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                <title type="main">Pero da Covilhan</title>
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                <title type="short">PeroCovilhan</title>
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                    <name type="short">Brandao</name>
                    <name type="full">Brandão, Zeferino</name>
                    <idno type="viaf">99344619</idno>
                </author>
                <principal xml:id="uhk">Ulrike Henny-Krahmer</principal>
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                        4.0</licence>
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                <date>2016</date>
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                <bibl type="digital-source">
                    Brandão, Zeferino.
                    "Pero da Covilhan. Episódio Romântico do Século XV."
                        <seg rend="italic">The Project Gutenberg</seg>, <date when="2010-05-10">May
                        8, 2010</date>, EBook <idno>32296</idno>, <ref target="http://www.gutenberg.org/ebooks/32296">http://www.gutenberg.org/ebooks/32296</ref>. <note source="http://www.gutenberg.org/ebooks/32296"> Notas de transcrição: O
                        texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso em 1897.
                        Mantivemos a grafia usada na edição impressa, tendo sido corrigidos alguns
                        pequenos erros tipográficos evidentes, que não alteram a leitura do texto, e
                        que por isso não considerámos necessário assinalá-los. </note>
                </bibl>
                <bibl type="print-source">
                    Brandão, Zeferino.
                    <seg rend="italic">Pero da Covilhan. Episódio Romântico do século XV.</seg>
                    Lisboa: Antiga casa Bertrand—José Bastos, <date when="1897">1897</date>. </bibl>
                <bibl type="edition-first">
                    <date when="1897">1897</date>
                </bibl>
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                    <term type="author.continent">Europe</term>
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                    <term type="author.gender">male</term>
                    <term type="text.language">Portuguese</term>
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                    <term type="text.genre">novel</term>
                    <term type="text.genre.subgenre" resp="#uhk" cligs:importance="2">historical</term>
                    <term type="text.genre.subgenre.title">Episódio Romântico do Século XV</term>
                    <term type="text.narration.narrator">heterodiegetic</term>
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                <head>I</head>
                <head>DESPEDIDA</head>
                <p>O leitor já visitou Sevilha? Pois se nunca a enxergou sequér, affirmam por lá os
                    nossos visinhos, que <seg rend="italic">não vio maravilha</seg>.</p>
                <p>Os attractivos da vida sevilhana seduzem-nos tanto, que nos offerecem crêr no
                    velho proverbio andaluz, e compensam certamente a princeza do Guadalquivir do
                    muito que lhe falta em monumentos para ser admirada, e em melhoramentos
                    materiaes para rivalisar vantajosamente com as cidades modernas.</p>
                <p>O leitor e eu vamos percorre-la no terceiro quartel do seculo XV, em um dia
                    calmoso do estio.</p>
                <p>Abrasa tanto calor!...</p>
                <p>Em breve zombaremos d'elle.</p>
                <p>Os arabes, que faziam de seus palacios pequenos paraizos, rodeavam-n'os de
                    jardins e fontes, no intuito de refrescar as regiões ardentes, que povoavam, e
                    até no interior dos proprios edificios possuiam esses mesmos refrigerios. Ora as
                    casas de Sevilha traduzem fielmente os costumes de seus antigos senhores; e,
                    como temos de entrar em uma d'ellas, poupar-nos-hemos a insolações.</p>
                <p>Cingem Sevilha fortes muralhas, do alto das quaes se contempla a extensa planicie
                    do vastissimo contorno, povoado de vistosas e alegres alquerias.</p>
                <p>Pela porta de Triana sae-se ao importante arrabalde d'este nome, e com elle se
                    communica por uma ponte de madeira fundada sobre grandes barcas, que com grossas
                    cadeias de ferro a sustentam, amarradas no castello. Sob esta corre caudaloso o
                    Guadalquivir, que parece envaidecido da sua justa nomeada, não só por dar
                    ancoradouro seguro ás maiores naves, que sulcam os mares, senão por facilitar
                    assim as relações commerciaes, e animar a florescente industria fabril dos
                    sevilhanos;—o que torna riquissima de população e haveres a formosa metropole
                    andaluza.</p>
                <p>Cêrca do rio ergue-se a torre, que, pelo primor da fabrica, se denomina do
                    Ouro.</p>
                <p>Á cathedral, cuja edificação começou quasi ao entrar do seculo, em que a estamos
                    vendo, sobre os alicerces da antiga mesquita, chama-se vulgarmente a <seg rend="italic">grande</seg>, como á de Toledo a <seg rend="italic">rica</seg>, á de Salamanca a <seg rend="italic">forte</seg> e á de Leão a <seg rend="italic">bella</seg>.</p>
                <p>Ao lado d'essa immensa móle altea-se suberba a torre de tijolo côr de rosa, que
                    coroava a mesquita, e é rematada por outra de menores dimensões com variedade de
                    pinturas mui singulares em todo seu circuito. Este minarete, o mais notavel
                    monumento arabe, da sua classe, na peninsula, foi construido pelo celebre
                    alchimista e architecto Géber, a quem se attribuio, sem fundamento, a invenção
                    da algebra.</p>
                <p>—Não olvide o leitor, que estamos no decimoquinto seculo, em que não existe ainda
                    o <seg rend="italic">Giraldillo</seg>, e por isso a torre não é conhecida pelo
                    nome de <seg rend="italic">Giralda</seg>.</p>
                <p>Numerosa a casaria da praça; alguns edificios podem comparar-se em tudo com
                    palacios realengos.</p>
                <p>As mulheres prezam-se de caminhar com garbo e passo curto; de fallar com graça e
                    vivacidade; de vestir com louçania e riqueza; de dançar e cantar ao som das
                    castanholas e das guitarras com elegancia e desenvoltura; de encobrir com a
                    mantilha um dos seus formosissimos olhos por tal arte, que parece terem cravado
                    na face um diamante negro, a reflectir a luz fulgorosissima do bello sol da
                    Andaluzia.</p>
                <p>O sevilhano passa por nós muito ancho da sua pessoa, e da sua Sevilha, que não só
                    possue os titulos de mui leal, mui nobre e mui heroica, senão que é patria de
                    notabilissimos santos; por isso até um poeta exclama patrioticamente:</p>
                <lg>
                    <l>«Que Dios, Sevilla, en tu preciosas venas</l>
                    <l>Para el Cielo crió tantos tesoros,</l>
                    <l>Cuantas el ancho mar esconde arenas,</l>
                    <l>Cuantas estrellas los celestes coros!»</l>
                </lg>
                <p>Sem embargo de tamanha gloria, a cidade de Maria Padilla tem sido tambem algo
                    peccadora...</p>
                <p>A nobreza opulenta de rendas de seus vastos dominios ruraes, em que abundam
                    frutos e gados, sustenta luzidas tropas de escudeiros fidalgos, que põe ao seu
                    serviço e ao dos reis, alentando os impulsos das proprias ambições e prosapias. </p>
                <p>Nas suas casas tem grandes depositos de armas, e nas suas cavallariças centenares
                    de cavallos. Empara em vida os de sua hoste, e deixa-lhes fartos legados em seus
                    testamentos.</p>
                <p>Um d'esses grandes senhores é o duque de Medina Sidonia; ou de Sevilha, como
                    tambem o tratam.</p>
                <p>Entremos no seu palacio.</p>
                <p>Este grandioso edificio, exteriormente austero e nú, ostenta no interior uma
                    riqueza enorme, um luxo deslumbrante e voluptuoso, que determina a influencia
                    exercida em Hespanha pela civilisação arabe. Póde considerar-se uma vivenda
                    semi-oriental, como todas as do estylo <seg rend="italic">mudejar</seg>, a que
                    pertence, para a construcção das quaes as duas artes, christã e mahometana, se
                    dão as mãos com tal engenho, que se harmonisam perfeitamente os dois elementos
                    de manifestações tão diversas.</p>
                <p>—Como sabido anda, os arabes que ficaram com os christãos, depois de certos
                    tratados, em virtude dos quaes se lhes permittia conservar suas leis, religião e
                    costumes, chamavam-se <seg rend="italic">mudejares</seg>, e nas edificações, em
                    que eram empregados, imitavam o luxo e magnificencia dos povos, que os da sua
                    raça haviam conquistado, especialmente da Persia.</p>
                <p>Tornando, porém, ao ponto: na disposição geral do palacio adoptou-se o estylo
                    arabe, estabelecendo-se amplos pateos, e galerias, em volta das quaes demoram as
                    habitações.</p>
                <p>A sala principal pertence ao terceiro periodo arabe puro. As paredes d'ella
                    recordam os ricos tecidos orientaes da Persia, assim por seus desenhos
                    primorosos, como pelo brilhantismo do colorido. O pavimento acha-se coberto com
                    uma alcatifa persa de um avelludado suavissimo. No tecto, o elemento decorativo
                    predominante são estalactites e laçarias, tudo realçado com applicação de côres
                    e douraduras.</p>
                <p>Os peregrinos ornatos d'esta sala bastam, para confirmar a frondosa imaginação
                    dos artistas mahometanos, e o respeito por elles tributado ás suas tradições
                    gloriosas.</p>
                <p>Móvel não se vê, a não ser uma larga cadeira de espaldar, com sobrecéo e estôfo
                    de brocado. No centro da espalda, o brazão dos Medina Sidonia. Uma riquissima
                    almofada de setim bordada a ouro está collocada aos pés d'esta cadeira, em que
                    sómente costuma sentar-se o duque, ou algum extrangeiro de distincção, que o
                    visita, e a quem elle offerece esse lugar de honra.</p>
                <p>Em outras salas, paredes forradas de pannos de Arraz e de Flandres, representando
                    episodios da vida de Christo, assumptos mysticos, batalhas, torneios e scenas de
                    caça; ou cobertas de tapetes turcos, imitando persas, guadamecins e azulejos,
                    tendo os sóccos revestidos de mosaicos esmaltados. Os tectos, estucados e
                    pintados, com imitações mais ou menos exactas da flora. Alguns pavimentos,
                    alcatifados.</p>
                <p>Nos aposentos dos duques pendem das paredes quadros de Giotto e da sua escola, de
                    João Van-Eyck, Roger van der Weyden, e do patriarcha da pintura sevilhana, Juan
                    Sanchez de Castro, que poucos annos antes fundára a sua escola. As paredes e
                    tectos da ante-camara, armados e toldados de riquissimos lambeis. Os móveis, de
                    páu-santo, primorosamente entalhados e forrados de brocado e ouro.</p>
                <p>Na sala da duqueza vê-se um magnifico relicario, d'estes que o clero manda
                    executar sobre desenhos proprios para maravilhar os fieis, tal é a perfeita
                    intelligencia, que elle tem do seu tempo. Em cima de uma credencia com tres
                    compartimentos em fórma de degráus, cobertos de setim e rendas de Flandres,
                    repousam varios objectos de uso senhoril, uns de ouro, outros de prata e crystal
                    de Veneza. Sobre um bufete de abano, coberto com um bancal de velludo, tendo ao
                    meio bordadas as armas da duqueza, acham-se livros de horas luxuosamente
                    encadernados e brochados de prata, uma escrevaninha de ouro, flores em vasos de
                    crystal e castiçaes de ouro. Nos angulos da sala, açucenas em amphoras preciosas
                    proclamam a sua candura triumphal, e roseiras enroladas em columnas de onyx
                    exhalam a sua fragancia suavissima.</p>
                <p>As paredes da sala de armas do duque exhibem trophéos de armas arabes, despojo
                    rico das batalhas das Navas e do Salado, como: rodellas, adargas, onde se lêem
                    lemmas bordados a fio de ouro e a matiz, lanças em fórma de meia lua, espadas,
                    gomias, tridentes e alfanges de dois fios.</p>
                <p>Amplas colgaduras, tendo bordadas as armas da casa, encobrem completamente as
                    estreitas portas de alerse.</p>
                <p>O mobiliario do palacio, em geral, consiste: em cadeiras de espaldar coroado por
                    dentilhões, tendo entalhado o brazão das armas de Niebla, titulo da familia
                    Medina Sidonia, ou simplesmente a corôa ducal; algumas cadeiras ainda, lavradas
                    com atauxias de ouro, marfim, prata ou cobre, e umas e outras com escabellos
                    fixos ou moveis; almofadas de seda, sobrepostas duas a duas, e servindo de
                    assento na sala de recepção da duqueza; faldistorios, tamboretes de espaldar,
                    bancos longos e de espaldas, almofadados de tela de ouro e velludo; bancos de
                    thezoura, bufetes de ebano artisticamente entalhados de prata, candelabros
                    dourados, arcas para assentos, armario, cofre e até mesa de escrever, todas de
                    madeiras preciosas e guarnecidas de prata, ferro ou bronze; relogios de parede
                    em luxuosas caixas, umas de madeira, outras de ferro. Muito d'este mobiliario é
                    coberto de ricas tapeçarias orientaes, que lhe dão um aspecto delicado e alegre
                    com as côres vivas de seus bordados caprichosos. Emfim, mesas de prata, de ouro
                    e de bronze, quadradas, de um pé só, além de outras de madeira, iguaes áquellas
                    no formato, e sobre que se vêem magnificos vasos de flores, cravejados de pedras
                    preciosas, outros vasos de prata lavrada, salvas e floreiras.</p>
                <p>Não entremos na ante-camara do duque, onde elle conversa agora com D. Juan de
                    Guzman, que tem sido o seu irmão predilecto.</p>
                <p>Conforme o costume, a duqueza saiu logo de manhã para o jardim com as dez
                    donzellas, suas familiares, levando, como cada uma d'estas, na mão um rosario e
                    um livro de missa.</p>
                <p>Á sombra do copado arvoredo alli rezam no mais edificante recolhimento. Terminada
                    a oração as donzellas correm alegremente a colher flores, com que na volta ao
                    palacio enfeitam o altar da virgem.</p>
                <p>Na capella é esperada a duqueza com o seu sequito gentilissimo pelas moças da
                    camara, e pelo sacerdote, que celebra a missa, ouvida por aquella pequena
                    côrte.</p>
                <p>Em seguida serve-se o almoço, depois do qual a duqueza, acompanhada de suas
                    donzellas e de alguns fidalgos, dos mais apontados em garbos de cavallarias, em
                    esmeros de atavios, e em chistes de conversadores, passeia a cavallo no seu
                    suberbo palafrem. Hoje, todavia, recolheu-se aos seus aposentos, e não deu o seu
                    passeio habitual.</p>
                <p>Deixemos, pois, entregue ás suas meditações a virtuosa senhora. Naturalmente
                    algum novo acto de caridade projecta, para juntar aos muitos, que tão justamente
                    lhe tem grangeado o santo e doce nome de <seg rend="italic">mãe dos
                    pobres</seg>. </p>
                <p>E, emquanto o duque falla com o irmão, acompanhe-me o leitor ao pateo principal
                    do palacio.</p>
                <p>É um quadrilongo regular, cercado de galerias, superior e inferiormente,
                    decoradas com arabescos do mais fino gosto, sendo seus arcos em fórma de
                    ferradura, graciosamente entalhados e sustentados por dezenas de columnas de
                    ordem composita e de marmore alvissimo. O pateo é ajardinado, tendo no centro
                    uma fonte, cuja agua crystalina cáe dentro de um tanque largo que a circumda; e
                    os canteiros são separados uns dos outros por lousas de marmore branco.</p>
                <p>Na galeria superior sente-se rir e folgar. São as donzellas da duqueza. O sol não
                    as incommoda, porque todo o vão do pateo está coberto com um grande toldo. Uma
                    d'ellas, desviando-se das companheiras, vê no jardim, perto do tanque, um pagem,
                    e pergunta-lhe com ineffavel meiguice:</p>
                <p>—Estais a despedir-vos das flores, Perico?...</p>
                <p>—Quem sabe, se tornarei a vê-las!...—respondeo o pagem com pronunciado acento de
                    tristeza.</p>
                <p>—Pois porque não haveis de voltar?...</p>
                <p>—Deus o sabe; mas diz-me o coração, que nunca mais verei Sevilha!...</p>
                <p>—Tem cousas o vosso coração!... Deixai-o cá, para não vos ir atormentando com
                    presagios pelo caminho...</p>
                <p>As outras donzellas, que tiveram curiosidade de saber, com quem a sua companheira
                    conversava, accorreram no momento em que Pero fazia esta pergunta á sua
                    interlocutora:</p>
                <p>—Se eu podésse arrancar o coração do peito, de quem poderia confia-lo, na certeza
                    de que ficaria bem guardado?</p>
                <p>—De mim!—exclamam todas a um tempo.</p>
                <p>—Como elle não póde repartir-se,—ponderou o pagem—entrega-lo-hia a Beatriz.</p>
                <p>—Sois mui gentil, Perico!—tornou esta. Graças pela preferencia...</p>
                <p>—Não fostes vós, quem me propôz não o levar comigo?...</p>
                <p>—Sem duvida!... É, porém, essa a unica razão da vossa escolha?...</p>
                <p>—Não m'o pergunteis... Se tivesse aqui um alaúde, cantar-vos-ia agora ao som
                    d'elle:</p>
                <lg>
                    <l><seg rend="italic">Con dos cuidados guerreo</seg></l>
                    <l><seg rend="italic">que me dan pena y sospiro;</seg></l>
                    <l><seg rend="italic">el uno quando no os veo,</seg></l>
                    <l><seg rend="italic">el otro quando vos miro.</seg></l>
                </lg>
                <p/>
                <p>—Bellissimo, Perico!...—bradaram as donzellas com viva demonstração de
                    alegria.</p>
                <p>—Que gracioso sois!—accrescentou Beatriz e perguntou: mas porque esquecestes a
                    guitarra, que é mais maneira, e vos lembrastes do corpulento alaúde, como lhe
                    chamava o arcipreste de Hita?</p>
                <p>—Vejo, que conheceis os versos de Juan Ruiz...—observou o pagem.</p>
                <p>—Quem haverá ahi, que os não tenha ouvido recitar aos trovadores e aos
                    jograes?!... A proposito vinha agora recordar aquelles, em que o arcipreste
                    descreve a recepção de D. Amor... Se quereis ter uma igual, quando regressardes,
                    recitai-os, Perico!...</p>
                <p>—Careceis dos nossos rogos?...—atalharam as outras donzellas.</p>
                <p>Convem notar, que os duques de Medina Sidonia, á similhança dos reis de Castella,
                    mantêem uma côrte poetica. Fazer versos está na moda, por isso são poetas os
                    grandes senhores: almirantes, condestaveis, duques, marquezes, condes e reis. A
                    verdadeira e legitima poesia conservava-se no estado latente, desde o reinado de
                    D. Pedro, o Cruel. Passou depois á côrte, e fez-se cortezã. Com tudo não havia
                    perdido completamente o favor popular o romance brioso e sentido.</p>
                <p>Os melhores poetas, que frequentam a casa Medina Sidonia, são versados na lingua
                    arabe, e sabem numerosas lendas d'este povo de poetas. Conhecem a escola
                    provençal, e é-lhes familiar a litteratura. Os romances castelhanos, e as mais
                    bellas composições poeticas de Hespanha, anteriores ao presente seculo XV, todos
                    os cavalleiros d'aquella côrte sevilhana recitam com applauso de damas e
                    donzellas. O marquez de Santilhana, que por lá surge de quando em quando, ao
                    passo que por todos é escutado com affectuoso enthusiasmo, estimula os moços,
                    repetindo-lhes esta maxima: «a sciencia não embóta o ferro da lança, nem afrouxa
                    a espada na mão do cavalleiro.»</p>
                <p>N'este meio social tão distincto, é que tem sido educado o pagem, e a familia
                    Medina Sidonia dispensa-lhe os maiores carinhos.</p>
                <p>Tirado, pois, a terreiro pelas donzellas, assume um certo ar de gravidade,
                    parecendo ao mesmo tempo, que do seu olhar vivissimo saltam chispas de luz e de
                    graça, e exclama:</p>
                <p>—Attenção!... Vae fallar Juan Ruiz!...</p>
                <p>Quando, porém, se propunha recitar o engraçado episodio, pôz termo ao animado
                    colloquio o apparecimento do irmão do duque a uma porta da galeria inferior.</p>
                <p>O pagem dirigiu-se logo a D. Juan, de quem recebeu uma ordem, e em virtude d'ella
                    saiu apressadamente do pateo. As donzellas retiraram tambem logo da galeria.</p>
                <p>Junto das cavallariças um velho mendigo, de compridas barbas brancas, de olhar
                    scintillante e modos altaneiros, em que se traduz o seu orgulho de raça,
                    inflexivel sempre, até sob o jugo do infortunio, tem feito as delicias de
                    eguariços e lacaios, ora tocando sanfona, ora narrando historias de bandidos e
                    de feitiços dos mouros de Granada. A famulagem tinha tempo para tudo. Não se
                    tratava então de apparelhar ginetes, para ir no encalço dos Ponces, inimigos
                    irreconciliaveis dos Guzman, apesar do seu proximo parentesco; unicamente
                    cincoenta cavallos estavam arreados, e promptos a enfrear á primeira voz.</p>
                <p>São quasi cinco horas da tarde. D. Juan de Guzman despede-se do irmão, que lhe
                    mostra uma carta de D. Diogo Lopes Pacheco, marquez de Vilhena, recebida
                    momentos antes, e abraçando-o diz-lhe: «D. Affonso que conte com dois mil
                    cavallos».</p>
                <p>Passados poucos minutos as donzellas da duqueza sóbem a um torreão do palacio,
                    para vêr sair a garrida cavalgada, em que vae caminho de Portugal D. Juan de
                    Guzman.</p>
                <p>Para maior luzimento do numeroso prestito de escudeiros e lacaios, com o qual D.
                    Juan pompeava, o duque não só pôz ao seu serviço o discreto pagem, que o leitor
                    conhece, mas deu-lhe tambem por companheiro um dos mais disértos trovadores da
                    sua côrte.</p>
                <p>Ao lado dos azemeis, que conduzem possantes mulas pittorescamente ajaezadas e
                    carregadas de bahús com a bagagem, caminham uns romeiros, encostados ao seu
                    bordão, e com a murça da esclavinha ornada de conchas e vieiras. Por intervenção
                    da duqueza, haviam alcançado licença de jornadear com D. Juan até Portugal,
                    devendo d'aqui passar a Santiago de Compostella, onde se dirigem, e d'este modo
                    evitar os caminhos de Hespanha ora tão infestados de bandidos e salteadores.</p>
                <p>As donzellas demoraram-se no torreão até se desfazer, lá ao largo, a ultima nuvem
                    da poeira, que envolvia cavalleiros e peões; mas já não logravam distinguir um
                    só d'elles.</p>
                <p>—Quem sabe, se Beatriz desejaria descortinar unicamente o pagem?... Talvez. Nada,
                    porém, communicou ás companheiras, que podésse denunciar esse desejo.</p>
                <p>—E Perico?... Levaria porventura gravada no coração a imagem de Beatriz?...
                    Começaria a feri-lo deliciosamente o espinho da saudade?... Ou a lembrança de
                    entrar no seu paiz, que, desde muito creança não tornára a vêr, e em cuja côrte
                    teria ensejo de exhibir as singulares prendas, de que era dotado, apagar-lhe-ia
                    da memoria os venturosos dias de Sevilha?...</p>
                <p>Ao leitor cordato afiguram-se decerto inopportunas taes perguntas, feitas com o
                    fundamento unico da scena, que presenceámos no pateo.</p>
                <p>Tem razão. Esse galanteio innocente, proprio da mocidade dos participes, dos
                    costumes da época, e até da indole das encantadoras filhas da Andaluzia, não
                    auctoriza a procurar mysterios no que tão natural se apresenta.</p>
                <p>—Sabe o leitor o que logo ao começar da jornada está provocando os gabos de
                    experimentados escudeiros?</p>
                <p>—É a destreza, com que Pero, o gentil pagem, manda o rinchão fouveiro que monta.
                    A cada galão do corcel sorri-se desdenhosamente, e com seus ditos joviaes e
                    maliciosos é o enlevo da comitiva.</p>
                <p>Ditosa mocidade!...</p>
                <p>Se voltassemos ao palacio dos duques, encontrariamos talvez Beatriz a exercer o
                    galante ministerio de <seg rend="italic">juiza</seg> em alguma <seg rend="italic">côrte de amor</seg>.</p>
                <p>E cá fóra veriamos o velho mendigo no mesmo lugar ainda, cantando ao som da
                    sanfona:</p>
                <lg>
                    <l>«Rosa fresca, rosa fresca,</l>
                    <l>tan garrida y con amor;</l>
                    <l>quando vos tuve em mis braços,</l>
                    <l>no vos supe servir, no,</l>
                    <l>y agora que os serviria</l>
                    <l>no vos puedo aver no.</l>
                    <milestone unit="section" rend="dots"/>
                    <milestone unit="section" rend="dots"/>
                </lg>
            </div>
            <div>
                <head>II</head>
                <head>CONSPIRAÇÃO</head>
                <p>Se o leitor tem folheado a historia de Henrique IV, de Castella, póde poupar-se á
                    leitura d'este enfadonho capitulo, no qual vamos condensa-la, para melhor
                    intelligencia do que mais ao deante se dirá.</p>
                <p>Esteve Henrique IV casado sete annos com D. Joanna, irmã do rei de Portugal D.
                    Affonso V, sem ter successão; até que, em 1462, a rainha deu á luz uma menina.
                    Foi baptisada esta com muita pompa, e geraes demonstrações de regosijo, pelo
                    arcebispo de Toledo, D. Affonso Carrillo, sendo madrinha a infanta D. Isabel,
                    irmã do rei, e padrinho, por procuração, Luiz XI de França. Pouco depois,
                    reunidas côrtes em Madrid, n'estas foi jurada herdeira do throno a
                    recem-nascida, a que se havia dado o nome de Joanna, e ninguem protestou contra
                    o juramento.</p>
                <p>Era a esse tempo mordomo-mór do palacio D. Beltran de la Cueva, que de pagem da
                    lança passou logo a exercer essa alta dignidade, havendo sido igualmente
                    agraciado com o titulo de conde de Ledesma. Mostrava-se este mui solicito no
                    serviço da rainha, mas não fazia mais do que cumprir as ordens do monarcha, de
                    cujo favor e privança gozava com inveja e despeito de muitos, que não queriam
                    reconhecer-lhe meritos para tanto.</p>
                <p>Os negocios do Estado eram dirigidos pelo arcebispo de Sevilha;—o verdadeiro
                    soberano, pois que D. Henrique passava seus dias caçando e divertindo-se.</p>
                <p>D. João II, rei de Aragão, andava em guerra com seu filho D. Carlos de Viana, a
                    quem não queria entregar o senhorio de Navarra, que pertencia a este, por morte
                    de sua mãe; e com Luiz XI, para retomar o Roussillon, que lhe havia empenhado
                    por avultada somma de dinheiro.</p>
                <p>Aos parciaes da justa causa de D. Carlos pertencia Henrique IV, e aos do rei
                    usurpador, o arcebispo de Toledo e alguns grandes de Castella.</p>
                <p>O marquez de Vilhena, D. João Pacheco, dizia-se amigo de Henrique IV; e, como era
                    mui artificioso e dado a soltar só meias palavras, foi a Saragoça tratar da paz
                    e boas relações de Aragão com Castella.</p>
                <p>No seu regresso a este reino convidou, sem detenças, o arcebispo de Toledo e seus
                    sequazes, para uma reunião secreta, que se realizou em um valle proximo de
                    Alcalá de Henares.</p>
                <p>Ahi o marquez rompeu, sem mais preambulos:</p>
                <p>—É forçoso guerrear sem treguas Beltran de la Cueva.</p>
                <p>—Não se me afigura empresa difficil...—acudio em tom pausado e sisudo o arcebispo
                    de Toledo.</p>
                <p>—Convenho;—replicou Vilhena—mas ainda é numerosa a parcialidade do rei, e tem á
                    sua frente o arcebispo de Sevilha...</p>
                <p>—E a nós,—atalhou, recachando-se, o prelado toledano—embóra inferiores na
                    quantidade, ninguem sobrelevará na coragem e na perseverança com que luctaremos.
                    Demais... o rei é fraco, e o arcebispo de Sevilha...</p>
                <p>—Sim, esse...—condescendeo o marquez, engulindo um pensamento, cuja execução de
                    ninguem confiava.—Lembrai, pois, um plano, e contai com o rei de Aragão.</p>
                <p>—Quereis um, que fira mortalmente o rei e o valido?... Ahi váe em poucas
                    palavras: invistamos contra a honra da rainha!</p>
                <p>Advirta-se, que o arcebispo de Toledo era um d'aquelles prelados da edade media,
                    nascidos antes para brandir a espada acerada do guerreiro, do que para menear o
                    cajado pacifico do apostolo.</p>
                <p>O marquez de Vilhena comprehendeo logo toda a perfidia do seu interlocutor, e,
                    occultando cautelosamente o assombro, que lhe produziram as suas palavras,
                    perguntou sem hesitação:</p>
                <p>—Como?...</p>
                <p>—Divulgando, que a infanta D. Joanna é filha de Beltran de la Cueva—respondeo
                    serenamente o arcebispo.</p>
                <p>—E acredita-lo-hão?... Talvez muitos o ponham em duvida... Como sabeis, o facto
                    de ter o rei estado sem successão, durante sete annos, póde explicar-se com o
                    similhante de seu avô Henrique III, que esteve oito. Álem d'isso a todos é bem
                    prezente ainda a scena de ciume da rainha, que, batendo com um chapim na sua
                    dama D. Guiomar de Castro, expulsou-a ao mesmo tempo do alcaçar de Madrid, sem
                    evitar, que a sua rival esteja vivendo hoje tão entonada, por ser amante do rei,
                    e dispensadora de mercês, aos que preferem ganha-las com humilhações perante tal
                    mulher, a conquista-las ás lançadas aos mouros...</p>
                <p>—E d'esses factos o que se conclue?... O primeiro á lembrança de ninguem acóde. O
                    segundo tem uma explicação natural no orgulho offendido. Álem de que o vulgo não
                    deixa de crêr ás cegas em todas as accusações feitas aos potentados, e até as
                    avulta enormemente... Accresce, que para o genero d'esta não ha defensa
                    possivel, e, dado o escandalo, já o monarcha se não attreve a mostrar-se em
                    publico, sem correr o risco de ser apupado...</p>
                <p>—N'essas circumstancias deixará a infanta de ser a herdeira presumptiva da
                    corôa...—contestou pausadamente o marquez.</p>
                <p>—Sem duvida!—atalhou de prompto o arcebispo, a quem pareceo divisar no marquez de
                    Vilhena certo ar de indecisão.</p>
                <p>—Melhor é, pois, desthronar já D. Henrique!...</p>
                <p>—Óra até que chegámos ao ponto, por onde deviamos ter começado!—exclamou o
                    arcebispo com mal contido júbilo, e, compondo o aspecto, de seu natural severo,
                    accrescentou: e quem hade impedir-nos de o realizar?...</p>
                <p>—Pois bem!... Mas antes de tudo o monarcha assignará as pazes com o rei de
                    Aragão, afim de evitar, que continue a suspeita de qualquer accordo nosso com a
                    côrte aragoneza...</p>
                <p>—É habil esse lance!...—ponderou o arcebispo—Comtudo não vos esqueçais do
                    arcebispo de Sevilha...</p>
                <p>—Seguramente...</p>
                <p>—Vejo, que nos comprehendemos...</p>
                <p>—Resta saber, quem nos convirá no throno, cuja dignidade tratamos de
                    restaurar...</p>
                <p>—O infante D. Affonso; por isso mesmo que é uma creança tão debil e apoucada,
                    como seu irmão. Agrada-vos?...—concluio o arcebispo, sorrindo ironicamente.</p>
                <p>—É uma creança que substitue outra...—observou Vilhena.</p>
                <p>—É; mas D. Henrique retirou-nos a sua confiança, e D. Affonso hade obedecer ás
                    nossas inspirações...</p>
                <p>Das reticencias d'este dialogo é licito inferir, que os interlocutores não
                    confiavam demasiadamente um no outro. O arcebispo de Toledo era insolente e
                    audacioso. O marquez de Vilhena, mui solérte em intrigas palacianas, fazia
                    consistir a sua força na brandura da sua linguagem, e sabia-lhe melhor ganhar a
                    victoria por meio de traças ardilosas, e palavras melicas. Não pretendia álem
                    d'isso desaggravos tão cruentos, como o arcebispo; mas teve de concordar com
                    elle, e com os outros conjurados, em espalhar pela lama as jóias mais bellas de
                    uma corôa, para a tornar ludibrio do mundo!</p>
                <p>O que mais resolveram tão inclitos varões, em seu conluio, i-lo-hão mostrando
                    elles para gloria sua.</p>
                <p>Henrique IV, apesar dos reparos, que pôz na concordia com o rei de Aragão,
                    assignou as pazes propostas pelo marquez de Vilhena. Parece, porém, ter-lhe
                    servido de aculeo a sua condescendencia, para manifestar, mais do que nunca a
                    sua intimidade com o conde de Ledesma.</p>
                <p>Foi novo aggravo aos conspiradores; por isso correo logo de bocca em bocca o nome
                    de <seg rend="italic">Beltraneja</seg>, posto por elles á innocente infanta, e
                    perfida injuria disparada ao pundonor de sua mãe.</p>
                <p>Os amigos do monarcha, cobertos de pejo, indignaram-se de ver caidos na baixeza,
                    de propalar em tamanha infamia aquelles, que se diziam <seg rend="italic">grandes de Castella</seg>!</p>
                <p>Procurou o rei attrahir de novo ao seu partido o marquez de Vilhena, por saber
                    quão perigosa era a sua inimisade, e este aproveitou o ensejo, para lhe propôr a
                    demissão do metropolitano de Sevilha. Não só conveio n'isto o timido monarcha,
                    mas ordenou tambem a prisão do prelado. O marquez avisou do rescripto a sua
                    victima, que passou logo para o bando dos descontentes!</p>
                <p>Seguidamente intentavam os conjurados surprehender o rei em Madrid e apoderar-se
                    d'elle. A vigilancia do conde de Ledesma frustrou a tentativa. Acudiram de outra
                    vez a Segovia, quando o monarcha alli foi; compraram a camareira Maria Padilla,
                    que velava junto do dormitorio, e pareceu-lhes ageitado o lance; mas baldou-se
                    ainda o attrevido designio.</p>
                <p>De Burgos dirigiram ao desditoso rei uma reprezentação, em que lhe diziam, com
                    inqualificavel despejo, have-lo induzido o conde de Ledesma a fazer jurar por
                    herdeira do throno D. Joanna, chamando-a princeza sem o ser; pois que não era
                    sua filha bem o sabiam elle e o conde!</p>
                <p>O rei tremeo ao lêr estas palavras. Afigurou-se-lhe conjurar todos os perigos,
                    concertando o enlace de sua filha com o infante D. Affonso, e accedendo, a que
                    Beltran de la Cueva renunciasse o mestrado de Samtiago, por que tanto suspirava
                    o marquez de Vilhena.</p>
                <p>Consentio, pois, em que fosse jurado herdeiro da corôa seu irmão, uma vez que
                    casasse com a princeza D. Joanna; e o conde de Ledesma, por seu turno, entregou
                    nas mãos do rei a sua demissão de mestre de Samtiago, não por se considerar
                    indigno de exercer esse alto cargo, mas para em tudo servir D. Henrique. Em
                    compensação foi elevado a duque de Albuquerque.</p>
                <p>Tão alta mercê exasperou mais a protervia dos colligados, que logo ergueram em
                    uma planicie, cerca dos muros da cidade de Avila, um cadafalso, sobre o qual
                    collocaram uma cadeira, em que assentaram um manequim, figurando D. Henrique de
                    sceptro na mão e corôa na cabeça. Leram muitas queixas contra o rei, e em
                    seguida o arcebispo de Toledo tirou a corôa do boneco; o marquez de Vilhena, o
                    sceptro; o conde de Plasencia, a espada; o mestre de Alcantara, o conde de
                    Benavente e o de Paredes, os restantes ornatos da realeza; e todos arrojaram, a
                    pontapés, do cadafalso abaixo o vulto desataviado!</p>
                <p>O infante D. Affonso foi posto por elles no mesmo lugar, todos lhe beijaram a
                    mão, e aclamaram rei de Castella e Leão.</p>
                <p>Pobre creança, que não tinha a consciencia de ser n'aquelle acto um mero
                    instrumento da villania dos turbulentos vassallos de seu irmão!</p>
                <p>Em outros paizes menos familiarisados com as rebelliões, esta teria abalado
                    profundamente a opinião publica; e, se não fôra a inepcia e covardia de Henrique
                    IV, que era o desespero dos bravos, a parte sensata do reino teria feito estalar
                    a sua indignação contra os conjurados.</p>
                <p>Esse apparato theatral de Avila produziu um grande escandalo, sem dar um grande
                    golpe, e logo depois mallogrou-o completamente a recepção enthusiastica, feita á
                    princeza D. Joanna em Saragoça.</p>
                <p>Começou o marquez de Vilhena por esta razão a nadar entre duas aguas,
                    mostrando-se desejoso de dar conselhos ao rei; e, como o arcebispo de Toledo lhe
                    lançasse em rosto esse procedimento, fingio-se doente, a ponto de receber o
                    sagrado viatico, nomear aquelle prelado seu testamenteiro, e pedir-lhe, que
                    fosse patrono de seus filhos. Deixou assim de arrogar-se, em seu entender, a
                    responsabilidade de certos actos, e preparou novas alicantinas.</p>
                <p>O irrequieto arcebispo foi pôr cerco a Simancas; mas do alto das muralhas da
                    velha cidade os sitiados escarneceram-n'o, chamando-lhe D. Opas;—o que
                    significava compara-lo com o typo mais repugnante dos homens conhecidos por
                    traidores.</p>
                <p>Outros grandes de Castella, embora pouco satisfeitos com a marcha dos negocios do
                    Estado, acudiram ao serviço do rei, por comprehenderem que se ventilava um
                    processo de honra publica; todavia não pudéram evitar, que Henrique IV caisse na
                    fraqueza de tratar com os sublevados uma suspensão de armas por cinco mezes,
                    dando azo a despedir-se das duas parcialidades gente, que foi infestar as
                    povoações, a ponto de provocar a fundação das <seg rend="italic">Hermandades</seg>, para perseguir os malfeitores.</p>
                <p>Os povos passavam de um partido ao outro, com uma volubilidade sómente comparavel
                    á dos magnates. Tudo era confusão no meio da cafila de potentados, cobiçosos de
                    dar leis, e pouco amigos de sujeitar-se a ellas.</p>
                <p>O arcebispo de Sevilha e o marquez de Vilhena offereceram ao rei os seus
                    serviços, se elle consentisse, em que a infanta D. Isabel, sua irmã, casasse com
                    D. Pedro Giron, irmão do marquez. Com a filha de Vilhena, D. Beatriz Pacheco,
                    estava ajustado o casamento do principe D. Fernando, filho do rei de Aragão, que
                    estimava esse enlace, o qual se não realizou por se oppôr tenazmente o almirante
                    de Castella, avô materno do principe.</p>
                <p>A infanta D. Isabel começou a seguir os rebeldes por toda a parte, sem fazer
                    esforço algum de voltar para onde estava seu legitimo rei.</p>
                <p>O legado pontificio fulminou sentença de excommunhão contra os nobres e senhores,
                    que não prestassem desde logo obediencia á auctoridade real, deixando de
                    impedir, seu livre e expedito exercicio; mas o arcebispo de Toledo, principal
                    caudilho dos sediciosos, rio-se com elles do interdicto, dizendo, que
                    appellariam para um concilio. E mandaram logo a Paulo II uma embaixada,
                    participando-lhe, que tinham acclamado o infante D. Affonso rei de Castella e de
                    Leão. O papa respondeo, que em vez de attrairem as bençãos do Céo sobre o
                    infante, chamavam sobre elle os castigos eternos e a morte; e que com o seu
                    exemplo a liga provocava todas as classes á desobediencia.</p>
                <p>D. Affonso falleceo de repente, na tenra edade de quinze annos, e os conjurados
                    offereceram a coroa á infanta D. Isabel, que a não aceitou, por não poder
                    intitular-se rainha, em quanto seu irmão D. Henrique vivesse... Entretanto,
                    porém, desejava ser jurada herdeira do throno, em competencia com D. Joanna, a
                    quem chamou <seg rend="italic">supposta</seg> filha do monarcha.</p>
                <p>Annuio D. Henrique a effectuar-se esse juramento, com a condição de sua irmã não
                    casar sem elle o consentir. Sacrificou d'este modo a propria honra e a da
                    rainha, sua mulher, sendo injustamente postergados os interesses da innocente
                    infanta, sua filha.</p>
                <p>Do juramento anteriormente feito a D. Joanna, foi absolvido o reino pelo legado
                    pontificio, o qual não attendeo os protestos da rainha contra tudo quanto se
                    accordou em opposição aos direitos de sua filha, porque havia recebido o encargo
                    de apaziguar dois litigantes, e, sendo-lhe impossivel desatar um nó, julgou mais
                    prudente corta-lo.</p>
                <p>Agora todo o ardor dos turbulentos se concentrou na escolha de marido para D.
