciência, mas com o uso perderam o sentido. E também há outra chamada
                    instinto que não tem importância nenhuma... Isto assume aspetos de catafalco
                    monstruoso de lonas e ripas inúteis, que nos é indispensável para viver. Desde
                    que se cumpram certas cerimónias ou se respeitem certas fórmulas, consegue-se
                    ser ladrão e escrupulosamente honesto — tudo ao mesmo tempo. A honradez deste
                    homem assenta sobre uma primitiva infâmia. O interesse e a religião, a ganância
                    e o escrúpulo, a honra e o interesse, podem viver na mesma casa, separados por
                    tabiques. Agora é a vez da honra — agora é a vez do dinheiro — agora é a vez da
                    religião. Tudo se acomoda, outras coisas heterogéneas se acomodam ainda. Com um
                    bocado de jeito arranja-se-lhes sempre lugar nas almas bem formadas.</p>
                <p>O Anacleto traz tudo em dia, as contas, os livros, os escrúpulos. Nunca pôs a
                    mulher na rua — não pode vê-la — por ser contra os ditames da sociedade. Nunca
                    se separou dela por lho proibir a Igreja. Nunca lhe faltou com respeito, ordem e
                    método. A praça considera-o, a Igreja considera-o. Deus considera-o. Que mais
                    quer aquela sombra trágica, que nem se atreve a queixar-se, e que se chora —
                    chora para dentro? Toda a gente tira o chapéu à D. Biblioteca, que usa brasão na
                    fralda da camisa, quando passa na sua missão de caridade. Os pobres exaltam-na,
                    a Igreja exalta a sua caridade, que rebusca a desgraça para lhe dar três
                    vinténs. É sempre a primeira em todas as listas de esmolas (reservam-lhe de
                    direito esse lugar). Lá está no alto dos subscritores: D. Biblioteca das
                    Bibliotecas: três tostões, seis tostões, um quartinho. Os filhos veneram-na, o
                    respeitável Elias de Melo, e o impoluto Melias de Melo. Mas o respeito pelos
                    pais só resiste, enquanto os pais respeitam o interesse dos filhos. Há decerto
                    uma lei moral, mas há sempre por trás uma boca a pregar... Tudo tem limites. A
                    D. Leocádia é de outra casta. Não entende a caridade assim. Resolve tudo segundo
                    a sua consciência, procede sempre segundo a sua consciência, põe acima de tudo a
                    sua consciência. É avara e somítica, e leva para casa uma órfã a quem sustenta e
                    que lhe entrapa as pernas. O Félix procurador, que comunga com enternecimento às
                    sextas-feiras, convencido até à medula ao aproximar-se da Santa Mesa
                    Eucarística, todas as semanas com muitos papéis do Estado e a conivência da lei,
                    demanda alguns desgraçados. A questão para ele é de selos. Só o Santo prega cada
                    vez mais alto: — O inferno! o inferno! Como Santo Agostinho tinha tido uma
                    mulher e um filho, como Santo Agostinho os repelira. <seg rend="italic" type="foreign" xml:lang="la">Intrinsecus oculatum</seg>, o Santo só vê para
                    dentro. A vida não existe — só a eternidade existe. Depois de cem mil anos o
                    condenado sente as labaredas como na própria hora em que entrou no inferno.
                    Desconfia de si e dos outros e repete no mesmo desespero: — O inferno! o
                    inferno! Mas o inferno existe?</p>
                <p>Nenhum de nós sabe o que existe e o que não existe. Vivemos de palavras. Vamos
                    até à cova com palavras. Submetem-nos, subjugam-nos. Pesam toneladas, têm a
                    espessura de montanhas. São as palavras que os contêm, são as palavras que nos
                    conduzem. Mas há momentos em que cada um redobra de proporções, há momentos em
                    que a vida se me afigura iluminada por outra claridade. Há momentos em que cada
                    um grita: — Eu não vivi! eu não vivi! eu não vivi! Há momentos em que deparamos
                    com outra figura maior, que nos mete medo. A vida é só isto? Por mais que queira
                    não posso desfazer-me de pequenas acções, de pequenos ridículos, não posso
                    desfazer-me de imbecilidades. Tenho de aturar ao mesmo tempo esta ideia e este
                    gesto ridículo. Tenho de ser grotesco ao lado da vida e da morte. Mesmo quando
                    estou só o meu riso é idiota. E estou só e a noite. Por trás daquela parede fica
                    o céu infinito. Para não morrer de espanto, para poder com isto, para não ficar
                    só e o doido, é que inventei a insignificância, as palavras, a honra e o dever,
                    a consciência e o inferno.</p>
                <p>E ainda o que nos vale são as palavras, para termos a que nos agarrar.</p>
                <p>É então um mundo de fórmulas a que eu obedeço e tu obedeces? Sem ele não
                    poderíamos existir. Se víssemos o que está por trás não podíamos existir. O
                    nosso mundo não é real: vivemos num mundo como eu o compreendo e o explico. Não
                    temos outro. É a voz dos mortos insistente que teima e se nos impõe. Mais fundo:
                    não existem senão sons repercutidos. Decerto não passamos de ecos.</p>
                <p>Na verdade o que eu não posso é ver, o que eu não quero e ver! A vila regula-se
                    por hábitos e regras seculares — mas há outra coisa enorme para lá do cenário de
                    que me rodeio. Para não ter medo criei eu isto, para a não ver criou o Santo o
                    inferno. Há outra coisa esfarrapada e dorida — o Jogo. Cada vez me sinto mais
                    reles, cada vez as palavras me parecem mais gastas. Esta figura grotesca não é a
                    minha figura. O salitre roeu os santos nos seus nichos — roeu-os também o
                    sonho... Curvado sobre a mesa repito os mesmos gestos inúteis para não desatar
                    aos gritos — Jogo! Isto para fingir que é indiferente o que nos rodeia, que
                    estamos habituados ao que nos rodeia, que sorrimos ao que nos rodeia! Está ali a
                    morte — está aqui a vida — está ali o espanto — e só a ninharia consegue deitar
                    raízes profundas.</p>
                <milestone rend="asterisks" unit="section"/>
                <ab type="dateline">20 de Novembro</ab>
                <p>Fecho os olhos. A chuva desaba interminavelmente do céu, e na luz turva vejo
                    sempre a vila com as mesmas figuras de museu sentadas na mesma sala...
                    Insignificância, insignificância, insignificância. Portas chapeadas que rangem
                    nos gonzos como portas de prisão, fachadas com os vidros partidos, e uma, duas,
                    três camadas de pó sobrepostas. Lojas térreas de onde vem um bafo húmido que
                    trespassa... Como todas as almas, todas as janelas estão perras, e o tempo vai
                    substituindo uma figura por outra figura, uma pedra por outra pedra. Ponho-as em
                    fila diante de mim, com os seus penantes usados, grotescas e maníacas.
                    Considero. Vejo vir os gestos, as cortesias, as acções do confim dos séculos.
                    Isto é nada — é vulgar e quotidiano. É uma aparência.</p>
                <p>A vila é um simulacro. Melhor: a vida é um simulacro.</p>
                <p>Atrás desta vila há outra vila maior. A lentidão, o gesto usado, a meia tinta
                    mesmo em plena luz, toldam-me a visão. Sobre cada ser caiu uma camada de pó. A
                    vila é isto — e a vila não é isto. Que me importa a Adélia, um dia de inveja, um
                    dia de aquiescência, um sorriso, baba, mesura atrás de mesura? Outra velha mexe
                    por trás desta velha mesquinha. As letras assinadas, as letras protestadas deste
                    ser absorto, o exagero minúsculo, têm outra significação. A realidade é a manha,
                    a astúcia que cada um põe em jogo. Não há velhas com cartas na mão; há orgulho,
                    soberba, inveja paciente. Há intuitos, cautela de quem caminha na ponta dos pés.
                    Há forças e experiência, avareza e astúcia. Todas as palavras que se empregam
                    têm, além da significação banal, uma significação que cada um pesa e calcula — e
                    outra significação superior. Há palavras que requerem uma pausa e silêncio, e há
                    palavras que é preciso afundar logo noutras palavras. Há pelo menos dois seres
                    neste homem que toda a gente conhece, pautado, regrado, metódico. Ele, e o doido
                    morto por fazer esgares. Ele, e o doido que só consegue comprimir à força de
                    pontualidade. Esta velha não é a velha com quem lidamos — é outra. Tem tido um
                    trabalhão para fazer mal, nunca conseguiu fazê-lo. É uma discussão que não
                    acaba, com a boca amarga, arrependimento — e por fim não realiza uma catástrofe
                    autêntica, que a engrandeça. Curvada sobre o lar remexe sempre as mesmas cinzas
                    frias.</p>
                <p>Todos se defendem. Por isso existe uma certa grandeza em repetir todos os dias a
                    mesma coisa. O homem só vive de detalhes e as manias têm uma força enorme: são
                    elas que nos sustentam.</p>
                <p>Reparo melhor na vila... Alvenaria e castanho, construções para séculos. Ruas
                    lajeadas, recantos onde nunca entrou o sol. Paredes mestras. Silêncio e humidade
                    até à medula, gestos lentos, hábitos regrados. Uma rua desce até à igreja de
                    cantaria lavrada. Um prédio enorme avança sobre a ruela onde os passos ecoam.
                    Cresce aqui uma vegetação especial de sepulcro, e a sombra absorvida pelas
                    muralhas da Sé exala-se em bafo passado um século. Os alicerces são temerosos,
                    as traves de uma casa davam para a construção de um bairro. E tudo isto se
                    entranhou de salitre, de interesse e de ódio. Em tudo isto há uma mescla de
                    inutilidade, de fé e de sonho. Tudo isto esta cimentado para séculos. Cada
                    barrote foi pregado com um destino, cada bloco metido na terra para se lhe
                    erguer em cima não uma parede, mas uma ideia, uma vida, uma alma — tudo isto tem
                    uma camada de bolor e se impregnou de desespero. Até os sepulcros foram
                    construídos para a eternidade. A pedra depois de talhada é uma expressão. Entro
                    na catedral. Silêncio e um cheirinho a floresta apodrecida. As lajes estão
                    gastas de um lado pelos passos dos vivos, do outro pelo contacto dos mortos.
                    Tudo aqui gira em torno da mesma ideia. A pedra esboroa-se, mas eu contemplo-a
                    viva, com um povo de estátuas em cima, com um povo de mortos em baixo. Nos
                    alicerces uma geração, outra geração, todos apodrecendo juntos na mesma terra
                    misturada e revolvida. A parte exterior é maravilhosa, a parte subterrânea é
                    mais maravilhosa ainda. É a única raiz que se conserva intacta.</p>
                <p>Aqui não andam só os vivos — andam também os mortos. A vila é povoada pelos que
                    se agitam numa existência transitória e baça, e pelos outros que se impõem como
                    se estivessem vivos. Tudo está ligado e confundido. Sobre as casas há outra
                    edificação, e uma trave ideal que o caruncho rói une todas as construções
                    vulgares. Debalde todos os dias repelimos os mortos — todos os dias os mortos se
                    misturam à nossa vida. E não nos largam.</p>
                <p>Reparo melhor na vida secreta e na vida subterrânea. Compreendo como é difícil
                    viver todos os dias e todas as horas, como através de tudo é forçoso seguir um
                    fio invisível — e ser reles e sorrir. Gasta-me uma força superior, e com todas
                    as chagas e todos os vícios, com a vida mesquinha e a vida quotidiana, o nada, o
                    penante usado, o fel e o vinagre, tenho de arcar com uma coisa imensa de que me
                    separa apenas um tabique. Tudo o que faço é um arremedo. Está ali outra coisa
                    quando falo, quando me calo, quando me rio. E falo mais alto porque a ouço
                    mexer... Todos suportam o drama de todos os dias, o cinzento de todos os dias,
                    as aflições e a usura que tornam as figuras ridículas e coçadas. Todos suportam
                    os tratos que envelhecem e preparam para a cova, os pequenos interesses, a
                    inveja, a ambição, a dor física. Todos os dias a Hermengarda amarga os brasões
                    da Biblioteca, a Bisborria todos os dias cisma na sua respeitabilidade, e aturam
                    o azedo que pouco e pouco se deposita nas almas — e com isto uma coisa
                    desconforme, que se levanta e deita connosco, não se tira do nosso lado, em quem
                    ninguém fala e com quem temos por força de coabitar; diante de quem é forçoso
                    ser vulgar e dissimulado, fazendo que a não vemos e com ela à cabeceira da
                    cama...</p>
                <p>Atrás da insignificância andam os céus, os mundos, os vagalhões doirados. Anda o
                    desespero. Anda o instinto feroz. Atrás disto andam as enxurradas de sóis e de
                    pedras, e os mortos mais vivos do que quando estavam vivos. Atrás do tabique e
                    das palavras anda a Vida e a Morte e outras figuras tremendas. Atrás das
                    palavras com que te iludes, de que te sustentas, das palavras mágicas, sinto uma
                    coisa descabelada e frenética, o espanto, a mixórdia, a dor, as forças
                    monstruosas e cegas.</p>
                <p>Em certas ocasiões, se as palavras e a insignificância desaparecessem da vida, só
                    ficava de pé o espanto.</p>
                <p>Só a insignificância nos permite viver. Sem ela já o doido que em nós prega,
                    tinha tomado conta do mundo. A insignificância comprime uma força
                    desabalada.</p>
                <p>Para não ver, para não ouvir, é que nos curvamos sobre a mesa de jogo. Para te
                    não ouvires a ti mesmo, para não veres o que te gasta a todos os minutos e a
                    todas as horas, usura imensa que não sentes e que te vai levar para o
                    escantilhão sôfrego, que te vai mergulhar no silêncio profundo. Usura de todos
                    os instantes. Gasta-nos, desgasta-nos. E todos os dias acordamos mais velhos,
                    todos os dias acordamos mais inúteis. Todos os dias acordamos com mais fel. E
                    todos os dias com mesuras, sem gritos de terror, nos curvamos sobre esta mesa de
                    jogo, não vendo, fingindo que não existe, o espanto que está ao nosso lado, e o
                    espanto pior que trazemos connosco. Chama-se a isto o quotidiano. Isto não tem
                    importância nenhuma. Com isto enchemos a vicia até chegar a morte. Esta mesa de
                    jogo é a nossa existência vulgar, a vida de todos os dias, com o galope da outra
                    vida ao lado. Não se passa nada! não se passa nada! No verão o calor sufoca, de
                    inverno a mesma nuvem impregna o granito, e apega-se, amolece, dissolve pilares
                    das janelas, casebres e a oliveira da praça, só tronco e duas folhinhas
                    cinzentas. Em volta um círculo de montanhas, descarnadas e atentas, espera a
                    tragédia — e as montanhas não desistem. De vez em quando, na solidão que à noite
                    redobra, caem do alto da Sé as badaladas, uma a uma, pausa a pausa. O som tem um
                    peso desconforme.</p>
                <p>Estamos aqui todos à espera da morte! estamos aqui todos à espera da morte!</p>
            </div>
            <div>
                <head>Capítulo II</head>
                <head>O SONHO</head>
                <p>Chove. Cada vez vejo mais turvo, cada vez tenho mais medo. Estamos enterrados em
                    convenções até ao pescoço: usamos as mesmas palavras, fazemos os mesmos gestos.
                    A poeira entranhada sufoca-nos. Pega-se. Adere. Há dias em que não distingo
                    estes seres da minha própria alma; há dias em que através das máscaras vejo
                    outras fisionomias, e, sob a impassibilidade, dor; há dias em que o céu e o
                    inferno esperam e desesperam. Pressinto uma vida oculta, a questão é fazê-la vir
                    à supuração.</p>
                <p>Esta manhã de chuva é um minuto no rodar infinito dos séculos, e os seres que
                    passam meras sombras. Tudo isto me pesa e pesa-me também não viver. Do fundo de
                    mim mesmo protesto que a vida não é isto. A árvore cumpre, o bicho cumpre. Só eu
                    me afundo soterrado em cinza. Terei por força de me habituar à aquiescência e à
                    regra? Crio cama, e todos os dias sinto a usura da vida e os passos da morte
                    mais fundo e mais perto.</p>
                <p>«É necessário abalar os túmulos e desenterrar os mortos.»</p>
                <p>É o Gabiru que se põe a falar sem tom nem som. Um homem absurdo. Olhos magnéticos
                    de sapo. É uma parte do meu ser que abomino, é a única parte do meu ser que me
                    interessa. As vezes deita-me tinta nos nervos. Fala quando menos o espero.
                    Chamo-o, não comparece. Se quero ser prático, gesticula dentro do casaco
                    arrepiado: — A alma! a alma! Singular filósofo! É capaz de desejar a morte para
                    ver o que há lá dentro; é capaz de achar vulgares até as coisas eternas. Ao lado
                    da vida constrói outra vida. Sonha, e os seus sonhos são sempre irrealizáveis,
                    transformam-se-lhe nas mãos em barro informe. Toda a gente se ri — já sonha
                    outra vez... Para ele a vida consiste, encolhido e transido, em embeber-se em
                    sonho, em desfazer-se em sonho, em atascar-se em sonho. Meses inteiros ninguém
                    lhe arranca palavra, dias inteiros ouço-o monologar no fundo de mim próprio.
                    Ignora todas as realidades práticas. Na árvore vê a alma da árvore, na pedra a
                    alma da pedra. Deforma tudo. Põe a mão e molha. Destinge sonho...</p>
                <p>— A alma — diz ele — ao contrário do que tu supões, a alma é exterior: envolve e
                    impregna o corpo como um fluido envolve a matéria. Em certos homens a alma chega
                    a ser visível, a atmosfera que os rodeia toma cor. Há seres cuja alma é uma
                    contínua exalação: arrastam-na como um cometa ao ouro esparralhado da cauda —
                    imensa, dorida, frenética. Há-os cuja alma é de uma sensibilidade extrema:
                    sentem em si todo o universo. Daí também simpatias e antipatias súbitas quando
                    duas almas se tocam, mesmo antes da matéria comunicar. O amor não é senão a
                    impregnação desses fluidos, formando uma só alma, como o ódio é a repulsão dessa
                    névoa sensível. Assim é que o homem faz parte da estrela e a estrela de Deus.
                    Nos vegetais, nas árvores, a alma é interior, pequenina emoção, pequenina alma
                    ingénua e humilde, que se exterioriza em ternura a cada primavera: tocada pelo
                    grande fluido esparso, onde andam as nossas lágrimas, vem à tona em ouro e
                    verde, em deslumbramento. Nos minerais, na pedra concentrada e recalcada, que
                    dor inconsciente, que esforço cego e mudo por não poder abalar as paredes e
                    comunicar com a alma do universo! A pedra espera ainda dar flor.</p>
                <p>Para ele estas coisas etéreas são visíveis. Vê tão exatamente como eu te vejo a
                    ti a paixão, o ódio, o amor, os grandes fluidos desgrenhados de ouro, de piedade
                    e de génio. Tem-se estragado tudo. É o doido que em nós prega e nos deixa
                    aturdidos. Às vezes consigo afastá-lo, mas sucede que fico sempre com pena: se o
                    ouvisse talvez fosse mais feliz e mais desgraçado... Desdenho-o, e sinto-lhe a
                    falta quando o não tenho ao pé de mim. Deita-me a perder se me apanha
                    desprevenido. Quase sempre é ele quem manda em minha casa, e, mesmo quando falo
                    como toda a gente fala e quando rio como toda a gente ri, só a ele o ouço no
                    mundo. Diz-me coisas que nunca ouvi, isola-me num vale apertado e cismático,
                    longe de toda a terra, arrasta-me, ou desespera-me. Desaparece como um cão vadio
                    e quando volta, com lama de todos os caminhos, folhas de todas as florestas,
                    reflexos de todos os enxurros, vem exausto, mudo e feliz. Vem feliz! É ele que
                    me prega: — Toda a agitação é inútil. Não tenhas medo da desgraça! E eu tenho
                    medo da desgraça. À força de hábito cheguei a mantê-lo no seu lugar, mas nunca o
                    pude suprimir, e quanto mais me aproximo da morte, mais saudades levo do Gabiru,
                    que me estragou a vida toda.</p>
                <p>Mora num velho pardieiro encostado à muralha, abafado de um lado pela muralha da
                    vila, que à noite redobra de proporções. O granito enegreceu, poliu-o a chuva, e
                    a escadaria de pedra dá calafrios a quem entra.</p>
                <p>— Essa alma, essa alma disforme, que vai de mundo a mundo, e que em cada ser
                    realiza uma primavera é que é tudo. O resto insignificância. É ela que nos
                    devora e faz da morte a vida e da vida a morte...</p>
                <p>De um lado a muralha de dentes arreganhados para o céu, do outro o sórdido
                    pardieiro, no alto a noite de luar como uma camélia gelada. Dentro disto
                    sonho.</p>
                <p>Ponho-me a olhar para ele — ponho-me a olhar para mim. Passou a vida naquela
                    inutilidade, de que sai a rever sonho e com os cotos partidos a esvoaçar na
                    noite dorida. Primeiro afundou-se em experiências do laboratório, à procura da
                    pedra filosofal. — Ridículo. Depois na aplicação da eletricidade aos vegetais,
                    que se consomem de febre, que se desentranham em flor, sem produzirem fruto. —
                    Grotesco. Agora ninguém o arranca a infindáveis monólogos caóticos: — A morte! a
                    morte! a morte! Incongruência, obscuridade e dor também; a dor de quem vem da
                    irrealidade, encolhido e transido; a figura estranha de quem se debate com o
                    sonho e sai da luta esfarrapado e dourado. Se o tiram do sonho titubeia e não
                    sabe onde põe os pés. Tem as asas partidas. Compreende então a sua inutilidade e
                    desespera-se até reentrar na nuvem que o envolve. Puxa a si o mistério, e, entre
                    as árvores e os fios elétricos que correm todo o quintal, ouço a sua voz
                    magnética, que impregna de sonho o luar todo branco:</p>
                <p>— Isto é um fluido dor, falta-me condensá-lo. É uma nuvem que envolve tudo, que
                    vem do turbilhão da Via Láctea, arrasta tudo consigo, e ascende em espiral até
                    Deus. Não, a sensibilidade não é individual, é universal. Basta ferir a
                    sensibilidade, que vai dos nossos nervos até à Via Láctea, para transformar as
                    noções do tempo, do espaço, da vida e da morte — basta deitar dentro de um
                    tanque uma gota de vermelho para tingir toda a água. Deito-lhe sonho
                    dentro...</p>
                <milestone rend="asterisks" unit="section"/>
                <ab type="dateline">7 de Dezembro</ab>
                <p>A vila é tumular e encardida, mas oculta dentro dos seus muros um sonho
                    desconforme. Talvez desconexo, mas desconforme. O sonho é dele: a própria casa
                    de granito revê sonho.</p>
                <p>O Gabiru mistura, revolve, extrai sonho do sonho. Debalde o que é mesquinho lhe
                    mostra os dentes: o Gabiru não ouve, não vê, não sente. O sonho isolou-o da
                    própria mulher transida de frio, no casarão que deu à costa como uma nau do
                    passado, com o cavername roído pelo mar das trevas.</p>
                <p>É um ser quase etéreo. Nem sei dizer se existiu, se a criei; sei que se sumiu num
                    sopro cada vez mais efémera, com dois olhos verdes de espanto. Sei que me pegou
                    sonho, e que fui levado, perdido, como uma coisa inerte...</p>
                <p>Morreu transida de frio. Uma mulher pálida — o que vale um pássaro. Ternura e
                    dois olhos verdes de espanto. Hesita, mal poisa os pés no chão, chora baixinho,
                    e vai talvez acordá-lo, queixar-se... Não se atreve, e esboça um sorriso logo
                    molhado de lágrimas. Morre de frio. Agosto — morre de frio. Até para lhe sorrir
                    se esconde, e põe-se então a olhar o muro (vou-te dizer o sítio) a falar com o
                    muro, a queixar-se à grande nódoa de humidade da parede. Dois olhos verdes de
                    espanto, um vestido de seda, e as meias rotas nos calcanhares. Um nada de
                    ternura tê-la-ia salvo — ninguém a arranca àquele sonho informe. Morta...</p>
                <p>Ninguém. Estende fios no chão entre as árvores, e as árvores todo o inverno se
                    desentranham em flor. Pegou-lhes sonho também. É um desbarato, uma profusão que
                    as devora. Absurdo. O quintalório ao pé da muralha, que há séculos revê
                    humidade, não é maior que um lenço; a primavera só chega aqui tarde e de mau
                    modo, com pena das árvores de saguão. Arrepende-se logo. Já veem que o absurdo é
                    maior ainda... Dezembro e primavera. O céu gelado, um brilho de estrelas em
                    engastes novos, e, entre a cárie das paredes, as macieiras baixinhas e humildes
                    como exalações de ternura. Mortas. Mortas, secas de sonho. Mortas as árvores
                    desfeitas em flor.</p>
                <p>— Este eflúvio é que é tudo: a torrente de ideias e a torrente de paixões. A
                    minha atmosfera, a alma, penetra a tua atmosfera, e dissolve-a, domina-a,
                    conquista-a. Recua, tateia, hesita. Mas escusas de falar para que eu te entenda.
                    A matéria muitas vezes não me deixa compreender, mas é raro que eu não saiba
                    logo quem tu és, e, mesmo que seja a primeira vez que te fale, as vezes que te
                    tenho encontrado no mundo. E logo: — A vida perdi-a a sonhar. Depois de morta é
                    que dei com ela. Mas que importa! — Acabei com a morte, vou ressuscitá-la.
                    Viveremos sempre, amar-nos-emos sempre...</p>
                <p>A noite é de aparato. A lua de coral sobe por trás da montanha em osso, e depois
                    na chanfradura das ameias. Mais flores — todos os galhos dão flor. Sente-se,
                    quase se ouve, a dor das árvores, dos seres vegetativos, ao terem de apressar,
                    de modificar a sua vida lenta, dispersos em ternura.</p>
                <p>— Perdi-a, perdi a vida! Esqueci-a como esqueci tudo. Perdi-a e mais dois dias e
                    tinha suprimido a morte!</p>
                <p>Sob o fluido elétrico o quintal tresnoita. Cai neve e abrem os primeiros botões.
                    A árvore transforma-se num ser dorido e esplêndido — transforma-se em sonho — em
                    sonho desfeito em flor, em flores espezinhadas umas atrás das outras por camadas
                    sucessivas. Os ramos espremidos escorrem dor. Até as pedras deitam tinta. O
                    quintal escorre sonho como a alma do Gabiru. Atrevem-se e acordam as coisas
                    apodrecidas, e velhas pedras iludidas põem-se a cantar nesse pio triste dos
                    sapos, que sai da fealdade como uma inútil queixa de desventura. A noite côncava
                    e branca — gelada — cobre indiferentemente tudo isto. Que não cobre a noite?
                    Quatro paredes negras, no fundo remexe o sonho. Perco também a noção da
                    realidade.</p>
                <p>— Tanta flor!</p>
                <p>— Para a sua cova. E pondo em mim os olhos atónitos:</p>
                <p>— O que é preciso é ir buscá-los ao fundo da mixórdia, arrancá-los à obscuridade,
                    juntar outra vez as bocas dispersas. Não morrer é nada: vou
                    ressuscitá-los...</p>
                <p>Imagina o negrume de um poço — imagina dentro o espanto, e não sei que luz viva,
                    não sei que dor recalcada, não sei que de humilde, que quer viver apesar de
                    dorido. Vivo, e a pata enorme que espezinha e esmigalha. Escuridão e ouro —
                    silêncio e ouro — espanto e ouro.</p>
                <p>— Vê tu a árvore... Uma camada de flor — um grito; outra camada de flor — outro
                    grito. Vê tu a árvore como se transforma num fantasma de árvores, e depois em
                    emoção!...</p>
                <p>Suprimir a morte! É uma coisa grotesca. O sonho trasborda, o luar trasborda —
                    branco e dor — branco e sonho. Depois o silêncio, depois a sua voz magnética —
                    depois a sombra imensa que ameaça desabar sobre nós, no quintal do tamanho de um
                    lenço. Desato aos gritos quando todas as roseiras, fartas de dar rosas secam,
                    quando da catedral e do silêncio caem uma, duas, três badaladas, que me apertam
                    uma, duas, três vezes o coração. E o Gabiru com olhos de frenesi insiste:</p>
                <p>— Não morrer é nada, suprimi a morte. O que é preciso é arrancar os outros ao
                    silêncio. É uma coisa simples, é uma questão de síntese.</p>
                <p>— A morte — afirmo-lho — é o repouso eterno.</p>
                <p>— Repouso eterno, estúpido! É exatamente o que está vivo, a morte. É o que está
                    mais vivo.</p>
                <milestone rend="asterisks" unit="section"/>
                <ab type="dateline">10 de Dezembro</ab>
                <p>Na escuridade e no silêncio o sonho deita braços desconformes. Pega-se-me.
                    Debalde luto contra o fluido que avança para mim como uma exalação de frenesi e
                    de nervos. A teia invisível rodeia lentamente a inutilidade, a teia dissolve
                    almas, e fios impalpáveis apoderam-se da vila quieta e absurda onde só ele se
                    atreve e cisma... Isto é possível ou isto não passa de um sonho grotesco, de
                    mais outro sonho grotesco?</p>
                <p>De que é feita a tibórnia, o líquido viscoso, cor de sabão, com filamentos
                    verdes, que o Gabiru com olhos de sapo revê no vidro, através da luz — a maior
                    descoberta do século, o soro que acaba de vez com a velhice e arreda a morte
                    para confins ilimitados? Alguns sais, o sódio, o enxofre, o magnésio, O brómio,
                    o carbono — e sonho. Dezassete elementos, entre os quais a prata, o cobre, o
                    ouro, o arsénico — e dor. Matéria, espírito e concentração. O mistério é este e
                    mais nenhum, é exprimir como o que é espírito se transforma em matéria, como a
                    poeira se condensa, como a alma se faz corpo. Gritos, mais desespero. Contar o
                    quê? As noites infinitas, as mãos que tentam arrancar farrapos ao manto em que o
                    mistério se envolve e o procuram reter quando ele se dissipa? Outra vez
                    absorção, outra vez o rebuscar em ti mesmo o inexplicável, e os nervos que
                    tendem e quebram, o cérebro que dói, o lento acordar das vozes submersas, a
                    discussão, o tumulto, e poder distinguir entre tantas bocas que falam, a única
                    que tem direito a falar. É desta obscuridade, desta discordância, que emerge a
                    ideia de suprimir a morte. Não te rias. Já to disse: é um ser à parte com cotos
                    em vez de asas, que se agitam num desespero para voar. Não se contenta com esta
                    vida nem dá por ela, mas fica sempre a meio caminho, e tão dorido que não é
                    possível tocar-lhe. Já to disse: é um ser grotesco que põe em mim os olhos
                    turvos e teima, insiste, repete:</p>
                <p>— Sobre a vila, repara, paira uma atmosfera cinzenta, composta de todas as
                    atmosferas: é a alma da vila. E afirma cheio de convicção: — Deito-lhe sonho
                    dentro.</p>
                <p>Queira ou não queira faz-me pensar... Na realidade morrer é absurdo. Nunca me
                    capacitei a sério que tivesse de morrer. Morrer é estúpido. Não compreendo a
                    morte, e, por mais que desvie o olhar, prendo-me sempre a essa hora extrema...
                    Um ser grotesco, um unguento verde, e aquela voz aos meus ouvidos. É caricato e
                    pega-me dourado.</p>
                <p>E o pior é que este sonho é afinal o meu sonho e o teu sonho. Ninguém o confessa
                    senão a si próprio. O nosso sonho e não morrer. Quando a gente se esquece um
                    bocado a vida tem já passado. E quando a vida tem já passado é que nos agarramos
                    com mais saudades à vida. A resignação custa muitas horas doridas em que ficamos
                    alheados e suspensos. A morte... A morte é inevitável? — pergunto baixinho. E
                    como a morte é inevitável, como tenho por força de me resignar, como não lhe
                    posso fugir, para não perder tudo, criei a outra vida. E afinal quem sabe se
                    este sonho que a humanidade traz consigo desde que pôs o pé no mundo não é o
                    maior de todos os sonhos e o único problema fundamental?</p>
                <p>A verdade é que teima. Não nos larga na vida e levamo-lo escondido para a cova. A
                    verdade é que foi esta sempre a nossa maior aspiração, e que, como todos os
                    sonhos, há de acabar por se converter em realidade. Temos construído o universo
                    assim, podemos construí-lo de outro modo. Falta talvez um passo... A vida eterna
                    admitimo-la quando não nos podemos manter nesta vida; mas, no fundo, o que nós
                    queremos é este mesmo sol, esta pobreza, esta dor, estas ilusões moídas e
                    remoídas. Deixem-nos a vida que aceitamos tudo. Aqui há, portanto, um erro
                    primário. Protestas do fundo do teu ser: a morte é absurda. É preciso cortar um
                    nó que não existe. O mais difícil é passar do império do possível para o império
                    do impossível. É talvez uma questão de vontade. A vida é um acto de fé de todos
                    os instantes. Arredemos de vez este suor frio. Não importa se é da uniformidade
                    da vida ou do medo da morte que me vem esta ânsia. Sei que acordo e grito: — Eu
                    não vivi! eu não vivi! E cada vez o meu protesto ascende mais alto. Quero tornar
                    a viver a mesma vida aborrecida e inútil, quero recomeçar a desgraça.</p>
                <p>Ninguém pode com semelhante peso. Não há quem possa com ele. Na solidão, a
                    primeira coisa que procuro é a ninharia para esquecer a morte. Um minuto sós a
                    sós com o espanto, recamado de mundos, que caminha desabaladamente no silêncio,
                    dura um século e outro século ainda. Não posso, nem tu nem eu, viver sobre o fio
                    de uma espada e olhar para a voragem de um e de outro lado; não posso arcar
                    todos os dias com esta usura que me gasta sem mergulhar na insignificância. E
                    agora até a insignificância me é impossível. O silêncio... O pior de tudo é o
                    silêncio, e o que se cria no silêncio, o que eu sinto que remexe no
                    silêncio...</p>
                <p>Carrega em cima de nós tal peso que ninguém o suportava se desse por ele. É o
                    peso do espanto.</p>
                <p>Juntem a isto a vila comezinha, e o negrume que levanta os cotos esfarrapados,
                    como se fosse voar, quando o padre Timóteo dá o seu passeio habitual no pátio da
                    Misericórdia, e, na meia dúzia de metros quadrados com árvores éticas do jardim,
                    as Sousas arrastam os vestidos, última moda do Grandela. Juntem a isto a grande
                    nódoa de humidade a que ela costumava queixar-se. Juntem a isto a Morte e aquela
                    voz de desespero cada vez mais frenética, que não cessa de pregar, e que me põe
                    em frente de mim mesmo, que é o que mais temo no mundo.</p>
                <p>— O que eu quero é tornar a viver. A minha saudade é esta. O que eu quero é
                    recomeçar a vida gota a gota, até nas mais pequenas coisas. Não reparei que
                    vivia e agora é tarde. Sinto-me grotesco. Recomeçá-la nas tardes estonteadas da
                    primavera e na alegria do instinto. Encontrei há pouco uma árvore carcomida:
                    deixaram-na de pé, e um único ramo ainda verde desentranhou-se em flor...
                    Pudesse eu recomeçar a vida! — Cala-te! Terei de confessar a mim próprio que
                    nunca amei, que nunca fui arrastado até ao âmago pelo desespero ou pela paixão,
                    e que de tal forma se me entranharam as palavras e as regras, que passei a vida
                    a mascar palavras e regras? Terei de confessar a mim mesmo que vou para a cova
                    com a boca a saber-me a vulgaridade e a pó? Antes me soubesse a fel — antes a
                    dor!... — Mas sonhaste, estúpido! — Sonho. E o que me resta nas mãos inermes,
                    nas mãos para que olho com espanto e terror, nas mãos de velho, senão grotesco,
                    farrapos de grotesco, restos de grotesco, com alguma tinta em cima?... Não;
                    viver é que é bom, viver com o instinto, como os ladrões e os bichos, os
                    malfeitores e as feras, sem pensar, sem sonhar, sem palavras nem leis, até cair
                    a um canto, morto e feliz, de barriga para o ar. Isso sim! isso sim!... —
                    Quantas conversas temos tido juntos! quantas discussões inúteis! quantos
                    desesperos de que não há sair, batendo com a cabeça na mesma parede! Às vezes
                    subjugo-o: — Cala-te! cala-te! Às vezes fala mais alto e domina-me ele a mim.
                    Rio-me de ti e impões-te me. És ridículo e só tu te atreves; só tu és feliz
                    porque te atreves a sonhar, a seres tu, a dizeres inconveniências sem fé nem
                    lei. Só tu não tens método, só tu te fechas a sete chaves à tua vontade, livre,
                    feliz e desprezado. No fundo invejo-te.</p>
                <p>Aquilo incha, transborda, como um rio que alaga tudo. Pega-se-me e molha-me.
                    Aturde-me. É só ele que fala no mundo, cada vez mais obcecado e mais alto, com
                    interjeições e gestos desordenados pelo meio: — Estúpido! Hei de falar! quero
                    falar! Hei de por força falar! E há aqui dor e ridículo. Há um esgrouviado a
                    dizer vulgaridades, e uma coisa que vem da raiz da vida num frémito e que me
                    mete medo. Um bafo, e logo mil vozes que aproveitam o momento e desatam a pregar
                    sem tom nem som. — Toda a gente se ri de ti... — Deixá-lo. — Toda a gente se ri!
                    toda a gente se ri! — Quero por força tornar a viver! Hei de por força tornar a
                    viver!</p>
                <p>Debalde lhe aconselho calma, o Gabiru insiste:</p>
                <p>— Entrevejo na morte um sofrimento atroz. O inferno não é uma palavra vá. É um
                    inferno de ânsia, um desespero sem consciência e sem gritos. A vida não é senão
                    uma trégua — um ah — e logo um mergulho nesse inferno de dor. Na dor extrema.
                    Eis o que é a morte: a dor extrema, a dor emudecida. O terror instintivo da
                    morte é uma advertência. Não quero morrer e vou ressuscitá-los!... Viver sempre!
                    amar sempre! sonhar sempre! — que esplêndido sonho! A vida é quase nada. Tudo
                    que custou tanto desespero, tudo sumido num buraco para sempre. Ouves? Para todo
                    o sempre. De que serviram os gritos, as lágrimas, subir, trepar, chegar ao topo
                    do calvário? Para todo o sempre! Bem sei: aquilo a que me apego é impalpável: é
                    a mulher que passou, assomando-lhe ao focinho uma expressão de ternura, e que
                    nunca mais tornarás a encontrar; é aquela manhã de chuva em que nos molhamos
                    juntos (e ainda me sinto molhado) e que se não repete, é o minuto que nos
                    escorre das mãos como um fio de água, mas doura-o o sol, e é esse mesmo minuto
                    translúcido que quero tornar a viver, sem a sombra da morte a meu lado. É a essa
                    mesma ninharia que é a vida a que deito as mãos com desespero. A vida é nada — e
                    esta cor, esta tinta, esta desgraça. É saudade e ternura. É tudo. É os meus
                    mortos e os meus vivos. Levo pena de tudo, até da fealdade. Agarro-me a tudo,
                    tudo me prende, o sonho que não existe, as horas inúteis, o possível e o
                    impossível. A floresta não faz parte do meu ser, e eu tenho aqui a floresta, o
                    som e o aroma da floresta, a vida da floresta; o céu não faz parte do meu ser, e
                    eu sou o céu profundo, o céu trágico e o céu esplêndido. Dá-me a vida — dou-te
                    tudo em troca... Agarro-me como um náufrago, agarro-me com uma saudade, que vem
                    não só de mim, mas de muito mais longe, da base mesmo da vida. Para sempre! para
                    todo o sempre! E, com um suspiro mais fundo, repete:</p>
                <p>— Suprimi a morte, vou ressuscitá-los!</p>
                <p>A noite vem, a noite avança. Sinto os mortos. Ainda vivo, já estou em seu poder:
                    faço parte da legião. Noite imensa sem gritos. Pior que sofrer é não sofrer —
                    para sempre. É nunca mais sentir. É ter as órbitas vazias voltadas para o céu e
                    nelas não se refletir a luz das estrelas. Mais um passo e é o silêncio absoluto.
                    Mais um passo e tapas-me para sempre a boca.</p>
                <p>Não me importa ser feliz — não me importa ser desgraçado. O que me importa é o
                    que há depois, é o que está por baixo da terra e o que está por cima da
                    terra.</p>
                <p>Já não luto. E ele insiste e cada vez prega mais alto:</p>
                <p>— Eu não vivi. Que importa, vais morrer! Para sempre, para todo o sempre, o mesmo
                    buraco de onde não sai rumor. Escuta isto: de onde não sai rumor. Repete isto:
                    para todo o sempre. Nenhuma explicação te é lícita, nenhuma transação é
                    possível. A morte não espera nem atende. É estúpida. Primeiro é estúpida, depois
                    é incompreensível. É tremenda porque contém em si mistificação ou beleza.
                    Absurdo ou uma beleza com que não posso arcar. O nada ou uma coisa que a minha
                    imaginação não atinge. Se é o mistério, e se desvenda de um golpe, apavora-me.
                    Se é o nada repugna-me. Apenas um minuto, e lá em cima as mesmas estrelas, e
                    outros vagalhões de estrelas... Para ela tanto vale um segundo como um século,
                    carrega um ser inútil ou um ser delicado com a mesma indiferença para o túmulo.
                    Tens passado a vida a esperá-la. Que outra coisa fizeste na vida senão esperar a
                    morte? É o que nos preocupa. Debalde a arredamos: a vida não é senão uma
                    constante absorção na morte. Então para que nasci? Para ver isto e nunca mais
                    ver isto? Para adivinhar um sonho maior e nunca mais sonhar? Para pressentir o
                    mistério e não desvendar o mistério? Levo dias, levo noites a habituar-me a esta
                    ideia e não posso. Tenho-te aqui a meu lado. Nunca se cerra de todo a porta do
                    sepulcro. Estou nas tuas mãos... Adeus sol que não te torno a ver, e água que te
                    não torno a ver. Arvores, adeus árvores que minha mãe dispôs; adeus pedra gasta
                    pelos seus passos e que meus passos ajudaram a gastar; adeus ternura para a
                    minha sede, fruto escondido — para sempre! para todo o sempre! Tenho-te horror e
                    odeio-te. Interrompes os meus cálculos. És o maior dos absurdos. Ver para não
                    ver, ouvir para não ouvir, viver para morrer!</p>
                <p>E aqui te faço uma confissão: o que mais me custa a largar e, como à cobra a
                    pele, a vida comezinha. Não, o fim lógico da vida não é morrer, é viver sempre,
                    é ascender sempre. Até onde? Até Deus. Vou ressuscitá-los. Vou ressuscitá-los! E
                    em eles se pondo a caminho vais ver dourado. A vida toma novo impulso.
                    Desaparecendo a morte é que tu abranges a vida. Vais ver a cor que toma o mundo,
                    as tintas que o mundo escorre e as flores que as árvores criam... Vou
                    ressuscitá-los! Vou ressuscitá-los!...</p>
                <p>A terra remexe. Sinto um esforço e revive o suor da desgraça; um arranco na
                    profundidade, e todas as primaveras dispersas não tardam, uma atrás de outra, a
                    reflorir. Há sepulcros até ao fundo do globo. De mais longe vem um ímpeto — são
                    outros mortos ainda. Uma sombra desmedida, uma sombra que se despega da
                    obscuridade, com todas as lágrimas que se choraram no mundo condensadas, vai
                    desabar sobre nós. As suas palavras criam. O pior foi tocar-lhe! Neste debate
                    entra agora o mundo todo. Entram as árvores e as pedras. Não há dúvida para mim:
                    quando sair disto tenho renascido: o mundo não é o mesmo mundo, o céu o mesmo
                    céu, a vida a mesma vida. O que existe é outra coisa dourada e imensa,
                    esfarrapada e imensa. Repara que o céu aumentou em profundidade. O que existe
                    são gritos, o que existe é o espanto. O pior foi tocar-lhe...</p>
                <p>Um remexer de treva, que até agora pudemos recalcar, soltou-se da escuridão e
                    pôs-se a caminho. Já não há esforços que a contenham... Um borrão trágico avança
                    — outro borrão informe prepara-se. Os mortos empurram os vivos...</p>
                <p>Passa no mundo a estranha ventania; é a morte que custa a separar da vida. O
                    rasto que fica atrás, a perspetiva que fica adiante foi cortada. A morte está
                    aqui de um lado, está do outro a vida. Tinha raízes enormes: arrancaram-lhas de
                    vez. Agora atrevo-me a tudo. O turbilhão colérico abala o mundo, ouro e negro,
                    esplêndido e feroz. Desenraíza tudo. As almas acordam num sobressalto, e não há
                    homem que se não ponha à escuta. Passa no mundo a doida ventania das nossas
                    aspirações secretas, das nossas dúvidas, dos nossos desesperos. É uma voz — são
                    muitas vozes. É um grito — são muitos gritos. — É o grito contido há milhares de
                    anos, o grito dos mortos libertos.</p>
            </div>
            <div>
                <head>Capítulo III</head>
                <head>A VILA E O SONHO</head>
                <p>Em lugar do uso de palavras fazia isto melhor com o emprego de dois tons —
                    cinzento e ouro: uma nódoa que se entranha noutra nódoa. O sonho turva a vila. A
                    primavera toca neste charco só lodo e azul: tinge-o e revolve-o. Mas o hábito de
                    tal forma se entranhou na vida, que coabitam com o espanto e continuam a ir à
                    repartição. Horas na torre. Mais silêncio. A morte roda aqui por perto, alguém
                    fala: «Então como passou? Passou bem?» O hábito tem profundidades de légua.</p>
                <p>A princípio olham-se desconfiados, com medo uns dos outros. Sem dúvida gostam de
                    viver mais um século, mais dois séculos, mas não sabem ainda que emprego hão de
                    dar à existência. Não se lhes dava mesmo de morrer contanto que continuassem a
                    jogar o gamão no infinito. O que lhes custa mais a perder não é a vida, são os
                    hábitos. Vêem-se e não se reconhecem. Há almas embrionárias, velhos lojistas que
                    olham para si próprios com terror. A maior parte da gente, nasce, morre sem ter
                    olhado a vida cara a cara. Não se atrevem ou ignoram-na: a outra existência
                    falsa acabou por os dominar. Não há máscara que não custe a arrancar — há
                    mentiras que têm raízes mais fundas que a verdade. Por isso, para uns não morrer
                    é continuar a jogar o gamão pela eternidade, para outros é juntar uma moeda a
                    outra moeda, um dia a outro dia inútil. Sempre... Já na botica dois idiotas
                    recomeçaram com escrúpulo uma partida que deve durar cem anos, e o bocal
                    amarelo, as moscas mortas estão ali com outro ar. Fixaram-se. Estão ali
                    embirrentas e sórdidas para toda a eternidade.</p>
                <p>Pouco e pouco o sonho dissolve, a nódoa de ouro alastra. Vai mexer com o
                    subterrâneo, acorda os mortos, desenterra o sonho submerso há dois mil anos,
                    sobressalta o instinto, bole com todas as almas sobrepostas até ao fundo da
                    vida. Transforma, volta a existência do avesso, deita o muro abaixo. Por ora é
                    só uma ideia, mas sai-nos de cima o peso do mundo... Mexe em tudo, revolve todas
                    as raízes que se apoderaram da vila. O sonho cai na regra, no charco de
                    interesses, na hipocrisia que se não atreve, nos dentes afiados que se
                    transformaram em sorrisos, na paciência de quem espera uma herança com vagares
                    de quem tece uma teia. Certas existências são formidáveis, outras existências
                    são como alcovas onde nunca entrou a luz (cheiram a relento) e onde agora se
                    agita e gesticula um ser desconhecido. Certas existências são feitas de ódio
                    minúsculo, de inveja que sorri — porque nem a inveja se atreve. Certas
                    existências são crepusculares. Em certas existências são os mortos que ordenam,
                    muito mais vivos e imperiosos depois que estão no sepulcro. Quase toda esta
                    gente se desconhece. Nunca se atreveram e agora perguntam-se: — Sou eu? sou
                    eu?</p>
                <p>Aqui estou eu que finjo que sorrio, e acabo por fingir toda vida. A minha vontade
                    era anular-te — e finjo, e o sorriso acaba por ganhar cama, a boca por se
                    habituar à mentira, a ponto de já não saber discernir o meu ser, do ser
                    artificial que criei peça a peça. — Pois sim... pois sim... Mas atrás disto há
                    outra coisa — há fel. E quando tiro a máscara? Mas eu já não posso tirar a
                    máscara, mesmo quando me fecho a sete chaves: a mentira entranhou-se-me na
                    carne. Este fantasma chegou a ter mais vida que a própria realidade. E aqui
                    andam outros seres. Eu não sei quem sou e até o meu metal de voz estranho. Eu
                    não sou quem falo. A meu lado, atrás de mim, vem um cortejo de fantasmas, uma
                    cauda disforme que me conduz e empurra, e adiante de mim há uma projeção de vida
                    até aos confins dos séculos.</p>
                <p>Acaba a hipocrisia. Acaba principalmente a hipocrisia para connosco, mais difícil
                    de largar que a própria pele. Eu minto mais a mim mesmo do que minto aos outros,
                    finges tanto com a tua alma como com a minha. Primeiro é a hipocrisia que
                    descasca. Acabou! acabou! E com espanto ouço e desconheço a minha própria
                    voz.</p>
                <p>É que a morte regula a vida. Está sempre ao nosso lado, exerce uma influência
                    oculta em todas as nossas acções. Entranha-se de tal maneira na existência, que
                    é metade do nosso ser. Incerteza, dúvida, remorso... Nunca se cerra de todo a
                    porta do sepulcro, sentimos-lhe sempre o frio. Agora não, a vida pertence-nos. A
                    morte não existe, desapareceu a morte...</p>
                <p>Ali a um canto um ser desata a rir, a rir, a rir como nunca ninguém se riu.</p>
                <p>E, através da pedra destas fisionomias, transparecem já outras fisionomias: as
                    velhas, como uma roda de aranhas de penante na cabeça, apertam o círculo em
                    volta da majestosa Teodora. São anos de paciência, de inveja e de fel — são anos
                    de tragédia. Sobressaltam-se as futilidades que estavam para durar séculos, mas
                    ninguém arrisca ainda um gesto que o comprometa. Têm-lhe obedecido de rastros. O
                    tempo passa, e com o tempo esta luta entre o inferno e o sonho reveste-se de
                    cimento e de grandeza.</p>
                <p>Obedece e sorri a Eleutéria. Mói, tem moído a vida inteira. Mói-se a si e aos
                    outros. — E o tempo passa... Obedece e sorri a Adélia, que esperou, tem esperado
                    a vida inteira. A miséria conserva: tem os cabelos pretos. Seis, doze vinténs
                    desequilibram-lhe o orçamento: perde-os todas as noites com um sorriso de
                    angústia. Obedece e sorri a Porfiria, que é a pior de todas; é feita de
                    destroços e de restos. A aquiescência também está presente com a D. Restituta,
                    de guarda-chuva na mão, acenando sempre que sim à vida: — Pois sim... pois sim.