                    Isabel.</p>
                <p>O almirante de Castella queria, que a infanta se desposasse com o seu neto D.
                    Fernando, para ter em Aragão um auxiliar poderoso; o marquez de Vilhena
                    oppunha-se, não para obstar á união das duas corôas, senão para olhar pelo
                    engrandecimento da propria casa, pois lhe haviam proposto antes o enlace
                    d'aquelle principe com uma filha sua. De sorte que, ainda mal apagadas umas
                    discordias, surgiam logo outras.</p>
                <p>Era esta a politica dos magnates rebeldes. Convinha-lhes ter sempre a corôa sob a
                    sua influencia, por isso eternisavam as parcialidades, buscavam em tudo
                    elementos de perturbação, e a auctoridade real era incessantemente um joguete em
                    suas mãos.</p>
                <p>Podésse muito embóra a pusilanimidade de Henrique IV, ou a sua falta de previsão
                    e dignidade no poder, fomentar o germen das sedições; nada d'isso, porém, as
                    justificava: serviram unicamente de deixar na historia de um povo illustre uma
                    pagina indecorosa.</p>
                <p>O casamento de Fernando com Isabel foi para o pae d'esse principe uma nova
                    campanha, que tratava de vencer, comprando a pêso de ouro os grandes de
                    Castella.</p>
                <p>Entretanto Henrique IV partia com o marquez de Vilhena para Andaluzia, afim de
                    receber umas cidades, que se administravam por seu proprio arbitrio; e depois de
                    ter feito jurar solemnemente a sua irmã, que não casaria, fosse com quem fosse,
                    antes de elle regressar. A infanta, porém, aconselhada pelo arcebispo de Toledo,
                    protestou secreta e intimamente, que faria o que bem lhe parecesse; e logo
                    escreveo ao rei de Aragão, dizendo-lhe, que consentia em unir-se a seu filho,
                    mediante certas condições, que seriam propostas pelos emissarios, de quem ella
                    encarregára a negociação. Mui vexatorias para o decoro do reino e do principe as
                    consideravam os conselheiros do soberano aragonez; com tudo o matrimonio
                    realisou-se. Correo logo que não estava valido, por se ter celebrado sem a
                    dispensa pontificia, tão reclamada pelo proximo parentesco dos conjuges; mas
                    como não havia escrupulos, nem difficuldades para o arcebispo de Toledo, este
                    não hesitou em faltar á verdade, affirmando, que a curia romana lhe enviára
                    muito a tempo o breve indispensavel.</p>
                <p>Quando Henrique IV recolheo a Madrid, recebeu dos sublevados uma exposição, na
                    qual lhe participavam o consorcio da infanta, e as condições, em que se
                    effectuára; sem deixarem, para maior ludibrio, de solicitar o perdão do seu rei,
                    por haverem, sem seu beneplacito, preparado e conseguido tão auspiciosa união.
                    Ao mesmo tempo Isabel dirigio a seu irmão uma carta affectuosissima, em que lhe
                    communicava a sua mudança de estado.</p>
                <p>Era o cumulo da insubordinação e da impudencia!</p>
                <p>O desforço de Henrique IV consistio em reunir um simulacro de côrtes no valle de
                    Lozoya, onde, perante a rainha e sua filha, fez declarar solemnemente, que era
                    irrito e nullo o acto de se haver jurado em Toros de Guisando, a infanta D.
                    Isabel por herdeira do throno, em virtude de concessão feita por elle monarcha,
                    pois lhe fôra esta arrancada á força, e offendia os direitos de sua legitima
                    filha. Assistiram a essa assembleia alguns delegados de Luiz XI, que celebraram
                    por procuração o casamento de D. Joanna com o irmão d'aquelle soberano. As
                    cidades, que se prezavam de leaes, sendo Sevilha uma das primeiras, deram a tudo
                    seu assentimento; mas o noivo da princeza não chegou a cumprir a palavra, que
                    por meio de poderes especiaes havia empenhado.</p>
                <p>Por conselho do marquez de Vilhena, Henrique IV voltou-se para D. Affonso V, a
                    quem propôz o casamento com D. Joanna, a qual levaria em dote os reinos de Leão
                    e Castella; porém, o monarcha portuguez, mais receoso dos artificios de Vilhena
                    do que das difficuldades do assumpto, deo largas ao negocio, e Henrique IV
                    entretanto tentou ainda procurar para genro o infante D. Henrique de Aragão,
                    filho de outro, que, cincoenta annos antes, havia sido o primeiro perturbador de
                    Castella.</p>
                <p>Começou o anno de 1474.</p>
                <p>Henrique IV estava em Segovia, e o alcaide d'esta cidade, Andrés de Cabrera, teve
                    artes de fazer, com que o soberano se avistasse no alcaçar com a infanta D.
                    Isabel. O rei, por sua natural bonhomia, recebeo a irmã, que não solicitou, nem
                    esperou permissão para apresentar-lhe o marido. Era D. Isabel, na phrase de um
                    legado de Sixto IV, sobradamente animosa e discreta, para deixar de conseguir o
                    que desejasse, por isso não tratou de desculpar-se, senão de commover o irmão a
                    ponto de lograr induzi-lo, a que no dia de Reis lhe désse e ao marido uma prova
                    publica de affecto, indo á missa com elles, e voltando com grande comitiva ao
                    alcaçar. Aqui tinha o alcaide farto e delicado almoço. O rei comeo com sua irmã
                    e cunhado, e ao cair da tarde sentio-se tão mal, que foi mister leva-lo em
                    braços para o palacio. Em quanto esteve de cama não cessaram as deligencias,
                    para que declarasse sua irmã por herdeira do throno. Negou-se a isso
                    constantemente. O marquez de Vilhena advogava a causa de D. Joanna, o arcebispo
                    de Toledo a de D. Isabel; e ao passo que esta infanta se mostrava tranquilla e
                    disposta a sustentar a todo o transe suas pretensões á successão, D. Fernando
                    pelo contrario, não parava em parte alguma, como quem sentia na consciencia um
                    pêso, de que não podia alliviar-se.</p>
                <p>Depois do almoço de Segovia, Henrique IV nunca mais gozou saude, até que falleceo
                    em 12 de dezembro do anno a que nos estamos referindo. Dois mezes antes tinha
                    morrido o marquez de Vilhena, a quem succedeo seu filho D. Diogo, que assistio
                    com o cardeal Mendoza, o conde de Benavente e o prior de S. Jeronymo, fr. João
                    de Macuelo, aos ultimos momentos do rei em Madrid.</p>
                <p>Apenas o prior confessou e ministrou a Sagrada Eucharistia ao monarcha moribundo,
                    perguntou a este o cardeal:</p>
                <p>—V. A. deixa testamento?</p>
                <p>—Deixo—respondeo Henrique IV.—O meu secretario Juan de Oviedo o apresentará.</p>
                <p>—E quem são os vossos testamenteiros?—continuou o cardeal.</p>
                <p>—Á excepção do prior de S. Jeronymo, ficam nomeados os presentes e o conde de
                    Plasencia.</p>
                <p>—E a quem deixa V. A. por herdeira do throno?—insistio ainda Mendoza.</p>
                <p>—A minha filha D. Joanna—replicou o monarcha serena e firmemente.</p>
                <p>Seria grave offensa á memoria de Henrique IV suppôr, que na hora tremenda, em que
                    elle se preparava, conforme a sua fé, para dar conta das suas fraquezas ao
                    Omnipotente, saisse de seus labios uma mentira!</p>
                <p>Ainda quentes os restos do mallogrado monarcha, D. Isabel fez-se acclamar, em
                    Segovia, rainha de Castella e Leão, mandando celebrar um solemne <seg rend="italic">Te-Deum</seg>, como se acabasse de alcançar o maior triumpho.
                    Seguidamente foi áquelle mesmo alcaçar, onde havia entrado mezes antes em
                    companhia de seu esposo e do rei defunto, sentou-se junto d'aquella mesa, em
                    volta da qual os tres almoçaram, e prezenteou o alcaide Andrés de Cabrera com o
                    mesmo copo de ouro, de que se servira D. Henrique.</p>
                <p>Parece um sarcasmo!</p>
                <p>Em geral os historiadores e chronistas hespanhoes defendem e exalçam a successão
                    de Isabel a Catholica, servindo-se, para combater a legitimidade e o direito da
                    princeza Joanna, dos mesmos pretextos, de que lançaram mão os rebeldes.</p>
                <p>Não é d'este modo, que deve comprehender-se a missão da historia.</p>
                <p>Póde o historiador alardear a sua erudição e os seus talentos; se o seu criterio,
                    porém, não fôr imparcial e desapaixonado, sacrificará a verdade, que é a alma, a
                    belleza da historia, e a honra suprema, de quem a escreve.</p>
                <p>O facto de ter D. Fernando o Catholico, depois de viuvo, pretendido desposar-se
                    com a princeza D. Joanna, por si só bastaria, para lavar a nodoa, com que
                    macularam a reputação da mulher de D. Henrique.</p>
                <p>Mas a tumida onda sediciosa não envolveu unicamente os povos de Castella; saltou
                    a fronteira portugueza, e arrastou na resaca o nosso D. Affonso V, que no
                    conceito de Camões,</p>
                <lg>
                    <l><seg rend="italic">Fôra por certo invicto cavalleiro,</seg></l>
                    <l><seg rend="italic">Se não quizera ir ver a terra Iberica.</seg></l>
                </lg>
            </div>
            <div>
                <head>III</head>
                <head>NOVO ESCUDEIRO</head>
                <p>Após o passamento de Henrique IV, todas as esperanças dos partidarios de D.
                    Joanna firmavam-se no heróe de Arzilla; e as de D. Isabel no apoio de Aragão
                    principalmente. Estava préstes a travar-se a lucta, em que devia afinal
                    decidir-se da sorte das duas contendoras, collocadas em circumstancias mui
                    diversas.</p>
                <p>Isabel, ainda em vida de seu irmão, soube preparar-se a tempo; Joanna era uma
                    creança inexperiente, filha de uma senhora sem prestigio, e sem a necessaria
                    energia para collocar-se á frente do movimento, que se operava a favor da justa
                    causa da princeza de Castella.</p>
                <p>Tambem a morte veiu surprehender a infeliz viuva no inicio das hostilidades, de
                    sorte que sua filha, orphã prematura de páe e mãe, ficou inteiramente á mercê da
                    versatilidade caracteristica de seus parciaes. Estes, mais por acudir á vingança
                    de seus odios particulares, e ao accrescentamento de seus patrimonios, do que
                    por zelo do bem publico, ou amor de justiça, trataram de comprometter D. Affonso
                    V, para lhes saciar a cobiça.</p>
                <p>Estava o rei de Portugal em Extremoz, quando lhe chegou ás mãos o testamento, em
                    que seu cunhado Henrique IV declarava ser a princeza D. Joanna sua filha, e a
                    nomeava herdeira dos reinos de Castella e Leão, pedindo outrosim a D. Affonso V,
                    que acceitasse a governança d'elles e casasse com a sobrinha. </p>
                <p>Ouviu D. Affonso sobre o assumpto o parecer de seu filho, bem como o dos grandes
                    e principaes do reino, a quem consultou mais talvez pelo respeito ás praxes
                    estabelecidas, do que resolvido a seguir qualquer conselho, que contrariasse o
                    seu reservado intento. A fim de saber não só quantos e quaes eram os magnates
                    castelhanos legitimistas, como de certificar-se da valia d'elles, enviou a
                    Castella Lopo de Albuquerque, seu camareiro-mór, depois conde de Penamacor.</p>
                <p>A esse tempo chegava D. Juan de Guzman a Extremoz, onde foi recebido pelo
                    monarcha.</p>
                <p>Não podia ser mais a proposito esta visita, e D. Affonso folgou muito com ella,
                    dando ao seu hospede cordialissimo agasalho, como naturalmente pediam a lhaneza
                    e affabilidade do rei, que captivava com o seu trato grandes e pequenos.</p>
                <p>Entregou-lhe o recem-vindo uma carta, em que o duque de Medina Sidonia o
                    apresentava a D. Affonso, garantindo a approvação antecipada a quanto entre
                    ambos ficasse assentado.</p>
                <p>Terminada a leitura do escripto, começou Guzman por dizer:</p>
                <p>—Não ignora voss'alteza, quanto é lastimoso o estado de Castella. O reino sem
                    direcção, nem governo, combatido por todos os principios de dissolução, caminha
                    rapidamente para uma ruina tremenda, e nas mãos de voss'alteza está o poder
                    evita-la.</p>
                <p>—São esses os meus desejos;—replicou D. Affonso—mas, como sabeis, a empresa não é
                    facil, por isso careço de inteirar-me da lealdade dos que se propõem pugnar pela
                    justiça e direitos da princeza, minha sobrinha.</p>
                <p>—Da parte de meu irmão—tornou Guzman—venho eu prestar homenagem a voss'alteza, a
                    quem elle jura servir em tudo, obrigando-se a auxiliar, tomar e reconhecer por
                    seu legitimo rei e Senhor, se voss'alteza se desposar com a senhora D. Joanna, e
                    fôr sem demora tomar posse do governo de Castella.</p>
                <p>—O duque é digno dos meus louvores, e mais ainda pela fórma, como procede,
                    offerecendo-me occasião de conhecer-vos, para muito vos estimar.</p>
                <p>—Mercê a voss'alteza, meu Senhor. Em breve poderei talvez provar-vos a gratidão
                    do meu animo, onde tambem o seu esforço mais se manifeste.</p>
                <p>—Praz-me ouvir-vos, e ver-vos tão deliberado!</p>
                <p>D. Juan de Guzman cortejou D. Affonso, e disse-lhe com aprimorados ademanes de
                    cavalleiro:</p>
                <p>—Espéro, que meu irmão me confie o comando de dois mil cavallos, que desde já põe
                    ao serviço de voss'alteza.</p>
                <p>—É contingente valioso esse—observou D. Affonso.</p>
                <p>A respeito das forças, com que poderemos contar devo em breve ser definitivamente
                    informado pelo marquez de Vilhena.</p>
                <p>—Assim o creio. Talvez a demora dos seus esclarecimentos dependesse da resposta
                    de meu irmão.</p>
                <p>—Porquê?</p>
                <p>—Á hora da minha partida para Portugal recebeu o duque uma carta de D. Diogo, na
                    qual lhe perguntava com quantos cavallos concorria, pois desejava enviar a
                    voss'alteza uma nota das tropas castelhanas, com que poderiamos entrar em
                    campanha, e a Luiz XI a da totalidade do exercito.</p>
                <p>—E o marquez communicava tambem ao duque o computo dos já inscriptos?</p>
                <p>—Sim, meu Senhor. Anda por dezoito mil cavallos; devendo, porém, este numero
                    elevar-se, quando constar a entrada de voss'alteza em Castella, pois muitos dos
                    cavalleiros, que até agora não adheriram, o farão immediatamente. </p>
                <p>D. Affonso V não poude occultar o jubilo, que lhe causou esta nova de ter já por
                    si em Castella tão importantes forças; e com a sua habitual familiaridade
                    affirmou a D. Juan de Guzman:</p>
                <p>—Eu tenho muita confiança nos cavalleiros castelhanos. Não os ha mais briosos
                    certamente.</p>
                <p>—Mercê por elles, meu Senhor.</p>
                <p>—Agora aqui vos deixo para serdes recebido pelo principe, que muito gostará de
                    conversar comvosco.</p>
                <p>É fácil de presumir, sobre que versaria principalmente a palestra, sabendo-se do
                    interesse, que mostrava o principe D. João em seu páe acceitar o papel, que
                    Henrique IV lhe distribuira no testamento.</p>
                <p>D. Juan de Guzman poucos dias se demorou em Portugal; foi, porém, o tempo
                    sufficiente para D. Affonso e seu filho conhecerem e apreciarem o pagem, que
                    viera na comitiva. D'elle fizeram grandes gabos ao fidalgo sevilhano, o qual,
                    mais talvez por alardear philaucias de familia, do que por enaltecer as
                    qualidades do môço, ou por ambas as razões, referiu em resumo: que da Covilhan
                    costumava ir a Sevilha o páe do pagem commerciar e conquistára grandes creditos.
                    Tendo afinal estabelecido a sua residencia n'aquella cidade, onde era geralmente
                    estimado, accedeu ao pedido, que lhe fez o duque de Medina Sidonia, de
                    deixar-lhe educar o filho, então muito creança ainda, mas dotado já de singular
                    viveza. Como fallecesse o mercador, pouco depois, e já viuvo, ficára o pagem
                    inteiramente confiado ao amparo do duque. Possuia prendas muito estimaveis,
                    poderia em breve ser um excellente cavalleiro, e chamava-se Pero da Covilhan,
                    por causa da sua procedencia.</p>
                <p>Esta narrativa ainda mais aguçou a D. Affonso e ao principe o appetite de terem o
                    pagem ao seu serviço; e D. Juan de Guzman já havia reconhecido isso na maneira
                    como lhe fallavam d'elle.</p>
                <p>Na vespera do seu regresso a Sevilha, perguntou Guzman a Pero da Covilhan: </p>
                <p>—Quereis ser pagem do rei de Portugal?</p>
                <p>—Tudo quanto sou—respondeu Pero—devo ao senhor duque, por isso não tenho animo de
                    separar-me d'elle.</p>
                <p>—Esperava essa resposta;—volveu Guzman—mas se eu vos pedir, que fiqueis? </p>
                <p>—Obedeço, porque de vossa mercê sómente recebo ordens e não pedidos.</p>
                <p>—Meu bom Perico!—exclamou affectuosamente Guzman.—Muito me custa deixar-vos cá;
                    mas o senhor D. Affonso, que, dentro em pouco será rei de Castella, mostra
                    desejos de ser vosso amo, e eu tenho-os de o bem servir; por isso
                    entregar-vos-ei a elle, certo de que meu irmão assentirá ao meu proposito. </p>
                <p>No dia seguinte saiu D. Juan de Guzman para Sevilha. D. Affonso V dirigiu-se a
                    Evora, levando no seu sequito a Pero da Covilhan, já escudeiro, servido de armas
                    e cavallo, sem embargo de não ter completado ainda vinte annos.</p>
                <p>O rei antes da partida despachou o seu Arauto Lisboa com cartas para Luiz XI, a
                    quem communicava a resolução que tomára, de receber por esposa a princesa D.
                    Joanna, e de entrar em Castella com um grande exercito, pois a isso o estava
                    convidando a maior parte da grandeza castelhana. E sob o pretexto de recear, que
                    na jornada sobreviesse ao seu Arauto algum accidente ou enfermidade, que o
                    retardasse, escreveu de novo ao rei de França, insistindo agora principalmente
                    em demonstrar os legitimos e inauferiveis direitos da rainha D. Joanna.
                    Ponderava habilmente, que o não ser d'elles esbulhada, era conveniencia de ambos
                    os monarchas, por quanto, se Fernando se apoderasse de Castella, viria a ser um
                    vizinho formidavel e perigoso, tanto para Portugal, como para França. </p>
                <p>Procurava assim conciliar com acertada politica as boas graças de Luiz XI, que
                    mui interessado era, em que no throno de Castella estivesse um principe capaz de
                    manter e conservar as antigas confederações e allianças d'esse reino com a
                    França; mas contra todos em geral e sem excepção.</p>
                <p>N'este ponto offerecia-se a difficuldade de ser Portugal alliado da Inglaterra,
                    antiga inimiga da França, e querer Luiz XI, que Portugal ficasse comprehendido
                    no tractado a celebrar com Castella.</p>
                <p>De certo modo veiu o nosso monarcha a prestar-se ás vistas politicas de Luiz XI;
                    o que determinou este a promulgar uma carta patente sobre o soccorro, que dava a
                    D. Affonso V, nomeando sire d'Albret commandante de um exercito destinado a
                    invadir Guipuzcoa e Biscaia. </p>
                <p>Com quanto o duque de Bragança tivesse já dado lealmente por escripto o seu
                    parecer—que foi archivado a seu pedido, para constar no futuro—ácerca da entrada
                    do exercito portuguez em Castella, D. Affonso, antes d'este se pôr em marcha,
                    conversou ainda particularmente com o duque a respeito do assumpto.</p>
                <p>—Insistis na vossa opinião?—perguntou o monarcha ao duque de Bragança.</p>
                <p>—Certamente, meu Senhor—respondeu o duque.</p>
                <p>—Ora dizei-me: não deverei eu confiar nas declarações categoricas, que por Lopo
                    de Albuquerque me enviaram os grandes de Castella?</p>
                <p>—Mais acertado fôra, Senhor, desconfiar d'ellas. Reparai bem, que esses mesmos,
                    que vos chamam agora para sustentar os direitos de vossa sobrinha, são os que
                    atraiçoaram a D. Henrique, seu rei natural, depondo-o do governo do reino.</p>
                <p>—Assim é. Mas não acreditais, que elles reconhecendo a justiça que assiste a
                    minha sobrinha, queiram resgatar com uma nobre acção seus anteriores desatinos,
                    sem embargo de esperarem tambem receber de mim grandes mercês?</p>
                <p>—O que me parece é, que a obediencia por elles jurada depende unicamente da sua
                    ambição, e vem acompanhada de mais interesse, do que de fidelidade e constancia;
                    por isso, se a sorte das armas começar a ser desfavoravel a voss'alteza,
                    depressa abandonarão a vossa bandeira.</p>
                <p>—Sei, que como amigo me fallais; mas a vossa prudencia é agora descabida. Pois os
                    nobres de Castella arriscar-se-iam por ventura a grandes perigos, offerecendo-me
                    espontaneamente seus serviços, se duvidassem do seu e meu triumpho?!</p>
                <p>—De tudo são elles capazes, meu Senhor, que os não ha mais voluveis. Mas
                    superiores em poder e em numero são-lhes os mais avisados e prudentes, tendo ao
                    seu lado o povo, que unanimemente acclamou D. Isabel por sua rainha. E uma
                    acclamação, como esta, é vantagem muito grande no começo dos reinados, servindo
                    até de justificar as pretensões mais duvidosas.</p>
                <p>—Não ignoro quanto o poder de Castella excede o de Portugal; mas conto não só com
                    os homens do meu reino, que são muito valentes, senão com outros tantos
                    castelhanos, como de mais nações, que de boa vontade engrossarão o meu
                    exercito.</p>
                <p>—E a D. Isabel não virão soccorros da Secilia, tanto em dinheiro, como em armas,
                    navios de guerra, cavallos e provisões? Aragão dar-lhos-ha decerto; e até a
                    Italia, pois são senhores d'ella, e primos dos reis da Secilia, o rei de Napoles
                    D. Fernando, e o duque da Calabria, seu filho.</p>
                <p>—Sim, estão os meus adversarios bem aparentados; mas não os temo apesar d'isso, e
                    eu tambem <seg rend="italic">não nasci das pedras</seg>. Conto igualmente com
                    amigos e parentes; tambem me não falta dinheiro, <seg rend="italic">que é mais
                        fiel que todos os parentes e amigos</seg>, e tenho sobretudo a Deus em meu
                    auxilio.</p>
                <p>—Não pretendo demover voss'alteza do proposito, em que está; permitti, porem, que
                    vos lembre ainda a reciproca aversão de Castella e Portugal, filha de um odio
                    inveterado entre os dois povos; e o perigo de expôr a felicidade e a paz do
                    vosso reino á inconstancia e capricho dos grandes de Castella. Não olvide tambem
                    voss'alteza, que, durante a vida de seu cunhado, não queria ouvir fallar do
                    casamento de voss'alteza com sua sobrinha, e que, acceitando-o agora, obriga o
                    mundo, sempre prompto a desacreditar as acções dos principes, a murmurar e
                    attribuir esta guerra a algum odio reservado...</p>
                <p>—Sem embargo d'isso, estou resolvido a entrar em Castella.</p>
                <p>—Acato a deliberação de voss'alteza, e peço-lhe me conceda licença, para ter em
                    alguns lugares d'esse reino póstas prestes a salvar a real pessoa de voss'alteza
                    e a minha, se necessario for.</p>
                <p>A vigorosa argumentação do duque de Bragança, para combater o designio de Affonso
                    V, fez suspeitar o principe D. João, de que fôra inspirada por D. Isabel,
                    proxima parenta do duque; suspeita essa, que dominou sempre o animo do principe,
                    e foi mais tarde tão fatal á casa de Bragança.</p>
                <p>D. João oppôz-se apaixonadamente áquelle parecer, por estar convencido de que o
                    senhor de Villa Viçosa pretendia atalhar, a que D. Affonso V aproveitasse o
                    ensejo propicio, que se lhe offerecia, de dilatar os dominios da corôa, e
                    unificar os reinos da peninsula. Era vivamente applaudido por alguns fidalgos
                    portuguezes, que observavam o invariavel preceito, de não soffrerem os principes
                    contrariedade a seus gostos. Preferiam por isso ser aduladores, especie de péste
                    endemica das côrtes, para a qual se não descobriu ainda remedio.</p>
                <p>O duque de Bragança havia previsto, quanto ia passar-se em Castella; e os
                    successos, como veremos, bem mostraram ser mais difficil illudir a prudencia, do
                    que lisonjear um principe.</p>
                <p>Falleceu o duque, antes de se pôr em marcha o nosso exercito, e seu filho
                    primogenito D. Fernando, duque de Guimarães, que lhe succedeu em suas grandezas,
                    tomou parte na expedição com seus irmãos, vassallos e dinheiro, sem que lhe
                    entibiasse o zelo e a generosidade, com que servia o seu legitimo rei,
                    consideração alguma pelo parentesco, que tão estreitamente o ligava aos
                    principes do partido contrario.</p>
                <p>Até aqui havia D. Affonso V reinado com muita gloria e auctoridade, sendo alvo da
                    estima e veneração dos principes seus contemporaneos, alguns dos quaes consumiam
                    seus patrimonios e forças em guerras civis e domesticas, em quanto elle as
                    expendia em activar o influxo civilisador da religião catholica, e ampliar a
                    soberania de Portugal, havendo passado tres vezes a Africa, onde seus
                    cavalleiros mais acendraram a fama luzitana, e elle mostrou sempre a alteza de
                    animo, de que era singularmente dotado.</p>
                <p>A inclinação e gosto, com que se occupava na conquista da Africa pela Barberia,
                    faziam-n'o olvidar a grandeza dos descobrimentos do Oceano, iniciados pelo
                    infante D. Henrique seu tio. Quem sabe, porém, se elle continuaria a obra do
                    solitario de Sagres, uma vez que não fosse impellido pela generosa idéa de
                    reparar uma affronta, feita a sua irmã, e de soccorrer uma orphã innocente e
                    desamparada?</p>
                <p>E seria sómente esse o pensamento, que o levou a Castella?</p>
                <p>Se o leitor, em alguma hora de seu desenfadamento, compulsasse os codices da
                    preciosa collecção pombalina, que possue a Bibliotheca Nacional de Lisboa, em um
                    d'elles encontraria a seguinte lembrança muito instructiva:</p>
                <p>«Sendo antes destas tres escreturas atras contheudas trautado casamento delRei
                    Dom Affonso o quinto, padre delRei nosso Senhor e sobre elle com a Rainha Dona
                    Isabel, que na era presente reinava, foi com embaixada a Castella o Arcebispo de
                    Lisboa Dom Jorge grandemente, que hoje he Cardeal de titolo de Sam Pedro
                    Marceleni, e está em corte de Roma privado e amado do Papa Innocencio, que foi
                    Cardeal malfetano, e asi outros embaixadores, e vindos outros de Castella ao
                    dito Rei sobre o mesmo caso, esta senhora Rainha Dona Isabel se casou com elRei
                    de Cecilia e Principe d'Araguam, filho delRei Dom João d'Araguam, que primeiro
                    foi Rei de Navarra, o qual casamento fez por mão do Arcebispo de Tolledo dom
                    Affonso Carillo, e do Almirante avoo do dito Rei da parte de sua mãi, e fique em
                    memoria que o fez porque o dito Senhor Rei Dom Affonso <seg rend="italic">a não
                        quiz, querendo ella muito</seg>, e depois elle a quisera e ella como as
                    molheres naturalmente sam vingativas o não quiz quando elle quisera, e folgou de
                    lhe dar competidor e de o anojar, como na verdade foi, <seg rend="italic">ca
                        desta mesma causa naceo sua entrada em Castella com o titolo de sua
                        sobrinha</seg>, filha delRei Dom Amrique per dar trabalho á Rainha Dona
                    Isabel, e se vingar della, e como as cousas de sua entrada sobcederão fique do
                    Coronista ao carguo.»</p>
                <p>Com effeito Henrique IV, annos antes do seu passamento, offerecera, como vimos, a
                    mão de D. Isabel a D. Affonso V; e desejou igualmente, que o principe D. João
                    casasse com a princeza de Castella, D. Joanna. D. Affonso dilatou a sua
                    resolução, e sómente quando muito instado por seu cunhado, pelo principe seu
                    filho, e pelas diligencias do marquez de Vilhena, mandou uma embaixada pedir a
                    infanta. Os embaixadores esperavam pela resposta na aldeia de Cientpozuelos, e
                    afinal foram despedidos, dizendo-se-lhes, que se trataria por meios brandos de
                    reduzir a infanta a obedecer a seu irmão. O arcebispo de Toledo cuidou
                    immediatamente de dissuadir D. Isabel d'este enlace, pondo em relêvo a dilação
                    descortêz de D. Affonso, aconselhou-a, a que preferisse Fernando de Aragão, e
                    entendeu, que, para frustrar as idéas dos adversarios, devia fazer secretamente
                    os preparativos, precipitar os tramites do negocio, e de um modo ou outro
                    verificar o matrimonio, para que, realizado e consumado, não désse lugar ao <seg rend="italic">arrependimento da princeza</seg>. E maior préssa se deu ainda,
                    quando soube, que de Roma havia sido enviada a Bulla de Paulo II, com data de 23
                    de junho de 1469, concedendo a dispensa a D. Affonso e D. Isabel. Fabricou então
                    um breve apostolico, datado de 28 de maio de 1464 e com assignatura falsa de Pio
                    II, pois se oppunha á execução do desposorio com Fernando o impedimento da
                    consanguinidade dos nubentes, e não havia outro meio de velar o sigillo e
                    realizar o negocio com promptidão.</p>
                <p>O atribiliario prelado toledano comprazia-se em forjar caballas e commetter
                    torpezas.</p>
            </div>
            <div>
                <head>IV</head>
                <head>JORNADA INFELIZ</head>
                <p>Resolveu D. Affonso V entrar em Castella pela villa de Arronches, onde mandou
                    reunir o exercito. Antes da marcha, e conforme prescrevia o <seg rend="italic">Regimento de Guerra</seg>, não só o rei, mas todos os fidalgos, que tinham
                    de acompanha-lo, receberam a Sagrada Eucharistia, indo depois toda a hoste
                    assistir a uma missa solemne, e sendo pelo celebrante benzida a bandeira real
                    mettida na funda.</p>
                <p>Terminados estes actos, ao alvorecer de um formoso dia de maio de 1475, D.
                    Affonso V</p>
                <lg>
                    <l>...................«tocado de ambição</l>
                    <l>E gloria de mandar amara e bella,</l>
                    <l>Sai cometter Fernando de Aragão,</l>
                    <l>Sobre o potente reino de Castella.»</l>
                </lg>
                <p/>
                <p>Lá foram ajuntar-se com elle o duque de Guimarães, o conde de Marialva, Ruy
                    Pereira e outros fidalgos, os quaes, atalhando pela Beira, chegaram a Piedra
                    Buena, onde acampou todo o exercito, composto de cinco mil e seiscentos
                    cavallos, e quatorze mil infantes. Alli mandou D. Affonso V, que tomou então o
                    supremo commando, chamar á sua tenda o condestavel, o marechal, o ouvidor da
                    hoste e o meirinho, bem como todos os fidalgos, cavalleiros e capitães, a quem
                    recommendou obediencia em tudo aos quatro primeiros; verificou o numero da gente
                    que havia, e deu as necessarias providencias no tocante á ordenança, que as
                    tropas deviam conservar durante a marcha.</p>
                <p>Na frente saíu o <seg rend="italic">adail-mór</seg> com um troço de ginetes,
                    formando a guarda avançada; após elle o marechal, que era o aposentador e
                    assentador do arraial; immediatamente o capitão de ginetes, seguido pelo capitão
                    da vanguarda real, e logo a carriagem; na rectaguarda o rei, e, cobrindo-a, o
                    condestavel, cujo cargo exercia em parte o duque de Guimarães. Formava as alas a
                    fina flor da cavallaria portugueza, e entre a vanguarda e a rectaguarda não
                    mediava mais de um tiro de bésta, a fim de poderem mutuamente soccorrer-se.</p>
                <p>Ao condestavel, que era o general da milicia, pertencia marchar na vanguarda. Na
                    presente formatura as attribuições e preeminencias d'essa dignidade estavam
                    repartidas por D. João, marquez de Montemór, filho do duque de Bragança D.
                    Fernando I, e por seu irmão o duque de Guimarães.</p>
                <p>A cavallaria compunha-se de <seg rend="italic">cavalleiros</seg> e <seg rend="italic">escudeiros</seg> de geração nobre; de <seg rend="italic">lanças</seg>, que os senhores de terras tinham obrigação de dar,
                    acompanhando cada uma dois arqueiros, um pagem e um escudeiro; e de <seg rend="italic">cavalleiros</seg> da ordenança dos povos do reino, sendo
                    apurados conforme a contia, que devia possuir cada morador para ter cavallo e
                    armas. Estes sómente eram reputados tropa regular e effectiva, e entravam na
                    conta ou rezenha das praças, que constituiam os corpos chamados bésteria,
                    denominando-se <seg rend="italic">bésteiros do conto</seg> tanto os de cavallo,
                    como os de pé.</p>
                <p>Dividia-se a cavallaria em pesada e ligeira ou <seg rend="italic">á gineta</seg>.
                    Na primeira, o homem era arnezado, e o cavallo bardado e encapacetado. Na
                    segunda, os cavalleiros pelejavam armados de lança e adarga, usando de estribos
                    curtos no apparelho do cavallo.</p>
                <p>A infanteria constava de <seg rend="italic">bésteiros</seg>, <seg rend="italic">espingardeiros</seg> e <seg rend="italic">piqueiros de pé</seg>.</p>
                <p>Na bésteria differençavam-se os chamados de <seg rend="italic">polé</seg>, por
                    trazerem bésta, que se armava com uma roldana d'aquelle nome; os <seg rend="italic">bésteiros da camara</seg>, que eram acontiados e fornecidos
                    pelas camaras do reino; <seg rend="italic">bésteiros de garrucha</seg>, mais
                    abastados e considerados, que os de polé, armados com bacinete de camal ou de
                    baveira, e tendo bésta com garrucha e solhas para arremessar virotões; <seg rend="italic">bésteiros</seg>
                    <seg rend="italic">de fraldilha</seg>, por levarem uma fralda de couro, que lhes
                    servia como de escudo contra as settas do inimigo; e <seg rend="italic">bésteiros do monte</seg> ou caçadores.</p>
                <p>Notaremos que o numero das armas de arremesso se reduzia cada vez mais, á medida
                    que as de fogo triumphavam da repugnancia, com que foi acolhida, durante muito
                    tempo, a sua invenção, mórmente pela cavallaria, que considerava cobardes
                    similhantes armas, com especialidade as portateis. No reinado de D. João II
                    apparece já o cargo de <seg rend="italic">anadél-mór</seg> dos espingardeiros,
                    concedido a Payo de Freitas, cavalleiro da casa real, cabendo mais tarde ao rei
                    D. Manoel a sua vez de extinguir em 1498 os acontiados e bésteiros, tanto de
                    conto, como da camara, todos os cargos de officiaes móres e pequenos da
                    bésteria, deixando unicamente os bésteiros do monte em alguns lugares da Beira
                    Alta, Alemtejo e Algarve, com um anadél-mór, que era Pedr'alves, cavalleiro da
                    sua casa, como consta da carta de 29 de maio de 1499.</p>
                <p>A segunda dignidade do exercito de D. Affonso V era a de marechal, a quem
                    pertencia, além de outras obrigações e prerogativas: repartir os alojamentos;
                    executar e fazer cumprir as ordens, que recebia do condestavel; e julgar as
                    causas civeis e crimes das gentes de guerra, levando um ouvidor comsigo para
                    esse fim.</p>
                <p>O <seg rend="italic">alféres-mór</seg> levava a <seg rend="italic">signa</seg> ou
                        <seg rend="italic">bandeira</seg>, a qual não estendia ou desenrolava sem
                    especial determinação do rei, quando estivessem á vista do inimigo, e costumava
                    ter um <seg rend="italic">alferes pequeno</seg>, que o substituia. As bandeiras
                    dos fidalgos não podiam tirar-se das fundas e estender-se, sem que o fosse a
                    bandeira real; podiam, porém, ir sempre estendidos os balsões ou insignias. No
                    guião do rei via-se a divisa que Affonso V tomára por sua mulher D. Isabel, e
                    consistia em um rodizio de moinho com gottas de agua esparzida ao redor, e na
                    legenda <seg rend="italic">Jámais</seg>. Com oito ou dez pendões pequenos era
                    balizado e divisado o lugar escolhido para acampar.</p>
                <p>Havia um <seg rend="italic">aposentador-mór</seg>, que de ante-mão preparava os
                    quarteis das tropas, quando estas se mobilisavam. O <seg rend="italic">capitão
                        de ginetes</seg> era o general de cavallaria; o <seg rend="italic">adail-mór</seg>, o capitão dos bésteiros; e o <seg rend="italic">coudel-mór</seg> commandava escudeiros e homens de armas, que não
                    pertenciam a capitania alguma, e eram repartidos em tróços de vinte por <seg rend="italic">coudeis</seg>. </p>
                <p>Desempenhavam o serviço e a guarda do rei vinte cavalleiros ou escudeiros,
                    commandados por um <seg rend="italic">guarda-mór</seg>. Eram escolhidos, e
                    andavam armados de cotas, barretas, braçaes, lanças e espadas; e no tempo de paz
                    assistiam no paço junto da real camara. Algumas vezes o soberano encarregava
                    tambem da sua guarda o capitão de ginetes, sendo então de duzentos o numero de
                    cavalleiros, que ficavam em tudo considerados como os da camara real.</p>
                <p>Segundo prescrevia o <seg rend="italic">Regimento</seg>, os soldados ou gente de
                    guerra deviam trazer em batalha uma divisa, ou sinal d'armas de S. Jorge, larga,
                    e tanto no peito como nas costas, para se distinguirem do inimigo. As trombetas
                    eram os instrumentos empregados nos diversos toques ou chamadas; mas affirma Ruy
                    de Pina, que n'esta marcha a Castella já o nosso exercito usou tambem dos
                    atabales.</p>
                <p>O trem de artilheria com suas bombardas e colubrinas era morósamente conduzido.
                    Estava a cargo de um <seg rend="italic">védor-mór</seg>, aprompta-lo e pô-lo em
                    marcha.</p>
                <p>Para este fim tinha atribuições amplas, estabelecidas em um <seg rend="italic">regimento</seg> proprio, de que se lhe passou carta em 20 de abril de 1450.
                    Requisitava ás auctoridades locaes as bestas, bois, carros e barcos, que
                    julgassse indispensaveis á conducção do trem, sendo depois pago o aluguer; bem
                    como os bombardeiros, ferreiros, carpinteiros e pedreiros, de que houvesse
                    necessidade o serviço de artilheria, e aos quaes pagava conforme os seus
                    merecimentos. Annexa ao trem ia uma brigada de gastadores, para abrir caminho. </p>
                <p>O principe D. João acompanhou seu páe até Piedra Buena, e d'aqui regressou a
                    Portugal na mesma occasião, em que o exercito marchou para o norte, indo fazer
                    alto em Plasencia.</p>
                <p>D'esta cidade mandou D. Affonso V a Luiz XI uma embaixada, composta de D. Alvaro
                    de Ataide e do licenciado João d'Elvas, a fim de negociar o seu reconhecimento
                    como rei de Castella, e, conforme os desejos do rei de França, renovar os
                    antigos tractados, que existiam entre as duas monarchias. Ao mesmo tempo
                    escreveu á cidade de Salamanca uma carta sobre os direitos de sua sobrinha aos
                    reinos de Castella e Leão, e mandou publicar um manifesto, no qual se
                    demonstrava a justiça bem fundada, com que eram combatidas as pretensões de
                    Isabel e Fernando de Aragão. </p>
                <p>Celebrou esponsaes com a princeza D. Joanna, que já o esperava acompanhada dos
                    duques de Arévalo, marquez de Vilhena e outros magnates, e foi publica e
                    solemnemente proclamado rei, pelo que logo começou de intitular-se rei de
                    Castella, Leão e Portugal.</p>
                <p>Isabel e Fernando accrescentaram igualmente aos seus titulos os de reis de
                    Portugal; de modo que não parecia luctarem uns pela união iberica e outros
                    contra, senão méramente para dar a presidencia d'essa união áquelle que mais
                    afortunado fosse.</p>
                <p>D. Affonso V ia passando os dias em ruidosas festas, como se com ellas se
                    formasse o prestigio dos noivos, e nem por sombras suspeitava das diligencias de
                    D. Isabel, em comprar com o ouro e prata das egrejas o favor de muitas
                    povoações, visto serem mui versateis e caros os magnates. Em quanto o seu
                    antagonista se divertia, conquistava ella as sympathias da classe burgueza.
                    Percorria os seus estados. Procurava e enviava soccorros ao exercito, que seu
                    marido commandava, para conter o progresso da invasão. Assegurava a fidelidade
                    vacillante de Leão. Entabolava as intelligencias, que lhe fizeram recobrar a
                    importante cidade da Zamora. Reduzia o numero de inimigos, que tinha na
                    depravada e cupida aristocracia. Lançava finalmente mão do thezouro de Castella,
                    confiado á guarda do célebre Andrés de Contrera, a quem mais tarde brindou com o
                    Marquezado de Moya.</p>
                <p>Na marcha pela provincia da Extremadura, por contemplação com o duque de Arévalo,
                    senhor de Plasencia, commetteu D. Affonso V um erro estrategico; pois, segundo
                    Zurita, «foi de grande remedio para a conservação do estado do rei da Secilia, e
                    seria de grande prejuizo, se a entrada se effectuasse pela Andaluzia, direito a
                    Sevilha». Seguindo este caminho, penetrava logo no interior do reino, e fazia-se
                    fórte em Madrid, como lhe aconselhou o marquez de Vilhena, que se mostrou
                    descontente por não ser attendido, e tomou este pretexto para se retirar do
                    serviço do rei. Era de esperar, todavia, que esse magnate assim procedesse mais
                    cedo ou mais tarde, por quanto, havendo-se declarado a maior parte de seus
                    vassallos contra elle, e a favor de Isabel, que os corrompeu a peso de ouro,
                    intimidou-o essa arteira tactica, e determinou-o a propalar, que já estava de
                    accordo com D. Fernando e sua mulher.</p>
                <p>Por grande parte da fronteira portugueza succediam-se a miude as incursões de
                    nossos visinhos. Até o primogenito do duque de Medina Sidonia, o duque D.
                    Henrique, môço mais audacioso do que prudente, fez uma entrada em Portugal, como
                    se fosse em terras de mouros.</p>
                <p>Este rebentão dos Medina Sidonia era um isabelista sedicioso. Pouco depois da
                    jornada de seu tio a Portugal, rendeu-se ás astucias de D. Isabel, que lhe
                    prometteu intervir pacificamente na eterna contenda com o marquez de Cadiz.</p>
                <p>E sabe o leitor, quem levou á rainha da Secilia a noticia d'aquella jornada de D.
                    Juan de Guzman?</p>
                <p>—O velho mendigo, que nós vimos em Sevilha a tocar samphona. Era um espião. </p>
                <p>Para desaffrontar-nos dos repetidos insultos, que soffriamos, mandou o principe
                    D. João descobrir a campanha por homens praticos no paiz, escoltados de alguma
                    cavallaria; collocar sentinellas occultas nos lugares suspeitos, para avisarem
                    das partidas do inimigo; cortar as estradas das serras com patrulhas, a fim de
                    embaraçarem os castelhanos, que de ordinario se emboscavam por entre os
                    arvoredos e quebradas do terreno; e proveu finalmente de remedio a tantos males,
                    cuidando ao mesmo tempo da conservação e defesa do reino.</p>
                <p>Terminados os festejos em Plasencia, onde Lopo de Albuquerque, para premio de
                    seus serviços, foi agraciado com o titulo de conde de Penamacor, saiu emfim D.
                    Affonso V d'aquella cidade com a rainha, a quem o nosso exercito agora
                    principalmente resguardava. Marchou por Arévalo em direcção a Toro, não sem o
                    inimigo estar bem informado ácerca do movimento do exercito; o que certamente
                    não convinha, a quem era chamado e levado para soccorrer.</p>
                <p>O nosso monarcha portou-se sempre com mais bondade, do que prudencia, n'esta
                    empresa de Castella. E dizemos simplesmente empresa, porque não podemos
                    denominar campanha, ao que não passou de correrias mais ou menos afortunadas, de
                    uma e outra parte, sem que se ferisse uma batalha campal, digna d'esse nome, e
                    em que ficasse lavrada a sentença do pleito.</p>
                <p>Quasi todos os grandes abandonaram D. Affonso V, deixando-o só no perigo, em que
                    o metteram. Quando elle, porém, foi estabelecer os seus quarteis de inverno em
                    Zamora, apresentou-se-lhe n'esta cidade o arcebispo de Toledo, o qual sempre
                    inconsequente e inconstante, sendo convidado por Isabel a auxilia-la com os seus
                    homens de armas, respondeu com a soberba peculiar do seu estado e do seu paiz:
                        <seg rend="italic">que a tinha livrado de fiar, mas havia de manda-la outra
                        vez pegar na roca</seg>.</p>
                <p>De Zamora escreveu D. Affonso V a seu filho dizendo-lhe que viesse vê-lo, pois
                    muito carecia de conferenciar com elle. Já o principe se tinha posto a caminho,
                    quando o monarcha soube, que os alcaides das duas torres, que defendiam a ponte
                    sobre o Douro, á entrada de Zamora, se tinham vendido ao inimigo, concertando-se
                    em prender ou matar D. João na sua passagem por ella. Immediatamente communicou
                    D. Affonso V a seu filho, então já em Miranda do Douro, o traiçoeiro plano, em
                    virtude do qual não devia avançar. Foi portador do recado o capitão de ginetes
                    da guarda real, Vasco Martins de Sousa Chichorro, que teve de passar o rio a
                    nado, para se furtar á vigilancia do inimigo.</p>
                <p>Entretanto resolveu Affonso V tomar a ponte á viva força, mas não o poude
                    conseguir. Fazendo-lhe ver os nossos o perigo, que corria, se permanecesse com a
                    rainha em Zamora, pois deviam inspirar-lhe mais temor, que confiança, os
                    habitantes da cidade, recolheu de novo a Toro, onde tanto elle como a rainha
                    foram affectuosamente recebidos pelo alcaide.</p>
                <p>Fernando de Aragão, que não tinha ousado mostrar-se ao seu adversario, em quanto
                    elle esteve em Zamora, correu logo a occupa-la; e, como o seu empenho principal
                    era apoderar-se da rainha D. Joanna, acudiu a Toro, tendo tomado á força uma
                    torre nas cercanias, e feito enforcar trinta dos defensores d'ella, para dominar
                    pelo terror a seus inimigos. De cima dos muros de Toro riram-se d'essa façanha,
                    e cobriram de motejos o auctor, o qual aceso em ira, mandou por um rei de armas
                    desafiar D. Affonso V, que não tornou á requesta. Então Fernando foi sitiar o
                    castello de Zamora, tendo inesperadamente encontrado forte resistencia, onde não
                    havia esperança de soccorro; e D. Affonso V, ao sabe-lo, saiu de Toro em som de
                    guerra, para ir apresentar batalha ao seu competidor. Fez alto em frente da
                    fortaleza, e alli o esperou. Passadas algumas horas, retirava já para Toro, por
                    lhe parecer que Fernando saía a pelejar com elle; mal, porém o viu fóra da
                    cidade, aguardou-o no campo outra vez em vão. Fernando escreveu em seguida
                    varias cartas, em que blasonava de não ter querido D. Affonso espera-lo e até
                    fugira. Tendo o nosso monarcha immediato conhecimento d'essa falsidade por uma
                    carta de Fernando para Isabel, e que foi apprehendida, mandou por um trombeta
                    denunciar em Zamora o escripto, e fazer publicamente o repto na fórma costumada,
                    sem lograr que lhe dessem resposta.</p>
                <p>Tinha havido uma comedia de desafios a combate singular entre D. Affonso V e D.
                    Fernando. Para segurança do feito, D. Affonso poria em refens a rainha Joanna, e
                    D. Fernando a rainha Isabel. Fernando não concordou, allegando haver grande
                    desigualdade no penhor.</p>
                <p>D. Affonso V respondeu, que, se ficasse livre Isabel com sua filha, que já tinha,
                    a contenda não se acabaria, pois de futuro novamente se levantava; sendo certo
                    que, escusar-se o seu adversario a convir em taes condições, fazendo questão de
                    igualdade das pessoas, era confessar que não queria o combate, como á honra de
                    ambos convinha. Interpôz a sua mediação o cardeal de Castella, D. Pedro de
                    Mendoza; mas não poude conseguir-se o accôrdo sobre as condições da paz.</p>
                <p>Nos fins de janeiro do anno seguinte, que era o de 1476, chegou o principe D.
                    João a Toro, trazendo a seu páe dois mil cavallos, oito mil infantes e dinheiro.
                    Não era demasiado soccorro, para quem tanto carecia de engrossar o seu exercito,
                    pois D. Affonso V fôra abandonado pelos magnates, á medida que a sua causa se
                    tornara cada vez mais duvidosa, permanecendo-lhe fiel apenas o arcebispo de
                    Toledo.</p>
                <p>Os povos mostravam quasi geralmente grande repugnancia pelo dominio portuguez,
                    como se elle viesse avivar o resentimento das feridas, que no coração do seu
                    orgulhoso exercito abrira o montante do Mestre de Aviz.</p>
                <p>A perda de Zamora foi um grandissimo desastre, e a sua reconquista, depois da
                    traição da ponte, sómente poderia realizar-se, tomando as torres e conseguindo o
                    descêrco do castello. Mas de que forças numerosas não seria necessario dispôr,
                    para effectuar duas operações, iguaes ambas na difficuldade! </p>
                <p>D. Affonso V optou pela primeira e marchou com o principe a sitiar a ponte. </p>
                <p>—Para que?</p>
                <p>Tomando essa posição de nenhum modo podia soccorrer o castello, onde tremulava
                    ainda a bandeira portugueza, pois tinha de permeio o rio, invadiavel para a
                    cavallaria. Se tentava provocar o inimigo a uma batalha, devia suppôr, que este
                    o não buscaria senão com uma superioridade conhecida, estando, como estava, bem
                    entrincheirado, e tendo cobertas todas as communicações importantes.</p>
                <p>Seguiu emfim D. Affonso a margem meridional do Douro, saindo pela ponte de Toro;
                    e, tendo deixado n'esta cidade o duque de Guimarães e o conde de Villa Real ao
                    serviço da rainha, com a guarnição militar, que pareceu bastante, approximou-se
                    da ponte de Zamora em batalha ordenada, fez alto e assentou o arraial.</p>
                <p>Ficar pérto do lugar cercado, era não só condição imposta pelo pequeno alcance
                    das bôcas de fogo, mas preceito do <seg rend="italic">Regimento de guerra</seg>,
                    para fazer maior coração aos combatentes e enfraquecer os sitiados. A ponte
                    estava enfiada pela nossa artilheria.</p>
                <p>Cruzáram-se os fogos, que romperam logo de sitiantes e sitiados, sendo o damno,
                    que soffriamos superior ao que causavamos. Houve uma pequena trégoa para
                    concertos de paz; inutilmente, porém, visto não se suggerir meio conciliador, de
                    que não desdenhassem as prosapias dos negociadores d'ella. A sêde de sangue
                    causada pela febre guerreira, em que uns e outros ardiam, tornava-se cada vez
                    mais insaciavel. E comtudo nenhum dos exercitos podia invejar ao outro a sua
                    situação. O nosso, além de luctar com as dificuldades inherentes a uma guerra
                    feita em paiz extranho, tinha mais um inimigo a combater: o rigoroso inverno. Ao
                    passo que as chuvas e neves o iam já desimando, começava a falta de viveres a
                    fazer-se sentir. Consumia-se emfim inutilmente.</p>
                <p>Decorreram quinze dias. Uma noite chegou ao nosso campo a noticia, de que
                    Fernando de Aragão fizera uma sortida sobre Toro na margem direita do Douro. D.
                    Affonso V levantou apressádamente o cêrco, para atalhar o passo ao inimigo, e
                    foi o primeiro a chegar diante d'aquella cidade, onde mandou recolher o parque e
                    a peonagem. Soube o principe durante a marcha, que Fernando não havia saido de
                    Zamora, mas tinha para o bater, em um lugar chamado Fonte Sabugo, mais de
                    seiscentas lanças, commandadas pelo duque de Villa Formosa, irmão bastardo de
                    Fernando. D. João obliquou á direita, desviando-se assim da direcção, que tomára
                    seu páe, e preparou-se para ir dar de salto n'aquellas lanças.</p>
                <p>Havia o nosso exercito acabado de transpôr um monte, e o inimigo, que começava
                    então a subi-lo, mal coroou o alto, descobriu o movimento dos nossos, a ordem
                    com que marchavam, e, para nos deter, mandou picar a nossa rectaguarda com
                    algumas cargas ligeiras de cavallaria.</p>
                <p>Avisado o principe, e prevenido D. Affonso V, volveu este á rectaguarda; mas D.
                    João, por lhe parecer mal disposto para a peleja o lugar, onde lhe deram a nova,
                    pois tão apertado era, marchou para a planicie, e ficou esperando, que o inimigo
                    ali descesse mais despejadamente.</p>
                <p>D. Affonso V, com quanto fosse um tactico habil, não teve tempo de formar as suas
                    reduzidas tropas, de modo que pela boa distribuição d'ellas fosse, quanto
                    possivel, supprida a falta de numero. Repartiu-as em duas grandes fracções.
                    Tomou o commando de uma d'estas, e confiou ao principe o da outra, em que ficou
                    a flor da cavallaria portugueza.</p>
                <p>Os castelhanos avançaram, tambem divididos em dois corpos: o da direita
                    capitaneado por D. Alvaro de Mendoza, <seg rend="italic">vindo na reserva</seg>
                    Fernando de Aragão; e o da esquerda pelo duque de Alva, formando na rectaguarda
                    o cardeal Mendoza.</p>
                <p>Desceram a encosta; mas ainda hesitantes, apesar da vantagem de terem a
                    rectaguarda coberta pelo monte; de contarem mais umas oitocentas lanças, pois
                    que parte das nossas haviam escoltado a bagagem para Toro; e de dispôrem
                    finalmente de infanteria mais numerosa.</p>
                <p>Note-se, que na edade média não se conhecia toda a importancia da arma de
                    infanteria, nem a grande força, que lhe provém da ordem e uniformidade de seus
                    movimentos. Dava-se quasi exclusivo apreço á cavallaria, olvidando-se a maxima
                    dos antigos, prudentemente restaurada pela illustração militar dos nossos
                    tempos, de que a infanteria é o agente principal do combate, ou, como
                    poeticamente dizem alguns, a rainha das batalhas. A própria qualidade dos
                    exercitos, compostos de nobreza valente e déstra, mas pouco subordinada, bem
                    como dos contingentes tumultuarios das cidades, era incompativel com a
                    disciplina e outros requisitos essenciaes da sua organisação. N'este encontro de
                    Toro, comtudo, os castelhanos empregaram com proveito a sua infanteria ao
                    encetar do prelio; mas o seu exercito, embora aguerrido, não soube mostrar-se
                    disciplinado.</p>
                <p>Amanhecera triste e sombrio o dia dois de março de 1476. Quando os dois exercitos
                    occupavam as suas posições para travar a lucta, devia o sol têr-se posto, e a
                    claridade crepuscular era embaciada por uma chuva miuda e persistente.</p>
                <p>Duas vezes as hostes affonsinas fizeram rosto ao inimigo, como quem o convidava a
                    pelejar, até que, vendo D. Affonso V a perplexibilidade do adversario, mandou
                    dizer ao principe, que ao signal do combate, dado pelas trombetas, fosse o
                    primeiro a romper.</p>
                <p>Fez-se o toque. Aos gritos de guerra, <seg rend="italic">por S. Jorge e S.
                        Christovão</seg>, invéste D. João com a sua hoste. Oppõe-se-lhe D. Alvaro de
                    Mendoza, clamando com os seus por <seg rend="italic">S. Thiago e S.
                    Lazaro</seg>.</p>
                <p>Os castelhanos avançaram com denodo sobre a hoste do principe, mas obrigou-os a
                    recuar uma descarga dada pelos espingardeiros do arcebispo d'Evora D. Garcia de
                    Menezes. Aproveitando a hesitação, em que ficou o inimigo, a nossa cavallaria,
                    como se fôra uma forte muralha de lanças, animada de extrema velocidade,
                    carregou impetuosa, irresistivel, sobre as fileiras dos castelhanos, esmagando
                    quantos tentaram quebrar-lhe o rompante. Aos primeiros golpes, esse punhado de
                    bravos, com o principe real á sua frente, paralysou, desorganisou, pôz na mais
                    completa debandada os melhores alfarazes de Castella. Ainda superior á
                    carnificina, que em breve lapso juncou de cadaveres o terreno, foi o effeito
                    moral d'esse choque violentissimo, que percutiu até a reserva do inimigo. E por
                    isso Fernando de Aragão—um moço de vinte e seis annos!—que, para não expor a
                    vida á contingencia de um golpe do seu adversario, se collocára a respeitosa
                    distancia, mal viu approximar-se a hoste victoriosa do principe, fugiu a unhas
                    de cavallo para Zamora, sem tempo de reparar, se com effeito lhe seguiam a
                    pista, e salvando-o a sua boa fortuna de ser apanhado por alguns dos nossos
                    cavalleiros, que correram sobre elle.</p>
                <p>Na ala direita D. Affonso V não póde cruzar tambem a sua espada com a do rei da
                    Secilia, porque a não vê na sua frente; mas não lhe soffre o animo tê-la
                    embainhada, e lança-se no combate.</p>
                <p>Ribombam as descargas das espingardas, contendo os impetos da cavallaria;
                    rechinam as settas, atravessando os ares; estoiram as lanças arremessadas com
                    furia; retingem-se de sangue as espadas nos crébros golpes; relincham os
                    ginetes, discorrendo pela campanha, alliviados do peso dos cavalleiros, que
                    cairam ou mortos ou agonisantes; resoam, similhando rugidos de feras, as vozes
                    dos combatentes; soltam gritos de dôr cruciantissima os feridos, sem que possa
                    acudir-lhes a caridade, e servindo antes de estimulos para a vingança; é emfim
                    renhida, desesperada, horrivel a refréga. Não cessa do ardor, com que começou de
                    accender-se, e a victoria duvida, se ha de inclinar-se á parte da multidão, ou á
                    do esforço.</p>
                <p>Corre o Cardeal Mendoza a reforçar o duque de Alva, e o arcebispo de Toledo em
                    auxilio de D. Affonso V. Oitenta espingardeiros castelhanos a cavallo—o que para
                    a nossa hoste era uma novidade—dão uma descarga, que fez hesitar um momento a
                    cavallaria portugueza; mas, apesar de ter o adversario empregado aquelle ultimo
                    recurso, sem duvida reservado para o momento decisivo, logo recrudesceu mais
                    viva e encarniçada a peleja.</p>
                <p>Partem-se as lanças, e as espadas são agora as armas dos combatentes no ultimo
                    choque.</p>
                <p>D. Affonso V, sereno, indifferente ao perigo, parecia ter assentado expôr ás
                    contingencias d'este dia a decisão da causa, que se impugnava. Era pois a morte
                    ou a gloria o escopo unico d'aquelle</p>
                <lg>
                    <l>«Que a suberba do barbaro fronteiro</l>
                    <l>Tornou em baixa, e humillima miseria.»</l>
                </lg>
                <p>Quiz arremessar-se ao meio das fileiras contrarias, mas os cavalleiros
                    portuguezes e castelhanos, que junto d'elle estavam, percebendo-lhe a intenção
                    ao vê-lo preparar o corcel, detiveram-n'o; e, fazendo-lhe vêr a superioridade
                    numerica do inimigo a par do denodo, com que nos pleiteava o campo,
                    apertaram-n'o com o seu conselho mais fortemente, do que as espadas castelhanas,
                    obrigando-o a metter a sua na bainha.</p>
                <p>Como entre D. Affonso e Toro muita gente contraria envolvia já parte dos nossos,
                    não sem grande risco saíu o monarcha do campo, e foi acolher-se a Castro Nunho,
                    fortaleza, que lhe era fiel, e não ficava mui distante: acertada resolução esta,
                    pois facilmente d'alli voltaria a Toro, que não era provavel o inimigo sitiasse
                    n'aquella noite; e poderia entretanto planear com Pedro de Mendanha, alcaide de
                    Castro Nunho, a desforra do ultimo conflicto.</p>
                <p>Mendanha era poderoso. Pagava soldo a trezentos cavalleiros; recebia das cidades
                    de Burgos, Avila, Salamanca, Segovia, Valladolid e Medina certa quantia, para
                    que lhes não fizesse guerra, e todos os grandes da sua visinhança tinham o
                    cuidado de manter e conservar as mais amigaveis relações com elle. Por isso D.
                    Affonso V, na conjunctura difficil, em que se encontrava, praticou um acto de
                    boa politica, indo ter com um homem de tanto valor, e que lhe era dedicado. É
                    claro, que nem pela cabeça lhe passou a idéa, de que o principe real fosse
                    derrotado, tal era a confiança que depositava no valor de seu filho e no dos
                    companheiros, que lhe deu.</p>
                <p>Ambos os reis, cuja lite se debatia, haviam pois abandonado o campo, um porque
                    fugiu, o outro porque o não deixaram empenhar-se na refrega. Ficou victorioso
                    d'elle o principe D. João, que mandou recolher os feridos e os prisioneiros,
                    sendo d'este numero o conde de Alva de Liste, tio de Fernando de Aragão.</p>
                <p>Da hoste de D. Affonso V tinham fugido muitos para Toro; mas, porque estava
                    fechada a porta da ponte, e sómente se abriu mais tarde para entrar o principe,
                    vadearam o rio, pagando quasi todos com a vida a sua temeridade, pois que elle
                    ia de monte a monte. Os golpes do ferro inimigo não victimáram tantos, como a
                    corrente impetuosa do Douro. Foram outros, mais prudentes, unir-se ao principe,
                    e entre esses o escudeiro Gonçalo Pires, levando a bandeira real, que por
                    instantes tremulára na mão de um castelhano.</p>
                <p>Era o estandarte das quinas, o symbolo glorioso da nossa nacionalidade, que tinha
                    sido confiado ao alferes-pequeno Duarte de Almeida, e lhe arrebataram depois de
                    uma lucta titanica.</p>
                <p>Singulares contrastes!</p>
                <p>Encontrámos a victoria, onde fomos em menor numero. Padecemos a injuria, onde
                    dois dos nossos praticaram façanhas, que por si só bastariam para immortalisar o
                    valor portuguez. Uma d'ellas deu a Gonçalo Pires o appellido de <seg rend="italic">Bandeira</seg>; a outra, o cognome de <seg rend="italic">Decepado</seg> a Duarte de Almeida.</p>
                <lg>
                    <l>«Cercado por toda a parte</l>
                    <l>Sua espada se partiu.</l>
                    <l>Por guardar seu estandarte,</l>
                    <l>D'arma o estandarte serviu:</l>
                    <l>A dextra mão jaz por terra,</l>
                    <l>O seu guante a não guardou;</l>
                    <l>O pendão na sextra aferra,</l>
                    <l>E a mão perdida vingou:</l>
                    <l>Outro golpe lhe sepára</l>
                    <l>A sextra mão que segura</l>
                    <l>A bandeira, que jurára</l>
                    <l>Conservar intacta e pura:</l>
                    <l>Nem assim perde a bandeira,</l>
                    <l>N'hastea dura os dentes crava,</l>
                    <l>Quando lança traiçoeira</l>
                    <l>Seu ginete lhe prostava:</l>
                    <l>Cahe no chão o cavalleiro</l>
                    <l>Sem vida, quasi expirando,</l>
                    <l>E ficou prisioneiro</l>
                    <l>D'illustre rey Dom Fernando.</l>
                    <l>Mas a bandeira regada</l>
                    <l>Pelo sangue portuguez,</l>
                    <l>Por Goncal'Pires livrada</l>
                    <l>Breve foi, logo outra vez.»</l>
                </lg>
                <p>Assim descreve Ignacio Pizarro os dois gloriosos feitos. O de Duarte de Almeida é
                    sublime de heroismo! Com feridas tão rasgadas, que cada uma era larga porta para
                    sair a vida, e sobrada para entrar a morte, o honrado cavalleiro resiste sempre!
                    Cáe emfim; mas não quer a Providencia, que por aquellas feridas se esgote sangue
                    tão generoso, e sirvam antes de bôcas, para affirmar esforço tão desusado.</p>
                <p>A bravura de Gonçalo Pires foi igualmente inexcedivel, pois <seg rend="italic">per força e como homem de bom coraçam a tomou a hun Souto-Mayor Castelhano
                        que a levava</seg> (a bandeira), <seg rend="italic">e o prendeo sobre sua
                        menagem</seg>, abrindo a golpes de espada caminho por entre os cavalleiros,
                    que já iam correndo na companhia d'aquelle em direcção a Zamora.</p>
                <p>Tinha o principe resolvido não levantar o arraial, senão passados tres dias, ou
                    aguardar a manhã para de novo accommetter o inimigo, por isso mandou accender
                    fogueiras, e tocar trombetas e atabales.</p>
                <p>O duque de Alva estava indeciso, e todavia era mister tomar uma deliberação. </p>
                <p>Entretanto um pequeno grupo de biscainhos, pertencentes á peonagem mercenaria do
                    exercito de Fernando de Aragão, conversava sentado sobre umas pedras,
                    descançando ao mesmo tempo das fadigas do dia.</p>
                <p>—Cães de portuguezes!—grunhia um.—Por causa d'elles fizeram de nós
                    morcêgos!...</p>
                <p>—Eu estou com uma sêde, que de um trago enxugava agora a maior adéga de
                    Malaga!—tornou no mesmo dialecto um cavalleiro, que se approximava, levando o
                    cavallo á mão.</p>
                <p>—Se os mouros consentissem... sempre é bom accrescentar—observou o outro, sem
                    nenhuma curiosidade de saber, quem era o seu interlocutor, pois lhe fallava no
                    seu dialecto.</p>
                <p>—Pêrros de Mafoma, que nos não vemos livres d'aquelles malditos!—exclamou o
                    cavalleiro.—Mas, Virgem Santissima! o que estaremos nós aqui a fazer?—perguntou
                    o primeiro, como se uma idéa fixa estivesse a verrumar-lhe o entendimento.</p>
                <p>—Á espera naturalmente, que nos mandem recolher a Zamora...</p>
                <p>—Já não é sem tempo. Para lá fugiu o rei, logo no principio da escaramuça. </p>
                <p>—Fugiu, não direi... Retirou...</p>
                <p>—Pois seja assim; mas a rainha é mais homem do que elle. Não saia do campo sem
                    dar meia duzia de cutiladas. Ella sim!... Ahi está o da <seg rend="italic">Beltraneja</seg>, que não desmaiou tão depréssa. É verdade, que depois
                    tambem se foi safando. Vi-o eu por aqui fóra a mata cavallo. Na direcção, que
                    levava, ia talvez para Castro Nunho, que tem voz por elle.</p>
                <p>—Sim, é o mais certo;—replicou em tom indifferente o cavalleiro.</p>
                <p>Um signal de trombetas no campo castelhano pôz termo a este dialogo. Os
                    biscainhos partiram a incorporar-se na sua hoste; o cavalleiro montou a cavallo,
                    e saíu a galópe para os lados de Castro Nunho.</p>
                <p>Acabaram as hesitações do duque de Alva. Ao ver, que os nossos se concentravam no
                    acampamento sem apparencia de receosos, valeu-se do silencio e sombras da noite,
                    e retirou com o exercito para Zamora.</p>
                <p>D. João permaneceu ainda mais tres horas no campo, tomando-as pelos tres dias
                    destinados a celebrar a victoria, conforme o conselho do arcebispo de Toledo;
                    dividiu depois a sua hoste em duas fracções, uma com a bandeira de D. Affonso V,
                    outra com a sua, ambas desfraldadas; e, sem mostrar préssa na marcha, como quem
                    ia triumphante, recolheu a Toro.</p>
                <p>Foi recebido com affectadas manifestações de jubilo, pois maior era o interesse
                    de todos pela vida de D. Affonso V, cuja sorte se ignorava, do que pelo
                    rezultado do encontro dos exercitos belligerantes no campo de Pelayo Gonçalo. E
                    tal ponto attingiu a consternação, abafada pelo receio de melindrar o principe
                    envaescido do seu triumpho, que o duque de Guimarães, com a sua liberdade e
                    franqueza habituaes, rompeu o silencio.</p>
                <p>—Não merece—exclamou alto e bom som—o nome de cavalleiro, quem abandona o seu
                    rei, e o não segue na vida ou na morte!</p>
                <p>E, dirigindo-se unicamente ao principe, perguntou-lhe:</p>
                <p>—O que fizestes d'el-rei, vosso Senhor e páe?</p>
                <p>Proferidas estas palavras, que nunca mais esqueceram a D. João, appareceu Pero da
                    Covilhan, e disse ao principe: </p>
                <p>—El-rei, vosso Páe, e meu Senhor, manda-vos participar, que vivo e são está, por
                    isso sejais tranquillo.</p>
                <p>—E onde está el-rei, nosso senhor?!...—perguntou com alvoroço o principe
                    real.</p>
                <p>—Em Castro Nunho.</p>
                <p>—Quem nos trouxe tão bom recado?</p>
                <p>—El-rei, meu Senhor, a mim proprio o deu.</p>
                <p>A nova espalhou-se logo por toda a cidade. Foi celebrada com toques de trombetas
                    e atabales, repiques de sinos, e outras demonstrações de alegria, feitas pela
                    classe popular. E sem demóra igualmente mandou o principe sair para Castro Nunho
                    uma guarda de honra composta de numerosos cavalleiros, a fim de acompanharem D.
                    Affonso V a Toro.</p>
                <p>Entretanto carecia Pero da Covilhan de explicar a sua presença junto do rei,
                    pois, desde o cêrco da ponte de Zamora, militava na hoste do principe,
                    havendo-se distinguido pela sua destreza e bravura na gloriosa refrega, em que
                    conquistou novo brilho a intrepida cavallaria portugueza.</p>
                <p>Preveniu o principe a explicação, perguntando ao moço escudeiro:</p>
                <p>—Como soubéstes, que el-rei, meu páe, estava em Castro Nunho?</p>
                <p>—Facilmente, meu senhor—respondeu Pero da Covilhan com a maior
                    naturalidade.—Quando caíu a noite, comecei de inquietar-me, por vêr, que em
                    nosso campo não havia de el-rei novas, nem mandados. Ancioso de buscar sua
                    alteza, era dominado por um triste presentimento. As trévas da noite, e a
                    confusão que reinava no campo contrario, poderiam talvez favorecer quaesquer
                    pesquizas, que eu tentasse. Lembrei-me, de que me auxiliaria a facilidade, com
                    que fallo os dialectos de Hespanha, e fui á ventura.</p>
                <p>—Esquecestes, porém, que vos arriscaveis a perder a liberdade ou a vida—atalhou o
                    principe.</p>
                <p>—Não me occorreu, com effeito, a idéa d'esse perigo, pois a que imperava
                    unicamente no meu animo era a de servir bem a el-rei e a voss'alteza.—A poucos
                    passos do nosso acampamento apeei-me, e, quando caminhava na direcção da margem
                    do rio, ouvi fallar uns biscainhos. Abeirei-me d'elles. Eram bésteiros do
                    inimigo, que estavam em descanço. Quasi não repararam em mim. Tomaram-me
                    naturalmente por seu convisinho, e, trocando comigo algumas palavras, um d'elles
                    affirmou ter el-rei retirado do campo para os lados de Castro Nunho. Corri logo
                    a verificar isto, e lá entrei hoje ao romper d'alva. O resto sabe já
                    voss'alteza. Agora, meu Senhor, peço-vos perdão de me ter afastado do
                    acampamento sem licença de voss'alteza.</p>
                <p>—Perdoado estais, que digno de louvor é o acto por vós praticado; e, se alguma
                    culpa houvesseis, resgatada fôra já pelo valor e brio, com que pelejastes a meu
                    lado.</p>
                <p>—Beijo as mãos de voss'alteza por mais esta mercê...</p>
                <p>Não olvidaram D. Affonso V e seu filho a lealdade e dedicação de Pero da
                    Covilhan, como veremos.</p>
                <p>O principe, depois de conferenciar com seu páe em Toro ácerca da desgraçada
                    guerra, para que tanto contribuira com o seu conselho, regressou a Portugal; e o
                    rei cavalleiro proseguiu na sua aventura, sem pensar que o revéz de Toro fôra o
                    occaso de sua gloria guerreira. Fernando em Cantalapiedra, e Isabel no caminho
                    de Medina, ter-lhe-iam caido nas mãos, se a fortuna, para elles tão prodiga, não
                    fosse para o seu competidor tão adversa.</p>
                <p>Desanimou um pouco, emfim, aquelle que nos sertões da Africa nunca temera a
                    morte.</p>
                <p>Uma vez unicamente havia desembainhado a sua espada na peninsula, para ser
                    instrumento de uma tragedia ominosa. Era chegado o momento da expiação.
                    Appareceu-lhe talvez a sombra do infante D. Pedro, a jurar vingança eterna do
                    sangue derramado em Alfarrobeira.</p>
                <p>Justiça da Providencia!</p>
            </div>
            <div>
                <head>V</head>
                <head>ADVENTO DA UNIDADE HESPANHOLA</head>
                <p>Estava D. Affonso V com desalento igual á falta de confiança, que tinha nos
                    meios, de que dispunha, para accelerar o suspirado exito da sua temeraria
                    empreza, quando chegaram a Toro D. Alvaro de Ataide e o Licenciado João d'Elvas,
                    que vinham communicar-lhe o resultado da sua missão junto de Luiz XI. Era grande
                    o contentamento dos embaixadores, por terem a convicção, de que não fôra
                    illudida por vãs promessas a sua boa fé ao tratarem com o rei da França. Não
                    lhes occorria, que os principes não contráem, nem conservam amisades com
                    sacrificio de seus interesses; e talvez ignorassem, que Luiz XI tinha por
                    maxima: <seg rend="italic">quem não sabe dissimular, não sabe reinar</seg>; e
                    que, por elle ser assás astucioso e perfido, lhe chamavam <seg rend="italic">a
                        raposa</seg>.</p>
                <p>Lograram effectivamente celebrar, aos 8 de setembro de 1475, o tratado de liga
                    offensiva, no qual a França se comprometteu a coadjuvar Portugal na conquista
                    dos reinos de Castella e Leão; e obtiveram a confirmação e renovação dos antigos
                    tratados de paz e amisade entre estes dois ultimos reinos e o da França, por
                    Luiz XI de uma parte, e da outra por D. Affonso V, rei de Castella.</p>
                <p>O nosso monarcha, porém, receoso, de que o seu alliado não cumprisse as
                    estipulações dos tratados, por haverem augmentado para os reis da Secilia as
                    probabilidades do triumpho, resolveu passar a França, e negociar pessoalmente
                    com Luiz XI, a quem se offereceria por medianeiro da paz com o duque de
                    Borgonha.</p>
                <p>Regressou, pois, a Portugal, com sua sobrinha. O principe, seu filho, pôz o maior
                    cuidado em dissuadi-lo do proposito que trazia; mas a ambição cegava-lhe o
                    entendimento, e a esperança de realizar os seus desejos, de vingar-se da
                    affronta de Toro, não dava lugar ao receio de arriscar mais uma vez a sua
                    reputação.</p>
                <p>Querendo passar mais além, do que lhe permittia a fortuna, saíu para França o
                    allucinado rei, depois de ter embarcado no porto de Lisboa, em uma urca, na
                    conserva da qual iam quinze navios com dois mil e duzentos homens.</p>
                <p>A esquadra fez-se á vela com destino a Marselha; mas por causa do tempo foi
                    arribar a Collioure, onde D. Affonso, depois de receber os cumprimentos, que
                    Luiz XI lhe enviára por um official de sua casa, com ordem de dispôr tudo para a
                    jornada do regio hospede, despediu os navios. Ao seu serviço ficou unicamente o
                    pessoal indispensavel, de que fazia parte Pero da Covilhan, seu escudeiro
                    predilecto depois do conflicto de Toro. </p>
                <p>Do porto de Collioure pôz-se o rei de Portugal a caminho de Perpignan, e teve
                    aqui a mais pomposa recepção official, levando-se a homenagem ao requinte de
                    abrirem todos os carceres e soltarem os presos lá retidos.</p>
                <p>De Perpignan expediu a Luiz XI um fidalgo da sua côrte, encarregado de
                    notificar-lhe a sua chegada, e de pedir-lhe a designação do sitio, onde deviam
                    conferenciar. Como a escolha d'este recahisse em Tours, D. Affonso V, seguiu por
                    Narbonne, Montpellier e Nimes. Aqui deixou a estrada ordinaria, a fim de tomar
                    para Lyon por Pont-Saint-Esprit, onde lhe veiu ao encontro o duque de Bourbon,
                    acompanhado de numeroso cortejo, e antecipando-se a uma deputação, que por parte
                    de Luiz XI déra, passados dias, as boas vindas em Roanne ao augusto viajante.
                    Dirigiu-se depois a Bruges. N'esta cidade demorou-se algum tempo, fazendo-lhe
                    companhia novos enviados do rei de França, que o entretiveram a mostrar-lhe
                    fortalezas, apraziveis estancias, e, entre outras cousas, um rico e antigo livro
                    na bibliotheca de uma abbadia de benidictinos. Era o <seg rend="italic">Lancelote do Lago</seg>, romance de cavallaria escripto em latim, na
                    leitura do qual os paladinos dos seculos XII e XIII aprendiam com enthusiasmo a
                    imitar algum dos fabulosos cavalleiros da <seg rend="italic">Tavola
                        Redonda</seg>. Poderia inflammar tambem o espirito aventureiro de D. Affonso
                    V, a quem o velhaco de Luiz XI por si, ou por intermedio de seus agentes,
                    procurava divertir do proposito, que o levava a França, e por isso lhe
                    prodigalisava todo o genero de distracções.</p>
                <p>Chegou o monarcha portuguez a Tours. Á entrada foram-lhe entregues as chaves da
                    cidade pelos regedores d'ella, os quaes incorporados aos dignitarios da côrte
                    franceza, lhe fizeram uma recepção solemne, e o seguiram até os aposentos, que
                    lhe estavam destinados.</p>
                <p>Unicamente cinco dias depois saiu Luiz XI do castello de Plessis-lez-Tours, onde
                    residia, e foi encontrar-se com o seu hospede. Sabendo D. Affonso V, que elle o
                    buscava, quiz descer á rua, ou ao menos ir até á escada do palacio recebe-lo, o
                    que lhe foi impedido por dois principes, que Luiz XI havia mandado adeante para
                    regularem o ceremonial da entrevista.</p>
                <p>A meio de uma sala avistaram-se os dois soberanos. O rei de França «vinha com um
                    só barrete na cabeça, tendo já d'ella tirado um chapéo e duas grandes carapuças,
                    e trazia solto um saio curto de mau panno, e á cinta uma espada d'armas muito
                    comprida, e umas botas calçadas, e nos pés as esporas do mesmo jaez da espada, e
                    ao pescoço uma béca de chamalóte amarello, forrada de cordeiras brancas muito
                    grosseiras, e suas calças brancas entretalhadas de muitas côres.</p>
                <p>«E ambos os reis com barretes nas mãos se abraçaram, inclinados os joelhos muito
                    baixos.</p>
                <p>«E tendo o rei de França assim abraçado o monarcha portuguez, com os olhos no Céo
                    disse, que dava muitas graças a Nossa Senhora e a S. Martinho, porque a um tão
                    pobre homem, como elle era, fizeram tanta mercê, que a seu reino e casa o viesse
                    vêr e visitar um tamanho rei, que elle sempre desejava tanto vêr, e ter por
                    irmão e amigo, e que porém elle não crêsse, que era vindo em reino estranho, mas
                    como proprio seu, porque assim se faria n'elle todo seu prazer e serviço, como
                    nos de Portugal.</p>
                <p>«E com isto acabado se recolheram á camara, á entrada da qual, sobre quem se
                    cobriria primeiro, houve entre ambos grandes e louvados debates.»</p>
                <p>Que farçante este senhor Luiz XI! Fez-se esperado, para afinal apresentar-se
                    humilde até á repugnancia!</p>
                <p>Depois de conferenciar com esse frascario, D. Affonso V partiu de Tours para
                    Paris, tendo sido antes enviados a Roma embaixadores de ambos os monarchas, com
                    o fim de solicitarem dispensas para o de Portugal poder casar com sua sobrinha,
                    a princeza D. Joanna.</p>
                <p>Pouco se demorou em Paris. Aconselhado por Luiz XI, dirigiu-se, no coração do
                    inverno, á baixa Allemanha, a fim de se avistar com o duque de Borgonha, então
                    empenhado na tomada de Nancy ao duque de Lorena, com quem estava em guerra.