                    Faz-se um pouco surda para só ouvir o que lhe convém. Nunca diz mal dos outros,
                    nunca repete numa casa o que ouviu cá fora. As vezes, de noite, vira-se e
                    revira-se na cama, mas nem sozinha se explica: suspira. É na aparência um pouco
                    trôpega, um pouco adoentada e surda: tem uma saúde de ferro e um filho
                    escondido. E ao passo que a D. Restituta, tendo dito a tudo que sim, tendo dito
                    a tudo e a todos que sim, já não pode dizer, com o mesmo esgar, senão que sim: —
                    Pois sim... pois sim... — a Adélia é ríspida: um vestido, um xaile, um chapéu de
                    plumas, e o desejo exasperado de toda a sua vida (tem sessenta anos) de ter uma
                    sala de visitas com dois castiçais de prata e um álbum. O álbum lá está, na sala
                    que cheira a bafio, e há vinte e dois anos que dois paninhos redondos de croché
                    esperam os castiçais de prata. Obedecem as figuras secundárias, atentas e
                    imóveis sobre o jogo, dependentes umas das outras, ligadas pelo mesmo
                    interesse.</p>
                <p>O medo acabou, e o escrúpulo, a hipocrisia da gente que vive à roda de uma ideia
                    sem atrever a encará-la. As velhas ouviram passos apressados dentro das próprias
                    almas, o sonho veio à tona, e ficam absortas com as mãos agarradas aos queixos e
                    as bocas espremidas a remoer em seco... — É preciso matá-la! São anos e anos,
                    são séculos de inveja paciente, que sobem à superfície: até as figuras de pedra
                    ressumam dor e desespero. Agora metem-me medo. As velhas somem-se, e ficam
                    gritos, fica o espanto, ficam fantasmas.</p>
                <p>Toda a gente dá a mesma ferocidade, ódio instinto. Espremidos deitam as mesmas
                    paixões. Uns ignoravam-se. Outros usavam a vida em manias. Outros gastavam-na em
                    grotesco. Outros habituavam-se. A paciência era pegajosa. A paciência tinha uma
                    cor especial, verde desbotado, que mal feria a vista, e um filho, a cobiça, tal
                    qual como a D. Restituta, que encrespa o pêlo e se põe de pé com o guarda-chuva
                    em riste.</p>
                <p>Cada ser me perturba como se contivesse em si o céu e o inferno. Bem sei que a
                    fórmula não é inútil: ao contrário a máscara é indispensável e é por ela que nos
                    julgam. Mas, apesar de criarmos o mesmo bolor e de nos sepultarmos ao mesmo
                    tempo com certa comodidade sob alguns palmos de terra, há qualquer coisa que
                    remexe e que faz parte integrante da vida. Até o escuro se eriça — até a grande
                    sombra se deforma. — Muita gente na vida só conta com a morte. A D. Desidéria
                    desata aos ais. E é com secreta satisfação que vejo esfarelar-se este edifício
                    tão bem construído sobre bases, que pareciam inabaláveis, do interesse, da
                    hipocrisia e das conveniências... Impelidos por uma mola dão todos um passo em
                    frente, e há três dias que os padres se descompõem na colegiada sem se chegarem
                    a entender: — Lá vai o inferno! lá vai o inferno! E, efetivamente, de um
                    instante para o outro, lá vai o inferno que tanto custou a fazer, e outras
                    sombras temerosas reduzidas a cisco. Lá vai o cenário admirável e monstruoso,
                    todas as regras, todos os papéis pintados, que atravancavam o mundo, e eram pelo
                    menos metade da nossa existência. O que tinha uma importância extrema passou a
                    não ter importância nenhuma; o que parecia indispensável à vida, e sem o que se
                    não dava um passo na vida, reduziu-se num minuto a zero. E outras coisas
                    insignificantes assumiram proporções enormes... Os padres clamam num coro
                    desesperado: — Acabou o inferno! acabou tudo! Descompõem-se na sala da colegiada
                    que deita para o passado — o claustro com um pé de oliveira, e dois túmulos
                    encravados na parede, cenografia para o Hamlet — ser ou não ser eis a questão...
                    Cheiram a urina e a ranço. A religião sem inferno está perdida. — Mas lã por o
                    homem ter suprimido a morte, não deixa de haver inferno — observa o estúpido
                    cónego Fazenda. — Isso está claro que não deixa, obrigado pela observação, mas é
                    um inferno tão distante que não mete medo a ninguém. — Protesto! — Lá vai o
                    inferno! acabou o inferno!</p>
                <p>Lá vai também o céu, mas o céu não faz falta nenhuma.</p>
                <p>Já não há esforços que contenham o mundo subterrâneo que se pôs a caminho. Aos
                    mortos cheira-lhes a vida, a saque, a infâmia. A poeira remexe. Por mais que
                    queiram conter a vida dentro de certos limites, ela extravasa e vem à supuração;
                    por mais que a queiram comprimir estala por todas as costuras. É inútil. Além da
                    vida aparente, há outra vida de ódio, de sonho, de interesses ocultos. É a vida,
                    é o que eu cismo de noite e me sustenta de dia. É o desejo de extermínio, é o
                    sonho que arredo e que me pega fuligem: são os restos de sonho de toda a gente.
                    Em todas as almas, como em todas as casas, além da fachada, há um interior
                    escondido. Saem dos antros entontecidos e respiram, olham o céu e respiram. Saem
                    dos buracos e põem-se a rir, ou falam só, o que é a primeira vez que sucede na
                    vila. Emergem da noite e vão deixando cair os farrapos. Respiram com
                    sofreguidão, os gadanhos afiam-se-lhes, e o mesmo desejo os domina: a vida! a
                    vida! a vida!</p>
                <p>Só esta velha parou de remexer nas cinzas frias. Petrificou-se mais,
                    petrificou-se mais ainda, e a figura curva exprime, na imobilidade trágica,
                    sonho e desespero, dor e desespero, noite e desespero...</p>
                <milestone rend="asterisks" unit="section"/>
                <ab type="dateline">20 de Dezembro</ab>
                <p>Que há dentro deste ser, que não tem limites? que há dentro deste ser de real e
                    verdadeiro? Cada um assume proporções temerosas. Caem lá dentro palavras,
                    sentimentos, sonho — é um poço sem fundo, que vai até à raiz da vida. Á
                    superfície todos nós nos conhecemos. Depois há outra camada, outra depois.
                    Depois um bafo.</p>
                <p>Ninguém sabe do que é capaz, ninguém se conhece a si próprio quanto mais aos
                    outros, e só à superfície ou lá para muito fundo é que nos tocamos todos como as
                    árvores de uma floresta — no céu e no interior da terra. De mais baixo ainda vêm
                    terrores, ânsias, desespero... A maior parte das criaturas não só se ignoram
                    como não passam nunca da camada superficial.</p>
                <p>É um erro supor que o homem ocupa um espaço limitado no universo: cada homem vai
                    até ao interior da terra e até ao âmago do céu. A parte de cima foi cortada, mas
                    o que resta da alma é um poço sem fundo. Uma obscuridade. Por vezes fala a lei e
                    o hábito. Intrometem-se coisas abjetas a que não sei o nome. Agora é a vez de
                    impulso — agora é a vez do interesse. A mania também tem os seus direitos. De
                    mais baixo ascendem ordens que se não chegam a formular. Desço mais fundo no
                    poço e encontro restos sórdidos e candura. Por baixo sonho — por baixo
                    fragmentos e gritos... As velhas, por exemplo, não são más, mas têm atrás de si
                    séculos de ruína e de destroços. Há-as que acordam sempre com a boca amarga. Já
                    tiveram vinte anos, e cada uma delas suporta uma cauda de desespero, de ilusões
                    desfeitas, de ilusões intactas, de desejos irrealizados, que lhes pesa como
                    chumbo. Cada velha arrasta consigo uma porção de cadáveres... De mais fundo vem
                    outro impulso... Começo a ouvir vozes que supunha de todo extintas. Acordam e de
                    tal forma se impõem, que a D. Procópia desata a falar sem tom nem som. Nessa
                    vaga, nesse lodo adormecido, jaziam seres ignorados que vêm à superfície:
                    sente-se no silêncio as mãos agarrando-se às paredes. Um a um todos deitam
                    raízes tremendas. E a nódoa imensa alastra, a nódoa desordenada, que satura de
                    ouro a insignificância e o génio, a nuvem que envolve a D. Inocência, encrespa
                    os cabelos à D. Leocádia, fez esquecer a dispepsia ao D. Prior, arreganha os
                    dentes a D. Restituta. Pega-se. Torna uns mais ridículos, concentra outros. Vai
                    remexer no que estava sepultado há dois mil anos, no bolor e no bafio, nas
                    paredes compactas da Sé, nos santos imóveis nos seus nichos, na inutilidade e no
                    hábito. E doura, doura, doura, doura o Teles e o Reles, doura a hipocrisia e o
                    medo, o egoísmo e o interesse. E ao mesmo tempo que os transforma, põe-nos
                    frente a frente a uma coisa estranha que não admite subterfúgios — à
                    realidade.</p>
                <p>Desaparecendo a convenção e as palavras, que vai sair daqui de temeroso e de
                    ridículo? Transformando o mundo, com que olhos vamos ver o mundo? Tudo isto eram
                    frases e só existem instintos? A honra era uma frase, o dever uma frase e a vida
                    um cenário? Cada ser é capaz de todas as perguntas e de todas as respostas.
                    Escorre todas as tintas e possui todas as cores, e só por hábito adquirido há
                    séculos é que conseguimos olharmo-nos cara a cara, quanto mais alma a alma.</p>
                <p>Há diálogos na obscuridade em que se empregam palavras que nunca se usaram, e
                    figuras que já não são as mesmas figuras. Todos nós somos disformes. —
                    Deixem-me! deixem-me! — Agora quando falam já não é para dizer coisas
                    convencionais. — Estou à espera, tenho estado aqui à espera toda a minha vida. —
                    À espera de quê? — À espera desta hora suprema, à tua espera... Mas fala... —
                    Não posso, só com gritos é que posso falar... A outra coisa temerosa
                    sacode-os... — Tu ouves? — Não te quero ouvir. Se consegues ficar comigo sós a
                    sós, sinto que estou perdido. Tudo que me deu tanto trabalho a construir,
                    alui-se num único minuto. Teimo em me defender — teima em se fazer escutar... —
                    Tu ouves? tu ouves?... — Mas tu não existes... Ou tu não existes ou só tu
                    existes no mundo... Estremecem até à base da vida, e, neste cataclismo, ainda se
                    lhes pegam coisas vulgares e coisas inúteis — o que se faz e o que se não faz, o
                    que se usa e o que se não usa, as conveniências e os hábitos rançosos. Há
                    diálogos formidáveis na obscuridade. Há almas extáticas, há-as reduzidas ao
                    espanto. — Ouves? tu ouves? — Não tenho a que me apegue, mal ouso pôr os pés.
                    Até agora sabia quem era, ou fingia sabê-lo, agora pergunto se sou a D.
                    Leocádia, a D. Procópia e a D. Penarícia? Só posso viver ligado a certas
                    palavras, a certos factos, a certas bases que julgava indestrutíveis, e um nada
                    destruiu tudo isto, transformou de todo a vida. O sonho tem outra cor, e a nódoa
                    de ouro alastra, corrói, mistura-se a nódoas mais escuras e mais fundas,
                    penetra, dissolve, produz logo manchas corrosivas como úlceras. — Fases ainda
                    eles as têm, mas o pior é que cada um sente com espanto que já não subverte a
                    verdade. Pergunto a mim mesmo se a deixo morrer, ou se a deixo viver mais
                    duzentos, mais trezentos, mais quatrocentos anos? Agora que a sua vida só
                    depende de mim, pergunto a mim mesmo se a deixo viver — contra os meus
                    interesses? Eram tremendas as questões de dinheiro que a morte resolvia. Quem as
                    resolve agora? Debatem-se em cada consciência problemas que só têm uma solução —
                    a morte. Escusas de desviar o olhar: só têm uma solução — a morte. E de mais
                    fundo ascendem outras vozes e falam cada vez com maior desespero. — Não desvies
                    o olhar. Tu ouves?...</p>
                <p>Assim como esta clamam as vozes interiores, mais alto, sempre mais alto,
                    imperiosas, as vozes da multidão que constituem a tua alma. Isto coincide com o
                    grotesco dos homens de calva e ventre gorduroso, meios nus em plena praça, sem
                    se atreverem a vestir-se ou a largar de vez os trapos convencionais; isto
                    coincide com uma primavera antecipada, em que as árvores, sentindo talvez que
                    vão ser a nossos olhos apenas coisas utilitárias, se apressam a dar flor, em que
                    os céus noturnos e sem mácula parecem ter gelado em azul com fundos de ouro
                    revolvido...</p>
                <p>Alguns põem-se a caminho e marcham com olhos inquietos. Passa essa sombra
                    trágica, a mulher do Anacleto. Estes dois que foram sempre pessoas consideradas,
                    com assento na existência, e que usam a cabeça como quem usa um resplendor, o
                    Elias de Melo e o Melias de Melo, sentem um baque que os amolga. — A nossa mãe
                    morre... — E não tiram o lenço dos olhos. Uivos, gritos, exasperos. É a
                    transformação do grotesco em ferocidade, é a camada de hipocrisia que custa a
                    romper. Imaginem isto: imaginem o lojista em debate com a vida subterrânea, o
                    lojista deparando pela primeira vez com uma alma esplêndida, e a D. Adélia, de
                    chinó postiço, fechada numa gaiola com a verdade, e aos saltos uma à outra.</p>
                <p>Foi grotesco, começou por ser grotesco. Mas escuta-te: é um mundo que lá tens
                    dentro, é uma multidão que se prepara para o assalto. Estava adormecida,
                    acordou. Mete medo. E pregam, açulam-se, avançam direitos aos seus apetites, ao
                    saque, à guerra, à luxúria. Continham-na arames enferrujados, o medo da morte, o
                    hábito de crer em Deus (sabendo bem que Deus já não existia) fantasmas, cacos de
                    armadura que derruíram de um dia para o outro. Descobrir que não há Deus que
                    alegria! Põe a gente à vontade. Respira-se de outra maneira. Descobrir que a
                    morte não é inevitável endurece. O mundo muda de aspeto. Agora é que eu
                    contemplo a vida — e me perco na vida. Começo a ter medo de mim mesmo e não me
                    posso olhar sem terror. Que é isto, este sonho, esta dor, esta insignificância
                    entre forças desabaladas? Onde hei de pôr os pés? Eu sou a árvore e o céu, faço
                    parte do espanto, vivo e morro ligado a isto. Sou temeroso e ridículo. Não me
                    desligo do turbilhão azul, sem nome, que me leva arrastado, estonteado, iludido,
                    e ao mesmo tempo discuto, nego e afirmo. Sou ridículo e construí o mundo. Sonho
                    e acabo reduzido a pó. Sou capaz de tudo e um nada me abate. Sou sórdido e fútil
                    e não tenho limites — vou de mundo a mundo e de espírito a espírito. Dei alma às
                    coisas inertes, significação ao universo, vida ao que não existe, luz às
                    estrelas — e no fim acabo grotesco. Sou nada entre o pélago e sem mim tudo se
                    afunda no pélago. O que olhava com indiferença mete-me agora medo. Não posso com
                    o mundo transformado, com outros seres, e onde não me desligo de uma força cada
                    vez maior e mais desabalada.</p>
                <p>Preciso de olhar para mim, sou forçado a olhar para dentro de mim mesmo, a
                    encarar comigo mesmo, e ou desato a rir ou fujo transido de pavor. Não me posso
                    compreender no universo, não entendo esta luz insignificante no negrume gelado,
                    nem esta discussão interminável no silêncio absoluto, nem este ridículo, nem
                    esta figura mesquinha que representa o mundo. Com que destino rio ou choro entre
                    o enxurro de ouro e os impulsos tremendos que vêm não sei donde e caminham
                    desabaladamente para um fim que não distingo. Tenho medo de mim mesmo! tenho
                    medo de mim mesmo! Nunca o acaso pariu nada tão monstruoso e tão grotesco como
                    isto a que se chama a vida. Tenho medo de mim mesmo! Cada vez me sinto mais
                    abjeto e mais transido — cada vez me sinto maior e mais capaz de tudo. Não me
                    posso olhar nos olhos, com medo de ver o que nunca vi, em todo o seu horror e em
                    toda a sua nudez. Grito.</p>
                <p>Gritos — gritos — gritos ainda sufocados. Ouço-os na noite imperturbável, na
                    harmonia esplêndida, na árvore e na pedra. Mais gritos no turbilhão dos mundos,
                    e atrás desse turbilhão outro maior — e mais gritos ainda. A ternura sou eu que
                    a presto ao absurdo e à dor. O que fica na realidade são gritos. A harmonia
                    parece imensa porque as coisas não têm boca para pregar — ou não as sabemos
                    ouvir. Tudo isto se reduz a dor muda, a dor intolerável num escantilhão de
                    desespero — de desespero sem significação — de desespero cada vez maior. E
                    sempre outras bocas pregam mais alto na noite que não tem limites, outras bocas
                    que nem sequer existem. Levanta-se a poeira trágica, a poeira que anda espalhada
                    há milhares de anos, a poeira dos mortos e a poeira dos vivos. Mais poeira
                    ainda, que vem dos confins, toda a poeira dispersa, que já foi ternura e
                    desgraça, poeira desaparecida que foi sonho, poeira inútil que foi dor.</p>
                <p>Os maiores dramas passam-se porém no silêncio.</p>
                <milestone rend="asterisks" unit="section"/>
                <ab type="dateline">23 de Dezembro</ab>
                <p>«Se ela morresse...» Esta ideia ao menor obstáculo, esta ideia a que eu fujo e a
                    que tu foges, e que ambos arredamos, mas que se obstina até a propósito dos que
                    mais amamos — esta ideia transforma-se logo em ação: — Vou matá-lo.</p>
                <p>Desapareceu a morte e eis-me aqui preso a esta criatura de olhos tristes fitos em
                    mim. Para sempre! Até as coisas mais belas se transformam em absurdo e me pesam
                    como chumbo. Pesa-me a tua amizade, pesa-me o teu amor — para sempre.</p>
                <p>A pobreza e a humildade não se toleram para sempre.</p>
                <p>A ninharia a poder de anos e de persistência impõe-me respeito. A ninharia um
                    século, outro século, transforma-se em grandeza.</p>
                <p>Quanto menos sinto a morte necessária para mim, mais a julgo necessária para os
                    outros. É um muro que é forçoso deitar abaixo. Para respirar é preciso deitá-lo
                    abaixo.</p>
                <p>Muitas vozes, a deste, a daquele, a de tantos mortos, a imporem-me a sua lei...
                    Agora só eu falo e com a minha própria voz.</p>
                <p>Agora só eu mando. A vida vou julgá-la com os meus próprios olhos. Vou tomar
                    fôlego, vou tomar peso à vida. Sei-a de cor e salteado. Sei o que valem os
                    preconceitos, as ilusões e as palavras — sei o que vale o dinheiro. Não torno a
                    ser iludido.</p>
                <p>A vida é um combate, que só se vence pela bajulação, pela manha ou pela audácia —
                    todos os meios são bons. Os escrúpulos não servem para nada, a convenção
                    tolhe-nos os braços. Meia dúzia de regras afiadas bastam. Honestidade a precisa
                    para que confiem em nós — piedade a bastante para que não nos assaltem os
                    cofres. Fora disto logro.</p>
                <p>Se tenho forças uso-as.</p>
                <p>A vida nestas bases é talvez monstruosa, mas não posso modificá-las.
                    Aproveito-as. Tiro da vida o que ela me pode dar. Com ilusões podia-se ser pobre
                    — sem ilusões só se pode ser rico.</p>
                <milestone rend="asterisks" unit="section"/>
                <ab type="dateline">25 de Dezembro</ab>
                <p>O pior é que se passa no silêncio. É a outra coisa que acorda, é a outra coisa
                    desconhecida que começa a empurrar o tabique. Deitamos-lhe todos as mãos para o
                    segurar, mas, no escuro e no silêncio, a pressão redobra... Está outra coisa por
                    trás do tabique, outra coisa que eu não quis ver, e que o sacode com desespero.
                    Bem sei, bem sei que existes! Bem sei que estiveste sempre ao pé de mim. Nunca
                    te deixei discutir comigo. Senti sempre que estava perdido se te deixasse abrir
                    a boca. Há tragédias de que desviava o olhar, fingindo não as ver. Agora hei de
                    vê-las por força. Há mistérios que não queria debater e agora se me impõem. Há
                    vozes que não queria escutar e que falam mais alto que a minha voz. Há seres que
                    não queria conhecer e que discutem agora tu cá, tu lá comigo. Tenho de os
                    aceitar. Romperam pelos sepulcros fora — despedaçaram todas as tampas. E esta
                    intrusão na vida modificou de todo a vida.</p>
                <p>Cada um vê dourado. Tem de pôr o problema ali na frente e de o resolver. Tem de
                    ir até ao mais profundo do inferno e até à vacuidade do céu. Cada um tem de se
                    olhar a si mesmo, nu é ridículo, nu é esplêndido. Cada um vê por uma fresta a
                    força desabalada, e põe-se a cismar como Dante com a mão ferrada no queixo.
                    Temos todos de resolver o problema. Debalde amontoamos inutilidades ou palavras,
                    aí está na nossa frente o mundo real, o mundo da verdade, o mundo sem
                    subterfúgios. Traz flores como uma primavera, traz enxurro. Arrastou-se pelas
                    folhas apodrecidas e pela lama. É dourado — é feroz. Tem todas as tintas e todas
                    as cores, e sobre isto frenesi. É humilde, leva consigo no mesmo ímpeto ternura,
                    dor e desespero. Está dorido e vai tão fundo como a própria desgraça.
                    Impele-nos. É a vida e o sonho, é a tragédia — não existe. Não tem nome.
                    Chama-se a vida e a morte. É uma coisa absurda. Mete-me medo e extasia-me.</p>
                <p>As velhas já não dizem: — Jogo! Houve uma coisa que se meteu de permeio. Os
                    passos aproximam-se e o esforço aumenta. Sinto-lhe o bafo monstruoso, sinto-o
                    mais perto de mim e encostado ao meu ser.</p>
                <p>O que se passa em cada casa, dentro de cada ser, no fundo de cada poço? Ouve-se
                    as almas, como se fossem facas, afiarem no escuro. Estão prontas. Bem sei, falam
                    ainda entaramelado, hão dizem o que sentem, mas já caminham segundo o interesse,
                    o ódio e o sonho. As resmas de papelada são inúteis, a lei todos os dias se
                    reduz a zero. A nódoa alastra. E agora é que se vê bem o que cada um trazia
                    dentro de si. Nesta primavera há duas primaveras. Agora é que eu compreendo que
                    as palavras que se pronunciavam eram rituais, que os gestos, com séculos de
                    existência, eram necessários e significativos. As frases rançosas das velhas nos
                    dias de enterro, as frases banais, eram as únicas capazes de amortecer a dor;
                    este hábito ridículo de jogar o gamão um ópio, como esta história que a Bacelar
                    conta a si mesmo, com um ar idiota, um princípio de sonho. Tanto vale uma
                    tragédia. É preciso fugir à realidade. Compreendo tudo. O que elas odeiam no
                    Gabiru é a sua imensa capacidade de sonho; o que a vila escarnece é o que a vila
                    inveja. Bem se importa esta roda de velhas, em volta de uma mesa de jogo e o
                    candeeiro ao centro, com a bisca lambida: durante algumas horas esqueceram a
                    mediocridade da vida — esqueceram também a morte. O xaile velho a que a D.
                    Leocádia se achega todas as tardes, mesmo no pino do verão, pego nele e, quanto
                    mais no fio, mais peso tem: está encharcado de sonho.</p>
            </div>
            <div>
                <head>Capítulo IV</head>
                <head>PAPÉIS DO GABIRU</head>
                <p>O que me impede de ver a tragédia da vida, é a ninharia da vida.</p>
                <p>A alegria é a luz. A luz suprema é Deus.</p>
                <p>Se Ele não existe — nós criamo-lo.</p>
                <p>Cheguei a um ponto da vida em que nem os outros me interessam, nem eu interesso
                    os outros. Não falamos a mesma língua. Só entendo alguns desgraçados.</p>
                <p>Tudo na natureza são formas da minha alma. Minha alma passa como uma luz em
                    frente da escuridão. Extinta só resta a treva.</p>
                <p>Se não fosse o hábito uma árvore matava-me. Não posso olhar o céu sem terror, e
                    tenho de fechar todas as portas para voltar à vida comezinha.</p>
                <p>Para o outro mundo é preciso uma iniciação.</p>
                <p>Sinto que cada passo que dou é irremediável.</p>
                <p>Se me perguntassem o que queria ser — queria ser isto mesmo. Assim na eternidade
                    te queria, minha alma, com o mesmo sonho, a mesma vida e os mesmos erros. Não te
                    troco por outra alma.</p>
                <p>Não há beleza completa sem uma pontinha de saudade.</p>
                <p>A pobreza, a desgraça e a dor metem-me medo. Mas que prestígio! Ser alimentado
                    pela desgraça dá outra fibra, que só à desgraça pertence. Faz-se parte de uma
                    legião esplêndida.</p>
                <p>Há uma porção melhor do nosso ser, não há negá-lo. Luz entre resíduos, gritos e
                    instintos. Se não existe outra vida, pergunto para quê?</p>
                <p>Se fosse possível suprimir a ilusão — morríamos todos à uma. Vivo entre quatro
                    paredes, e entre quatro paredes analiso e comento e construo o universo. Fora
                    desse casulo nada existe para mim. Sucede, porém, que da parte de fora é que
                    está o resto...</p>
                <p>Se me perguntam o que é a vida — não sei o que é a vida. Sei que me devora — sei
                    que tenho ao pé de mim a morte.</p>
                <p>Que faz de nós a vida? A vida gasta-nos, reduz-nos a linhas essenciais.
                    Habitua-nos a viver, e, quando estamos habituados a viver, suprime-nos.</p>
                <p>Sei que tudo são aparências, com uma única realidade, a morte. Para morrer não
                    valia a pena viver, para me encher de saudade não valia a pena viver. Só para
                    ser mistificado não valia a pena viver.</p>
                <p>A melhor parte da vida — é a saudade da vida.</p>
                <p>A que se reduz afinal a tua vida? Algumas ideias mesquinhas — e a uma coisa que
                    não cabe cá dentro.</p>
                <p>Sim a vida tem minutos belos, quando a gente a esquece. E acima de tudo o sonho.
                    O sonho vale a vida.</p>
                <p>É nada e menos que nada. Impulso, desconcerto e lógica, e no fundo do teu ser uma
                    ânsia superior a tudo, que é a melhor parte do teu ser. Melhor, que te faz
                    desgraçado. Melhor que teima em querer um universo a seu modo, e que pouco e
                    pouco, apesar de tudo, contra tudo, tem construído o mundo a seu modo. Foi ela
                    que fez Jesus. É ela que te impele para cima, cada vez mais para cima.</p>
                <p>Ouço-me viver com terror — e caminho nas pontas dos pés para a morte.</p>
                <p>Se a vida futura é um absurdo, esta vida é um absurdo maior. É tudo uma questão
                    de hábito. Tanto sonhei contigo que te construi.</p>
                <p>Sou aqui tão necessário como as estrelas do céu. Aqui estou, criatura mesquinha,
                    com a dor a meu lado, com sonho a meu lado. Hei de acabar por te dominar. Não há
                    morte que te valha!</p>
                <p>Isto é abjeto, às vezes é grotesco — mas se isto desaparecesse, desaparecia Deus,
                    e, com o maior dos sonhos, todos os outros sonhos.</p>
                <milestone rend="asterisks" unit="section"/>
                <ab type="dateline">30 de Dezembro</ab>
                <p>A vida é tecida como o linho: um fio de dor, um fio de ternura. Eu intrometo-lhe
                    sempre um fio de sonho. Foi o que me perdeu.</p>
                <p>Só dei por ela depois de morta. As horas mais belas perdi-as a sonhar, quando a
                    vida estava a meu lado. Eu não vivi! Eu não vivi!</p>
                <p>Agora é que me lembro dela, como de uma tarde que viesse devagarinho na ponta dos
                    pés, e se fixasse num minuto, no silêncio, nas coisas suspensas na luz — nos
                    botões quase a abrir.</p>
                <p>Estraguei tudo, estraguei a minha vida e a sua vida.</p>
                <p>O dia de hoje não existe para mim: só penso com sofreguidão no dia de amanhã. Ora
                    amanhã é a morte. E sucede também que só dou pelas coisas belas da vida, depois
                    que passaram por mim, e que as não posso ressuscitar.</p>
                <p>Há na vida um único momento. Um momento que sorri. Que concentra em si todos os
                    momentos. Troquei-o pelo absurdo. Troquei a vida pela morte.</p>
                <p>Só agora seus olhos verdes de espanto me chamam, seus olhos que exprimem o irreal
                    e o mundo todo, seus olhos cheios de dor represa e de sonho coado por
                    lágrimas...</p>
                <p>Agora é que ela está viva! Agora é que ela está viva! E tão viva que a confundo
                    com a morte.</p>
            </div>
            <div>
                <head>Capítulo V</head>
                <head>ATRÁS DO MURO</head>
                <p>O Tabique caiu e contemplo a vida. Mas entre mim e mim interpõe-se um muro. O
                    drama não tem personagens nem gestos, nem regras, nem leis. Não tem ação.
                    Passa-se no silêncio, despercebido, entre mim e mim. É um debate perpétuo.</p>
                <p>Que dúvidas? Pois se a minha vida é esta e não há outra vida; se o minuto é este
                    e não há outro minuto, que força me pode deter para que eu não realize o meu
                    destino contra ti e contra todos?</p>
                <p>Há um ser que ocupa o meu ser e me domina quer eu queira ou não queira. Quem há
                    aí capaz de dizer que a mesma ideia o não persegue? Arreda-a. Também eu. Mas
                    saio disto aos gritos. Esfacelado. Tenho por força de o admitir na minha
                    companhia. Subjuga-me. Pior: faz-me falta quando o não tenho ao pé de mim.</p>
                <p>Sentiste-o avançar, pouco e pouco, no silêncio? Sentiste o teu pensamento
                    disforme avançar mais um passo no silêncio? É porventura possível que o que se
                    passa no mais recôndito do teu ser, alguém o pressinta e o ouça avançar no
                    silêncio?</p>
                <p>Há em mim várias figuras. Quando uma fala a outra está calada. Era suportável.
                    Mas agora não; agora põem-se a falar ao mesmo tempo.</p>
                <p>Talvez eu seja um ser complexo, talvez os outros sejam tão complexos como eu.
                    Tudo me faz sofrer — mas metade do meu sofrimento é representado. Tenho é certo
                    dúvidas — mas metade das minhas dúvidas são postiças. Hei de acabar por não crer
                    em mim como não creio nos outros.</p>
                <p>Perpétuo combate a que bem quero pôr termo e que só tem um termo — a cova. Eu e o
                    outro — eu e o outro... E o outro arrasta-me, leva-me, aturde-me. Perpetuo
                    debate a que não consigo fugir, e de que saímos ambos esfarrapados, à espera que
                    recomece — agora, logo, daqui a bocado — porque só essa luta me interessa até ao
                    âmago... Estou pronto!</p>
                <p>Eterna contradição de todo o teu ser. Não sabes o que queres nem como o queres.
                    Não sabes no que crês nem no que não crês. És um impulso. Vais até à cova levado
                    por todos os ventos, sempre a barafustar sem sentido. Explicas tudo, ignoras
                    tudo, adivinhas tudo. És um mar de inverno num dia de verão.</p>
                <p>Está tudo decidido — dizes — está tudo pronto. Só uma coisa me falta: pôr isto em
                    ação. E essa coisa, que é um nada, tem o infinito de comprido.</p>
                <p>Desde que este fantasma se pôs a caminho nunca mais consegui detê-lo.</p>
                <p>Começa por uma ideia que afugento. Começa por um pensamento ténue, por uma
                    simples palavra que afasto.</p>
                <p>Insiste. Há ainda dias em que discuto. E por fim domina-me, tem mais vida que a
                    minha vida, tem mais realidade, mais sonho e dor, do que eu.</p>
                <p>Assisto à sua ação e não o posso conter. Acaba por acampar entre os destroços do
                    meu ser como um dominador.</p>
                <p>Mas eu não o criei! não fui eu que o criei! Não só o não tolero como lhe tenho
                    horror. Mas para ser sincero devo dizer que há ocasiões em que me submeto com
                    alegria. Para ser sincero até ao âmago, devo dizer que nesta dor, neste
                    desespero, é que me sinto inteiramente viver. Com ele é que eu grito. Decerto eu
                    não sou isto — não quero ser isto. Tenho-te medo e pertenço-te. És a melhor e a
                    pior parte do meu ser.</p>
                <p>Felizmente não vemos senão detalhes. Se alguém pudesse encarar uma alma até às
                    maiores profundidades, e ver ao mesmo tempo de que ternura, de que ânsia, de que
                    desespero e de que tempestades essa alma é capaz, nunca mais podia desviar os
                    olhos desse espetáculo. Fosse ela a minha alma ou a tua alma. Era o mundo todo,
                    era o universo. Era Deus.</p>
                <p>Que posso eu contra a vida? E se me recuso, se luto, que me espera? A renúncia? A
                    estúpida renúncia, e cada minuto que passa me aproxima do nada, me leva, queira
                    ou não queira, para o nada? Na cova, na podridão, desfeito em pó, arrastado por
                    todos os ventos, daqui a um século, daqui a milhares de séculos, ainda todas as
                    partículas do teu ser, que não soubeste impregnar de vida e alimentaste de
                    simulacros, te hão de pregar: — Estúpido! Estúpido!</p>
                <p>Remorsos? Eu não tenho remorsos. Duvidas? Eu não tenho dúvidas. Desde que te vi —
                    vi o universo. Compreendi tudo. Compreendi que não tinha vivido, e que toda a
                    minha existência tinha sido fictícia — que mais valia um minuto na vida, que cem
                    anos de vida. Que só há uma hora na existência e que é preciso aproveitá-la. Que
                    tudo é simulacro e só tu és a verdade. E apercebi o universo como força e
                    destino a tal profundidade, que nesse rápido segundo passou por mim numa rajada
                    todo o turbilhão da vida, com as suas vozes, os seus mistérios e toda a sua
                    grandeza feroz. Vi tudo. Senti tudo. Bastou ver-te. Portanto não tenho dúvidas
                    nem remorsos. Ao contrário estou calmo, ao contrário estou decidido.</p>
                <p>Mas há uma coisa temerosa, uma coisa inexplicável e imensa — um fio que não posso
                    cortar. Tenho a sensação de que, cortando-o, aniquilaria a vida. Não a minha
                    vida, que não importa — mas o que há de mais extraordinário e de mais ténue na
                    vida. Se houvesse Deus, diria que aniquilaria Deus.</p>
                <p>Há uma atmosfera de mentira que ninguém deve ultrapassar — há uma atmosfera viva
                    que todos nós respeitamos.</p>
                <p>Mergulho. Mergulho mais fundo ainda e não encontro nada. E no entanto tu existes.
                    És muda e existes. Quando me imagino livre de ti, é que tu tens mais força.
                    Procuro explicar-te por palavras, por convenções, por regras aprendidas, por
                    habilidades... És muito maior do que eu.</p>
                <p>Ponho o ouvido à escuta de encontro ao mundo, ouço-me para dentro, para
                    surpreender as coisas fundamentais que ele me ordena e são duas ou três simples,
                    de instinto e ferocidade. E além disso outra coisa imensa — que não existe.</p>
                <p>Como te chamas tu? E tu, dor, como te chamas?</p>
                <milestone rend="asterisks" unit="section"/>
                <ab type="dateline">11 de Janeiro</ab>
                <p>Ponho-me a olhar para ti consciência, e exijo que me fites nos olhos e que me
                    fales claro. Não entarameles a língua. Em primeiro lugar diz-me o que és e o que
                    significas: medo, receio, uma voz que se cala se a miséria aperta ou a luxúria
                    levanta a cabeça. Um nada, uma voz tão tímida e tão pronta a sumir-se...
                    Incomodas-me é certo, mas não impedes nada. Falas quando devias estar calada,
                    não sabes o teu papel e nunca entras a tempo. Herdei-te: és convenção e egoísmo
                    alheio entranhado no meu egoísmo, sintetizado em duas ou três regras para
                    comodidade dos outros. Fazes de mim uma presa fácil para quem a não tem. E
                    escrúpulo, e o escrúpulo é pelo menos inútil.</p>
                <p>Estás em perpétua contradição. Inutilizas-me metade da vida e nunca me pude
                    desfazer de ti. Nesta luta de todos os dias, quando me julgo livre, é quando te
                    sinto todo o peso.</p>
                <p>Isto é decerto a vida. Mas a vida é também o instinto que me diz: Aproveita, não
                    deixes fugir o único minuto. Se a vida é um momento entre o nada e o nada, o que
                    vale a pena é aproveitá-lo.</p>
                <p>A questão suprema é esta e só esta: Deus existe ou Deus não existe. Se não há
                    Deus, a vida, produto do acaso, é uma mistificação. Aproveitemo-la para
                    satisfazer instintos e paixões. Se Deus não existe, não há força que me detenha.
                    Não há palavras, nem regras, nem leis. Tudo é permitido. Questão lógica: pois eu
                    hei de ir para a cova, para todo o sempre, para toda a eternidade, sem ter
                    extraído da vida tudo que ela me possa dar, preso a palavras ou a meras questões
                    de forma? Oh! ponhamos a questão, consciência: se Deus não existe tu não és
                    senão um estorvo, meia dúzia de regras aprendidas ou herdadas. Ponhamos enfim a
                    questão com toda a clareza, porque este é o único problema que me importa e que
                    te importa resolver.</p>
                <p>Escusas de encher a boca com o dever. O dever não me interessa nada. A questão
                    fundamental, a questão que eu debato com todo o meu ser, e de que me não consigo
                    desligar, é a da morte eterna e a da vida eterna.</p>
                <p>Se Deus existe eu sou um homem — se Deus não existe eu sou outro homem
                    completamente diferente.</p>
                <p>Não existindo tu consciência, o que tu te intrometes na minha vida! E tanto faz
                    analisar-te, discutir-te, negar-te, incomodas-me sempre. Estás morta — estás
                    viva. Na cova hei de chorar inutilmente por te ter obedecido. Hei de revolver-me
                    com desespero, por teres conseguido amolgar-me e amesquinhar-me. Por mais que
                    queira desfazer-me de ti, tu impões-te me. Quando te julgo aniquilada, aí
                    começas a falar outra vez.</p>
                <p>Vens de muito fundo!</p>
                <p>Às vezes protesto e imponho-me. Decido passar sem ti: humilhas-te. Humilhas-te
                    para logo levantares a cabeça e revolveres o punhal na ferida. Pesas-me como
                    chumbo.</p>
                <p>És de ferro. Bem tento explicar-te: são os escrúpulos que me não deixam trair,
                    mentir, subir. O que é eficaz não é ter escrúpulos, é fingir tê-los. É tudo o
                    que os outros nos pedem. — Mas tu não transiges. Se te abaixas, é para te
                    ergueres de novo, para de novo me atormentares. Não me largas. Acompanhas-me por
                    toda a parte.</p>
                <p>Se me livrasse de ti! Se me livrasse de ti!</p>
                <milestone rend="asterisks" unit="section"/>
                <ab type="dateline">18 de Janeiro</ab>
                <p>O que eu tinha era medo. Medo da morte, medo da sombra. Só isto existia? Quando
                    tudo em mim me pregava que aproveitasse este momento, que deste único momento
                    extraísse tudo que ela me podia dar — alguma coisa me detinha. Eras tu
                    consciência. E tu não existias! Fale a lógica, fale a razão, fale também o
                    instinto.. , a consciência é sempre religiosa. Mal posso dar um passo no mundo
                    sem tremer. O mundo é Deus, Deus rodeia-me. Tudo para mim é uma causa de espanto
                    — e através deste espanto pressinto ainda um espanto maior. Sinto-me como
                    baloiçado num sonho imenso. Ando nas pontas dos pés. Mal ouso respirar no
                    cantinho onde contemplo. E a minha consciência era um reflexo deste universo.
                    Mas se tudo isto se converte em forças, se arredo de vez a sombra temerosa, se
                    tudo é acaso no acaso, se nada existe, se é indiferente o que eu penso e o que
                    tu pensas, se só eu sou ao mesmo tempo o bem e o mal, a consciência já não é a
                    mesma consciência e a sentimentos novos corresponde uma consciência nova. Bem te
                    procuro encontrar no fundo do meu ser. Rebusco-te. Às vezes, nos momentos
                    trágicos, já não é contigo que eu deparo — é com outro ser que assiste sempre,
                    como um espectador, a todos os meus exageros. Deitavas-te comigo, levantavas-te
                    comigo, ferrada como um punhal — e não existias. Neguei-te. Expliquei-te.
                    Reduzi-te às tuas verdadeiras proporções — e tu não existias! Atormentaste-me e
                    fizeste-me sofrer mesmo quando já compreendera que não existias. E agora mesmo,
                    quando o universo é outro universo, ainda te encarniças sobre mim como um
                    fantasma.</p>
                <p>Escusas de te rir — tu não existes. Dependias da morte, e o que eu tinha na
                    realidade era medo. Talvez medo para depois da morte — medo da minha alma em
                    frente da minha alma, medo de aparecer nu e com pústulas diante do que é eterno.
                    Carreguei-te como um fardo inútil. Põe-me a questão, põe-me todas as questões
                    que quiseres. Tenho diante de mim este mundo e a voragem, este mundo e o nada.
                    Não te metas de permeio, que já não tens razão de ser. Seria mistificação sobre
                    mistificação. Não me atrever agora é absurdo. Porque, consciência, o que importa
                    é a parte interior — é a verdade sós a sós comigo, fechado a sete chaves, e essa
                    é temerosa. Não tentes iludir-me. Não podes mentir a ti mesmo. Vês que passaste
                    a vida a conter o mal — e o mal fez parte, queiras ou não queiras, da tua vida.
                    O mal é pelo menos metade do teu ser. Agora sim — agora estou livre e atrevo-me.
                    Para sempre livre da morte e livre do tempo, calco-te aos pés. Nenhuma sujeição.
                    Nenhum temor, nenhum fantasma. Sem escrúpulos! sem escrúpulos! Uma força entre
                    forças e mais nada. O mundo pertence-me. Pertence-me e olho-o cara a cara sem
                    desviar o olhar. Sou a única força consciente, sem palavras que me diminuam, nem
                    escrúpulos que me contenham...</p>
                <p>Agora fala! Aproveita o minuto único, a infâmia, o enxurro, o sabor a fel e a
                    lágrimas da vida, ou enfileira-te, se podes, no estúpido rebanho, e reentra na
                    vida quotidiana, feita de pequeninas regras e interesses. Vem-me um vómito:
                    tenho vontade de fugir de mim e dos outros: só o que é selvático me interessa e
                    acorda em mim sonho, perfume e ferocidade... Quero saber o que me impede agora
                    de matar. Quero saber o que me impede de olhar nos olhos o inferno, de seguir o
                    instinto e de obedecer ao impulso...</p>
            </div>
            <div>
                <head>Capítulo VI</head>
                <head>O SONHO EM MARCHA</head>
                <p>O homem por dentro é desconforme. É ele e todos os mortos. É uma sombra
                    desmedida: encerra em si a vastidão do universo. E com isto teve de atender a
                    máscara. Para poder viver teve de se transformar e de esquecer a figura real por
                    a figura de todos os dias. Agora todos somos fantasmas — todos somos afinal só
                    fantasmas, e o que construímos já não cabe entre as quatro paredes da
                    matéria...</p>
                <p>Todos temos de matar, todos temos de destruir. Todos temos de deitar abaixo.</p>
                <p>Há que tempos que deitamos flor pelo lado de dentro! Fomos sempre construções
                    vivas, árvores estranhas, que bracejaram para o interior do tronco ramos e
                    tinta, mais ramos desmedidos e tinta, revestidos de casca pelo lado de fora. Foi
                    por dentro que vivemos e só por dentro nos era lícito crescer, cada vez mais
                    alto, até a morte intervir. A alma destas velhas chegou assim a ser prodigiosa.
                    Façam o favor de entrar... Algumas flores murchas num cantinho com mofo. Depois
                    paciência, avareza, depois um vasto campo funerário, onde passa o vento da
                    desolação como na retirada da Rússia. E dominando a paisagem dois ou três marcos
                    geodésicos. Lá no fundo uma pegada de vida empoçada e que reflete o céu: ali se
                    miram e remiram na sua mocidade. Notem: nenhuma disse uma palavra mais alto.
                    Notem: nenhuma arriscou um gesto mais brusco. Por mais fel que lhes venha à boca
                    estão habituadas a engoli-lo. Nem com a cabeça tapada se atreveram a olhar a
                    verdade. Para dentro! sempre para dentro! E assim sucede que não se construiu
                    nunca catedral com alicerces mais fundos. Está viva. Uma sustentou-se de côdeas,
                    outra sustentou-se de fome. A inveja também sustenta, o fel também sustenta. À
                    Araújo só a paciência e o cálculo lhe permitiram viver. Às vezes tem fome —
                    nunca disse a ninguém que tinha fome. Sabe logo quando entra numa casa as
                    palavras que agradam à velha rancorosa e à filha cheia de pretensões a quem
                    ensina as escalas; de quem há de dizer mal esta semana e bem para a que entra.
                    Esperou como a aranha espera com o estômago vazio. Nunca pediu esmola. Melhor:
                    conseguiu dar-se ao respeito. E calcula, calcula, cheia de fome, o tempo que a
                    majestosa Teodora pode durar. A D. Penarícia é abjeta, mas só a abjeção lhe tem
                    permitido viver. A mentira tem razão de ser — sem abjeção a sociedade
                    repele-nos. Admitimos alguma abjeção, não completa e total, que repugna, mas a
                    precisa para servir de realce e moldura ao nosso quadro. Acresce a isto que teve
                    de viver com despreocupação, de sorrir com despreocupação, de mentir com
                    despreocupação — com a miséria atrás de si. Teve de lutar com a fome, e de
                    manter certa aparência. Conseguiu impor-se. Com fel constrói-se uma vida — o fel
                    dá certa solidez. O pior é meter logo para dentro toda a inveja que lhe vem à
                    boca. Pior ainda: na velhice misturou-se tristeza ao fel. Não só a D. Penarícia
                    tem inveja, não só a D. Penarícia odeia, mas a D. Penarícia chega ao ponto em
                    que percebe a inutilidade do fel. A Teodora pode aniquilá-la de um gesto. Fel e
                    vinagre — mais fel e tristeza. É um vasto campo de destroços de que desvia o
                    olhar. Foi-lhe então inútil o fel? Se não fosse o fel já tinha morrido. Quando
                    passou fome, quando deu dinheiro ao homem para o jogo, quando perdeu na bisca
                    para a Teodora ganhar e sorrir, o que a sustentou foi o fel. Quando vestiu a
                    filha e a passeou no jardim, com trapos como os outros trapos, o que a sustentou
                    foi o fel. Juntem a isto coisas inverosímeis que se lhes pegam e as reclamam,
                    velhas coisas esquecidas, velhos sapatos de ourelo, desaparecidos para sempre
                    nas profundidades do nada; velhos hábitos, costumes aferrados, misérias
                    crónicas, adquiridas pela vida fora e que erguem a voz, cabelos postiços,
                    sentimentos postiços, gritos, e o exaspero de quem não pode berrar: — o que eu
                    quero é gozar! o que eu quero é encher-me! — o que representa ainda mais fel e
                    tristeza, mais fel e vinagre. Tudo isto se fez pelo lado de dentro — tudo isto
                    cresceu pelo lado de dentro, de tal forma que se fosse material não cabia no
                    mundo, com colunatas, pórticos, destroços e subterrâneos, como uma catedral
                    gótica. Aqui nesta cripta está o relento, branco e mole, criado na escuridão e
                    no silêncio, branco e mole, branco e sem olhos. Várias sepulturas com estátuas
                    jacentes e, mais adiante, sobre sarcófagos, a Tradição e a Fórmula, que durante
                    os anos que durou a bisca, defenderam a majestosa Teodora de um envenenamento.
                    Aqui agora — cuidado! — a escuridão é viva, a escuridão é sonho, é sonho
                    requentado, como um acrescento de todos os dias, sonho com que não podem mais ao
                    lado da vida quotidiana. Como sempre as velhas deitam-se cedo, rezam o terço, e
                    antes de dormir juntam um pormenor ao sonho inútil, uma figura aos nichos, um
                    pórtico aos pórticos, um terraço aos terraços — até que adormecem com um sorriso
                    cândido e um cheiro pela boca que tresanda... Aqui com o tempo acrescentou-se um
                    alto relevo esquecido; aqui as figuras são figuras de delírio; aqui a nave
                    atinge alturas desconexas sustentada num único pilar; aqui abre-se uma ogiva com
                    vitrais, que esclarece a uma luz funérea um quadro indistinto, e que é talvez a
                    recordação de um amor já morto — porque elas também amaram — aqui o mistério
                    envolve-se em sombras condensadas, onde agoniza um Cristo exânime que mete medo.