                    Sobre um rio coberto de gêlo abraçaram-se os dois soberanos, e alli mesmo disse
                    D. Affonso a Carlos o Temerario, que o seu proposito era congraça-lo com o duque
                    de Lorena, pois da paz entre ambos resultaria, que Luiz XI, por se vêr
                    desobrigado de mandar vigiar a fronteira franceza, mais facilmente apoiaria a
                    justa causa de D. Joanna, e poderia uma boa parte das tropas borgonhezas
                    concorrer tambem para o bom exito da empreza de Castella. </p>
                <p>O filho de Philippe o Bom, ao vêr a ingenuidade com que seu primo lhe apresentava
                    os seus projectos, respondeu-lhe indignado, que Luiz XI era homem sem virtude e
                    sem fé, e o andava illudindo, pois ao passo que o aconselhára a vir a Nancy, nas
                    suas costas mandava tropas numerosas a soccorrer o duque de Lorena. E terminou
                    Carlos de Borgonha por convidar o primo a tomar parte na defesa de
                    Pont-à-Mousson contra o duque de Lorena, a quem esperaria deante de Nancy para
                    lhe dar batalha.</p>
                <p>Ante esta pratica, excitando á guerra, quem levava o animo inclinado á concordia,
                    houve D. Affonso V por mais acertado voltar para Paris, e assim fez.</p>
                <p>Carlos de Borgonha foi morto em combate. Estava Luiz XI livre do seu inimigo mais
                    implacavel, e, como o abutre, que paira no alto a vigiar a presa, até o momento
                    de se despenhar e lançar-lhe as garras, caíu logo sobre o ducado, e apoderou-se
                    das cidades de Somme e de Borgonha propriamente dita. O sagaz, mas perverso
                    filho de Carlos VII, tinha agora mais facilidade de resolver o problema, que
                    sobre todos o preoccupava: a unificação da França. Lançando mão de todos os
                    meios, mórmente dos diplomaticos, no intuito de annexar a Borgonha ao territorio
                    francez, foi residir em Arras, a fim de seguir de perto os passos de seus
                    agentes.</p>
                <p>Entretanto regressavam de Roma a Paris os embaixadores com a resposta de Sixto
                    IV. Na côrte pontificia havia-se aberto uma grande campanha diplomatica, adversa
                    ao casamento de D. Joanna. Ao passo que o rei de Napoles, e outros principes,
                    conspiravam a favor dos reis da Secilia, a curia duvidava das promessas feitas
                    pelo rei de França ao de Portugal; mas, parecendo-lhe, que a morte do duque de
                    Borgonha deixava Luiz XI em melhores circumstancias de honrar a sua palavra,
                    resolveu sagazmente a questão, concedendo a dispensa no caso de Luiz XI se
                    decidir formalmente a prestar auxilio ao rei de Portugal, e fazendo assim o
                    soberano francez supremo juiz da demanda. Attendeu os delegados de Luiz XI,
                    deixando implicitamente insinuado aos reis da Secilia, que tratassem com essa
                    potencia; e não os delegados de Affonso V, por quanto a estes pôz uma condição,
                    cujo cumprimento confiava ás diligencias do seu soberano, que era o mais
                    interessado no negocio. Sempre habil e cautelosa a curia romana.</p>
                <p>A Luiz XI mandou logo D. Affonso V dizer, que desejava conferenciar com elle a
                    respeito da resposta mandada pelo papa; e concordou-se por isso no encontro dos
                    dois monarchas em Arras.</p>
                <p>Realisou-se a entrevista, ficando Luiz XI de participar ao rei de Portugal a sua
                    resolução definitiva. Esperou este alguns dias em uma abbadia de conegos
                    regrantes, que fôra designada para seu alojamento, e recebeu emfim uma resposta,
                    que o esclareceu ácerca da doblez e politica tortuosa de Luiz XI.</p>
                <p>Voltou o desilludido monarcha seus olhos para Portugal, e seus passos para Rouen.
                    Aqui se deteve grande parte do verão na esperança de embarcar-se, até que desceu
                    a Honfleur, onde se apparelhavam os navios para o transportar e á sua comitiva.
                    N'este porto permaneceu ainda quasi todo o mez de setembro. Sempre merencorio e
                    sombrio, entregava-se de preferencia a exercicios religiosos dispendendo tambem
                    parte do tempo em escrever, e com o maior cuidado logo guardava o escripto
                    dentro de um cofre, cuja chave trazia comsigo.</p>
                <p>Um dia chamou Pero da Covilhan, e disse-lhe:</p>
                <p>—Vou fazer uma longa viagem, e muito me prazia levar-vos commigo; mas tenho por
                    melhor deixar-vos ao serviço do principe, que muito vos quér tambem.</p>
                <p>Ao que Pero da Covilhan respondeu:</p>
                <p>—Que magua immensa o meu coração sente ao ouvir voss'alteza! É dever meu cumprir
                    as ordens, que me dais; mas, se no vosso real desagrado ainda não cahi,
                    concedei-me a grande mercê de não regressar a Portugal, sem que vá com o meu rei
                    e Senhor.</p>
                <p>—Não. E confiar-vos-hei um segredo, que vos explicará a minha recusa, dando-me
                    algum allivio o desabafo.—Quando enviuvei, prometti deixar o mundo, e metter-me
                    em religião, logo que o principe, meu filho, estivesse em edade de reger o
                    reino. Entretanto surprehendeu-me a empreza de Castella, e, presumindo eu, que
                    era servir a Deus e da Sua vontade, defender a justa causa da princeza, minha
                    sobrinha, procedi, como todos sabem. Fiado nas promessas d'el-rei de França...
                    vim a esta nação, onde tenho esperado, que os successos das guerras, movidas por
                    sua alteza, lhe permittissem dar-me afinal o soccorro promettido... Vejo
                    infelizmente, que taes guerras cada vez mais se accendem, e os meus negocios
                    cada vez mais se enredam, por isso entendi, que Deus me avisava de haver chegado
                    o tempo de cumprir o meu voto. E, como creio que os principes, que vivem e
                    morrem na regencia de seus estados, com difficuldade se salvam, unicamente me
                    pésa, não ter tomado a resolução de deixar o mundo e as suas pompas, quando
                    Portugal estava em paz, pois de mim dava melhor exemplo, e excusava as censuras
                    de muitos, que não deixarão de attribuir á falta de valor, e talvez a outras
                    causas pouco honrosas, desistir eu da empreza começada. Sirvam esses mal
                    fundados juizos de desconto a meus peccados. Estou deliberado a resignar a
                    corôa, e a partir para a Terra Santa, onde purificarei as minhas crenças, e
                    passarei o resto de meus dias em uma clausura.</p>
                <p>Pero da Covilhan caíu de joelhos aos pés de D. Affonso, e exclamou!</p>
                <p>—Que fazeis, Senhor!... Pois tendes animo de deixar na orphandade tantos filhos
                    vossos, que mais não são todos os portuguezes?!... Se não quizerdes proseguir na
                    empreza de Castella, não podereis ainda, uma e muitas vezes, mostrar ao mundo
                    quanto valeis, combatendo novamente os infieis, e alargando os dominios de
                    além-mar?!... E não será isto porventura entregar-vos ao serviço de Deus, com
                    proveito e gloria de voss'alteza e da nossa patria querida?!...</p>
                <p>D. Affonso V obrigou o môço escudeiro a levantar-se, e tornou-lhe muito
                    impressionado:</p>
                <p>—Cumpro a vontade de Deus!... Ao principe ficam bem entregues os destinos da
                    nação, e de certo elle voltará ás terras da Africa, onde o barbaro mouro
                    experimentou já a rija tempera da sua espada. Vós lá sereis tambem a confirmar a
                    destreza e bravura, com que pelejastes nos plainos de Toro. Crêde, que o vosso
                    novo rei vos terá sempre em grande estima, porque lh'o mereceis, e continuareis
                    a merecer, e nem eu, nem elle, nos esquecemos do perigo, a que vos exposéstes,
                    para ir a buscar-me a Castro Nunho.</p>
                <p>Ao pronunciar as ultimas palavras, o monarcha abraçou Pero da Covilhan, que
                    seguidamente lhe beijou a mão, e saíu da sua presença muito commovido.</p>
                <p>Com effeito, Pero da Covilhan podia ser util ao desfallecido rei na sua
                    peregrinação e exilio, já porque era mui intelligente, já porque fallava com
                    facilidade o arabe e outras linguas; mas D. Affonso V, despojado de grandezas,
                    não tinha com que galardoar os merecimentos do moço escudeiro, por isso preferiu
                    deixa-lo ao serviço do principe.</p>
                <p>Antes do alvorecer do dia seguinte, que era o 24 de setembro de 1477, o rei saíu
                    a cavallo, como costumava, acompanhado por dois moços da camara e dois de
                    estribeira, depois de ter ordenado ao seu capellão, que o fosse esperar a meia
                    legoa de distancia, em um sitio, onde effectivamente se encontraram. D'aqui fez
                    voltar para Honfleur um dos moços de estribeira com a chave do cofre, que
                    continha os seus escriptos, e com ordem de serem lidos, por quem da sua comitiva
                    estivesse presente.</p>
                <p>Entretanto já os portuguezes, e M. de Lebrét, que por ordem de Luiz XI
                    acompanhava D. Affonso V para o servir, haviam notado, que elle tardava em
                    regressar do seu passeio.</p>
                <p>Pero da Covilhan, que conhecia os designios do rei, presumia unicamente, que elle
                    os tivesse posto em pratica; mas a ninguem revelava esse pensamento.
                    Conservava-se triste, como quem compartilhava da geral inquietação, sem gesto ou
                    palavra, que o trahissem.</p>
                <p>Chegou emfim o moço de estribeira. Abriu-se o cofre, e n'elle foram encontradas
                    cartas escriptas por D. Affonso V. Era uma para Luiz XI, na qual pedia desculpa
                    do incommodo, que lhe causara; recommendava-lhe os portuguezes, que deixava em
                    França; e expunha-lhe os fundamentos, que o determinavam ao ingresso na vida
                    monastica. Outra para o principe D. João, dando-lhe conta da sua malfadada
                    viagem, e ordenando-lhe com paternal affecto e justificada instancia, que se
                    fizesse acclamar immediatamente rei. Outra, participando ao reino a sua
                    abdicação, e determinando-lhe obediencia ao principe real, como o proprio e
                    verdadeiro monarcha. E finalmente outra aos da sua comitiva, da qual nomeava
                    chefe, para todos os effeitos, o conde de Faro.</p>
                <p>Finda a leitura de todas, foram as destinadas a Portugal remettidas logo ao
                    principe por via do seu camarista Antão de Faria, que tão celebre se tornou mais
                    tarde no seu reinado, e que tinha vindo a França tratar de negocios do Estado
                    com D. Affonso V. Em virtude d'estas cartas, foi D. João acclamado rei de
                    Portugal, no alpendre da egreja de S. Francisco em Santarem, aos 10 de novembro
                    de 1477.</p>
                <p>Tendo-se limitado o moço de estribeira a cumprir as ordens, que trouxera, e não
                    sabendo prestar informação alguma ácerca do destino, que levaria o regio
                    fugitivo, atrigáram-se os portuguezes em busca-lo por toda a parte. M. de
                    Lebrét, por seu turno, empregou emissarios com igual fim, depois de communicar a
                    Luiz XI, quanto se passava, e de dirigir graves accusações aos portuguezes, pela
                    negligencia com que serviam, e acompanhavam o seu soberano.</p>
                <p>Decorridos poucos dias, foi descoberto o paradoiro do monarcha por um cavalleiro
                    normando, chamado Roberto Le Boeuf. Era em uma pequena aldeia da Normandia. D.
                    Affonso V estava a dormir, e Le Boeuf acordou-o, para melhor o reconhecer. Não
                    dissimulou o rei a sua identidade. O cavalleiro fez logo reunir a gente do
                    lugar, para que vigiassem a regia habitação, e não consentissem a pessoa alguma
                    o sair d'ella. Expediu mensageiros a Luiz XI, aos portuguezes, que estavam em
                    Honfleur, e a M. de Lebrét, participando a todos aquella nova. E, finalmente,
                    não só tratou com acatamento, mas serviu com zelo igual o seu prisioneiro.</p>
                <p>O conde de Penamacor, que era o primeiro camarista de D. Affonso V, e tinha
                    declarado não voltar sem seu amo a Portugal, appareceu logo junto do rei.
                    Encontrando-o mui pertinaz, em levar ávante o seu proposito, de se dirigir á
                    Palestina, esperou pelo conde de Faro, e pelos restantes fidalgos da comitiva,
                    para o demoverem. Deixou-se emfim D. Affonso V vencer das instancias dos seus, e
                    de uma carta muito consoladora, que Luiz XI lhe escrevera. Teve, porém, pejo de
                    entrar em Honfleur, e demorando perto do lugar, em que elle estava, a bahia de
                    Hougue, para aqui se dirigiu com o seu sequito, a fim de sair da França, onde se
                    sentia sobre brasas.</p>
                <p>Embarcou seguidamente em uma carraca, mandada fretar por elle, e de Honfleur
                    desceram os navios francezes, que Luiz XI fez por aprestar a tempo de a
                    comboiar, confiando o commando da frota a Jorge de Bicipat, cognominado <seg rend="italic">o Grego</seg>.</p>
                <p>O rei de França continuava a encobrir com vãs honrarias, e ostentações de
                    respeito pelo monarcha portuguez, a perfidia com que politicamente o trahia. E
                    D. Affonso V fazia-se á véla para Portugal, sem levar no coração magnanimo
                    resentimento algum, contra quem o havia constantemente logrado, antes até
                    alimentando a esperança, de que Luiz XI sempre viria a prestar-lhe soccorro para
                    concluir a empreza de Castella! Voltara-lhe esta preoccupação, depois que
                    recebeu a ultima carta do seu amigo e alliado...</p>
                <p>D. Affonso V era muito instruido, e tinha grande predilecção pelos que cultivavam
                    as lettras; por isso, durante a viagem, algumas vezes ordenava a Pero da
                    Covilhan, que lhe recitasse romances e outras composições poeticas de Castella;
                    com o que o rei-cavalleiro muito folgava. Para todos tinha sempre o gentil
                    soberano uma palavra amavel; e, no tom de familiaridade que lhe era peculiar,
                    aos portuguezes descrevia com rara exactidão e lucidez, quanto vira de notavel
                    nos lugares, que percorrera, e ao capitão da frota exalçava as qualidades de
                    Luiz XI, pondo ao mesmo tempo em relêvo a hospitalidade da nação franceza.</p>
                <p>Sobreveiu um temporal, que deu causa a não poderem alguns navios aguardar a
                    conserva. Perderam-se dos restantes, e abicaram primeiro do que elles á bahia de
                    Cascaes. Não lhes tomaram, porém, grande deanteira, pois mal tinha corrido em
                    Lisboa, onde estava D. João, a nova, de que seu páe chegaria préstes, logo este
                    aportou á mesma bahia.</p>
                <p>Certificado D. Affonso V, de que o principe tinha sido acclamado, foi surgir a
                    Oeiras.</p>
                <p>No dia seguinte desembarcou, sendo recebido em terra por seu filho, que mesmo
                    alli depôz em suas mãos as redeas do governo e o sceptro, que por obediencia
                    havia empunhado.</p>
                <p>A este tempo era já muito reduzido o numero de partidarios de D. Joanna. O
                    arcebispo de Toledo obteve perdão dos reis catholicos, e recuperou a sua graça.
                    O proprio Beltran de La Cueva recebia mercês d'estes principes e servia-os. A
                    cidade de Toro estava em poder de Isabel; e Castro Nunho, depois de apertado
                    cêrco, em que a defensa heroica de Pedro de Mendanha teve profundamente abalado
                    o poder castelhano, rendeu-se afinal aos adversarios de D. Affonso V com
                    permissão d'este, enviada ainda de França ao alcaide lealissimo, e precedendo
                    taes condições, que foi quasi affrontosa a victoria para o exercito
                    sitiante.</p>
                <p>Mezes depois celebrou-se o tratado de paz e alliança, de 9 de outubro de 1478,
                    entre os reis de Castella e Luiz XI, ficando annulladas quaesquer confederações,
                    ligas e amisades existentes ou futuras da França com Portugal, assim como de D.
                    Luiz XI com D. Joanna, asserta rainha de Castella.</p>
                <p>Apesar de tão categoricos desenganos, D. Affonso V, incitado por alguns magnates
                    de Castella, que publicamente se diziam seus inimigos, mas estavam com elle na
                    melhor intelligencia, persistia na idéa de atear a guerra, e concluir o
                    casamento com sua sobrinha. A especulação dos castelhanos não passava
                    despercebida a Isabel, inspirando-lhe cuidado e receio; por isso não cessavam as
                    hostilidades tanto por parte de Castella como de Portugal, com grande e
                    manifesta ruina das duas nações. A paz era de absoluta necessidade para ambas, e
                    n'isto convieram emfim as partes interessadas.</p>
                <p>Para entabolar as negociações, avistaram-se na villa de Alcantara, em Castella, a
                    rainha D. Isabel e sua tia a infanta D. Beatriz, viuva do infante D. Fernando
                    duque de Vizeu, as quaes combinaram, que fossem ajustadas as pazes em Portugal.
                    Com effeito, a 4 de setembro de 1479, celebrou-se em Alcaçovas o tratado de paz
                    perpetua entre D. Affonso V e os reis catholicos. Estipulou-se além de outras
                    clausulas, que o principe D. João, filho dos reis de Castella, casasse aos sete
                    annos por palavras de futuro, e aos quatorze por palavras de prezente, com D.
                    Joanna, a qual receberia de arras vinte mil florins de Aragão, fóra os
                    rendimentos necessarios para manter o seu estado; e, recusando-se o principe a
                    concordar n'este casamento, a princeza não só seria indemnizada, mas ficaria
                    livre para poder dispôr de si.</p>
                <p>Era um meio honesto de esbulhar de seus direitos a desditosa filha de Henrique
                    IV, pois tal consorcio nunca se realisaria.</p>
                <p>Para segurança d'esta clausula, D. Joanna, tinha de ser posta em terçaria na
                    villa de Moura, em poder da infanta D. Beatriz, e, não querendo, devia entrar em
                    um dos cinco mosteiros portuguezes da ordem de Santa Clara, conservar-se ahi o
                    tempo do noviciado, findo o qual era obrigada a optar pela profissão ou pela
                    terçaria.</p>
                <p>No mesmo tratado estatuiu-se, que o infante D. Affonso, filho do principe D.
                    João, logo que fosse em edade de sete annos, se desposasse com a infanta D.
                    Isabel, filha primogenita dos reis catholicos, devendo esses infantes ser tambem
                    postos em terçaria nas mãos da infanta D. Beatriz.</p>
                <p>Este enlace era a principal garantia da paz tão desejada pelos reis de ambos os
                    paizes para pôrem termo á desconfiança, com que se tratavam, originada de
                    conveniencias e paixões particulares, mas filiando-a especiosamente na reciproca
                    offensa dos interesses nacionaes.</p>
                <p>Agora repare o leitor no que diz Ruy de Pina, chronista coevo d'estes successos,
                    e profundo conhecedor das intrigas e ambições, de que foi victima a innocente
                    princeza D. Joanna:</p>
                <p>«Estando (a princeza) em Santarem, e cumprindo-se os seis mezes de sua liberdade,
                    ella não com menos força alheia que tristeza sua propria, e com dolorosas
                    lamentações suas e de todos os seus deixou o titulo de rainha e tomou o de D.
                    Joanna, e despiu seu corpo dos brocados e sedas que trazia e vestiram-na em
                    habitos pardos de Santa Clara, tirando-lhe da cabeça a corôa real de Castella e
                    Portugal de que era intitulada, e cortando-lhe d'ella seus cabellos como a uma
                    pobre donzella, e por maior seu aggravo e magua não lhe deixando os servidores
                    de seu gosto e vontade, nem menos cousa que tivesse imagem d'estado. E o
                    primeiro mosteiro em que assim entrou, foi Santa Clara da dita villa de
                    Santarem. E na execução d'estas cousas porque a necessidade de outras muitas
                    assim o requeria, o só e principal ministro era o principe; porque el-rei D.
                    Affonso seu páe de muito anojado e envergonhado d'ellas, de todas se escusou, e
                    as deixa inteiramente á disposição e ordenança do filho, a cuja vontade el-rei
                    n'aquelle tempo mostrou ser muito inclinado e sujeito. Mas se o principe no
                    cumprimento d'estas cousas excedeu o modo contra a senhora D. Joanna, por
                    ventura mais do que per razão, piedade e temperança se lhe devia, e isto pela
                    gloria e contentamento que tinha do casamento do infante seu filho se não
                    desfazer, que não era sem alguma esperança da successão de Castella, a
                    desventurada fortuna como crú algoz do rigoroso e severo juizo divino, pela
                    culpa do principe, se a tinha, lhe deu logo a pena com o triste e mortal
                    apartamento dos innocentes principe e princeza, depois de novamente casados,
                    sobre que tanto fundamento de honra e segurança fazia. Porque o mesmo lugar de
                    Santarem, que contra a senhora D. Joanna foi o talho d'esta primeira crueza, se
                    tornou a ser o principio d'esta sua vingança; porque o principe D. João depois
                    de ser rei á vista da mesma excellente senhora, viu a subita e desastrosa morte
                    do principe D. Affonso, seu filho, e a quem á primeira pareceu, que, sendo vivo,
                    os reinos de Portugal sem os de Castella não bastariam, elle o viu logo morto, e
                    de uma pouca de terra para sempre sujeito e contente, e a triste e innocente
                    princeza sua mulher antes de bem casada se viu logo ser viuva, privada do
                    verdadeiro titulo que tinha, e trocados os brocados ricos e hollandas delgadas
                    que trazia, com pobre burel e grossa estopa em que foi logo vestida, nem ficaram
                    por cortar seus cabellos dourados com accidental proposito de religião, sendo
                    apartada das pessoas mais de sua conversação e servida por servidores alheios,
                    comendo no chão e em vasos de barro, privada em todo de todo estado, entrando
                    n'estes reinos esposada, coberta d'ouro e de preciosa pedraria, em cima de ricas
                    facas e trotões á vista de todos. Mas vós lagrimas que na lembrança d'esta dôr
                    aqui apontaes soffrei-vos um pouco, cá pera outro mais proprio lugar estais
                    reservadas. Nem a culpa do solemne mas simulado e cauteloso juramento, que
                    el-rei e a rainha de Castella fizeram sobre o casamento d'esta senhora com o
                    principe seu filho, não ficou sem triste pena e mortal perda e sentimento seu,
                    porque Deus em cujo desprezo pareceu que se fez, não padece engano por castigo,
                    do qual vimos que tambem elles viram a não madura morte do principe innocente
                    moço seu filho, vivendo pouco mais tempo d'aquelle, em que com esta senhora
                    prometteram e juraram de casar; porque elle já então era casado com madama
                    Margarida, filha do rei dos romanos, e a tinha já em seu poder, sem de nenhum
                    d'estes principes de que os reis de Castella e de Portugal tanta esperança e
                    fundamento faziam, ficar algum legitimo herdeiro descendente que os succedesse e
                    herdasse, e foram seus herdeiros os transversaes mais chegados».</p>
                <p>Depois da profissão da <seg rend="italic">Excellente Senhora</seg>—tratamento
                    dado a D. Joanna tanto que vestiu o habito de clarista—D. Affonso V quiz abdicar
                    e recolher para sempre ao mosteiro do Varatojo por elle fundado; mas a morte
                    antecipou-se a frustar-lhe esse ultimo designio. A 28 de agosto de 1481 exhalou
                    o derradeiro alento na mesma sala do paço de Cintra, onde se ouvira o seu
                    primeiro vagido.</p>
                <p>A Excellente Senhora sobreviveu-lhe muitos annos, cumprindo resignada a sentença
                    fatal do seu destino, que foi servir sempre de joguete nas mãos de ambiciosos, e
                    de temeroza arma politica a seu primo D. João II.</p>
                <p>Em 1482 interessou-se Luiz XI pelo casamento da desditosa princesa com Francisco
                    Phebo, rei de Navarra. Mais tarde Fernando V, apenas enviuvou, rojou-se a seus
                    pés, e solicitou-lhe a mão de esposa, como em outro lugar deixámos referido. Não
                    podendo, porém, ella olvidar, nem um momento, que era a legitima successora da
                    coroa de Castella, recusou com nobre altivez as propostas d'este seu algoz e
                    diffamador de sua mãe, preferindo conservar-se solteira, até que deixou de
                    existir em 1530, com sessenta annos de edade.</p>
                <p>Foi sepultada na egreja de Santa Clara, de Lisboa, e tão esquecida a quizeram,
                    que nem um epitaphio lavraram sobre a lousa que a cobriu. E, como o terremoto de
                    1755 arrasou essa egreja e o convento annexo, lá desappareceram misturadas com
                    os destroços dos dois edificios as cinzas da pobre princeza.</p>
                <p>Malfadada condição a sua!</p>
                <p>Não logrou D. Affonso V ser o unificador da grande nação hespanhola, e ao filho
                    de D. João II foi tambem vedado herdar as duas corôas da peninsula, para
                    realizar, conforme as aspirações de seu páe, a reconstituição da velha monarchia
                    wisigothica, terminada no primeiro quartel do seculo VIII pela batalha de
                    Guadalete.</p>
                <p>Por lei, e pela propria dignidade da monarchia, o throno de Castella era
                    patrimonio da filha de Henrique IV; e, se fossem justos os pretextos, de que se
                    serviram, para lh'o arrebatarem das mãos, a segurança e a estabilidade de todas
                    as dynastias podiam considerar-se problematicas.</p>
                <p>O que mórmente achanou o caminho do throno a Isabel, foram as leviandades e
                    torpezas de um rei inepto e devasso; mas nada póde lavar a macula de rebelde,
                    com que ella conspurcou o seu nome para sempre.</p>
                <p>Foi uma ruim causa que produziu bom effeito. O consorcio de Fernando de Aragão
                    com Isabel preparou o successo transcendente da unidade hespanhola, realisada
                    mais tarde por Carlos V, e os reis catholicos elevaram a Hespanha ao mais alto
                    grau de prosperidade.</p>
                <p>Acabaram-se as turbulencias dos magnates, e restabeleceu-se emfim o poder da
                    realeza.</p>
            </div>
            <div>
                <head>VI</head>
                <head>PESQUIZAS</head>
                <p>Por morte de D. Affonso V todos os creádos da sua casa tomou D. João II para si
                    com muito amor e agasalho, conforme testemunha Garcia de Rezende. Pero da
                    Covilhan pertencia áquelle pessoal, e, como pelos serviços prestados em Castella
                    e França havia conquistado a estima do novo monarcha, para logo ascendeu esta á
                    quasi intimidade de valido.</p>
                <p>Convem notar, que D. João II ao seu serviço preferia ter cavalleiros particulares
                    a grandes e senhores; ou fosse por manifesta má vontade contra estes, ou porque,
                    fazendo creaturas suas os que possuissem iguaes qualidades e menos poder,
                    esperava que o servissem com maior fidelidade e menos ambição, por carecerem
                    mais do seu rei, e serem mais faceis de contentar. Sobretudo tinha na melhor
                    conta os seus companheiros de armas em Toro, aos quaes louvava por vezes a
                    dedicação e valor, cujo testemunho lhe deram, e por isso a todos elevou e
                    distinguiu sempre, entrando a maxima parte d'elles em o numero dos quatro mil
                        <seg rend="italic">vassallos d'el-rei</seg>, que creou, como lhe requereram
                    as côrtes reunidas em Evora a 12 de setembro de 1481.</p>
                <p>Pero da Covilhan vivia, pois, na côrte de D. João II e fazia parte da sua
                    guarda.</p>
                <p>Nem antes, nem depois, ainda houve outra côrte mais brilhante em Portugal. O rei,
                    para descançar das fadigas da administração, mostrava grande prazer de achar-se
                    rodeado de cortezãos dotados de boas prendas, e com elles folgava,
                    estimulando-os a exhibi-las na presença das formosuras insignes, que compunham o
                    apparatoso e galante sequito da rainha D. Leonor.</p>
                <p>Assistia jubiloso aos saráus do paço, nos quaes até ás vezes, depois de vêr
                    dançar com primor a <seg rend="italic">retorta mourisca</seg> pelas damas
                    trajando ao uso arabe, deixava-se adormecer no regaço de alguma d'ellas. Era o
                    primeiro emfim a lembrar os desafios poeticos, as <seg rend="italic">côrtes de
                        amôr</seg>, o <seg rend="italic">jogo dos naipes</seg>, e tantas outras
                    diversões proprias de uma sociedade elegante, de cujas aventuras amorosas se não
                    fazia mysterio.</p>
                <p>Maria Thereza era uma das mais gentis entre as donzellas, que a rainha educava
                    para suas damas, e que podemos denominar os botões de rosa do real <seg rend="italic">jardim de formosura</seg>, como depois Gil Vicente chamou ao
                    estrado das damas de D. Leonor.</p>
                <p>Bella e muito viva, mais de um dos seus admiradores a requestava em verso. Ella,
                    porém, sempre desdenhosa, sorria d'esses requebros, torturando assim os
                    apaixonados moços. Alguns alcunhavam-n'a de desvanecida, outros de suberba,
                    despeitados todos por se verem repellidos. Não logravam comprehender muitos
                    d'elles, herdeiros de boas casas, que uma menina pobre se mostrasse tão esquiva,
                    tão reservada, quasi fria, n'aquelle meio tão aquecido pelo calor da mocidade;
                    em aquelle bulicio, que a intimidade no trato, e o desprendimento na linguagem
                    tornavam tão jovial e affectuoso, como fielmente no'-lo reprezenta o <seg rend="italic">Cancioneiro Geral</seg>, de Garcia de Rezende.</p>
                <p>Um dia Pero da Covilhan, ao passar por ella, disse-lhe quasi a medo:</p>
                <p>—Amo-vos!...</p>
                <p>Maria Thereza córou, e tamanha perturbação sentiu, que não poude articular uma
                    palavra.</p>
                <p>Pero da Covilhan desappareceu, e ella, recobrando a serenidade, disse comsigo
                    mesma:</p>
                <p>—Deve-me ter talvez achado bem ridicula!... Não só ridicula; mas traduziria o meu
                    enleio por baixeza d'alma, pensando que não agradeci a sua galanteria por elle
                    não ser fidalgo, e eu filha e neta de fidalgos!...</p>
                <p>Esta idéa foi um desespero para Maria Thereza, que não encontrava desculpa alguma
                    para o seu silencio. Até pelo seu espirito passou o receio de que Pero da
                    Covilhan a desprezaria, pois estava convicta de que fôra desprimorosa para com
                    elle, e de que uma palavra polida é sempre facil de responder.</p>
                <p>Quando pouco depois avistou Pero da Covilhan, não poude fallar-lhe; mas retribuiu
                    com um sorriso da mais ineffavel candura a gentileza, com que elle a cortejou. A
                    divina semente, que germinava occulta em seu coração, cresceu de subito e
                    floriu. Do encontro de duas almas, que se attráem, é que salta a faisca
                    sagrada.</p>
                <p>Durante algum tempo, não houve entre ambos correspondencia, que não fosse a dos
                    seus olhares que se cruzavam; mas bastava essa para se comprehenderem. Os olhos
                    são o espelho da alma, e descobrem, sem o sentirmos, todos os segredos, que lá
                    guardamos.</p>
                <p>Foi Pero da Covilhan mandado chamar pela rainha. Maria Thereza, mal soube a
                    novidade, esperou-o á entrada dos aposentos de sua ama, e quando elle surgiu,
                    disse-lhe:</p>
                <p>—Aguardava-vos, para dissipar qualquer temor que porventura tivesseis... Como não
                    é costume, havia de surprehender-vos a ordem da rainha, minha Senhora?...</p>
                <p>—Certamente!... E graças pelo vosso cuidado em me prevenir, pois me tinha
                    occorrido, que sua alteza desconfiasse, que vos cortejo, e não o levasse a
                    bem...—respondeu Pero da Covilhan, ainda mal refeito do sobresalto, que lhe
                    causou a inesperada apparição de Maria Thereza, que para o tranquillizar lhe
                    affirmou:</p>
                <p>—Sua alteza nada sabe ainda. Como, porém, não tenho segredos para minha real
                    ama...</p>
                <p>—Oh! nada lhe confesseis por emquanto!... interrompeu Pero da Covilhan
                    supplicando.</p>
                <p>—Porquê?!...—perguntou Thereza meio admirada.</p>
                <p>—Porque não vos mereço ainda...</p>
                <p>—Por sermos muito môços; quereis talvez dizer?...</p>
                <p>—Thereza!... Amo-vos cada vez mais! E por isso mesmo vos peço que espereis...</p>
                <p>—Esperarei.</p>
                <p>—Quando eu tiver uma posição digna de vós e do vosso nome illustre, virei
                    offerecer-vo'-la, e esse será o primeiro passo para a minha felicidade... Antes,
                    não!... Sou um simples escudeiro, bem vêdes!...</p>
                <p>—Não vos amergeis tanto!... «Só os escudeiros sustentam o reino»: dizia D. João
                    I... O que foi Nun'Alvares, antes de condestavel?... D'onde provêem os melhores
                    titulos de Portugal e Castella?... De escudeiros se fizeram as casas de
                    Benavente, de Vilhena, de Albuquerque, de Medina Sidonia, e tantas outras... </p>
                <p>—Assim é; mas...</p>
                <p>—Mas vós sois hoje um escudeiro, e ámanhã podereis ser um fidalgo... Não tendes a
                    nobreza por herança e patrimonio? Haveis de merece-la e ganha-la!... É crença
                    minha.</p>
                <p>—Na firmeza da vossa linguagem manifestais bem os quilates do vosso peregrino
                    espirito... Edificativa exhortação a vossa!...</p>
                <p>—Pois não será verdade o que vos digo?... Aquelles a quem a gloria dos avós
                    envaida, sem procurarem imitar-lhes as virtudes, esquecem-se, de que não é nas
                    raizes, mas nos ramos, que teem as arvores o seu fructo... Ora dizei-me!...
                    Quantos fidalgos deixaram a vida em Toro?... Dos escudeiros sabemos todos, que
                    muitos lá ficaram...</p>
                <p>—Morreram no seu posto...</p>
                <p>—Com honra, bem o sei. Ou não foram elles portuguezes!... Mas costume foi sempre
                    lançar os escudeiros deante, para serem no perigo o escudo dos nobres... Que
                    vejam estes agora como el-rei trata os escudeiros, que sobreviveram!... A vós
                    não perde sua alteza o ensejo de honrar... Não vo'-lo provou já, enviando-vos a
                    Castella em seu real serviço? E á Barberia, a fazer pazes com o rei de
                    Tremecem?...</p>
                <p>—Mercês d'el-rei, meu senhor, que m'as não deve, porque lh'as não mereço... Em
                    Toro foram todos valentes, fidalgos e escudeiros, que ao lado de sua alteza
                    ninguem póde ser fraco!... Praz-me porém, vêr-vos discorrer d'ess'arte!... Nobre
                    alma de portugueza a vossa!... Como eu me sinto orgulhoso de vos amar!... </p>
                <p>—E eu de ser por vós amada!...</p>
                <p>—Abençoado amor o vosso!... Por elle sinto-me capaz de tudo quanto ha de elevado
                    e grande!... Nem perseverança e fé me faltarão jámais!...</p>
                <p>—Nem as minhas orações, Pero... Assim ellas sejam ouvidas!...</p>
                <p>—Porque não?... O céo está sempre aberto ás supplicas dos anjos. Vós sois já o da
                    minha guarda, e o do nosso lar sereis um dia!...</p>
                <p>—Sim. A Santissima Virgem, que é auxilio dos christãos, permitta que eu saiba
                    corresponder ás vossas esperanças!</p>
                <p>—Hade amparar-nos o seu patrocinio, crêde! Eu tambem sou devóto da Mãe de Deus,
                    Thereza!...</p>
                <p>—Confiemos n'Ella... Mas... alguem chega! Recado vos trazem da rainha, minha
                    Senhora. Adeus.</p>
                <p>Maria Thereza retirou-se; e Pero da Covilhan seguindo-a com os olhos, apenas
                    soltou esta palavra, que ella já não poude ouvir:</p>
                <p>—Encantadora!...</p>
                <p>E era realmente um encanto a gentilissima Thereza. O seu coração virgineo
                    abriu-se ao primeiro affecto, como o calice da flor aos primeiros raios do sol
                    em alegre manhã de primavera. A sua alma desabrochando, exhalava seu ingenito
                    perfume angelico, e em uma aspiração, que tinha alguma cousa de infinito,
                    invocava não sabia bem o quê, para ella ainda desconhecido. Não ignorava, que
                    geralmente o interesse era o verdadeiro móbil dos casamentos na côrte. Muitos
                    dos servidores das damas, senão todos, podiam ter a alma erma de virtudes, o
                    coração vasio de affeições, que, se os recommendasse o prestigio das suas
                    riquezas, ou a fascinação do seu nome, nenhuma d'ellas repudiava os seus
                    galanteios. Maria Thereza, porém, aspirava á posse de uma alma, como a sua, que
                    lhe offerecesse o thezouro da pureza, de um coração, como o seu, que conservasse
                    o thezouro do affecto; porque sem estes dois thezouros nada lhe bastaria, e o
                    nome, ainda o mais egregio, a fortuna ainda a mais colossal, não poderiam
                    dissimular a sua privação irreparavel.</p>
                <p>A rainha D. Leonor, que tinha por ella particular predilecção, como para o deante
                    veremos, era a mais desvelada e carinhosa das mães nos cuidados com a sua
                    educação. Nutrindo-a de solidos pensamentos pela cultura sã e moral do seu
                    espirito, não lhe fazia ao mesmo tempo perder a frescura da imaginação, nem lhe
                    roubava a graça e a poesia, com que Deus a dotára. Dando á imaginação o que
                    justamente lhe pertencia, purificando-a e dirigindo-a, creava-lhe tambem e
                    primeiro que tudo, uma consciencia forte; formava-lhe uma vontade energica e
                    recta, um coração que soubesse querer o bem, uma razão e intelligencia, que lhe
                    deixassem trilhar sempre, com resolução e firmeza, o caminho do dever e da
                    honra.</p>
                <p>Que mãe de familia com taes dotes! </p>
                <p>Em preciosos codices da bibliotheca real alimentava Maria Thereza a sua paixão
                    pelas lettras, sendo a sua leitura dirigida pela rainha, como quem prescreve o
                    regimen de uma alimentação salutar e sobria. Ao mesmo passo encarecia D. Leonor
                    á sua pupilla a intimidade do lar domestico, dizendo-lhe, que sem ella não pode
                    haver vida de familia, como sem templo não existe religião, que se avigóre.</p>
                <p>Maria Thereza sabia assim, que no lar domestico nutrem e conservam sua pureza e
                    sua energia os nossos costumes, e que elle é para todos nós como que uma patria
                    mais estreita e mais estremecida, e tambem o lugar consagrado pelas alegrias e
                    pelos pezáres communs da familia.</p>
                <p>Ao pensar, pois, na sua união com Pero da Covilhan, Maria Thereza promettia a si
                    propria, que seria sempre ao lado d'elle corajosa e risonha, velando tudo,
                    tomando o maior quinhão nos dissabores do trabalhador indefesso, applaudindo os
                    seus esforços, aconselhando-o, inspirando-o, confortando-o emfim com o seu olhar
                    e o seu sorriso. E por isso mesmo, embóra Pero da Covilhan soffresse as mais
                    duras inclemencias, as mais longas provações, antes de conquistar uma reputação
                    honrada e merecida, a despeito de criticas amargas e injustas, o amor d'elle ao
                    trabalho e ao lar domestico haviam de faze-lo triumphar de todas as
                    vicissitudes. Maria Thereza contava com esse triumpho e deliciava-se ao
                    imagina-lo.</p>
                <p>Que desassocego febril, em que andava o seu coração de dezeseis annos, desde que
                    o surprehenderam no seu pulsar innocente e descuidado os primeiros
                    estremecimentos do amor! Mas este delicado e casto sentimento deixou de ser uma
                    paixão que poderia corrompe-lo, para tornar-se uma virtude, que havia de
                    eleva-lo.</p>
                <p>O mais vehemente desejo de Maria Thereza, era, que Pero da Covilhan se
                    nobilitasse, crescesse em honras, conquistasse para o seu nome uma aureola
                    brilhantissima. Em Pero da Covilhan para merecer, e em D. João II para premiar,
                    tinha ella toda a confiança; por isso não a intimidavam as habituaes murmurações
                    e desdens dos cortezãos. Estes em geral, occupados de inveja dos feitos alheios,
                    trabalhavam por empece-los e aniquila-los. Prezando-se unicamente de perfumados,
                    e de porfiar trovando nos serões do paço, nada mais faziam do que folgazar dia e
                    noite, emmaranhados em intrigas de amores interesseiros e faceis.</p>
                <p>Um interesse tambem tinha o amor de Maria Thereza; mas unico: a gloria de Pero da
                    Covilhan.</p>
                <p>Desinteressado amor!</p>
                <p>A candida donzella via no seu bello ideal de ventura o môço escudeiro a burilar
                    no escudo um brazão floreteado, ganho em serviço da religião e da patria, e a si
                    propria aprezentando com justa ufania a sua real ama, e segunda mãe, o
                    cavalleiro ennobrecido, a quem promettera a sua mão. Exultava por isso de
                    contentamento intimo, quando o rei o escolhia para desempenhar qualquer missão
                    que por espinhosa e arriscada o distinguisse mais ainda. É que o seu amor tinha
                    a singularidade maravilhosa de illuminar-lhe o entendimento, conservando-lhe
                    sempre inflammado o coração.</p>
                <p>Quando Pero da Covilhan ia a sair, já despedido pela rainha, poude dizer a Maria
                    Thereza:</p>
                <p>—De novo passo á Barberia.</p>
                <p>—Deus vos guie!—respondeu Thereza, tão meiga, como alegre.—Comvosco vae tambem o
                    meu coração, que é vosso.</p>
                <p>Nem uma palavra, nem a mais fugitiva expressão da physionomia de Maria Thereza,
                    podiam revelar a Pero da Covilhan qualquer sombra de tristeza pelo apartamento;
                    e comtudo bem natural é, que fossem como realmente eram, sempre que se
                    separavam, docemente feridos ambos pelo espinho da saudade. As despedidas em vez
                    de os desfallecerem, animavam-os.</p>
                <p>D. João II no seu ardente amor de gloria, ao passo que se tornava insaciavel e
                    insoffrivel em transpôr os humbraes da India, não afastava seus olhos d'aquella
                    banda da Africa, tanto ao pé da porta, e da qual tivera por doação real a
                    governança, quando principe ainda. Para ser miudamente informado ácerca do que
                    se passava n'esses lugares, enviou lá Pero da Covilhan, recommendando-lhe em
                    particular, tratasse a miude com Molley-Belfagege, que em 1472 havia mandado a
                    ossada de D. Fernando, o mallogrado infante, que fallecera em Fez. A razão
                    ostensiva da viagem era, porém, a compra de cavallos do melhor sangue para o
                    duque de Beja, a quem o rei ia dar casa. Destinados á mesma adquiriria tambem
                    Pero da Covilhan alguns lambeis, que D. Leonor encommendara com particular
                    interesse, consoante á carinhosa rainha merecia, quanto tocava a D. Manuel seu
                    dilecto irmão, mais tarde rei.</p>
                <p>Embarcou Pero da Covilhan para o seu destino.</p>
                <p>Depois da necessaria demóra, regressou a Portugal, onde o esperava já outro
                    encargo; este, porém, mais arduo, e de mais vasto alcance para a realisação do
                    plano politico de D. João II.</p>
                <p>Estava a côrte em Santarem, quando chegou e deu conta a seus reaes amos dos
                    mandados, que cumprira, conforme as instrucções que levava.</p>
                <p>—Bem o fizestes—disse-lhe o rei—; e agora—muito secretamente—espéro de vós grande
                    serviço, que sempre vos tenho achado bom e leal servidor, mui ditoso em vossos
                    feitos... Não vos impede a falta de saude, ou o cansaço da viagem, de sair já de
                    nossos reinos?</p>
                <p>—Préstes estou, meu Senhor e rei—respondeu Pero da Covilhan.—Peza-me, porém, não
                    ser a minha sufficiencia igual ao desejo, que tenho de servir voss'alteza...</p>
                <p>—Embóra, ireis, que Deus vos guardará.—A descobrir e saber do Preste João, e onde
                    se acham a canella e as outras especiarias, que das terras do Oriente vão a
                    Veneza, hei já mandado um homem da casa de Monte-Rio e um frade de Lisboa.
                    Chegados que foram a Jerusalem, d'aqui fizeram volta, dizendo, que ninguem por
                    aquellas partes podia entender-se sem saber o arabe. De vós me lembrei, que bem
                    o fallais. Maior incumbencia todavia levareis, do que elles, pois tambem do
                    vosso valor e discernimento muito mais confio...</p>
                <p>—Mercê a voss'alteza, meu Senhor...</p>
                <p>—O que de vós pretendo é, que vos certifiqueis, se do meu senhorio da Guiné
                    podemos communicar por terra com o reino do Preste João, e se tambem por lá, se
                    a costa vae seguindo, levariamos á India a nossa frota.</p>
                <p>—Com léda vontade, Senhor, acceito o encarrego, que é mais uma mercê, por que
                    beijo a mão de voss'alteza.</p>
                <p>—Ámanhã sereis despachado, e levareis comvosco Affonso de Paiva, que vos dou para
                    auxiliar-vos.</p>
                <p>Pero da Covilhan poude pouco depois avistar-se com Maria Thereza, que já sabia da
                    sua vinda, e communicar-lhe com enthusiasmo, que el-rei o mandava partir para
                    longe, proporcionando-lhe azo de prestar á religião e á patria bons serviços.
                    Não lhe revelou o segredo da sua mysteriosa viagem, mas não resistiu a dizer-lhe
                    com o mais vivo arrebatamento de amor:</p>
                <p>—Agora, mais do que nunca, espéro ser vosso, Thereza!...</p>
                <p>—A Virgem vos ouça!—exclamou Maria Thereza igualmentente enlevada e radiante.—A
                    longes terras ides?... Deus vos acompanhará... e eu ficar-vos-hei esperando...
                    de outro jámais serei!...</p>
                <p>E apartaram-se, como dois crentes, cujo animo varonil o fervor da fé
                    revigóra.</p>
                <p>Nem um uma lagrima derramaram!</p>
                <p>As lagrimas nem sempre são a medida do amor. Este muitas vezes mais se prova, com
                    as que se deixam de chorar.</p>
                <p>Se Pero da Covilhan partisse, para nunca mais ver Thereza, seria essa a dor maior
                    dos olhos de ambos, e a que lh'os desfaria em lagrimas. Elle, porém, ia para
                    voltar e trazer o seu nome laureado a Thereza; esta ficava-o esperando, para o
                    festejar jubilosamente. Por isso as lagrimas, que deixavam ambos de chorar, se
                    haviam seccado nas fontes do amor fino, com que mutuamente se queriam.</p>
                <p>No dia seguinte, que era o setimo de maio de 1487, D. João II, tendo a seu lado
                    D. Manoel duque de Beja, entregou a Pero da Covilhan, que se apresentou já com
                    Affonso de Paiva, uma carta de marear, feita em casa de Pedro d'Alcaçova, pelo
                    licenciado D. Diogo Ortiz, o <seg rend="italic">Calçadilha</seg>, depois bispo,
                    e pelos physicos hebreos, mestre Rodrigo e mestre Moysés, os quaes tomavam com o
                    primeiro parte na <seg rend="italic">junta dos cosmographos</seg>. N'essa carta
                    devia Pero da Covilhan, marcar os lugares do senhorio do Preste, bem como todos
                    os mais, por onde passasse.</p>
                <p>Para os primeiros gastos da viagem mandou-lhe D. João II dar da arca das despesas
                    da horta de Almeirim quatrocentos cruzados, parte dos quaes Pero da Covilhan
                    depositou na casa bancaria de Bartholomeu Florentino, a fim de receber em
                    Hespanha o que lhe conviesse, levando além d'isso uma carta de credito, dirigida
                    pelo monarcha á opulenta casa Medicis, para que nada lhe faltasse nos paizes,
                    que tivesse de percorrer. Foi emfim portador de cartas em arabico para o Préste,
                    nas quaes D. João II significava a este o grande desejo de o conhecer, e travar
                    com elle relações de amisade, dando-lhe ao mesmo tempo conta de tudo o que pela
                    costa da Guiné havia descoberto para saber, se alguma d'aquellas terras era
                    perto de seu reino e senhorios, a fim de por ellas se poderem communicar e
                    prestar, bem como fazer, com que a Fé Christã fosse exalçada.</p>
                <p>E no mesmo dia partiram os dois exploradores em direcção a Barcelona.</p>
            </div>
            <div>
                <head>VII</head>
                <head>EM RHODES</head>
                <p>Apenas Pero da Covilhan e Affonso de Paiva chegaram a Barcelona, passaram a
                    Napoles pelo Mediterraneo. Alli desembarcaram, e dirigindo-se logo á casa
                    commercial de Cósme de Medicis, pelos filhos d'este lhes foi dado seu caminho,
                    em vista da carta de credito, que levavam, como fica dito.</p>
                <p>Na formosa e vasta bahia de Napoles estava a largar para a ilha de Rhodes uma
                    náu, a bordo da qual facil foi receber os nossos viajantes. Proseguiram n'ella,
                    pois.</p>
                <p>Já no mar tyrrheno, quando Pero da Covilhan, encostado á amurada da náu, tinha
                    deante dos olhos o quadro pittoresco do golpho, emmoldurado por uma natureza
                    encantadora e grandiosa, nenhum allivio achava nas tentadoras bellezas do
                    magnifico panorama, para a dôr que lhe ia pungindo a alma. Agora que nos mares
                    do levante põe a prôa a náu, que o transporta, e elle, se distancía mais de
                    Portugal, sem saber aonde o destino o levará, mais lhe parece que o seu coração
                    o deixou para ficar com Thereza.</p>
                <p>Ao dobrar a costa meridional da Secilia, em aquelle afastar-se cada vez mais da
                    patria em busca de regiões desconhecidas, o ardor, com que desejava chegar ao
                    termo da sua viagem, era muitas vezes amortecido pela impressão viva da saudade,
                    que deliciosa e acerbamente lhe dilacerava o coração.</p>
                <p>A náu singrava, assoprando-lhe galerno o vento, que lhe fazia as velas pandas.
                    Quasi ao cabo da sua derrota, entra no mar Carpasio, e, proejando para Rhodes,
                    surge n'este porto.</p>
                <p>Está, portanto, Pero da Covilhan ás portas do Oriente.</p>
                <p>Habitavam Rhodes os cavalleiros da sacra milicia de S. João Baptista, de
                    Jerusalem. Tinham achado que, pelo sitio e vizinhança, era essa ilha propria
                    para, sem maior difficuldade, pelejar com os sarracenos do Egypto e da Syria,
                    bem como para reprimir e rebater os assaltos e insultos dos turcos, que, com
                    galeras armadas em guerra, infestavam aquelles mares, vexando os christãos,
                    roubando e fazendo captivos muitos d'elles.</p>
                <p>Fortificaram-se por isso alli; armaram-se de náus, galeões e galeras, com que
                    limparam de piratas e corsarios os mares do levante; e não só davam passagem
                    segura e pousada franca aos peregrinos, que visitavam a Terra Santa, senão
                    tambem refreavam os impetos e furias dos mouros e turcos, para que não chegassem
                    com as suas victorias até ao coração da Italia. E pode affirmar-se, sem receio,
                    que se deve attribuir ás virtudes, esforço, façanhas e proezas dos cavalleiros
                    de Rhodes, o não terem os infieis mahometanos destruido a maior parte da
                    christandade.</p>
                <p>Eram dois os cavalleiros portuguezes então na ilha: frei Gonçalo Pimenta e frei
                    Fernão Gonçalves. O ultimo havia tomado parte na heroica e brilhante defensa,
                    contra o apertado cêrco do exercito ottomano, em 1480, no mestrado de frei Pedro
                    d'Aubusson. Como bem natural era, receberam os dois viajantes fidalga hospedagem
                    de seus compatricios. A breve trecho estabeleceu-se entre todos aquella
                    confiança e lhaneza de trato peculiarissimas do nosso caracter nacional, que não
                    só se conserva intemerato em quaesquer circumstancias de tempo e lugar, mas
                    ainda mais o affirmam os portuguezes uns aos outros, quando se topam em terra
                    alheia.</p>
                <p>Como os primeiros cuidados do grão-mestre tivessem sido, logo depois do assédio,
                    restaurar as muralhas e fortificações arruinadas, durante este; reedificar as
                    casas e as egrejas, que foram demolidas, por estarem situadas perto da cidade, e
                    poderem servir de interesse ou de reparo ao inimigo; e restabelecer finalmente o
                    importante commercio dos rhodios, que tão notavel incremento havia já tomado;
                    aos intrepidos viajantes foi grato vêr na Rhodes christanisada uma das mais
                    florescentes cidades da Asia.</p>
                <p>Precisou Affonso de Paiva de repoisar um pouco; e, emquanto elle o fazia, foi
                    Pero da Covilhan com frei Fernão visitar as fortificações. Depois de haverem
                    percorrido todas, sentaram-se na torre de S. Nicolau, que demorava sobranceira
                    ao mar na entrada do porto, e era fundada sobre alcantilado fraguedo, que se
                    erguia do seio das ondas.</p>
                <p>Como os turcos emprehenderam expugnar esta torre, por lhes parecer que d'ahi
                    podiam bater com maior effeito a cidade, e tambem impedir que lhe não entrassem
                    soccorros, fr. Fernão recordou este episodio do cêrco, e a bravura com que
                    n'elle se portaram os cavalleiros portuguezes. Pero da Covilhan escutava com
                    interesse e assombro a narrativa, e não poude occultar a commoção de jubilo, que
                    sentiu ao ouvir as referencias feitas á galhardia dos nossos.</p>
                <p>Frei Fernão comprehendeu que fallava com quem era versado na arte da guerra, por
                    isso fez-lhe minuciosamente o lance do cêrco. E, como então os triumphos
                    gloriosos dos prelios eram antes attribuidos á graça do Omnipotente, do que ao
                    esforço heroico dos guerreiros, não deixou fr. Fernão de memorar um caso
                    milagroso, que contribuiu principalmente para a derrota dos turcos.</p>
                <p>—Depois de assalto á cidade fugiram para ella grande numero de turcos. Attestaram
                    estes com juramento, que, tendo o grão-mestre acudido ao combate, e feito
                    arvorar de novo as bandeiras, em que se divisavam pintadas as imagens de
                    Christo, da Virgem e de S. João Baptista, alvejando a cruz em campo de rouxeada
                    côr, n'esse mesmo instante viram os turcos correr pelo ar contra elles uma Cruz
                    resplandecente da côr de ouro, á qual seguia uma Matrona formosissima, adornada
                    de candidos vestidos, com escudo embraçado e lança na mão direita; junto a ella
                    um homem vestido de pannos vis com uma pélle de camêlo sobre os hombros; e logo
                    um luzido esquadrão de soldados, assignalados com cruzes brancas, correndo em
                    tal ordem que parecia virem em soccorro da cidade. Com esta visão—diziam os
                    desertores—ficaram os turcos tão assustados e attonitos, que os que iam em
                    marcha ao assalto, não se atreveram passar adeante; e os que já estavam
                    interessados na lucta, conceberam tanto medo e terror, que voltaram as costas, e
                    para fugirem com menos embaraço se mataram uns aos outros.</p>
                <p>—Vencemos!—concluiu frei Fernão—. Mas sem aquelle celeste auxilio não podia
                    prevalecer a nossa defensa contra o grande tropél e poderosas forças dos
                    inimigos. Cumprimos o que deviamos por honra nossa, com grande gloria dos
                    christãos e a mór affronta dos infieis!... E a proposito deixai-me lamentar, que
                    o senhor D. João II, sendo tão catholico, tenha a sua attenção distrahida para
                    Africa, e não nos auxilie em nossa empreza!...</p>
                <p>—Estou certo—retorquiu Pero da Covilhan—de que el-rei, meu Senhor, admira os
                    vossos esforços, e desejaria contribuir para o engrandecimento da sagrada
                    milicia; asseguro-vos, porém, que nas actuaes circumstancias do reino, não
                    podia, antes que quizesse, realizar esse desejo. Achais porventura, que sua
                    alteza deve consentir á sua porta, a vexar a christandade, o agareno insolito e
                    maldito?...</p>
                <p>—Reduzir o numero dos infieis pela conversão ao catholicismo, é sem duvida obra
                    emérita. Mas nós tambem lá iriamos ajudar el-rei, se tivessemos seguro o nosso
                    dominio na Asia...</p>
                <p>—Não se esquece sua alteza do Oriente, crêde... Se a nossa fróta podésse ir á
                    India!... O resultado seria a propagação da fé catholica n'essas regiões
                    remotas, e o augmento da gloria e riqueza de Portugal!...</p>
                <p>—Á India?!... Arrojado pensamento esse!... Pois póde el-rei conceber um tal
                    proposito?!... Por que mares chegaria lá?!...</p>
                <p>—Por que mares, não sei... O pensamento é meu... Occorreu-me agora... O que vós
                    não ignorais, sem duvida, é que nós, os portuguezes, somos aventureiros por
                    indole. Estanciados no Occidente, parece-nos o mar uma barreira constante, posta
                    a nossos olhos, para nos impedir de caminhar; por isso natural é, que estejamos
                    sempre anciosos de vencer esse obstaculo... Quem sabe se servirá de estimulo,
                    para virmos a ser um dia os primeiros navegadores do mundo?!...</p>
                <p>—Confio muito na providencia de Deus e no valor dos portuguezes; mas... Veneza
                    tem o monopolio das riquezas do Oriente; os seus depositos em Alexandria
                    fornecem o mundo inteiro; e além d'isso é a senhora dos mares, sem que ninguem
                    póssa disputar-lhe esse imperio... Se porventura ella sonhasse, que por mar se
                    podia ir á India, já lá tinha surgido a sua grande fróta...</p>
                <p>—Mas nós tambem já temos provado, que sabemos luctar com as ondas...</p>
                <p>—Assim é...</p>
                <p>—Ora dizei-me: não estará Deus a ensinar-nos o caminho da India no movimento
                    diurno do sol?... Eu me explico. Não me custa admittir, que do Oriente partisse
                    um dia grande cáfila de gente á procura do paiz do ouro. Chegaram ao Occidente,
                    e, topando com o mar, que os não deixou ir mais além, uns retrocederam, outros
                    ficaram...</p>
                <p>—Que saissem até muitos d'elles, para commerciar unicamente, facil é
                    acredita-lo—interrompeu fr. Fernão.</p>
                <p>—Pois bem. A esses primeiros povoadores do nosso sólo acompanharia sempre no seu
                    voluntario exilio a saudade da patria. E este sentimento não se transmettiria de
                    páes a filhos, como um patrimonio de seu coração?...</p>
                <p>—Mui ajustado considero o vosso conceito. Até do nosso genio aventureiro razão
                    sobeja me dá.</p>
                <p>—Uma esperança trouxe a nossa raça ao Occidente, uma saudade a levará ao
                    Oriente!... Mas pelo mar, para completarmos a nossa revolução, como o Sol!... </p>
                <p>—Prouvéra a Deus, que assim fosse!...—exclamou com enthusiasmo fr. Fernão. </p>
                <p>—Não me pertence a mim de tal cuidar. A que venho com Affonso de Paiva, é
                    procurar o tão fallado Préste João. Acaso podereis vós dar-me informações, que
                    me alumiem?... Se fôr um rei christão, como dizem, muito ganharia a nossa
                    religião santa, se com elle el-rei contraisse alliança...</p>
                <p>—Folgaria de bem vos encaminhar; mas tão escuras correm as noticias d'esse
                    afamado imperador, que chego a persuadir-me, serem todas mal fundadas.</p>
                <p>—Na Asia habita, dizem. Em que parte, porém, d'ella?</p>
                <p>—Na Asia habitará... O nosso collegio, porém, já conta em Rhodes mais de um
                    seculo, e até hoje—que eu saiba!—não tem constado cá, haver-se descoberto o
                    reino maravilhoso d'esse principe de tanta nomeada.</p>
                <p>—Informação de pêso é essa...</p>
                <p>—Com effeito existiu na Asia a monarchia do Jonanan, sendo este nome commum a
                    todos os soberanos d'ella, como foi o de Pharaó aos reis do Egypto, o de Dario
                    aos reis persas, o de Cesar aos imperadores romanos, e actualmente é o de Turco
                    aos sultões da casa ottomana. Esse nome de Jonanan, derivado de Jonas Propheta,
                    mudaram os europeus em Joan, e o pronome Preste, o mesmo que Presbytero,
                    pozeram-lh'o em razão da cruz, que sempre deante levava arvorada, como os nossos
                    arcebispos. E esse imperador christão, posto que nestoriano, obedecia ao
                    patriarcha de Babilonia, de maneira que tambem a elle obedeciam os christãos, a
                    quem na India se chamavam da Serra ou de S. Thomé. O seu imperio, porém, ha
                    muito que desappareceu.</p>
                <p>—E porque não crêr antes, que em paiz desconhecido, e cercado de mysterios o
                    Préste vive ainda, como em toda a Europa corre?... Emfim, eu a Portugal não
                    volto, sem colher informação segura, para a levar a el-rei, meu Senhor.</p>
                <p>—Nem al se deve esperar de vós, como brioso cavalleiro que sois.</p>
                <p>O resultado, que Pero da Covilhan logrou d'esta pratica, foi tornar-se-lhe cada
                    vez mais problematica a residencia, senão a existencia, do Préste João das
                    Indias. Não soffreu com isso a menor contrariedade o seu animo imperturbavel;
                    serviu antes de maior estimulo á sua diligencia.</p>
                <p>De Rhodes, onde se forneceram de mel, com que se dispozeram a negociar,
                    atravessaram os dois viajantes para Alexandria, disfarçados em mercadores.</p>
            </div>
            <div>
                <head>VIII</head>
                <head>BOAS NOVAS</head>
                <p>Era portuguez o navio, que conduziu Pero da Covilhan e o seu companheiro ao porto
                    de Alexandria. As ondas do Mediterraneo mal marulhavam em torno do costado da
                    embarcação, imprimindo-lhe uma arfagem indolente, e fazendo parecer, que o mar
                    se transformára em um grande lago azul e tranquillo. Ao cabo de uma feliz
                    derrota o navio deu fundo em frente da velha cidade egypcia, uma das mais bellas
                    e graciosas cidades do mundo antigo, e laço de união da Europa com o
                    Oriente.</p>
                <p>Estava no periodo da sua maior decadencia a patria de Euclides. A sua bibliotheca
                    celebre, que fôra a maior do mundo, e quasi todos os seus monumentos, que davam
                    brilhante e seguro testemunho da sua antiguidade gloriosa, haviam sido arrasados
                    pelos arabes, no VII seculo.</p>
                <p>De todas essas preciosidades historicas restavam unicamente: a columna de Pompeu,
                    denominada Amud-Assuari pelos musulmanos; dois obeliscos, impropriamente
                    chamados <seg rend="italic">Agulhas de Cleopatra</seg>, e as catacumbas.</p>
                <p>A sudoeste da cidade, marcando o lugar occupado antes pelo <seg rend="italic">Serapeion</seg>, ou templo consagrado a Serapis pelos Ptolomeus e um dos
                    centros do saber, no ponto de união da Necropole com o velho bairro egypcio de
                    Rakotis, levantava-se rodeada de palmeiras a columna de Pompeu, testemunha
                    sobrevivente das épocas classicas. Esta obra de arte genuinamente grega mandou
                    um prefeito romano erigir em honra do governador Diocleciano, <seg rend="italic">genio tutelar da cidade</seg>, para lhe demonstrar a sua gratidão pelo
                    trigo, com que soccorrera o povo de Alexandria. Era lavrada em syenito, com o
                    sócco quadrado, em que assentava, e o capitel corinthio, onde se erguia a
                    estatua, já mutilado. </p>
                <p>As <seg rend="italic">Agulhas</seg> consistiam em dois monolithos de granito
                    avermelhado, em parte revestidas com laminas de prata dourada. Foram
                    anteriormente dois monumentos: um, o <seg rend="italic">Sebasteion</seg>, em
                    honra de Tiberio; o outro, á gloria de Thutmosis III, quando o Egypto attingiu
                    as culminancias do esplendor, e, por consequencia, seculos antes da fundação da
                    Alexandria no terreno, em que assentava a velha aldeia de Rakotis.</p>
                <p>No segundo obelisco viam-se os hieroglyphos, que celebravam o nome d'aquelle
                    Pharaó.</p>
                <p>Primitivamente ambos os monumentos tinham sido consagrados a Râ, o deus do Sol,
                    adorado em todo o Egypto, e em um bello templo de Héliopolis mais especialmente,
                    sob a fórma do boi Mnévis. D'esse templo os removeram para Rakotis.</p>
                <p>Na extremidade oriental da ilha de Pharo, que os Ptolomeus ligaram á terra firme
                    por meio de um mólhe de cantaria, denominado <seg rend="italic">Heptastadion</seg>, campeava ainda o pharol, que mereceu ser contado em o
                    numero das maravilhas do mundo, e realmente maravilha da esplendida capital do
                    Egypto grego.</p>
                <p>Era uma torre quadrada, cuja altura excedia muito a da pyramide de Cheops, e que
                    Ptolomeu Philadelpho consagrou a seus páes, mandando-a revestir de marmore
                    branco por Sostrato de Knido. Este architecto celebre gravou o proprio nome
                    sobre o marmore, cobrindo a inscripção de encaustica brilhante, em que traçou o
                    do soberano. O tempo encarregar-se-ia de desfazer o revestimento, pondo a
                    descoberto o nome do vaidoso e desleal artista.</p>
                <p>Como a torre ameaçava ruina, em frente d'ella havia principiado outra igual
                    Melik-al-Nasser-Mohammed, nono sultão mameluco do Egypto, da dynastia dos
                    Baharitas, e que tanto animou a agricultura e as artes; mas a morte
                    surprehendeu-o logo, não lhe permittindo executar a sua obra.</p>
                <p>Muito de corrida viram tudo isso os nossos viajantes, e pouco mais, pois que uma
                    fébre maligna os prostou. </p>
                <p>Ainda mal restabelecidos, subiram ao Cairo, commerciando sempre, por haver
                    successivos mercados desde Alexandria até áquella cidade, e fazendo a ultima
                    parte da jornada pelo Nilo, que vinha descendo n'esta região por entre alegres
                    povoações mui visinhas umas das outras, e corria a pequena distancia da capital
                    do Egypto, a qual demorava na margem direita.</p>
                <p>Alguns dias depois de chegarem a este grande centro de commercio, encontráram-se
                    com mercadores de Féz e Tremecem, que seguiam para Aden. Ajuntáram-se á caravana
                    d'esses mouros, e com elles partiram caminho de Tór. D'esta cidade do Hedjaz,
                    pequena, mas graciosa, assentáda á borda do golpho de Suez, ao longo de uma
                    bella praia, navegaram em um zambuco para Suaquem, riquissima cidade da Nubia,
                    na costa africana do mar Vermelho, e d'ahi para Aden.</p>
                <p>Pero da Covilhan approximava-se da India; e, sem embargo de haver saído de Rhodes
                    com pouca esperança de dar lá com o Preste João, anciava cada vez mais conhecer
                    a hydrografia do Oriente, e fazer um estudo consciencioso do commercio das
                    especiarias.</p>
                <p>Tomára o nome, as ceremonias e os costumes de mouro, mas Deus sabia, que a sua
                    alma era christã e portugueza de lei. A convivencia com os infieis mais lhe
                    arraigava no coração as suas crenças. O seu melhor companheiro, e confidente
                    unico, era a imagem de Thereza, a guiar-lhe os passos, animando-o ao mesmo tempo
                    a proseguir audacioso e firme. Observando tudo com olhos de quem sabia ver, nem
                    uma exclamação nem um gesto eram capazes de trahi-lo, ou de levantar a suspeita,
                    de que não fosse mercador ismaelita.</p>
                <p>Quando aportou á bahia de Aden, esta importante cidade maritima da Arabia
                    produziu-lhe viva impressão, que passou completamente despercebida aos olhos dos
                    tripulantes e mercadores que o cercavam.</p>
                <p>Defrontou com uma serra mui alta, aspera e crespa, tendo varias quebradas e picos
                    muito agudos, alguns dos quaes fortificados. Ao vê-la assim recortada,
                    lembrou-lhe a serra da Cintra, por parecer-lhe mui similhante. Parte d'ella
                    mettia pelo mar, formando uma comprida peninsula, que talhava duas formosas e
                    largas enseadas, e na de léste espelhava-se a muralha da cidade.</p>
                <p>Com effeito Aden, edificada ao sopé da serra, era defendida, para a banda do mar,
                    por um extenso lanço de muro, dividido em muitos pannos por meio de cubellos
                    redondos, e de um lado entestando em uma penha cortada a pique, do outro em um
                    môrro, junto do qual havia um baluarte rouqueiro, cujos tiros podiam varrer a
                    praia. O môrro tornava-se um ilhéo com o preamar, e até ao seu cume, onde estava
                    um castello, subia do baluarte um muro, que torneava o môrro. Por duas portas,
                    ambas juntas, se entrava na cidade, indo da praia; e, por unica serventia do
                    lado da terra, em um caminho aberto na rocha de uma quebrada, havia tres portas
                    consecutivas, protegida cada uma por sua fortificação.</p>
                <p>Plana, de boa casaria coberta por terrados, em razão do ardor vivissimo do clima,
                    Aden, para ter agua, precisava de manda-la buscar ás fontes detraz da serra, em
                    ôdres transportados por camêlos e juntar a da chuva em enormes tanques abertos
                    na rocha.</p>
                <p>O seu principal commercio consistia na venda de mantimentos, de que sempre estava
                    abastecida. A ella desciam os mercadores arabes com os productos de seus paizes,
                    e d'ella levavam a varios mercados as exportações da India, para as caravanas de
                    Damasco e de toda a Asia menor as passarem á Europa pelo Mediterraneo. Por tal
                    motivo a maior parte das náus contentava-se com chegar a Aden, e não curava de
                    entrar as portas do mar Vermelho.</p>
                <p>Como Pero da Covilhan soubesse n'esta cidade, haver na Ethiopia um grande rei
                    christão, e considerasse, que o Préste se chamava das Indias, convencionou com
                    Paiva, proseguir este no caminho da Ethiopia e elle no da India, aproveitando
                    logo a monção. Ficaram todavia de se ajuntar ambos em determinada época no
                    Cairo, e aqui darem mutuamente conta das novas, que alcançassem.</p>
                <p>Affonso de Paiva foi, pois, em uma gelva para Zeila, capital de Adel na costa
                    oriental da Africa, e Pero da Covilhan demandou em uma náu mourisca a cidade de
                    Calicut.</p>
                <p>Era Pero da Covilhan o primeiro portuguez conhecido, que atravessava o Oceano
                    Indico.</p>
                <p>A náu, que o transportava, tinha, como quasi todas as da India, um só mastro sem
                    gávea, aguentado pelos cabos para a borda, e pelas adriças da véla, que os
                    ajudavam para ré. O leme largo e de taboas delgadas governava com gualdrópes
                    para a borda, alados por um e outro bordo. Ligeiramente construida, de poucas
                    cavernas, e forrada apenas exteriormente, seu taboado cozido a cairo, e de igual
                    modo fixo ao cavername, marcava a differença que ella fazia das pregadiças, nas
                    quaes em vez de quilha havia fundo largo.</p>
                <p>A véla, de pendão, era um trapézio de amplas dimensões, ligando o punho da amura
                    a uma antenna, que podendo debruçar-se da borda, permittia á náu navegar em
                    melhor linha de bolina.</p>
                <p>Por causa da véla, de difficil manobra, tornava-se necessario arrear para cambar
                    de bordo; e, para diminuir superficie, havia no panno uma especie de rizes,
                    parecendo inteiramente desconhecido o uso de monetas.</p>
                <p>Nenhum mareante breava a sua embarcação; tornava-a, porém, muito estanque,
                    betumando as costuras do taboado com <seg rend="italic">quil</seg>, e untando-as
                    com azeite de peixe, levado á consistencia de sêbo. Assim vedavam tambem os
                    tanques, em que traziam a agua, os quaes consistiam em grandes cubos de madeira
                    com capacidade para trinta ou quarenta pipas, e com as paredes escoradas interna
                    e externamente.</p>
                <p>O batel andava atoado, e sómente o mettiam dentro, quando atravessavam da India
                    para o mar Vermelho.</p>
                <p>Nas ancoras de pedra ou de madeira rija, na arca da bomba, e em outras
                    particularidades de construcção, esta náu differia muito das portuguezas. Sem
                    coberta, e com a borda feita de esteiras impremiaveis, levava a carga arrumada
                    em compartimentos separados, e resguardada da chuva por folhas sêccas de
                    palmeira, postas em fórma de telhado de duas aguas.</p>
                <p>Desprovida de agasalhados, que permittissem aos tripulantes e passageiros
                    abrigar-se, iam, uns e outros, expostos ao tempo, salvo quando o vento soprava
                    muito rijo ou caia alguma chuva, pois que em taes casos recolhiam-se em uma
                    especie de choupana de óla, encostada ao mastro, ou armada a ré, por cima das
                    esteiras de rotas, com que cobriam a carga.</p>
                <p>O typo do fogão, em que cada um cozinhava, reduzia-se a uma caixa de madeira,
                    cheia de areia, sobre a qual collocavam tres pedras, que serviam de trempe. O
                    côco, o peixe sêcco e o arroz constituiam os principaes manjares da quotidiana
                    alimentação.</p>
                <p>E com embarcações tão frageis, como a succintamente descripta, se fazia a
                    navegação dos mares indicos, durante sete mezes de cada anno, sendo depois
                    varadas nas praias e cobertas com óla, á espera de nova monção.</p>
                <p>Hoje, que tão commoda e rapidamente se viaja, mal se comprehende que, sem um
                    movimento superior a impulsiona-lo, Pero da Covilhan fizesse esta travessia em
                    similhantes condições, e nem um momento sentisse desfallecer-lhe o animo!</p>
                <p>Que provas de valor, dedicação e lealdade ia accumulando na sua peregrinação
                    arriscadissima, para offerecer ao rei, que o enviára, e a Thereza, por quem tudo
                    soffria resignado!</p>
                <p>A viagem continuava sem o menor incidente. Um dia, porém, no Céo, que permanecia
                    sereno, algumas nuvens similhantes a vapores cobreados, corriam por elle com
                    ligeireza superior á das aves, ao passo que sulcavam o mar cinco ou seis vagas
                    longas e crescidas, parecendo-se com cordilheiras de collinas, separadas umas
                    das outras por largos e profundos valles. O vento soltava dos vertices angulosos
                    de todas essas collinas aquaticas uma especie de coma de espuma, em que
                    refulgiam aqui e além as brilhantes côres do Iris, e levantava igualmente
                    redemoinhos, como que de poeira esbranquiçada. Mas o mais terrivel era, que os
                    tôpos d'esses vagalhões com a violencia do vento enrolavam-se sobre si, formando
                    enormes abobadas, espumando e rugindo como féras gigantes iracundas. A náu, sem
                    governo, vogava de capa, e não era senão joguete do vento e das ondas. Subia
                    essas serranias inclinada sobre um dos bordos, quasi virada, chegava ao cimo,
                    equilibrava-se, e descia depois rapidamente com egual perigo o lado opposto, em
                    quanto se escoava, saindo por debaixo d'ella como de uma comporta, um largo
                    lençól de espuma.</p>
                <p>Se fosse muito duradoura esta tempestade medonha, esta borrasca sêcca, mas
                    horrenda, a fragil embarcação sossobraria irremediavelmente.</p>
                <p>Salvou-se!</p>
                <p>Com a sua bandeira verde içada no tópe do mastro, a náu arribou a Cananor, para
                    fazer aguada e tomar lenha.</p>
                <p>A doze legoas para o Sul na mesma costa do Malabar, demorava Calicut; e, por ser
                    a costa mui limpa, a náu, depois de refrescar, seguiu perto de terra o seu rumo
                    com terrenho galerno e perfumado a enfunar-se na véla.</p>
                <p>Chegou Pero da Covilhan a Calicut. Cananor pouco abalo havia produzido no seu
                    espirito. Calicut deslumbrou-o. Tinha deante de seus olhos a opulencia e a
                    belleza da primeira cidade do Malabar, e a sua phantasia, que lhe pintára com as
                    côres mais vivas a vegetação luxuriante da India, não o illudira, pois o
                    maravilhoso painel, que estava contemplando, era superior ainda ao que a sua
                    imaginação havia sonhado.</p>
                <p>Em um vastissimo jardim á beira mar, com arruamentos arbitrariamente traçados,
                    estava disseminada a casaria da cidade, sobresaindo os mais nobres edificios no
                    meio das alfombras odoriferas dos canteiros, das hortas viçosissimas e dos
                    palmares giganteos. Junto da praia as palhotas dos pescadores mucuás, e em
                    lugares apartados as dos pobres poleás, a gente baixa e vil, eram a sombra do
                    quadro, em que resplandecia a sumptuosidade dos pagódes, a elegancia das
                    habitações nobres, e a magnificencia dos paços do rajah, que rematavam a cidade
                    a grandissima distancia da praia.</p>
                <p>A cada passo via Pero da Covilhan nas ruas os vaidosos naires, com suas espadas
                    núas e rodellas uns, outros com lanças, e ainda outros com arcos e frechas; e os
                    poleás a bradar, para que os naires se desviassem, ou a fugir, quando topavam
                    com elles de subito, pelo receio que tinham de serem suas victimas.</p>
                <p>Passavam pelos naires, e podiam até toca-los, os brahmanes. Estes traziam a
                    tiracólo o seu distinctivo de religiosos, o qual, dos sete aos quatorze annos,
                    consistia em uma correia de pelle crua com pêllo de uma especie de jumento
                    silvestre; e, dos quatorze por deante, em uma fita de linha dobrada de tres
                    fios, com a largura de dois dedos, como a correia.</p>
                <p>Tambem os nobres saíam á rua em andores, que, conforme o seu tamanho, dois ou
                    quatro escravos levavam aos hombros. O nobre ia assentado ou deitado,
                    ordinariamente mascando o seu béthel, e resguardando-o do sol ou da chuva um
                    sombreiro seguro por um escravo, a que os malabares chamavam <seg rend="italic">boi</seg>.</p>
                <p>Os naires não se limitavam unicamente a prohibir aos poleás, que se approximassem
                    d'elles. Mais ainda. Como o poleá era o escravo e o trabalhador encarregado do
                    amanho das terras, o naire dava-lhe as suas ordens a uma certa distancia, indo
                    immediatamente depois lavar-se, mudar de fato, purificar-se. E mantinha-se tanto
                    esta differença de castas, que um poleá nunca podia remir o peccado original do
                    nascimento. Nascia villão, havia de morrer villão.</p>
                <p>Taes costumes dos gentios impressionaram vivamente o coração generoso de Pero da
                    Covilhan.</p>
                <p>O commercio do Oriente estava nas mãos dos mouros, cujas embarcações eram por
                    isso os unicos meios de communicação entre os diversos portos.</p>
                <p>Pero da Covilhan, que necessitou de lançar-se n'esse trafico, não podia fazer
                    itinerarios á sua vontade, e accommodava-se ás circumstancias tirando d'ellas
                    todo o proveito.</p>
                <p>Foi assim que logrou vêr Gôa, a guerreira capital do reino do Sabaio; Ormuz, o
                    emporio commercial do golfo persico; e Sofála, a rica cidade da Africa
                    meridional, aonde affluiam os mercadores, para o resgate do ouro das minas de
                    Monomotapa.</p>
                <p>Restava-lhe obter noticias positivas ácerca de Préste João; mas contava, que
                    lh'as désse Affonso de Paiva, o qual, como vimos, fôra á Ethiopia com o cuidado
                    de as trazer. Voltando, pois, ao Cairo, conforme havia aprazado com o seu
                    companheiro, soube alli, que este fallecera.</p>
                <p>Tal acontecimento foi a primeira contrariedade séria da sua viagem. Com os vagos
                    conhecimentos, que adquirira, a respeito da existencia do Préste, não se animava
                    a regressar a Portugal. Parecia-lhe, que não saciaria com tão pouco os
                    vehementes desejos de D. João II, n'aquelle ponto.</p>
                <p>—De muito pósso eu já dar conta a el-rei; mas não de tudo quanto me
                    incumbira...—pensava Pero da Covilhan.</p>
                <p>Chegou a hesitar um momento na resolução, que deveria tomar, e mais conviria ao
                    serviço de seu real amo.</p>
                <p>N'esta conjunctura apparecem-lhe inesperadamente dois judeus portuguezes, que o
                    buscavam e que para saberem d'elle na bella cidade de Amron, na opulenta rainha
                    mussulmana do Oriente, no labyrinto immenso d'essa Babel, em tão embaraçosas
                    situações se viram, que tiveram por vezes perdida a esperança de
                    encontra-lo.</p>
                <p>Em boa hora vieram. Um d'elles era o rabbi Abraham, natural de Beja; o outro,
                    Joseph, de Lamego; ambos mensageiros de D. João II.</p>
                <p>—Á procura de vós andavamos!—exclamou o rabbi, ao dar casualmente com Pero da
                    Covilhan.</p>
                <p>Este ao ouvir, pela primeira vez, fallar a sua lingua no Cairo, experimentou um
                    prazer novo, uma sensação gratissima, e respondeu:</p>
                <p>—Aqui me tendes, e muito me praz vêr-me tão longe da patria com portuguezes. O
                    que me quereis, e a que vindes?...</p>
                <p>Abraham, entregando a Pero da Covilhan as cartas, que para elle trazia, de D.