                    Adiante num friso incompleto com uma cidade fantástica, campeia o diabo; depois
                    um remate enfumado, cachorros sustentando uma arcatura, onde se admira a
                    delicadeza e a abundância de ornamentação (é a paciência); e neste canto mais
                    sonho, entre negrume acumulado, treva viva num buraco de treva, que a si própria
                    se enovela num desespero, até que não cabe na catedral, irrompe para o lado de
                    fora e chega num jacto ao céu... Isto não é a catedral de Burgos — é a catedral
                    do fel e vinagre.</p>
                <p>Todas aceitavam a morte e a vida quotidiana. Resignavam-se. Mas o que esta
                    palavra representa de sonho desfeito em fumo, de cóleras inúteis, de inveja
                    inútil, de bolor e de despeito, tradu-lo a paciente D. Hermínia por este grito
                    feroz:</p>
                <p>— Estou farta senhor padre Ananias! Estou farta de o aturar a si, de aturar os
                    outros, e de me aturar principalmente a mim mesmo!</p>
                <p>A paciência acabou, a resignação acabou — e acabou a morte. Suprimida esta ideia,
                    suprimido também o tempo e o espaço, as velhas não existem; o que está vivo é a
                    ferocidade, a paciência e a mentira — e tudo espera a ocasião. Espera e
                    desespera. A parte de dentro é que está viva e reclama de pé e de ferro a sua
                    vez. Ali estão frente a frente, e pergunto se estas velhas que passaram a vida à
                    espera de uma herança não têm direitos. Pergunto se é possível que a majestosa
                    Teodora continue a viver mil anos e a impor-se, a mandar, de quico na cabeça e
                    com o cofre atrás de si, e as outras agarradas à mesa do jogo e à espera da
                    morte. Pergunto se ter inveja não é sofrer, se ter paciência não é sofrer. Há
                    que tempos que cada uma delas só pensa em matá-la e arreda a ideia com medo ao
                    inferno. A teia aperta-se. Mais um momento e a teia torna-se visível. A
                    majestosa Teodora não pode escapar. Todos os dias se tecem fios que a envolvem,
                    todos os dias aquelas vontades atuam, todos os dias o sonho constrói. Sufoca.
                    Formou-se um ser que tem vida própria, uma atmosfera, uma alma comum, de que
                    fazem parte todas aquelas almas. A majestosa Teodora pertence-lhes. Hoje a
                    Adélia cravou de repente a agulha sobre a mesa, e a majestosa Teodora desatou de
                    súbito aos ais, aos ais, como se visse ali lavrada a sua sentença de morte.
                    Todas as fisionomias mudaram alteradas e profundas, subindo à tona das
                    profundidades do universo ou de poços mais profundos ainda. Agora o sonho não é
                    um segundo, o sonho vai ser a vida.</p>
                <p>— Está certo o senhor? Está certo o senhor padre Ananias, que depois desta vida
                    há ainda outra vida de que nos têm falado? Ou há só esta vida? Só esta?! E isto
                    é uma comidela?</p>
                <p>O que elas estavam era sepultadas num vasto cemitério do tamanho da vila. Sobre
                    cada velha havia pó, sobre cada interesse pó, sobre cada fisionomia outra
                    fisionomia. Efetivamente a Teodora é uma insignificância. Só dá leis. O melhor é
                    matá-la. E todos os olhos se cravam nos olhos do padre, todas as velhas mastigam
                    em seco, todas as velhas dão de repente um salto brusco no vácuo.</p>
                <p>Ó paciência que já não és paciência e trazes veneno na algibeira, com que
                    despeito olhas para trás, para o Himalaia de inutilidades. Debalde a paciência
                    tenta dizer ao sonho:</p>
                <p>— Amanhã — tenta iludi-lo: — Espera... E a mentira propôs-lhe uma transação. O
                    sonho toca na paciência como quem toca num nervo, e quando a Restituta vai mais
                    uma vez dizer-lhe à pressa: — Pois sim... — aperta-lhe o gasganete e pela
                    primeira vez na sua vida a deixa desorientada... Comediante, vê se aproveitas o
                    excesso da tua dor para praticares uma nova infâmia!</p>
                <milestone rend="asterisks" unit="section"/>
                <ab type="dateline">21 de Janeiro</ab>
                <p>A mesma interrogação se formula em todas as almas: quer então dizer que só vivi
                    uma vida fictícia ao lado da vida e que perdi o melhor da existência em
                    aparências? Quer então dizer que tudo para que vivi não existe? Ponhamos a
                    questão! Ponhamos a questão! A maior conquista do homem, Deus, desapareceu para
                    sempre — desapareceu também a morte. Ponhamos a questão: façamos tábua rasa.
                    Está tudo em terra, o dever, a honra, as fórmulas e as regras. Ponhamos a
                    questão por uma vez, nítida, clara e sem subterfúgios. Ponhamos a questão e
                    todas as questões...</p>
                <p>Avançam e recuam logo. Do sonho grotesco ou esplêndido, ridículo ou feroz, à
                    realidade vai um passo desmedido. Interpõe-se um muro... Todos passamos os dias
                    a resignarmo-nos. Muitos nem dão pela vida. Há seres que tanto faz estarem vivos
                    como mortos. Outros nunca repararam sequer na sua verdadeira fisionomia (porque
                    até a nossa fisionomia é mais verdadeira que real). Em alguns o murmúrio das
                    vozes é tão afastado que não chegam a interpretá-lo... Há-os que saem da luta
                    esfarrapados, há-os cheios de reticências e que mal visionam o mar morto
                    indiscritível. O que os farrapos custam a largar! O que o muro custa a deitar
                    abaixo! Pesa-lhes a vida anterior, o hábito reclama-os. Adere-lhes o infinito e
                    as cólicas, a usura e o fel. E sobre tudo isto há a contar também com a
                    imbecilidade e a apagada inépcia. Há a contar com a langonha que também tem o
                    seu sonho. Há a contar com o que se arrasta no escuro, com olhos brancos, com
                    olhos vagos para a luz e para o sonho. Há a contar com as velhas encardidas de
                    hábitos e de fístulas. Em seres amorfos e aguados, quase inertes, no fundo
                    remexe ainda um resquício de sonho, que se traduz no mesmo gesto pautado, na
                    mesma mímica, e no olhar, onde, até na imbecilidade cerrada, se distingue não
                    sei que de temeroso. Por isso a questão não é fácil de resolver. Por isso o
                    Anacleto ainda não a matou. Ainda não conseguiu deitar o muro abaixo. Não é o
                    que se pode dizer na praça, porque a praça venera-o. Não é também que a ideia de
                    a matar o assuste. A vila conhece o seu escrúpulo e honra-o. Nunca deixou de
                    pagar uma letra. Mas há não sei quê que o contraria e se opõe. Também as velhas
                    se detêm, também o Santo se detém. Mas a maré que aí vem sobe sempre. Ao mesmo
                    tempo entontece-os, ao mesmo tempo perturba-os. — Eu não quero ver! Eu não posso
                    ver! E tenho de me olhar cara a cara, tenho por força de te admitir, tu que és o
                    meu verdadeiro ser, imenso e profundo, com raízes em toda a lama e braços que
                    chegam ao céu. — Eu não sei donde vem isto, e isto aturde-me. Olha como sorrio
                    para ti, como finjo que sorrio de mim e de ti que te pões a falar. O gesto que
                    eu faço, não me pertence, perturba-me o som da minha voz. E a noite é cada vez
                    mais cerrada... — Ninguém quer achar-se frente a frente com o seu próprio
                    fantasma. Nem tu, nem eu. Fugimos-lhe sempre. E, se sucede encontrarmo-nos com
                    ele, mantemo-nos com um sabor que nunca mais se esquece. O velho, o duro Elias,
                    que juntou cem contos e empobreceu as tuteladas, começa a falar só: — Os olhos
                    inocentes das crianças! Os olhos de espanto e inocência, que exprimem já
                    experiência da vida! — Vivia de caldo e pão, vive só de pão e despediu o sórdido
                    Jacinto: tem diante de si a eternidade para juntar moedas com um destino, os
                    asilos. — Ao que quase todos se apegam não é a grandes acções, é a simples
                    peripécias. As existências que se nos afiguram dramáticas são cheias de
                    ninharias, de ideias fixas e de paciência. O Torres engrandece a mania de copiar
                    inutilidades: daqui a dois dias ou daqui a dois séculos, ainda o encontras
                    curvado sobre o mesmo manuscrito, onde traslada o folhetim do Século. A Araújo
                    que dá lições de piano é desespero inteiriço. O honrado Elias de Melo vê o
                    tratante Melias de Melo pôr-se a caminho e não o pode deter. — Ai começas tu
                    também a perceber que a tua vida foi um mero simulacro, que a tua bondade foi
                    sempre um simulacro, que a tua felicidade não passou de um simulacro... — A D.
                    Fúfia, que há muitos anos está morta por dizer mal, que nunca se atreveu a dizer
                    mal, e que, quando ia a dizer mal, dizia logo bem de toda a gente, rompe agora a
                    abocanhar todos os ridículos, todos os orgulhos, todas as vaidades: — O que isto
                    consola!... — Divagam, falam queiram ou não queiram com os próprios fantasmas,
                    monologam, discutem, gritam. A cada passo uma interrogação exige resposta, a
                    cada passo um abismo aberto. — D. Leocádia, o meticuloso dever foi a tua vida e
                    agora descobres que o dever não existe, descobres que tudo aquilo para que
                    viveste não existe, e que existe outro dever maior e mais vivo. Descobres que as
                    palavras não te servem de nada. Descobres que tens de ir de encontro às questões
                    e não as podes desviar do caminho. Descobres que por tuas próprias mãos criaste
                    uma criatura disforme, que alimentaste de mentira. E, a esta luz que te dá de
                    chapa, descobres que a tua caridade e os teus escrúpulos eram uma luta de
                    vaidade e de medo, de palavras e de instinto, onde não entrava uma única
                    verdade. Descobres que criaste um ser falso que abominas e te abomina, e que não
                    te podes separar desse horror. Descubro também que errei a vida, e não sei
                    recomeçar a vida, e que tudo que fiz não fui eu quem o fiz, mas o outro que me
                    mete medo, e que tanto vale a minha vida que perdi a arcar com Deus, como a da
                    Teles de Meireles que a gastou com um trapo. Com um trapo e palavras, ambos
                    subvertemos o mundo — um dia, uma semana, um século. — Examinando bem a questão,
                    meticuloso Anacleto, uma palavra bastou para te deter. Examinando bem a questão
                    não foi um crime que te deteve. Se ao menos fosse um crime! Examinando bem a
                    questão reconheces que foram as conveniências. Hás de arrepender-te até à
                    consumação dos séculos. O mundo vesgo que descubro em mim no outro
                    compartimento, é o mesmo que em ti descobres. Faz esgares como certos ritos
                    indecisos que se formam à tona dos pântanos. Todos sentimos atrás de nós um
                    mundo, outro mundo, outro mundo de ninharias, de palavras sem nexo, de coisas
                    que perderam a expressão, de apetites que nunca se realizaram — todos cobrimos
                    isto de aparências. Passamos a vida a conter outro ser — outra coisa — outro
                    espanto. Há um fio invisível que ninguém se atrevia a ultrapassar. Uma ordem que
                    ninguém rompia. Até a cólera e o desespero mantinham certo verniz. E agora
                    descobrimos todos ao mesmo tempo, ó meticuloso Elias, ó impoluto Elias — com
                    risca e vinco, com vinco e risca — que resolver matá-la é fácil, mas para a
                    matar temos de deitar abaixo léguas de espessura. Deixamo-la morrer ou não a
                    deixamos morrer? E nem sequer podemos iludir a resposta. A mesma coisa
                    desconforme entra pelo nariz e pela boca do Santo. Entupe-o. Esvazia-o e
                    endireita-o depois de amolgado. Outro ser, num estonteamento, bate com a cabeça
                    pelas paredes. — Mas então?... pergunta atónito. — Mas então posso,
                    atrevo-me?... Tudo isto era uma mistificação? Mas então tudo é possível e posso
                    realizá-lo amanhã, hoje, logo? E estas teias de ferro eram teias de aranha?...
                    Mas então o medo, a morte, o inferno... — Aqui estou eu com esta mulher a meu
                    lado, e sem querer pergunto a mim mesmo... — Mas então?... Sim, resta-me certa
                    pena e saudade, mas o interesse levanta a cabeça e deita as suas contas tão
                    baixinho que mal lhe ouço fazê-las... — Teçamos, teçamos todos a nossa teia
                    esplêndida, vulgar ou grotesca... — Mas então... — E encaro com um mundo novo, a
                    que por ora nem eu, nem tu, nem nenhum de nós se afoita. Só as interrogações são
                    cada vez maiores em todas as almas. Todos os bonecos arreganham os dentes e a
                    Porfíria sua inveja. Efetivamente não se compreende para que vivem certos seres
                    inúteis, que atravancam a nossa existência e um pequeno incidente podia
                    suprimir. Efetivamente não se explica que bastem alguns fios imateriais para nos
                    conterem e que uni vidro de vidraça seja suficiente para nos separar da
                    vida.</p>
                <p>Até a D. Restituta que era um poço sem fundo, desata a repetir os segredos de
                    toda a gente, fazendo gestos na obscuridade com o guarda-sol de paninho.</p>
                <p>— Acuso! Acuso! Acuso!</p>
                <p>Tocou-lhe também a vez. Usou-se a obedecer, a dizer a toda a gente que sim. Hoje
                    uma gota de fel, amanhã outro resto amargo. Já não sabe dizer senão que sim, já
                    não consegue apagar as dedadas que lhe imprimiram. Coçada, coçada, coçada. Fez
                    as vontades à D. Procópia, à D. Felizarda, à D. Hermínia. Sujeitou-se às vontade
                    do conselheiro Pimenta, quando por desfastio lhe fez um filho. Orgulho? Ninguém
                    tolera, ninguém concebe, que a Restituta tenha orgulho; ninguém tolera, ninguém
                    concebe que a Restituta tenha vontade. Habituou-se, apelintrou-se. A Restituta é
                    um reflexo. Diz-se tudo diante dela. Há famílias separadas por ódios seculares:
                    só ela entra e saí nessas casas quando precisam comunicar. Naquela alma
                    incutiu-se até profundidades desconhecidas o respeito às pessoas ricas, a
                    consideração às pessoas importantes. Que tem a Restituta que desata aos
                    gritos:</p>
                <p>— Acuso! Acuso! Acuso!</p>
                <p>Debalde lhe tapam a boca. É um vómito, um chorrilho de palavras precipitadas — a
                    vida de toda a gente — são os despejos entornados. Em vão dez, vinte mãos
                    ansiosas se lhe agarram às goelas abertas: aquilo sai num jorro impetuoso — tudo
                    quanto estava recalcado, todos os segredos que ouviu, todas as misérias que lhe
                    deitaram para dentro, e, se pára um momento, é para tresvariar num riso feito de
                    todos os risos postiços, num esgar feito de todos os mil e um esgares que
                    acumulou durante a vida. — Eu também tenho um filho! Eu também tenho um filho
                    como vocês? — empurram-na, escorraçam-na, e ela agarrada ao guarda-chuva ainda
                    brada:</p>
                <p>— Acuso!</p>
                <p>A vida irrompe, o sonho irrompe como hastes de cactos, nascidas de um dia para o
                    outro com escorrências nas extremidades ridículas e pueris. Arredei sempre isto
                    — isto que estava ao lado da vida. Nunca quis ver isto, fingi sempre que isto
                    não existia. Também tu o arredaste... E isto existe. E isto é enorme. O que ai
                    está fede. Tresanda. Suas viscosidades. Apega-se. É uma marcha furiosa e
                    desordenada. É a Vida. São todas as ânsias soterradas que se não chegaram a
                    exprimir. É um inferno de gritos e de impulsos, sonhos impossíveis de sonhar,
                    aquecidos a bafo e ternura, sem forma nem cor, ou admiráveis sonhos de tragédia.
                    Mais um passo e tudo que estava recalcado, tudo que estava morto e sepultado,
                    toda a podridão, todo o desejo encarniçado e oculto, toda a mistela que luta às
                    cegas na escuridão para vir à superfície, desata a falar à toa. Mais um passo e
                    o sonho é realidade. Fala a infâmia e o grotesco, fala a candura ao mesmo
                    tempo.</p>
                <p>O maior drama é o das consciências. O maior drama é arredar todos os trapos da
                    vida, para poder olhar a vida cara a cara. O maior drama é ficar só com o vácuo
                    e em frente ao espanto. É dizer: nada disto existe. Só dou no meio deste
                    assombro com uma coisa desconexa e abjeta, a discutir comigo mesmo, levada por
                    impulsos. O maior drama é não encontrar razão para isto que vive de gritos e se
                    sustenta de gritos — e ter de arcar com isto. Perceber a inutilidade de todos os
                    esforços e fazer todos os dias o mesmo esforço.</p>
                <p>«Se Deus não existe... O pior de tudo é que eu digo e afirmo — Deus não existe! —
                    mas na realidade não sei se Deus existe ou não. Não há nada que o prove — ou que
                    prove o contrário. O pior de tudo é que eu sinto uma sombra por trás de mim e
                    não sei por que nome lhe hei de chamar. O pior que podia acontecer no mundo foi
                    alguém pôr esta ideia a caminho.</p>
                <p>Mas mesmo que Deus não exista, tenho medo de mim mesmo, tenho medo da minha alma,
                    tenho medo de me encontrar sós a sós com a minha alma, que é nada, o fim e o
                    princípio da vida e a razão do meu ser. Mesmo que Deus não exista e a
                    consciência seja uma palavra, há ainda outra coisa indefinida e imensa diante de
                    mim, ao pé de mim, dentro de mim.</p>
                <p>Vem a noite e com a noite interrogo-me: — Existe? — O que existe é monstruoso.
                    Não ouve os nossos gritos, O que existe é o espanto. O que existe reclama dor.
                    Sustenta-se de dor e não dá por ela.</p>
                <p>O que existe então é isto — é um ulular de dor na noite — no turbilhão, no
                    escuro. O que existe são gritos, e eu sou levado, arrastado nesta mistificação.
                    Por trás de mim há uma coisa que me apavora, por trás de mim há uma coisa cada
                    vez mais sôfrega, cada vez mais frenética — e que de cada vez exige mais dor.
                    Espera: a harmonia não existe — existe a dor; a beleza não existe — existe a
                    dor; Deus não existe — existe a dor. E há um momento apenas para realizar a
                    vida. Nesse momento de paixão todas as forças se concentram e ponho o pé no
                    mistério. Tenho de aproveitá-lo.»</p>
                <p>Ao Santo só lhe resta orgulho. O sonho descarna-o e deixa-lhe orgulho. Debalde
                    prega, debalde luta consigo mesmo. — Eu já não creio no inferno. — E detém-se
                    com espanto diante dos destroços, das fórmulas, da insignificância, dos
                    simulacros que foram a razão da sua vida. Tudo que lhe enchia o mundo não
                    existe, tudo que não existia lhe parece maior: — Eu quero crer! Eu quero crer e
                    não posso crer! — Debalde insiste consigo mesmo: — Nossa vida aqui é nada, nossa
                    vida eterna é tudo. Nosso destino é a morte. Só assim posso explicar o universo,
                    só assim posso compreender o universo. — Tudo o que se tinha apoderado do seu
                    ser até às mais íntimas raízes, tudo o despedaça até às mais recônditas raízes.
                    Dilacera-o. — Não me atrevo sequer a olhar a vida, a olhar para mim, a olhar o
                    pélago desordenado. Eu quero ver e não ouso! Eu quero crer e sinto-me pequeno e
                    grotesco ao lado disto! Desta coisa monstruosa que não posso arredar. Não posso
                    arredá-la. — Para ti também o problema é insolúvel, D. Leocádia, que ressurges
                    com o vestido coçado, mais seca e mais verde. — Tu viveste sempre para Deus e
                    para o inferno e nem sequer o inferno existe. E tu procedeste sempre segundo a
                    tua consciência, regulaste tudo conforme a tua consciência — e tu e tu — e aí
                    estais ambos atónitos e verdes, ressequidos e verdes, desesperados e verdes, sós
                    a sós em frente de uma figura que vos não larga.</p>
                <p>— Trouxe-a para casa, sustentei-a, mas nunca a pude ver. — Deste-lhe côdeas mas
                    não pudeste amá-la. Sustentaste-a por caridade, sustentaste-a de restos para
                    calares uma voz tremenda. Ela foi pior que uma criada, foi uma criada que se não
                    pode despedir, presa pela gratidão. — Fala claro, fala alto. Atreve-te. —
                    Atrevo-me. Toda a minha vida fiz o sacrifício de a manter, toda a minha vida por
                    caridade a tive junto de mim, calada e subalterna, amachucada e sem vontade,
                    para cumprir perante Deus o meu dever. E agora a consciência exige de mim?... —
                    Exige. — Exige de mim, porque o meu filho lhe fez um filho, que o case com a
                    órfã, sustentada de esmolas, calada e viscosa? — Exige. — Por quem eu só sinto
                    repulsão? — Exige, e o pior de tudo é que lhe deste restos, mas não pudeste
                    amá-la.</p>
                <p>Torce-te, torce-te mais ainda. A cada camada de verde pega-se-te logo outra
                    camada de sonho. A D. Leocádia coçada e seca sacode em vão e arreda outra D.
                    Leocádia inteiriça e coçada, e o Santo está aqui só e o pecado, só e Deus, só e
                    o desespero.</p>
                <p>«Deus existe — ou Deus não existe. Se Deus existe, se tenho a certeza que Deus
                    existe e se interessa pela minha dor, esta vida transitória é um único minuto
                    com a eternidade à minha espera. Tudo me parece fácil. Que exige o meu Deus? Que
                    me reduza a pó e despreze a aparência? Tudo é vão diante da eternidade que me
                    espera. O meu Deus enche o mundo. Só O meu Deus existe, e todo o resto no
                    universo é tão pequeno e tão fútil, que reclamo mais dor, mais sofrimento, mais
                    fome. Que a desgraça caia sobre mim com todo o peso da desgraça; que a dor me
                    descarne até à medula. Desprezo a dor. Exijo-a diante da eternidade. Sou capaz
                    de andar de rastro com a boca no pó, sou capaz de sofrer todos os tormentos, com
                    a certeza de que me livro de uma eternidade de angústias para ver Deus. Venham
                    todos os escárnios, todos os gritos, todos os suores da agonia — venha meu Deus
                    a cruz! Até à morte hei de crer no que creio. Sem crer não sou nada — sem crer
                    não existo — , sem crer não compreendo a vida. Preciso de caminhar para um
                    destino. Crer é uma necessidade absoluta, um sentimento primário, a própria
                    vida, sua razão e seu fim. Tenho necessidade de Deus, como do ar que respiro.
                    Sem ele a vida é desconexa o atroz; pior, é monstruosa. Creio porque creio. Se a
                    vida se reduzisse só a isto, a vida seria abjeta. Dentro em mim tudo me fala
                    numa lei, numa lógica, numa razão de ser, num sentido. Eu vejo Deus, eu sinto
                    Deus.</p>
                <p>Mas se Deus não existe — se Deus não existe que me fica no mundo? Sou nada no
                    infinito. Fui tudo — e sou nada. Leva-me a força bruta. Sou o acaso na
                    mistificação. Sou menos que nada no monstruoso impulso. Se Deus não existe tanto
                    faz gritar como não gritar. Não tenho destino a cumprir: saio do nada para o
                    nada. Nas mãos da força bruta que sou eu no mundo que grito, que discuto, que
                    clamo?... Atrás deste infinito vivo, há outro infinito vivo. Atrás desta
                    impenetrabilidade, há outra camada de impenetrabilidade, outra vida ainda, outro
                    desespero sôfrego. Não encontro aqui lugar para Deus que me ouça, que me atenda,
                    ou que saiba sequer que existo.</p>
                <p>Os gritos são inúteis, tu não me ouves. Estou só neste absurdo que me impele e
                    esmaga... Que não houvesse o céu, que houvesse o inferno! Só o inferno! E nem o
                    inferno existe!...</p>
                <p>Mas então que existe na noite imensa, na noite ignóbil? Tudo o que exista é pior
                    que Deus. Tudo o que existe me faz horror, tudo o que existe entre as forças
                    desordenadas me causa espanto... E por mais que grite, por mais que proteste,
                    estou aqui diante do incompreensível, vivo no nada, de pé na voragem. E para lá
                    há uma coisa infinita, um negrume infinito, uma vida infinita. É imenso — é
                    inútil. Sou menos que nada. Só deparo na minha frente com infinito sobre
                    infinito, com o negrume sufocado, com o negrume impassível, com o negrume vivo e
                    imenso, desesperado e imenso. Só contei contigo meu Deus — e agora quero crer e
                    não posso crer. Estou aqui defronte do espanto e sinto-me perdido na vastidão
                    infinita. Tudo o que disse — disse-o diante do vácuo, tudo o que sofri — sofri-o
                    diante do vácuo, todo o meu desespero, a minha dor, a renúncia, os esforços, o
                    calvário — diante do vácuo! »</p>
                <p>D. Leocádia esta figura também te não larga. Ouve-la diante de ti, ao pé de ti,
                    dentro de ti, cada vez mais coçada e mais verde, com outra camada de sonho e
                    outra camada de verde:</p>
                <p>— O dever? Que dever? Antes a deixasses morrer de fome.</p>
                <p>— Mantive-a para cumprir o meu dever.</p>
                <p>Olha, se podes, para ti, olha para dentro de ti, olha mais fundo para ti.</p>
                <p>— Matei-lhe a fome.</p>
                <p>— Mataste-lhe a fome mas não pudeste amá-la.</p>
                <p>— Nem posso! Nem posso! Nem posso!</p>
                <p>E encara-se mais atónita e mais verde, mais resoluta e mais verde, sem desviar o
                    olhar.</p>
                <milestone rend="asterisks" unit="section"/>
                <ab type="dateline">30 de Janeiro</ab>
                <p>Aqui tens tu a minha consciência, aqui tens tu a tua consciência, e aqui está a
                    consciência da D. Penarícia. E tanto vale para o caso o génio em frente da
                    consciência, como o ridículo em frente da consciência. — Valeu a pena não matar?
                    — pergunto — perguntas — perguntam. Aqui estou em frente disto, com um segundo e
                    todo o seu esplendor e todo o seu espanto e todo o seu desespero, e pergunto,
                    perguntas, perguntam, se o que se chama a honra e o que se chama a consciência e
                    o que se chama o dever, têm forças para se me impor. Oh palavras não! A pergunta
                    não é como as outras para ser iludida com subterfúgios. É a única que carece de
                    resposta imediata como um punhal que vai direito ao coração. Vê tu que, apesar
                    de trémulo, estou calmo... O problema é capital. Pergunto se toda a luta foi
                    inútil, se todo o fogo do inferno que recalquei, foi inútil? Pergunto,
                    perguntas, perguntam se as horas para nos contermos foram uma estúpida
                    mistificação. E as bocas remoem em seco no escuro, e as mãos sôfregas palpam os
                    vestidos de cerimónia. Estão decididas a tudo. Vem-lhes à supuração o antigo fel
                    e vinagre, os pequenos desesperos, e os grandes desesperos. Tudo está vivo. Cada
                    ser formula uma interrogação. Segue-se que se os pais teimam em viver,
                    transtornam todos os planos, todas as regras e todos os preconceitos
                    estabelecidos. Segue-se que acima de teu direito está o meu direito. Segue-se
                    que a construção antiga desabou, e a um mundo novo correspondem criaturas novas.
                    Segue-se que todos os problemas se reduzem a um só problema — o dos mortos.
                    Segue-se que o muro é uma insignificância. Tapa o céu e a terra, não existe
                    montanha de tanta espessura — é uma teia de aranha. Soa a hora da outra coisa
                    disforme o aluir para sempre. Por trás do muro é que está a paixão, o crime, o
                    desespero e a vida esplêndida e feroz.</p>
                <p>É preciso deitá-lo abaixo. Os túmulos estão gastos de um lado pelos passos dos
                    vivos e do outro pelo esforço dos mortos.</p>
            </div>
            <div>
                <head>Capítulo VII</head>
                <head>PRIMAVERA ETERNA</head>
                <ab type="dateline">1 de Fevereiro</ab>
                <p>Chega Fevereiro. Primavera. Dá logo rebate o tojo bravio. A aspereza é a primeira
                    a senti-la.</p>
                <p>O tempo está fúnebre. Ouço o ruído calamitoso das águas. Só os botões dos
                    salgueiros estalaram. Nos galhos despidos entreabrem-se flocos friorentos e
                    peludos.</p>
                <p>Corre um vento glacial e as árvores encolheram-se transidas. Mas nesta frialdade
                    sinto já ternura.</p>
                <p>O ar de Fevereiro é outro: é morno. As rãs, de barriga no lodo, coaxam de
                    satisfação, pegajosas e moles como a erva verde e húmida. E, de um dia para o
                    outro, crescem à tona da poça azul, encastoada na terra negra, fios de erva a
                    reluzir. Tinta entornada.</p>
                <p>O ar sabe bem: sabe a bravio.</p>
                <p>Ao longe o sol trespassa os montes. Manhã de névoa e oiro gelado. Uma árvore nova
                    cobre-se entontecida da primeira flor. Apressou-se, enganou-se... E uma haste de
                    pele luzidia, três raminhos abertos no azul. E isto envolto em ternura, tanto
                    faz que se trate de uma árvore como de uma rapariga.</p>
                <p>Sente-se nesta atmosfera húmida a seiva inchar os botões túmidos das árvores.
                    Volta a chuva gelada: a primavera tenta, vem com hesitações.</p>
                <p>Muda o cenário. Acinzentam-se os montes por onde sobem arrasto pelas pedras rolos
                    de fumarada. Acastelam-se no céu as grandes nuvens esponjosas. Chove. A voz é
                    outra. De onde a onde descerra-se a cortina vaporosa e emergem os montes brutos
                    e compactos.</p>
                <p>Nos abrunheiros bravos estalam os primeiros botões. E quanto mais bravos, mais
                    flor deitam. É uma prodigalidade.</p>
                <p>Noite. A escuridão, o silêncio, o esplêndido céu todo de ouro sobre a massa negra
                    dos montes. É isto e os gritos da moichela aos ais de aflição. Eis torna o
                    silêncio, e a alma sufoca de espanto... O pio triste dos sapos irrompe de
                    profundidades ignotas. E outra vez o silêncio, a noite imutável cheiinha de
                    estrelas — e sempre o mesmo fio de água, misturando ternura a este espetáculo de
                    assombro. É só isto, e a muralha disforme ao fundo, ainda pálida de luz.</p>
                <p>A primavera é um fenómeno elétrico.</p>
                <p>Primeira noite de luar e de loucura — chegou a primavera. Tudo deita flor. O tojo
                    quanto mais bravio mais flor deita. Há aqui um homem encolhido, que nunca saiu
                    do saguão, que nunca olhou para o céu — nem sabe que o céu existe — obstinado
                    sobre o Deve e Haver. Deita flor. Assim me aconteceu, com um tronco decepado que
                    meti de inverno no fundo de uma loja: na primavera seguinte, quando se abriu a
                    porta, tinham-lhe crescido ramos. Sentiu-a através dos muros e botou na
                    escuridão um simulacro de flor. Até que chega a vez à macieira anainha, até que
                    um bafo húmido-lilás turva e perturba... Noiva. Noiva a D. Úrsula, pergaminho e
                    escrúpulo, que fez da vida um pecado, e ao rés de cuja alma líquida se espalmam
                    flores venenosas. Primeira noite de luar — primeira noite de espanto. É a mesma
                    febre que devora as árvores, a mesma primavera que no quintal friorento
                    entontece as macieiras. Tinta branca, roxa, vermelha, floração estranha. O
                    respeitável Elias de Melo recusa reconhecer-se. Esgotaram-se-lhe de todo as
                    palavras. Assiste com uivos ao desmoronar da própria respeitabilidade. Aquela, a
                    Araújo que dava lições de piano, escanelada e tísica, entra num rodopio em todas
                    as casas: — Tenho-te inveja! Tenho-te inveja! — É um sonho vivo de extermínio.
                    As Sousas, remoçadas, de pluma diabólica no chapéu, arrastam caudas inverosímeis
                    e partem logo de manhã para a maledicência, como quem parte para a guerra.
                    Chegou a primavera. Deita flor a D. Leocádia, a D. Hermínia e a D. Procópia. Não
                    há árvore no monte que se não consuma do mesmo sonho.</p>
                <p>Primavera entontecida de gritos, rancores, e laivos esverdinhados. É a vila toda
                    feita sonho; são aspirações ridículas, restos trôpegos — mas sonho ainda, que
                    procura adaptar-se à vida. Para resistir forjaram a mentira, forjaram a mania,
                    forjaram a abjeção, e essas pequenas coisas sem existência chegaram a ter um
                    lugar mais importante que muitas outras a que chamamos reais... Agora vê tu como
                    a velha Eleutéria das Eleutérias, a velha da máxima e da regra, a velha do
                    assento e do método, a velha católica apostólica, romana, já atirou com o
                    chinelo de ourelo, num formidável pontapé, para lá da Ursa Maior. Sonham
                    acordadas e os olhos fixam-se-lhes desmesuradamente abertos. A D. Benilda vê
                    reduzida à última extremidade a D. Hermínia, vê-a reduzida a trapos, pedindo
                    misericórdia: — Tenho fome! Tenho fome! — Estimo muito. — E passa adiante
                    arrastando a imaginária cauda de veludo. Aqui está a D. Procópia, aqui está a
                    mulher da esfrega. Aqui estão alimentadas a mentira, tendo passado a vida no
                    testamento, na cortesia e na cólica; aqui está o topete, a filha para casar e as
                    faltas de dinheiro — aqui estão todas enrodilhadas de pavor, mas cheias de
                    decisão diante do céu e do inferno. Já abrem aquelas ventas. Aquilo cheira-lhes
                    a coisas proibidas, que passaram a vida a desejar e a temer. Aquilo cheira-lhe
                    ao suspeito e ao reles. Aquilo cheira-lhes bem. De pupilas dilatadas embebem-se
                    no sonho. Até as penas velhas se encrespam, até nos restos de xailes sem pêlo, o
                    pêlo se põe de pé. Tanto sonha a D. Perpétua, como a majestosa Teodora, cujo
                    sonho é um inferno cada vez maior, e que se não pode desenvencilhar do
                    inferno.</p>
                <p>Bastou um dia. De um dia para o outro os galhos mirrados entreabrem-se em flor.
                    Poeira azul, entontecimento, sonho... Entre a árvore, o céu e a terra há um
                    compromisso de ternura...</p>
                <p>Até as árvores estranhas, até as árvores só tronco, que metiam os ramos e a tinta
                    para o interior, bracejam à custa de gritos ramos e tinta, ramos desmedidos e
                    tinta para o lado de fora.</p>
                <p>Fisionomias de dor, fisionomias concentradas, fisionomias de desespero e paixão,
                    vão aparecendo sob cada fisionomia, e todos deparam com sentimentos e palavras
                    que nunca tinham encontrado. — Dez anos, vinte anos de galeras, deixa-me,
                    vai-te, some-te! — O homem rói dentro do homem: criam-se olhos que veem na
                    obscuridade. Começam a distinguir na massa confusa, no caos, nas dúvidas, e
                    descem a profundidades que não lhe estavam destinadas. Não é só o homem de um
                    momento, é uma série de figuras ainda por criar: é o homem do futuro.</p>
                <p>Mais braços na monstruosa árvore de sonho, mais braços que atingem o céu, mais
                    tinta forjada de desespero. A própria noite escorre pus doirado...</p>
                <p>E o doirado não cessa. Doira o luar e a inépcia, doira a tragédia e o ridículo...
                    Teçamos, teçamos todos a nossa teia... A minha prendo-a às árvores, ao céu e às
                    coisas eternas. Todos os sonhos que o Anacleto, as velhas, o Santo e os outros
                    tecem e criam, põem-se a caminho. É uma coisa equívoca. É uma coisa desgrenhada
                    e fétida. É um sonho reles; é um sonho feito de todos os sonhos; o sonho
                    lastimoso das velhas, o sonho que não chega a ser sonho, o resquício, a
                    aspiração ignóbil, onde boiam mortos informes, com laivos verdes, com tentáculos
                    esbranquiçados que se prolongam no escuro. Cada sonho tem a sua cor. Há-os
                    esplêndidos de luxúria. Há-os roxos. Há-os compactos. Há-os cor de cinza e
                    mortiços, donde cintilam faúlhas. Há-os que incham e trasbordam, e que cheiram a
                    saque, ao que não é permitido, e que está para lá de toda a convicção e de toda
                    a regra. Há-os ridículos e ineptos — há-os que vaiem um império. A alma sórdida,
                    o fluido que envolvia a vila, a atmosfera parda, feita de pequenos ódios, de
                    pequenos interesses e de hábitos concentrados, encrespa-se e cresce em vagalhões
                    magnéticos. Modifica todos os seres e abala as paredes mestras. Embebe-se no
                    salitre e rói os santos nos seus nichos: até na imobilidade entranha desespero.
                    Quedam-se estonteados e transidos como se a vida fosse uma mera criação do luar
                    e da loucura... A alma da vila é sacudida por uma tempestade de espanto. A
                    botica está deserta, com o bocal, o pássaro empalhado, as moscas mortas. É uma
                    vila de guerra: só se ouvem gritos.</p>
                <p>Prá frente! Prá frente! É a senha dos que se esmagam contra o muro, da multidão
                    que se acumula, no mesmo esforço, contra o muro. Prá a frente! E enquanto uns
                    libertos seguem, há ainda outros que se quedam na vida anterior. O muro
                    alaga-se: alguns são despedaçados, e os que ficam atrás empurram-nos e
                    calcam-nos. Todas as fibras estalam.</p>
                <p>Enfim! Enfim! A vila saiu para a rua. A baía. Uns discutem com o seu sonho tu cá,
                    tu lá como se o tivessem vivo diante de si; outros quedam-se passados de terror.
                    E gritam: — Tenho-lhe medo! Tenho-lhe medo! — A mentira é um hábito de tal
                    maneira entranhado, que muitas vezes me surpreendo a mentir sem saber porquê nem
                    para quê. Por vaidade, por necessidade de sonho, por mentir. Agora desatam aos
                    gritos como se lhes arrancassem a pele. Não há já ninguém que se aborreça, não
                    há ninguém que mate o tempo. A velha ideia do deboche encardida e secular,
                    calcada e recalcada, vai na frente deste e guia-o — e dela não arranca, não
                    pode, os olhos atónitos. Ninguém se importa com ninguém. A vila cautelosa perdeu
                    de todo a cautela. A minha vida pertence-me, que me importa a tua vida? Ouvem-se
                    na obscuridade gritos de terror, de alegria, de luxúria ou de cólera. As
                    Bacelares, que passavam a existência a fazer cortesias, nem sequer olham para o
                    lado. Toda a gente fala só. E o luar intolerável, o luar indiferente, derrete-se
                    sobre as ameias, sobre a catedral, sobre os santos imóveis nos seus nichos. Dão
                    horas, mas as horas acabaram. Coisa singular: esta gente só fala consigo mesma,
                    em monólogos roucos, desesperados, infindáveis. Os olhos da D. Fúfia ganham em
                    fixidez e concentração; a D. Hermínia começa uma tragédia, que dura uma noite
                    inteira com a mesma palavra obscena. Nesse momento pesado de angústia todas as
                    mãos se agitam no ar diante da outra coisa que no silêncio e na noite estende os
                    farrapos das asas cada vez mais disformes. Está sôfrega. Cresce, grita, avança
                    direita para nós. O que se pôs em marcha não vem de fora, mas de dentro de ti
                    mesmo, da mais cerrada das noites. Há muitas camadas de mortos. Há-as a léguas
                    de profundidade e até de lá sobem os gritos. O Homem é o mais profundo, o mais
                    vasto de todos os sepulcros.</p>
                <p>Os braços desmedidos da árvore sobem cada vez mais alto, e as raízes alastram até
                    ao fundo da terra.</p>
                <p>Que é feito da vila?... O lojista pacato sente-se rei, e olha de alto as duas ou
                    três rimas inúteis de fazenda. Atira com os óculos para um canto-vê melhor que
                    nunca. A mulher, os hábitos, o buraco onde recolhia à noite, e que lhe parecia
                    esplêndido, tudo se lhe afigura sórdido e mesquinho. Reparem na Adélia: marcha
                    para uns castiçais de prata, altos e maciços como torres. Atrevem-se, atrevem-se
                    a tudo. A nulidade vale tanto como o génio. Este idiota constrói com tão
                    absoluta certeza, que se impõe ao respeito. Lá vai o Anacleto, o Teles, o Pires
                    vegetariano, e as velhas da Ação Católica, enrodilhadas umas nas outras. Vem
                    tudo à praça. Prá frente! Prá frente!... Um momento angustioso não se ouve
                    rumor, depois um tumulto, um clamor, um ah! A vila toda grita: — Ei-lo! Aqui
                    está o meu sonho, aqui está como o trouxe toda a vida, escondido, dorido,
                    fruste, imenso ou humilde; aqui está a minha verdadeira figura — a figura do
                    Elias e a figura do Melambes; a velha num debate perpétuo, a velha e as suas
                    manias, o desespero e a Úrsula, o grotesco e o pó doirado que não sei de onde se
                    me pegou; aquilo de que te rias e eu me ria, e que todos nós escondíamos, cada
                    vez mais oculto, cada vez mais para dentro, como somíticos. Lá vão todos — e a
                    Engrácia resiste: morreu-lhe o filho em pequeno e todos os dias o sonhou mais
                    crescido. Talhou-o a sua vontade, grande, amado e poderoso, como quem talha um
                    império. Construiu-o dia a dia, noite a noite. Participar da nova vida — seria
                    matá-lo outra vez. Fecha os olhos, tapa os ouvidos. Empareda-se. — Mudez e
                    desespero, pedra e desespero, sonho e desespero, também outra velha tenta num
                    esforço de pesadelo, mexer só um dedo — um só — e imobiliza-se mais ainda... —
                    Os outros lá vão, açulados, num crescendo de desespero. Prá frente! Prá frente!
                    Já se não cabe no caminho: o muro voou em pedaços com farrapos de sangue. Lá vai
                    a Adélia, com o chapéu às três pancadas, lá vai um lojista que parece Napoleão
                    Bonaparte, e as Sousas, armadas de ponto em branco — lá vai o inferno de luxúria
                    e de egoísmo. Lá vai também a Joana: acabaram-se-lhe as frases que usava, e
                    aperta a boca para não falar. Outro ser desconhecido rompeu naquela carcaça.
                    Parece mais esfarrapada e maior... O muro não existe — derrubaram o muro.</p>
                <milestone rend="asterisks" unit="section"/>
                <ab type="dateline">20 de Fevereiro</ab>
                <p>Escuta... O clamor aumenta como se se pusessem a falar baixinho uns com os
                    outros, como se todos os mortos desde o início, acordando do sono eterno,
                    soltassem o mesmo ah! de espanto e se pusessem a falar baixinho. É o ruído
                    abafado de muitas vozes — de todos os gritos que se soltaram no mundo, de todos
                    os gritos represos. Desatam a falar as bocas confundidas. Fala toda a poeira,
                    fala a sombra desconforme, fala o pó desaparecido.</p>
                <p>Na frente uma aparência — a vida está na multidão que nos impele sem desamparar:
                    a vida está nos mortos. Massa atrás de massa, os mortos empurram os vivos.
                    Sente-se o esforço pertinaz e doloroso. Atrás destas mãos, outras mãos de
                    desespero; atrás destes olhos sem órbitas outros se esforçam para a luz. O pior
                    era o silêncio. Libera nos, Domine, de morte eterna! O esquecimento é que é a
                    morte definitiva, e por isso o esforço aumenta. Formam uma cadeia infinita, a
                    caminho para a vida e para a dor; a todo o momento nos falam e nos guiam, e toda
                    a sua ânsia é viverem depois que estão no sepulcro. A velha que saiu da
                    existência mirrada continua a trazer o menino ao colo. Outros caminham trôpegos,
                    sacudindo a terra que se lhes pegou aos ossos. Ei-los dispostos a sofrer por uma
                    nova ilusão. A vida foi um nada, impregnou-os para toda a eternidade: um
                    instante de luz bastou para lhes dar gosto à dor. O que eles tentam misturar as
                    suas lágrimas às nossas lágrimas! O que eles arfam para que a vida não perca a
                    continuidade, e para que o mesmo fluido que nos prende aos sepulcros — onde
                    estremecem — se não desligue da vida que ainda se não tornou visível! É que não
                    são só os mortos que mandam nos vivos, são também os vivos que mandam nos
                    mortos. E avançam, empurram-nos... Conservam no fundo do túmulo as manias da
                    outra existência. Esta velha aperta um trapo ao peito como um filho, com medo de
                    o perder. Alguns são infantis, com um pequenino ridículo, e um pequenino
                    interesse. A moça, mesmo na cova, dá um jeitinho tão lindo ao lenço! Este
                    conserva na concha da mão uma moeda de cobre, e a aquela, Maria Antonieta, René
                    reconhece-a mais uma vez por a ter visto sorrir nas Tulherias. Estendem as mãos
                    mirradas para se aquecerem ao nosso lume; guardam nos ouvidos pela eternidade os
                    ruídos vulgares — os mais belos — o das folhas caindo uma a uma, o da fonte que
                    corre e que nunca mais tornará a correr, o da voz que lhes falou na hora
                    extrema; guardam nas mãos o último contacto das mãos, e a réstia dourada deste
                    sol dourado ainda lhes reluz nos buracos das órbitas — num sopro de
                    poeira...</p>
                <p>Iniciam a mesma marcha da vila. Deitam-se ao mesmo tempo a caminho, e nesta noite
                    entranhada a primavera é eterna: ressuscitam todas as primaveras, as primaveras
                    sucessivas, as primeiras primaveras em que a ternura se confunde ainda com a
                    fealdade, em que a fealdade é já ternura — outras primaveras — outras, ouro,
                    verde, roxas, em que a tinta escorre do negrume e o negrume se converte em
                    tinta. Mais outras primaveras frenéticas — mais outras primaveras tímidas,
                    esplêndidas, frustes, violentas, delicadas — e mais outras que não chegaram a.
                    abrir, cobrem todos os mortos. E com isto o clamor intenso, o clamor em que se
                    repetem sempre as mesmas palavras pronunciadas sobre cada caixão: Liberta-nos,
                    Domine, de morte eterna. Os mortos é que estão vivos! Os mortos é que estão
                    vivos!</p>
                <milestone rend="asterisks" unit="section"/>
                <ab type="dateline">21 de Março</ab>
                <p>Chegou. Vai abrir a mais bela, a mais fecunda, a mais dourada de todas as
                    primaveras — a primavera eterna. Vai revolver a terra e cobrir os seres e as
                    coisas de flores por camadas ininterruptas e sucessivas, com todas as cores e
                    todos os entontecimentos, todas as infâmias e todas as tintas — com todos os
                    desesperos. Já as florestas putrefactas se puseram a caminho. É aqui que corre e
                    escorre o verde, o roxo e o lilás — os tons violentos e os tons apagados. Até as
                    árvores são sonhos. Atravessaram o inverno com sonho contido, com o sonho
                    humilde com que carregam há séculos. E até esses sonhos se transformaram em
                    realidade. Realiza-se enfim o milagre: as árvores chegam ao céu.</p>
            </div>
            <div>
                <head>Capítulo VIII</head>
                <head>A MULHER DA ESFREGA</head>
                <p>Do sonho que revolve o mundo cabe também uma parte à mulher da esfrega. Arrasta
                    tudo consigo. Cai o inverno dentro da primavera. Engrandece-a, espalma-lhe os
                    pés, esfarrapa-lhe os vestidos.</p>
                <p>Está aqui a figura — está aqui outra coisa. Muda de expressão, como se fosse
                    possível as lágrimas usarem por dentro as figuras humanas, como a chuva ou os
                    passos gastam a pedra. Aquilo dura um momento, transparece um minuto, mas esse
                    minuto chega. Logo à submissão e à humildade se mistura um nada de
                    entontecimento. Quase nada. Trouxe sempre consigo debaixo do xaile um resto de
                    sonho amargo. Remoeu-o transida de frio pela vida fora, quando fez recados,
                    aqueceu a água e rachou a lenha. É um nada e ampara-a. Atreve-se... Toda a gente
                    precisa de qualquer estonteamento para suportar a vida. Sonho gasto que andou
                    por todos os caminhos, com pés espalmados como a recoveira. Há sonhos humildes
                    que ninguém quer sonhar: servem à Joana que quando os usa os vira do avesso.</p>
                <p>Velha quer dizer experiência e secura, e a Joana não tem experiência nenhuma da
                    vida. Conserva a ternura intacta. Ninguém na ouve. Tem uma filha, nunca fala na
                    filha. Às vezes pousa em mim os olhos turvos:</p>
                <p>— O corpo pede-me terra.</p>
                <p>Ainda hoje não comeu senão uma côdea que lhe deram. Aproveita tudo. Anda sempre
                    absurda a fazer contas como um avaro. Os trapos são sempre os mesmos: seca-os no
                    corpo. O monólogo é sempre o mesmo com que enche a vida toda. E sempre a mesma
                    obstinação desconjuntada, como se as palavras gesticulassem para o lado de
                    dentro, e a mesma ideia que a persegue e que debalde repele. Seja o que for, a
                    Joana esconde-o muito fundo. As vezes fica suspensa e alheada. Mal pode arrastar
                    as pernas trôpegas. É pele, meia dúzia de ossos, um cangalho, que sente uma
                    absoluta necessidade de repouso, de terra para dormir. O frio é de morte.
                    Entranha-se-lhe até aos ossos, e a velha lá segue com o saquitel de broa e os
                    olhos turvos de tanto ter chorado. Vê sempre não sei quê que a não larga. — A
                    tua filha?... — E nunca fala da filha.</p>
                <p>Naquele desespero percebo uma palavra outra palavra. Sobre isto choro, sobre isto
                    lágrimas em barda, como se nascesse uma fonte na escuridão. A Joana chora
                    sempre, chora por tudo e por nada, chora por si e pelos outros. Não se sabe onde
                    vai buscar tantas lágrimas.</p>
                <p>A ternura é húmida.</p>
                <p>Não compreendo este ser. Viro-o, reviro-o. É um nada com duas ou três ideias no
                    caso. Cheira mal, cheira a aziumado. Passou a vida a aturar os doentes e a vida
                    repele-a. Apega-se e a vida acaba por fazer de Joana de unhas roídas, peles no
                    pescoço e olhos turvos, uma figura disforme. Irrita-me e prende-me. Sei como a
                    Joana se encortiça de um lado e se faz sensibilidade do outro. Posso dizer quase
                    dia a dia como as mãos se lhe deformam, como os olhos se lhe aguam, explicar
                    como a mulher da esfrega se parece com o pano da esfrega. Não sei explicar o
                    resto. Com este molho de ossos e alguns farrapos no corpo, há um fiozinho de
                    ouro a reluzir, um fio que teima em aparecer à tona e em se misturar à água de
                    lavar a louça. Anos, velhice, desgraça — e teima. Teima até ao caixão. Reluz
                    sempre. Tem o mundo contra si, a vastidão sôfrega, o rodilhão do universo em
                    perpétuo inferno. Resiste. Parece fácil de suprimir num sopro. Resiste a tudo,
                    esse pó necessário como o pólen à asa para voar. Um nada com a noite diante de
                    si, com a voragem diante de si. Tudo se gasta e desgasta — não o usam.</p>
                <p>Tenho passado noites em debate com este ser absurdo. Acabo pelo desespero.