                    João II, disse-lhe:</p>
                <p>—Eu e o meu companheiro Joseph, mensageiros de el-rei somos, como por essas
                    cartas vereis. Lêde-as, pois, e ellas nos acreditarão.</p>
                <p>—E como podéstes reconhecer-me, no meio d'esta Babylonia?...—perguntou Pero da
                    Covilhan.</p>
                <p>—Guiou-me principalmente a cicatriz, que tendes nas costas da mão
                    esquerda...—respondeu Abraham, apontando para ella.</p>
                <p>—Nem este vestigio das minhas travessuras de creança escapou a el-rei meu
                    senhor!...—replicou Pero da Covilhan, sorrindo.</p>
                <p>—Além d'isso descreveu-me el-rei com tanta precisão a vossa physionomia, que não
                    era facil enganar-me, apesar de terdes a barba algo crescida.</p>
                <p>Nas cartas, que Pero da Covilhan recebeu, ordenava-lhe D. João II, que fosse
                    mostrar a cidade de Ormuz ao rabbi, e que, se não estivesse ainda bem instruido
                    de tudo a que fôra, mandasse pelo judeu Joseph novas do que sabia, não devendo
                    voltar ao reino sem ter visto o Préste João.</p>
                <p>Joseph observou, que, tendo visitado já a cidade de Bagdad, ouvira lá fallar
                    muito de Ormuz, e de como vinham ter as especiarias e riquezas da India ás
                    cidades de Alépo e Damasco. Do que vira e lhe informáram, fizera depois a
                    narrativa a el-rei, que muito folgou, e lhe déra protecção, para emprehender
                    esta nova viagem, que concertára com o rabbi.</p>
                <p>—De tudo estou inteirado—disse Pero da Covilhan.—A vós, Joseph, vou
                    immediatamente despachar com cartas para el-rei, meu Senhor; e—voltando-se para
                    Abraham—comvosco tornarei a vêr Ormuz.</p>
                <p>N'aquellas cartas, de que foi, com effeito, portador o judeu de Lamego, fazia
                    Pero da Covilhan miuda relação da sua visita aos principaes portos, que serviam
                    de escala ao commercio oriental, e onde verificára, que a corrente d'este
                    entrava pelo mar Vermelho, indo concentrar-se em Alexandria, seu principal
                    deposito, de que tinham os feitores de Veneza a pósse, garantida por tratado com
                    o sultão do Egypto.</p>
                <p>A respeito do porto de Calicut informava que de lá saíam, não só as especiarias,
                    senão tambem tudo quanto a India exportava de mais rico, attrahido áquella
                    cidade pelos seus mercadores, os mais poderosos e opulentos mouros do
                    Malabar.</p>
                <p>Enaltecia a importancia de Ormuz, dizendo, que era a India annel valiosissimo, e
                    Ormuz a pedra preciosa engastada n'elle.</p>
                <p>A proposito encarentava as bellissimas perolas de Bahrein, as esmeraldas de
                    Bagdad, as turquezas de Exaquirimane, os carbunculos ou rubis de Pegu, as
                    espinellas de Ceylão e Cananor, e os diamantes da Golconda.</p>
                <p>Mostrando com numerosos factos, que tudo no Oriente era grande, assombroso,
                    parecendo que Deus se havia esmerado em alli conservar eternamente um reflexo
                    brilhante da sua Omnipotencia, fechava Pero da Covilhan uma das suas cartas com
                    a seguinte informação: «Navegando-se pela costa da Guiné adeante, chega-se ao
                    termo do continente: persistindo na derrota para o Sul, e logo dobrando a costa
                    no Occeano indico, o melhor rumo é demandar Sofála, ou uma grande ilha, que os
                    mouros chamam da Lua (Madagascar), e fica mais para a banda do Sul». E
                    addicionou: «em Sofála me foi asseverado pelos mercadores mouros, que dos máres
                    da Guiné se póde navegar para a India».</p>
                <p>Em outra carta, na qual dava noticia da morte de Affonso Paiva, communicava
                    tambem, que, emquanto andou pela India, sómente em Cananor ouvira fallar no
                    Préste João, affirmando os mouros, «que este rei christão estava tão longe
                    mettido nas suas terras, que não sabia, que cousa era gente do mundo, e que para
                    ellas ia-se pelo mar Vermelho». E, posto que os mouros não déssem a esse rei o
                    nome de Préste, como já no Cairo e em Aden haviam contado a elle Pero da
                    Covilhan muitas cousas do rei abexim, de ser christão, trazer cruz alçada, e
                    possuirem seus estados alguns mosteiros de religiosos, «se veiu a persuadir, que
                    não tinha para que passar adeante, a buscar o que não sabia que houvesse, tendo
                    tão pérto o que lhe diziam que na Ethiopia havia». Cumprindo, pois, as ordens de
                    Sua Alteza, ia mostrar Ormuz ao rabbi Abraham, e na volta procuraria em pessoa o
                    Préste.</p>
                <p>Despedido o judeu Joseph, que partiu logo em direcção a Portugal com as cartas e
                    outros documentos, Pero da Covilhan e o rabbi subiram a Aden, e d'este porto
                    sahiram para Ormuz.</p>
                <p>Quantas vezes assaltaram Pero da Covilhan ardentissimos desejos de conversar
                    largamente com o seu novo companheiro ácerca da vida intima da côrte
                    portugueza!...</p>
                <p>O que poderia, porém, saber d'ella o rabbi?...</p>
                <p>Continuava, pois, Pero da Covilhan a ser o confidente de si proprio; e a
                    esperança, que mais lhe sorria agora, de ver seus sonhos de gloria realisados,
                    era o melhor lenitivo da sua saudade.</p>
                <p>—Que prazer não sentirá Thereza, quando souber, que mandei dizer a el-rei qual é
                    o caminho da India pelo mar!...—repetiam os echos da sua alma radiante e
                    apaixonada.</p>
                <p>E o infatigavel explorador lá foi de novo atravessar as aguas do mar d'Oman.</p>
            </div>
            <div>
                <head>IX</head>
                <head>CONSTANCIA</head>
                <p>Nunca na côrte portugueza se prestou mais livre, menos recatado culto ao
                    espirito, á elegancia, e á formosura da mulher, do que durante os primeiros nove
                    annos do curto reinado de D. João II. Os serões do paço eram exhibição
                    permanente de requebros, de arrufos, de ironias, de motejos deliciosos.</p>
                <p>Depois que Pero da Covilhan saíu de Portugal, Maria Thereza tinha uma repugnancia
                    invencivel em assistir a esses passatempos, e, quando apparecia, era unicamente
                    por obediencia.</p>
                <p>Ainda em Santarem, uma noite folgava, como de costume, a mocidade fidalga nas
                    salas do palacio real. Os cortezãos, que, nada tendo em geral a contemplar na
                    sua alma, por a trazerem sempre vasia de affectos e attestada de egoismo, a tudo
                    estão attentos, reparavam, que a Maria Thereza faltava a sua natural animação,
                    aquelle seu ar de interessar-se pelo que a cercava; e não sabiam explicar, como
                    ella nem sequér encobria o seu incomprehensivel e subito recolhimento.</p>
                <p>Maria Thereza, com effeito, quasi não era senhora de si, para antepôr ás suas
                    meditações, porventura chimeras muito queridas, o cuidado de transigir um tanto
                    ao menos, com as hypocrisias da côrte, para se não tornar intratavel.</p>
                <p>Os seus adoradores, que eram muitos, perguntavam uns aos outros: o que terá Maria
                    Thereza, ainda ha pouco tão leda e desenvolta, critiquizando maliciosamente os
                    assumptos de nossas trovas, ouvindo e applaudindo com riso franco e jovial
                    nossos apodos, e agora tão calma, e lenta em animar-se?!...</p>
                <p>—E o mais estranho—observou Pedro de Barcellos—é, que não occulta o seu mau
                    humor, quando algum de nós tenta galantea-la!...</p>
                <p>—Até se torna menos sombria, e fica logo quasi alegre, quando se
                    insiste...—accrescentou Jorge da Silveira.</p>
                <p>—De experimentados fallais ambos!...—atalhou D. João de Menezes</p>
                <p>—Quem não hade gostar de Thereza!...—tornou Pedro de Barcellos.</p>
                <p>—Toda a côrte sabe, que ella é a predilecta da rainha, com quem réza diariamente,
                    horas esquecidas!... Váe caminho do claustro a formosa menina!...—exclamou
                    Gonçalo da Fonseca.</p>
                <p>Apesar da sua edade, já um pouco avançada, Gonçalo da Fonseca amava a convivencia
                    dos môços, e estes, como elle era de pequena estatura, chamavam-lhe Gonçalinho.
                    Dava-lhe prazer esse tratamento, não só por ser affectuoso, mas porque lhe
                    recordava uma amabilidade de D. João II, tão propria do caracter d'esse
                    soberano, como o leitor vae vêr.</p>
                <p>Um dia Pedro da Silva, commendador-mór de Aviz, chamou-lhe Gonçalinho na presença
                    do rei. Este não tomou o diminutivo por signal de confiança, senão por gracejo
                    deprimente, e disse, com um modo muito sêcco, a Pedro da Silva: «se vós vos
                    tomardes com elle, hade parecer-vos Gonçalão».</p>
                <p>Este Gonçalo da Fonseca tinha sido embaixador de D. Affonso V junto dos duques de
                    Borgonha, e D. João II mandou-o com Diogo de Azambuja, Duarte Pacheco, e outros,
                    erigir a fortaleza da Mina.</p>
                <p>Voltemos, porém, ao ponto.</p>
                <p>A conversação continuou, trocando-se ditos maliciosos e crepitantes, ácerca dos
                    mais fallados galanteios da côrte, e prolongou-se, até que, apparecendo Garcia
                    de Rezende, se deu principio ao <seg rend="italic">jogo dos naipes</seg>.</p>
                <p>Maria Thereza, a quem no meio das reflexões serias, que lhe tomavam a alma, os
                    vãos discursos ceremoniosos, que ouvia em volta de si, pareciam mais
                    desagradaveis ainda, havia chegado a uma janella aberta sobre um jardim. Fôra
                    alli respirar o perfume das flôres, e esse prazer parecia infundir algum alento
                    em seu coração entristecido. Estava fazendo confidentes suas as florinhas, as
                    quaes, por seu turno, como que lhe agradeciam a confiança, embalsamando cada vez
                    com mais delicia o ar que ella respirava. De vez em quando voltava-se para a
                    sala, por estar sempre de alcatea, não a chamasse a camareira-mór, que sobre
                    ella exercia a mais particular e carinhosa vigilancia, muito recommendada pela
                    rainha.</p>
                <p>Em um d'aquelles movimentos, Maria Thereza viu Pedro de Barcellos a dirigir-se
                    para a janella. Ficou contrariada, e pelo seu pensamento passou rapidamente a
                    seguinte exclamação:—infeliz lembrança!... E tenho de attender com fingido
                    agrado este importuno!...</p>
                <p>Ao mesmo tempo no cérebro de Pedro de Barcellos cruzava-se um tropél de duvidas,
                    de esperanças, e de receios, ao passo que o seu coração se debatia em ancias de
                    tranzido amor.</p>
                <p>O apaixonado môço cumprimentou Maria Thereza, mas sem poder dizer-lhe:—como sois
                    bella!... que expressão de pensamento profundo!... que physionomia
                    angelica!...—e tantas outras phrases de admiração e amor, que lhe estavam a
                    saltar dos labios, e os echos da alma lhe repetiam.</p>
                <p>Enlevado na contemplação da formosura celeste de Maria Thereza, e não logrando
                    evitar, que fosse trahido pelo olhar ardente, com que a fitava, rompeu o curto
                    silencio, que se seguiu aos reciprocos cumprimentos, com esta interrogação
                    banal:</p>
                <p>—Não vos interessa o <seg rend="italic">jogo dos naipes</seg>?</p>
                <p>—É sem duvida um gracioso invento de Garcia de Rezende; mas não me praz tomar
                    hoje parte n'essa diversão—respondeu Maria Thereza.</p>
                <p>—Por melhor que fosse a sorte que vos saisse, seria sempre inferior á que
                    mereceis...</p>
                <p>—Lisongeiro!... E porque não ides tambem tirar uma carta?...</p>
                <p>—Porque da minha sorte sómente vós podeis decidir...—retorquiu com certa
                    intimativa Pedro de Barcellos.</p>
                <p>—Eu!?... Grande poder me confiais!...</p>
                <p>—E não o quereis?...</p>
                <p>—Para quê?...</p>
                <p>—Para me libertardes da sujeição em que me trazeis...</p>
                <p>—Pois crêde, que não tinha a consciencia da minha tyrannia...</p>
                <p>—É que não quereis comprehender o olhar, com que vos admiro...</p>
                <p>—Devaneais, primo!</p>
                <p>—Acaso tão pouco vos mereço, que mal pareça ser vosso servidor?—instou Pedro de
                    Barcellos com forçado sorriso.</p>
                <p>—Quem, como vós, pode fazer pontaria a grandezas, e leva a palma aos mais
                    vaidosos em prendas de cortezão, seguro deve estar de seus merecimentos... O ar,
                    com que fizestes essa pergunta, manifesta bem que tendes a consciencia
                    d'elles...—redarguiu com reflexiva gravidade Maria Thereza.</p>
                <p>—Devem de certo ser brilhantes á luz da vossa phantasia primorosa; prefiro,
                    porém, ás gentilezas do vosso espirito os apreços do vosso coração. Se me não
                    julgais indigno de vós, porque não acceitais o amor que vos offereço?...</p>
                <p>—Porque nunca poderia corresponder-lhe.</p>
                <p>—Condemnais-me, pois, a um desprezo eterno?...</p>
                <p>—Não sejais injusto. Não vos desprézo, estimo-vos.</p>
                <p>Convém recordar que, nos frequentissimos galanteios da côrte de D. João II, os
                    versos eram o preludio do amor. Por isso Pedro de Barcellos replicou a Maria
                    Thereza:</p>
                <p>—Agradeço a vossa estima, e sobre todas muito a prézo; mas ficai certa, de que
                    sem o vosso amor jámais poderá haver para mim ventura n'este mundo:</p>
                <lg>
                    <l>«Por mais mal que me façais</l>
                    <l>nunca mudar me fareis</l>
                    <l>até que não me acabeis.</l>
                </lg>
                <lg>
                    <l>Minha fé, minha firmeza</l>
                    <l>Em vosso poder está;</l>
                    <l>soffrerei minha tristeza,</l>
                    <l>pois vossa mercê m'a dá.</l>
                </lg>
                <lg>
                    <l>E meu bem nunca fará</l>
                    <l>mudança, nem a vereis,</l>
                    <l>até que não me acabeis.»</l>
                </lg>
                <p>—Bello villancete, primo!...</p>
                <p>—Não me pertence. Exprime, porém, com tanta verdade o que sinto, que me lembrei
                    de recita-lo...</p>
                <p>—E não tendes prezente composição alguma vossa?...</p>
                <p>—Porque m'o perguntais?... Poderia ella porventura agradar-vos?...</p>
                <p>—Não vos disse já, que vos estimo?...</p>
                <p>Este colloquio ia tomando uma phase mais amena, e Pedro de Barcellos, depois de
                    grande hesitação, e com um receio immenso de ser desagradavel a Maria Thereza,
                    confessou-lhe francamente, que se demorava em Portugal por causa d'ella.
                    Protestou-lhe, que não tinha, nem teria nunca outro desejo mais ardente, senão o
                    de consagrar-lhe a vida inteira, se esse anjo de graça e de bondade acceitasse a
                    offerta sem reserva, que lhe fazia d'ella; e terminou, perguntando-lhe com a
                    maior formalidade:</p>
                <p>—Porque me não concedeis a vossa mão?...</p>
                <p>—Porque não pósso, primo; e rogo-vos, que não insistais...—respondeu Maria
                    Thereza com ar tão nobre e de tão expressivo desengano, que impôz o maximo
                    respeito a Pedro de Barcellos.</p>
                <p>Este, reconhecendo que seria importuna e pouco delicada qualquer instancia, disse
                    a Maria Thereza: </p>
                <p>—Pois bem, prima; vou recitar-vos uma composição minha, de que ninguem mais
                    saberá, senão vós.</p>
                <p>E, com o coração amargurado, recitou Pedro de Barcellos o seguinte
                    villancete:</p>
                <lg>
                    <l>Aqui, onde vou deixar-vos,</l>
                    <l>esse vosso doce olhar</l>
                    <l>nunca me verá tornar.</l>
                </lg>
                <lg>
                    <l>Para o mar vou sem ventura,</l>
                    <l>sendo mais vosso cativo!</l>
                    <l>Serei morto, sendo vivo,</l>
                    <l>sem ver vossa formosura,</l>
                    <l>pois que a minha sorte dura</l>
                    <l>de vós me quér apartar</l>
                    <l>para nunca mais tornar.</l>
                </lg>
                <lg>
                    <l>E se bem, que me confórte,</l>
                    <l>esperar me não é dado,</l>
                    <l>melhor é ditosa morte,</l>
                    <l>que viver desesperado.</l>
                    <l>Acabe assim o cuidado</l>
                    <l>de sómente em vós cuidar,</l>
                    <l>e no vosso doce olhar!...</l>
                </lg>
                <p>—É realmente mimoso o vosso villancete, e muito pesar tenho, de que não o
                    divulgueis, pois n'elle se revela um dóte mais do vosso aprimorado espirito...
                    Está-me chamando a camareira-mór!... Quando regressais á ilha?... Crede, que
                    fico sendo-vos muito affeiçoada...</p>
                <p>Maria Thereza cortou assim o dialogo, que lhe parecia ter sido já demasiado
                    longo.</p>
                <p>Ácerca d'ella pouco mais accrescentarei. Distinguia-se na côrte pela extrema
                    bondade de caracter, alliada a uma prudencia tão singular, como precoce. Da sua
                    belleza peregrina basta dizer, que a todos agradava, e isto melhor a explica, do
                    que a mais completa das descripções. A sua orphandade contribuia tambem para
                    ella merecer as geraes sympathias, de que gozava; mas quem verdadeiramente a
                    extremecia era a rainha, a qual muitas vezes pensava com certa tristeza na
                    possibilidade de perder um dia o primeiro lugar, que sempre tinha occupado no
                    coração diamantino da sua filha adoptiva.</p>
                <p>D. Leonor ignorava ainda, que Pero da Covilhan lhe havia roubado essa
                    primazia.</p>
                <p>Pedro de Barcellos tentou requesta-la. Teve, porém, de conformar-se com a sua
                    recusa formal. A seriedade da mulher digna impõe-se irresistivelmente ao
                    respeito do homem. É uma arma poderosa, com que a mulher se defende contra os
                    perigos sociaes, e, quando sabe servir-se d'ella, triumpha e domina.</p>
                <p>Pedro de Barcellos, ou Pedro Pinheiro de Barcellos, tinha o genio aventureiro da
                    sua época. Era dominado por um pensamento constante, que se reflectia do seu
                    amor á gloria. Oriundo da ilha de Barcellos, havia passado á ilha Terceira,
                    poucos annos depois de descoberta, e foi um dos primeiros povoadores d'essa joia
                    do formosissimo archipelago açoriano.</p>
                <p>Com o illustre flamengo Jacome de Bruges, primeiro capitão donatario d'essa ilha,
                    tinha ido a povoa-la Gonçalo Annes da Fonseca, cavalleiro muito nóbre da cidade
                    de Lagos, ao qual coubéram na partilha, que se fez, das terras da Terceira, as
                    dilatadas campinas, que se extendem entre Porto Martim e os Paues das Vaccas.
                    Tomou Gonçalo Annes posse da sua data, que era um grande condado, e voltou a
                    Lisboa, d'onde regressou á ilha já casado com D. Mecia Annes de Andrade, filha
                    do doutor João Machado, descendente legitimo da casa dos <seg rend="italic">Ricos-homens</seg> de <seg rend="italic">Entre Homem e Cavado</seg>, e por
                    consequencia tambem <seg rend="italic">rico-homem</seg>.—No principio da
                    monarchia era essa a maior dignidade depois da Real, e aos que a possuiam, não
                    só o rei lhes chamava <seg rend="italic">primos</seg>, senão tambem estavam
                    cobertos e assentados na sua presença; e não tomava o soberano deliberação
                    alguma assim nas cousas da paz, como nas da guerra, sem o conselho d'elles.</p>
                <p>Do consorcio de Mecia de Andrade com o illustre algarvio Gonçalo Annes da Fonseca
                    houve quatro filhos e cinco filhas, sendo o primogenito o primeiro varão, que
                    nasceu na Terceira.</p>
                <p>Adoptaram todos o patronymico Gonçalves de seu páe e o appellido Machado de sua
                    mãe, pois que foi estylo observadissimo até o reinado de D. Manoel, ou, com mais
                    rigor, até o de D. Duarte, tomarem os filhos por sobrenome o nome proprio de seu
                    páe: assim João, filho de Fernando, chamava-se João Fernandes; Fernando, filho
                    de João era Fernando Annes ou Joannes.</p>
                <p>Pedro de Barcellos, havendo-se enamorado de Ignez Gonçalves Machado, primeira
                    filha de Gonçalo e Mecia, veiu a Portugal, sob o apparente pretexto de visitar
                    seu páe, então alcaide-mór de Barcellos, e os seus parentes, que eram as
                    principaes familias do Minho; mas em verdade com o proposito firme de apresentar
                    a D. João II um plano, cuja realisação era o seu sonho aureo.</p>
                <p>Teve, com effeito, Pedro de Barcellos o melhor acolhimento de D. João II, a quem
                    propôz sondar á propria custa os mares do Occidente, com o intuito de descobrir
                    novas terras.</p>
                <p>Na mente aventurosa de Pedro de Barcellos refervia o desejo vehementissimo de
                    saber, d'onde vinham os troncos de arvore, os pedaços de madeira lavrada, as
                    canôas e até os cadaveres de homens de physionomia estranha, arrojados a miude
                    aos mares do archipelago açoriano. E tendo elle abandonado o seu já então
                    pittoresco Minho, para ir tentar fortuna em uma ilha, embóra fertilissima, não
                    era proprio do seu espirito entregar-se ás delicias de Capua, e ser insensivel
                    ás provocações seductoras do mar, que o cercava. Embarcado imaginaria elle
                    muitas vezes, que estava, quando na calada da noite accordasse attonito sobre o
                    seu leito, embalado pelas terriveis e frequentes convulsões do sólo.</p>
                <p>Quiz, pois, expôr-se aos perigos de uma navegação longa, e D. João II,
                    animando-o, fez-lhe todas as concessões desejadas.</p>
                <p>Entretanto, vendo Maria Thereza na côrte, ficou tão impressionado pela sua
                    formosura, que, durante alguns dias, abafou no coração o sentimento, que já lhe
                    havia sido inspirado por Ignez, e chegou até a olvidar, posto que
                    momentaneamente, que tinha com ella a sua palavra compromettida. A nobre
                    attitude de Maria Thereza fê-lo reflectir, e despertou-lhe no coração os seus
                    brios de homem digno.</p>
                <p>Despachado por D. João II, foi ao Minho visitar a sua familia, sendo recebido com
                    particular carinho no solar de <seg rend="italic">Entre Homem e Cavado</seg>, e
                    tornou logo para a Terceira.</p>
                <p>Pouco depois de ter chegado á ilha casou com Ignez Gonçalves Machado, e tratou de
                    construir e armar um navio. Havendo dois filhos de sua mulher, largou da bahia
                    de Angra em fins de 1491, e sómente concluiu a sua viagem em 1495, depois de ter
                    descoberto a costa do Labrador.</p>
                <p>Ora, como Christovam Colombo partiu de Palos tambem para o Occidente, em 3 de
                    agosto de 1492, Pedro de Barcellos aportou naturalmente primeiro do que elle a
                    uma região do <seg rend="italic">Novo Mundo</seg>. E assim succedeu, com
                    effeito. O facto, porém, não projecta de modo algum a mais tenue sombra na
                    gloria perduravel do insigne genovez pelo seu descobrimento, que comtudo em nada
                    o torna superior ao nosso Pedr'Alvares Cabral, a quem a patria não fez ainda a
                    devida justiça.</p>
                <p>Voltando á Terceira, pouco tempo sobreviveu Pedro de Barcellos aos longos e
                    penosissimos trabalhos da sua arriscada viagem. Para premiar seus serviços tomou
                    o rei D. Manoel por seu vassallo um dos filhos do fallecido navegador,
                    concedendo-lhe excepcionaes privilegios em carta passada em Evora, a 7 de junho
                    de 1509. Por cartas dadas igualmente em Evora, a 20 de novembro de 1533, e por
                    outra em Almeirim, a 22 de fevereiro de 1541, concedeu D. João III brazão de
                    armas a tres descendentes legitimos de Pedro de Barcellos, com todas as honras e
                    privilegios de nobres e fidalgos, por procederem da geração e linhagem dos
                    Machados, por parte de sua mãe e avós.</p>
                <p>Repeso talvez de não ter feito o sacrificio de attender a proposta de Colombo, D.
                    João II acceitou com jubilo a de Pedro de Barcellos, no desempenho da qual nada
                    dispendia. Tranquillo por esse lado podia continuar nos preparativos de passar
                    de novo á Africa, e chegar-lhe-iam entretanto novas da India, ou Pero da
                    Covilhan estaria de volta.</p>
                <p>Parece, porém, que a justiça divina déra a D. João II, para expiação de suas
                    culpas, o martyrio de lhe mostrar, que era possivel a realização das suas
                    maiores ambições; isto é; atravessar o Oceano Atlantico e levar á India as
                    caravélas portuguezas; comtudo não lhe pertenceria a gloria de resolver esses
                    dois problemas.</p>
                <p>Colombo chegára a Portugal muito antes de Pedro de Barcellos; Bartholomeu Dias
                    transpozéra o Equador, dobrára o cabo da <seg rend="italic">Bôa Esperança</seg>,
                    e chegando quasi a respirar as auras embalsamadas do Oriente, foi obrigado a
                    recuar, impellido pela mão mysteriosa do destino. É que muito embóra dois
                    navegadores portuguezes houvessem podido sondar mares desconhecidos, era-lhes
                    vedado frustrar os designios insondaveis da Providencia. A condemnação, a que D.
                    João II estava sujeito, havia de reflectir-se nos seus agentes.</p>
                <p>Como se explica a presença de D. Manoel no acto da despedida de Pero da Covilhan,
                    em Santarem?</p>
                <p>Por que razão havia de D. João II confiar a seu cunhado, que nenhum interesse
                    directo podia ter nos descobrimentos, aquelle alto segredo do Estado? </p>
                <p>Mais ainda. Um astrologo hebraico prognosticou a D. Manoel, que seria o successor
                    de D. João II na corôa. Quem poderia dar credito ao visionario, quando na
                    familia real existia um herdeiro necessario, e ainda outros com mais direito do
                    que D. Manoel? E com que reservado intento concedeu D. João II a D. Manoel uma
                    esphera por empreza, cuja <seg rend="italic">alma</seg> era: <seg rend="italic">Spera in Deo</seg>? Não parece ser um presentimento muito singular?...</p>
            </div>
            <div>
                <head>X</head>
                <head>TENTANDO AS AZAS...</head>
                <p>Recebeu D. João II as cartas, que lhe escrevera Pero da Covilhan. Occultava-se na
                    singella narrativa do explorador um enthusiasmo, que sómente podia ser egualado
                    ao jubilo immenso por ella produzido na alma anciosa do monarcha.</p>
                <p>Ao terminar a leitura, exclamou D. João II a meia voz:</p>
                <p>—Não ter Bartholomeu Dias, podido avançar!...</p>
                <p>Reservando para si as informações ácerca da India, mandou logo espalhar a nova da
                    existencia do Préste. E, como ás novas alegres ordinariamente se dá credito
                    antes de sujeitas a exame, esta correu logo de bôca em bôca, e foi tão bem
                    recebida e festejada, que não só no reino, mas na Europa, acclamaram por Préste
                    João da India o imperador da Ethiopia.</p>
                <p>Estava assim satisfeita uma das maiores aspirações d'esse tempo—o apparecimento
                    d'aquelle personagem legendario; e ninguem pensava em ir á India pelo mar,
                    excepto D. João II e Colombo; este, porém, navegando pelo Occidente.</p>
                <p>Quem entre todos teve puras e santas alegrias, foi Maria Thereza. A esperança de
                    ver chegar Pero da Covilhan coberto de gloria, sorria-lhe agora mais viva,
                    amaciando-lhe simultaneamente os rigores da saudade.</p>
                <p>Approximava-se o casamento do principe D. Affonso com a filha dos reis
                    catholicos. D. João II, extraordinario em tudo, preparava para a celebração
                    d'aquella solemnidade as mais apparatosas festas, servindo-lhe de modelo as de
                    seu tio o duque de Borgonha, em Lille.</p>
                <p>A côrte estava então em Evora, porque de Lisboa a trazia afastada a peste. </p>
                <p>No paço da velha cidade transtagana, faltava uma casa apropriada para banquetes e
                    consoadas. Não era uma difficuldade. O já mutilado convento de S. Francisco dava
                    para tudo.</p>
                <p>Antes de D. Affonso V ir a Castella, pediu aos frades as casas de seus estudos
                    para sair d'ellas ao campo; e, como gostou do sitio, tornou a pedir grande parte
                    do convento e da horta, para no espaço occupado por essa parcella da residencia
                    fradesca, mandar construir os paços reaes.</p>
                <p>Continuando esta obra, D. João II ainda obteve mais, e cortou tão largamente, que
                    ficaram os frades postos no maior apêrto.</p>
                <p>Esta amplificação dos paços, acanhando o convento, foi necessaria para se
                    fabricar a sala dos banquetes—aquella sala de madeira,</p>
                <lg>
                    <l>«que ficara por memoria.</l>
                    <l>Real em tanta maneira,</l>
                    <l>de perfeição tão inteira,</l>
                    <l>de tanta mundana gloria».</l>
                </lg>
                <p>Um dos franciscanos, exprimindo os sentimentos da communidade, maguada do seu
                    captiveiro e da liberdade alheia em cortar pelo convento, exclamou um dia em tom
                    prophetico: «Quem viver verá, que os mortos, que isto deram a S. Francisco, hão
                    de clamar e pedir justiça a Deus. Agora vão fazer-se festas, que se hão de
                    tornar em pranto!...»</p>
                <p>E, como se fôra acho de si mesmo, repetiu o franciscano:—«Quem viver
                    verá!...»</p>
                <p>A verdade é, que se não enganou.</p>
                <p>Nem fr. João da Povoa, confessor do rei, e Vigario Provincial, poude pôr côbro ás
                    regias extorsões, contra que se levantavam as jeremiadas do espoliado cenóbio
                    eborense. D. João II nunca fôra attreito a sensibilisar-se com lamentações de
                    frades.</p>
                <p>A construcção da <seg rend="italic">sala de madeira</seg> foi dirigida por Andrea
                    Contucci, a quem o rei tinha confiado reedificar e decorar os paços.</p>
                <p>Contucci, mais conhecido pelo nome de Sansovino, o do lugar do seu nascimento,
                    fôra enviado a Portugal por Lourenço de Medicis, a quem D. João II pedira um dos
                    mais notaveis artistas da republica florentina.</p>
                <p>Andrea Sansovino era môço ainda, quando veiu a Portugal. Havia já revelado o seu
                    talento; mas unicamente com a sua segunda maneira, iniciada depois de ter
                    chegado a Roma, em 1509, conquistou o lugar, que tão merecida e distinctamente
                    occupa na historia da Arte.</p>
                <p>Em architectura fôra discipulo de Cronaca; mas o bom exito de alguns trabalhos
                    seus, como o vestibulo da egreja de San-Spirito em Florença, não o impediu de
                    cultivar de preferencia a esculptura, para a qual tinha a mais pronunciada
                    vocação.</p>
                <p>O seu primeiro mestre havia sido Antonio Pollaiolo, o assassino de Domenico
                    Veneziano, que lhe tinha ensinado o processo da pintura a oleo, ainda ignorado
                    na Toscana, ou ao menos assim o presumira Pollaiolo. Vê-se bem, qual foi, pois o
                    móvel do crime.</p>
                <p>O scelerado artista era correcto no desenho, e sobretudo esmerava-se na pintura
                    do nú, lisonjeando d'este modo o gosto de Lourenço de Medicis, seu patrono, cuja
                    protecção mais se accentuou depois que Pollaiolo fundiu a bella medalha
                    commemorativa da conspiração dos Pazzi, da qual Lourenço o <seg rend="italic">Magnifico</seg> se salvou milagrosamente.</p>
                <p>O Mecenas de Pollaiolo favorecia com a sua poderosa influencia o triumpho
                    simultaneo do Paganismo, do Naturalismo, e até do Sensualismo, na maioria dos
                    productos da intelligencia humana; e, sem embargo de have-lo proclamado grande
                    protector das lettras a universidade de Pisa, por elle fundada, o seu consulado
                    fórma um periodo tristemente memoravel para a historia dos costumes, das artes e
                    das proprias lettras.</p>
                <p>É provavel, pois, que este aprendizado de Sansovino na officina de Pollaiolo
                    determinasse a escolha de Lourenço de Medicis, para satisfazer o empenho de D.
                    João II.</p>
                <p>Na esculptura decorativa dos paços d'Evora, imprimiu Sansovino o cunho do seu
                    privilegiado talento; e, na ornamentação das salas e aposentos da familia real,
                    tocou o requinte do seu peregrino gosto artistico.</p>
                <p>D. João II avivou com a magnificencia, e o deslumbramento das festas de Evora, as
                    recordações do periodo medieval.</p>
                <p>Não satisfeito por expedir por mar e por terra, agentes seus ao extrangeiro, para
                    comprarem os brocados, as sedas, as tapeçarias, as pedras preciosas, um sem
                    numero emfim de objectos necessarios e de luxo, mandou publicar, que tinham
                    entrada livre de direitos em Portugal até ao termo dos festejos, todas as
                    mercadorias de importação. Os fidalgos da côrte foram vestidos á custa do real
                    thezouro; recebendo além d'isso, os que tomavam parte nas justas, armas e
                    cavallo; e os que entravam nos mômos e entremezes, cem a duzentos cruzados.
                    Egualmente foi dado vestido e dinheiro aos mouros e mouras do reino, bem como ás
                    mais galantes raparigas e foliantes mocetões do Alemtejo, que vieram com suas
                    danças, toques e descantes concorrer todos para o luzimento e alegria das
                    festas.</p>
                <p>O proprio rei, franqueando ao povo a entrada na <seg rend="italic">sala de
                        madeira</seg>, appareceu-lhe invencionado no phantastico <seg rend="italic">cavalleiro do cysne</seg>, o poetico aventureiro das margens do Rheno; e
                    por outro cavalleiro mandou ler, e depois entregar á princeza, sua nora, um <seg rend="italic">bréve</seg>, em que propunha a tenção de a querer servir nas
                    festas do seu casamento, e sobre certas conclusões de amores, que defendia,
                    desafiava em honra d'ella, para justar com seus oito mantedores, a todos os que
                    o contrario quizessem combater.</p>
                <p>Singular caracter o d'este monarcha!</p>
                <p>Á carinhosa rainha D. Leonor não eram, nem podiam ser indifferentes os
                    preparativos para a solemnidade imponentissima do casamento de seu unico filho;
                    comtudo não a distrahiam do pensamento, que enchia de gôzo intimo a sua alma
                    enlevada e contemplativa—a fundação da misericordia de Lisboa.</p>
                <p>Tão piedosa e santa idéa fôra-lhe suggerida pelo seu confessor frei Miguel de
                    Contreiras, ornamento da ordem religiosa da SS. Trindade.</p>
                <p>De visita ao seu mosteiro de Santarem havia chegado a Evora o douto e humilde
                    trino, e veiu encontrar a sua augusta penitente, lendo o Evangelho de S.
                    Matheus, cuja doutrina era um orvalho celeste, que penetrava no coração da
                    devota rainha, para o purificar e tornar fecundo.</p>
                <p>—Embóra vindes, fr. Miguel!...—disse a rainha ao receber o trinitario, que com
                    profunda reverencia lhe beijou a mão.—Sentae-vos que muito desejo ouvir-vos
                    ácerca da <seg rend="italic">vossa</seg> Misericordia...</p>
                <p>—Da de voss'alteza: quereis dizer...—ponderou Contreiras.</p>
                <p>—Pois seja de ambos nós—tornou D. Leonor,—ou melhor: de Deus será esse arbusto,
                    que vamos plantar, e que se fará—assim o espero da protecção divina—arvore
                    frondosa, cuja sombra abrigará muitas miserias...</p>
                <p>—Tenho fé, em que succederá, como voss'alteza espera... O terreno, em que váe
                    fazer-se o plantio, é feracissimo, e a cultura não podia o Senhor confia-la de
                    melhores mãos...</p>
                <p>—Mãos de peccadora...</p>
                <p>—Purificadas nas boas obras...—atalhou Contreiras.</p>
                <p>—Se o Redemptor nos ensinou a enchugar as lagrimas, a dar allivio ás miserias,
                    remedio ás necessidades, amparo e consôlo ás fraquezas, porque não hade
                    aproveitar-nos essa lição?... Porque não seguir o exemplo do Divino
                    Mestre?...</p>
                <p>—Até, porque Elle nos promette a recompensa, permittindo-nos um santo interesse
                    nas acções boas que praticamos. «Bemaventurados os misericordiosos, porque elles
                    alcançarão misericordia».</p>
                <p>—Antes de vós chegardes, estava eu meditando essas e outras palavras do Evangelho
                    de S. Matheus, cuja leitura me aconselhastes...</p>
                <p>—E viu decerto voss'alteza, em todo esse quadro tão singelamente traçado pelo
                    apostolo, quanto Jesus Christo aprecia e recommenda a misericordia...</p>
                <p>—Vi. Nem careço de outro estimulo, para prestar todo o meu auxilio á santa
                    instituição, que projectamos...</p>
                <p>—Bemdito seja o Senhor, que vos inspira!...</p>
                <p>—Sem duvida pensástes já na ordenança, que devem seguir os fieis, que em nome da
                    caridade christã vamos congregar...</p>
                <p>—Uni-los-ha um compromisso a que dei principio, e submetterei, depois de
                    concluido, á censura e approvação de voss'alteza...</p>
                <p>—Trazei-mo, sim. Muito folgarei de lê-lo, que, para o approvar, bastava ser traça
                    vossa...</p>
                <p>—Beijo as mãos de voss'alteza, minha Senhora e rainha, que tão grande mercê me
                    fazeis...</p>
                <p>A uma das portas da sala, onde D. Leonor conversava com fr. Miguel de Contreiras,
                    appareceu Maria Thereza, a qual ia para retirar-se, mas a rainha, dando por
                    ella, mandou-a entrar e despediu o seu confessor.</p>
                <p>Com o donaire e o miudo pisar das andorinhas correu Maria Thereza para sua ama,
                    foi ajoelhar junto d'ella, e disse-lhe no tom mais doce e affectuoso:</p>
                <p>—Venho pedir a voss'alteza uma grande mercê...</p>
                <p>—Muito grande, muito grande?... Então dize lá!...—volveu carinhosamente a
                    rainha.</p>
                <p>—Voss'alteza sabe quanto desejo estudar e comprehender as sciencias, e o cuidado
                    que ponho em instruir-me... Ora, se eu fosse ouvir, durante algum tempo, as
                    lições de meu tio, lente de Canones na Universidade... Mas... agradará
                    porventura a voss'alteza, que me auzente do paço, ainda mesmo para tal
                    fim?...</p>
                <p>A rainha ficou surprehendida. Fitou Maria Thereza um momento, e disse-lhe para
                    lhe fazer gosto, e vêr o fructo de tão singular lembrança:</p>
                <p>—Tens a minha approvação. Eu mesma te levarei a Lisboa, depois das festas do
                    casamento.</p>
                <p>Maria Thereza beijou com o mais vivo reconhecimento as mãos da rainha; mas, não a
                    satisfazendo inteiramente a resposta, insistiu:</p>
                <p>—E se eu fosse já?...</p>
                <p>—Que trigança é essa?...</p>
                <p>—Perdôe-me voss'alteza!... Preferia não assistir ás festas...</p>
                <p>—Creança!... Como alcançaste a minha licença, já está a pular-te o pé!... Olha,
                    que não é bom, ser-se impaciente...</p>
                <p>—Se eu não agastasse a vossa'alteza!...</p>
                <p>—O que me dirás tu, que possa enfadar-me?!...</p>
                <p>—Não sei, como confessar a voss'alteza... tudo quanto penso e sinto... e,
                    todavia, não devo occultar, a quem para mim é mais do que mãe, qualquer segredo
                    da minha alma... Eu, minha Senhora...</p>
                <p>Maria Thereza não poude concluir. Tapou com as mãos os olhos, e ainda mais os
                    escondeu, inclinando a cabeça no regaço da rainha.</p>
                <p>D. Leonor afagou-a, e, tomando logo um fingido ar de soberana, exclamou:</p>
                <p>—Eya sus!... Quero saber todos esses segredos!...</p>
                <p>Maria Thereza ergueu a cabeça, retirou as mãos dos olhos, e baixando-os,
                    respondeu:</p>
                <p>—Amo Pero da Covilhan, minha Senhora!...</p>
                <p>—Acceitaste por tanto os galanteios d'esse homem?!...—perguntou a rainha,
                    accentuando com grande admiração as suas palavras.</p>
                <p>—Sim, minha Senhora—replicou Maria Thereza um pouco tranquillizada e
                    parecendo-lhe, que tinha tirado de cima do coração um enorme pêso.</p>
                <p>—Antes, porém, de o admittires... como teu servidor... não reparáste na
                    differença de nascimentos, nem te occorreu, que nunca permittirei o teu
                    casamento, com quem não possa fazer a tua felicidade?...</p>
                <p>—O que trago sempre em lembrança, minha Senhora, é o dever, de não dar um passo,
                    que não seja do real agrado de voss'alteza. O amor, que Pero da Covilhan me
                    inspirou, não apaga do meu coração o que consagro a voss'alteza, como do coração
                    da esposa nunca se apaga—creio—o amor da filha. Até este mais santifica e
                    robustece o outro... </p>
                <p>—Assim é; e muito me alegra, que d'esse modo penses. Mas em que fundas tu as tuas
                    esperanças, de Pero da Covilhan se tornar digno do meu prásme?...</p>
                <p>—Pero da Covilhan é já cavalleiro da casa d'el-rei, meu Senhor, e, se elle não
                    fôra de bons costumes e manhas, não lhe teria sua alteza feito tantas honras e
                    mercês, como até aqui. Dos seus serviços nas terras do Oriente, por onde anda,
                    houve já tão boas novas, que sua alteza a miude os gaba, e não esconde o
                    contentamento, que lhe causaram. Ora, quando elle voltar, tendo cumprido
                    fielmente os mandados d'el-rei, meu Senhor, não lhe faltará o cuidado, que sua
                    alteza sóe haver com aquelles que bem o servem...</p>
                <p>—Sim, el-rei nunca se esquece de seus bons e leaes servidores—affirmou gravemente
                    a rainha; e, como se o seu pensamento estivesse estillando as palavras, que
                    docemente proferia, continuou:—pois bem... mandarei dizer a teu tio, que venha
                    buscar-te... Comprehendo agora a razão, por que desejas fugir ás festas... e
                    faço-te a vontade...</p>
                <p>Esta bondosa condescendencia sensibilisou extremamente Maria Thereza, que, não
                    podendo logo articular uma palavra, cobriu de beijos e lagrimas as mãos da
                    rainha. Momentos depois, á luz do seu espirito scintillante, mediu a grandeza do
                    sacrificio, que estava deliberada a fazer, o de se apartar embóra
                    temporariamente d'aquella, a quem tanto amava, e exclamou com a firmeza
                    caracteristica das intenções puras:</p>
                <p>—Nunca soffri dôr igual, á que me está causando a idéa, de deixar por algum tempo
                    a companhia de voss'alteza!...</p>
                <p>—Pobre creança!...—interrompeu a rainha, dando-lhe um beijo na testa. Mandou-a
                    depois levantar, e concluiu, passando-lhe a mão carinhosamente pela cara:</p>
                <p>—Váe! Espéro, que tires muito proveito dos teus estudos. Quando voltáres, não
                    encontrarás preenchido o lugar, que deixas vasio junto de mim...</p>
            </div>
            <div>
                <head>XI</head>
                <head>PEREGRINAÇÃO</head>
                <p>Do golfo persico voltou Pero da Covilhan ao mar Vermelho, e foi desembarcar em
                    Djiddah. Genuino mercador mouro no aspecto, mas sincera e profundamente
                    catholico do coração, d'aquella cidade do Hedjaz dirigiu-se a Mecca,
                    incorporando-se em uma numerosa caravana de peregrinos, e, affectando o
                    recolhimento de um crente da religião de Mafoma, sem mostrar, todavia, como os
                    musulmanos seus companheiros, o semblante macerado e consumido pelo ardor
                    fanatico.</p>
                <p>Tentar uma visita a Mecca, sendo-se christão, em todos os tempos se considerou
                    infructuoso, ou ao menos de um exito muito problematico; realisa-la, porém,
                    mórmente no seculo XV, embóra se tivesse envergado o <seg rend="italic">ihram</seg> do peregrino, era um acto de assignalada temeridade.</p>
                <p>Os raros europeus, que no seculo actual lográram vêr Mecca, dão testemunho do
                    perigo, a que se expõem os christãos, que se afoitam a violar a lei que lhes
                    prohibe, com pena de morte, o seu ingresso no velho santuario arabe.</p>
                <p>Mas, para quem teve o seu baptismo de sangue em Toro, e atravessou o Oceano
                    indico, lidando sempre com homens de diversas raças, religiões e costumes, nada
                    havia já, que o intimidasse, fazendo-o renunciar um dever, a cujo cumprimento
                    sacrificava a propria vida.</p>
                <p>É peculiar da alma portugueza, arrostar os perigos e retemperar-se na
                    adversidade; e Pero da Covilhan era portuguez de lei. Affeito aos labores
                    improbos da sua viagem de exploração, já nem por elles dava; e, no seu resignado
                    soffrer, punha constantemente o seu valor á prova, e robustecia cada vez mais a
                    confiança, que em si proprio depositava.</p>
                <p>Lá se pôz a caminho pelo Hedjaz fóra.</p>
                <p>O Hedjaz, uma das provincias menos extensas e mais inferteis da Arabia, tem
                    importancia e celebridade por ser o berço do islamismo, e pela influencia, que
                    recebe de Mecca e Medina, situadas no seu territorio. A sua aridez, quasi geral,
                    augmenta a fadiga, de quem por ella caminha. Cortam a immensa solidão das suas
                    planicies arenosas, que se extendem para a margem do mar Vermelho, pouquissimos
                    valles cultivados e montanhas cobertas de rochedos, que se vão tornando cada vez
                    mais abruptas á medida que os viandantes se internam no paiz. As estradas são
                    regueiras enxutas, que nas épocas das grandes chuvas se transformam em rios
                    caudalosos. Caminha-se por esses <seg rend="italic">uâdis</seg>, e na falta
                    d'elles seguem-se as direcções rigorosamente determinadas pela situação de póços
                    e cisternas, sem cuja agua a vida seria impossivel no deserto.</p>
                <p>Eram tres os inimigos de que necessitava defender-se a caravana, que percorria
                    estas regiões malfadadas: a falta de agua, os nomadas e o <seg rend="italic">simoun</seg>.</p>
                <p>Para combater o primeiro, iam os açacaes—<seg rend="italic">sakka</seg>—encarregados de conduzir sobre camêlos a agua contida em ôdres, e
                    pelo caminho faziam novas provisões da dos depositos, que encontravam.</p>
                <p>Contra os nomadas, ou tribus arabes, que vagueavam no deserto e viviam
                    exclusivamente da rapina, vêr-se-ia a caravana obrigada a pegar em armas. Os
                    nomadas eram sempre temiveis nos seus assaltos mui frequentes, pois que taes
                    bandidos orgulhavam-se tanto de haverem roubado uma caravana, como um general
                    europeu de ter bombardeado e conquistado uma praça de guerra; e, se não erguiam
                    uma estatua ao scheick, por elles muito venerado, e que os conduzia á victoria,
                    é porque na Arabia, a ninguem se fazia essa consagração.</p>
                <p>O terceiro inimigo era talvez o mais perigoso e terrivel.</p>
                <p>Quando o horisonte se avermelhava ao longe, tornando-se pouco depois todo o Céo
                    plumbeo, a ponto de embaciar o disco do sol, que tomava então um aspecto
                    sanguineo, e seguidamente a atmosphera se cobria de uma areia finissima,
                    arrebatada pelo vento, como a espuma das ondas do mar embravecido, era preciso
                    fugir a toda a pressa!</p>
                <p>Rompia de subito a furia do simoun, agitando tudo!</p>
                <p>O infindo areal do deserto cavava-se profundamente, açoitado pela mais turbulenta
                    borrasca. Os viandantes, com o peito opprimido, os olhos sangrentos, os labios
                    sêccos e abrazados, mal respiravam. Os camêlos, esses pacientes <seg rend="italic">navios do deserto</seg>, desarvoravam, partiam á desfilada,
                    zombando da vigilancia dos cameleiros, e guiando-se unicamente pelo instincto de
                    conservação, paravam emfim, e occultavam a cabeça debaixo das areias movediças. </p>
                <p>Se apesar do medonho remoinho causado pelo tufão, a caravana podia abrigar-se nas
                    sinuosidades de algum rochedo, onde esperasse com segurança a calma da
                    tempestade, salvava-se; se não tivesse refugio, e ficasse entregue á mercê da
                    tormenta, homens e animaes perdiam toda a sua energia, toda a esperança de
                    sobreviver os abandonava!</p>
                <p>Suffocados pelo calor ardentissimo, e surprehendidos pela syncope, desfalleciam,
                    caíam inanimes n'aquelle oceano de areia, que logo lhes servia de mortalha e
                    tumulo, até que novo temporal viesse descobrir as ossádas d'essas victimas
                    numerosissimas do implacavel e deshumano simoun!</p>
                <p>De como Pero da Covilhan effectuou a sua peregrinação simulada, elle proprio fez
                    a narrativa a D. João II em carta, que lhe enviou do Cairo.</p>
                <p>Ao cabo de dois dias e meio, que seriam bastantes para vencer a distancia, que
                    separa Djiddah de Mecca, assentaram o seu aduar no sopé de um dos montes, que
                    cercavam a <seg rend="italic">mãe das cidades</seg>, a Om-el-Kora dos
                    arabes.</p>
                <p>A todos os peregrinos, conforme os paizes, de onde partem, foi designada pelo
                        <seg rend="italic">propheta</seg> a estação, em que devem parar, antes da
                    chegada a Mecca, para se prepararem a cumprir os ritos impostos ao bom
                    musulmano.</p>
                <p>Foi em Ras-Onardan, que fez alto a caravana, por vir de um porto do mar Vermelho.
                    Era um valle comprehendido no recinto previlegiado, que se extendia á roda de
                    Mecca a algumas leguas de distancia e denominado Beled-el-Haram.</p>
                <p>N'esse verdadeiro oasis, alcatifado de verdura, regado pela agua que corre de
                    suas nascentes, e onde a palmeira, vergando ao pêso de seus cachos de tamaras,
                    sobresaía no meio de outras arvores fructiferas, como sendo o caracteristico
                    predominante das paizagens orientaes, os homens da caravana fizeram uma ablução
                    geral, chamada <seg rend="italic">ghort</seg>, substituiram os seus trajos de
                    viagem pelo <seg rend="italic">ihram</seg>, o calçado pelas chinelas—<seg rend="italic">besmak</seg>—, e perfumaram-se. As musulmanas tambem
                    purificadas, cobriram-se com o seu grande véo, branco como o <seg rend="italic">ihram</seg>, e denominado <seg rend="italic">yaschmak</seg>.</p>
                <p>Antes d'essa purificação o peregrino tinha o nome de <seg rend="italic">hadji</seg>, depois d'ella era tratado pelo de <seg rend="italic">mohrim</seg>; e as suas vestes ficavam santificadas pelo uso durante a
                    romaria, sendo, ao termo d'esta, cuidadosamente guardadas, para servirem de
                    mortalha ao seu possuidor.</p>
                <p>A caravana assim preparada pôz-se logo em marcha, recitando pelo caminho—os
                    homens em voz alta e as mulheres em voz baixa—muitas orações, terminando pelo
                        <seg rend="italic">Tebiya</seg> ou <seg rend="italic">Lebbeika</seg>.</p>
                <p>Entraram em Mecca e dirigiram-se processionalmente á mesquita, continuando as
                    preces. Quasi ao pôrem o pé no immenso atrio do templo, e depois de deixarem
                    atraz de si uma espessa floresta de columnas, que sustentavam arcadas numerosas,
                    pronunciaram o <seg rend="italic">tekbir</seg> e o <seg rend="italic">tehlil</seg>, que consistem em dizer: <seg rend="italic">Allah
                    Akbar</seg>—Deus é grande; <seg rend="italic">Lá lla illá lla</seg>—não ha outro
                    Deus senão Deus; e ouviram exclamar a um dos pregoeiros—<seg rend="italic">almuadens</seg> ou <seg rend="italic">muezzinos</seg>, voltado para a <seg rend="italic">kaaba: observai, observai a casa de Deus, a prohibida!</seg> E
                    logo irromperam descalços, foram passar por baixo de uma especie de arco
                    triumphal, approximaram-se da <seg rend="italic">pedra-negra</seg>—<seg rend="italic">Hadjar elaswad</seg>, para fazer o <seg rend="italic">touaf</seg>, isto é, para dar sete giros em volta da <seg rend="italic">kaaba</seg>, offerecendo sempre o lado esquerdo a este santuario, que se
                    elevava no meio do atrio, e, conforme a crença arabe, o mais antigo templo
                    consagrado ao verdadeiro Deus.</p>
                <p>A mesquita—<seg rend="italic">mesgid</seg>, <seg rend="italic">guma'a</seg>,
                    lugar de reunião, e tambem <seg rend="italic">Beïttallah</seg>, casa de Deus,
                    reduzia-se a um claustro—<seg rend="italic">sakhn-el-gama</seg>, ou pateo
                    aberto, formando um parallelogrammo perfeitamente regular, ladeado de porticos
                    levantados sobre quatrocentas e noventa e uma columnas, umas de granito outras
                    de marmore, e para o qual davam accesso dezenove portas, destituidas de
                    bandeiras, dispostas sem ordem, irregulares emfim na sua construcção, pois
                    terminavam umas em ogiva, outras em arco de volta inteira.</p>
                <p>As arcadas d'onde pendiam lampadas, que todas as noites se accendiam, eram
                    cobertas exteriormente por pequenas cupulas, a cima das quaes se elevavam sete
                    minaretes, sendo quatro collocados nos quatro angulos do edificio, e tres de um
                    modo irregular no comprimento das galerias formadas pelas arcadas.</p>
                <p>A fórma e architectura da notabilissima <seg rend="italic">kaaba</seg> não
                    desmentiam, com effeito, a sua alta antiguidade. Era um cubo de uns doze metros
                    de altura, com paredes do granito ordinario de Mecca, e na face voltada para o
                    Norte uma pequena porta, cujo limiar ficava a uns dois metros a cima do sólo.
                    Este templo apenas estava patente ao publico na sexta-feira de cada semana, dia
                    guardado pelo muslim, ou de reunião—<seg rend="italic">iom el guma'a</seg>, e
                    tambem quando se celebrava o anniversario natalicio do propheta. Ao scheick dos
                    anciãos, ou <seg rend="italic">xaibins</seg>, pertencia abrir a porta. Para isto
                    subia a uma especie de pulpito, que corria sobre quatro roldanas, em que
                    terminavam os seus pés de madeira, e dois ostiarios levantavam a cortina,
                    chamada <seg rend="italic">Albarcá</seg>, especie de véo de purpura, que se
                    extendia sobre a porta, e esta era, como a soleira, forrada de laminas de
                    prata.</p>
                <p>O povo, ao invadir a <seg rend="italic">kaaba</seg>, rompia, de braços abertos e
                    mãos erguidas ao Céo, na seguinte exclamação: «Abre-nos, ó Deus, as portas da
                    tua misericordia e do teu perdão, ó maior dos misericordiosos!»</p>
                <p>O interior do santuario era uma grande sala, cujo tecto sustentavam dois pilares,
                    assentes sobre o pavimento lageado de bellos marmores brancos e pretos,
                    dispostos em xadrez; as paredes forradas do mesmo modo, tendo por ornato apenas
                    arabescos com letras de ouro e prata esmaltadas de um tom negro bronzeado.
                    Numerosas lampadas de ouro massiço serviam para a illuminação. O exterior estava
                    coberto por um immenso véo de seda preta, chamado <seg rend="italic">Kesoua</seg>, que sómente deixava ver o sócco do edificio, durante os
                    primeiros dias da peregrinação, e para isso suspendiam-n'o em fórma de grinalda
                    por meio de cordões tambem de seda da mesma côr. Ao meio da altura de todo o véo
                    sobresaiam lettras de ouro bordadas sobre uma larga fita igualmente preta, nas
                    quaes se liam inscripções piedosas e textos do Corão.</p>
                <p>Esta cobertura era renovada annualmente; e, como fluctuava em compridas dobras,
                    os peregrinos tinham a crença de ser essa agitação devida ás das azas dos anjos,
                    que voavam em torno da <seg rend="italic">kaaba</seg>, e que levarão um dia o
                    sagrado véo deante do throno de Allah.</p>
                <p>A <seg rend="italic">pedra-negra</seg> era o unico ponto da <seg rend="italic">kaaba</seg>, permanentemente offerecido á devoção dos fieis. Perto da
                    porta, no angulo voltado para nórdéste, achava-se encravada na parede exterior,
                    e os seus lados embutidos em chapas de prata.</p>
                <p>Esta famosa pedra tinha uma tradição veneranda. Muito tempo antes de Mahomet,
                    beijavam e prestavam culto a essa piedosa reliquia todas as tribus arabes.
                    Conforme as suas crenças, fôra trazida do Céo pelos anjos, e collocada junto de
                    Abraham, para servir-lhe de escabello, quando o velho <seg rend="italic">páe dos
                        crentes</seg> estava construindo a <seg rend="italic">kaaba</seg>. A Pero da
                    Covilhan, porém, pareceu um fragmento de lava, contendo parcellas de uma
                    substancia amarellada; ou ainda um aerolitho, formando um oval irregular de um
                    vermelho carregado, que podia passar por negro.</p>
                <p>Ella não tinha já a sua côr primitiva, no dizer dos arabes, pois no momento, em
                    que tão milagrosamente desceu á terra, nenhum jacintho mais brilhante e de mais
                    bella transparencia existia no mundo; mas os beijos de tantos homens maculados
                    de iniquidades de toda a especie a tinham assim metamorphoseado.</p>
                <p>No páteo da mesquita, e pérto da <seg rend="italic">kaaba</seg>, elevava-se outra
                    construcção quadrada, apparentemente massiça, mas de menores dimensões, do que o
                    santuario. Cobria o manancial de Agar, mostrado por um anjo á pobre e afflicta
                    escrava de Sara, errante no deserto, no momento, em que ella ia a tapar os
                    olhos, para não vêr seu filho Ismael morrer de sêde, e denominado pôço de
                    Zemzem, por designar esta palavra a fonte que bróta com suave murmurio. A sala,
                    em que estava o pôço sagrado, era revestida de marmore branco, e de todos os
                    lados recebia ar e luz por oito janellas. Um estrado de marmore cercava a fonte,
                    d'onde se tirava a agua santa para a purificação.</p>
                <p>Junto da <seg rend="italic">pedra-negra</seg> começavam e terminavam os giros,
                    durante os quaes os peregrinos iam recitando preces. No fim de cada giro
                    beijavam a pedra, se isto lhe não fosse impedido pela affluencia dos crentes,
                    pois no caso contrario tocavam-lhe com a mão, levando depois esta aos labios.
                    Seguia-se beijar o nobre <seg rend="italic">Alcamamo</seg> ou <seg rend="italic">maquam d'Ibrahim</seg>, o qual consistia em uma pedra, onde se conservavam
                    as pégadas de Abraham, e, por ultima ceremonia dentro da mesquita, bebiam agua
                    no pôço de Zemzem.</p>
                <p>Os peregrinos saíam finalmente pela porta de Safa, subiam á collina d'este nome,
                    voltavam-se para a <seg rend="italic">kaaba</seg> e recomeçavam as suas orações.
                    Desciam depois lentamente ao valle Bathu-Onadi, situado entre aquella collina e
                    a de Meroua, para executarem alli a marcha, chamada <seg rend="italic">saï</seg>, que fazia parte dos ritos. Pronunciando estas palavras, voltados
                    para a <seg rend="italic">kaaba</seg>: «Ó meu Deus, sê misericordioso; perdôa os
                    meus peccados, ó Senhor santo e clemente,» andavam em differentes direcções,
                    para recordar a marcha incerta de Agar e de Ismael, expulsos por Abraham.</p>
                <p>Cumpridas estas formalidades, regressavam á cidade, para esperar a festa, com que
                    terminava a peregrinação.</p>
                <p>Ahi, como em toda a parte afinal, o muslim cria estar sempre na presença de Deus,
                    ainda que não entrasse na mesquita, e não deixava de rezar as orações
                    quotidianas. Eram cinco: a primeira ao romper d'alva, e chamava-se <seg rend="italic">Sabah Namazy</seg>; a segunda, <seg rend="italic">Oilah
                        Namazy</seg>, ao meio-dia; a terceira, <seg rend="italic">Akindy
                        Namazy</seg>, entre o meio-dia e o pôr do sol; a quarta, <seg rend="italic">Acham Namazy</seg>, ao sol posto; e a quinta <seg rend="italic">Yatzu
                        Namazy</seg>, ao serrar da noite.</p>
                <p>Precedia sempre as orações uma ablução parcial—<seg rend="italic">woudou'</seg>,
                    que consistia em lavar a cara, as mãos e braços até o cotovêlo, e os pés até o
                    artelho. Antes de começar a reza, o crente extendia no chão o seu tapete
                    quadrado, collocava-se de pé sobre elle, voltava-se para a <seg rend="italic">kaaba</seg>, estando em Mecca, ou para esta, em outra parte, conforme a
                        <seg rend="italic">quebla</seg> estabelecida por Mahomet; repetia o pedido
                    de perdão—<seg rend="italic">istigfar</seg>, elevava depois as mãos abertas,
                    ficando os pollegares á altura e quasi em contacto da parte inferior das
                    orelhas, e recitava a prece preliminar chamada <seg rend="italic">tekbir</seg>.
                    Passava ao <seg rend="italic">fatihah</seg>, e pronunciava ao menos tres
                    versiculos, ou <seg rend="italic">ayat</seg>, d'esta oração, que é a primeira
                    sura do Corão, collocando ambas as mãos sobre o ventre, a direita por cima da
                    esquerda, e cravando os olhos no chão. Declamava o <seg rend="italic">tesbihk</seg>, inclinando o corpo e a cabeça, e pondo as mãos nos joelhos.
                    Endireitava-se, retomava a posição do <seg rend="italic">fatihah</seg>, e assim
                    se conservava um instante. Succedia-se uma prosternação—<seg rend="italic">soudjoud</seg>, durante a qual repetia o <seg rend="italic">tekbir</seg> e
                    tres vezes o <seg rend="italic">tesbihk</seg>, tendo a face voltada para a
                    terra, os dedos das mãos e pés muito unidos, e a ponta do nariz a tocar no sólo.
                    Erguia-se, ficava um momento assentado sobre os joelhos, as mãos nas côxas, os
                    dedos abertos, e repetia o <seg rend="italic">tekbir</seg>. Depois de uma
                    prosternação ultima, saudava para a direita e para a esquerda os dois anjos da
                    guarda, que, durante a oração, estiveram sempre em sua companhia, embora elle os
                    não visse.</p>
                <p>A serie d'estes movimentos e genuflexões constituia um <seg rend="italic">rick'ah</seg>.</p>
                <p>Quando eram muitos a orar, collocavam-se em filas, como soldados em frente do
                    inimigo, porque realmente os musulmanos criam, ser a oração um combate contra o
                    espirito das trevas.</p>
                <p>No mez de <seg rend="italic">schewal</seg>, que é o decimo do anno da hegira, e o
                    primeiro dos mezes da peregrinação, accendiam-se as lanternas, as lampadas, e as
                    velas da mesquita, bem como os candieiros das torres, illuminando-se igualmente
                    o eirado do edificio, na noite do apparecimento da lua nova. Na manhã seguinte
                    celebrava-se a oração da paschoa, pois que no mez anterior, o <seg rend="italic">ramadhan</seg>, era a quaresma, durante a qual nenhum musulmano comia, nem
                    bebia, senão de noite, isto é, desde o pôr do sol até o romper d'alva.</p>
                <p>Chegado o primeiro dia do mez de <seg rend="italic">doulkaadah</seg>, que era o
                    undecimo, tocavam os tambores e timbales ao amanhecer e ao sol posto, em signal
                    do abençoado ajuntamento dos peregrinos em Mecca, e assim se continuava até ao
                    dia da subida a Arafat. No setimo dia o <seg rend="italic">iman</seg>
                    pronunciava do alto do mimbar na mesquita a <seg rend="italic">khotbat-el-hadjï</seg>, isto é, uma allocução, em que explicava aos crentes
                    as cerimonias, que sobre aquella montanha iam celebrar-se. No oitavo dia a
                    caravana santa dirigia-se de madrugada ao valle de Miná. Este dia chamava-se de
                        reflexão—<seg rend="italic">Ianm terwia</seg>, alludindo á incerteza de
                    Abraham, o qual, tendo recebido em sonhos a ordem de immolar seu filho, ignorava
                    se tal sonho seria uma inspiração divina, se uma suggestão diabolica. Passava-se
                    a noite no valle, e no dia immediato, depois da oração matutina, a caravana
                    subia á montanha de Arafat, onde existia uma capella—<seg rend="italic">turben</seg>, a qual santificava o sitio, em que pelo anjo Gabriel fôra
                    ensinada ao páe commum dos homens a primeira invocação. Conforme o ritual, os
                    crentes, depois de uma oração feita na propria <seg rend="italic">kubba</seg>,
                    armada no acampamento, iam esperar o pôr do sol, e entretanto o <seg rend="italic">iman</seg> erguia os braços ao Céo, para invocar a benção
                    sobre a multidão alli reunida, exclamando por fim milhares de vózes unisonas;
                        <seg rend="italic">Lebeïk Allahouma Lebeïk!</seg> Nós estamos ás tuas
                    ordens, ó Deus! </p>
                <p>Em seguida a turba immensa, que continuava vestida de branco, ao descer a <seg rend="italic">Djebel Farkh</seg>, depois de ter passado em Monzdelifat,
                    parecia uma catarata de espuma!</p>
                <p>No segundo dia punha-se em marcha, atravessava <seg rend="italic">Elmeschar-el-haram</seg>—o lugar consagrado, dobrava rapidamente, e em
                    confusão enorme, o apertado valle <seg rend="italic">Onadi-monhassar</seg>—o
                    valle maldito, e chegava de novo a Miná. Atiravam todos para traz das costas,
                    junto do <seg rend="italic">Djamrat-el-Agabé</seg>, sete pedras do tamanho de
                    uma ervilha cada uma, em signal de despreso pelo demonio, e gritando antes do
                    arremesso: <seg rend="italic">Bismillah!</seg>—Em nome de Deus!</p>
                <p>Os sete seixinhos, que tomavam o nome de <seg rend="italic">Hassiato-Aljemar</seg>, eram expressamente apanhados em Monzdelifat.</p>
                <p>Depois de todas essas ceremonias podia cada peregrino sacrificar a victima, que
                    trouxesse.</p>
                <p>A caravana regressava a Mecca para visitar a <seg rend="italic">kaaba</seg>,
                    fazia nova romaria a Miná, e tratava logo de sair da cidade <seg rend="italic">santa</seg>, antes de commetter algum peccado; mas não partia, sem voltar
                    pela terceira e ultima vez á <seg rend="italic">kaaba</seg>, a fim de celebrar
                    os <seg rend="italic">Thonaf-wida</seg>—procissões da despedida; ao pôço de
                    Zemzem onde bebia agua e de onde trazia alguma, como piedosa recordação; e
                    retirava-se finalmente pela porta do adeus—<seg rend="italic">Bab-el-wida</seg>.</p>
                <p>Mecca extendia-se em um largo valle, ou, melhor, sobre o sólo deseccado de um
                        <seg rend="italic">uâdi</seg>, que se inclinava suavemente do norte ao sul,
                    e por onde raro corriam as aguas das chuvas, mas produziam ás vezes grandes
                    inundações, indo depois perder-se nas areias, sem chegarem ao mar.</p>
                <p>As montanhas escalvadas e tristes, que lhe ficavam a cavalleiro, lembravam
                    sentinellas sombrias e mal ataviadas, a cuja guarda estavam confiados, por
                    singular contraste, os thezouros da graça, que vão alli procurar os sectarios do
                    islamismo. As suas ruas não eram, como em geral as das outras cidades arabes,
                    estreitas e tortuosas, mas sim largas e traçadas com certa regularidade,
                    ladeando-as casaria alta, construida de granito vulgar dos montes suburbanos, o
                    que lhe imprimia um aspecto monotono.</p>
                <p>Era abundante de agua, e a melhor para o consumo geral vinha dos tanques,
                    cisternas e póços de Arafat, por um aqueducto, attribuido á bella sultana
                    Zabaida, predilecta do principe dos crentes, o famoso califa Harun-al-Raschid. </p>
                <p>Durante as peregrinações era a patria de Mahomet um centro de commercio muito
                    rico, e de certo o mais variado de todo o Oriente, pois que em seus bazares
                    accumulavam-se as producções de todos os paizes sujeitos á lei do propheta, e
                    faziam-se negocios importantes.</p>
                <p>No mercado diario, sempre fornecido de pão, fructas, hortaliças, legumes e carne,
                    encontrou Pero da Covilhan rapazinhos orfãos, e desvalidos, que, mediante uma
                    paga certa de pequenas moedas de cobre, denominadas <seg rend="italic">foluzes</seg>, e do valor de quatro a seis ceitis cada uma, conduziam em
                    duas alcôfas de differente tamanho, chamadas <seg rend="italic">Magtalá</seg>,
                    as compras feitas pelas pessoas, que quizessem utilisar-se d'esse serviço.</p>
                <p>O pão não se assimilhava ao nosso. Com farinha diluida em agua sem fermento, e
                    algumas vezes com pouquissimo, preparavam uns bolos mal cosidos e molles, como
                    pasta, a que chamavam <seg rend="italic">hops</seg>.</p>
                <p>De alguns valles distantes vinham fructas e hortaliças; mas o que verdadeiramente
                    abastecia o mercado era o porto de Djiddah.</p>
                <p>Como a Pero da Covilhan parecesse extraordinaria a venda de pós aromaticos,
                    mórmente nas immediações da mesquita, investigou a causa d'esse facto, e soube,
                    que por costume andavam os meccanos sempre perfumados; mas nos mezes da
                    peregrinação chegavam a fazer tão extraordinario uso dos perfumes, que muitas
                    mulheres se privavam até de parte do seu alimento para compra-los, e, quando
                    ellas vistosamente ornadas íam girar ao redor da <seg rend="italic">kaaba</seg>,
                    o aroma expirado por seus vestidos predominava de tal modo sob as arcadas da
                    mesquita, que muito tempo depois de retirarem, permanecia alli o seu vestigio
                    fragrantissimo.</p>
                <p>Não menos interessante era o cuidado, com que as musulmanas se pintavam. A muitas
                    d'ellas não satisfazia a côr natural dos seus cabellos, por isso os tingiam,
                    velhas e moças, com o <seg rend="italic">kohl</seg>, que do mesmo modo
                    empregavam nas pestanas, bem como nas sobrancelhas, que não só ennegreciam, mas
                    ampleavam e arqueavam graciosamente. Com a mesma tintura, applicada ás
                    palpebras, esbatiam os olhos formosissimos; sem embargo, porém, d'esta
                    affectação, consideravam o <seg rend="italic">kohl</seg> um verdadeiro collyrio,
                    e um remedio soberano contra as ophtalmias tão frequentes n'aquelles climas.
                    Faziam signaes pretos na cara e nas mãos com um certo pó, que introduziam na
                    pelle por meio de uma agulha despolida de ferro ou de prata; e ás mãos e pés
                    davam uma côr rubro-alaranjada, servindo-se para isso de uma erva denominada
                        <seg rend="italic">elhene</seg>.</p>
                <p>As pedras mais ou menos preciosas eram para as mulheres de todas as classes um
                    amuleto, e talvez secundariamente um enfeite. Formavam como que uma pharmacopea
                    talismanica muito curiosa e muito extensa.</p>
                <p>Os trajos, posto que não fossem identicos em todas as partes da Africa, do
                    Egypto, da Syria e Arabia, tinham na sua pequena variedade de fórmas uma grande
                    similhança, ficando sempre reduzidos a uma especie de tunica e capa—o que
                    sómente bastaria, á falta de outras provas, para demonstrar quão poderosa é a
                    força das tradições na raça arabe.</p>
                <p>As variantes do vestuario repetidas, no mesmo seculo, por outros povos, são o
                    symptoma da mobilidade das suas idéas, e dos caprichos alternativos do seu
                    gosto.</p>
                <p>O trajo das mulheres apresentava alguma variedade unicamente nas classes
                    abastadas. Nas outras classes, que são ainda hoje as mais numerosas, compunha-se
                    geralmente de uma larga tunica—<seg rend="italic">farmla</seg>, atada na cintura
                    com o <seg rend="italic">samla</seg> ou <seg rend="italic">foutah</seg>, e um
                        véo—<seg rend="italic">tarbah</seg>, que cobria a cabeça e quasi todo o
                    semblante.</p>
                <p>Em algumas regiões a tunica era singelissima, sem signal de corpete nem de
                    espartilho, artificios desconhecidos no Oriente, e cuja falta não sacrificava o
                    pórte altivo e magestoso das mulheres das margens do Nilo, por exemplo, as quaes
                    recordavam na sua elegancia, no seu peito saliente e nos hombros desempenados,
                    as deusas da Grecia antiga.</p>
                <p>Algumas mulheres deixavam vêr os olhos, e uma parte da testa; outras sómente um
                    dos olhos; e ainda em outras o mysterio era absoluto, por isso pareciam
                    verdadeiras estatuas ambulantes. Em compensação havia formosas musulmanas, que,
                    muito embóra usassem a capa até aos pés, deixavam ás vezes cair artificiosamente
                    o véo, regalando os olhos de quem as via.</p>
                <p>Pero da Covilhan reprezentava um papel muito difficil; pois não podia
                    esquecer-se, de que era christão, e, ao mesmo tempo, de que não deviam sequér
                    desconfiar de tal aquelles que o rodeavam.</p>
                <p>Quando ao apontar da aurora o muezzino, do alto de um minarete da mesquita,
                    gritava: «vinde á oração, vinde ao templo da salvação; a oração deve ser
                    preferida ao somno!» Pero da Covilhan extendia o seu tapete, sobre o qual
                    ajoelhava voltado para a mesquita, e, fechando os olhos, fitava os da sua alma
                    na Cruz Redemptora, symbolo augusto da sua fé catholica. Mas não havia preceito
                    do Corão, que elle ignorasse e não cumprisse publicamente.</p>
                <p>Apromptou-se a caravana para passar a Medina, em cuja mesquita repousam as cinzas
                    de Mahomet. Os mercadores—<seg rend="italic">gellabys</seg>, carregaram de
                    provisões os seus camêlos. Os açacaes abasteceram-se de agua, e acondicionaram
                    os seus tanques de pelles de bufalos, sem olvidarem o <seg rend="italic">kyrba</seg>, ou gancho indispensavel para tirar pelo caminho a agua dos
                    póços. Para os que por impossibilidade physica não estavam nas circumstancias de
                    vencer o caminho, nem de apagar aluguer de transporte, havia dromedarios de
                    sobejo e não lhes faltava tambem o alimento nem o remedio, pois a todas essas
                    necessidades occorriam as esmólas dos ricos. Sobre o dorso de muitos animaes
                    viam-se grandes caldeirões de cobre, chamados <seg rend="italic">arraçuato</seg>, para cozinhar a comida nos aduares, os quaes eram illuminados
                    por lanternas immensas, que serviam igualmente para as marchas, durante a noite.
                    Em varios <seg rend="italic">meharas</seg> enfeitados com collares de sêda, e o
                        <seg rend="italic">henné</seg> ou apparelho coberto com magnificos brocados,
                    sobresaíam os <seg rend="italic">attatouch</seg>, ou palanquins, para
                    commodamente se recostarem as mulheres opulentas.</p>
                <p>O alfange, o punhal—<seg rend="italic">khamtscher</seg>, a faca,—<seg rend="italic">bitschak</seg>, a lança, a alabarda e a maça, eram as armas
                    defensivas da caravana.</p>
                <p>A cidade do propheta <seg rend="italic">Medinet-el-Nebi</seg>, distava de Mecca
                    onze dias de jornada, atravéz de vastas planicies de areia, rochedos
                    alcantilados e extensos, a par de rarissimos valles que permittiam a custo a
                    cultura. E a toda essa immensa região, ingrata e bravia, em que estavam situadas
                    Mecca e Medina, davam os arabes o pomposo nome de territorio sagrado, <seg rend="italic">houdoud-el-haram</seg>.</p>
                <p>Muito tempo antes de chegarem os romeiros a Medina, era-lhes annunciada a sua
                    approximação pela alta cupula dourada, em que terminava o monumento funerario do
                    propheta. Apenas entraram a cidade, dirigiram-se á grandiosa mesquita,
                    sustentada por quatrocentas columnas e constantemente illuminada por trezentas
                    lampadas.</p>
                <p>O recinto venerado, que encerrava não só os restos de Mahomet, mas tambem os de
                    seus successores immediatos, Abu-Bekr e Omar, denominava-se El-Hdjra. Composto
                    de arcadas abertas, sobre columnas, era vedado até dois terços da altura por uma
                    grade de ferro com intervallos estreitissimos.</p>
                <p>O ataúde do propheta estava velado por um tecido de sêda bordado a ouro, sob um
                    docel de brocado, seguro no vão de uma pequena torre adornada de laminas de
                    prata. Esta torre, igualmente coberta com um panno de sêda e ouro, elevava-se
                    sobre columnas de marmore preto finissimo, cingindo-a uma balaustrada de prata,
                    em cima da qual ardiam continuamente perfumes em vasos do mesmo metal. Uma lua
                    de prata, em quarto crescente, artisticamente lavrada e cravejada de pedras
                    preciosas, encimava emfim o sepulchro do fundador do islamismo.</p>
                <p>Em uma das faces do El-Hdjra existia um prégo de prata, junto do qual paravam os
                    peregrinos, para fazerem a saudação competente defronte da face do enviado.</p>
                <p>Ao pulpito da mesquita andava ligada uma tradição, a que todos os islamitas
                    tributavam grande respeito. Dizia-se, que Mahomet prégava na mesquita junto do
                    tronco de uma palmeira, e que depois fabricára o pulpito. No primeiro dia, em
                    que subiu a este, inclinou-se o tronco para o novo lugar occupado pelo propheta,
                    e com tal affecto, que podia comparar-se ao amor da camêla para o seu filhinho.
                    Então Mahomet abraçou o tronco, exclamando: «se te não abraçasse, suspiraria
                    inconsolavel até ao dia de juizo!»</p>
                <p>O pulpito era feito de tamargueira. </p>
                <p>Do mesmo modo que Mecca, Medina ia procurar longe os recursos, que lhe faltavam.
                    Valia-lhe o seu porto, que era Yambo, situado mui distante ao sudoeste d'ella,
                    no mar Vermelho.</p>
                <p>Ao norte saía-se para um pomar de palmeiras, plantado por Fatima, filha do
                    propheta, e pérto amontoavam-se as escorralhas de lava saídas da cratéra de
                    Ohod, a montanha famosa, que deve, segundo a crença dos musulmanos, ser
                    transportada um dia para o paraizo, como theatro, que foi, da victoria alcançada
                    por Mahomet sobre os seus inimigos. A léste e a oeste elevavam-se tambem alguns
                    picos, um dos quaes era o de Aïra, onde o propheta esteve préstes a morrer de
                    sêde, e que será precipitado no inferno, conforme a crença. Ao sul prolongava-se
                    a planicie a perder de vista. Raros pomares e renques de palmeiras juntos de
                    póços, cujas aguas fossem sufficientes para as regar, moderavam de longe em
                    longe a monotonia d'essa extensão pardacenta, onde as argilas alternavam com as
                    areias e a greda.</p>
                <p>Terminada a romaria, Pero da Covilhan retirou para Yambo, d'onde, embarcando em
                    um zambuco, passou a Tor. Estava pérto do Sinai, que percorreu, e, voltando a
                    Tor, d'aqui se dirigiu a Zeila.</p>
                <p>Chegou emfim ás portas da Abyssinia.</p>
            </div>
            <div>
                <head>XII</head>
                <head>NA ABYSSINIA</head>
                <p>Ao cabo de tres annos de trabalhosas e arrojadas viagens, entrava finalmente Pero
                    da Covilhan nos encantados dominios do legendario Préste João. Parece, que Deus
                    lhe inspirára acinte aquella digressão, pelas regiões desertas da Arabia, para
                    retemperar-lhe o animo, e tornar-lhe mais attrahente a paizagem deslumbrante do
                    novo paiz que demandava. Ao passo, que foi o primeiro a mostrar, em uma carta
                    maritima, a derrota, que as nossas caravelas deviam seguir para a India, ia
                    agora tambem levantar o véo, que trazia occulta aos olhos da Europa a historia
                    da Abyssinia.</p>
                <p>Em mil narrativas exaggeradas e phantasticas, acolhidas pela curiosidade credula,
                    havia sómente um fundo de verdade: a existencia de um povo christão no seio da
                    Africa, defendendo gloriosamente a sua independencia contra o islamismo.</p>
                <p>Mas onde e quem se esforçava com tanto denodo?—Ninguem sabia responder; pois até
                    mesmo no Oriente o reino do Préste João era quasi desconhecido, talvez por estar
                    tão remontado ao trato e commercio das gentes.</p>
                <p>Póde considerar-se essa vasta região ethiopica um immenso planalto, elevado entre
                    a bacia do Mediterraneo e o Oceano Indico, e limitado ao Norte pela Nubia, a
                    Oeste pelo Sennaar, ao Sul por paizes do sertão africano oriental, a Léste pelo
                    mar Vermelho. E abrange tres zonas distinctas: a inferior, ou o <seg rend="italic">Kolla</seg>, em que a temperatura varia de 20 a 40°
                    centigrados, encontrando-se, n'esta região verdadeiramente tropical, a fauna e a
                    flora especiaes da Africa, e produzindo abundantemente o solo sem cultura; a
                    media, ou o <seg rend="italic">Onaïna Déga</seg>, com a temperatura de 15 a 30°,
                    sendo a parte mais fertil e mais propria para o amanho da terra; a superior, ou
                    o <seg rend="italic">Déga</seg>, cuja temperatura varia de 5 a 15°, e cáe abaixo
                    de zero nas mais altas montanhas.</p>
                <p>As serranias, que em differentes direcções córtam este massiço, parece formarem
                    um systema á parte na orographia geral do continente negro. O numero d'ellas, a
                    sua fragura, e o effeito permanente das nuvens condensadas em volta dos
                    lanceolados pincaros de algumas, causam temor a quem as vê, quanto mais a quem
                    as passa. E raramente se faz jornada, em que não haja necessidade impreterivel
                    de as collear e transpôr; por isso talvez alguns exploradores, antes de Pero da
                    Covilhan, se houvessem abeirado d'ellas, e, sem animo de se expôrem a tão invios
                    caminhos, voltassem para traz.</p>
                <p>Pero da Covilhan não desfalleceu; admirou taes montanhas, que se lhe afiguravam
                    degraus, ou escadas gigantes, amontoadas por Titans, para escalar o Céo.