                    Enfurece-me e apega-me ternura. Uma boca enorme que se fecha sem emitir
                    palavras, os mesmos olhos inocentes de pasmo, e um ronco que lhe vem dos
                    gorgomilos como do fundo de um fole. Mais nada. Sacudo-a — deita sempre a mesma
                    água. O mundo é uma voragem. Tanto faz. A vida e uma mistificação. Debalde.
                    Responde-me com ternura. Responde-me com uma vida humilde de desgraça e
                    lágrimas. E outra coisa exprime a figura: surpreendo através dos farrapos e do
                    ridículo, um nada imenso, uma força imensa que transmite outro nada: algumas
                    lágrimas para chorar, outro ventre para parir. Um poder de se perpetuar — para
                    gritos. Impelem-na — impele. Debalde a dor sua, a Joana caminha molhada e
                    trôpega, mas caminha. É inútil a desgraça agarrar-se-lhe. Mais funda porque é
                    muda como a noite. Faz parte da velha. Envolve-a, cresce, enrodilha-se-lhe. Sua.
                    Só geme: — Ah!... — Resiste à desgraça, resiste à vida, resiste ao ridículo. A
                    velha consegue ser maior que a desgraça. Nem toda a água de lavar a louça
                    suprime este facto.</p>
                <p>O meu desespero termina aqui diante desta criatura que não compreendo, de mãos
                    roídas e um xaile velho sobre o corpo mirrado de ternura. Estraga-me a vida
                    toda. Perturba-me a lógica. Mete-me medo. Tanto faz que a Joana viva ou morra,
                    que grite ou se cale: as mesmas estrelas no céu, a mesma grandeza absurda, o
                    mesmo mudo espanto. E no entanto nesta confusão esplêndida só a sua alma
                    comunica com a minha alma. A sua dor, a sua mentira é que importam à minha vida
                    e à tua vida. Negrume e um arranco: exaspero para manter de pé um resto de
                    ilusão. Mal se fecha abre os olhos atónitos. Não diz palavra. Por fim chora, as
                    lágrimas correm-lhe pelos sulcos das lágrimas e mistura-as ao pó de sonho com
                    que foi entretendo a vida, a pequeninas coisas gastas e puídas — ao sonho que
                    ninguém quer, ao sonho que ninguém usa, e que em todo o caso a sustenta e a
                    enleva, como as bonecas das crianças pobres, de trapo e com dois olhos abertos a
                    retrós, que se lhes afiguram rainhas.</p>
                <p>Há um mistério na vida de Joana, e no entanto na sua alma lê-se como através de
                    um vidro. Tudo nela será falso exceto a dor. Não sei, ninguém sabe o que tem.
                    Sinto que se obstina como se fosse de pedra e dentro houvesse outra Joana a dar
                    com a cabeça pelas paredes. Não ouço o que diz, nem sei o que sofre — mas a
                    desgraça sua naquele monólogo sem pés nem cabeça, a que não ligo sentido.
                    Debalde o sonho se encarniça. O sonho, que não cabe no mundo, cabe entre as
                    quatro paredes daquele caco e revolve-a. Fecha a boca como se tivesse medo de
                    falar. Não quer ver — e há de por força ver. Persiste em manter de pé o resto da
                    ilusão em que passou a vida, obstina-se o ciclone vivo em pô-la frente a frente
                    à desgraça. É sonho contra sonho. O que ela não quer é ver, e só ela sabe o que
                    não quer ver. Não pode com o peso desconforme que a torna grotesca e de todo se
                    assemelha agora à árvore do quintal. Mais sonho — mais flor. Abre uma boca
                    enorme, fecha-a sem emitir som. Mostra as mãos, aperta os gorgomilos e o sonho
                    arranca-lhe farrapos. Há de acabar por lhe extorquir a dor... Tudo está nos seus
                    lugares: as coisas simples e as coisas eternas, e há outra coisa que ela não
                    sabe exprimir, que a alma desta mulher não abrange: a intrusão do sonho na sua
                    vida humilde. Bronco e sonho. Até agora só com a desgraça arca, agora o dourado
                    tinge-a. Sacode-se como um cão molhado. Debalde tenta desfazer-se do sonho
                    imenso que se lhe pega: irrompe em palavras baixinhas, hesitantes, que voltam
                    atrás. Uma pausa e o monólogo recomeça logo. Há não sei quê de monstruoso no
                    mundo, que bebe todas as lágrimas e leva todos os gritos. E não se farta. Há não
                    sei quê que reclama dor. Toda a noite se desespera. A desgraça sua, a desgraça
                    trôpega e ridícula. A desgraça enche a noite de esgares. Depois o sonho
                    desgrenha-se. Depois sacode-a uma rajada, e lá torna, sem uma palavra, sem um
                    grito, a grande sombra que se envolve em si mesmo e a si mesmo se estorcega. A
                    desgraça sua de aflição sem poder exprimir-se. E quando a dor se concentra,
                    quando a dor se torce como quem torce um farrapo e a velha não pode — a velha
                    irrompe numa toada estúpida. Mais dourado, mais fundo... A desgraça está ali ao
                    pé, cada vez mais seca, e nem o sonho nem a desgraça conseguem arrancar-lhe
                    aquilo de vez para fora. — A minha filha... — Mas isso não basta! Não chega!
                    Mais dor, mais sonho: abre a boca cada vez maior e não tira outro som dos
                    gorgomilos. Só emite um ronco. A desgraça e o dourado tinge e entranha-se na
                    água de lavar a louça. Há de acabar por falar... Até agora por mais que faça
                    sai-me das mãos ridícula.</p>
                <p>— E vai eu disse-lhe... — E estaca, esfarrapada e atónita. Sacode-a o sonho com
                    desespero — Ah... — E como naquele caco espesso só há duas ou três ideias como
                    traves mestras, e ternura naquela alma obscurecida, não avança mais palavra. E a
                    desgraça sua e tressua. Grotesco, grotesco, e desespero neste grotesco, e dor
                    neste manequim desconjuntado, com um xaile a esvoaçar e a boca espremida. Anda
                    aqui um ser imenso que luta com um ser humilde e o amolga até à caricatura. Não
                    pode mais — e ainda aperta a boca... O que tu lhe fizeste, sonho! O que tu lhe
                    fizeste!... Tornaste-a disforme como a sombra de um bonifrate projetada sobre um
                    ecrã. — Criou aquilo a bafo, trouxe-o sempre comigo debaixo do xaile, com olhos
                    aguados e tal ar de aflição que parece tonta. — A minha filha... — e tu
                    arrasta-lho com um trapo por todos os esgotos. Debalde se debate: tem de
                    falar...</p>
                <p>— A minha filha casou rica, a minha filha tem uma sala de visitas (que é o que a
                    Joana mais admira no mundo) como a das outras senhoras. A minha filha... Não
                    posso! Não posso!</p>
                <p>E para não avançar mais a Joana ri-se de si própria. Quem a não soubesse capaz de
                    exagerar diria que exagera. Ajunta pormenores embaraçosos a essa história que se
                    parece com a mulher da esfrega pelos empurrões e pelos trapos. Repete-se,
                    hesita, volta ao princípio, sem termos para se exprimir. E atrás das palavras
                    sem ligação sente-se cada vez mais dor: o pano sujo da esfrega está embebido de
                    lágrimas.</p>
                <p>— Tenho uma tristeza metida em mim...</p>
                <p>A narrativa desconjunta-se: ganha em dor e em grotesco. Enche a boca, perde em
                    naturalidade, adquire em imponência. O tom carregado é de farsa com resíduos de
                    lágrimas. A desgraça ri-se da desgraça. Aumenta as cores de exagero, carrega o
                    traço, e a tinta engrossa:</p>
                <p>— A sala de visitas! A sala de visitas! — Representa com ademanes e mesuras
                    grotescas a sua entrada numa sala em passo medido de procissão, o súbito espanto
                    diante das molduras. Avança um passo, recua um passo. E aí surgem agora as
                    visitas da filha, umas atrás das outras com espalhafato. A Joana prolonga
                    demasiado a cena para as velhas se rirem — e tem os olhos arrasados de lágrimas.
                    Insiste, pára-lhe na boca o riso desdentado como se tivesse um nó no gorgomilo.
                    Teima, e desata a chorar diante dos móveis com berloques. — E vai eu
                    disse-lhe... — Reage e começa logo a rir. É um quadro estranho e sem realidade.
                    No fundo, a tintas que ressumam desespero, agitam-se figuras com penantes
                    desconformes e sedas amarelas. Primeira dama, segunda dama — e os chapéus, da
                    última moda, têm penachos dourados, os vestidos recortes de espanto, as mesuras
                    repetem-se num acesso. Terceira dama de cauda a rasto, outra dama como um
                    palhaço, cumprimentando para a direita e para a esquerda, e já nos longes
                    enfumados, irrompem, sempre com exagero e grotesco, outras damas de espavento —
                    da alta roda... E o ser esfarrapado mexe o crânio, para cima e para baixo, com
                    um sorriso à sobreposse. Postiço sobre postiço. Representa — e todas estas
                    figuras parecem sufocadas, todas estas figuras que ela cria ridículas, mal dão
                    dois passes, estão mortas por desatar aos gritos — todas estas damas
                    inverosímeis, atrás de damas de roxo, de seda, de amarelo e de verde, pariu-as o
                    grotesco com dor. A Joana imita as contumélias, olha em roda, e recebe-as pé
                    atrás pé adiante. E já o absurdo aumenta, a dor aumenta, quando outras damas de
                    farsa, com sedas salpicadas de todas as cores, se agitam de cá para lá na sala
                    de visitas, engrandecida e transformada na sua boca num salão dourado. Já outras
                    damas de cauda arrasto, outras damas de quico, outros manequins forjados pelo
                    sonho ressaltam com ademanes de caricatura. É o ponto em que as velhas gozam
                    sentadas à roda da Joana, em que a D. Felicidade exclama: — Ai que eu não posso
                    mais! Ai que eu até fico doente! Vem-me a sufeca. — Estão ali todas. Está a D.
                    Hermínia, e com a D. Hermínia um mundo de inveja paciente; a D. Penarícia, e com
                    a D. Penarícia uma alma onde repousam exaustos, como num vasto dormitório, todos
                    os despeitos de uma existência inútil; a D. Fúfia com os cabelos arrepiados, e
                    por trás da D. Fúfia as ruínas devastadas de Cartago. Está a mulher trôpega,
                    amachucada, com olhos aguados de cão. E com isto ridículo, e sobre esta tragédia
                    ridículo. O que a vida tão dolorosa tem de cómico é de fazer chorar!</p>
                <p>Já a história entra noutra fase. Tantas vezes se lhe tem perguntado, porque é que
                    a filha a deixa andar na esfrega, que a velha acrescenta pormenores embaraçosos.
                    A narrativa torna-se obscura, dolorosa, hesitante, como se fosse arrancada aos
                    pedaços de uma alma espezinhada. — E vai eu disse-lhe...</p>
                <p>— Hoje é que ela está que até parece o Taborda!</p>
                <p>Na realidade a Joana é insuportável. Repete sempre as mesmas coisas, depara-se
                    por todos os cantos como um trambolho. De noite, quando se pilha na enxerga,
                    cuido que mói ainda o mesmo sonho: — A esta hora lá está ela... A esta hora... —
                    A esta hora a minha filha... — E os olhos cerraram-se-lhe de êxtase, de dor ou
                    de espanto no sórdido buraco.</p>
                <p>Todas as noites a velha, quando sai da esfrega, dá uma grande volta no negrume,
                    alta, ossuda, molhada até aos ossos. Ninguém sabe onde a conduzem os passos
                    trôpegos, a falar só, a remoer o sonho que a sustenta e ampara. Por vezes palpa
                    um pilar de granito, por vezes debate com um ser misterioso, uma questão
                    insolúvel. Sigo a sombra esgalgada, que gesticula e reza. Pára numa ruela,
                    senta-se à porta de um casebre. Bate, não lhe respondem. Espera, e outra vez
                    timidamente se atreve a chamar... — De dentro sacodem-na palavras bruscas, e a
                    velha torna por o mesmo caminho encharcada até aos ossos... Esta casa não é como
                    as outras casas, esta sala não é como as outras salas, nem esta rua como as
                    outras ruas.</p>
                <milestone rend="asterisks" unit="section"/>
                <ab type="dateline">28 de Março</ab>
                <p>O sonho é um — a realidade é outra: a realidade é uma figura só dor. Remoeu
                    aquele sonho quando seguiu a filha pelas vielas. As mãos secas de desespero
                    tentaram em vão arrancá-la à desgraça. A filha desceu mais fundo, a Joana desceu
                    mais fundo. Deu-lhe a vida e suportou o escárnio. Andou nas mãos dos ladrões e
                    tem tal ar de aflição, que parece tonta. A desgraça pega-lhe pela mão e leva-a
                    mais fundo ainda: aperta-a de encontro ao peito descarnado... Não faz ideia
                    nítida da vida e da morte, nem daquela viela com mulheres. Atura a miséria e a
                    desgraça. Suporta os vestidos encharcados no corpo. Foi disto que ela fez sonho
                    — das noites de dor e do riso dos ladrões.</p>
                <p>— A usura da vida e a dor represa, engrandecem-na. Nunca se queixou. Escondeu de
                    todos a sorte da filha. Guardou aquilo para si, noite a noite, toda a vida.
                    Bronco e dor, uma carcaça e farrapos, e nos olhos não sei que expressão que a
                    faz mais baixinha: — Aqui estou para te servir. — Passou por tudo, e um resto de
                    ilusão bastou-lhe para poder viver. Sós a sós a figura tem uma expressão
                    descarnada e refletida.</p>
                <p>Nessa noite, à meia-noite, nasce o menino entre ladrões. Vem morto ao mundo. A
                    Joana pega-lhe a tremer com as mãos da esfrega e deita-o no xaile. Quatro
                    cabeças se curvam à luz do candeeiro de petróleo para verem o menino — três
                    cabeças de ladrões e a cabeça da velha.</p>
                <p>— O menino está vivo! — afirma a Joana.</p>
                <p>— É preciso enterrá-lo de caminho — diz o ladrão mais velho, encolhendo os
                    ombros. E juntam-se à porta falando baixo, enquanto a velha lhe aquece o corpo
                    pegajoso com o bafo. Dentro a mãe geme.</p>
                <p>— Vamos.</p>
                <p>Os gritos cessaram de todo.</p>
                <p>— Venha daí.</p>
                <p>E, tomando o braço de Joana, que achega a si o menino embrulhado no xaile,
                    levam-na para a rua. Vão adiante o ladrão e a velha. Caminham até um terreno de
                    construção, lama calcada e recalcada: ao fundo o pano de um muro e um resto de
                    árvore mutilada. Escolhem o sítio e o pai abre a cova com o alvião. Nenhum diz
                    palavra. Só a Joana aperta mais o menino de encontro ao seio murcho, como se
                    fosse possível aquecê-lo. Agasalha-o dando voltas ao xaile roto, e vai depois no
                    escuro palpar a terra encharcada. Tira-lho o pai para o meter na cova, e ela
                    ainda protesta:</p>
                <p>— O menino está vivo.</p>
                <p>Nenhum dos ladrões se ri. O que ela quer é outra vez criar. Está disposta a
                    recomeçar a vida, a deitar mais ternura, a tirá-lo à boca para o dar aos outros.
                    E Insiste:</p>
                <p>— O menino está vivo.</p>
                <p>— Vamos embora.</p>
                <p>Sacodem as mãos: só a Joana conserva nas mãos a terra da cova. Rodeiam-na três
                    sombras enormes e ela sente-lhes no escuro o bafo monstruoso.</p>
                <p>— O estafermo da velha rica está só. Tu podes abrir-nos a porta...</p>
                <p>— Roubar!</p>
                <p>E recua: avançam logo e não a largam as sombras que a envolvem.</p>
                <p>— Tu hás de abrir-nos por força a porta!</p>
                <p>— Deixem a velhota sozinha comigo, que nós dois entendemo-nos — intervém o ladrão
                    mais velho. E leva-a suspensa pelo braço corno quem leva uma pluma.</p>
                <p>— Tu abres-nos a porta. À velha deito-lhe esta mão ao gasganete e não dá nem pio.
                    Aperto no escuro — eeeh... — e sinto no escuro um estremeção e mais nada...</p>
                <p>— Jesus!</p>
                <p>— Ó pandorca! És um trapo! És pior que um trapo!</p>
                <p>Cobre-os o céu profundo, onde palpita uma vida intensa. Arqueia-se sobre a velha
                    e o ladrão de lés a lés a abóbada recurva. Ao longe seguem-nos sempre as duas
                    sombras temerosas.</p>
                <p>— Estúpida! Estúpida! Passaste a vida a servir os estafermos. Aproveitaram-te e
                    deitam-te fora. Só te deram restos, enquanto se enchiam até aos gorgomilos. E tu
                    apegaste e tu defende-los!... Pela madrugada bato com os nós dos dedos à porta e
                    tu abres-me devagarinho a porta...</p>
                <p>— Jesus Cristo veio ao mundo para nos salvar!</p>
                <p>— Isso! Até me metes nojo! Isso! Até me fazes rir! Só tu, calhordas, eras capaz
                    de me fazer rir nesta hora aziaga. Pilhasse-te eu no meu tempo!... E aperta-lhe
                    o braço contra o peito, leva ao ar aquele molho de ossos e ri-se com escárnio. —
                    Tu lavas, tu esfregas, tu comes os restos, tu até cheiras mal! Tu metes-me nojo.
                    E hesitas... Que se te pede? Que nos abras a porta e mais nada. Só há uma
                    ocasião na vida, toca a aproveitá-la... Se nos abres a porta ficamos todos
                    ricos. — Abraça-a. Vomita uma risada. Pior que matá-la, enlameia-a. Aquilo vem
                    do fundo da terra, vem do boqueirão da noite e traz escárnio pegado. Sobre isto
                    chove: parece que toda a lama fétida da terra subiu ao céu para tornar a cair. A
                    Joana geme. Uma risada e um gemido que se amalgamam, gemido que se extingue para
                    depois subir mais alto, para se confundir com a risada. E a noite é pó de
                    desgraça, cada vez mais moído e mais negro.</p>
                <p>— Não te cabe nesse caco que foste sempre explorada e que ninguém teve pena de
                    ti. Escuta o que te digo. Rouba-a, estúpida! Rouba-a! Na cadeia também se come
                    pão. Ao menos lá enches essa barriga. Abres-me devagarinho a porta...</p>
                <p>— O que havia de dizer a minha senhora!</p>
                <p>— Ninguém no sabe. E ouve: se não nos abres a porta, a tua filha...</p>
                <p>— Senhor ladrão, vossa senhoria... Assim Deus me ajude... Como a terra está
                    fria!</p>
                <p>— Que me importa a terra! O que nos importa é o dinheiro do estafermo. Ouve!
                    Ouve! Ouve! Ela é rica, tu és pobre...</p>
                <p>— O Senhor fez os pobres para servirem os ricos, e os ricos para ajudarem os
                    pobres...</p>
                <p>— A minha vontade era esganar-te... Por tua filha! Se não nos abres a porta ele
                    estorcega-a. A tua filha é menos que nada nas mãos dele...</p>
                <p>— A minha filha... Vossemecê, senhor ladrão, também teve uma filha, que eu
                    sei...</p>
                <p>— Cala-te! Esta noite é por força noite de desgraça. Tive uma filha e não lhe
                    pude valer. Vi-a morrer com os olhos enxutos. Morreu tísica, morreu-me à fome e
                    não lhe pude valer! Fiz-me depois ladrão. Deixemos os mortos... Uma madrugada
                    fui de prego em prego. Tinha despido o casaco para o pôr no prego. À porta de um
                    estava um cavalo à carroça, com a cabeça metida numa seira, a comer. O que eu
                    invejei aquele cavalo! Morreu-me. Foi nesse dia que me fiz ladrão.</p>
                <p>— A sua filha morreu-me nos braços...</p>
                <p>— Tu não te calarás! Esta noite já me não serve. É noite de desgraça. Vai-te pró
                    diabo!</p>
                <p>Repele-a, e ao pôr-lhe a mão no ombro, repara que só traz a camisa extreme sobre
                    o corpo.</p>
                <p>— O xaile? Que é do xaile?</p>
                <p>— O xaile dei-o ao menino.</p>
                <p>— Fizeste-la bonita!</p>
                <p>Tal é a figura esfarrapada. Maior. Maior pela desgraça e pela mentira. A Joana,
                    quando faz rir as velhas de cuia postiça, mente. Tem duas existências, uma
                    vulgar, outra oculta. Lava as escadas, calada e submissa: à noite vive com os
                    ladrões e as mulheres das vielas. E mente. Mentiu sempre. Mentiu enquanto pôde.
                    Mentiu a si e aos outros. Fez da dor mentira e da mentira sonho. Quanto mais
                    desgraça, mais exagero e mais grotesca a sala de visitas — maior a sala de
                    visitas — mais dourada a sala de visitas. A Joana não se atreve a sonhar a
                    felicidade: contenta-se em sonhar a desgraça, e não lhe tira os olhos de cima,
                    para não ver outra desgraça maior. Ilude-se. E debate-se numa cogitação profunda
                    como a noite. Toda a noite lhe parece negra. É como se pela primeira vez desse
                    com a vida. Deita as mãos, não encontra a que se apegue, e faz gestos para
                    repelir o negrume. Remói coisas que não percebe bem, que se lhe confundem na
                    alma e que traduz em palavras descosidas e sem significação. De vez em quando
                    pára, com os olhos fixos, e diz uma frase fora de propósito, a cismar com
                    obstinação noutra coisa:</p>
                <p>— Casa de mulheres, casa de ladras.</p>
                <p>Ou monologa parada a um canto:</p>
                <p>— O Senhor lá sabe por que a gente anda neste mundo e para que se criam estas
                    coisas... Estas coisas... E abre os olhos espantados. — Tudo está escrito no
                    livro do futuro... Sempre ele há gente muito boa neste mundo! É o que vale à
                    pobreza. Depois um salto dentro dela: — Onze, não, doze vinténs é que são.
                    Quatro vinténs do baú que levei à cabeça, seis vinténs da esfrega... E conta
                    pelos dedos: — Seis, sete, nove vinténs... Depois aquilo remexe, vai ao fundo do
                    fundo: — A desgraça não nasceu comigo nem há de morrer comigo. Ou explode num
                    grito de quem não pode mais: — Não posso com este peso, com esta desgraça, com
                    esta desgraça sobre esta desgraça, e com isto!... A dor que a gente cria aos
                    seus peitos! E ainda por cima isto!</p>
                <p>Depois cala-se. É pior. Fica confundida e atónita, como um cavalo prostrado, que
                    não sabe porque sofre e mantém os olhos abertos — ridícula diante da desgraça e
                    diante do assombro. Cala-se e outro ser imenso começa a falar dentro dela. É um
                    debate ao mesmo tempo fútil e cheio de grandeza, que não posso fixar, mesquinho
                    pelas palavras que emprega e grande pelo sentimento que o reveste. É uma coisa
                    triste, uma coisa dolorosa, uma coisa desconexa, feita de nadas, de gritos, de
                    mudez. A Joana fala com o Sonho tu cá tu lá e atira-se ao Sonho. E quando enfim
                    o espanto se acumula sobre ela, a Joana dispõe-se a arrancar-lhe farrapos.
                    Misturem a isto a dor, misturem a isto ridículo, porque a Joana revolve tudo,
                    frases, sentenças, palavras que lhe acodem e que não formam sentido — vêm de
                    muito longe... — lágrimas, sonho, e ranho. Assoa-se ao avental.</p>
                <p>— Eu não sei dizer! Eu não sei dizer!...</p>
                <p>E sem falar à sombra que a não larga, a velha gesticula para o escuro: a desgraça
                    tapou-lhe a boca, meteu-lhe outra vez a boca para dentro. Avança com as mãos
                    abertas. A noite é imensa. Cabem na noite os mundos infinitos, mas só me
                    interessa a alma de Joana. Quer compreender e não pode. Pior: o sonho humilde já
                    lhe não é possível. Parece perdida, tão inútil no mundo! A ternura não lhe
                    serviu de nada. E há outra coisa em que é preciso insistir: não sabe porque
                    sofre, não lhe cabem lã dentro a desgraça e a explicação da desgraça. Outra vez
                    recorre à perlenga com que amortece a dor: — A sala... A outra sala... Mas na
                    sala disforme só se vomitam injúrias e as bocas transformam-se em bocarras
                    monstruosas, que a Joana não consegue tapar. O negrume é cada vez mais compacto
                    e o esforço da velha cada vez maior. Quanto mais negra é a sala, mais a Joana a
                    doura. Aumenta-a, e agitam-se as visitas em delírio: quem as recebe de pé a
                    fazer cortesias de espalhafato é a própria desgraça vestida de amarelo. As
                    cadeiras tomam outra expressão, agitam-se os cacos, os berloques fazem parte da
                    sua alma, o dourado reles dos móveis apega-se à noite espessa. Estes cacos são
                    expressões de dor e é a desgraça quem os arruma.</p>
                <p>A noite irrita-me com a sua imobilidade imperturbável, e ao lado este ser que só
                    tem uma forma grotesca de exprimir o que sofre. Esta sala com um gato bordado a
                    retrós interessa-me muito mais que a noite negra, a noite funda. A noite é
                    inútil.</p>
            </div>
            <div>
                <head>Capítulo IX</head>
                <head>PAPÉIS DO GABIRU</head>
                <p>Ela foi uma flor que se aspira e se deita fora — quase sem reparar — cismando na
                    imortalidade da alma.</p>
                <p>Se eu pudesse cinematografar a vida e a morte de uma flor, cinematografava a sua
                    vida. Não sei dizer se existiu se a criei, e o que na realidade me interessa é o
                    que ela disse à grande nódoa de humidade da parede.</p>
                <p>Sei que chorou mas não a ouvi chorar. Ninguém a ouviu, ninguém deu por ela.
                    Passou como uma sombra. Habituou-se. As lágrimas sumiu-as, meteu-as para dentro.
                    A dor aprendeu a contê-la. Habituou-se a queixar-se à grande nódoa de humidade
                    da parede.</p>
                <p>Entre mim e ela interpôs-se o sonho.</p>
                <p>A ternura também cansa. Deixem-me! Deixem-me sonhar!</p>
                <p>O principal para mim foi a queixa que ninguém ouviu no mundo; foi o que os seus
                    olhos verdes de espanto decifraram naquele arabesco da parede. Podes por ventura
                    conceber isto? Uma dor que não deixa vestígio, um sonho ignorado que não deixa
                    vestígio, que passa no mundo e não deixa vestígios — a dor despercebida, as
                    lágrimas contidas que se não chegam a chorar?</p>
                <p>Não valia nada, o que vale um pássaro, e em questões afetivas, em ternura, tinha
                    a profundidade do mundo — a do silêncio — a do sonho.</p>
                <p>Tanto se queixou baixinho que morreu de frio!</p>
                <p>Deito-me debalde aos encontrões à noite. Nem um grito. Os remorsos são inúteis.
                    Um passo na vida é sempre irremediável: não há forças humanas que o possam
                    apagar.</p>
                <milestone rend="asterisks" unit="section"/>
                <ab type="dateline">25 de Abril</ab>
                <p>A vida tem dois períodos: o do entontecimento, o da saudade. Não sei qual é
                    melhor. Talvez aquele em que se ouvem já os passos da morte, mais perto! Mais
                    perto! O frio da morte dá à vida um encanto superior e um prestígio maior.</p>
                <p>Deixem-me! Deixem-me! Deixem-me só com isto, deixem-me viver para isto. Deixem-me
                    fechado a sete chaves com o sonho que me enche de ridículo, que não existe e é a
                    razão da minha vida. Deixem-me ir para a cova agarrado a este nada imenso, que
                    me dourou as mãos e me deixou atónito. Só no fundo da cova é que estou bem, sós
                    a sós, fechado com ele para sempre.</p>
                <p>Se o sentimento de beleza é a única coisa humana que não nos engana — se só a
                    isto ficamos reduzidos — como não prever outra beleza maior?</p>
                <p>De sobressalto em sobressalto, de assombro em assombro, de vulgaridade em
                    vulgaridade e de contradição em contradição, assim vim até ao fim. Não consigo
                    desprender-me de um, nem libertar-me do outro.</p>
                <p>Atrás deste assombro há outro assombro — e depois outro assombro ainda.</p>
                <p>Qual é a minha experiência da vida? Nenhuma. Qual é a lei que extrais da vida?
                    Nenhuma. Só o espanto. Só uma coisa cada vez maior, sempre assumindo maiores
                    proporções, que sinto desabar no silêncio, mais dourada e frenética que o sonho.
                    Tudo se reduz a coisas a que damos valor, e a coisas a que não damos valor. E
                    entretanto ao nosso lado passa o tropel mágico, desesperado e caótico. Ali fora
                    desabam os séculos e a torrente misteriosa que leva consigo estrelas em vez de
                    calhaus. O jacto de portento vem do infinito e caminha para o infinito, levando
                    consigo a alma, o universo, o lógico e o ilógico, o absurdo e Deus.</p>
                <p>Uma vida resume-se em duas linhas, sintetiza-se em dois ou três factos. Se a vida
                    fosse só isso não valia a pena vivê-la. A vida é muito maior pelo sonho do que
                    pela realidade. Pelo que suspeitamos do que pelo que conhecemos. Se nos
                    contentamos com a superfície, não há nada mais estúpido — se nos quedamos a
                    contemplá-la faz tonturas. É por isso que eu teimo que a Morte não tem só cinco
                    letras, mas o mais belo, o mais tremendo, o mais profundo dos mistérios.
                    Prepara-te.</p>
                <p>O problema capital da vida é o problema da morte. Ele resolve tudo. Não há factos
                    isolados; não há acontecimento no universo que não gere outro acontecimento. O
                    inconsciente não pode criar o consciente. É impossível dar um passo a que não
                    suceda outro passo. A vida gera a morte — a morte gera a vida. Mas que vida?</p>
                <p>Fui eu que criei tudo na vida. Destaquei da massa confusa, da mescla, o tempo —
                    destaquei a morte — destaquei o sonho. Fui eu que, como num quadro, lhe dei
                    valores e perspetiva. Fui eu que lhe entornei em cima ilusão. Na realidade só
                    existem cores — como só gritos existem. Arranquei tudo do fundo do quadro.
                    Porque não hei de acabá-lo?</p>
                <p>E no entanto sinto-me tocado de hesitação e de dúvida. Do que tenho saudades é
                    desta vida. Ao que eu aspiro é a esta vida. O gesto que o moribundo faz ao
                    arrepanhar o lençol é um gesto de náufrago.</p>
                <p>Sou nada diante do universo. Mas teimo, mas discuto comigo e contigo ó espanto,
                    mas defronto-me com o enigma, encarniço-me e saio daqui esfarrapado, despedaçado
                    — mas teimo e hei de vencer-te. Não quero morrer de vez. Não quero perder a
                    consciência do universo nem a sensibilidade do universo. Eu sou o nada, tu és o
                    infinito — hei de por força vencer-te!</p>
                <p>De um lado a matéria, do outro o espírito. De um lado consciência, debate, luta,
                    do outro a impassibilidade, a fatalidade inexorável. Nenhum grito a perturba. De
                    um lado a vida gasta num segundo, do outro a sucessão ininterrupta dos séculos,
                    indiferente e eterna. Como acaso é atroz, a não ser que outra coisa nos
                    espere.</p>
                <p>Ilusão, mentira, estúpido? Mas eu é que faço a verdade e a mentira. Eu é que a
                    crio à custa de dor. Dou-lhe o meu bafo e a minha alma. Deus cria-me a mim — eu
                    crio Deus. Uma verdade pode ser abjeta, uma mentira pode construir outro mundo —
                    outro universo — outro céu.</p>
                <p>Se não nos detivéssemos com palavras, se avançássemos todos ao mesmo tempo,
                    esquecendo o que é inútil, para esta coisa que nos devora, subjugávamo-la.
                    Conquistávamo-la por uma vez, por maior que ela fosse. Mas nenhum de nós se
                    atreve e passamos a vida a fingir que não existe. E só ela existe.</p>
            </div>
            <div>
                <head>Capítulo X</head>
                <head>A OUTRA VILA</head>
                <p>O tempo era limitado, a paciência pegajosa, o gesto lento. Agora que a vida dura
                    séculos ninguém espera um minuto.</p>
                <p>Tenho aqui a vila sufocada de espanto, e, neste momento de silêncio e mudez,
                    todos encaram com desespero os próprios fantasmas. Está aqui o fel — e o fel
                    está vivo. Está aqui a mentira — e a mentira está viva. Está aqui a D. Leocádia
                    e o dever, a D. Biblioteca e o postiço, o Anacleto e as conveniências. Estão
                    todos. Não falta ninguém à chamada. Está aqui também o espanto e a mania, e a
                    mania tem os cabelos em pé. Custa-me a admitir-te na minha companhia, custa-me a
                    arrancar-te de profundidades ignotas... Tudo o que fiz era um simulacro,
                    reconheço-o. Passei a vida a arremedar a vida. Passei a vida com uma voz a
                    pregar-me: — Não metas aí o nariz. E a minha vontade era meter ali o nariz. —
                    Passei a vida a cumprir o meu dever e a amargar o meu dever. Passei a vida a
                    arredar-te e agora tenho por força de viver contigo. E tu? — E tu? — E tu?... —
                    Gastei-me, gastei-a... Cumpri sempre o meu dever. Cumpri-o com fel. Para cumprir
                    o meu dever lhe repeti a toda a hora que os pobres têm um lugar marcado na vida.
                    Fi-lo por dever. Não transijo nunca com o meu dever. Assim como devia tirá-la do
                    asilo por ser do meu sangue, assim o meu dever era educá-la para pobre e
                    reduzi-la a um ser passivo e inerte. Os pobres não têm vontade, os pobres não
                    têm orgulho. Vesti-a com um saco e gastei-me um dia, gastei-a outro dia, a ponto
                    de usarmos as feições e de não nos reconhecermos. Espiamo-nos ambas, uma em
                    frente da outra, no silêncio gélido da vila, onde se ouvia o trabalho lento das
                    aranhas no fundo dos saguões. — Dei-te o sustento, tens de ser agradecida.
                    Tirei-te do nada, livrei-te da fome, é preciso seres agradecida. Cumpre o teu
                    dever. — Eu cumpri sempre o meu dever. Cumpri-o contrariada, num perpétuo dize
                    tu direi eu, numa eterna contradição, mas cumpri-o. Cheguei a tirá-lo à boca
                    para a poder manter. Cumpri o meu dever e amarguei o meu dever. Usei assim a
                    vida a arremedar a vida. E tenho-a aqui na minha frente, com a barriga à boca, à
                    espera que eu cumpra o meu dever até final. Qual é o meu dever? Reconheço que a
                    odeio — odiei-a sempre. Mas qual é o meu dever? — pergunto. Qual era afinal o
                    meu dever? Se fazia o bem, amargava o bem; e tu não me largavas se tentava o
                    mal. A minha vida tem sido um perpétuo inferno, contrariada e impelida, e sempre
                    a cumprir o meu dever amargo, o meu dever estúpido. E os olhos não se lhe
                    despegam do fantasma coçado e verde, de ferro e verde. Grita-lhe: — Cumpri
                    sempre o meu dever! Se não cumprisse o meu dever ia parar a uma viela. Queda-se
                    estrangulada e surpresa, mais estrangulada e surpresa ainda, diante da voz que
                    lhe diz não sei o quê de temeroso. Avança e repete mais alto: — Ir parar a uma
                    viela é o que há de pior no mundo! E a outra torna com escárnio — e a D.
                    Leocádia torce-se com pavor: — É o que há de pior no mundo! É o que há de pior
                    no mundo! E com dor, com angústia, com desespero, pergunta a si própria (a outra
                    insiste e não a larga): — É o que há de pior no mundo?... — E tu? — pergunto —
                    tiveste inveja? — Tive e recalquei-a. Arranquei tudo, destruí tudo, por ti que
                    não existias. — Mas isto é infame, isto não 'sou eu! — És, és, mais do que nunca
                    o foste. — Cada velha se põe a recuar diante de si mesma; cada ser procura
                    afastar-se de si; cada um a si próprio se repele. Mas todos são enrodilhados no
                    pé de ventos, que os leva sufocados e atónitos, balouçados entre a vida e a
                    morte, entre o assombro e o inferno. E é grotesco este encarar com o sonho, pé
                    atrás pé adiante, esta hipocrisia que teima em ser hipocrisia, esta mentira que
                    quer ser mentira até à última extremidade. — Tu não deste um passo na vida sem
                    obedeceres às conveniências e sem consultar o teu código de meticulosidade. Tens
                    um Deve e Haver do tamanho de um prédio. A praça considera-te, Deus
                    considera-te. Torturaste-a segundo as conveniências, habituaste-a a conter as
                    lágrimas e a ser correta com o mesmo grito recalcado ao fundo do coração. E esse
                    drama correto, torna-se mais correto ainda, e, século atrás de século, há de
                    acabar por atingir a correção suprema. — Não tenhas medo, avança um passo, outro
                    passo ainda... — Que é isto? Que é isto que se me pega, diz a Teles, diz a Roles
                    — e que me não deixa pensar na mania? E nos olhos de idiotia, a vida, camada
                    atrás de camada, chega a vir à superfície. — Ah, a mania D. Teles, das Teles das
                    Reles, a mania! Pensar neste trapo um dia, e só pensar neste trapo! Fazer de ti
                    e de mim mania e só mania! — Dois castiçais de prata foram a minha vida. Pensei
                    neles com minúcia. Um nada — ou Deus — bastou para me encher a vida. Acordei com
                    eles, dormi com eles. Taparam-me o mundo. Isto foi o meu sonho e a razão do meu
                    ser. Criei-o. Dei-lhe o meu leite. Vivemos juntos; ia morrer com esta mania,
                    levava-a para a cova, sem ter pensado no resto, e agora encontro-me sós a sós
                    contigo, desprevenida e sozinha. Foste para mim um filho. Alimentei-te e
                    alimentaste-me. Reservei-te sempre o melhor cantinho do meu ser. Salvaste-me do
                    desprezo de mim própria, pior que o desprezo alheio. Quando me sentia mais
                    humilhada e mais pobre, recorria a ti, e encontrei-te nas horas em que a gente
                    até de si duvida, quanto mais dos outros. Trouxe-te sempre comigo. Sorrias-me.
                    Foste a carne da minha carne e o osso do meu osso. Um filho podia-me morrer; tu
                    não me deste um desgosto. Escondeste-me a vida e a morte — e eras um trapo, uma
                    coroa de lata, dois castiçais de prata! Agora mesmo procuro agarrar-me — mas
                    isto pega-se-me, deslumbra-me e ofusca-me... Há só uma coisa que eu queria ainda
                    dizer, e não a sei dizer diante de isto que tenho ao pé de mim, dentro de mim e
                    me não larga... — Ai! Ai! Ai! — Também tu, também tu, prima Angélica, que
                    passaste a vida debruçada sobre essa meia, também tu te ergues num
                    arrebatamento, passa-te não sei que dor na escuridão cerrada, e procuras, com a
                    agulha afiada como um punhal, furar os olhos de todas as pessoas que te fizeram
                    bem!... Mas tanta inveja ruminaste que sorris e te curvas submissa sobre a mesma
                    meia eterna, a que mãos caridosas já não desfazem as malhas e que tem três
                    metros de comprido... A mesa da bisca lambida caiu por terra, e de tal maneira
                    se olharam nos olhos, que não foi possível tornar a juntá-las. Só a mesma voz
                    persiste dentro de nós mesmos, no silêncio e na mudez da noite infinita: — Mas
                    eu não posso! Eu não posso! Tu obrigas-me a fazer o que não devo! Tenho aqui fel
                    e hei de, para cumprir o meu dever, fazer o contrário do que sinto: dominar-me
                    todos os dias, moer-me todos os dias, pregar-me todos os dias: — A gente só vem
                    a este mundo para cumprir o seu dever!... — O que há de pior no mundo é arrancar
                    os desgraçados à desgraça! O que há de pior no mundo é não haver outra vida e
                    passar esta vida a arremedá-la!</p>
                <milestone rend="asterisks" unit="section"/>
                <ab type="dateline">1 de Maio</ab>
                <p>Não só os sentimentos criam palavras, também as palavras criam sentimentos. As
                    palavras formam uma arquitetura de ferro. São a vida e quase toda a nossa vida —
                    a razão e a essência desta barafunda. É com palavras que construímos o mundo. É
                    com palavras que os mortos se nos dirigem. É com palavras, que são apenas sons,
                    que tudo edificamos na vida. Mas agora que os valores mudaram, de que nos servem
                    estas palavras? É preciso criar outras, empregar outras, obscuras, terríveis, em
                    carne viva, que traduzam as cóleras, o instinto e o espanto.</p>
                <p>Mas se tudo são palavras e de palavras nos sustentamos, o que nos resta afinal?
                    Gritos em frente de gritos, instintos em frente de instintos. Fica a morte à
                    solta e o instinto à solta. Ficam os mortos de pé — a coorte que não queríamos
                    ver, erguida, como o vento ergue a poeira, até aos confins da vida.</p>
                <p>Até agora a mentira fez-me suportar a vida, a insignificância e as palavras
                    tornaram-me a vida possível, a vida onde à custa de palavras cheguei a ser
                    Eleutéria da Fonseca, Balsamão, Elias de Melo ou Melias de Melo. Só à custa
                    disto pude aturar a vida e o horror da vida. Só por não a ver, pude encará-la.
                    Só enquanto fui feito de pequenas misérias e de palavras inúteis a pude
                    suportar. Mas agora que me resta se tudo é vazio de significação?</p>
                <p>Custa muito a construir uma vida fictícia, a ser Teles ou a ser santo, a criar um
                    Deus ou uma mania. Custa a melhor parte do nosso ser. É certo que metade disto —
                    metade pelo menos — é representado. Se te confessasses dirias: — Eu sou um ator,
                    eu sou o ator de mim mesmo: represento sempre até quando sou sincero; até quando
                    digo o que sinto, é outro, e noutro tom de voz, que diz o que sinto... Cá estou
                    a vê-lo representar... Mais de metade, muito mais de metade dos meus
                    sentimentos, são postiços. Todos estamos ligados por compromissos, aceitamos
                    certas leis e vivemos de aparências. Existe entre nós um acordo tácito. No fundo
                    bem sei que o que me dizes é mentira, mas sei também que tenho obrigação de
                    ajudar a mantê-la. Respeitamos um compromisso vital. Mais alto! Mais alto!...
                    Para podermos viver só lidamos com uma parte convencional da vida. A outra não
                    existe: se existisse seríamos bichos. Esta vida é uma mentira — a outra vida é
                    monstruosa. Desabada a arquitetura aparente, ficamos ignóbeis. Isto que aí está
                    por terra custou muito desespero, primeiro na inconsciência e na obscuridade,
                    através da inconsciência e da obscuridade, e depois através de terrores e de
                    indescritíveis esforços. Custou aos vivos e aos mortos a dor das dores poderem
                    discernir dois ou três factos essenciais na treva condensada, na treva compacta
                    de uma noite que durou séculos. Esforço inconsciente de larva, com um destino a
                    cumprir e léguas de granito a romper. Tirámos o mundo do nada. Levou séculos e
                    séculos — mas tiramo-lo do nada. No princípio só fomos almas, criámos depois a
                    casca. Também as árvores só a poder de tempo se revestiram de um invólucro.
                    Éramos todos fantasmas. Criámos tudo — e a mentira. Tudo — e o hábito. Tudo — e
                    a paciência. O sonho não é senão uma reminiscência. Todas as inutilidades não
                    passam de adaptações à vida. Essas pequenas coisas são ao mesmo tempo temerosas
                    e ridículas. Bem encarada a ninharia é uma tragédia. Destes seres saem outros
                    seres grotescos e terríveis — terríveis e grotescos. No silêncio a mania toma
                    proporções quiméricas, e não sei como hei de juntar estas duas coisas — mania e
                    desespero.</p>
                <p>Dentro de cada ser ressurgem os mortos. Crescem dentes às velhas, afiam-se-lhes
                    as unhas debaixo dos xailes. Adquiriram outra expressão. Quase toda a gente
                    emagreceu. Aguçam-se ferros no escuro. Procuram-se. Qual é o teu verdadeiro ser?
                    Eu mesmo não sei. Dá-me um trabalhão encontrá-lo e acho-me sempre em frente de
                    cacos, a que não consigo dar unidade. Uma ninharia — um impulso — um hábito. É
                    isto que constitui o meu ser, ou é esta série de imagens, já desaparecidas, que
                    formam a minha e a tua vida? Não, o meu verdadeiro ser sacode a poeira na
                    cólera, na paixão, no amor ou no ódio — porque aos sentimentos também é preciso
                    desenterrá-los — e atua num frenesi. Acabaram as hesitações e as dúvidas, porque
                    já não sou eu quem mando, a minha razão ou a minha vontade: são os mortos. E é
                    quando me sinto viver.</p>
                <p>E a insignificância? Até a insignificância. A insignificância com orgulho, a
                    insignificância com desespero.</p>
                <milestone rend="asterisks" unit="section"/>
                <ab type="dateline">5 de Maio</ab>
                <p>Aqui está a vila toda — mas as figuras mudaram. São disformes. O próprio Santo
                    cheirou as velhas, sacudiu as velhas e atirou com as velhas à rua. Do alto dos
                    montes vomita cóleras sobre a vila passada de terror. O silêncio redobra, a dor
                    redobra. E com isto uma alegria a que falta o ressaibo de tristeza que se
                    misturava a todos os nossos sentimentos. Falta-lhe equilíbrio e harmonia. Tem a
                    maior ferocidade. E produz o mesmo efeito que este cenário de assombro, que o
                    vento e a chuva esfarelam, e onde sobrenadam restos. E com isto a voz que não
                    nos dá tréguas e que atinge o desespero: — Não grites, D. Leocádia, não grites.
                    Reconheço que és feita de uma peça só. Foste sempre inteiriça. — Tirei-o à boca
                    para a manter... — Tiraste-o. Tomaste a vida a sério. Entendeste sempre que
                    pobres se educam como pobres, passaste a vida a azedar a vida, e o dever que
                    fizeste amargar aos outros, começou por te amargar a ti. E a esta luz
                    intolerável as coisas tomam a teus olhos aspetos ignorados... — Mas então não há
                    dever nenhum e eu não sou a D. Leocádia, 29-2°-D.? — D. Leocádia, quem recebe o
                    bem fica sempre humilhado. O bem constrange. O que tu chamas a piedade e o bem
                    põe quem o recebe na situação de te morder as mãos. E continuar a fazer o bem é
                    elevar-te pelo bem que fazes e rebaixar-me pelo bem que recebo. Acabas por
                    gastar o que em mim há de melhor. Oh D. Leocádia, se eu pudesse — eu é que te
                    fazia o bem, para tu veres o que é o bem recebido, o bem agradecido e o bem
                    amargurado. Antes tu me fizesses mal, D. Leocádia, porque o mal põe-me ao teu
                    nível, e o bem acostuma o desgraçado a ser mais desgraçado ainda. Degrada-o.
                    Põe-no na tua dependência e na dependência da desgraça. Cria uma superioridade,
                    a tua, e um azedume, o meu. Classifica para todo o sempre. Estou perdido se não
                    reajo em ódio. — Que exiges tu de mim então, que não compreendo? Que exiges tu
                    de mim contra a minha vontade? Que me aniquile? Que me dispa para te vestir? —
                    Não grites... — Que exiges tu de mim de absurdo com que eu sinto que não posso
                    arcar? Um esforço sobre-humano? Ou exiges apenas que eu faça o bem que posso,
                    uma parte do bem? Ou é o mal que tu exiges de mim e o bem é um pecado? Melhor
                    será deixar a cada um a sua parte de desgraça e de cólera?... Eu ainda posso
                    talvez despir-me, mas não posso amá-la. Posso cumprir o meu dever, mas que mais
                    exiges tu de mim com que, ainda que queira, não posso! Que exiges tu de mim?! —
                    Mas, D. Leocádia, eu não exijo nada de ti, cada um se aguenta conforme pode
                    neste balanço...</p>
                <p>— Mas então não há dever nenhum? Não há bem nenhum? Que fiz eu deste ser apagado
                    e inerte com um filho do meu filho na barriga? — Oh D. Leocádia como tu educada
                    sempre com as mesmas palavras e no mesmo dever, um dia de dever, outro dia de
                    dever, e erguendo, no silêncio e no tédio, uma construção de trapos e de
                    palavras que chegou ao céu e substituiu o céu — como tu tapas os olhos com
                    desespero para não ver! Hás de aguentar com este peso, que não podemos
                    suportar... Talvez fiquemos cegos, talvez saiamos daqui aos gritos, os maníacos
                    sem a sua mania, os bons sem a sua bondade, e os pobres só fel e vinagre, mas
                    temos de ver o que não nos estava destinado. Para largar a pele, D. Leocádia,
                    até a cobra adoece. Tanto importa que resolvas como que não resolvas o problema
                    — todos temos de dar o passo. A vila é a mesma vila, as pedras as mesmas pedras.
                    Nós mesmos não mudámos. A nova vida obriga-nos apenas a discutir o que estava ao
                    nosso lado. Tudo existia no mundo, até este desespero; tudo estava vivo, até
                    este grotesco. Nós é que estávamos mortos.</p>
                <p>Passou no mundo a estranha ventania, e a morte de tal maneira se entranhou na
                    vida que custa a separá-las. Mas já lá vão as fórmulas, os alicerces e os
                    usos... Só no alto, sobre este absurdo, subsiste ainda o mesmo borralho
                    remexido, com a cinza e as faúlhas atiradas indiferentemente para a escuridão, e
                    a Via Láctea a sangrar.</p>
            </div>
            <div>
                <head>Capítulo XI</head>
                <head>DEUS</head>
                <p>«Dormi num tabuado, cingiu-me uma cadeia. Vesti-me com um saco. Todos os dias
                    arranquei de mim próprio um farrapo e um grito. Arredei tudo para ficar só
                    contigo no mundo. Sacrifiquei-te tudo. Fiquei nu e Deus, nu e a vida eterna.
                    Tinha o horror da lepra, vivi com os leprosos. Calquei todas as afeições
                    inúteis, e se uma andorinha me fizesse ninho na banca, como ao frade de Assis,
                    torcia-lhe o pescoço. Encheste-me a vida toda.</p>
                <p>E agora a morte não existe, Deus não existe, a vida eterna não existe. Uma
                    luzinha e depois a escuridão!</p>
                <p>Tenho diante de mim esta força cega, este absurdo a escorrer ternura e lepra,
                    como uma primavera escorre morte, a irromper contra tudo e apesar de tudo, de
                    uma profundidade cada vez mais sôfrega e cada vez maior. Não quero ver e hei de
                    por força ver!</p>
                <p>Este inferno, a que dei vida e a melhor parte do meu ser, não existe! Tinha
                    conseguido só te ver a ti no mundo. Com uma palavra enchi o vácuo. E este Deus
                    por quem sacrifiquei toda uma vida e a melhor parte da vida, não existe! Foi
                    tudo inútil. Dilacerei-me. Dei-me a mim próprio em espetáculo. Assisti a esta
                    tortura, e tu não existias! Vivi fora de mim mesmo e de repente tive de me
                    aceitar a mim mesmo. Toda a minha vida foi inútil! Tudo o que fiz foi inútil!
                    Foi grotesco e inútil!</p>
                <p>Sacrifiquei tudo a quê? Sacrifiquei o melhor da minha vida ao vácuo. Ofereci-lhe
                    em espetáculo a minha dor. Mas então que existe? Qual a diretriz da minha vida?
                    Qual a ilusão com que hei de encher isto? E para que hei de viver? Qual o sonho
                    imenso capaz de substituir este sonho? Que é Deus agora? Deus é tudo e nada. É
                    uma força. Deus é uma lei inexorável. Mas então tu que podes tudo — tu não podes
                    nada. És uma lei — e hás de cumprir essa lei. És um destino e não podes dar um
                    passo fora desse destino. Não vês, não ouves, não sentes. Eu sou uma
                    insignificância e valho mais do que tu. Porque eu grito, eu sofro, eu atrevo-me.
                    Amanhã quebro o meu destino. Tenho uma consciência. Sou ilógico e absurdo.
                    Debato-me. E tu, Deus, não passas de uma força cega e estúpida. Não me serves de
                    nada.</p>
                <p>Preciso de um Deus que me atenda, que me escute, que saiba que sofro e que me
                    veja sofrer. Preciso de um Deus que me salve ou que me condene. Preciso de um
                    Deus que me ampare. Preciso de uma inteligência superior à minha e em
                    comunicação com a minha.</p>
                <p>Um Deus-força, um Deus que não se comove com os meus gritos nem com as minhas
                    súplicas, não me interessa. Um Deus que caminha para um fim que não atinjo, é um
                    Deus absurdo. De que me serve este Deus? Não ouve os gritos — destrói; não sente
                    a dor — destrói. Destrói e caminha. É inalterável. Ilude-nos. Deixa-nos um
                    segundo diante deste espetáculo, para nos mergulhar no nada. A nossa aspiração
                    não cabe aqui: entrevemos, sonhamos, e, a meio do caminho, talvez no início de
                    sonho maior, destrói-nos. Pior: tem uma necessidade de sofrimento cada vez
                    maior, de sofrimento inocente ou culpado. Revê-se na dor. Deus é cego.</p>
                <p>Debalde grito — não há quem me ouça. Debalde sofro — ninguém o detém. Tanto faz
                    viver como morrer. Deus, tu és monstruoso! Destróis — caminhas. Destróis e não
                    sentes. Vens do infinito, e atrás de ti fica um infinito de dores, uma massa de
                    gritos e de seres espezinhados. Segues e destróis. Constróis não sei o quê de
                    portentoso com que não posso arcar. Dessa pata monstruosa escorre sempre
                    ternura. Não e indiferente que calques e recalques. Quanto mais espezinhas, mais
                    gritos, mais ternura nas árvores, mais estrelas nos céus. Parece que a dor é
                    inseparável da ternura, como a morte é inseparável da vida. — Até aqui eu tinha
                    uma tábua a que deitar a mão. Até agora tinha um nome — agora não sei como me
                    chamo. Agora tenho medo de mim mesmo, agora sinto-me isolado neste caos
                    infinito, neste repelão desabalado, que me leva sem sentido e sem fim. Eu e a
                    noite — eu e o doido! Até agora supunha-me tudo, eu e Deus, eu e a mão enorme
                    que me conduzia e amparava. — Sofras ou não sofras, vais para a mesma cova, para
                    o mesmo nada, para o mesmo silêncio. Antes o inferno! Antes o inferno! Tu que
                    foste desgraçado, ou tu que foste feliz, tu que te descarnaste até à medula e tu
                    que passaste indiferente pela desgraça — vais para a mesma cova profunda,
                    inútil, absurda e muda. Antes o inferno, antes a dor pelos séculos dos séculos a
                    vir, do que a mudez e o horrível silêncio atroz! — Tudo foi indiferente, tudo
                    foi indiferente para o monstro que passa e esmaga, que não ouve e esmaga, que
                    não vê e esmaga. Indiferentes os teus gritos e as tuas súplicas; indiferentes a
                    tua renúncia, a tua dor, as tuas lágrimas. Foi indiferente que fosses bom ou
                    mau, que tentasses subir ao topo do calvário. Não existe na realidade nem vida
                    nem morte — não há na realidade senão quimera e dor — não há na realidade senão
                    este monstro que passa e esmaga, que caminha e esmaga.</p>
                <p>Deus é cego! Deus é cego!</p>
                <p>Enquanto te importaste comigo no mundo, foste o meu único pensamento e só tu me
                    importavas no mundo. Agora não posso, agora não dou contigo. Agora não te
                    encontro. Agora sou mais pequeno e maior. Agora meto-me medo. Que voz pode ecoar
                    e sobressaltar esta solidão infinita, este mundo infinito, onde os gritos se não
                    ouvem a cem passos, e tudo que chamamos amargura, dor, grandeza, se apaga logo e
                    se reduz a zero? O meu dever já não é o mesmo dever, a minha consciência já não
                    é a mesma consciência. Só os meus instintos se conservam de pé.</p>
                <p>Acuso-te de teres comprometido a minha situação no universo. Acuso-te de não me
                    deixares ser infame. Acuso-te de me dares o remorso. Acuso-te de me impedires o
                    instinto. Acuso-te de teres transformado a vida e criado a consciência. Acuso-te
                    de me deixares sozinho com este peso em cima, com a ideia da vida e com a ideia
                    da morte. Acuso-te de me levares para um calvário como o teu, para me tornares
                    grotesco, e de me colocares em frente de ideias com que não posso arcar.
                    Acuso-te de não poder mais, e de me instigares a mais ainda. De me obrigares a
                    olhar cara a cara o assombro que não existe; a morte que não existe; a
                    consciência que não existe. Subverteste o mundo. Forçaste-me a criar outro
                    mundo, a olhar para cima e a clamar no vácuo. Acuso-te de não me deixares
                    atascar à minha vontade em lodo, de não me deixares mentir, matar, chafurdar.
                    Acuso-te de me impelires para cima, quando a minha vontade era ir para o fundo.
                    Acuso-te de não me deixares ser bicho.</p>
                <p>Estou pronto para tudo. Desde que não há Deus tudo são palavras. Desde que não há
                    outra vida, só há esta vida. Só há este minuto, esta hora presente. Sinto-me
                    capaz de tudo. Estive anos a rezar a uma cómoda, a falar a uma cómoda, a sofrer
                    diante de uma cómoda. Fui grotesco! Fui grotesco e tu não vias! Fui grotesco e
                    tu não ouvias! Fui grotesco e tu não existias!»</p>
                <p>Resta um Santo só orgulho, um Santo só desespero. Orgulho e cólera. Fica mais
                    seco, calcinado, maior. Não admite que o contrariem e quer ser obedecido e
                    temido. Tem inveja das infâmias dos outros, inveja dos que se atrevem, inveja
                    amarga como fel. «-Dói-me tudo, dói-me principalmente sentir-me grotesco! Sentir
                    que perdi a vida e sou grotesco! Sentir que me deti e fiquei descarnado,
                    impotente e grotesco!</p>
                <p>Por uma palavra fui absurdo. Por uma palavra tenho atrás de mim uma arquitetura
                    desconforme e destroços que enchem o mundo — por uma palavra e mais nada. Tu não
                    existias!</p>
                <p>Resta-me o bem. Mas fazer 'o bem para quê se tudo acaba ali, se não há outra vida
                    consciente, se não tenho de responder perante ti pelos meus actos? E mesmo
                    diante do escantilhão sôfrego, o que é o bem e o mal? A que eu tenho de obedecer
                    é ao instinto e mais nada. Se não estás aí para me julgar e para me ouvir, que
                    importa fazer isto ou fazer exatamente o contrário? Só uma coisa resta: iludir
                    os desgraçados, levá-los para uma mentira cada vez maior, para que possam
                    suportar a vida. Não se trata do bem ou do mal, do justo ou do injusto —
                    trata-se de mentir, de mentir sempre — de mentir cada vez mais.»</p>
            </div>
            <div>
                <head>Capítulo XII</head>
                <head>NOITE E DESESPERO</head>
                <p>Avante! Avante! Um cordão de velhas, como um cordão de sentinelas, não desampara
                    o quarto onde a majestosa Teodora agoniza. Chove. Entre estas paredes forradas
                    de papel dourado já não se moem as palavras de uso. Alumia-as o candeeiro a
                    escorrer petróleo, e a luz fixa as arestas das figuras de cerimónia, todas
                    vestidas de preto, a calva de um homem gordo, a quem só se veem as mãos
                    esponjosas, os bicos das velhas retesas, cujas bocas remoem no escuro, a Adélia
                    mais safada e mais sôfrega, e o padre no meio da sala dominando-os a todos. Onde
                    vai o ridículo da D. Penarícia, as mesuras da D. Andresa, o riso idiota da D.
                    Idalina, a langonha da D. Hermínia? Parecem forjadas de novo. Até as pregas dos
                    vestidos caem como pregas de estátua. Cada velha resolve que a cólica da Teodora
                    seja a sua última cólica; em cada velha cresce, aumenta, transborda, num
                    tumulto, o inferno. Ao saque! Ao saque! — É para mim. Eu é que sou a prima mais
                    chegada. — Eu é que lhe tenho aturado tudo, é a mim que ela deixa os trezentos
                    contos, os quatrocentos contos, ninguém sabe o que ela tem. Nenhuma admite que a
                    majestosa Teodora escape. Vêm de muito longe estas figuras — vêm das
                    profundas... Nos olhos da D. Penarícia há claridades do inferno. Ganharam todas
                    em fixidez e audácia. O sarcasmo não me chega à boca, passou-me a vontade de
                    rir.</p>
                <p>Desapareceram séculos de paciência e astúcia, surgiram figuras novas. Para as
                    compreender pergunto a mim mesmo o que é isto embrulhado num xaile, e não me
                    atrevo a contemplá-lo. Ridículo e ferocidade? Uma coisa sem nome, produto do
                    acaso ou uma coisa abjeta? Uma alma ou um resultado de fórmulas? Está aqui a D.
                    Penarícia e a D. Eulália ou Deus e o Diabo? Um mundo novo e um mundo atroz?
                    Estão aqui perguntas vivas e respostas vivas: — Abra lá essa porta para trás! —
                    Essa porta deita para a parte proibida da vida. O mal, suspeitam-no, talvez seja
                    a melhor parte da vida. — Abram lá essa porta para trás! — Não lhes parece que
                    esperam há anos, parece-lhes que esperam há séculos, e tem ali diante de si
                    estateladas, as cortesias que fizeram à velha — o pois sim que disseram à velha
                    — os sorrisos com que sorriram à velha — as vontades que fizeram à velha. São
                    tragédias. Vêm de muito longe, de uma vida sem limites. Em atroz? Estou aqui
                    perguntas vivas e respostas vivas: — Abra lá essa porta para trás! — Essa porta
                    deita para a parte proibida da vida. O mal, suspeitam-no, talvez seja a melhor
                    parte da vida. — Abram lá essa porta para trás! — Não lhes parece que esperam há
                    anos, parece-lhes que esperam há séculos, e tem ali diante de si estateladas, as
                    cortesias que fizeram à velha — o pois sim que disseram à velha — os sorrisos
                    com que sorriram à velha — as vontades que fizeram a velha. São tragédias. Vêm
                    de muito longe, de uma vida sem limites. Em cada uma se representa um drama
                    atroz, o drama do interesse e do cálculo, o drama da vida. Nuas, as velhas que
                    estão na minha frente, são infinitas de grotesco e dor. Duram há séculos. Há
                    séculos que têm paciência para viver e para sofrer. A D. Penaricia mente desde
                    os confins do mundo: representa gritos, mais gritos represados. É um poço donde
                    só saem ais e mais ais. O difícil é a gente habituar-se a viver esta vida e a
                    outra vida: carregar com este peso desde o infinito e lidar e falar e viver. —
                    Oh morte que tão bem cheiras!... — Bem sei, os séculos imprimiram-lhes dedadas,
                    os séculos deformaram-nas... Mas agora estão aqui desesperos em frente de
                    desesperos, e desatam a berrar umas às outras:</p>
                <p>— Tem paciência, tem sempre paciência. Dói-te? Tem paciência; amargas? Tem
                    paciência...</p>
                <p>— Todos os dias da vida, todos os dias da minha vida à espera da morte. Estou
                    farta! Estou farta de despejar bacios, de dizer que sim, de dizer a tudo que
                    sim, de ser a sombra de mim mesma. Agora está aqui a vida. Esta vida e todas as
                    vidas. É preciso que ela morra, e se não morre é preciso matá-la. Ouve senhor
                    padre Ananias, senhor padre unguento, senhor padre e as suas comidelas, senhor
                    padre e o seu inferno?... Mentira! Mentira! Eu própria era uma mentira. E só me
                    aterra a ideia de acordar tarde, de acordar da morte, com a certeza de que era
                    tudo mentira e só mentira...</p>
                <p>Abrem as bocas desmedidas, fecham logo as bocas desmedidas.</p>
                <p>— Bem vê que não posso mais. Eu que mentia não posso mais mentir. Como hei de
                    viver?</p>
                <p>Cada boca se abre no escuro como se fosse o abismo; as bocas falam por muitas
                    bocas que não têm nada de humanas e que moem e remoem com escárnio e baba; por
                    bocas franzidas só pele e espuma; por bocas sem dentes; por bocas ascorosas que
                    tentam ser bocas e que escorrem veneno; por bocas que se desesperam de ser
                    bocas, para se fazerem ouvir.</p>
                <p>— Tem paciência, tem mais paciência, tem paciência por todos os séculos a
                    vir...</p>
                <p>Estão ali dispostas a morrer e a matar. Está ali um cordão de velhas como um
                    cordão de sentinelas à porta do quarto da majestosa Teodora. Duas, ambas de
                    quico, ambas de mitenes, ambas impenetráveis, trazem na algibeira o lenço com
                    que hão de amarrar-lhe os queixos. Todas esperam que ela se decida a expedir.
                    Nenhuma abre o bico, mas apalpam os vestidos como se trouxessem um punhal
                    escondido. De um lado as gulas exasperadas, a hora extrema — chamem o tabelião!
                    Chamem o tabelião! — O testamento, a sorte grande — enfim! Enfim! — os chapéus
                    de plumas, o ouro mexido e remexido, as gavetas arrombadas, as salas de tapete,
                    o vício e o gozo — do outro a vida nova, e todas as abjeções inutilizadas.</p>
                <p>Ó morte que tão bem cheiras, aqui me tens para te servir. Como esta casa cheira
                    bem! Como cheira bem aqui dentro! — Ó morte que tão bem cheiras, tu diluis o
                    travor de fel e acalmas a acidez da inveja. Resolves tudo, realizas tudo, os
                    mais ignóbeis pensamentos, as mais secretas aspirações, que nem a Deus se
                    confiam, ó morte que tão bem cheiras! — E calcando a alma que se atreve, dizem
                    compungidas, por hábito secular: — Coitadinha já tem panela!...</p>
                <p>Agora aguenta-te, majestosa Teodora! Nalguns minutos esse crânio obtuso com uma
                    cuia em cima, tem de lutar com o crer ou não crer, com a vida antiga e a vida
                    que antevê; tem de desfazer a unhadas um edifício mais vasto que o Coliseu e de
                    deitar abaixo pedra a pedra todas as pedras que cimentou durante a existência;
                    tem de se entregar ao sonho sem capacidade para o sonho; e tem, ainda por cima,
                    de esquecer as inscrições e as décimas. Para escapar com vida, arrosta com a
                    vida passada e com a vida futura. Tudo nele era imperativo. Decidia por uma vez:
                    um passo, e é o inferno pela eternidade, o inferno com o sítio imóvel, com o
                    tormento da vista, com o tormento dos ouvidos. Escapar à morte é fugir à lei de
                    Deus. — E de um lado puxa por ela a vida, do outro puxa por ela c inferno — e as
                    velhas lá fora esperam e desesperam. Sente as labaredas do sítio imóvel por a
                    eternidade das eternidades; envolve-a, toca-a, engrandece-a também o sonho, e o
                    inferno não cessa de reclamá-la, o inferno que foi o único deus que temeu neste
                    vale de lágrimas. E esse debate esplêndido numa alma estúpida, deixa vestígios
                    profundos: aquelas raízes não se arrancam sem cavarem buracos. E as velhas lá
                    fora esperam, enquanto a majestosa Teodora desata aos gritos, baloiçada — e com
                    a cuia a desfazer-se-lhe — entre a realidade e o sonho, entre o inferno e a vida
                    nova que começa. Mas como a estúpida vida de caldo e pão que levou antes de
                    enriquecer, lhe deu fibra e carácter e não sei que de sólido e amargo, a velha
                    pode salvar-se, com um resto de xaile e a cuia amolgada. A velha resiste, e ao
                    abrir a porta exclama para o cordão das outras estupefactas:</p>
                <p>— Atravessei viva o inferno. Agora nem do diabo tenho medo!</p>
                <p>Estão aqui as outras velhas, as outras velhas todas, e tem-nas ali amarradas por
                    quinhentos anos à mesma mesa de jogo, Tem ali a inveja, e a inveja esverdeada
                    torce-se diante do olhar severo da majestosa Teodora, que lhe mata a fome. Está
                    ali a paciência, e a paciência sorri diante da majestosa Teodora que lhe atira
                    uma côdea. Está aqui a mesa de jogo projetada no infinito, com seres que se não
                    podem ver e que têm de coabitar acorrentados trezentos anos, quinhentos anos,
                    com o coração cheio de morte. Há ocasiões em que vomitam as piores injúrias; às
                    vezes torcem-se como quem não pode mais; às vezes soltam ais sobre ais represos.
                    — Jogo! — E a bisca segue pela eternidade fora. — Corto! — Também eu atravessei
                    o inferno! O inferno é isto! — E a majestosa Teodora parece calcinada pelo fogo
                    do inferno. — Bisca!</p>
                <p>— A inveja que eu te tenho! A inveja que eu te tive sempre! E tenho que sorrir
                    para ti, de dizer a tudo que sim!</p>
                <p>— Jogue!</p>
                <p>— Então eu passei a minha vida a ter paciência, à espera, passeia-a a mentir e
                    obedecer, e tu a mandares, e agora hei de continuar a ser abjeta quinhentos
                    anos, seiscentos anos?</p>
                <p>— E eu! O pão que me deste amarguei-o sempre. Cada dia que passava mais me sabia
                    a zinabre. Não te matei porque não pude!</p>
                <p>— Corte!</p>
                <p>— Tu não és mais do que eu!</p>
                <p>— Ai! Também eu, também eu tenho a dizer uma coisa. É que eu sabia bem tudo isto,
                    há que tempos que o sabia!... Mas não sei que era que me obrigava a fingir.
                    Corto!</p>
                <p>Salta laré, perirone, perirote! Começas enfim a compreender que tanto faz!
                    Começas enfim a compreender que as tuas explicações, as tuas eternas
                    explicações, as tuas teorias, e até a tua dor — tudo é grotesco e inútil? De
                    nada te servem já as palavras, os subterfúgios, as fórmulas, ó meticuloso Elias,
                    ó impoluto Melias — a outra coisa não nos dá tréguas. Vira-nos e revira-nos.
                    Mete-se como piolho em costura. Estamos todos a contas com questões insolúveis,
                    com a questão das questões, com a questão suprema. Tudo o que estava num plano
                    principal passou para um plano secundário. O meu direito prima sobre o teu
                    direito... Oh agora não! Agora não servem de nada os relatórios, as razões
                    dispostas como fórmulas algébricas. O problema está aqui hirsuto, desalinhado e
                    feroz. Salta laré, perirone, perirote! Se ela vive mais quinhentos anos lá se
                    vai o dinheiro por água baixo. Pior: se ela remoça lá se vai o nosso crédito na
                    praça. Mas — pergunto — posso porventura deixá-la morrer quando está nas minhas
                    mãos salvá-la? Não sou eu por acaso um homem de bem? Tu és um homem de bem, eu
                    sou um homem de bem, nós somos todos homens de bem — depende das circunstâncias.
                    O problema impõe-nos uma solução imediata... Salvá-la sim, mas por quinhentos
                    anos!? Está claro que o Elias de Melo é a honra personificada (basta repara-lhe
                    na risca ao meio, tão nítida, sinal visível da inflexibilidade de toda aquela
                    existência metódica); está claro também que o Melias de Meio não pode deixar ir
                    a sua casa por água abaixo. Os pais são pais, mas deixam de ser pais se nos dão
                    cabo de tudo — e da firma. Por outro lado há a contar com o crédito. Pensem
                    nisto, no crédito. O crédito pode perder-se de um dia para o outro, e sem
                    crédito um homem não vale nada na praça. Meditem e atendam. Acima de tudo está o
                    crédito. Está talvez acima de Deus, ainda que a minha consciência seja
                    religiosa. Sem Deus ainda posso viver, sem crédito não dou um passo na vida.</p>
                <p>— Além da firma que nos resta na vida? Fora da praça não existimos. Pense que
                    logo, amanhã, hoje mesmo, a nossa mãe remoçada deixa de ser a nossa mãe. Que
                    quer o mano fazer? Que pode o mano fazer? Destruir por suas próprias mãos o
                    nosso crédito na praça?</p>
                <p>Um defronte do outro abanam as respeitáveis cabeças, com calva e risca, com risca
                    e calva, aquela distinção de porte e de vinco, aquela ponderação de estilo,
                    aquela correção de maneiras, aquela seriedade das seriedades, que a praça honra,
                    que as firmas honram, que a Igreja honra, e de que até o próprio Deus do céu já
                    está à espera com o pálio meio aberto. A firma Elias &amp; Melias tão correta,
                    com livros, ripolin nos caixilhos e nas almas, vê-se descascada até à medula e
                    treme nos seus fundamentos. Está encalacrada. E o pior é que não são só eles que
                    estão encalacrados, estamos todos encalacrados. Na verdade o que importa não é o
                    que tu me dizes: é o que eu digo a mim mesmo...</p>
                <p>Pela primeira vez se exteriorizam no mundo não só as palavras que pronunciamos,
                    mas as outras que estão por trás dessas palavras. Isto, é terrível: é gaguez e
                    espanto. Um deles ainda tenta: — Nossa venerável mãe, nosso guia, nosso amparo e
                    farol... Mas acrescenta logo: — Deixemo-nos de palavreado! — O que tem de dizer
                    um ao outro é temeroso. Não se atrevem. Ó Rinhe como tu rinhes com dor, com
                    desespero, numa forma pastosa, a que se misturam já palavras vivas, em lugar das
                    frases dos relatórios e dos bancos! Decerto te sentes bem no pegajoso, mas por
                    trás não te dá tréguas o impulso. Nenhum ainda avança: — Temos de a deixar
                    morrer... — Mas já eles, e nós também sabemos que temos de a deixar morrer, por
                    todos os princípios e mais um. Veneramo-la, é certo, dentro de determinadas
                    bases — com risca e vinco, com vinco e risca — dentro da lógica, dentro do
                    interesse: venero-te, mas não me dês cabo da firma. E esta luta entre a langonha
                    e o impulso é dolorosa e grotesca.</p>
                <p>— Enfim, digamos tudo, nós somos homens... Se lhe damos o remédio é uma rapariga
                    de vinte anos, com todos os apetites e todos os perigos, é uma pessoa estranha
                    que nos pode comer tudo. Nossa mãe morreu.</p>
                <p>— Infelizmente morreu.</p>
                <p>— É uma pessoa estranha, é uma pessoa que pode dar cabo da nossa casa, é uma
                    pessoa que pode até contrair segundo matrimónio. E num grito:</p>
                <p>— Se quer deixe-a viver! Deixe-a viver!...</p>
                <p>— É o diabo, mas nem eu nem o mano devemos sobrecarregar as nossas
                    consciências.</p>
                <p>— Por isso mandei chamar o Félix procurador, que nos pode mostrar o caminho
                    direito e reto. É nosso amigo e muito temente a Deus. Aí o tem...</p>
                <p>E a outra em baixo berra:</p>
                <p>— Chamem os meus filhos! Acudam!</p>
                <p>Agora não, D. Biblioteca das Bibliotecas, já preparada com todos os requisitos e
                    unguentos para o horror do nada! Agora não! Já tentaram desligar-te da vida com
                    as palavras untuosas do rito e promessas de outra vida melhor. Que te resta? A
                    vida eterna. Poço para a vida eterna! O que tu queres é esta vida, esta
                    insignificância e estes restos — e está aqui a morte inexorável. Tanta saudade!
                    Tanto apego! Tudo te dói e do fundo dessa miséria e dessa pele engelhada vem um
                    gemido baixinho diante da figura tremenda que não sai de ao pé de ti... O carne
                    putrefacta, como tu te apegas a um resquício de esperança, a um só que seja! O
                    que te custa a largar o brasão na fralda da camisa, o postiço de toda a tua
                    existência inútil, o alto da lista de subscritores — três tostões, seis tostões,
                    um quartinho! Gastas-te, desgastas-te o que em ti havia de ímpeto e de vida.
                    Recalcaste. Esqueceste. Por fora a gente envelhece depressa. Por dentro custa
                    muito desespero. Vem as horas de melancolia estúpida em que sentimos fugir a
                    vida. Por força. Para a velhice, para a cova. E vem depois as lágrimas e as
                    lágrimas cavam-nos mais fundo. E quando tudo enfim se preparava, quando tudo
                    amolecia, surge-te a visão de uma nova existência! Acordam as ilusões já mortas,
                    o pó põe-se de pé e cheira-lhe outra vez a vida — ó carne fedorenta, ó carne já
                    preparada para o mausoléu, com a gaveta aberta, latim e água benta, dois
                    invólucros, um de mogno, outro de chumbo, e o picheleiro à espera! E é nesta
                    hora tremenda em que dás de cara com a vida postiça, em que reconheces que toda
                    a tua vida foi um simulacro, com brasão na fralda da camisa — que não te deixam
                    recomeçar nova vida. Tens de teu uma hora, meia hora, para olhares com outros
                    olhos as coisas extraordinárias que te pareceram insignificantes, as coisas
                    insignificantes que te pareceram consideráveis. Foste postiça e os outros
                    pagam-te na mesma moeda. Até os teus filhos te pagam postiço com postiço,
                    caridade com caridade. O carne fedorenta, ó carne já preparada e ensacada para a
                    cova, ó ascorosa carne putrefacta como estremeces até aos mais recônditos
                    fundamentos! Vem-te um cheiro aos narizes e um sabor à boca... Sobressalta-se a
                    carne acalmada à força, com muitos ais, muita resignação, tanto de despeito,
                    tanto de lágrimas e todos os requisitos indispensáveis, quando já não aguenta
                    ripolin nem as tintas dão resultado... Hein filha, hein? Nova vida, novos
                    dentes, nova carne, novo engodo!... E ai os tens sem piedade na tua frente,
                    inexoráveis como o destino. Agora não Elias &amp; Melias, agora não D.
                    Biblioteca das Bibliotecas, aqui estais frente a frente com a realidade e a
                    morte. Salta laré, perirone, perirote!</p>
                <p>— Não quero morrer! Não me deixem morrer! Chamem os meus filhos, chamem toda a
                    gente. Não me deixem morrer!</p>
                <p>Todos os apetites, todas as sensações que pareciam extintas, assobiam como
                    víboras. Horas antes de morrer ainda essa mulher está tão intacta por dentro
                    como aos vinte anos. Ninguém a pode conter. Quer saltar pela cama fora.</p>
                <p>— Chamem os meus filhos! Chamem os meus filhos!</p>
                <p>Os filhos tentam dissuadi-la. Aquilo não passa de uma estúpida invenção.
                    Resultado — zero.</p>
                <p>— Deixem-me ao menos experimentar.</p>
                <p>— Chamem o D. Prior, chamem o D. Prior que lhe traga os Santíssimos Óleos.</p>
                <p>— Os meus filhos! Os meus filhos!</p>
                <p>Enquanto o D. Prior não chega, os filhos discutem, o respeitável Elias de Melo, o
                    escrupuloso Melias de Melo. E em baixo sempre o mesmo grito:</p>
                <p>— Os meus filhos! Os meus filhos!</p>
                <p>Um deles lívido exclama:</p>
                <p>— Isto é um escândalo. Pode ouvir-se lá fora.</p>
                <p>E o outro repete:</p>
                <p>— Já mandei chamar o Félix procurador para nos aconselhar.</p>
                <p>Reclamam-no, porque já sabem que o conselho que lhes vai dar é conforme aos seus
                    interesses. Ambos precisam de alguém com quem dividir as responsabilidades.</p>
                <p>O grito em baixo não cessa:</p>
                <p>— Dêem-me o remédio! Dêem-me o remédio! Acudam-me!</p>
                <p>— Sim — mastiga um deles que tem palavreado até à medula — se o mano quer
                    dá-se-lhe o remédio. Mas, já sabe, é contra os nossos princípios, é contra a lei
                    de Deus em que fomos criados. A nossa casa é uma casa respeitável. E depois
                    mano, que escândalo! Nenhum de nós quer que a nossa mãe morra...</p>
                <p>Esta manhã! O que o Félix procurador com setenta anos, tem ouvido, sempre
                    indiferente, sempre calado, sempre respeitoso — V. Exa., Exmo. Senhor... Os
                    segredos de todas as casas ricas, os interesses, os testamentos, as mortes, os
                    cercos ao dinheiro alheio, tudo consta do papel armazenado por datas no
                    escritório, cheio de escarros e de pó, com uma pintura alegórica de Marte no
                    teto. Fala pouco, sorri. É calado como um túmulo. Está rico — está aqui está
                    morto. E todas as infâmias têm passado por ele, entranhando-lhe até à alma a
                    mesma poeira que alastra sobre a papelada escrupulosa, com selos de Estado, do
                    seu escritório. Olha-os e sabe logo o que há de dizer:</p>
                <p>— Os Exmos Senhores sabem a minha opinião. Uma casa respeitável não pode estar à
                    mercê de um charlatão. Vou falar à Exma. Senhora. E mandem já chamar os socorros
                    da nossa santa religião.</p>
                <p>Mas a Ex ma Senhora nem o quer ouvir. O que ela exprime por palavras, pelo olhar,
                    pelos gestos, é a ânsia de viver.</p>
                <p>— Não, não. Tirem-me para lá esse homem, O que eu quero é viver.</p>
                <p>Vê no último desespero aquela face estúpida dizer-lhe coisas grotescas:</p>
                <p>— O minha senhora cheguemo-nos à razão. Seja razoável.</p>
                <p>— Quero viver.</p>
                <p>— Temos em primeiro lugar a Igreja. Apelo para os seus sentimentos religiosos,
                    que os teve sempre, e diante dos quais me curvo respeitosamente. Apelo...</p>
                <p>— Quero viver!</p>
                <p>— Segundo lembro a V. Exa. que tem sido até agora mãe extremosa dos seus filhos.
                    Se volta aos vinte anos, pergunto respeitosamente a V. Exa., Exma. Senhora, que
                    é que V. Exa. é aos seus filhos?</p>
                <p>— Quero viver!</p>
                <p>— Perdão minha senhora! Esta fortuna tão bem administrada pelo casal de que tenho
                    sido bastante procurador a que mãos irá enfim parar? Peço-lhe que reflita.
                    Peço-lhe que se submeta. Lembro-lhe que estão ali fora seus respeitáveis filhos
                    subjugados pela dor, lembro-lhe a sociedade, e atrevo-me a lembrar-lhe que não
                    tarda aí o D. Prior.</p>
                <p>Um fio, falta só um fio, e ainda aquela figura grotesca se debruça para lhe
                    dizer: — V. Exa....</p>
                <p>— O minha senhora, uma pessoa tão religiosa, uma pessoa que sempre se conduziu
                    segundo os ditames da Santa Madre Igreja... Não tarda aí o D. Prior.</p>
                <p>— Acudam-me! Acudam-me! Quero viver e vocês querem-me matar. Dou-lhes tudo e
                    deixem-me viver. O que eu quero é viver!</p>
                <p>— Fechem as portas.</p>
                <p>— E eu grito que me querem matar. Os meus filhos é que me querem matar. E
                    súplicas, gemidos: — E a vida é tão linda!</p>
                <p>— Eu não posso ouvir isto! — diz o severo, o honrado Melias de Melo, com a calva
                    arrepiada. O que ele não pode na realidade ouvir são os gritos que chegam à rua.
                    Só esses.</p>
                <p>— Fechem as portas! Fechem as janelas! Fechem tudo!</p>
                <p>Tem forças para saltar da cama, para se arrastar ate a porta, e toda a noite no
                    casarão ecoam gritos.</p>
                <p>— Não quero morrer! Não quero morrer!</p>
                <p>Os dois sucumbem e tapam os ouvidos, fechados no sótão, com o procurador ao lado
                    dizendo frases, mais frases — que têm o selo do Estado, o cunho da regra, e vêm
                    no Diário do Governo. Pouco e pouco, a medida que os gritos decrescem, vão-se
                    aproximando da porta, atraídos, arrastados, até que cessam de todo. Morreu —
                    custou-lhe.</p>
                <p>— Está no céu — conclui com decisão o procurador. — E metem-na na cama.</p>
                <p>Foi um dos últimos enterros da vila e dos mais concorridos pelas pessoas de bem.
                    Custou a arrancar os filhos de cima do caixão. Acompanhamo-los na sua dor.</p>
                <p>Alguns suicídios, dois ou três envenenamentos. E a estas, a outras cenas, juntem
                    a voz do Santo, que ecoa do alto dos montes como a voz de um profeta. A vila
                    bate o queixo de terror. O Santo saiu para a rua e prega à canalha. Era um tipo
                    orgulhoso da sua humildade. — Talvez ser santo seja ter orgulho às avessas.
                    Cheirou as velhas, sacudiu as velhas e atirou com as velhas para a rua.</p>
                <p>Desprezou tudo — inveja tudo. Sente uma inveja sórdida. Perdeu a vida em
                    simulacros — agarra-se com desespero à vida. Suponham que este homem ainda pela
                    manhã saiu de casa com as fórmulas bem escovadas; suponham que, depois de dar
                    cara a cara com todas as interrogações e todas as dúvidas ao mesmo tempo e à
                    mesma hora, se vê bicho em frente de bichos, que crer e deixar de crer tudo se
                    realizou no mesmo instante, e que a sua figura é rodeada até ao infinito da sua
                    própria figura, olhando-o no fundo dos olhos e até ao fundo da alma. Tudo o que
                    desprezou, tudo o que calcou, tudo o que arredou, é que era a vida; tudo para
                    que viveu, tudo para o que gritou, tudo para o que sofreu, não existe. Mais
                    rancor e inveja... A esse homem quezilento passou-lhe a necessidade de ter uma
                    corte de idiotas. Organiza a espionagem. Sabe pelas criadas tudo o que se passa
                    nas casas. Cata todas as consciências. Uma enxerga basta-lhe, chega-lhe um
                    pedaço de pão, contanto que o temam e domine. Não se dá um passo na vila que não
                    lhe chegue aos ouvidos: os vícios, os grotescos, as infâmias, sabe tudo. É um
                    ouvido à escuta. E essa inquisição, essa espionagem, alvoroça a vila que não
                    dorme. Até agora sabia-se tudo — calava-se tudo. Por um acordo tácito uma parte
                    da nossa vida era reservada. e secreta. Quando muito contava-se de ouvido para
                    ouvido. Agora os segredos das alcovas, os escândalos, as torpezas, os
                    adultérios, são clamados de noite, do alto dos montes, sobre os telhados da
                    vila. O som cavo, transmitido por buzinas, ecoa e prolonga-se como a voz da
                    catástrofe. — Fulano dorme com Fulana. Escândalo. — Sicrano roubou os tutelados.
                    Infâmia. — Tem cuidado com a tua mulher... Grotesco. A vila não dorme, a vila
                    agacha-se passada de terror, cada um à espera da sua vez. Debalde tapa os
                    ouvidos. As Tinocas já reduziram três quintas a numerário, há três dias que as
                    Peixotos têm a prata enterrada na adega com medo a um saque.</p>
                <milestone rend="asterisks" unit="section"/>
                <ab type="dateline">13 de Maio</ab>
                <p>Lá vai a Teles, e a D. Restituta — lá vai a mulher da esfrega empurrando o
                    farrapo monstruoso que se agita na noite... A sombra e a mulher da esfrega, o
                    espanto e a mulher da esfrega, o sonho dourado de grandes asas esfarrapadas no
                    negrume e as mãos encortiçadas de lavar a loiça, a vida frenética e a vida
                    humilde. Uma boca enorme de um lado, a voz da Joana do outro, sentimentos
                    caóticos impossíveis de traduzir em palavras, o que exprime a natureza
                    impulsiva, o que responde uma criatura agarrada à ideia do sacrifício. — Anda
                    para diante. Estúpida! Estúpida! A bondade entranhou-se-lhe até ao âmago.</p>
                <p>Caminha ao lado da D. Restituta, que atravessou a vida com o guarda-chuva
                    incólume e que faz gestos desordenados no escuro:</p>
                <p>— Acuso! Acuso! Acuso!</p>
                <p>— Senhora D. Restituta...</p>
                <p>A senhora D. Restituta está cheia de lama. Tem a pena do quico partida: é uma
                    figura feita com três traços de tinta e algumas manchas de desespero. O sonho
                    doura-a, esfarrapa-a também. A pena em frangalhos agita-se como um pendão de
                    revolta, esgarçado e chamuscado. Todas as vontades a compeliram e a esmagaram —
                    quer retomar a forma primitiva. Dir-se-ia que cresce na noite, e que a sua boca
                    é uma bocarra cada vez maior, para pregar, para açular, para vomitar injúrias.
                    Somente não emite outro som senão este: — Acuso! — a velha gasta, a velha
                    inútil, a D. Restituta da Piedade Sardinha.</p>
                <p>— Senhora D. Restituta...</p>
                <p>A outra não vê, não ouve, não mexe.</p>
                <p>— Minha senhora...</p>
                <p>— Acuso!</p>
                <p>— ...para o que se vive neste mundo não paga a pena ruindades.</p>
                <p>Debalde a Joana lhe fala. Resta diante do sonho com a mandíbula despegada e o
                    velho guarda-chuva que conserva intacto desde a sua primeira virgindade — teve
                    duas — metido debaixo do braço. Nem uma nem outra entendem aquilo. Uma empurra,
                    afasta de si o sonho com as mãos de lavar a loiça, a outra com as mãos
                    pacientes, as mãos diáfanas da mentira. Tem feito sempre todas as vontades, e se
                    a figura um momento se engrandece, amarfanha-se logo, como um trapo suspenso que
                    se deixa cair ao chão.</p>
                <p>— Acuso! Acuso! Acuso! Um repelão — mete para dentro! Uma vergonha mete pró saco!
                    Desprezo, escrúpulo, fome — mete tudo pró saco! Para um saco sem fundo. Passei
                    tudo, passei mortes para o poder criar e nunca pude dizer que tinha um filho.
                    Para o criar, para o poder criar nunca pude ver o meu filho. Meti tudo pró saco,
                    sem poder abrir bico, senão matavam-me à fome... E nunca pude ver o meu filho,
                    senão matavam-me à fome. Criei-o longe para o poder criar, criei-o como pude, de
                    vergonha, de restos de côdeas, de dizer a tudo que sim. E este filho! Este filho
                    que nunca pude ver, vi-o agora! Este filho que criei de mentira, este filho que
                    criei de abjeção, sem nunca o poder ver, vi-o agora! Este filho que tinha
                    sonhado às escondidas, com a boca tapada para não gritar: Tenho um filho, também
                    tenho um filho! — Vi-o! Vi-o! Vi-o! Meti tudo pró saco! Meti o diabo no saco! Só
                    a noite me ficava livre para sonhar com ele, para o ver rico, para o ver como os
                    filhos das outras... Aqui está a Restituta que é idiota, aqui está a Restituta
                    que é um poço sem fundo. Diante dela pode dizer-se tudo, a Restituta serve para
                    tudo, a Restituta mete tudo para o saco. Cala-se que é o que lhe vale — mete a
                    viola no saco. Só a Restituta sabe o que se passa, o que esta no prego e o que
                    está no fundo das almas. Calei tudo, disse a tudo que sim para o poder criar.
                    Mete pró saco! Mete tudo pró saco! Mete a viola no saco! E num crescendo de
                    desespero: — Acuso! Acuso! Acuso!</p>
                <p>Debate-se numa cogitação a que não suporta o peso. É como se pela primeira vez
                    desse com a vida e quisesse atalhar a vida. Tudo para a Joana muda também de
                    expressão: a desgraça muda de expressão, a filha muda de expressão. E o sonho
                    envolve-a, deforma-a, besunta-a. Sente-se-lhe o ranger dos gorgomilos.</p>
                <p>A dor descarna-a e redu-la às linhas principais, à seca realidade. Um ulular de
                    tempestade, e tudo quieto. Nunca o côncavo se concentrou em maior serenidade.
                    Gritos, um desabar monstruoso, e este ser abjeto, que, como uma coisa que andou
                    a rasto por todos os sítios suspeitos, não tem forma nem cor: tem cheiro, e dois
                    olhos de tanto pasmo que fazem aflição. Desapareceu tudo: ficou a velha, ficou a
                    desgraça aos tropeções pela vida fora.</p>
                <p>É como se tivessem metido a dor dentro de um saco e dessem com ele pelas
                    paredes.</p>
                <p>Aqui estão a mulher da esfrega e a desgraça que tem os seus direitos e não os
                    perde nem transige. Não a larga também o sonho. Agora é que ela destinge todo o
                    dourado e toda a água de lavar a loiça. Agora é que ela ouve uma boca enorme
                    falar no escuro, e queda-se atónita e confusa feita trapo e horror.</p>
                <p>— Para que é que vossemecê me criou?</p>
                <p>Um soluço, um ranger de árvore que se deita abaixo, um estalido de cruz que não
                    suporta o peso.</p>
                <p>— Antes vossemecê me tivesse esganado ao parir. O que eu tenho chorado!</p>
                <p>— Anh!...</p>
                <p>— Olhe para mim! Olhe para mim!</p>
                <p>É um ser diferente, um ser à parte, que a Joana vê pela primeira vez. Como pôde
                    criá-lo aos seus peitos? Criar vida é criar um grito que não se extingue? Que
                    nunca mais se cala? Sempre o mesmo grito: — Para o que tu me criaste! Para o que
                    tu me criaste! Juntem a isto o escárnio e todas as vozes que lhe pregam: —
                    Estúpida! Estúpida! Toda a gente se ri de ti!</p>
                <p>— Andou nas mãos dos ladrões. — Rouba! Rouba!... E aperta nas mãos uma chave, um
                    pedaço de ferro gasto e polido como o aço, que entranha na pele, para que lha
                    não tirem. Um gemido luta com uma risada e tenta subir mais alto, cada vez mais
                    alto... Juntem a isto que a Joana quer ser má e não pode, e misturem a isto
                    humildade. Aqueceu a vida a bafo. Incutiram-lhe para sempre a subordinação, só
                    lá tem dentro ternura. Faz o gesto de quem tenta abrir uma porta; quer levantar
                    a cabeça, mas tanto tem obedecido que curva logo a cabeça. Ridículo sobre
                    ridículo.</p>
                <p>Agora vejo a figura, vejo-a agora completa. Pouco e pouco tomou relevo, tornou-se
                    humana. Sumiu-se a velha tonta, caldeou-a a desgraça. À força de gritos
                    represados obsidia-me. Engrandece-a a mentira e a dor. E aquilo persegue-a,
                    encarniça-se sobre a velha trôpega, num espetáculo ao mesmo tempo desmedido e
                    reles. A velha de um lado, do outro a grande sombra trágica que subverteu o
                    mundo; o escantilhão sôfrego, e o gesto que a mulher da esfrega faz para o
                    afastar de si. Ao mesmo tempo a alma dorida, a ternura que a não larga, e o
                    contacto feroz que não explica e a que sente o peso. Atormenta-a, sufoca-a, e
                    como não pode mais, como não compreende — não consegue — e como aquilo se
                    encarniça, a Joana mostra-lhe as mãos enormes, as mãos roídas, as mãos só
                    dor...</p>
                <p>Tem as mãos como cepos.</p>
                <milestone rend="asterisks" unit="section"/>
                <ab type="dateline">31 de Maio</ab>
                <p>Donde emerge esta figura encharcada de lama, menos a sombrinha, que, apesar da
                    dor, conseguiu atravessar incólume todos os solavancos? A que se atreve depois
                    de ver o filho? Cheguei a ter a visão nítida da montanha de pó acumulada sobre
                    ela, e do desespero imenso para a romper.</p>
                <p>Sabe tudo, vai dizer tudo. Tem ali as cautelas do prego e a malinha de mão onde
                    levava escondidos, a enterrar, os fetos da D. Engrácia; só ela pode desvendar os
                    vícios ocultos e o sítio onde a D. Biblioteca tinha a sua fístula. Conhece as
                    misérias e os segredos das famílias corretas. Vai enfim dizer tudo, quando lhe
                    surge o filho que não via há anos. Ei-lo criado de orgulho e de côdeas.
                    Submete-se logo, mais coçada e mais gasta, diante daquela obra-prima real e
                    tangível. — Pois sim, pois sim... — Aí tens tu o teu sonho alimentado de côdeas
                    e transformado em realidade. Aí está patente o sonho que sonhaste com inveja, o
                    sonho que sonhaste com fel, aos ais, com a boca tapada, o sonho feito de
                    farrapos, que ocultaste de toda a gente para poder viver. Aí está patente, à luz
                    do sol, como os sonhos dos outros, de ambição e de império, o sonho que ninguém
                    viu sonhar, e que sustentaste à custa da tua própria alma — ó Restituta da
                    Piedade Sardinha!</p>
                <p>...-Sejamos lógicos mãe — diz ele — na vida é preciso ser lógico. A mãe criou-me
                    escondido, eu, por meu lado, disse sempre que não tinha mãe. Não hei de agora
                    que vou casar apresentá-la: — «Aqui está a minha mãe que me criou de esmolas,
                    que me criou escondido».</p>
                <p>— Tens razão, filho.</p>
                <p>— É que eu sou lógico. Eu agora não hei de dizer que sou seu filho. Estrago tudo,
                    deito tudo a perder, se apareço com uma mãe que nunca foi minha mãe.</p>
                <p>— Tens razão.</p>
                <p>— O que é preciso é que a mãe desapareça. O que é preciso é que a mãe, que tem
                    sido lógica deixando-me fazer carreira, não estrague agora tudo. Sem mãe caso
                    rico. Caso com a filha do conselheiro Barata. Até agora podia' escondê-la, minha
                    mãe, agora é impossível. Quem soube sacrificar-se para me engrandecer, deve
                    continuar a sacrificar-se. Não lhe peço mais nada: desapareça.</p>
                <p>— Desapareço.</p>
                <p>— Oh minha mãe, entendamos. Eu não a repilo. Respeito-a até. Quem me dera andar a
                    passear consigo, mostrá-la a toda a gente, ir consigo ao Paço! Mas se não caso,
                    fico pobre toda a minha vida e ninguém faz caso de mim. Desprezam-me. Não entro
                    na política. Se me queria pobre a seu lado, tivesse-me sempre a seu lado.</p>
                <p>— Tens razão.</p>
                <p>— É o último sacrifício que lhe peço. Quem se tem sacrificado tanto, tem
                    obrigação de se sacrificar mais uma vez. Criou-me, não lhe exijo mais nada.</p>
                <p>— Tens razão, filho.</p>
                <p>Ela própria tem por aquela obra monumental de egoísmo, o respeito que teve sempre
                    por as pessoas consideráveis. Está ali na sua frente de chapéu lustroso e luvas
                    esticadas. Acrescentem a isto amor. Levou anos a criá-lo escondido, e revê-se
                    embevecida nos cartões em que ele assina Monfalcão dos Monfalcões (Sardinha). De
                    resto não lhe custa nada desaparecer. Não lhe custa mesmo nada. É mais uma ordem
                    a cumprir. Obedece. Obedece, como obedeceu sempre à D. Hermengarda, à D.
                    Teodora, à D. Hermínia, como obedeceu a todas as pessoas ricas e de
                    consideração, como obedeceu à vida que fez dela um trapo. Apenas um minuto e
                    esse minuto chega. Um minuto e mais nada. Nesse minuto a figura contraída
                    reconhece a figura de trapos e de restos. Nesse único minuto de dúvida a D.
                    Restituta vive mil anos e um dia e concentra-se em horror e desespero. É o
                    minuto supremo em que a velha Pois Sim se sente arrastada ao céu e ao inferno,
                    ouve vozes que falam ao mesmo tempo, e ela mesmo pronuncia palavras que nunca
                    ousou pronunciar, nem mesmo no recanto mais obscuro da sua alma. — Vi-o! Vi-o!
                    Vi-o! — Salta laré, perirone perirote!... A sacudidela de revolta extingue-se,
                    sai da luta exausta, com todo o peso da montanha em cima, diminuída, reduzida
                    outra vez a pois sim... Esses minutos que passou só e contemplando a ruína de
                    toda a sua vida foram amargos como fel. — Mete o diabo no saco! — Tão cansada e
                    tão gasta que nem as feições lhe reconheço; tão amarga e tão ridícula, tão pois
                    sim, que da D. Restituta só resta uma expressão de dor, de dor mutilada a dizer
                    que sim, sempre que sim — a dizer a tudo que sim.</p>
                <p>Depõe a sombrinha imaculada no sítio do costume, aberta para a poupar, e, depois
                    de lhe limpar com extremos de cuidado uma nódoa na ponteira, senta-se à mesa e
                    escreve:</p>
                <p>«Últimos conselhos de uma mãe a seu filho. — Filho, fui eu que te criei.
                    Sustentei-te de restos, de pobreza, de humildade. Só pensei em ti: tens,
                    portanto, obrigação de ouvir os últimos conselhos que te dou. Olha que és o meu
                    filho, o filho que criei de dia, de noite, de fome, de obediência e de sonho
                    amargo. Criei-te para que pudesses um dia pertencer às classes elevadas. Por
                    isso sofri, para isso sonhei, para isso desapareço, agora que cumpri o meu
                    destino.</p>
                <p>Filho: mente. Às pessoas ricas é preciso mentir sempre e dizer sempre que sim.
                    Deve-se-lhes consideração, deve-se-lhes obediência. Nunca te ligues com os
                    pobres. Para pobres bastamos nós. A pobreza pega-se, não há nada no mundo pior
                    que a pobreza. Tem cuidado com a língua. Pela boca morre o peixe. Nunca digas o
                    que sentes: o que a gente sente é sempre urna inconveniência. Há pessoas que
                    dizem: — Eu gosto que me contradigam. — Foge delas como o Diabo da cruz. O que
                    toda a gente quer é que os outros sejam da sua opinião. Só os ricos têm direito
                    de contradizer os pobres. Um pobre não deve ter opinião. Guarda as
                    conveniências, acima de tudo guarda as conveniências.</p>
                <p>O mundo antigo tinha muito de bom; sabendo-se ser agradável arranjava-se lá um
                    cantinho. A morte é indispensável para as pessoas herdarem, e para nos dias de
                    luto se desanojarem os ricos. Foge do pecado. Sê religioso e temente a Deus.
                    Nunca digas mal de ninguém. E habitua-te filho, habitua-te que é o grande
                    segredo da vida. Habitua-te a cumprir os teus deveres para com a sociedade. O
                    dever acima de tudo, o dever de te subordinares para que te não queiram mal. Não
                    te esqueças também dos pequenos deveres de cortesia. Não te esqueças de que no
                    dia 21 de Julho faz anos o teu padrinho, nem de deixares cartões de visita às
                    pessoas respeitáveis. Há-as que fingem que não reparam nessas coisas. São as
                    piores, são as que reparam mais. Respeita. Respeita a lei, os superiores, a
                    Igreja, os ricos. Num caso grave da tua vida chega-te ao pé do conselheiro
                    Pimenta e diz-lhe com humildade: — Eu sou filho da Restituta que era prima de V.
                    Exa. — E mais nada. Não sejas causa de desordem nem de escândalo. Fala baixinho,
                    e mente, filho, mentir não custa nada. Nunca digas a verdade porque pode vir a
                    saber-se. Deus nos livre da verdade. Mente para seres agradável aos outros e a
                    ti mesmo. E sobretudo, repito-te, diz sempre que sim. Não custa nada dizer que
                    sim, dizer a tudo que sim, dizer sempre que sim. Tua mãe, Restituta da Piedade
                    Sardinha.»</p>
                <p>Baloiça ao vento, a uma réstia de luar, pendurado numa corda, o cadáver da D.
                    Restituta, que parece dizer pela última vez que sim — para que o filho possa
                    casar com a filha do conselheiro Barata. Baloiça ao vento num sexto andar —
                    esquerdo. Morre ignorada e desconhecida quem toda a vida viveu de côdeas, para
                    lhe assegurar o futuro e a assinatura com brasão e elmo, Monfalcão dos
                    Monfalcões (Sardinha). Da mão crispada ninguém lhe arranca a fotografia de
                    quando ele era pequeno, com o fardamento da Escola Académica, como um
                    guarda-portão em miniatura. A sombrinha lá está aberta ao lado da cama, por
                    causa da humidade, e pela janela, aberta sobre o luar, vêem-se os montes onde o
                    Santo colérico não cessa de latir injúrias sobre a vila agachada de terror.</p>
            </div>
            <div>
                <head>Capítulo XIII</head>
                <head>NOVAS MÁXIMAS</head>
                <p>Se Deus não existe e a outra vida não existe — se disponho só desta vida, os
                    deveres que tenho a cumprir são apenas os do instinto. Só tenho deveres enquanto
                    não me pesam. Não te deixes iludir.</p>
                <p>Era sempre com secreta irritação que eu fazia o bem. O bem contraria. Fugi sempre
                    a este problema... Era sempre num impulso de paixão — e com todo o meu ser, que
                    eu fazia o mal. O sacrifício, a piedade, a bondade só têm lugar no mundo como
                    culturas artificiais.</p>
                <p>Repete isto: a bondade é um sentimento falso e o mais artificial de todos os
                    sentimentos.</p>
                <p>O mal é uma prova de saúde. Até o povo diz que os bons são os que Deus leva
                    primeiro.</p>
                <p>Ah sim, a ironia... Há de te servir agora de muito a ironia!</p>
                <p>O dever acabou, o estúpido dever, o dever que me dominava a vida com um peso de
                    chumbo, o dever de fazer todos os dias as mesmas coisas inúteis. Respiro.</p>
                <p>Sim, a amizade... Falemos aqui baixinho um com o outro. Essa amizade era o meu
                    interesse ou o teu interesse. Dominavas-me ou dominava-te. Passei anos sob esse
                    jugo, e agora descubro com alegria que te detesto. Detestei-te sempre.</p>
                <p>Odeio-te porque vales mais do que eu; odeio-te porque podes mais do que eu.</p>
                <p>Assistir à ruína dos nossos amigos é talvez melhor do que assistir à ruína dos
                    nossos inimigos.</p>
                <p>Agora Deus é um deus amorfo e prestável. Cada um faz dele o que quer: está por
                    tudo. É um deus cómodo. Para os pobres é necessário inventar outro deus, um deus
                    que não tenha onde cair morto e que lhes prometa, como compensação, o outro
                    mundo: «É mais fácil um camelo entrar pelo fundo de uma agulha que um rico no
                    reino dos céus», etc.</p>
                <p>Eu sou a única consciência nesta barafunda cega e sôfrega.</p>
                <p>Há que tempos que eu sabia que tu não existias. Restava-me certo medo, não sei
                    que receio indefinido e vago. Esse pudor desapareceu.</p>
                <p>O adultério é uma questão de teatro.</p>
                <p>Acaba de tirar a máscara. Arranca de vez a máscara... A mulher honesta só tem
                    deveres a cumprir; a outra atirou com o fardo pela borda fora e afronta-a.
                    Põe-nos à vontade. Com ela avançamos e regressamos: é a besta e a mulher de
                    luxo. Até agora a ideia religiosa constrangia a mulher dentro do que chamamos os
                    seus deveres. Só a mulher cristã pode lutar com o instinto e vencê-lo... Sê
                    lógico e prático: para maior comodidade exige para ti a liberdade de consciência
                    e mantém-na a ela dentro de ideias absurdas.</p>
                <p>Temos de fabricar novas leis. As que estão já não têm serventia: falta-lhes
                    consistência. Uma lei só tem ação interior enquanto é religiosa. Já há muito que
                    ninguém acredita nas leis, mantemo-las como defesa da sociedade. Ah, mas então
                    acabemos de vez com a hipocrisia... Façamos leis para as classes superiores, e
                    leis para as classes inferiores — leis para os pobres e leis para os ricos. As
                    leis modificam-se com as consciências, e as consciências modificaram-se.</p>
                <p>Roubar já se não chama roubar. Este homem que comanda uma frota da Baía a Tunis,
                    é um financeiro e um poeta. Faz a fome e a fartura. Arruína um povo — e
                    enriquece. Uma revolução, dois, três navios vão pelos ares... Mais negócio,
                    melhor negócio. Este médico, este advogado, este honrado comerciante,
                    exploram-te. Enriquecem. Desçamos na escala: ali à esquina levam-te a carteira
                    com uma nota de dez mil réis. A isto é que se chama roubar.</p>
                <p>Não percas a consideração. É o que ninguém te perdoa. Conserva as aparências. É o
                    que exigem de nós. Respeita a fórmula. A fórmula é o principal.</p>
                <p>Não hesitemos em modificar a educação. Tudo o que fizermos noutro sentido é
                    perigoso. Pobres educam-se como pobres, ricos educam-se como ricos. Formemos
                    classes — as de cima e as de baixo. O problema da educação é um problema
                    capital.</p>
                <p>O corpo médico também evolucionou. A sua grande missão consiste em matar, em
                    suprimir os sifilíticos, os paranoicos, os tuberculosos, todos os que constituem
                    um perigo para a humanidade futura.</p>
                <p>O futuro há de dividir a história em três períodos: o dos senhores; o da Igreja
                    que manteve os desgraçados na subordinação, prometendo-lhes o reino dos céus; o
                    dos escravos...</p>
                <p>O amor é um único minuto. Um minuto esplêndido. O resto é hábito, palavras,
                    hesitações, trampolinice, livros de capa amarela...</p>
                <p>O super-homem refastelou-se enfim na vida. É um tipo louro, eloquente e
                    perspicaz. (As pessoas honestas conhecem-se logo pela falta de ironia e pelo
                    coçado...) Tem diante de si séculos de existência — e aborrece-se. Tal horror ao
                    nada que — para viver ainda mais — alimenta-se de côdeas. Todo o esforço lhe
                    parece vão, tudo lhe parece falho de nexo: só os charlatães têm ainda algum
                    domínio sobre ele. Imponentes criados de farda servem-lhe dois pedaços de pão na
                    baixela armoriada: come-os devagarinho — e, para não pensar, para não cismar,
                    toda a noite lê romances de Gaborieu, onde o mesmo polícia persegue o mesmo
                    gatuno, onde o mesmo gatuno foge sempre ao mesmo polícia.</p>
                <p>A vida modifica-se noutro sentido. Falta ternura ao mundo. Acabou a piedade que
                    provinha de nos sentirmos transitórios e o egoísmo redobra. Os ouvidos
                    cerraram-se de todo à desgraça. A base da existência é um cálculo. As manias
                    engrandeceram. Acabou o amor, e a mulher é um mero animal de presa. O drama do
                    trapo assume proporções de tragédia. Sobre as tábuas e os muros só se leem
                    cartazes de unguentos, pílulas, remédios secretos ou máquinas de escrever. Todas
                    as florestas se converteram enfim em papéis, jornais, Séculos; todas as aves do
                    céu em chapéus de mulher.</p>
                <p>Muitos prefeririam voltar para trás, para a toca cómoda da mentira e do hábito, a
                    que à força de uso desgastaram as arestas. Não podem. Olham direitos para o
                    sonho. Estavam habituados a tirá-lo de longe a longe, a medo e a furto, de um
                    fundo recôndito, para só viverem nesse instante supremo. Agora expõem-no ao sol.
                    Outros tinham acabado por suportar o que se chama a felicidade conjugal, o
                    hábito de se dizerem ano atrás de ano as mesmas ninharias, no relento suspeito
                    da mesma cama, e de se adaptarem tolerando-se. Alguns chegavam a julgar-se
                    felizes... Atiram-se a infâmia, o deboche, o tédio e o nojo, como farrapos que
                    de si próprios arrancassem, e partem cada um para seu lado, livres e fartos de
                    mentira.</p>
                <p>Na pequena vila já havia, como em todas as almas, um Robespierre, um cadafalso,
                    um Shylock interior, ódios, ganância e uma serigaita a cantar. O quinhão é igual
                    para todos — o que pode é estar sepultado. A questão era de proporções: os
                    valores já não estão na mesma escala. Desapareceu o ridículo. Pensem nisto:
                    desapareceu o ridículo.</p>
                <p>Tu lutas contra esta figura que dentro de ti te impele; — tu queres fugir de ti
                    próprio, queres separar-te de ti mesmo, e não podes. Só consegues, à custa de
                    esforços desesperados, manteres-te dentro da fórmula ou da máscara que
                    escolheste, e arredar o crime e a loucura, e fingir e sorrir; tu pudeste iludir
                    o fantasma, seguindo pelo caminho trilhado. Iludiste os outros e a ti próprio te
                    iludiste. Agora não. Agora sentes-te capaz de tudo. As grandes sombras que se
                    entravaram a vida, ei-las reduzidas a dois punhados de cinza. Valia a pena a
                    luta? O homem é sempre a mesma lama, os mesmos despeitos e os mesmos rancores,
                    com resquícios de oiro à mistura. O que pode fazer é dominá-los. Mas sai sempre
                    da luta esfarrapado e perguntando a si mesmo baixinho: — Valeu a pena? Valeu a
                    pena? Depois que se venceu que lhe resta? Ele e o vácuo, ele e a saudade da lama
                    que fazia parte integrante do seu ser. Ficou diminuído. A escuma também tem os
                    seus direitos. Tudo se lhe afigura agora sob novo aspeto, e surpreende-se a rir
                    de si mesmo. Bem vês a insignificância tem de durar mil anos, a vulgaridade e a
                    ternura têm séculos diante de si, de forma que tanto vale a ternura como a
                    vulgaridade, tanto me pesa uma como a outra. Abafo. Tenho de durar mil anos,
                    tenho de durar dois mil anos, tenho estas coisas diante de mim hoje, amanhã,
                    sempre. É escusado lutar. Enquanto era a razão que me guiava, andava às
                    apalpadelas: agora é o inconsciente e cessaram de todo as dúvidas.</p>
                <milestone rend="asterisks" unit="section"/>
                <ab type="dateline">23 de Junho.</ab>
                <p>Todos nós pelo pensamento somos capazes de hecatombes. Detinha-nos a vida
                    artificial, uma arquitetura mais temerosa que todas as catedrais do globo postas
                    umas em cima das outras.</p>
                <p>Se me esqueço o meu pensamento disforme deita-se logo a caminho...</p>
                <p>Vejo-o caminhar e não o posso deter. Por mais esforços que faça não o posso
                    deter. É como se eu criasse figuras, que se pusessem logo a caminho. Todos os
                    fantasmas se dissolviam à luz da madrugada. Agora estas figuras têm de cumprir
                    um destino. E pergunto a mim mesmo baixinho se na verdade eu não desejo que
                    avancem um passo — e outro passo ainda...</p>
                <p>Tinha medo de aparecer no outro mundo deformado e grotesco, e agora tanto faz
                    entrar na morte repulsivo, como transfigurado e só dor.</p>
                <p>Olhava este momento que ia desaparecer, com saudade — porque nunca mais se
                    repetiria no mundo. Nunca mais outro segundo igual nem na luz, nem vibração, nem
                    na ternura... O momento em que me sorriste, baloiçado entre o nada e o nada,
                    nunca mais se tornaria a repetir, idêntico e completo, em todos os séculos a
                    vir! Estava ali a morte — está aqui a vida. Agora pergunto a mim mesmo se te
                    deixo morrer; e a pergunta obsidia-me e exige resposta imediata. Sei tudo, tudo
                    o que me podes dizer — já eu o disse a mim próprio. Até hoje falava a alguma
                    coisa que me ouvia, hoje só interrogo a mudez, só a mim mesmo me interrogo.</p>
                <p>Há entre as figuras que compõem o meu ser, duas encarniçadas uma contra a outra.
                    Há uma que crê, outra que não crê. Há uma capaz de todas as cobardias, outra
                    capaz de todas as audácias. Há uma pronta para todos os rasgos e outra que a
                    observa e comenta.</p>
                <p>Mas há entre as figuras que compõem o meu ser, uma que está calada. É a pior.
                    Olha para mim e basta olhar para mim para que eu estremeça. — Por muito que me
                    acuses, já eu me tenho acusado muito mais!</p>
                <p>Olhas-me e eu estremeço. A sofreguidão dos teus olhos, a sofreguidão verde dos
                    teus olhos, que me reclamam como um abismo de dor e de espanto onde encontro
                    enfim a vida!</p>
                <p>Se te quisesse descrever, não te podia descrever. Sei que me pertences e que te
                    pertenço.</p>
                <p>Talvez as almas fossem mal conduzidas, talvez já adivinhássemos o universo e
                    depois o esquecêssemos. Creio que se não complicássemos a vida e a dirigíssemos
                    noutro sentido, pressentiríamos tudo e resolveríamos tudo. Há em todas as
                    existências alguns segundos em que sentimos o contacto do mistério — de que nos
                    separam logo léguas de impenetrabilidade.</p>
                <p>Alguma coisa porém se interessa pela minha dor. Todas as noites grito, todas as
                    noites sufoco os gritos. Todas as noites me debato com o mesmo problema e a
                    mesma angústia. E há uma coisa que assiste a este espetáculo e se interessa, que
                    cada vez me mergulha mais fundo para que eu me despedace — e se interessa...</p>
            </div>
            <div>
                <head>Capítulo XIV</head>
                <head>CÉU E INFERNO</head>
                <p>Como as velhas engrandecem, novas por fora, secas por dentro! Estão aqui todas,
                    estão aqui todas, no céu e no inferno. Aqui está a D. Pavoa diante desta ideia:
                    — Não há Deus nenhum! Aqui está a D. Pavoa, da Ação Católica, que exclama
                    estupefacta: — Mas este Deus criei-o eu da melhor e da pior parte do meu ser! E
                    detém-se diante de si mesma, para arremeter, primeiro com espanto, depois com
                    cólera, aos pontapés às teias de aranha, aos trapos, ao absurdo, que foram a
                    razão da sua existência. Aqui estão todos como feras. Respira-se. Aqui está o
                    homem que atirou com o fardo pela borda fora, aqui estão as frases, aqui estão
                    os honrados comerciantes, os impolutos magistrados, aqui estão as forças nuas,
                    de dentes arreganhados. Aqui está o juiz, que dormia com a mulher e a criada,
                    frente a frente com os ladrões que condenou no tribunal. Aqui está a D. Soberba
                    e a D. Pelintrice. Aqui está o honrado Elias de Melo, sem a camada de
                    respeitabilidade de que se revestiam certos bichos. Eis aqui o escrúpulo, a
                    firma, a honra, o crédito, o respeitável Elias de Melo, que a si próprio se
                    venera e usa a cabeça como quem traz um resplendor, a máxima regra, o máximo
                    asseio, a pontualidade, a risca ao lado, a escrituração por partidas dobradas.
                    Olhem que isto de a gente se preparar toda a vida para um altar e perceber que
                    não vale um pataco, não é brincadeira nenhuma! Aqui está este homem vestido em
                    frente deste homem nu, a fama, o crédito, a praça, ao pé desta coisa desordenada
                    que se encarniça e não nos larga, ó Elias, ó Melias, ó Melambes! A consideração
                    não existe! A praça não existe! Aqui estamos todos bichos em frente de bichos,
                    os que pagam as letras e os que têm as letras protestadas, nós e nós, nós e os
                    ladrões das estradas, nós vestidos e grotescos, nós nus e trágicos — nós e o
                    universo monstruoso!</p>
                <p>Range a D. Inocência, uiva a D. Engrácia, e todos fitam com olhos de saudade e
                    desespero a pele que largaram. Estão ali estateladas as mil e unia mentiras, as
                    mil e uma hipocrisias, todas as falsidades de que é feita a vida, as fisionomias
                    de que te compões, as palavras que forjaste e que forjei. Soou a hora absurda em
                    que descobres e eu descubro que atrás disto só existe o interesse; a hora
                    sentimental em que a velha pintada e repintada rasga o testamento na cara dos
                    herdeiros; a hora sobretudo poética, em que, depois de nos vermos uns aos
                    outros, mostramos os dentes uns aos outros como feras; a hora trágica em que
                    procuramos ainda arrepanhar alguns restos de frases, e as frases já não nos
                    servem de nada; a hora quimérica em que a vila toda dá com a vila toda em pêlo.
                    Eis aqui as forças, a comédia e a tragédia desmascaradas. Reconhecemo-nos todos
                    — vemo-nos todos. E a esta luz pavorosa, a esta luz crua, a esta luz que nos
                    bate de chapa, compreendemos que criamos tudo à custa de dor. Cem bocas falam ao
                    mesmo tempo no céu e no inferno... — Chegamos todos ao fundo de nós mesmos. (Eu
                    já não saio daqui sem saber também quem sou...) Chega mos todos ao ponto em que
                    não podemos discernir o bem do mal, o céu do inferno... Mais um passo e não
                    separo a tragédia do grotesco.</p>
                <p>As velhas encarniçadas são outras, são velhas em sonho vivo. — Mata! Mata! Mata!
                    — Aqui de rastos, ano atrás de ano, para ser comida! — Aqui a levar pontapés
                    neste sítio, aqui a criar rugas e fel! — Pois eu não fui eu, e agora estou
                    diante disto, deste assombro e deste desespero! Gritam porque se não podem ver.
                    Gritam porque a realidade e o sonho tomaram proporções que lhes não cabem nas
                    almas. Gritam porque não lhes entreveem o fundo. A D. Penarícia tirou a cuia
                    postiça e atirou com a cuia ao chão. Depois fitou os olhos na cuia enrodilhada,
                    e absorveu-se na cuia de retrós, como se tivesse ali em frente o símbolo do
                    universo: — Não posso desfazer-me disto! Não posso desfazer-me disto! Toma! Eu
                    não sou isto, e hei de estar aqui sufocada a aturar-te para não morrer à fome.
                    Hei de ver-me e ver-te e hei de dizer: — Jogo! Hei de fazer-te as vontades e
                    ver-me tal qual sou, tal qual era e tal qual hei de ser? — À espera de quê, se
                    nem a morte podemos esperar? — Então este esforço para ter uma alma não se
                    conta? Este esforço para não andar de rastos como a cobra? Para viver com isto?
                    Com esta amargura, o fel, o que é mesquinho e com Deus? Eu não posso com o que
                    não compreendo, com o que está por trás de mim, com o que está a meu lado e com
                    o que tenho de fazer todos os dias... — Falo! — Falo eu agora! A tragédia é que
                    eu iludia-me, mentia a mim mesmo e agora não posso mentir. Não há gritos que te
                    valham e a ninharia desapareceu do universo. A insignificância acabou. — O pior
                    drama — exclama outra — é que eu vejo o que fiz de mim própria. E a Teodora
                    exclama: — Tenho saudades do inferno! Tenho saudades do inferno!... Aí está por
                    que elas gritam e eu grito com elas. É o momento decisivo, quando, de pé, em
                    roda da mesa onde foram insignificantes pacientes e grotescas, se veem umas as
                    outras. E pior momento é ainda quando a si próprias se veem; quando se chocam
                    como ferros, quando os seus olhos adquirem tal fixidez, que já não são só elas
                    que olham; quando ao espanto se junta ferocidade, e não são só elas que falam,
                    mas todas as vozes, nem só as suas figuras que gesticulam, mas todas as figuras.
                    A mesa do jogo é a mesma, o candeeiro escorre o mesmo petróleo, e sobre elas a
                    figura imensa, as outras figuras invisíveis e todas as figuras invisíveis, arfam
                    de desespero.</p>
                <p>Tudo isto caminhava para um fim, tudo foi desviado ao mesmo tempo desse fim; tudo
                    isto se alimentava de certas regras, tudo avança desesperado, aos gritos,
                    ansioso e doloroso: — Pois és tu! És tu! E o interesse és tu! E o amor és tu! O
                    desespero aumenta, os gritos redobram. As criaturas com que deparo são
                    temerosas. Uns desatam a rir com rancor e sarcasmos sobre sarcasmos. Há-os que
                    se reduzem a baba e a pó. — O quê, tudo isto era tão pequeno! Pois passei metade
                    da existência, anos atrás de anos, ao lado desta coisa feroz e esplêndida,
                    absorto em ninharia! E nunca dei pelo assombro, pela vertigem! Atrevo-me a
                    matar, atrevo-me a odiar, atrevo-me a escarnecer-te... — Mas então — pergunto —
                    eu fui o homem escrupuloso, eu fui o homem honesto que lutei toda a vida com os
                    maus instintos, num combate perpétuo — para isto? Pergunto — para isto? Ali
                    aquela desata aos berros e seres caminham transfigurados; seres que nunca
                    sonharam, matéria impenetrável, deparam pela primeira vez com o sonho, o que os
                    deixa atónitos. A D. Úrsula, que passou a vida a esfregar, a polir, a limpar os
                    móveis reluzentes, deita-os todos a esmo do terceiro andar à rua. — Adoro-a mas
                    não posso separar o interesse do amor — não posso separá-los. Está dito e
                    redito. No fundo do meu pensamento, bem no fundo de meu horrível pensamento, uma
                    outra ideia luta, avança e não a posso arredar. Estraga-me a vida toda. O mundo
                    moral está com escritos e reduz-se a uma loja escura, com teias de aranha no
                    teto.</p>
                <p>Não posso anotar o desenlace de todos os dramas ocultos, dos dramas da inveja, do
                    drama que se esconde debaixo dos telhados e no fundo secreto de cada alma, do
                    drama que a ficção continha e que nenhuma força contém agora. Falta-me o homem
                    defronte do homem e vê-lo ganir de terror, depois que, suprimindo a morte,
                    suprimiu a ilusão. Faltam-me todos os desenlaces, mas só tu compreendes do que
                    tu és capaz. Só tu, que nalguma hora, nalgum minuto, pudeste olhar-te cara a
                    cara, desviando logo o olhar. O minuto agora é a eternidade. Falta-me estatelar
                    diante de ti a tua alma e a minha alma, todo o mundo subterrâneo, apontar os
                    gritos e os instintos, e descrever o que se não pode descrever, porque não há
                    palavras para o bafo que vem dos confins dos séculos, nem cores para a lama que
                    sobe e alastra. Gritos, mais gritos, mais sarcasmos e insultos. — Como eu te
                    reconheço! E a ti! E a ti! — E a ti que és a figura silenciosa que há tanto
                    tempo me persegues, calada e triste, e que eras a pior. Tu que curvas a cabeça,
                    sem nunca te pronunciares, tu que sofres quando eu sofro, que te envolves em
                    silêncio quando persisto neste caminho doloroso — como te reconheço! — Dá
                    gritos! Podes gritar à tua vontade! Agora é pior, agora tanto faz resistir um
                    dia como um século. Agora é pior: não nos podemos ver. Como dois amigos que se
                    encontram passados muitos anos, perdemos todos os pontos de contacto. Estamos
                    aqui a representar: a verdade é que não nos podemos ver. Eis-nos bichos em
                    frente de bichos. Acabou tudo, acabaram as transigências, as dúvidas e os
                    escrúpulos. O sonho pertence-me, a vida pertence-me. É este. É este tal qual.
                    Era isto que eu não queria ver, este grotesco, esta crueldade, estas ideias, de
                    saque, de astúcia e de dor. Era isto enfim.</p>
                <p>Que trabalhão de fórmulas, de leis civis e de leis religiosas, para que a D.
                    Insolência e a D. Ninharia não fossem direitas aos seus apetites e se
                    contivessem dentro do pudor, da ordem e da regra! Acabaram-se-lhes os escrúpulos
                    e a luta constante com os instintos, a análise de todos os dias, que nos deixava
                    ensanguentados e esfarrapados.</p>
                <p>Vamos entrar noutra vida, noutra vida enfim, sem Deus, sem fé, sem regras que o
                    instinto nos impõe, ó D. Teles das Reles de Meireles, e talvez seja esta a
                    tranquibernia por que suspiramos sempre. Eis-nos na suprema beatitude, homens e
                    bichos ao mesmo tempo, sem hesitações nem dúvidas, e podendo realizar todo o mal
                    de que somos capazes. Falta um passo para sermos grotescos e horríveis, para
                    ascendermos enfim, depois de uma agonia de séculos e séculos, ao céu e ao
                    inferno.</p>
                <p>Agora estou nu e toda a mentira me é impossível; agora estou nu e todas as
                    palavras são inúteis; agora estou nu diante da imensidade e não posso ao mesmo
                    tempo com o céu e o inferno. Este momento trágico, esta pausa, este horror em
                    que cada um se vê na sua essência, em que cada ser se encontra sós a sós com a
                    sua própria alma, reduzido sem artifícios à sua própria alma, só tem outro a que
                    se compare, aquele em que cada um vê a alma dos outros. Porque, por melhor ou
                    pior que tenhamos julgado os outros, vimo-los sempre através de nós mesmos.</p>
                <p>Toda a vila, a vila toda, a que a luz artificial dava relevo, desata a gritar
                    como se lhe arrancassem a pele, desata a gritar diante de si própria, diante da
                    verdade. Gritam as velhas, grita o Santo em frente da sombra imensa que se
                    introduziu na vida. Grita a paciência e a mentira, grita a hipocrisia.
                    Desapareceram as figuras e só ficam gritos na noite. Outro passo — outro grito.
                    É a custo que me separo deste ser com quem coabitei sempre. O escárnio está
                    aqui; está aqui o escárnio e o rancor. Gritam no mundo subvertido. Mais gritos.
                    Que dever? O dever de te matar? O dever de te cuspir? Matá-la, mas matá-la é até
                    um caso de consciência, para que a minha vida seja a minha vida. E os gritos
                    aumentam — gritos de dor, gritos de espanto, gritos sufocados de cólera, mais
                    gritos de seres que se não querem separar da antiga carcaça. — Eu mesmo
                    reconheço que sou outra casta de intrujão. Tenho outros preconceitos, falo outra
                    língua e julgo-me superior. Na realidade sou outra casta de intrujão. O que me
                    falta é desplante. Prendo-me a inutilidades, e para me engrandecer admiro os
                    meus escrúpulos e dou importância às minhas teias de aranha. A minha vida é uma
                    série de transigências secretas — e por cima medo... — Fala mais alto! Fala mais
                    alto! A minha vida tão bem construída é uma aparência, a minha serenidade,
                    aparência. Talvez um pouco de lógica, um pouco de acaso e mais nada. No fundo de
                    mim mesmo tudo isto me parece um sonho monstruoso e sem nexo, e às vezes
                    surpreendo-me a pensar: — Sou um doido? Sou um doido? — É que me vem não sei de
                    onde, não sei de que confins ou de que recanto de alma, que tenho medo de
                    explorar, um bafo que me entontece. Serei eu doido?</p>
                <p>Ninguém pode com isto, ninguém pode encarar-se a si próprio e ver-se até ao
                    fundo. A tua meticulosidade é de ferro, a tua meticulosidade está de tal maneira
                    entranhada no teu ser que sem ela não existes. Pois até a tua meticulosidade se
                    há de dissolver! E tu sem o hábito não existes, nem tu sem o dever, nem tu sem a
                    consciência. Sem estas palavras a vida não existe para ti, e sem escrúpulos que
                    te resta? O que aí está é temeroso, seres estranhos, seres que, se dão mais um
                    passo, nem eu nem tu podemos encarar com eles. Andam aqui interesses — e outra
                    coisa. Com mil palavras diversas e ignóbeis, mil bocas que te empurram para a
                    infâmia — outra coisa. Tens de confessá-lo. Não é a consciência — não é o
                    remorso — não é o medo. É uma coisa inexplicável e imensa, profunda e imensa,
                    que assiste a este espetáculo sem dizer palavra — e espera... És imundo, és a
                    vida. Não te sei definir, não te compreendo. Se te levo até ao último extremo
                    perco o pé... Não sei até onde vai o meu horrível pensamento. Até aqui tinha
                    limites, agora nem o meu pensamento nem o teu encontram limites. Matar ou deixar
                    de matar é tudo a mesma coisa. É tudo inútil. Agora não! Agora não me quero ver
                    nem te quero ver! Estamos no céu e no inferno, D. Idalina e a langonha. Estamos
                    no céu e no inferno, Anacleto, e tu ainda te enroscas na tua inalterável
                    correção. Não te desmanches! Estamos enfim todos no céu e no inferno, e todos à
                    uma percebemos que a vida foi inútil. É com gritos que a D. Leocádia reconhece
                    que o escrúpulo não existe; é com espanto que ela percebe que o bem que fez foi
                    inútil; é com horror que a D. Leocádia compreende que só lhe resta o vácuo. A
                    inteiriça D. Leocádia berra no infinito, depois de se desfazer de todos os
                    sentimentos faltos: — Mas eu cumpri sempre o meu dever! — Há de te servir de
                    muito! — E aqui te encontras diante desta coisa que não foi feita para ti, aqui
                    estás tu atirada de repente para uma ação sem limites, com os cabelos em pé — tu
                    D. Leocádia e o infinito; tu D. Leocádia que moravas entre quatro paredes a
                    rever salitre, e agora tens de morar no céu e no inferno. O drama é tu, D.
                    Leocádia, não te poderes desfazer da outra D. Leocádia; o drama supremo é tu
                    seres ao mesmo tempo, D. Leocádia 29-2°-D. e a D. Leocádia Infinito. — Reduzi-me
                    a isto e reduzi-a a isto! Cheguei ao ponto! Cheguei ao ponto! Cheguei ao ponto
                    em que te vejo cara a cara e percebo que tudo é absurdo e inútil! Talvez o meu
                    dever fosse fazer o mal. Atrás de mim, atrás de ti, andavam duas figuras que por
                    mais esforços que fizessem nunca se chegaram a entender! — Mas então — pergunta
                    outra voz colérica — todo o esforço é inútil? Todo o sacrifício é inútil?
                    Criaste estas ideias falsas de dor, de renúncia — e não existes! Um santo viveu
                    sobre uma coluna: «Desde que se punha o sol até que amanhecia o dia seguinte,
                    estava de pé na coluna com as mãos levantadas ao céu. » Oitenta anos de
                    grotesco. Outro amaldiçoou-te: «Ai de ti cidade sensual onde os demónios fizeram
                    sua habitação!» — Grotesco! Grotesco! Grotesco! Tu não existias! Que se levantem
                    todos do sepulcro, uns atrás dos outros, que se erga o pó e te grite: — Tu não
                    existias! Chamaram-te. Imploraram-te. Carregaram com a tua cruz. Andaram de
                    rastos, reduziram-se a osso e a lepra. Foram indiferentes ao sofrimento e ao
                    sarcasmo. Renunciaram à vida, deram-te o espetáculo da sua dor, a ti que não
                    existias! Das profundas do mundo vem sempre a mesma ânsia, das profundas da dor
                    ergue-se sempre o mesmo grito. Isto tem alicerces como nunca se cavaram
                    alicerces. Cimentaram-nos os vivos e os mortos. E por mais esforços que empregue
                    — tu na realidade não existes. Há outra coisa pior que está viva, outra coisa
                    monstruosa que avança dentro de nós e direita a nós e que ninguém pode deter. Tu
                    não existes e eu tenho de caminhar por força, não sei para que estúpido destino.
                    Tu não existes e obrigas-me a avançar para um fim grotesco — desmedido e
                    grotesco — que não compreendo nem abranjo. Tu não existes — e estou nas tuas
                    mãos. Tu não existes e neste mundo absurdo, onde não encontro quem me condene e
                    quem me salve, há ainda quem me empurre, quem me arraste e me faça sofrer, uma
                    força cega que trago comigo, que me rodeia e me não larga! — Tens de existir por
                    força. Tens de existir pelo que sofremos e pelo que criamos. És a única luz
                    nesta escuridão cerrada, a única razão como verdade ou como mentira. Existe
                    aquilo que eu quero que exista, é verdade aquilo que eu quero que seja verdade,
                    aquilo que eu e os meus mortos transformamos em verdade. A fé é maior que todas
                    as forças desabaladas, mais viva que todas as vidas. Compreendo a inutilidade de
                    todos os esforços e faço pela mentira, o esforço que fazia pela verdade. Tenho
                    de te manter à custa de desespero.</p>
                <p>Se não existes é forçoso que exista um ditador moral, que extirpe sem piedade o
                    pecado da terra. Que não ouça os gritos e condene, que realize o pensamento de
                    Saint-Just e obrigue os ricos a trabalhar nas estradas, e cujo poder ignorado e
                    oculto submeta a humanidade a uma lei de ferro, e a salve pela mentira, já que a
                    não pôde salvar pela verdade. Cinja-me a mesma cadeia, durma no mesmo tabuado e
                    empregue o mesmo esforço, por um sentimento de desespero contra ti que me
                    iludiste. Por mim próprio, para fugir de mim e de ti que não existes! Resisto,
                    teimo. Só vejo treva e teimo. Levo-me todos os dias ao mesmo espetáculo.
                    Rasgo-me com gritos. O desgraçado, aquilo em que tu crês é mais negro que o
                    negrume!</p>
                <p>A mesma força cega nos impele. Queira ou não queira sou levado para um fim que
                    não compreendo... Cai nas suas mãos! Outra coisa me envolve a que não sei o
                    nome, outra coisa que espera de mim uma ação que ignoro, outra coisa a quem eu
                    me quero manifestar e que talvez se queira manifestar, sem nos chegarmos a
                    entender. Rodeia-me. Sinto-a. Há ocasiões em que me toca. Ouço-lhe os passos.
                    Debato-me. Constrange-me. Há momentos em que me iludo, para fingir que estou
                    sozinho. Há momentos em que me escarnece. Sufoca-me: vou ouvir-lhe os gritos —
                    tenho medo que me fale! Só ela vive no mundo, só ela anda à toa no mundo!
                    Debalde apelo para mil manhas, debalde tento mil explicações. Estou nas suas
                    mãos! Estou nas suas mãos! Outra coisa inexplicável e imensa, temerosa e imensa,
                    anda por trás de mim, dentro de mim, outro abismo maior, outra coisa que sua e
                    me escalda até à medula. Procuro esquecer-me — ela aqui está ao pé de mim. Na
                    vida e na morte estou nas suas mãos monstruosas. Sou a consciência — tu és o
                    impulso. Sou a razão — e não sou nada. Luto até à morte, finjo até à morte, vou
                    até ao fim dilacerado, escarnecido e iludido.</p>
                <p>Estou nas tuas mãos! Estou nas tuas mãos!</p>
                <p>— Também eu D. Leocádia! Lé com cré. Também eu, se me liberto disto que não tem
                    significação, não encontro nada que tenha significação. Chegamos ambos ao ponto
                    e estamos ambos estarrecidos. Moeste-te e moeste-me por uma palavra apenas...
                    Olha bem para ti! Olha bem para dentro de ti! Moras na rua da Bitesga, entre
                    duas ou três curiosidades seculares. Usas um vestido de lemistre, luvas de
                    algodão no fio e um broche pendurado ao pescoço. Não sei por que bambúrrio se te
                    encasquetou no toutiço a ideia de Deus e do dever, e de que o infinito tem de
                    dar importância ao teu problema, aos teus flatos e ao teu broche, onde um
                    retrato de suíças não tira de mim os olhos de peixe... Não mastigues. Bem sei
                    que só nós, tu e eu, eu e tu, com o teu vestido de lemistre, é que somos capazes
                    de contrair noções, talvez erróneas mas profundas, do bem e do mal. Os outros
                    bichos têm mais que fazer. Mas é por isso mesmo D. Leocádia que te caíram os
                    dentes postiços e que começas, nesta nova situação do céu e do inferno, a
                    compreender que o bem e o mal é tudo a mesma coisa. Talvez a gente não possa
                    fazer o bem senão a si mesmo... — Mas então — e crispa a mão sobre o broche —
                    talvez o bem seja uma monstruosidade, talvez todos tenhamos de destruir. O mal é
                    que eu sinto. Para o mal é que eu fui criada! — E sua de aflição toda a tinta
                    que lá tem dentro, quando outra D. Leocádia irrompe da carcaça da D. Leocádia. —
                    Pergunto-te se o que tu não consegues é prolongar o mal. Pergunto-te se esse
                    orgulho humano, se esse orgulho sobre-humano, não é um mal maior, e essa piedade
                    que sentes não é por ti que a sentes.</p>
                <p>— E eu, e eu pergunto-te se a minha verdade falsa não te serviu melhor que a tua
                    verdade amarga. — Pergunto-te a ti — e sacode-a — se não é isto que eu sinto cá
                    dentro, do fundo dos fundos. Pergunto-te de que te serve a mentira com que
                    coabitavas. Nunca conseguiste bem nenhum, nunca cumpriste o teu dever. Logo que
                    te pus a ti e a ela na mesma situação de igualdade já não pudeste cumprir o teu
                    dever. — Vontade tinha eu de fazer o mal, o que não me atrevia era a fazê-lo...
                    — Oh D. Leocádia mais um passo, dá outro passo ainda, e mergulhas na beatitude
                    como quem cumpre um destino...</p>
                <p>Todos gritam de desespero no céu e no inferno. Confundem-se mil bocas, as coisas
                    mais altas e as coisas mais reles. Aqui está a vila toda, virada do avesso, os
                    ridículos sem vergonha do ridículo e os infames lambendo a infâmia. Aqui está a
                    ilusão</p>
                <p>— e aqui está em pêlo a D. Possidónia, que ainda conserva na cabeça o chapéu de
                    plumas. Aqui está a ordem e aqui está a desordem, as palavras inúteis e a inútil
                    burandanga, toda a fórmula, todo o calvário da vida para subir até a morte — e
                    aqui nos vemos uns aos outros tal qual somos, admiráveis, obscenos, reles, todos
                    da mesma lama e com as mesmas chagas. — Eras tu força estúpida e cega que me
                    enchias de ilusão para poder suportar a vida? Eras tu o interesse, eras tu o
                    amor?... Aqui estão de uma banda as fórmulas (e só agora compreendo a sua
                    necessidade) aqui está do outro lado a vida; aqui está o que se chamava a honra,
                    e o que se chamava o dever. O amigos eis aqui todo o nosso grotesco, todas as
                    nossas ambições, todas as nossas vaidades — e com elas o absurdo e a lógica. E
                    eis aqui o meu drama e o teu drama. Os grandes desmoronamentos, a cólera de uns
                    e o terror dos outros. Eis aqui o céu e o inferno, o máximo de ilusões e a
                    ausência completa de ilusões. Aqui as vaias, o sarcasmo, os apupos, os grandes
                    insultos e a suprema mixórdia. Desmoronou-se tudo, todas as fachadas e todos os
                    artifícios.</p>
                <p>Aqui escorre tinta, aqui um bafo húmido entontece, aqui a primavera é ridícula,
                    aqui a flor assume aspetos estranhos e o pólen vivo escorre, aqui a vida parece
                    uma tela onde as figuras se apagam, aqui a nuvem acarreta volúpia, esboços de
                    seres que logo se dissolvem, aqui a nuvem é feita de gritos e avança, envolve,
                    penetra. E resulta uma mistura de sonho e caos. Agora é que eu sou feliz! Agora
                    que parti todos os laços que me prendiam à convenção e à regra! E ponho-me a
                    chorar diante das figuras que aí vêm com as garras no ar e as bocas abertas,
                    direitas a mim. Avançam como avança a vida, furiosas, e dementes, sem
                    escrúpulos, arrancando de si próprias farrapos sórdidos e farrapos de carne.</p>
                <p>— Estou nas tuas mãos... Esta noite límpida como um diamante polido não existe. O
                    que existe é atroz... Nem a primavera existe, e tudo se entreabre em
                    entontecimento azul. Nem esta harmonia dos mundos, que eu criei, existe. O que
                    existe é atroz. Nem este sonho em que ando envolvido e iludido. Só tu existes no
                    mundo e me trazes estonteado no mundo. Fecho-me para te não ver e estou nas tuas
                    mãos. Se eu pudesse ouvir-te, ouvia todos os gritos que se soltaram no mundo, se
                    eu pudesse encarar-te em toda a tua plenitude — via o negrume monstruoso e
                    caótico avançando para mim, o repelão dourado levando tudo diante de si, no
                    desespero, na vida e na morte, esmagando sempre e renovando sempre, para criar
                    mais dor. Não te fartas. Isto é desconhecido, é absurdo, é eterno — mas a beleza
                    trágica da vida efémera consiste em te resistir, todo o nosso afã em criar uma
                    mentira para opor à tua verdade — de que resulte dor. Tu podes tudo como
                    verdade. Estou nas tuas mãos. Eu posso tudo como mentira, e só assim saio das
                    tuas mãos. A verdade é a dissolução e a morte, és tu; a mentira é a vida.
                    Resisto-te para poder viver; para poder viver crio a mentira trágica. Se cedo ao
                    teu impulso, se escuto as tuas vozes, levas-me para uma vida inferior; se te
                    oponho a mentira, caminho por uma via dolorosa: engrandeço-me. Estou nas tuas
                    mãos — e nego-te. E o homem é tanto maior quanto mais alto afirma que não
                    existes. Crispa-se-lhe a boca, dilacera-se até às últimas fibras, luta, grita e
                    sai em farrapos das tuas mãos. Todos os heróis são mártires, todos os santos
                    foram iludidos até à morte.</p>
                <p>— A tua vida, a minha vida, foi um perpétuo inferno. Tiveste um filho e
                    apegaste-te mais ao teu dever que ao teu filho. Dedicaste-lhe as tuas economias.
                    Pelo dever esqueceste interesses e paixões, e na tua alma solitária só coube o
                    exaspero e o dever. Mais nada. E à medida que a vida te inutilizou as ambições e
                    te gastou os sonhos, mais te apegaste a essa palavra, que foi a única razão da
                    tua existência. Também eu! Também eu! Fechaste-te com ela no silêncio gélido da
                    vila, onde, nas noites sem fim, se chegava a ouvir o contacto das aranhas
                    devorando-se com volúpia no fundo dos saguões. Todos os dias pesaste o pão que
                    lhe deste, mas deste-lho. E, tendo perdido tudo, só o dever te restou no mundo —
                    e a órfã, a quem já não consegues reconhecer as feições. A mesma coisa nos
                    dilacerou a ambos, a mesma coisa dolorosa nos encheu de cólera, à medida que
                    caminhávamos para a velhice e para a morte. E aqui chegaste, aqui cheguei, ambos
                    ridículos e amargos, saindo de uma luta desesperada com outra coisa que nunca
                    quisemos ver. Ambos grotescos e de pé, tu e eu, eu e tu, com o teu broche, onde
                    o mesmo sujeito de suíças — lembrança do primeiro matrimónio! — não tira de mim
                    os olhos aguados de peixe. Ambos tendo atravessado numa tábua o mais trágico de
                    todos os mares, e no fundo a mesma dor, no fundo o mesmo fel, no fundo o mesmo
                    esforço para sustentarmos sobre a cabeça esta abóbada que não existe. No fundo o
                    que não queríamos ver era a noite... — Cessou o debate. — Não fales mais, D.
                    Leocádia. Está tudo dito...</p>
                <p>A figura que aí vem mastiga em seco, com uma camada de verde e outra camada de
                    sonho. A figura que aí vem, de um egoísmo concentrado, e a que aderem ainda os
                    mil e um nadas da sua existência anterior de molusco, avança hirta para mim,
                    inteiriça como uma barra de ferro. Ainda cheira a mofo, mas os olhos
                    entranham-se-lhe num vasto panorama inexplorado. Vê para dentro, cada vez mais
                    sôfrega e o seu sonho não tem limites. O mal não tem limites. Tem diante de si
                    mil anos e um dia para essa absorção dolorosa e trágica. Abarca o mundo. O mal
                    sim! O mal sim, porque o mal não é um acto individual, o crime é sempre a ação
                    impulsiva ou premeditada dos mortos. Para praticar um crime é preciso revolver
                    camadas de fantasmas. Desperta ecos adormecidos até não sei que profundidade.
                    Põe em debate este mundo e o outro mundo. Ó D. Leocádia agora é que tu chegaste
                    ao âmago! É um conflito entre ti e os outros mortos, uma luta num tablado que
                    abrange o universo. Daí o seu prestígio — dai o imenso cenário que se desdobra
                    diante da D. Leocádia, absorta nesse panorama sem limites...</p>
                <p>Só há no céu e no inferno outra figura pior. É este ser sem nome, pedra e
                    desespero, noite e desespero, que se imobiliza na inutilidade de todos os
                    esforços.</p>
                <milestone rend="asterisks" unit="section"/>
                <ab type="dateline">29 de Junho.</ab>
                <p>E tenho de dar mais um passo! Tenho de dar outro passo ainda! Chega o momento em
                    que a dor se não separa do grotesco.</p>
                <p>Quer queiram quer não queiram aí estão na minha frente, ridículos, maníacos,
                    pueris, nesta marcha desordenada para o sonho; tenho-os na minha frente, e com
                    eles a hipocrisia, as explicações confusas, as leis, as regras, os hábitos
                    fétidos, e tudo o que lhes serve para encobrir as duas ou três realidades de que
                    se não podem libertar, com a sua filosofia, os seus livros, as suas teorias — e
                    no fundo instinto! Instinto! Instinto!; tenho-os aqui só bichos em frente da
                    necessidade fatal, da verdade iniludível, com olhos abertos de espanto, com
                    bocas murchas de mentir, a suar grotesco e a gritar de desespero. Tenho-os aqui
                    ridículos, só ridículos, só enfim ridículos, mas já prontos para todas as
                    infâmias. A vida espalmou-os, secou-os, deformou-os a todos. Andou por aqui a
                    mão da desgraça, a mão do vício, a grande mãozada de ferro que deprime e esmaga.
                    Um alimentou-se de lascívia, outro de sonho, outro de avareza, outro de fel.
                    Todos diante da nova visão do universo se sentem grotescos e inúteis de corpo e
                    alma, com lepras que nunca mais se limpam, com nódoas que nunca mais se lavam,
                    com ideias e palavras entranhadas, com ímpetos de gozo e monstruosos apetites.
                    Os anos passaram, os anos marcaram-nos. E ei-los nus, uns em frente dos outros,
                    nus e reles, nus e grotescos, com o esplendor cada vez maior, cada vez mais
                    dourado, cada vez mais sôfrego diante de si. Nus e obscenos, nus, com doenças e
                    infâmias secretas. Aqui está a embófia e o orgulho, aqui está o que come e
                    digere, mas, no fundo deste estômago que esmói, há ainda um resto de sonho; aqui
                    está a velha que envelheceu ridícula, mas este ridículo é atroz. Tudo isto
                    contém ânsia, ressuma dor até nas plumas, até nos trapos. Todos os sonhos
                    absurdos, os sonhos que ninguém se atrevia a declarar, os produtos fétidos de
                    noites sobre noites de relento e insónia, os ridículos sonhos de almas
                    embrionárias, transformam-se em realidade e resolvem-se em gritos, em dor e em
                    grotesco. A puerilidade que constitui o fundo do nosso ser, as pequenas misérias
                    que formam montanha, e as grandes tragédias desgrenhadas afundam-se em grotesco.
                    A todo o drama se mistura grotesco, a toda a dor ritos, e toda a convulsão
                    emerge a escorrer grotesco.</p>
                <p>Ó dor o que tu és! Aqui está a dor da D. Penarícia, a dor da D. Andresa — que
                    toda a sua vida foram abjetas — e temos de confessar que são grotescas. Temos de
                    confessar que a dor é grotesca diante desta mudez impenetrável.</p>
                <p>A vila conhece a vacuidade de todos os esforços, o grotesco e o atroz. O grotesco
                    na dor, o grotesco aos gritos, o grotesco mesmo quando avançam para o assombro,
                    com restos de xailes, com restos de penantes, com restos de misérias. Tudo isto
                    dá grotesco desmedido, mas grotesco. Grotesco com sonho, grotesco com ouro, com
                    todo o ouro do céu, com todas as estrelas do céu, mas grotesco afinal. A grande
                    sombra que desaba também aos gritos, a grande sombra é grotesca de dor — imensa
                    e grotesca — esfarrapada e grotesca. A D. Adélia é grotesca, com as suas manias,
                    e há nela Deus e o Diabo; as velhas caquéticas, o cortejo funambulesco de
                    rancores, tem não sei o quê de divino. Miscelânea trágica de matéria e de alma,
                    que se resolve em dor e em grotesco, caminhando com as suas dores ridículas, com
                    as suas paixões ridículas, com as suas ambições ridículas — caminhando sempre.
                    Lamentáveis, sórdidos, grotescos, escorrendo viscosidades, e só eles no mundo
                    capazes de compreender e de sofrer. Tudo neles é grotesco e divino. Tudo neles é
                    angústia, desespero e vida. Tudo neles é reles e só neles é reles. Tudo neles,
                    até o ridículo, se traduz em sofrimento, em não sei quê de superior, que lhes dá
                    o ar, apesar dos penantes, das dedadas, dos vícios, de deuses decaídos, de
                    deuses em luta com forças supremas, que, pretendendo torná-los mais grotescos
                    ainda e reduzi-los a zero, os elevam pelo ridículo e pela dor. São lamentáveis —
                    são trágicos. Só eles lutam, e tudo neles é ânsia e desespero, para entreverem a
                    razão oculta que os escarnece e os engrandece. Estarrecidos e grotescos. Bichos
                    e grotescos. Divinos e grotescos. Há neste trapo que criaste, nesta coroa de
                    lata que foi o teu sonho e a tua vida, não sei quê de imortal. Vê que tudo
                    ressuma dor, que o fizeste para subir, mais alto sempre, para esquecer todas as
                    bocas que te reclamavam do fundo dos fundos, do mais trágico dos fundos. Na tua
                    meticulosidade Anacleto, na tua dúvida ridícula oh D. Leocádia, no vislumbre que
                    foi a tua vida, no teu minuto de sonho, no relâmpago, antes de te curvares
                    definitivamente sobre a meia que já tem vinte metros de comprido, ó prima
                    Angélica, ó figura tremenda de inépcia, que também achaste sabor à vida e logo
                    te fechaste com ele na escuridão cerrada da idiotia — na maneira como apertaste
                    para sempre a mandíbula — e até na risca que deixou de ser risca e no vinco que
                    perdeu a linha e o assento, ó Elias &amp; Melias, em tudo e em todos, há outra
                    coisa tremenda que, apesar de grotesca, nos deixou de pé, e não sei que mistério
                    que não fala, que não quer ou não pode falar, mas que sentimos vivo, real,
                    imenso ao nosso lado e na nossa companhia.</p>
                <p>Agora é que ele anda à solta! agora é que ele anda à solta!</p>
            </div>
            <div>
                <head>Capítulo XV</head>
                <head>A VIDA! A VIDA! A VIDA!</head>
                <p>A pedra também sonha: a vila é Lourdes, feira e hospital onde corre o ouro às
                    pazadas. A multidão converge de toda a terra para um só ponto da terra: — A
                    vida! A vida! A vida! Todas as agonias em marcha dos quatro cantos do globo.
                    Clamores, ânsias, gritos. Ao mesmo tempo insolência, ao mesmo tempo orgulho.
                    Imponentes criados de farda amparam velhos arquimilionários; velhas com os
                    dentes obturados a ouro, sorriem para um e para o outro lado, como bonecas,
                    pintadas, repintadas, horríveis. Acarretam em padiolas homens de grandes ventres
                    gordurosos, fartos de moer e remoer. Seguem mulheres pálidas, de olhos de
                    sofreguidão e de espanto, embrulhadas em peliças raras, e, sob as peliças, a mão
                    ferra-se-lhes no cancro que as rói. E homens de génio indiferentes, alheados,
                    sepultados, que nenhum espetáculo arranca ao torpor, usados pela mentira e pelas
                    frases.</p>
                <p>— A vida! A vida! A vida!</p>
                <p>Vem o rei, o roque, a rainha e as velhas meretrizes, a Lavradeira e o visconde da
                    Flor da Murta, os cónegos que herdaram das beatas e as beatas que herdaram dos
                    cónegos. Vem as velhas cantoras sem voz, os príncipes destronados, os
                    banqueiros, a finança, a política, a diplomacia, a vasta intriga que rói o
                    mundo, e os que anteveem numa sofreguidão outra vida para gozar, e que rebuscam
                    no fundo dos baús, velhos papéis de crédito e moedas fora de usa. E os bichos
                    que tomam a sério as suas frases, as suas fardas, a sua vaidade; a vida
                    artificial, as princesas desdentadas e cheias de espírito, com velhas cortes
                    bolorentas e os seus lacaios e as suas múmias; os morfinomaníacos; o bispo
                    untuoso e cínico, de grandes barbas louras cuidadas, apegado a um báculo dourado
                    e um capachinho na cabeça, com uma corte de mulheres, entre uma nuvem de
                    pó-de-arroz; o velho general, o velho diplomata, e uma figura com um resto de
                    colar que lhe ficou de todo o seu império, uma mulher magra com rendas do
                    passado, embrulhada num véu que lhe esconde a velhice, de luvas brancas para que
                    lhe não vejam o pergaminho das mãos, e um grito furioso em que mostra as
                    gengivas brancas:</p>
                <p>— A vida! A vida! A vida!</p>
                <p>Só se não descortina um pobre. Como conseguiu aquela mulher, com o filho
                    embrulhado no xaile, meter-se no cortejo que caminha à pressa para o Palácio da
                    Saúde?</p>
                <p>— A vida! A vida! A vida!</p>
                <p>O ilustre doutor Arrobas, o ilustre doutor Coutinho, o ilustre doutor Pimenta,
                    apoderaram-se do soro, e pelo embirrento Palácio, reluzente de metais, branco e
                    cínico, onde se recebe o ouro num cofre como um saguão, desfila gente, mais
                    gente ansiosa, mais gente que se atropela. — Ao Gabiru restam-lhe três árvores
                    no quintal e o sonho que para os outros se converteu em realidade... Os
                    ajudantes de avental branco todo o dia circulam e atendem a fila de paralíticos,
                    de agónicos, de tabéticos, os milionários, os príncipes gastos e vesânicos, as
                    mulheres de luxo, com embrulhos de notas, que se puseram a caminho dos quatro
                    cantos do globo. Os comboios não cessam de despejar aventureiros e mulheres de
                    cabelos tingidos e bocas pintadas — A vida! A vida! A vida! — e um cheiro a
                    morte que tresanda; mais gente que rapou o fundo dos cofres e corre num
                    desesperado arranco; tropéis, coortes, multidões, que apertam o ouro de encontro
                    ao peito ou que o premem nas algibeiras, com as mãos de encontro à pele,
                    entranhado na pele, entranhado na alma. — A vida! A vida! A vida! Velhas cocotes
                    de Paris, maníacos, Wagners, com música, lagos, cisnes, castelos e luar, e
                    algumas múmias do tempo do império, com escarros do tempo do império e joias do
                    tempo do império, reluzentes como ídolos. E com elas a infâmia, tão bela e tão
                    polida, e aquele além, que tira o chapéu num gesto mecânico, quando o criado lho
                    ordena, e que é o rei do cobre ou o rei do petróleo ou o rei do estanho. E por
                    fim, num burburinho confuso, o cortejo de padiolas, com restos que se não têm em
                    pé, embebidos em perfumes e atufados em rendas, antigas dançarinas da Ópera,
                    antigos imperadores fora de uso, paralíticos-gerais — e cadeirinhas, seges,
                    padiolas, correndo, despejando todas as velhices, todas as impotências, todas as
                    inutilidades, no mesmo grito ansioso, furioso, clamoroso:</p>
                <p>— A vida! A vida! A vida!</p>
                <p>Sua majestade imperial, que vivia num mundo de impassibilidade, e a D. Perpétua
                    de Meireles, perdem ambos a linha. Ouvem o grito os moribundos nos sumptuosos
                    leitos de parada, já ungidos e tingidos, já com a última camisa preparada, já
                    com os últimos sapatos de baile preparados e o mestre escama preparado para a
                    última escanhoadela nos queixos cor de cera; ouvem o grito nas mansardas as
                    agonias de todas as horas, e os moribundos põem-se de pé num rápido assomo;
                    retêm-se no último arranco as resignações que tanto jeito e cuspo custaram,
                    suspendem-se no mesmo instante e convertem-se em desespero e esperança, em fúria
                    e clamor, em berros e tropel, arrastando consigo farrapos de lençol e muletas de
                    paralisia. — A vida! A vida! A vida! — Estremecem os extintos, retesos nas eças
                    negro e ouro, nos pomposos catafalcos alumiados por filas de círios; cuido que o
                    ouvem ainda os cadáveres selados e chumbados na última estância, cuido que se
                    abalam os jazigos ao mesmo grito que trespassa o mundo:</p>
                <p>— A vida! A vida! A vida!</p>
                <p>A vida é o murmúrio de água que me ficou nos ouvidos, e esta tinta, que se me
                    pegou nas mãos e me escorre das mãos, é esta ténue consciência do universo, que
                    dura um segundo e me mergulha atónito no nada. É sonho e desespero — e não tem
                    importância nenhuma. É uma volúpia, com todas as tintas, até as do enxurro. Sabe
                    a tudo — e não vale nada. É inútil — e todas as bocas, à uma, a reclamam:</p>
                <p>— A vida! A vida! A vida!</p>
                <p>Cada vez o grito sobe mais alto, o clamor é mais intenso, o uivo mais
                    desesperado. De cada vez ele ascende de profundidades maiores e tem retumbâncias
                    mais largas.</p>
                <p>Esqueceu-se tudo: os velhos dogmas, as velhas Imitações de Cristo, e a voz que
                    nos diz: — Espera — quando a outra sustenta — É inevitável — Esqueceram-se as
                    velhas elucubrações, as velhas teorias que nos preparam para a morte, e as
                    palavras que os padres pronunciam ao ouvido, e que os próprios padres
                    esqueceram, as resignações cediças, os pensamentos subtis, as fórmulas profundas
                    que nos ajudam à sujeição e à mércia. Esqueceu-se o que dizem os velhos livros,
                    que enchem velhas bibliotecas, e os grandes símbolos de prestígio, a pragmática
                    e a regra. De alto a baixo desabaram os grandes sistemas e as análises
                    filosóficas, que só servem para quem não tem dentes, e, sem olhar para o lado,
                    vociferando o mesmo grito, largaram no mesmo arranco. Esqueceram-se os adeuses
                    célebres — para piano — as promessas de outro mundo melhor e de outra vida
                    futura, as cerimónias emolientes, a piedade, a renúncia, a morte e o terror da
                    morte. E todo o cortejo deixou o tom compassado, que demanda orquestra, todas as
                    seges, com dourados e emblemas, o ritmo, e largaram a galope para o mesmo
                    destino. Cabido, tropa, comédia, drama, e até tu, até tu farsante — ah?... —
                    puseste o ouvido à escuta num curto estremeção, suspendeste a discussão
                    interminável contigo mesmo, deixaste em meio a palavra que começaras a
                    pronunciar, e soltaste o mesmo grito ansioso. Estava a roda de figuras de
                    aparato, repetindo as suas cortesias; estava o padre ao meio do missal, e a
                    velha Frutuoso no começo da agonia (que tinha de ser celebrada nos jornais), o
                    testamenteiro e os herdeiros, com o lenço preparado para as lágrimas, e no mesmo
                    baque, com o mesmo desespero, correram para o mesmo fim. Eu já tinha chorado
                    sobre mim e sobre ti; já tinha gravado na pedra do jazigo a frase lapidar; já
                    tinha feito as últimas despedidas, e, com a mão trémula agarrada à tua mão,
                    acabava de murmurar enfim as últimas palavras para a história: «-Mais luz! Que
                    farsa! A vida é sonho! Lá te espero!», etc. — quando tudo foi revolvido e
                    inutilizado, e ajuntei o meu galope ao teu galope, a minha voz às outras vozes:
                    — A vida! A vida! — O procurador firmava, com a saliva da lei, e o selo da lei o
                    documento da lei — lamentávamos os desmandos da mocidade, com o olho na mocidade
                    — a velha remexia as cinzas frias do passado — o janota inteiriçava a perna, com
                    reumático e o antegosto do frio sepulcral — e todo o cenário era cenário, toda a
                    regra, todas as cerimónias que nos ensinam, se conservavam ainda de pé, quando o
                    mesmo furacão revolveu, arrastou tudo e levou tudo adiante de si. Tudo se varreu
                    ao mesmo instante, todos largámos a cena no mesmo instante esquecendo o papel,
                    todos sentimos o mesmo baque e abalamos na mesma vertigem. Suspenderam-se os
                    negócios, o amor, o vício e a cólera, e atrás de novos vícios, de novas
                    infâmias, de nova mocidade e de piores erros e maiores volúpias, rugimos a mesma
                    palavra: — A vida! A vida! A vida!</p>
                <p>O grito foi acordar toda a peste, sobressaltar toda a peste, todo o ferro velho,
                    toda a mania resignada à força, comprimida à força, levada à força para a
                    velhice e para a morte. Todas as velhas se ergueram, impelidas pela mesma mola.
                    Todos os janotas, que caminham para o nada com uma flor na botoeira e um sorriso
                    na boca murcha, perderam o aprumo no mesmo instante. Todas as rainhas sepultadas
                    nos fundos dos paços, maníacas, e guardadas por médicos maníacos, por cortes
                    maníacas, por alabardeiros maníacos, tomaram à pressa o primeiro comboio,
                    esquecendo para sempre o cerimonial. Todos, com velha baba a escorrer, com
                    velhos tumores abertos, com velhas dentaduras postiças, se puseram logo a
                    caminho. Todo o mistifório, toda a obscuridade, reclamou a mesma vida nos mesmos
                    gritos. Vêm os filósofos e os poetas, a ópera maquinada, com os seus personagens
                    principais e os seus figurantes secundários. Vem o pó inútil que largaste pelo
                    caminho até chegar à velhice, a vida consciente e o vaga-lume, a velha Eulália,
                    cuja vida é um subterrâneo, a velha Eulália, que mal sabe falar, alma em
                    embrião, e o génio egoísta, calcando tudo para chegar mais depressa.</p>
                <p>Todas as velhas santas já quase canonizadas, todas as velhas católicas,
                    apostólicas romanas, preparadas para a inércia e para o verme, largaram a correr
                    com o mesmo destino e para o mesmo assalto. Todo o velho lixo, os velhos restos
                    fedorentos, as velhas bocas amargas, as velhas reminiscências, os velhos
                    suspiros abafados cada noite e cada dia, se remiraram em novas bocas frescas, em
                    nova carne e ansiosa de amor, em nova vida frenética de luxúria. Na velha
                    burandanga, nas velhas, que passaram os últimos dias da vida moídas de saudade,
                    e que já não têm mais nada que pintar; na carne podre que não aguenta verniz; na
                    carne que exige terra, o mesmo alvoroço, o mesmo grito, o mesmo ímpeto...
                    Galvanizaram-se cadáveres e mais outros restos ainda. Todo o pó morto acorda e
                    sonha. Tudo que deixámos pela vida fora, toda a série de figuras que ficou para
                    trás, toda a série de gestos, de esboços, toda a poeira impalpável, tudo que foi
                    ânsia, realidade ou irrealidade, desejo, vaga-lume ou dúvida — tudo se arrasta e
                    revolve no mesmo turbilhão magnético. Tudo o que parecia morto e sepultado,
                    desejos e rancores, inutilidades e grandezas de que é feita a vida, tudo tornou
                    à superfície. Velhas invejas enferrujadas e a sombra da sombra, tudo reapareceu
                    vivo como na primeira hora. Vem uma golfada de fel e de despeito que reclama a
                    vida — e que é a vida. Vem uma golfada de ternura, que nunca pode encarar sem
                    espanto e sem terror, que nunca quis olhar de frente, inventando mil e um
                    pretextos para a rodear — e que é a vida. Vem o temor, vêm as figuras cómicas —
                    e não há cómico sem sonho, a exigir a vida; as figuras trágicas a reclamar a
                    mesma vida inútil, a mesma vida frenética. Vêm agora as velhas que nunca
                    esqueceram as velhas luxúrias, os velhos pecados moídos e remoídos com desespero
                    e saudade, as velhas tranquibérnias, levadas pelo mesmo impulso, sobressaltadas
                    pelo mesmo cheiro que turva as feras nas camas de folhas apodrecidas.
                    Cheira-lhes a vida, e esqueceram tudo, as controvérsias, as explicações, as
                    transcendências. Tudo, toda a aspiração, todo o pó histórico, toda a desgraça,
                    todo o pó sem nome, todo o frémito, toda a lama exige a vida. O grito irrompe
                    das profundas, vem do pó, vem da vida e da morte. Vem das bocas dispersas e dos
                    gorgomilos que já não existem. E vem de mais fundo ainda...</p>
                <p>— A vida! A vida! A vida!</p>
                <p>São as velhas sórdidas agora. É a vez da D. Hermínia, da D. Penarícia, da D.
                    Eulália. É a inveja sobre a inveja, a paciência sobre a paciência, o ridículo
                    sobre o ridículo. É a langonha requentada. São os anos atrás de anos de
                    inutilidade, os antigos cabelos postiços, os antigos dentes postiços, as antigas
                    aflições cediças. É a dor minúscula de que toda a gente se ri, é o grotesco que
                    custa tantas lágrimas como as grandes paixões, é a verde melancolia, as horas
                    inermes e monstruosas — é a vida que de alto a baixo exige a vida. E por trás
                    ainda mais multidões se preparam, mais tinta se move na tinta, mais negrume
                    revolve o negrume. É o velho pó esquecido, o pó subterrâneo, o pó de que não
                    resta memória. São os mortos que se põem de pé. Não só estes mortos — todos os
                    outros mortos. Os vivos e os mortos. Todos. A poeira da poeira que implora no
                    mesmo grito:</p>
                <p>— A vida! A vida! A vida!</p>
                <p>A cidade é odiosa. Por toda a parte hotéis, palácios, entulho, chalés, casernas,
                    avenidas novas. Por toda a parte tine o ouro, jorra a luz dos refletores e
                    declamam charlatães como palhaços de feira. Nota curiosa: no outro dia foram
                    encontradas num banco do jardim duas velhas de setenta anos, que declararam ser
                    filhas de príncipes na miséria, e que ninguém quis reconhecer, ninguém quis
                    atender... Por toda a parte teatros, palácios monumentais, avenidas de cartão e
                    pasta, monumentos de cimento e ripas, cenário, lixo e afronta. Um edifício
                    esmaga e domina toda a casaria, o casino insolente, com a obscena cúpula de
                    vidro. Todo o dia, toda a noite, as orquestras tocam, e os remoçados apressam-se
                    a gozar, as mulheres a destingir amarelo, as opulentas criaturas soberbas de
                    luxo, outra vez moças e sôfregas de vida. Entre as pazadas de ouro, ressoam as
                    marteladas das construções, que se erguem no espaço de uma semana, novos hotéis,
                    novas avenidas, teatros novos. E duas intermináveis filas, a dos doentes e
                    exaustos, a dos remoçados, não descontinuam de gritar: — A vida! A vida! A vida!
                    — O gozo! O gozo! O gozo!. Uma entra no Palácio, a outra sai do Palácio; eles de
                    negro vestidos, elas adornadas para um baile, de branco como noivas. Remoçados e
                    uma secura de inferno, outra vez novos e na boca um sabor a pó. Que estranho
                    cortejo, brilhante de pedrarias, com as úlceras transformadas em sorriso! Eles
                    sorriem, elas sorriem. Incide sobre a bicha o jorro dos refletores. E nesta
                    alegria, uma solidão de Jazigo. Alguma coisa morreu. Nem todos os fachos
                    elétricos, nem todos os risos, espancam as sombras que os envolvem — nem todos
                    os perfumes o cheiro a cova — nem todas as joias as chagas, a luxúria, as almas
                    de aço. Cada homem de negro, cada mulher de branco, leva consigo um cadáver.</p>
                <milestone rend="asterisks" unit="section"/>
                <ab type="dateline">30 de Junho</ab>
                <p>Noite luxuriosa e infame. Misto que se não exprime de absurdo, de irreal e de
                    vida furiosa. O mesmo grito de dor — o mesmo grito de prazer: — A vida! A vida!
                    A vida! — O gozo! O gozo! O gozo! — A tempestade elétrica acumula no espaço
                    grossas nuvens violáceas, borrões sobre borrões, que o relâmpago funde,
                    destingindo fosforescências sobre a cidade. Outro trovão, outra faísca, e todo o
                    cenário espectral irrompe do negrume, tragado logo pelo negrume, que vomita sem
                    cessar mais multidões, mais coortes, que juntam o seu desespero aos outros
                    desesperos, os seus clamores aos outros clamores. As orquestras não cessam de
                    tocar no casino iluminado, e as multidões de crescer, convergindo de todos os
                    pontos da terra para o mesmo ponto da terra. Oh que prazer recomeçar uma
                    existência nova, poder dirigi-la à vontade, regressar aos vinte anos sem
                    escrúpulos! As orquestras redobram de fúria — e a tempestade redobra de fúria —
                    revoluteiam os pares, eles de negro, elas de branco, os remoçados, as velhas
                    outra vez de cabelos loiros, com outro seio e outra pele doirada, e os tabéticos
                    furiosos da vida, os milionários, as cocotes cobertas de joias sobre o mármore
                    novo de carne, só mocidade, volúpia e experiência da vida, moças por fora e
                    velhas por dentro; os príncipes secos como pedras — mandar e gozar! mandar e
                    gozar! — outra vez cem anos para mandar e gozar; os banqueiros — oiro mais oiro
                    para edificar e corromper — para dominar o mundo. E o trovão ecoa, o relâmpago
                    ilumina podridões fundas da cidade construída dum dia para o outro, trevas
                    acasteladas, esqueletos hirtos de construções, avenidas de légua, por onde
                    avança o mesmo povo humano para o jogo, para o oiro, para o prazer. No fundo as
                    casernas redobram de tamanho e de negrume; no fundo adivinham-se torres
                    babilónicas, que os olhos não sabem distinguir se pertencem à realidade, se à
                    noite, aos carvões do temporal ou às escorrências do relâmpago; no fundo braços
                    de guindastes, num trabalho metódico, parecem apanhar farrapos da multidão,
                    colhê-los em silêncio, cumprir sem ruído uma ordem misteriosa... Retine o ouro,
                    redobra o vacarme das orquestras, enlaçam-se os pares, elas esplêndidas de
                    luxúria, eles ação, força e ímpeto. A tempestade aproxima-se. Num redemoinho
                    sorve as grossas nuvens negras e esgarça-as pelo céu...</p>
                <p>A esplanada do casino debruça-se sobre a cidade tumultuária, onde a vida noturna
                    intensificada atinge o auge. Crescem os clamores e os redemoinhos desordenados,
                    avançando sempre para o mesmo fim. Quatro avenidas abertas em leque partem da
                    rotunda monumental; ali se erguem, dum lado o Palácio da Saúde, do outro o
                    casino insolente, que concentra a vida de luxo, gozo e de prazer. Os rasgões
                    iluminados das avenidas prolongam-se até ao infinito negrume, que gera sempre as
                    mesmas multidões sôfregas, atraídas pelos teatros, iluminados com uma luz mais
                    clara que a do sol, pelas casas de jogo, cujos refletores incidem sobre a bicha
                    interminável, pelas casas de prazer escancaradas.</p>
                <p>Nas salas branco e oiro do casino joga-se sempre. Incide o jorro elétrico e
                    ilumina e deforma as fisionomias: mostra-as sob aspetos caricaturais e ásperos —
                    dolorosos — de bichos quiméricos. Só dureza agora — só ventres obscenos — só
                    infâmia. As mãos transformaram-se em garras, as mulheres gordas, nutridas a
                    vício no fundo das alcovas, com joias claras sobre a pele coberta de suor frio,
                    parecem deformadas; aos velhos diplomatas caiu-lhes o verniz, e, secos,
                    lê-se-lhes nos olhos secura até ao âmago. Entre as manchas de veludo e o oiro
                    que retine, as risadas sobem mais alto, nas bocas ásperas e nos focinhos
                    trágicos. Basta olhar para eles para saber que não há a esperar piedade. Até nos
                    risos das mulheres mais belas se adivinha uma certeza feroz.</p>
                <p>Todos assentaram a pata. A boca desta criatura loura, com urna carnação de
                    mármore (era aquela velha arqui duquesa caquética...) ressuma uma sensualidade
                    de fera. As mãos deste homem, de dedos afiados, fazem tremer e cismar: são mãos
                    que esganam no silêncio com requintes de vagar e crueldade — com medo também...
                    Todos os que se dobram sobre o pano verde têm não sei que de bichos monstruosos,
                    criados ou por criar, com focinhos de paca, carapaças de clamidóforos, pêlos de
                    otária, beiços salientes de dugong. Há faces que pertencem a dois bichos, há
                    faces impassíveis, que, apesar da regularidade, são de animais estranhos,
                    impiedosos e gelados. No olhar azul desta mulher soberana, perpassa o olhar de
                    um animal já perdido nos tempos — e neste ser glabro, encostado à ombreira de
                    uma porta, o mistério do sapo e a obscenidade do gorila. Os risos têm outro som;
                    os dentes novos, que uma saliva nova faz rebrilhar de saúde, substituíram os
                    dentes podres. Este ser astral e louro, fino e louro, que se torce como uma
                    cobra, misturando sempre candura ao sorriso infame, foi a D. Teles das Reles,
                    engelhada e seca, somítica e áspera. Reparem no pudor da D. Eulália que consegue
                    ainda — é a sua especialidade — chamar à face onde há tintas inimitáveis e
                    verdadeiras, um rubor de virgem assustada e submissa, perante as repetidas
                    infâmias galantes que lhe diz ao ouvido, apertando-a docemente nos braços, este
                    diplomata com focinho de cão, que ainda a semana passada gozava numa cadeira de
                    rodas as delícias da idiotia, e agora rodopia frenético a sua décima valsa.</p>
                <p>Estão aqui outras vidas, outros sonhos, outra ferocidade. E está aqui também
                    presente a floresta apodrecida... As árvores não se veem, mas estão também
                    aqui... Está aqui a floresta apodrecida, e com ela as formas de sonho e as
                    formas de dor mutilada que vagueiam na profundidade das profundidades, os
                    contactos viscosos, as mãos geladas ainda em esboço, os seres cegos e com
                    gritos, porque não sabem ainda viver, as formas hesitantes do pesadelo...</p>
                <p>Nas salas de jogo todos remexem no ouro com um prazer que se adivinha, fazem
                    correr o ouro entre os dedos e tilintar o ouro sobre o pano da mesa. E um homem,
                    correto e de negro, rapa o ouro, espalha o ouro, distribui o ouro, enquanto nos
                    salões, elas de branco e langorosas, eles, de novo românticos e por dentro
                    secura e lascívia — velhos remoçados, velhas remoçadas — se preparam para novas
                    valsas que não conseguem fatiga-las, fingindo novos ais, novos pudores, novos
                    arrebatamentos, outra expressão, outra luz que nenhum dinheiro paga, outros
                    sorrisos postiços que valem mortes e impérios. Arfam globos brancos e elásticos,
                    cheios de promessas, que se fingem esconder num farrapo de renda — onde só
                    existiam seios murchos — rebrilham carnações esplêndidas, que substituíram a
                    pele repugnante, pressentem-se e sonham-se noites de amor — com um bocado de lua
                    — em vez de fístulas, amargores, suspiros e reumático. O jeito rítmico em que se
                    abana a D. Possidónia, vale todos os poemas de amor e noites infinitas de gritos
                    na floresta apodrecida... Tudo, nelas e neles, é sedução e secura, promessas
                    ingénuas e lascívia de bichos em recantos ignorados do deserto, denguices
                    executadas com mestria e arrebatamentos ingénuos com setenta anos de exercício.
                    Há ali velhos do tempo passado, com a espinha fundida de novo e a prática de
                    universo; velhas múmias remoçadas, que gastaram os últimos anos a arrepender-se
                    e a suspirar, a arrepender-se e a desejar, a afastar a luxúria e a pensar no
                    inferno, a cismar nas torturas do inferno e a sonhar em novas luxúrias. Há ali
                    decotes em que o seio suspira pelo passado e pelo futuro, e donas sentimentais,
                    cujo olho de miosótis possui todo o magnetismo da mocidade e cem anos de
                    repetidas experiências.</p>
                <p>Pelas avenidas sem fim convergem ainda mais multidões e no céu tempestuoso
                    fuzilam mais relâmpagos... O clarão ilumina a cidade tétrica, que logo a noite
                    absorve — e logo os dois braços monstruosos começam a cumprir a sua tarefa
                    metódica. A tempestade aproxima-se. É o momento em que a descarga mais próxima
                    desaba sobre o casino e espedaça o lustre monumental, como se estilhaçasse ao
                    mesmo tempo todos os vidros da cidade; é o momento em que os pares, sob o prazer
                    e sob o choque, com medo à morte, se agarram como ventosas, mordendo-se na boca,
                    elas outra vez moças, com gritos em que o terror se mistura à volúpia, eles como
                    conquistadores que violam e saqueiam uma cidade. Parou a orquestra; nem uma luz
                    na escuridão: só ao grito de terror e de bestialidade se mistura outro, sempre
                    mais alto, sempre mais intenso, das multidões sôfregas, que avançam e exigem no
                    mesmo rugido, no mesmo uivo, no mesmo clamor:</p>
                <p>— A vida! A vida! A vida!</p>
            </div>
            <div>
                <head>Capítulo XVI</head>
                <head>A ÁRVORE</head>
                <p>Preciso aqui de uma árvore...</p>
                <p>É filha de cavadores e neta de pedreiros: obstina-se e por fim afaz-se.</p>
                <p>A dor afeiçoa-a. Aceita tudo: a vida e a morte com a mesma resignação. E depois
                    desta vida aceita ainda outra com o purgatório e o inferno.</p>
                <p>Pouco e pouco a ternura torna à supuração. A filha fugiu-lhe. Sabe que a D.
                    Hermengarda, pobre e caquética, pára num hospício, e vai lá buscá-la. Caso
                    extraordinário: vê mais naturalmente a desgraça da filha do que a pobreza da D.
                    Hermengarda. É a sua senhora. Limpa-lhe a baba e cata-lhe o piolho; besunta-a de
                    pomada, e nos seus olhos de cão há uma inexprimível serenidade. A D. Hermengarda
                    ainda tem exigências. Manda e a Joana obedece. Melhor: trabalha para lhe dar de
                    comer. Está afeita. De dia carrega baús — seis vinténs.., doze vinténs... — à
                    noite o quadro é este: a venerável D. Hermengarda numa cadeira de rodas, com um
                    resto de quico na cabeça, e a Joana extática a satisfazer-lhe as
                    impertinências.</p>
                <p>Não ouve, creio mesmo que não pensa. Os seus gestos são conduzidos por outras
                    mãos, atrás dela há outras figuras até a raiz da vida, que embalaram berços,
                    choraram sobre a desgraça e tomaram para si o quinhão mais pesado. Até já nem é
                    Joana que fala, mesmo para contar a sua história. Ou só, ou quando encontra
                    alguém, a Joana divaga:</p>
                <p>— E vai eu disse-lhe... Fui ter com a filha e vai eu disse-lhe: — Deita-me aí pão
                    quente numa malga com meio quartilho de vinho. — E vai ela disse-me: — Tenho aí
                    pão velho, não enxerto o outro. — E vai eu disse-lhe: — As bagadas que tenho
                    chorado caiam sobre ti.</p>
                <p>Não sabe mais que dizer. Aquela fastidiosa perlenga ouviu-a a outras velhas e vem
                    do princípio do mundo: aplica-a para exprimir a sua dor.</p>
                <p>O trabalho da vida é persistente e oculto. Gasta, desgasta, como uma pedra sobre
                    outra pedra. Não é só por fora que criamos rugas: por dentro a usura é imensa.
                    Só a Joana conserva a ternura intacta. O que havia a dizer era como se formou
                    esta alma e eu não sei dizê-lo. Por fora farrapos, por dentro vida. O tojo mais
                    bravio deita mais flor. Um fio de água que reluz prende-me horas e transforma as
                    pedras. A ternura da Joana modifica-lhe a fealdade, pega-se-lhe às mãos e aos
                    trapos que a vestem. O que eu não dou é a expressão, o que eu não dou é a luz.
                    Afundo-a, amolgo-a. E no entanto a figura impõe-se-me pela expressão máxima da
                    dor. A Joana debruça-se sobre uma grandeza com que não posso arcar. Resiste,
                    luta e atreve-se. Aumenta. E também só ela ao mundo não se importa de
                    morrer.</p>
                <p>Talvez a morte seja para ela a vida.</p>
                <p>Esta luzinha viaja há muitos milhares de anos. É como a faúlha de uma estrela,
                    perdida na imensidão, que lhe custa a chegar à terra. E caminha sempre, humilde
                    e obstinada, através do infinito — sempre. Por isso ela teimava: — O menino está
                    vivo!... — Por vezes parece que se apaga. Reaparece através da obscuridade
                    espessa acumulada há séculos. Talvez toda a grandeza desta mulher esteja nisto:
                    é que ela é conduzida por uma mão enorme. A sua ternura é instintiva, a sua
                    humildade é instintiva...</p>
                <p>Pare. Pare a desgraça. Cria. É a velha que tira a côdea à boca para a dar aos
                    netos. É a velha que encontraste há bocado no caminho, de olhos aguados. Cada
                    vez é maior. Traz este carreto à cabeça desde o princípio do mundo e ainda o não
                    pode pousar. Embala os berços. Pega nas crianças ao colo. Desde o princípio do
                    mundo que estas mãos ásperas amparam as crianças. Não é uma figura — é uma série
                    de figuras...</p>
                <milestone rend="asterisks" unit="section"/>
                <ab type="dateline">16 de Setembro</ab>
                <p>O desabar da chuva lá fora di-lo-íeis não exterior, mas ligado ao teu próprio
                    ser: são lágrimas que tenho ainda para chorar. Da escuridão opaca ressurgem e
                    rodeiam-me os mortos: o montante que rachou a alvenaria e os cavadores que
                    lavraram a mesma terra e curtiram a mesma dor. Este cheiro a pobre, estes traços
                    corroídos pelas lágrimas, estes tipos amolgados pela desgraça, povoam-me a noite
                    toda e dizem bem com o desabar ininterrupto de lágrimas lá fora. Outra coisa
                    exprimem as figuras denegridas que vão aparecendo por trás da figura da
                    Joana...</p>
                <p>Some-se a mulher da esfrega e primeiro vem um velho que mói e remói obstinado uma
                    côdea de pão. O pai de Joana tinha oitenta anos quando morreu. Deram com ele
                    caído sobre o lar, levaram-no em braços para a enxerga. Quatro paredes, duas
                    caixas de castanho, e junto ao catre, junto ao peito, a pedra seca, o granito.
                    Uma mulher desata aos gritos debruçada sobre o catre:</p>
                <p>— Vossemecê conhece-me? Vossemecê conhece-me?</p>
                <p>Os olhos não se lhe despegam da arca. Ao fim da vida tem de seu o alvião, a
                    enxada e a manta no fio. A cabeça branca mirrou, a pele é como a crosta que
                    calcamos.</p>
                <p>Tem não sei quê de raiz, tem não sei quê de tronco, afora os cabelos brancos que
                    o tornam humano, e o tempo revestiu-o da mesma cor dos montes. Desabituou-se de
                    falar, e pela grandeza e pelo silêncio só o comparo à pedra. Tudo isto foi
                    pedra. Ele e os seus, a poder de anos, moeram-na. Criou-a. Sua vida está ligada
                    à vida da terra. À terra só falta comê-lo.</p>
                <p>Terra, terra negra e ingrata, terra de detritos de rocha e mortos, poeira de
                    árvores, suor de pobres, terra que tudo gastas e consomes, há muito que o
                    fizeste teu igual. Nem sei distinguir-vos, mãos como pedras, pele como a tua
                    pele.</p>
                <p>A terra come .e desgasta. A terra apega-se e encarde. Deforma-o. De revolver a
                    terra criou cascão e um olhar profundo. Só o comparo a Cristo, a um Cristo que
                    tivesse vindo até à velhice, de desilusão em desilusão e de desamparo em
                    desamparo.</p>
                <p>Na noite negra desfilam outras figuras. Um chega e diz: — O corpo pede-me terra.
                    — A pobre, com um saco de estopa às costas, espera a esmola e reza.</p>
                <p>Agora este... Este ressequiu como os morros de pedra, como a laje compacta. A
                    pedra pega pedra. As mãos têm terra nas rugas desde que lidaram com terra.
                    Curtiu anos de fome e de terra entranhada na pele, entranhada na alma.</p>
                <p>O casebre é de pedra, é de pedra o lar, e arrima-se de um lado ao coração do
                    monte. Por teto uma trave e colmo, por chão terra batida. A casa também entra
                    aqui.</p>
                <p>Pedras, ternura, aflição, tudo no mundo deita as mesmas raízes. Uma casa não é só
                    alvenaria: é dor, vida e morte. A árvore também aqui entra: a árvore é uma
                    construção viva.</p>
                <p>A mãe ficou prenhe. Eram tão pobres que, para o que havia de nascer, só amanharam
                    um paninho, duas camisas e um lenço. Vieram as dores e nasceram dois gémeos.
                    Repartiu as camisas, rasgou o lenço e o pano ao meio, e, no casebre perdido,
                    entre a natureza bruta, a mulher pôs-se a chorar dando um seio a cada um.</p>
                <p>Mais outras figuras se destacam ainda da noite. São de terra e pedra, são figuras
                    desumanas. Remoem o pão devagar e o fumo sobe pela parede e enegrece-a, camada
                    atrás de camada. Aquecem-se ao lar. A pedra é um calhau arrumado à parede, uma
                    lasca negra e ressequida. E agora, noite funda, todos os mortos estão ali
                    presentes e atendem... A pedra tosca do lar, a pedra salitrosa à volta da qual
                    se juntam, é muito mais que um calhau. A pedra é sagrada.</p>
                <p>Estão ali o avô, os avós, os jornaleiros. A um, tão entranhado de terra, mal o
                    descortino. E atrás destes, ainda outros, mudos e disformes — outros como terra
                    — outros como árvores decepadas — outros como fome e que mal sabem exprimir-se —
                    outros a quem só se veem as mãos nodosas — e a série sumida de mulheres, bronco
                    e dor, que a vida consumiu, e que procuram debruçar-se para ouvir...</p>
                <p>Está ali o montante que acometeu a pedra do monte dura como aço, e dias após dias
                    curvou-se sobre a praga e meteu-lhe o ferro até à raiz.</p>
                <p>Um deles cavou e escavou o sobrado e dorme com a cabeça encostada ao granito. A
                    terra desgasta-o, a terra imprime-lhe relevo e carácter. Cerra-se-lhe a boca,
                    greta-se-lhe a pele. Ele e o monte suportam a mesma dor, que não sabem
                    exprimir.</p>
                <p>A cor é a cor da fome, o frio o da pobreza. Gasta-os e desgasta-os o uso da vida
                    e terra entranhada.</p>
                <p>É o cavador... Tudo que era exterior puiu-o no cavador a terra, na mulher as
                    lágrimas. Ficou só a expressão descarnada, como nos montes, como na própria casa
                    onde as coisas são simples e eternas. Pariu-lhe ali a mulher, entrou-lhe lá
                    dentro a morte. E as palavras reduziram-se também a esqueleto e têm o mesmo
                    emprego sóbrio: nem o cavador nem a fêmea têm que dizer um ao outro. Só o morro
                    consegue deitar um fio de água, que lima alguns palmos de erva. Concentrou-se em
                    muda aflição para produzir essas gotas geladas e um lameiro verde.</p>
                <p>O escuro gera uma série infinita de mulheres... Há em todas um momento de ternura
                    antes da terra se lhes entranhar. Aos trinta anos a fêmea encardida está velha.
                    Está velha de fome. Está velha de trabalho. Ela carrega. Ela levanta-se de noite
                    para coser a fornada ou para ir à vila. Ela quando tem um dia de folga vai
                    ganhar seis vinténs de jornal. Ela pesa o pão e reparte-o, ficando com o quinhão
                    mais pequeno. Com isto gasta-se. Nasceu com a pobreza, dormiu com a desgraça, e
                    com os anos uma figura se foi sobrepondo a outra figura. Apagam-se linhas,
                    salientam-se traços, e a mesma cor humilde reveste a mulher e a alvenaria. Ela e
                    a pobreza, ela e o dia de hoje, o dia de ontem e o dia de amanhã; ela e os
                    filhos para criar, os carretos para fazer; ela e a vida, todos os dias se vão
                    amalgamando, lutando, empurrando com desespero, até se criar esta figura e se
                    apagar a outra, gasta pelo uso da dor e pelo uso das lágrimas.</p>
                <p>Sozinhas lutam, sorriem, amparam. Velhas e exaustas espalham ainda ternura.
                    Curvam-se sobre o berços, vão pedir pelos homens. E sobre isto ignoram-se.</p>
                <p>— Mãe — pergunta a filha mais moça — mãe que coisa é casar?</p>
                <p>E ela responde como sua mãe lhe respondera:</p>
                <p>— Filha, é fiar, parir e chorar.</p>
                <p>A vida é uma coisa séria e por isso emudecem. Guardam para si o bocado mais
                    amargo, a tarefa pior de fazer. Se choram, choram baixinho para que as não ouçam
                    chorar, ali nas quatro paredes de alvenaria, ali onde as trouxeram pela mão,
                    entre as coisas familiares, o forno, o lar, os potes, a enxerga... Na enxerga
                    onde morreu a mãe, nasceram também os filhos.</p>
                <p>Há séculos que a mesma série de figuras repete os mesmos gestos. Há séculos que a
                    mesma mulher esfarrapada pare e o mesmo cavador revolve a terra. Há séculos que
                    comem o mesmo pão e a mesma usura os leva até à cova. Há séculos que se choram
                    as mesmas lágrimas e o monte deita a mesma água. As mulheres trazem os pequenos
                    ao colo e falam-lhes como lhes falaram a elas. O que se gasta, o que a dor e a
                    vida consomem, é a parte externa: as lágrimas renovam-se sempre. As leiras dão
                    sempre o mesmo pão escasso, no monte não se estanca o fio de água, que, como o
                    fio de ternura reproduz a vida, remoça sempre quatro palmos de erva. A mulher,
                    esta ou outra, chora debruçada sobre a masseira, pare com dor no mesmo catre,
                    morre com dor na mesma enxerga.</p>
                <p>E no fim de todas, apagada e sumida, surge outra, a serva. Do escuro saem
                    gemidos. A casa desapareceu: só correm lágrimas. Sinto uma mão que procura a
                    minha mão, e uma voz que me diz ao ouvido:</p>
                <p>— Escuta! Escuta!</p>
                <p>É a criada que serve o cavador desde pequena, a pobre que só tem de seu a saia
                    que traz vestida, que mistura lágrimas às minhas lágrimas.</p>
                <p>— Escuta! Escuta!</p>
                <p>E aquece-me as mãos com bafo.</p>
                <p>E se remexo o braseiro — vejo outras figuras, outras ainda, até ao início da
                    vida. Tão longe! Tão longe!... Mal descortino já a luz tão pequenina e humilde,
                    mal distingo a vida na treva condensada — uma luzinha de candeia, que há séculos
                    vem de mão de mulher em mão de mulher... Tudo volta à cinza. Diante de mim está
                    sozinha a Joana, que me mostra as mãos roídas, as mãos enormes, as mãos só
                    dor...</p>
                <p>O mundo é feito de dor — a vida é feita de ternura.</p>
                <milestone rend="asterisks" unit="section"/>
                <ab type="dateline">28 de Setembro</ab>
                <p>Diante do universo é menos que um caco, é um pobre coração usado pela dor. O
                    último gesto que a Joana faz, é o seu primeiro gesto, mas esboçado apenas, como
                    quem segue um fio já muito ténue de sonho, que não tem força para levar até ao
                    fim, o de aconchegar uma criança ao peito — gesto que vem de séculos em séculos,
                    desde o inicio do mundo, repetido pelas sucessivas imagens de mulheres já
                    desfeitas em pó, repetido no futuro por milhares de seres incriados.</p>
                <p>Não soube nada na vida, não foi nada na vida, não percebeu nada da vida. Oh vida
                    denegrida, monótona e sem sabor, de loiça para lavar, de carretos para fazer,
                    afundaste-a, esfarrapaste-a, amarfanhaste-a, engrandeceste-a!</p>
                <p>Preciso aqui de uma árvore. Uma árvore que dê sombra e ternura — uma velha árvore
                    carcomida. Nunca pude passar sem essa sombra inocente. Meio morto de cansaço e
                    de mentira deito-me ao pé dela e renasço. Todos a aproveitam — para o lume —
                    para traves — para o caixão.</p>
            </div>
            <div>
                <head>Capítulo XVII</head>
                <head>PAPÉIS DO GABIRU</head>
                <p>Chove um dia, outro dia, sempre. Amanhece um dia nublado, outro dia alvorece
                    áspero e negro. O vento abala a pedra sobre que é construído o casebre. O
                    inverno tem a sua voz própria, a sua cor, o seu vestido em farrapos com que
                    agasalha os montes deixando-lhe os ossos de fora. Mas o inverno é sonho. Só
                    agora o compreendo. É sonho concentrado: sob esta casca ressequida está uma
                    primavera intacta. Esta voz clamorosa é a voz dos mortos. Uma pausa, a
                    prostração da tempestade, e depois redobra o clamor... Andam aqui as suas
                    lágrimas... Na sufocação reconheço esta voz que me chama. E depois a tempestade,
                    novos gritos, a escuridão profunda...</p>
                <p>Lá andaremos todos não tarda! Lá andaremos todos não tarda!</p>
                <p>«Que frio o outro mundo! Que impassibilidade a do outro mundo!</p>
                <p>Saudade, saudade de tudo, até do fel, saudade de te não sentir ao pé de mim.
                    Tenho saudade da vida. Só poder aquecer-me ao lume, só sentir o lume neste
                    inverno sem limites, neste frio de morte — sem outra primavera! O que a
                    vulgaridade sabe bem! O que a matéria sabe bem!</p>
                <p>Não vejo. Ceguei.</p>
                <p>Disperso-me, e por mais esforços que faça, sinto-me desagregar: perco pouco e
                    pouco a consciência de mim mesma. Sou ainda ternura e pouco mais. Já não tenho
                    lágrimas.</p>
                <p>Quem me dera a desgraça!</p>
                <p>E unia pena da vida! Uma saudade da vida! Uma tristeza de não poder misturar-me à
                    vida! A vida — e um cantinho do lume, a vida banal, a vida comezinha... Tenho
                    saudades do muro a que costumava queixar-me.</p>
                <p>Vive devagarinho. Aquece-te à réstia do sol como quem nunca mais tornará a
                    aquecer-se; perde todas as horas a trespassar-te da vida.</p>
                <p>Deixa que sobre ti caia o pó de ouro. Vive-a.</p>
                <p>Tu és a nuvem, tu és a árvore. Enche a consciência de todas estas coisas, porque
                    não tardarás a perdê-la.</p>
                <p>Vive-não tornas a viver. Põe de acordo a tua alma com a pedra, extrai encanto do
                    céu e da miséria. Pudesse eu gritar! Pudesse eu ter fome!</p>
                <p>Só agora dou pelo sabor das lágrimas.</p>
                <p>Sorri, esquece, dorme, sonha...»</p>
                <p>Não me compreendo nem compreendo os outros. Não sei quem sou e vou morrer. Tudo
                    me parece inútil e agarro-me com desespero a um fio de vida, como um náufrago a
                    um pedaço de tábua.</p>
                <p>Nem Sei o que é a vida. Chamo vida ao espanto. Chamo vida a esta saudade, a esta
                    dor; chamo vida e morte a este cataclismo. É a imensidade e um nada que me
                    absorve; é uma queda imensa e infinita, onde disponho de um único momento.</p>
                <p>Talvez o mundo não exista, talvez tudo no mundo sejam expressões da minha própria
                    alma. Faço parte de uma coisa dolorosa, que totalmente desconheço, e que tem
                    nervos ligados aos meus nervos, dor ligada à minha dor, consciência ligada à
                    minha consciência.</p>
                <p>Estou até convencido que nenhum destes seres existe. Este fel é o meu fel, este
                    sonho grotesco o meu sonho. Estou convencido que tudo isto são apenas expressões
                    de dor — e mais nada.</p>
                <p>Nós não vemos a vida — vemos um instante da vida. Atrás de nós a vida é infinita,
                    adiante de nós a vida é infinita. A primavera está aqui, mas atrás deste ramo em
                    flor houve camadas de primaveras de ouro, imensas primaveras extasiadas, e
                    flores desmedidas por trás desta flor minúscula. O tempo não existe. O que eu
                    chamo a vida é um elo, e o que aí vem um tropel, um sonho desmedido que há de
                    realizar-se. E nenhum grito é inútil, para que o sonho vivo ande pelo seu pé. A
                    alma que vai desesperada à procura de Deus, que erra no universo, ensanguentada
                    e dorida, a cada grito se aproxima de Deus. Lá vamos todos a Deus, os vivos e os
                    mortos.</p>
                <p>O mundo é um grito. Onde encontrar a harmonia e a calma neste turbilhão infinito
                    e perpétuo, neste movimento atroz? O mundo é um sonho sem um segundo de paz. A
                    dor gera dor num desespero sem limites.</p>
                <p>Eu não sou nada. Sou o minuto e a eternidade. Sou os mortos. Não me desligo disto
                    — nem do crime, nem da pedra, nem da voragem. Sou o espanto aos gritos.</p>
                <p>O sonho completo é o universo realizado.</p>
                <p>Cada vez fujo mais de olhar para dentro de mim mesmo. Sinto-me nas mãos de uma
                    coisa desconforme. Sinto-me nas mãos de uma coisa imensa e cega — de uma
                    tempestade viva.</p>
                <p>Não só a sensibilidade é universal — a inteligência é exterior e universal.</p>
                <p>O universo é uma vibração. A vida é uma vibração na vibração.</p>
                <p>Toda a teoria mecânica do universo é absurda. Daqui a alguns anos todos os
                    sistemas serão ridículos — até o sistema planetário.</p>
                <milestone rend="asterisks" unit="section"/>
                <ab type="dateline">23 de Novembro</ab>
                <p>Há dias em que me sinto envolvido pela morte e nas mãos da morte. Há dias em que
                    não distingo a vida da morte, e agarro-me como um náufrago a este sonho...</p>
                <p>.Cheguei ao ponto, Morte. Cheguei onde queria. Tu és o meu sonho frenético. Não
                    há outro maior. Cheguei ao ponto em que te não distingo da vida. Tu és a vida
                    maior. Por vezes vejo o grande mar, onde a lua deixa o seu rasto, caminhar
                    direito a mim. Vagueia a floresta adormecida e avança desenraizada para mim...
                    Cheguei ao ponto, Morte, em que não me metes medo. Aceito-te. De ti me vem a
                    vida. Absorve-me. Só tu agora me prendes os olhos e de ti não posso arrancá-los.
                    És o único mistério que me interessa. Confio em ti. Cheguei ao ponto, Morte, eu
                    que só de ti espero. Só tu resolves e explicas. Só tu acalmas. Aceito-te mas
                    intimo-te. Toma a forma que quiseres, mais negra, mais trágica, mais torpe — bem
                    funda é a noite e está cheia de luzeiros: — recebo-te, mas como um passo a mais
                    para outra iniciação, para outro assombro, e até para outra dor se quiseres,
                    porque da dor extraio mais beleza, mais vida e mais sonho.</p>
                <p>.E contudo esta resignação é fictícia... Não, nunca acordei sem espanto nem me
                    deitei sem terror. Ainda bem que o digo!</p>
                <p>Siga a vida seu curso esplêndido. Sabe a sonho e a ferro. E ternura, desgraça e
                    desespero. Leva-nos, arrasta-nos, impele-nos, enche-nos de ilusão, dispersa-nos
                    pelos quatro cantos do globo. Amolga-nos. Levanta-nos. Aturde-nos. Ampara-nos.
                    Encharca-nos no mesmo turbilhão do lodo. Mata-nos. Mas um momento só que seja
                    obriga-nos a olhar para o alto e até ao fim ficamos com os olhos estonteados. Eu
                    creio em Deus.</p>
            </div>
            <div>
                <head>Capítulo XVIII</head>
                <head>A OUTRA COISA</head>
                <p>Há no mundo uma falha. Os poentes são labaredas roxas: resquícios de escarlate,
                    dois, três grandes jatos violetas que se estendem pelo céu — uma maravilha
                    quimérica. A primavera prolonga-se: superabundância de flores nas árvores,
                    espiritualidade na matéria, como se as árvores fossem morrer. Mais flores, mais
                    poentes onde o ouro e o roxo predominam, mais gritos no mundo, mais vulcões de
                    cores, que pressagiam catástrofes, e um ruído apagado, esquisito, insuportável
                    dentro de nós próprios, que só comparo ao som de uma borboleta esvoaçando contra
                    as paredes de um vaso.</p>
                <p>É a morte que faz falta à vida.</p>
                <p>Paira sobre o mundo uma alma monstruosa, um fluido magnético, onde se mesclam
                    todas as cóleras, todos os interesses e todas as paixões, e essa alma envolve,
                    penetra e reclama dor. Formam-se tempestades e terrores elétricos. Anda ávida,
                    desencadeia catástrofes, desaba desgrenhada, com uivos noturnos de desespero.
                    Cala-se — é pior: ninguém lhe suporta o peso. Produz jatos de ouro, auroras
                    boreais, grandes incêndios no céu como se o globo ardesse. Despenha-se em
                    montanhas de cor, em abismos roxos, paira em campos etéreos de uma serenidade
                    elísia. São talvez os mortos que reclamam mortos. É talvez a vida universal
                    perturbada. São outras gerações esquecidas, camadas informes de que ninguém
                    suspeita o nome, legiões sobre legiões incógnitas — é a vida embrionária que
                    reclama a sua entrada na vida.</p>
                <p>E, no fundo, sob este subterrâneo, há outro subterrâneo: ouço passos e as vozes
                    de mais outros ainda que sobem para a superfície. Todos os mortos se misturam
                    aos vivos. Arrombaram de vez os sepulcros. Tu que não viveste queres agora por
                    força viver; tu que não mataste queres agora por força matar. Mais mortos desde
                    o início — maior mixórdia. Todo o esforço era para virem à supuração. Atrás de
                    uma camada havia outra camada. Há séculos que carregamos nas tampas dos
                    sepulcros para os não deixarmos sair. Na realidade nunca se jogou o gamão nem se
                    disseram palavras vulgares. Atrás dessa aparência estava intacta uma coisa
                    desconforme, e às vezes por uma fresta irrompia a claridade do inferno... Agora
                    a terra desfaz-se em mortos, como uma acha se desfaz em fumo.</p>
                <p>O que era vida irreal, é agora realidade, o que era vergonha, ninharia e
                    ridículo, é a vida agora. O que toma pé são os sonhos, o que se agita são as
                    paixões desregradas. Não há limites nem peias. Vêem-nos como eu te vejo a ti.
                    Tenho diante de mim este espetáculo, como se fosse possível aos homens
                    desdobrarem-se e tomarem corpo, ideias e paixões. Eles são aquilo que
                    ocultamente desejavam ser, são o que não se atreviam a ser. Sob um mundo de
                    verdade há outro mundo de verdade. É esse mundo invisível e profundo que passa a
                    ser o mundo visível. É esse. Todo o homem é uma série de fantasmas e passa a
                    vida a arredá-los. Chegou a vez dos fantasmas. As nossas ideias e paixões é que
                    formam as figuras que atuam na vida.</p>
                <p>Segunda noite de luar. O perfume estonteia. Segunda noite de luar branco,
                    indiferente, coalhado, segunda noite de espanto. Redemoinhos de figuras e de
                    ação até aos confins dos séculos. Outrora, numa vida monótona e incerta, só se
                    realizavam duas ou três horas de exaltação. A vida agora é uma exaltação
                    perpétua.</p>
                <p>Tudo mudou: a árvore não existe como a pedra não existe. O único mundo real é o
                    mundo irreal. Todos nós andamos a criar um mundo que é o único verdadeiro — os
                    vivos e os mortos. Todos trabalhamos com o mesmo afã para o mesmo fim. Já a
                    matéria se adelgaçava... O mundo ideal é o mundo da dor, do sonho, é o universo
                    reconstruído. A vida quotidiana é o maior dos dramas — com a vida oculta ao lado
                    — e cada dia tem o peso de um século.</p>
                <p>Ri-te agora. se podes da D. Leocádia, que rumina como Lady Macbeth as piores
                    ruínas. Esta vida é feita de todos os nossos esforços e dos esforços do fundo.
                    Somos apenas um reflexo dos mortos, e agora que tu queres falar com a tua voz, é
                    que as ordens são mais categóricas e o conflito monstruoso. Segunda noite de
                    luar, branco, estranho, inefável. Toda a noite o rouxinol cantou. Duas, três
                    horas, e canta ainda apaixonado e frenético... Debalde quero libertar-me dos
                    fantasmas, debalde quero viver da minha própria vida!...</p>
                <p>É que a vida não és tu nem eu, a vida é uma massa confusa e heterogénea, um
                    pesadelo, uma nuvem negra ou uma nuvem de ouro, uma tempestade elétrica, com
                    bocas abertas para risos e bocas abertas para gritos. Não é um detalhe — é um
                    panorama. É um imenso farrapo dorido. Anda aqui a alma de Joana e a secura das
                    velhas mesquinhas. É tão necessária a este fluido a dor muda do cavador como o
                    sonho desconexo do Gabiru. Anda aqui a primavera, as lágrimas que tenho chorado
                    e as que tenho ainda para chorar. Anda aqui a tragédia, a pedra, a árvore, a tua
                    inocência e a minha desventura. Tudo isto se congrega, e esta alma não vive sem
                    a tua alma, este grotesco sem o teu génio, esta vida sem a tua morte. Andam aqui
                    os mortos e os vivos, a árvore que há de ser árvore e o tronco que se desfez em
                    luz. É um ser imenso a que não vejo senão partes. Anda aqui a luz e a sombra, e
                    a luz não se distingue da sombra nem a vida da morte. A vida está tão feita
                    adiante de nós como atrás de nós. Está tão feita no passado como no futuro. Se o
                    futuro ainda não existe, o passado já não existe. E tudo isto se congrega. A
                    vida absorve-me e ponho-a em ação. Impregna-me e faço-a caminhar. Pertence-me e
                    pertenço-lhe. É o passado e o futuro — Jesus Cristo vivo, Jesus Cristo morto, e
                    Jesus Cristo ressuscitado.</p>
                <milestone rend="asterisks" unit="section"/>
                <ab type="dateline">26 de Novembro</ab>
                <p>Estamos à superfície desse oceano embravecido, e o impulso vem das camadas mais
                    profundas, das camadas informes. São todos. São até os que nunca tiveram olhos
                    para ver, os seres esboçados, com mãos rudimentares, aparências de árvores e de
                    figuras mutiladas. É a terra viva.</p>
                <p>É só sonho, é sonho estreme e dor estreme. Cada um assiste à projeção da sua
                    própria figura monstruosa no passado e no futuro, cada figura tem enfim as
                    dimensões de dor, que as palavras, as regras e os hábitos lhe não deixavam ter.
                    Cada alma é desmedida e trágica e vem desde os confins da vida até ao infinito
                    da vida. Cada um na floresta entontecida representa o máximo de sonho e o máximo
                    de ternura. Cada ser é enfim um ser completo e dourado, atinge a beleza e
                    Deus.</p>
                <p>As florestas já mortas, a luz das estrelas desaparecidas no caos — tudo aqui está
                    presente. O esforço dos mortos, o sonho dos mortos, o desespero dos mortos sobre
                    mortos, o reflexo de ternura, a mão que amparou, a boca que sorriu, levadas pelo
                    vento que soprou há dez mil anos, aqui estão vivos. Aqui está vivo o sonho que
                    sonhamos todos, o primitivo sonho humilde e o sonho repercutido de século em
                    século, assim como a tua voz compadecida. O sonho sepultado nas profundidades da
                    terra, o primeiro resquício, o nada e o sonho frenético, tudo aqui está na
                    floresta embravecida. E, com ou sem boca, com ou sem consciência, nunca mais
                    deixarei de andar nisto, disperso, amalgamado, confundido, de fazer parte deste
                    drama, queira ou não queira, proteste ou não proteste. Tudo é inútil, todo o
                    esforço inútil, todas as palavras inúteis. Reconheço-o. Mas não me canso de
                    pregar, não posso deixar de pregar, até cair vencido e exausto dominado e
                    deslumbrado. Na floresta embravecida, em que todos participam do mesmo ser, até
                    a mulher da esfrega encontra enfim Jesus:</p>
                <p>— Será vossemecê o José do Telhado que o tira aos pobres para o dar aos
                    ricos?</p>
                <p>— Sou um pobre de pedir.</p>
                <p>— Será vossemecê Nosso Senhor Jesus Cristo que veio ao mundo para nos salvar?</p>
                <milestone rend="asterisks" unit="section"/>
                <ab type="dateline">30 de Novembro</ab>
                <p>Chega o momento em que me perco, em que tenho medo de mim mesmo, em que me
                    atemoriza o som da minha própria voz. Quem sou eu? Os outros? Sou os outros? São
                    eles que falam, que ordenam, que me impelem? Eu sou os mortos! Eu sou os mortos!
                    Eu sou uma série de fantasmas, que se açulam entre mim e mim. Reconheço-os. O
                    gesto esboçado há milhares de anos, e perdido, consumido, consegue hoje
                    realizar-se, o gesto que a morte calou numa boca ignorada, faz eco no mundo.
                    Todos os sonhos são realidades, os mais altos, os mais humildes, os mais belos e
                    os mais grotescos. Só os sonhos são realidade nesta noite quieta e caiada, com
                    uma mancha vermelha de polo a polo.</p>
                <p>Aqui está agora isto a que se chama noite de luar, branca, inerte, passiva, com a
                    lua espargindo luz sobre o dourado. Aqui está a árvore, e era a isto que se
                    chamava a árvore! Aqui está a pedra e era a isto que se chamava a pedra! Aqui
                    está o céu e era a isto que se chamava o céu! Reconheço-vos.</p>
                <p>A morte encontra-se só — cortaram a árvore pelo meio. Anda pelo céu como um
                    cometa que desatasse aos tombos e aos gritos — de desvario em desvario. A cada
                    grito empalidece, esbraseia, muda de cor, abre a cauda de ouro, de trambolhão em
                    trambolhão...</p>
                <p>A morte faz estremecer o mundo até à raiz. A morte já não tem a mesma
                    significação. A morte é agora inútil e anda à solta no infinito, desgrenhada,
                    dorida e dourada. Desespera-se. Tenho medo de lhe tocar. O drama que se passa em
                    cima é maior que o que se passa em baixo. É pior este tumulto de inferno, este
                    clamor de que me não chegam as vozes, esta força incoerente de pé — todas as
                    forças de pé — posta a caminho para o desconhecido. É pior. E a cada grito em
                    baixo corresponde um grito em cima.</p>
                <p>Reconheço o grito que sai da noite. São os vivos e os mortos... Mas então que
                    significação tem isto no universo, a dizer palavras inúteis no meio desta
                    balbúrdia, desta escuridão cerrada, deste dourado feroz, deste redemoinho sem
                    nome? Para que é que eu existo e tu existes? Para que é que eu grito e tu
                    gritas? Isto não és tu! Isto não sou eu! Isto é a vida temerosa, de que não
                    representas senão uma insignificante partícula. Tu não és nada, a vida é tudo. O
                    combate é incessante entre os vivos e os mortos, entre os mortos e os vivos.
                    Todos gritam ao mesmo tempo, todos caminham ao mesmo tempo para o mesmo fim
                    esplêndido. — Oh eu quero crer! — Por que é que gritas? — Fecha os olhos! Fecha
                    os olhos! — Agora sou eu quem falo! Agora são eles que falam!</p>
                <p>Oh minha alma pois eras tu! Agora te reconheço! Capaz de tudo, capaz de baixezas
                    e capaz de sacrifícios. Tão pequena! Tão transida! Não vales nada e pudeste
                    tanto! Oh minha alma, pois eras tu, eras tu! Pudeste arcar com o universo, olhar
                    Deus, construir Deus. Devo-te tudo: a ilusão, a tinta do céu, o sonho errático
                    das vastas florestas. Eras tu! Eras tu!... Tem-me custado a dar contigo, tão
                    mesquinha e capaz de povoares o céu de estrelas e o mundo de sonho. Atreves-te a
                    tudo. Afirmaste. Negaste. Eras tu, sempre dorida, sempre ansiosa, nunca
                    satisfeita, e coubeste dentro de quatro paredes. Tornaste-me a vida amarga.
                    Encheste-me de ridículo. Atiraste-me aos encontrões contra a massa cega e
                    compacta, levaste-me como restos de folhas nesta procela de sonho. Foste a
                    melhor e a pior parte do meu ser.</p>
                <p>Eras tu! E pude com esta enxurrada de cores, de tintas, de impulsos, a
                    instigar-me e a deslumbrar-me! E pude ao mesmo tempo com a dor! Fiz parte da
                    dor. A desgraça viveu comigo e o sonho viveu comigo. E pude com a vida!
                    Atravessei este mar monstruoso, servindo-me de meia dúzia de palavras. Que
                    importa ser ridículo? Que importa ser a D. Idalina ou a D. Engrácia? Suportei a
                    vida — suportei tudo. Que importa a tua mentira, se atravessaste a labareda e
                    ainda conservas o xaile tisnado?</p>
                <p>Para onde vamos aos gritos? Para onde vamos aos gritos?</p>
                <p>O peso da vida e o peso dos mortos sente-se cada vez mais. Todos clamam ao mesmo
                    tempo de pé para essa coisa imensa e dourada, num deslumbramento. Os mortos que
                    nos pareciam mortos, camada sobre camada, estão aqui de pé ao nosso lado.</p>
                <p>E o peso é cada vez maior. Até agora vivíamos com eles, respirávamos com eles,
                    mas não sentíamos o peso dessa poeira viva que é a sombra e a luz. Agora não
                    podemos com eles...</p>
                <p>E o lamento, o uivo sobe cada vez mais alto. Debalde tapamos os ouvidos: o uivo
                    penetra nas almas. E a um grito em baixo corresponde logo um grito em cima.</p>
                <p>E as mulheres das vielas põem-se a chorar, os ladrões das estradas desatam a
                    chorar...</p>
                <p>O uivo não cessa. Irrita. Enche o mundo todo. Quem grita? Nós próprios? O homem
                    que range por não poder suportar a vida? O grito domina tudo, trespassa o globo
                    e ecoa no mundo.</p>
                <p>E outra coisa monstruosa tomou o lugar da morte, outra sombra se entranhou de
                    salto na vida, outro turbilhão arrasta os homens. Modificaram-se as estrelas com
                    os sentimentos. Cada ser aumenta como se encerrasse em si a vida até aos confins
                    dos séculos. O passado não existe, o futuro redobra de proporções. Perdeu-se a
                    noção da desgraça e a noção do tempo, e a Via Láctea, onde se concentra toda a
                    sensibilidade do mundo, alastra entre os astros, de lés a lés, numa enorme
                    mancha de sangue.</p>
                <p>Ouves o grito? Ouve-lo?... — É preciso matar segunda vez os mortos.</p>
            </div>
            <div>
                <head>Capítulo XIX</head>
                <head>VÊM AÍ OS DESGRAÇADOS.</head>
                <p>Veneza tornou ao pântano, Florença e os seus offici ardem: outro Savanarola
                    queima em plena praça os quadros, as tapeçarias e as barbas postiças. Roma é uma
                    ruína a juntar a outra ruína. Do Vaticano nem os ossos ficam: só o insaciável
                    Coliseu continua de boca aberta a reclamar mais vítimas. Alguma cinza resta das
                    bibliotecas de Londres, de Paris e de Berlim. Pêsames ao caruncho. Acabaram as
                    literaturas, e os génios, reduzidos à imbecilidade, ruminam como o grande
                    Chateaubriand, com um fio de baba:</p>
                <lg>
                    <l><seg rend="italic" xml:lang="fr" type="foreign">Les petits cochons mangent
                            de...</seg></l>
                    <l><seg rend="italic" xml:lang="fr" type="foreign">Et nons mangeons les petits
                            cochons.</seg></l>
                </lg>
                <p>Destacam-se para a fronteira dois corpos de exército. Já a plebe, segundo a
                    Havas, se deitou a caminho dos confins do universo, em massas que a humanidade
                    se desabituara a ver desde as primeiras cruzadas. A vida oscila, pára, e quem
                    põe o ouvido à escuta sente o rumor da marcha iniciada... As crianças e os
                    pássaros emudeceram, o que produz na terra um silêncio atroz. Os olhos
                    encheram-se-lhes de uma tristeza irrefletida, inocência e extrato de vida,
                    sentimentos que se não coadunam. Tenho vontade de fugir, de me meter num buraco
                    onde não ouça rumor... Avança direita a mim a marcha de pesadelo. Mais perto!
                    mais perto! O círculo estreita-se, o negrume povoa-se de olhos aguados. Redobra,
                    arfa, estende-se. São os pobres. É preciso matá-los. Não cabemos todos — não se
                    cabe na terra. É necessário convencê-los de que a morte liberta e iguala... Até
                    aqui a desigualdade terminava diante da morte. Agora o rico corrompe-a com um
                    punhado de ouro. E há pobres de mais. Ser pobre é a pior das desgraças; é agora
                    ser duas vezes pobre.</p>
                <p>Debalde tapo os ouvidos: o rumor sobe cada vez mais alto. Ouço um grito como se
                    eu próprio gritasse. Do escuro avançam multidões confusas, que se despegam da
                    penumbra como se o negrume as criasse, para arrancarem, leva atrás de leva, na
                    mesma direção e no mesmo ímpeto. Morrem de fome, dizimam-nas à bala. Já a sombra
                    vomita outras multidões desesperadas. Não há quem as detenha. Marcham sempre. E
                    ao fundo agitam-se novas forças empurradas pela mesma força...</p>
                <p>Na França, na Itália, na Rússia, o exército bandeia-se com a plebe. Na barafunda
                    da Europa ardem aqui e ali cidades inteiras. Um brasido e gritos... E os últimos
                    telegramas denunciam coortes sobre coortes de povos afastados marchando também
                    no mesmo sentido. Mais gente, multidões de sonho. Redobram as passadas
                    monstruosas... Paris arde, em Londres não fica pedra sobre pedra. A massa
                    converge e dirige-se, como nas cruzadas, para o mesmo ponto magnético da terra.
                    E já nos confins da Ásia, na China e na Índia, se podem seguir no mapa idênticos
                    redemoinhos e se aprestam caravanas para o mesmo destino. Os pobres não querem
                    morrer. Caminham, e por vezes tomam uma cidade de assalto, e detêm-se minutos ou
                    dias violando mulheres, arrasando bancos e arrastando na lama farrapos inúteis
                    ou coroas de reis. A soldadesca acaba-os à baioneta como rebanhos amedrontados,
                    mas outra massa inesperada ressurge, outra multidão mais espessa com gritos e
                    cóleras. Em Berlim saqueado, o exército cerca a cidade e extermina-os até à
                    última, mas Berlim é uma mescla de restos e de muros enfumados onde comanda um
                    general. Em Paris, o povo, depois de arrastar pelos boulevards mulheres nuas,
                    princesas, cantoras ou meretrizes, encharca de petróleo os museus e deita-lhes o
                    fogo. Viena arde. Por último cessa toda a comunicação telegráfica, e só mais
                    tarde se sabe que, por acordo realizado entre as potências, um governo central
                    resolveu defender alguns pontos estratégicos, os Pirenéus, os Alpes, os maciços
                    centrais, como última tentativa de resistência. Quem pode, porém, contar com a
                    fidelidade da tropa? A loucura pega-se, e na noite os soldados ouvem gritos
                    dentro de si próprios e atiram fora as armas, bandeando-se com a plebe.</p>
                <p>Outras bases de vida! Outras bases de vida! Desaba o cenário de pano e ripas. Não
                    se sabe de que antros irrompe esta casta, que ninguém viu até hoje e que destrói
                    tudo. Depois dos pobres, vêm outros mais pobres ainda; depois dos desgraçados,
                    vêm outros mais desgraçados ainda, e arrasam as ruínas que os primeiros deixaram
                    de pé. Debalde contra a força desabalada manobram os pequenos exércitos
                    coligados — vários milhões de homens. Atrás da massa impenetrável, resiste outra
                    massa impenetrável. Ceifada a horda, outra horda se apronta para a morte. De que
                    vale ser rei, senhor de aquém e de além mar, de tesouros e povos? Tomara eu ser
                    mendigo! Bem dizia o outro: «Experimentamos o amor — experimentemos agora o
                    ódio». Os últimos telegramas dão a situação como desesperada. Surde uma gente de
                    que se não sabe a língua e que talvez não saiba falar. Liberdade, igualdade,
                    fraternidade, parlamento, questão social, tudo é varrido como lixo. Tudo o que
                    mantinha o pobre na pobreza e o rico no gozo, desapareceu de vez. Escacou-se a
                    vidraça por trás da qual a plebe observava a vida, sem se atrever a parti-la. —
                    Defendam-se! Defendam-se! Não há a esperar piedade! — De onde saem agora estes
                    homens seminus?... A Inglaterra caiu nas mãos dos mineiros, e nem resquícios
                    existem dos jardins verdes e imóveis, simulacros da natureza, onde nem o vento
                    se atrevia a perpassar, nem da hipocrisia, nem da flor branco e ouro do
                    patriciado. Resta a populaça cheia de álcool, aquecendo-se ao lume de
                    Westeminster. Reduziram a cacos as máquinas, e os bancos escorrem ouro como os
                    vivos escorrem sangue. Os homens amarelos, de chapéu de coco e rabicho, pegaram
                    fogo a Pequim. Crepita a majestosa avenida, que conduz ao Palácio Imperial, por
                    entre monumentos seculares e balaustradas de mármore. Paris é uma fogueira, mas
                    em Montmartre ainda se canta: não há dor que cale aquela voz esganiçada. Um
                    velho ator coroa-se imperador da Gália, logo varrido com a sua corte de opereta.
                    — Eu sou deus! Eu sou deus! — clama outro. E outro prega: — Eu sou o profeta
                    Elias! — Histriões conseguem arrastar bandos fanatizados. Reclamam o dízimo e
                    agregam alguns hipocondríacos com realejos e discursos. — Eu sou deus! Eu sou
                    deus! — Mas o mundo já não suporta facécias... Resta a fome, o egoísmo, a dor —
                    o homem em frente do homem. Anda o horror à solta e na obscuridade só se ouvem
                    gritos. De todos os buracos do globo surgem mais seres estranhos dirigidos por
                    hordas quiméricas. Contra eles manobra a cavalaria cujo galope abala a terra. É
                    quando se extingue de todo a piedade e se realizam as palavras da Escritura:
                    «Entre os humanos não há fé nem lei... »</p>
                <p>O primeiro bando que corre as ruas da capital é facilmente disperso, mas à noite
                    a esquadra sublevada bombardeia o arsenal e novos grupos armados assaltam os
                    quartéis. A rainha mãe exige que o filho carregue à frente das tropas, mas o
                    moço príncipe abandona o palácio e encerra-se na cidadela com alguns batalhões
                    fiéis e meia dúzia de oficiais chamuscados. Na rua comanda o povo um homem
                    colérico, com dragonas de museu e a espada tinta de sangue na mão crispada.</p>
                <p>Arrombam as repartições e os cofres. Atiram para a rua bagatelas, móveis, e um
                    político de barriga balofa, lunetas caídas e olhos esbugalhados de terror. Ao
                    lado espetam um letreiro: — Basta de discursos! — E o cadáver, ao fim de uma
                    vida de crápula, retórica e charutos, adquire não sei quê de fictício, de
                    palhaço irreal, que à custa de abjeção se fez trapo e cabe bem no enxurro. —
                    Mata! Mata! — Alguns refugiam-se debaixo das camas. Lá os rebuscam mãos
                    coléricas. Quebram tudo, que não compreendem e os irrita: móveis, estátuas,
                    quadros. Num arranco, que vem da inconsciência, despedaçam os homens imponentes,
                    as mulheres decorativas e os palácios inúteis: — Deitem tudo abaixo! Deitem tudo
                    abaixo! Neste mundo os mais honrados são os que estão na cadeia. Queimem tudo!
                    Queimem tudo! Queimem os papéis, queimem os jornais, queimem todas as ninharias,
                    todas as mentiras e todo o grotesco contemporâneo. Ai de ti se és pobre! A
                    pobreza é a única chaga e a única infâmia. Ai de ti se és pobre que és
                    escarnecido e ludibriado. Deitem tudo abaixo, os albergues e os asilos. Deitem
                    os hospitais abaixo! Peguem fogo a tudo!</p>
                <p>O ribombo da artilharia mistura-se ao uivo da besta luxuriosa, aos gritos de
                    terror e de loucura, ao rugido da infâmia e ao vómito dos bêbados. Ao longe não
                    cessa o crepitar das metralhadoras. Às esquinas estacam bandos com olhos
                    atónitos de quem vê pela primeira vez realizado os seus sonhos. Aqui e ali a
                    cidade deita as tripas à rua — um velho canapé servido, um canapé suspeito, com
                    nódoas e a crina de fora ao lado de farrapos e restos. Um homem, dois homens
                    esburacam um muro, indiferentes aos gritos da populaça, absortos na sua obra: a
                    parede de um banco, ou uma vingança a satisfazer. Num recanto rodeiam um cadáver
                    seminu algumas raparigas com uma curiosidade perversa. Mais bandos de fantasia e
                    sonho, bandos de crime, guarda-roupa de teatro, guarda-roupa de palácios,
                    guarda-roupa da realeza. Os soldados atiram à bala rasa sobre os insurretos.
                    Meia cidade arde. Erguem-se novas barricadas. Vagueiam nas avenidas, sem chefes
                    e sem norte, regimentos despedaçados, e os cavalos abalam num galope de dor com
                    as tripas a rasto. O grande general, refugiado no quartel, arvora a toda a
                    pressa, perante a plebe ameaçadora, a fralda da amante na ponta duma espada.
                    Alguns destroços conseguem retirar em ordem para a cidadela, onde a rainha mãe,
                    com um chapéu de plumas e um chicote na mão, remoçada e loira, aponta os canhões
                    e dispara-os, à duquesa de Montpensier.</p>
                <p>Nessa noite a loucura atinge o auge: sai tudo para a rua, velhos e doentes
                    fugidos ao hospital, trapos como nunca se viram trapos, figuras como nunca se
                    sonharam figuras. Um com uma arma inútil, outro com um calhau. Riem de desespero
                    porque vão matar. Vem tudo: vem o pobre, os empregados a quem a submissão
                    curvou, com um ódio entranhado aos papéis, aos cadastros, às bibliotecas e aos
                    arquivos que tresandam a bafio, as mulheres e os doidos. Destroem tudo: os
                    museus de arte que a multidão não compreende, e o mundo de artifício que só foi
                    possível à custa da sua dor. Ardem os asilos, os hospitais e os quartéis, as
                    casas de luxúria, as convenções, o bem e o belo, arde tudo, tudo regado a
                    excelente petróleo flameja e crepita por essa Europa fora. É o secreto instinto
                    da besta que não quer sofrer mais, que não quer pensar mais, e que se traduz por
                    este grito supremo: — Regressemos ao Paraíso, regressemos à animalidade. Só o
                    homem morre, porque sabe que morre. — Por toda a parte desesperos, lágrimas
                    inúteis, urros de besta saciada, por toda a parte sangue, álcool, clarões de
                    incêndio. O homem regressa à caverna e aniquila a inteligência, a dor e a
                    dúvida... — Nunca a noite me pareceu mais bela nem o ar mais puro. O coração
                    bate-me com um largo ritmo diante deste espetáculo, e aspiro violentamente o
                    cheiro amargo a eucalipto e a sangue como quem aspira um perfume...</p>
                <p>Entre as alas da multidão que se comprime começa o desfile dos prisioneiros de
                    guerra. Vêm primeiro os ministros, depois as prostitutas, depois atrizes
                    representando as últimas revistas, depois diplomatas representando os últimos
                    papéis, depois a finança e os bancos, depois músicas. Segue a Igreja e os seus
                    grandes prelados, e o génio que não serviu senão a sua vaidade e o seu egoísmo;
                    a arte e os seus grandes ouropéis; os juízes, a magistratura, a complicação para
                    ganhar dinheiro e um catafalco monstruoso, um catafalco complicado e inútil.
                    Toda a gente assiste sem um grito, sem uma exclamação, sem uma palavra. Seguem o
                    préstito meninas com asas e mantos azuis, meninas com legendas, músicas
                    esbaforidas, e um homem convencido, que solta pombas brancas sobre a multidão.
                    Acompanham-no outros com dísticos de papelão dizendo: Felicidade universal —
                    Paz, unido 'e progresso — Moralidade — Fraternidade! Fraternidade! A passo
                    avançam servos com algumas cabeças degoladas em pratos de cobre, alguns reis a
                    dançar como o profeta David, o corpo de baile do teatro da Ópera, dor,
                    mistifório, absurdo e chufas. Gente às gargalhadas e uma mulher pálida, com
                    olhos de espanto e as mãos torcidas de desespero. Alguns cadáveres arrastados
                    pela lama, algumas meretrizes nuas, alguns homens notáveis de grandes barbas
                    postiças. Damas vaporosas, a mulher de cabelos pintados, bela como um animal,
                    adorada como nunca o foi pela bestialidade e pelo instinto, e com ela himalaias
                    de farrapos, de chapéus, de rendas reduzidas a cisco, que se enredam nas pernas,
                    voam ao vento, e se amontoam nas ruas. Segue o respeitável corpo médico, e
                    depois as gerações superiores que tiram da vida o máximo rendimento que a vida
                    pode dar, sabendo manejar os homens e fazendo à noite o cálculo do seu dia, e
                    atrás a mudança trágica de uma velha casa sem serventia, com coisas imprevistas
                    de grotesco, trapos, velhos retratos de comendadores, móveis suspeitos, lixo, e
                    a D. Idalina num coche atirando beijos à multidão... E com isto dor. Um
                    intervalo e começam a desfilar figuras conhecidas — o cónego Firmino de óculos
                    de ouro, que escrevia sonetos à Virgem, falava de liberdade, ordem e Igreja e
                    preparava-se para bispo, e, perdido no tumulto do cortejo, o grande Teles
                    Militão, chefe de partido, com a mão no peito, repetindo mecanicamente as
                    grandes frases dos seus grandes discursos, o Melo, o Sampaio, o intrujão
                    político, o janota, o pelotiqueiro, o que faz recados ao último conselheiro, e
                    outras figuras insignificantes e burlescas, tudo confundido e disperso na mesma
                    lama, atrás do andor do Senhor dos Passos da Graça. A corte, bambinelas, um
                    estandarte, homens desvairados, desfechando as clavinas, um coro de revista,
                    cartazes de teatro anunciando as últimas representações, um redemoinho, uma
                    pausa, um grito de terror, um alucinado que se desespera por falar e não
                    consegue falar, mais restos, um quadro de papelão inexplicável e confuso,
                    acarretado por homens solenes, um longo intervalo, máscaras em silêncio atroz, e
                    depois Jesus arrastando uma cruz imensa, no esforço de quem carrega o mundo. É
                    um Jesus com séculos de existência. Cai, ergue-se, e quando se ergue e nos
                    encara, vê-se-lhe a face ignóbil (S. Cirilo) onde se estampam todas as nossas
                    dúvidas e todos os nossos crimes. Um hiato, outro redemoinho, e apercebem-se ao
                    fundo, entre a confusão, o terror e o espanto, prisioneiros com as mãos
                    decepadas. Vem aí a dor, a mixórdia, e uma procissão com uma série de andores
                    complicados, seguidos por homens que tomam a sério o seu papel. Acompanha-os um
                    doido, que, de vez em quando, bate com a cabeça no chão e exclama: — Fui eu que
                    os criei! Fui eu que os criei! — Um rugido de gente desvairada: — Não queremos
                    sofrer mais! Não queremos sofrer mais! — E, lá para a obscuridade, não sei que
                    engrenagem se arrasta, que avantesma se desloca a custo, no silêncio cada vez
                    mais profundo, entre o terror, a crueldade e o remorso, e mais sombras temerosas
                    que se agitam na sombra, mais multidões confusas, mais risadas e súplicas — e o
                    soluço de quem não quer morrer, de quem lhe custa a morrer. Por último o caos.
                    Por último a sombra opaca.</p>
                <p>Ao quarto dia a situação modifica-se. A tropa fiel concentra-se em volta da
                    cidadela e a rainha passa-lhe revista a cavalo, sob o fogo da populaça. O
                    telégrafo volta às mãos do governo. Meia dúzia de oficiais novos, substituem os
                    políticos espavoridos. Na Europa a situação também melhora, e alguns emissários
                    do estrangeiro estão reunidos em Palácio...</p>
                <p>Salão enorme com o teto arrombado pelas granadas: no alto um pedaço de céu cor de
                    fogo. Atirados para um canto dois cadáveres de soldados, como dois manequins.
                    Grande mesa, cadeiras empertigadas, com coroas a ouro no alto dos espaldares,
                    que só se encontram nos guarda-roupas dos teatros ou nas salas dos conselhos de
                    estado. Pesados reposteiros caídos e rotos, espelhos, mesas com lacinhos
                    dourados e festões, estilo disto, estilo daquilo, pompas, farrapos que não
                    tornam a servir, e que parecem mais grotescos com a revolta ao fundo. À roda da
                    mesa, com tinteiros de metal amarelo e papéis alinhados, alguns homens dispersos
                    ou reunidos em grupos, três oficiais, um banqueiro, um cardeal e um padre,
                    pálidos e glabros dois tipos vulgares vestidos de preto — o conselho de estado.
                    Um homem preside a esses homens com séculos de vida diante de si, figurinha
                    insignificante, míope, de barba rala, animal de sangue frio, impenetrável e
                    correto.</p>
                <p>— De hoje em diante a humanidade separar-se-á em duas castas — os super-homens e
                    os outros. Era fatal.</p>
                <p>— Mas o progresso...</p>
                <p>— Como em todas as grandes épocas históricas voltaremos a ditadura.
                    Organizemo-nos. Não há tempo a perder.</p>
                <p>Vem de fora o rugido da multidão, estampidos longínquos, o tiroteio da fuzilaria
                    — depois o silêncio — depois um bramido de cólera. O clarão do incêndio
                    projeta-se nas vidraças. O céu arde.</p>
                <p>— A vida pertencerá à casta, ao resto da humanidade é necessário encurralá-la na
                    escravidão.</p>
                <p>— E quem os há de conter?</p>
                <p>Um oficial glorioso e chamuscado entra na sala para receber ordens. E o homem
                    duas vezes lhe repete:</p>
                <p>— Acima de tudo a ordem.</p>
                <p>As ideias de demência em que alguns insistem vão-se transformando, à medida que o
                    ruído do canhão se afasta, em violência e dureza.</p>
                <p>— Fuzilam-se?</p>
                <p>— Fuzile, fuzile.</p>
                <p>Aumenta o tiroteio, domina-o o estrondo do canhão, e a luz do incêndio ilumina a
                    sala como um dia de Agosto. Ele explica, sem se alterar, com laivos de espuma ao
                    canto da boca:</p>
                <p>— Massacram-se. É necessário massacrá-los, massacram-se. A sociedade tem de se
                    reconstituir noutras bases, a humanidade de se vazar noutros moldes.
                    Continuemos... Mudou tudo no mundo, o mundo transformou-se. A história do
                    dinheiro é a história da nossa vida. É preciso extorqui-lo ao cobre, ao chumbo,
                    à desgraça. As grandes questões não são hoje as questões morais — são as
                    questões económicas. As questões máximas a resolver são as questões de tarifas,
                    as dificuldades de transporte, as questões metalúrgicas. Rasga-se a África,
                    exploram-se os minérios de Orenza. Unem-se os Creuzot, os de Chatillon
                    Commentry, os de Marine Homécourt. Organizam sindicatos os Krupp, os Tryssen, os
                    Gesen Kirckener. Os Carnegie, os Rockefeler, os Morgan, fazem à sua vontade a
                    fome e a fartura. O globo enche-se de altos fornos, de fios telegráficos, de
                    vias férreas. O mundo mudou. Já tinha mudado! Já tinha mudado! Em cada homem o
                    homem interior era outro. Já havia duas castas, a casta superior e o rebanho.
                    Agora o super-homem não tem escrúpulos. Melhor: já não tropeça com a morte,
                    assenta sobre bases indestrutíveis. Aos outros é preciso contê-los na desgraça,
                    reduzi-los à desgraça — se queremos viver. Reparem: cada vez há mais gente que
                    cruza os braços e espera, que emudece e espera. A inveja e o ódio alastraram
                    como corrosivos. Temos de os conter ou estamos perdidos...</p>
                <p>De novo o oficial ergue o pesado reposteiro vermelho, e troca com ele palavras
                    apressadas e breves.</p>
                <p>— Sim, sim, cumpra as ordens e não me interrompa outra vez.</p>
                <p>— Todos.</p>
                <p>E rapidamente:</p>
                <p>— Mulheres e crianças?</p>
                <p>— Todos.</p>
                <p>Uma descarga lá fora — um clamor de desespero no espaço — estilhaços prolongados
                    — um silêncio atroz.</p>
                <p>E no mesmo tom embirrento, inalterável e monótono, ele continua:</p>
                <p>— Vejamos a situação cara a cara. É preciso.</p>
                <p>— Mas como explicar depois nas câmaras?...</p>
                <p>— As câmaras acabaram. Tudo que era perigoso e inútil desapareceu para
                    sempre.</p>
                <p>— Quem manda então agora?</p>
                <p>— Nós, os super-homens. Não me interrompam... Nesse momento acaba de ser varrida
                    a multidão. Dei ordens para que o massacre continuasse. É preciso incutir-lhes
                    terror. Continuará por muitos dias com excesso.</p>
                <p>Abre as janelas de par em par. No céu rubro não corre aragem. O rumor do combate
                    afasta-se...</p>
                <p>— E a imprensa?</p>
                <p>— Temos de manter a ignorância e de suprimir a imprensa. De hoje em diante só são
                    permitidos em todos os países os Diários Oficiais, com a publicação de leis e
                    decretos. A imprensa é uma força que só pode existir nas mãos do estado. Custou
                    a compreendê-lo. É restabelecida para os livros a Real Mesa Censória, suprimindo
                    o júri e a liberdade de reunião.</p>
                <p>Uma voz avançou:</p>
                <p>— Vamos com método.</p>
                <p>— Já se não ouve rumor. Vamos com método... É evidente que estabelecida uma
                    casta, cuja vida se prolongará até duzentos, trezentos anos, suprimida a
                    velhice, arredada a morte para confins ilimitados, esses homens adquirirão a
                    omnipotência.</p>
                <p>— E por que não todos os homens?</p>
                <p>— É cruel dizê-lo, mas nós estamos aqui para discutir realidades... Se todos os
                    homens pudessem viver tanto tempo, todos adquiririam a riqueza e o poder. Em
                    meio século de vida normal, só por exceção ou por acaso o homem saído das
                    classes pobres chegava às honras e à plenitude da força. E quando chegava —
                    génio, persistência ou astúcia — chegava velho e exausto. Agora não. E com uma
                    existência duas, três vezes secular, quem se resignará à miséria, à fome, ao
                    trabalho? Revolta, exaspero, o saque... Os senhores querem conservar as suas
                    riquezas, o seu prestígio, e transmiti-lo aos seus filhos? Eis a questão... Se
                    sim, as fantasias dos filósofos, as palavras de piedade, de liberdade, de
                    igualdade, de justiça, têm de desaparecer de vez. Para sempre. O mundo é
                    nosso.</p>
                <p>— É cruel! — exclamou um homem de negro.</p>
                <p>— É assim. Não há, nunca houve outro processo de governar, senão a corrupção e a
                    força. Sempre foi assim. Até aqui a casta dominante tinha de recrutar e
                    corromper os que saiam da multidão anónima. Agora não.</p>
                <p>— E como contê-los?</p>
                <p>— Pela ignorância. O soro é reservado apenas para alguns génios, para os
                    imperadores e príncipes e para a gente que dominará o mundo pela riqueza e pela
                    inteligência. Faremos caminhar o rebanho no caminho do dever, na ignorância e na
                    dor. Para nós a vida consciente... A revolução está dominada em toda a terra. —
                    E mostrou o maço de telegramas acumulado sobre a mesa. — E com atrocidades para
                    que o pavor domine por muito tempo no coração dos fracos. Resta-nos este
                    trabalho colossal: assentar noutras bases as sociedades humanas. Os países da.
                    Europa com os da América confederam-se em estados unidos. Reis, imperadores, a
                    casta, ditarão as leis necessárias. Pertencem-nos os grandes generais, os
                    grandes banqueiros, todos os poderosos da terra. O poder oculto, decisivo e
                    rápido, deve emanar de uma cidadela rodeada pela força. O resto da humanidade
                    está destinada a servir-nos.</p>
                <p>Outra vez o oficial, roto e chamuscado, surgiu entre o farrapo do reposteiro:</p>
                <p>— Dispersos, dominados, mortos, mas ninguém contém a soldadesca.</p>
                <p>— Nem é necessário. Deixe os soldados na sua obra de destruição.</p>
                <p>— De acordo, de acordo — assentiram todas as vozes.</p>
                <p>E um homem seco, que se ergue do extremo da mesa, vai ao fundo de todas as
                    consciências:</p>
                <p>— É preciso contê-los. A questão é de dinheiro, a questão é de interesses.
                    Queremos defendê-lo, queremos transmiti-lo aos nossos filhos. Ou eles ou
                    nós!</p>
                <p>— Essa é que é a questão! — exclamou o banqueiro imponente. — Eis a ferida! No
                    fundo de todas as revoluções só havia uma ideia: tirar-nos o dinheiro. Era na
                    verdade a única revolução que tinha razão de ser. Custou-lhes a resolver-se, mas
                    lá chegaram enfim, à grande, à lógica revolução — à do saque. Era isto que metia
                    medo quando se falava de revolução, era isto que no fundo alvoroçava as massas.
                    Lá chegamos, já chegamos, porque o resto não passava de engodo. Veio o dia em
                    que o pobre se quis vingar de ser pobre, e o rico teve medo de ser rico. É claro
                    que isto já não cabia dentro disto, este mundo novo dentro do mundo antigo. É
                    preciso contê-los! É preciso contê-los! Criemos agora um mundo que nos pertença.
                    Vencemos — vençamos de vez e para muitos séculos. O ouro é nosso e o mundo é
                    nosso.</p>
                <p>— Mas como conservar o povo na dor, na resignação e no dever? — perguntou,
                    teimou, a mesma figura mesquinha, rei de qualquer parte ou de qualquer
                    coisa.</p>
                <p>— Cegamo-los. Arrancam-se-lhes os olhos e levamo-los para onde quisermos.
                    Acabaram as revoluções. Nunca mais perderão tempo em lutas estéreis. E calculam,
                    se podem, a que prodígios levaremos essa multidão anónima, sempre pronta a
                    obedecer, passiva e cega, as maravilhas que poderemos arrancar da massa bruta e
                    fiel, dirigida por homens de ciência, cujo saber se acumulará durante séculos.
                    Que prodígios!</p>
                <p>— De que não gozarão...</p>
                <p>— E quando o gozaram? As coisas belas da terra pertenceram sempre aos
                    poderosos.</p>
                <p>— É certo.</p>
                <p>— Dominá-los-emos pela ignorância. — E logo com um sorriso (era a primeira vez
                    que sorria) — E para isso contamos com a Igreja.</p>
                <p>— A Igreja está na verdade connosco, afirmou logo essa figura colérica, o
                    Santo.</p>
                <p>Do lado, um desses seres de perfil de judeu, mãos curtas como patas, e unhas
                    roídas até ao sabugo, riu com um riso interior, um glu-glu irónico, mal
                    reprimido. Mas logo o Santo, de pé, respondeu:</p>
                <p>— Não se ria, senhor, não se ria, nem atribua as minhas palavras a intuitos
                    mesquinhos. Se há inferno, se há outra vida, a todos nós está reservado um
                    futuro de desespero. Mas eu sacrifico-me, a Igreja entende que deve
                    sacrificar-se pela Igreja e pelos pobres. Se a vida humana se prolonga para
                    todos até aos quinhentos anos, como será possível desviar os homens do gozo e
                    levá-los para a dor? Que ao menos o reinado da matéria pertença ao número
                    ínfimo, para que a Igreja se conserve de pé e adquira em grandeza. Maior será o
                    número de desgraçados, de ignorantes e de cegos, mais inabalável será a Igreja,
                    pequena para os conter, nos seus fundamentos. Que querem dizer essas palavras de
                    igualdade e liberdade — de liberdade da qual alguém afirmou: «A liberdade só tem
                    significações absurdas em moral, sinistras ou estúpidas em política.
                    »Restabelecido o Santo Ofício...</p>
                <p>— A infame Inquisição outra vez?!</p>
                <p>— Cale-se senhor! A Inquisição era idealista. — E continuou serenamente: — Sim,
                    metam o pobre dentro de dois muros para que possa atravessar a vida; de um lado
                    e de outro ergamos uma muralha (quanto mais alta melhor!) para que possa ir
                    desde o berço à cova, na miséria e na desgraça. Não o deixemos levantar os olhos
                    para não se transviar do rebanho. Os grandes prelados, o Papa, pertencerão à
                    casta, dão a sua adesão com sacrifício. É assim... E depois Deus disse:</p>
                <p>«Bem-aventurados os que sofrem porque serão consolados»;</p>
                <p>«Bem-aventurados os pobres de espírito porque deles é o reino dos céus».</p>
                <p>Sacrificamo-nos pela salvação da humanidade. Ceguemo-los.</p>
                <p>— É assim — disse o homem. Suprimida a instrução, mantidos no dever e na
                    ignorância pela Igreja e pela força, restam-nos ainda dias gloriosos e
                    tranquilos. Seremos o Cérebro. Os sábios, os diplomatas, os reis, os homens de
                    estado pensarão por eles. Outra época se vai abrir na história da
                    humanidade.</p>
                <p>— Ceguem-nos! Ceguem-nos!</p>
                <p>Apagou-se o reflexo do incêndio: a primeira claridade do dia ilumina agora o
                    salão enorme, a mesa coberta de papéis em desordem, os dois soldados mortos a um
                    canto, e os homens lívidos, resolutos e transfigurados.</p>
                <p>— Isto reduz-se, afinal, a quê? A que até agora iludiam-se os pobres com palavras
                    e fórmulas. Agora não — Cegamo-los. Que lhes resta?</p>
                <p>— Resta-lhes a religião. Voltarão de novo ao seio da Igreja.</p>
                <milestone rend="asterisks" unit="section"/>
                <ab type="dateline">25 de Dezembro</ab>
                <p>Nas avenidas de légua erram alguns cães famintos, e os vastos coliseus, os hotéis
                    para estrangeiros, desfazem-se em cisco. Os quatro mil habitantes da pequena
                    vila, perdem-se entre o cenário, a lona, as pastas que esfarelam, o estuque que
                    desaba, o cimento que esboroa. Por uma parede arrombada, vê-se o papel da sala
                    de visitas de Adélia, as cadeiras de palhinha, dois castiçais de prata, uma mesa
                    derrubada a que falta a base, e, entre dois tabiques, a prima Angélica curvada
                    sobre o mesmo pé de meia, que já tem três léguas de comprido. Da catedral, de
                    velho granito, existe a porta, e da muralha antiga um único pano se conserva
                    intacto, sem ameias, como uma fera a que tivessem partido os dentes... Mas a
                    vida persiste, a vida insiste. Já os hábitos tornaram à supuração. Na botica
                    deserta dois homens recomeçaram uma partida de gamão. Abriu hoje a repartição de
                    fazenda — e da mesa de jogo, com o candeeiro em cima, de novo se aproximam, pé
                    ante pé, estas velhas figuras puídas, embrulhadas nos xailes sem pêlo...</p>
                <p>Estamos aqui todos à espera da morte! Estamos aqui todos à espera da morte!</p>
            </div>
        </body>
        <back>
            <div>
                <ab type="dateline">Foz do Douro — 1916.</ab>
            </div>
        </back>
    </text>
</TEI>