                    Maravilharam-n'o esses alcantis de granito e quartzo, com agudas arestas a
                    desafiar as tempestades, e em cujas quebradas os diluvios do tropico tinham
                    cavado corregos profundos. Lá do cume as torrentes, no periodo annual das
                    chuvas, despenham-se com violencia nos valles estreitos, indo engrossar os
                    numerosos cursos de agua, que serpeiam nas campinas, caudalosas e arrogantes. </p>
                <p>Então o Tacazé ou <seg rend="italic">Nilo negro</seg>, que na bacia hydrographica
                    septentrional recebe grande numero de tributarios, saindo do Tigré, a quem
                    banha, vae, sob o nome de Albára, ao occidente lançar-se no Nilo com dobrado
                    impeto. E na bacia do Sul, em Amhara, que contém na sua parte central o grande
                    lago Tana, onde desaguam muitissimas correntes, o Abaï ou <seg rend="italic">Nilo azul</seg>, atravessando uma parte d'esse lago e recebendo depois o
                    Djamma, cujo extenso e tortuoso valle sulca o reino de Chôa, adquire um tal
                    volume, que aos proprios indigenas enche de pavor. Ao norte encontram-se
                    igualmente alguns lagos sobre o vertice das montanhas.</p>
                <p>Com os aspectos severos alternam, porém, as perspectivas risonhas.</p>
                <p>Nas veigas açoitadas pelo vento, as corôas-de-rei douradas, os trevos purpurinos
                    e as verdes grammineas, formam ondulações matizadas, como se fôra em mar
                    brandamente agitado de flores e verdura. Ao mesmo tempo o sussurro das florestas
                    proximas é um fundo de concerto, que faz sobresair o canto alegre das aves, como
                    a doce verdura é o fundo da côr, sobre que se destaca o brilho das flores e dos
                    fructos.</p>
                <p>Como deve ser opulenta a flora d'este paiz tão accidentado e humido, aquecido
                    pelos raios verticaes do sol, e em que a temperatura tanto varía, determinada
                    pelas grandes differenças de nivel!</p>
                <p>A propria natureza parece gostar de se oppôr a si propria, pois reune todas as
                    estações no mesmo tempo, todos os climas no mesmo lugar, terrenos contrarios no
                    mesmo solo.</p>
                <p>O botanico encontra ahi as plantas mais raras; ao zoologo é facil apanhar
                    insectos tão variados, como a vegetação que os nutre; o geologo vê massas
                    centraes do globo desentranharem-se, e furarem a superficie, para se lhe
                    mostrarem; o meteorologista emfim póde a cada instante observar a formação das
                    nuvens, penetrar no seu interior, ou elevar-se acima d'ellas.</p>
                <p>Como em todos os paizes situados na zona torrida, a presença da agua accusa as
                    riquezas de uma vegetação luxuriante e vigorosa.</p>
                <p>Ao saír-se da garganta de uma montanha, alegra de repente a vista uma extensa
                    planicie, em que o trigo, o milho e a cevada attingem proporções
                    extraordinarias, bem como o <seg rend="italic">teff</seg>, coberto de flôres
                    purpurinas, e cujo grão oblongo dá uma farinha saborosa.</p>
                <p>O pão abunda por toda a parte. E, quando nuvens de gafanhotos, vindos do Sudão,
                    devastam as ceáras, o <seg rend="italic">enséte</seg>, que é uma especie de
                    bananeira, cujo fructo se não aproveita, offerece no seu caule, uma vez que não
                    esteja completamente desenvolvido, farto e delicado alimento.</p>
                <p>Outros flagellos dos campos são as manadas de vaccas bravas, e o numero infinito
                    de bugios ou cynocéphalos. Estes, por serem tão damninhos, obrigam a vigiar as
                    ceáras, para que não as destruam, temendo-se a sua invasão unicamente de sol a
                    sol, pois de noite não sáem a comer.</p>
                <p>O agigantado <seg rend="italic">baobah</seg>, o sycomoro sempre verde, o
                    tamarindo, a palmeira excelsa, o <seg rend="italic">kuara</seg> com as suas
                    bellas flôres coralinas, a <seg rend="italic">mimosa</seg>, o <seg rend="italic">cusco</seg>, o <seg rend="italic">wansey</seg>, cujas flôres alvissimas
                    abrem todas a um tempo, o <seg rend="italic">daro</seg>, que escolhe, para os
                    abrigar com a sua sombra benefica, os sitios mais pittorescos, emfim todas estas
                    e outras arvores egualmente frondosas, formam immensas florestas, ou, antes,
                    verdadeiros massiços de folhagem, que, sendo arregaçada pelo vento, apresenta os
                    mais singulares e formosos cambiantes.</p>
                <p>No mesmo solo humedecido, e alcatifado de flôres odoriferas, crescem elegantes
                    arbustos, emquanto que as trepadeiras, o cipó flexivel, os pampanos carregados
                    de uvas pretas, se abraçam ao tronco das arvores protectoras, revestindo-os de
                    gala, subindo até se suspenderem de seus ramos, e formarem grinaldas
                    graciosas.</p>
                <p>E em todas essas florestas e campinas, innumeros animaes, que teem o seu retiro á
                    sombra dos pavilhões de verdura, e raro são perturbados pelos passos do homem.
                    Fazem d'estas vastas solidões um grande e magnifico quadro, uma scena animada e
                    grandiosa, uns pela belleza da sua pélle, vivacidade de seus movimentos,
                    agilidade de seu andar; outros pela frescura de suas pennas, graça de seu todo,
                    rapidez de seu vôo, melodia de seus trinados; todos emfim pela immensa variedade
                    de suas fórmas. O esmalte das flôres mistura-se com o brilho das folhas, e são
                    apagados ambos pelas côres mais brilhantes ainda da plumagem das aves, mórmente
                    da do <seg rend="italic">sonis-manga</seg>, ou <seg rend="italic">cynnirus
                        splendidus</seg>, conforme a denominação scientifica moderna.</p>
                <p>Nas regiões mais aridas, o <seg rend="italic">cactus</seg>, a especie de
                    euphorbio, denominada <seg rend="italic">kolquall</seg>, a palmeira anã, o <seg rend="italic">kautuffa</seg> coberto de espinhos, dão signal de vida
                    vegetativa em terreno ingratissimo, e são testemunhas das perseguições dos
                    chacaes e das hyenas aos bandos de gazellas, corças, e outros antilopes, como o
                        <seg rend="italic">beni-israil</seg>, igualmente elegantes, que logram
                    escapar, por causa da ligeireza dos movimentos e rapidez da carreira, a esses
                    crueis inimigos.</p>
                <p>Em algumas das montanhas, os zambujeiros e os cedros altissimos servem de asylo
                    aos leões, aos lynces, ás pantheras, aos leopardos, aos girátacácheus, a todos
                    esses monstros ferozes, de que é como que patria o continente negro.</p>
                <p>Á beira das lagoas e das ribeiras, a canna, o bambú, e o papyro alto,
                    garridamente empennachado, banham seu pé nas aguas limpidas, mas suas hastes
                    elegantes e frageis são muitas vezes partidas á passagem do rhinoceronte
                    bicorneo, ou do pesado hippopotamo. Além d'isso os crocodilos infestam os rios,
                    em cujas margens vôam innumeras aves aquaticas.</p>
                <p>No meio d'essa exhuberancia de vegetação emfim, até os mais humildes musgos se
                    encontram occultos debaixo das neves eternas. O mangericão, e muitas outras
                    plantas da familia das labiadas, alcatifam e aromatizam deliciosamente os
                    montes. E para corôa d'esta prodigiosa flóra, nas maiores altitudes sobresáem o
                        <seg rend="italic">Kousso-Brayera anthelmintica</seg>, e o <seg rend="italic">Gibarra</seg>—Rhynchopetalum, que se elevam
                    descommunalmente.</p>
                <p>Pero da Covilhan, depois de ter caminhado por estreitos passos e á beira de
                    medonhos precipicios, sobre o dorso de montanhas cortadas a pique entre valles
                    tão profundos, que não chegam os olhos a vêr-lhes o fim, apartou-se da caravana,
                    em que vinha, e dirigiu-se á côrte do Préste João.</p>
                <p>Reinava o imperador Escander ou Alexandre. A sua residencia era amovivel, por
                    isso Pero da Covilhan em vez de avistar ao longe edificios, que lhe dessem a
                    idéa de uma povoação, viu numerosas tendas armadas em um grande campo, as quaes
                    constituiam a capital do imperio. E convinha-lhes o nome de cidade, não só pela
                    multidão de gente n'ellas abrigada, senão pela boa ordem, como as tinham
                    dispostas.</p>
                <p>Ao approximar-se do arraial, deparou Pero da Covilhan, ainda a certa distancia,
                    com quatro leões amarrados por grossas cadeias de ferro, e separados uns dos
                    outros. Logo atraz d'elles prolongava-se uma larga rua, orlada com symetria por
                    vinte arcos de madeira de cada lado, nos quaes estavam enrolados alternadamente
                    pannos de algodão brancos e rôxos. Grande numero de cavallos á mão, morzellos,
                    pombos, castanhos, russos, russo-rodados, meládos, fouveiros e outros, todos de
                    boa raça, com as garupas contra os arcos, e bem arreados, tendo cellas muito
                    leves, estribos á bastarda e lóros muito compridos, formavam duas fileiras uma
                    em frente da outra, voltadas para o centro da rua. Quatro d'esses cavallos, com
                    arreios riquissimos, eram cobertos com excellentes colchas de brocado. Na
                    rectaguarda de todos viam-se postados cem homens com azorragues. Mais de vinte
                    mil pessoas de differentes classes se agglomeravam de um e outro lado da rua, ao
                    cabo da qual se destacava uma grande tenda rôxa, seguindo-se após ella, em
                    diversos arruamentos milhares de outras, todas brancas.</p>
                <p>Este apparato era proprio do dia festivo, em que Pero da Covilhan, surgiu, por
                    mero acaso, na côrte abyssinia. A sua presença produziu a mais desusada sensação
                    no ajuntamento.</p>
                <p>Saiu-lhe ao encontro um homem ricamente vestido, e perguntou-lhe ao que vinha.
                    Pero da Covilhan, mostrando-lhe as cartas, que levava de D. João II para o
                    soberano da Abyssinia, respondeu-lhe em puro amharico—já n'esse tempo a lingua
                    da côrte—que fôra encarregado pelo rei de Portugal, seu senhor, de entregar
                    pessoalmente aquellas cartas a sua alteza, o mui alto e poderoso imperador da
                    Ethiopia, e desejava por isso ter a honra de lhe ser apresentado. O seu
                    interlocutor levou esta mensagem ao soberano, e pouco depois conduziu á presença
                    d'elle Pero da Covilhan.</p>
                <p>Logo na primeira sala da grande tenda roxa, forrada de finas sedas, sobre um
                    catre coberto com tres colchas da China, de modo a conhecer-se pelas suas barras
                    de cotonia de seda o numero d'ellas, estava sentado o imperador, rodeado da sua
                    côrte.</p>
                <p>Á entrada Pero da Covilhan, ao vêr o Préste, abaixou a mão direita até ao chão, e
                    com ella tocou em seguida o alto da cabeça, consoante lhe fôra, a seu pedido,
                    ensinado pelo introductor. Adeantando-se depois, ajoelhou em frente do soberano,
                    a quem deu as cartas de D. João II, as quaes eram escriptas em arabe. O Préste
                    mandou-o levantar, fez-lhe algumas perguntas ácerca da sua viagem, e
                    principalmente a respeito de D. João II; despedindo-o depois com muito agrado,
                    disse-lhe, que fosse descançar, para mais tarde conversarem largamente, como
                    desejava.</p>
                <p>Esta recepção amavel poz logo em boas relações Pero da Covilhan com os grandes da
                    côrte, e muito mais depois de constar, qual foi o assumpto das cartas, que
                    trouxera. Egualmente contribuiu, para elle lograr a sympathia publica, o
                    preconisar, desde logo, com enthusiasmo a magnificencia da côrte, e a riqueza do
                    vasto imperio, que teve a fortuna de visitar.</p>
                <p>A côrte compunha-se do <seg rend="italic">Bellátimoche goytá</seg>, mordomo-mór;
                    do <seg rend="italic">Tecácase Bellátimoche-goytá</seg>, pequeno mordomo-mór;
                    dos dois <seg rend="italic">Betendet</seg>, os validos do imperador; do <seg rend="italic">Titaurári</seg>, que fazia o officio de marechal; e outros
                    dignitarios de menor categoria. Além d'isso frequentava diariamente a tenda
                    imperial o <seg rend="italic">Abima</seg>, que quer dizer páe, e era o
                    metropolitano da egreja ethiopica, enviado pelo patriarcha Kopta da Alexandria.
                    A esse bispo, unico da Abyssinia, devia obediencia, mas tinha grande
                    auctoridade, o <seg rend="italic">étch'égé</seg>, prelado do numeroso clero
                    regular, e officialmente prior do convento de Debra-Libanos, em Chôa, fundado
                    pelo <seg rend="italic">abima</seg> Tekla Haimanot. Logo abaixo, senão quasi a
                    par do <seg rend="italic">abima</seg>, havia o <seg rend="italic">Labeata</seg>,
                    padre de nomeação imperial. Junto do soberano funccionavam os <seg rend="italic">Azages</seg> e <seg rend="italic">Umbares</seg>, dezembargadores e
                    ouvidores do imperio, sem escrivães, nem tabelliães, por serem verbalmente
                    averiguadas e julgadas na presença das partes todas as suas demandas, e do mesmo
                    modo proferidas as sentenças. Não havia as papelladas de nossos autos, a que B.
                    Telles chama pégo immenso de trapaças.</p>
                <p>O livro da lei, <seg rend="italic">Fitha Negoust</seg>, compunha-se de textos mal
                    traduzidos do codigo Justiniano, amalgamados com prescripções religiosas. Antes
                    de serem ouvidas as testemunhas, iam á porta principal da egreja, prestar
                    juramento na presença de dois clerigos, que tinham ahi incenso e brazas. A
                    pessoa que jurava, punha as mãos na porta, e um dos clerigos dizia-lhe: «falla
                    verdade, e se jurares falso, assim como o leão traga a presa no bosque, assim
                    seja tua alma tragada do diabo; e assim como o trigo é quebrado entre as pedras,
                    assim os teus olhos sejam moidos dos diabos; e assim como o fôgo queima a lenha,
                    assim a tua alma seja queimada no fogo do inferno e feita pó; e se verdade
                    disseres, a tua vida seja alongada com honra, e a tua alma góze do paraizo com
                    os bemaventurados». A cada uma d'estas maldições e bençãos respondia o que
                    jurava: amen.</p>
                <p>O povo era de pouca verdade, ainda que jurasse, a não ser, que fizesse o
                    juramento pela cabeça do imperador, ou que fosse ameaçado da excommunhão, que
                    sobre tudo temia.</p>
                <p>As tendas do imperador, á excepção da rôxa, que sómente armavam nos dias festivos
                    e para as grandes recepções, eram brancas e cercadas por umas cortinas de
                    algodão preto e branco em xadrez, as quaes formavam como que um muro, e em volta
                    giravam muitas sentinellas.</p>
                <p>Quando o acampamento mudava de local, iam á distancia de um tiro de bésta, na
                    frente da comitiva imperial, os quatro leões, dois a dois, com gargalheiras de
                    ferro, a cada uma das quaes prendiam symetricamente quatro cadeias do mesmo
                    metal, um pouco compridas. Tiravam-n'as dezeseis homens, quatro por cadeia;
                    sendo oito adeante e oito atraz do leão, de modo que este podia andar unicamente
                    na direcção dos homens que o antecediam.</p>
                <p>Em seguida caminhavam os cem homens com azorragues, e, dando em vão com a
                    comprida correia presa ao pequeno cabo do açoite, ouvia-se um forte estalido,
                    que fazia afastar a gente.</p>
                <p>Após estes marchavam na cadencia de passo accelerado, setenta porteiros de maça,
                    vestidos uniformemente, com camisa e calção de seda, apertado por um cinto do
                    mesmo tecido, cujas pontas chegavam ao chão; aos hombros uma pelle de leão, e
                    sobre esta um collar de ouro mal lavrado, tendo engastada muita pedraria
                    falsa.</p>
                <p>O altar, em que diziam missa ao Préste, e a pedra de ara, eram levados por
                    clerigos nos braços, indo adeante um diacono, tangendo uma campainha.</p>
                <p>O <seg rend="italic">Titaurári</seg> escolhia o lugar do arraial, assignalando
                    com uma lança cravada no terreno o centro da área, que deviam occupar as tendas
                    imperiaes. Detraz d'aquella, em que dormia o soberano, á distancia de um tiro de
                    bésta, ficava a da cozinha, da qual levavam a comida em tijellas e panellas de
                    barro preto mui fino, postas em bandejas conduzidas por pagens, e tudo debaixo
                    de um pallio.</p>
                <p>Pouco afastada das tendas do imperador era a da egreja, e na frente d'aquellas as
                    dos tribunaes, seguindo-se em circuito as do pessoal da côrte. Nas restantes,
                    assentadas e arruadas por sua ordem, alojavam-se mais de duzentas mil pessoas,
                    bem como cavallos e mulas, em numero superior a cem mil; tudo como se fôra uma
                    cidade populosa, onde não faltava, o que para uma povoação em taes condições se
                    tornava mister.</p>
                <p>As costas de todas as tendas eram para o oriente, e as portas para o poente. </p>
                <p>As pessoas pobres dormiam sobre o seu <seg rend="italic">Neté</seg>, que era um
                    coiro de boi, extendido no chão, e que lhes servia tanto de cama como de lençol.
                    Como cobertor empregavam a sua capa, que podia ser de panno branco, ou
                    simplesmente uma pelle de carneiro, leão ou tigre.</p>
                <p>Assim como o arabe não larga o turbante, o abexim nunca se separava
                    voluntariamente da capa. Quando se dava até o caso de ser preso por haver
                    commettido algum delicto, o encarregado de o levar á presença do juiz, para
                    evitar que se evadisse, apenas tomava a precaução de atar á sua a capa do
                    captivo; se este fugisse, abandonando a capa, reconhecia-se implicitamente
                    culpado, e, logo que tornasse a ser preso, puniam-n'o sem julgamento prévio.</p>
                <p>Muitos dos mais abastados possuiam catres precintados de correias, sobre as quaes
                    extendiam o coiro de boi, e os cobertores eram duas colchas de seda. O
                    travesseiro consistia em uma forquilha de páu, chamada <seg rend="italic">bercutá</seg>, onde não recostavam a cabeça, porque esta ficava em vão, mas
                    o pescôço, para não amachucarem os cabellos, que traziam sempre muito
                    enfeitados.</p>
                <p>Como os senhores se assentavam ordinariamente sobre alcatifas, e os mais sobre
                    esteiras, as mezas, onde comiam, eram muito baixas, de fórma redonda, e não
                    havia toalhas nem guardanapos. Limpavam-se ás <seg rend="italic">ápas</seg>,
                    espécie de pão de varias farinhas, em que entravam a do <seg rend="italic">teraux</seg> e a do <seg rend="italic">cousio</seg>, e que tambem lhes
                    servia de alimento.</p>
                <p>Sobre as <seg rend="italic">ápas</seg> collocavam as iguarias, sem outros pratos;
                    mas, vindo estas com môlho, eram servidas, com as indispensaveis papas, em
                    tigellas de barro preto, as quaes cobriam com umas tampas conicas de palha fina,
                    chamadas <seg rend="italic">escambiás</seg>.</p>
                <p>Assavam a carne sobre as brazas, e, quando comiam crua a de vacca, embebiam-n'a
                    com fel da mesma rez. Chamavam <seg rend="italic">berindó</seg> a este amargo
                    manjar, um dos mais delicados da sua mesa.</p>
                <p>Tinham para bebida nacional, de que sómente usavam depois das refeições, o
                    hydromel; que constava de cinco ou seis partes de agua, uma de mel, e uma porção
                    de cevada torrada, que fazia ferver a mistura, lançando-se depois n'esta uns
                    pedaços de páu, denominado <seg rend="italic">sardó</seg>, que em cinco ou seis
                    dias de infusão modificava a doçura do mel.</p>
                <p>Para a meza do imperador, transportava-se o hydromel, por occasião das mudanças
                    de arraial, em cem jarras pretas de seis canadas cada uma, tapadas com barro e
                    selladas, e denominavam-se <seg rend="italic">gombos</seg>. Os portadores
                    d'ellas iam escoltados por muitos homens d'armas.</p>
                <p>Como abundava por toda a parte o mel e a cêra, d'esta faziam vellas, com que se
                    allumiavam, e preferiam aquelle ao assucar, por isso unicamente se serviam da
                    canna para alimento.</p>
                <p>Á excepção de pepinos, melões e rabanos, que se não davam em parte alguma do
                    territorio abyssinio, havia todas as fructas e legumes conhecidos, sendo escassa
                    a producção de hortaliças.</p>
                <p>Além de grandes creações de vaccas, ovelhas e cabras, era extraordinaria a
                    quantidade e variedade das aves, sem faltarem as codornizes, as rôlas, os patos
                    bravos, os tordos, as andorinhas, os rouxinóes e as gallinhas do mato. As
                    perdizes, de tres castas: umas, como grandes capões, da mesma côr e feição das
                    nossas, salvo terem os pés e bicos amarellos; outras, corpulentas como
                    gallinhas, com os pés e bicos vermelhos; e as restantes, do tamanho das nossas,
                    differindo d'ellas sómente na côr pardacenta dos bicos e pés.</p>
                <p>Appareciam tambem coelhos e lebres.</p>
                <p>Tirante o arraial do imperador, nenhuma povoação merecia o nome de cidade, nem de
                    villa. Tudo eram aldeias maiores ou menores, em geral abertas; e unicamente
                    cercadas de uma parede ensôssa, as que ficavam fronteiras dos gallas, os mais
                    temiveis inimigos dos abexins, pois com perpetuas correrias lhes assolavam os
                    campos, e nem semeal-os deixavam.</p>
                <p>Algumas das maiores povoações, declaradas inviolaveis, serviam de refugio.
                    Respeitadas por todos os partidos nas guerras civis, tinham o nome de <seg rend="italic">gueddam</seg> e seus governadores o de <seg rend="italic">alikas</seg>.</p>
                <p>A situação das aldeias era, ou nos extremos das planicies, ou nos cumes de
                    algumas montanhas. As casas, commummente redondas e terreas, com as paredes
                    formadas de estacas muito juntas, e cobertas de palha, ou com açoteas em vez de
                    telhado. As dos mais ricos differiam um pouco, por terem as paredes de pedra
                    ligada com argamassa, e o vigamento do tecto ser de aguieiros de cedro tão
                    unidos, que serviam de forro, effectuando-se essa união por meio de cordões de
                    varias côres, que produziam bello effeito. Em terreno fechado com cêrca de pedra
                    ensôssa até á altura de seis ou sete palmos, e d'ahi para cima com sébe muito
                    bem tapada, feita de ramos de arbustos espinhosos, que davam flôres muito
                    delicadas, oito ou mais d'aquellas casas constituiam a vivenda muito aprazivel
                    dos senhores.</p>
                <p>Os abyssinios provêem de uma mistura de povos diversos, por isso os orientaes
                    lhes chamam <seg rend="italic">hobesch</seg>. Raça esbelta, elegante e vigorosa,
                    de rosto oval, nariz adunco, muitas vezes bem talhado, bôca rarissimamente
                    guarnecida de labios grossos, cabello mal encrespado, a pelle mais ou menos
                    aspera, não molle e assetinada, como a da raça negra; corre-lhes nas veias
                    sangue do egypcio antigo, do bérbere, no sentido mais lato d'esta palavra, do
                        <seg rend="italic">foulah</seg> ou <seg rend="italic">peulh</seg>—raça
                    vermelha, do arabe e do africano puro. N'esta mistura dominam successivamente,
                    segundo as regiões, os typos secundarios mais proximos, <seg rend="italic">bedjas</seg>, <seg rend="italic">somali</seg>, <seg rend="italic">galla</seg> e o syro-arabe, por isso, além do preto, a côr da pelle varia
                    muito, encontrando-se o moreno em todos os tons, e até o branco; este, porém,
                    exangue e sem graça. </p>
                <p>Eram os abexins boa gente de guerra, excellentes cavalleiros, creados e curtidos
                    nos trabalhos, soffredores da fome e da sêde. A vida, dos que se não occupavam
                    nos labores agricolas, era a guerra. N'esta se creavam de pequenos, e n'esta
                    envelheciam. Mui simples o seu uniforme. Um calção leve, e pouco largo, de
                    algodão, seguro por uma faxa do mesmo panno enrolada á cintura. Uma capa de
                    egual tecido mais encorpado, e sobre ella uma pelle de panthéra negra ou de
                    leão. Calçavam alparcatas, e andavam nús de braços e pernas, pois o calção mal
                    cobria estas até ao joelho.</p>
                <p>Em geral a plebe não usava calçado, e o seu vestuario reduzia-se a umas bragas de
                    algodão e uma capa, que podia ser uma pelle ou um largo panno tambem de
                    algodão.</p>
                <p>Muitos abexins vestiam calções mouriscos, que desciam recramados até ao artelho,
                    onde os apertavam, sendo de damasco ou velludo do joelho para baixo, e d'alli
                    para cima, como ficavam cobertos pela cabaya, faziam-n'os de teada. Os calções
                    dos grandes da côrte ajustavam-se ás pernas, e as cabayas, como as dos baneanes,
                    abertas até á cinta, eram abotoadas com botões miudos. Em um collarinho cozido a
                    umas mangas estreitas e compridas, a ponto de recramarem, tudo feito de bofetás
                    de Cambaya ou de um fustão azulado da mesma proveniencia, consistia a camisa, ou
                    antes o simulacro d'ella. Alguns substituiam aquelles tecidos por tafetá ou
                    setim, e, quando vestiam cabayas turquescas de velludo, ou de brocadilho de
                    Mecca, não se cobriam com capa, que era de panno fino da terra ou de bofetá.</p>
                <p>Quando vinha de suas terras um nobre, chamado á côrte pelo Préste, emquanto
                    andava nú da cinta para cima, e sómente com uma pelle sobre os hombros, <seg rend="italic">ainda não estava na graça do Senhor</seg>; mas logo que
                    fallasse com o Préste, e saisse da sua tenda vestido, <seg rend="italic">já
                        estava na graça do Senhor</seg>. </p>
                <p>Todos andavam em cabello, que deixavam crescer, para fazerem penteados
                    caprichosos. As mulheres encaracolavam algum, com o qual emmoldoravam
                    graciosamente o rosto, e usavam solto o restante, que lhe cahia fartamente sobre
                    os hombros.</p>
                <p>O armamento da milicia compunha-se de uma rodella de pélle de bufalo; dois
                    zargunchos: um estreito para o arremesso nos primeiros encontros, outro largo,
                    com que esgrimiam na lucta; maças de páu duro e pesado, denominadas <seg rend="italic">bolotás</seg>; punhaes, que tambem serviam de arma de
                    arremesso; e lanças curtas para os cavalleiros, os quaes igualmente faziam tiros
                    com zargunchos estreitos, como se foram dardos.</p>
                <p>Os mais nobres cingiam espada—de que raras vezes se serviam—com empunhadura
                    dourada ou de prata, e bainha de velludo ou de outra sêda. Alguns traziam tambem
                    adaga.</p>
                <p>Os cavalleiros com sáia de malha—que poucos eram—não se curavam de rodella,
                    porque os embaraçava, e usavam de capacete.</p>
                <p>Sem ordem alguma de formatura, as batalhas começavam e acabavam no primeiro
                    choque, fugindo uns, e seguindo os outros a victoria.</p>
                <p>Para a guerra iam os cavalleiros montados em mulas, muito mansas, grandes e bem
                    feitas, e levavam os cavallos á dextra, porque estes, como não tinham
                    ferraduras, depréssa ficavam despeados. Os homens, descalços mettiam nos
                    estribos sómente o dedo pollegar de cada pé.</p>
                <p>Além da gente de armas, era muita mais a que seguia o arraial e a bagagem d'elle.
                    Iam familias inteiras, e eram necessarias muitas mulheres, para fazerem as <seg rend="italic">ápas</seg> e o hydromel. Muitos não levavam matalotagem, e,
                    quando se acabava a dos outros, não pediam todos elles mantimentos aos
                    camponezes, por cujas habitações passavam, mas invadiam estas e roubavam-n'as
                    com uma furia verdadeiramente selvagem.</p>
                <p>Como não corria moeda no paiz, nem o Préste a mandava cunhar, as compras
                    effectuavam-se por troca de ladrilhos de sal gemma, chamados <seg rend="italic">amalé</seg>, cortados a machado em perpetuos e inexhaustos jazigos.</p>
                <p>Sem embargo de haver no paiz abundante minerio de ouro, prata, cobre e estanho,
                    os habitantes não sabiam proceder á extracção d'esses metaes, e aproveitavam-se
                    unicamente d'aquelles, que as chuvas descobriam nas regueiras com a corrente das
                    aguas.</p>
                <p>A carencia absoluta de salinas, e o desconhecimento completo da metallurgia,
                    explicam talvez, por que aos abexins servia de moeda o sal gemma; e, como a
                    natureza lhes prodigalizava quanto precisavam para trocar pelos productos
                    importados de outros paizes, prescindiam ou não sentiam falta da moeda.</p>
                <p>A egreja, outros edificios, e o grande numero de altos obeliscos, em Aquaxumo,
                    denotavam a existencia de uma antiga civilisação mais adeantada.</p>
                <p>Junto de um immenso <seg rend="italic">daro</seg> elevava-se o templo christão,
                    que era de formosa fabrica de cantaria bem lavrada, com cinco largas naves,
                    todas abobadadas, sete capellas, côro alto, abobadado ao modo dos nossos, e
                    denominava-se egreja de Santa Maria de Syon.</p>
                <p>Nos obeliscos, cada um dos quaes de uma só pedra granitica, não se viam
                    hieroglyphos, como em todos os dos egypcios, mas cobriam as suas quatro faces
                    esculturas, que revelavam um cinzel grego.</p>
                <p>N'este lugar de Aquaxumo, conforme a tradição dos abexins, fundou-se a
                    christandade da Ethiopia Oriental, e gloriavam-se elles muito de serem os
                    primeiros christãos, que no mundo houve, e de que n'elles se cumprira a
                    prophecia de David.</p>
                <p>Sem embargo de tão respeitaveis preeminencias, innumeros eram os erros da sua
                    religião, cheia de superstições grosseiras, e fortemente impregnada de judaismo,
                    com traços de budhismo.</p>
                <p>Além de muitos conventos de religiosos, por todo o imperio havia numerosas
                    egrejas, todas com grandes rendas, de que seus ministros viviam.</p>
                <p>Em geral, as egrejas, architectonicamente consideradas, estavam de harmonia com
                    as habitações. Situadas em lugares altos, á sombra de copadas arvores, e sómente
                    por excepção em subterraneos, tinham muitas a fórma circular, e as suas portas
                    nos quatro pontos cardinaes. Reconhecia-se facilmente, que não deixaram
                    discipulos os artistas, que trabalharam nos monumentos de Aquaxumo, e ainda
                    outros lugares, sendo attribuidas aos egypcios todas essas obras.</p>
                <p>Tinham as egrejas duas cortinas: uma encobria o altar, e d'ella para dentro
                    sómente passavam os sacerdotes; a outra, a meio do templo, limitava o espaço
                    comprehendido entre ambas, reservado para assistirem de lá aos officios divinos
                    o imperador e mais pessoas gradas. Ao povo era defeso entrar na egreja. Ficava á
                    porta fronteira do altar a ouvir missa, e o celebrante não só d'alli lhe
                    ministrava a communhão, que todos os fieis, antes de começar o santo sacrificio,
                    deviam receber, senão tambem lhes lia as epistolas e evangelhos em gheez, que
                    era a lingua lithurgica.</p>
                <p>O imperador e os grandes tomavam as ordens de diacono, para poderem ser
                    admittidos no interior dos templos, e haviam de descalçar-se antes do ingresso.
                    Por tal motivo o imperador trazia na mão uma pequena cruz, não como sceptro ou
                    insignia do imperio, senão em signal de ser diacono. De sceptro nunca elle
                    usava, corôa tambem a não punha, nem sahia de cruz alçada, como erradamente se
                    affirmava.</p>
                <p>Os frades eram celibatarios, não os clerigos; e até os filhos dos conegos tinham
                    o privilegio de pertencerem á collegiada dos páes.</p>
                <p>O matrimonio, porém, não se considerava sacramento, e toda a gente o contrahia
                    com o tacito ou expresso consentimento de se poderem apartar os conjuges,
                    tomando estes logo para isso fiadores, e assim evitavam o espectaculo nada
                    edificante, e as mais das vezes asqueroso, das causas de divorcio.</p>
                <p>As cruzes não tinham a imagem de Christo, porque os abexins se julgavam indignos
                    de ver o Redemptor crucificado. Tambem se não mostrava ao povo a hostia
                    consagrada. O vinho para a missa era feito de summo de passas de uvas, deitadas
                    de molho em agua, durante dez ou doze dias, enxugavam-as depois, pisavam-as e
                    expremiam-n'as em um panno. Para a celebração da missa, as vestimentas
                    consistiam em umas como que grandes camisas brancas, na estola furada pelo meio
                    e mettida pela cabeça, e não usavam de manipulo, amicto, nem cordão para se
                    cingirem. Os frades celebravam com o capello na cabeça, e todo o clero a trazia
                    rapada, deixando, porém, crescer as barbas.</p>
                <p>Tinham os abexins tanta reverencia pelas egrejas, que nenhum passava a cavallo
                    por deante das portas d'ellas. Apeavam-se, e só tornavam a montar, quando iam já
                    distantes.</p>
                <p>A veneração geral tributada á Egreja e cousas d'ella, contribuia, para ser muito
                    poderosa a influencia do clero no governo do Estado, por isso o soberano não
                    podia considerar-se completamente absoluto.</p>
                <p>E havia uma hierarchia ecclesiastica bem organisada: arcyprestes—<seg rend="italic">komosats</seg>; conegos—<seg rend="italic">debterats</seg>;
                        curas—<seg rend="italic">kasis</seg>; vigarios—<seg rend="italic">nefk-kasis</seg>; diaconos—<seg rend="italic">diakons</seg>; e
                        sub-diaconos—<seg rend="italic">nefk-diakons</seg>.</p>
                <p>Pero da Covilhan, cuja illustração e talento o elevavam muito acima do nivel
                    moral do povo inculto, no meio do qual se via obrigado a viver, tornou-se dentro
                    em pouco o apoio precioso dos principes, que se succediam no throno. Com
                    repetidas instancias pedia ao imperador Alexandre lhe désse seu despacho, e a
                    resposta ás cartas de D. João II; mas o Préste, respondendo sempre, que o
                    mandaria á sua terra com muita honra, ia dilatando o cumprimento da promessa. E,
                    dizendo mais, que não podia por emquanto prescindir da sua companhia, prezenteou
                    Pero da Covilhan com uma vivenda principesca, vastas campinas e florestas,
                    cavallos, mulas e gados, grande numero de vassallos, um senhorio immenso
                    emfim.</p>
                <p>A imperial munificencia pôz o nosso explorador na desconfiança, de que o soberano
                    abexim procurava tenta-lo com benesses e regalias de grande senhor, e
                    distrahi-lo do proposito de voltar á patria.</p>
                <p>Tomou Pero da Covilhan pósse de seus dominios, mais por mostrar-se obediente ás
                    deliberações imperiaes, do que pelo prazer de goza-los. Como, porém, tinha de
                    viver na côrte, confiou ao cuidado de feitores a importante administração da sua
                    casa.</p>
                <p>Quantas vezes embrenhado em um bosque, deixando-se perder na obscuridade d'elle,
                    parava a ouvir os ruidos profundos e melancolicos do espesso arvoredo, dos
                    grandes seres insensiveis que o cercavam!...</p>
                <p>Não eram accentuações distinctas; mas um murmurio confuso, como o de um povo, que
                    celebra ao longe uma festa por acclamações, ou o de uma grande cidade tambem
                    distante!...</p>
                <p>E, quando á linguagem mysteriosa da floresta se unia o gorgeio magico do
                    rouxinol, que do seu ninho endereçava saudações maviosas e votos reconhecidos ao
                    Eterno, Pero da Covilhan abandonava a sua alma commovida ás gratissimas
                    recordações da patria, e confiava aos inanimados companheiros da sua solidão os
                    segredos ineffaveis do seu amor a Maria Thereza, engrandecido pelos desejos
                    ardentes de a vêr!...</p>
                <p>Que momentos de infinda saudade não seriam aquelles!...</p>
                <p>A occiosidade repugnava ao espirito de Pero da Covilhan, e, como se via a miude
                    consultado pelo imperador Alexandre sobre os negocios publicos, tratou de
                    estudar a fundo os costumes e a historia do paiz.</p>
                <p>Nos archivos dos conventos encontrou uma rica litteratura escripta em gheez, a
                    par de missaes illuminados e coloridos com arte, mas sem desenho quasi e sem
                    perspectiva.</p>
                <p>Aquella lingua conservava já algumas fórmas archaicas. Dirivava-se o alfabeto
                    ethiopico do das inscripções himyariticas, ás quaes os missionarios budhistas
                    juntaram certo numero de signaes diacriticos para indicar as vogaes. Era uma
                    influencia estrangeira, igualmente devida á intervenção da escriptura, que
                    outr'ora ia da direita para a esquerda, ou de cima para baixo, como a maior
                    parte das semiticas, e que tomou a direcção da grega, da esquerda para a
                    direita.</p>
                <p>O gheez foi substituido pelo tigreano, dialecto derivado mais proximo; e o
                    amharico, mais afastado do arabe, com o seu vocabulario em grande parte tirado
                    do gheez, tornou-se a lingua official, mas tendo a grammatica do agaou, tão
                    aparentado com o egypcio antigo.</p>
                <p>Não tardou, que Pero da Covilhan conhecesse melhor os monumentos litterarios dos
                    abexins, do que o proprio clero e naturaes da terra, mas não fazia d'isso
                    alardo, porque não tinha o irrisorio despejo dos pedantes. Todos lhe reconheciam
                    a superioridade, sem elle a impôr; e a sua prudencia, a sua modestia, o seu
                    respeito emfim ao soberano, ás leis e aos costumes do paiz, conquistaram-lhe
                    tamanha estima, tal ascendencia no animo de toda a gente, que nobres e plebeus á
                    porfia procuravam conhecer e servir o <seg rend="italic">novo senhor</seg>. O
                    seu procedimento, porém, tão regrado, de tão salutar exemplo para aquelles povos
                    semi-civilisados concorreu, para que o Préste se lhe affeiçoasse ao ponto de
                    dizer-lhe um dia: «Não posso dispensar-vos. Casai, e quando tiverdes filho ou
                    filha, que nos deixeis em penhor, mandar-vos-ei com nossas cartas a Portugal.
                    Quem nos vem buscar, mister nos ha; não é razão, que se retirem, nem nós os
                    deixamos ir. E não vos agasteis, porque tendes em nós um amigo.»</p>
                <p>Pero da Covilhan, a quem este discurso tão claro, quanto conciso, feriu
                    profundamente no coração, apenas respondeu com imperturbavel serenidade:
                    «Obedeço ás vossas determinações, pois para isso fui mandado á vossa presença
                    pelo meu rei e senhor; e farei a diligencia por corresponder á vossa amisade.» </p>
                <p>Não quiz evadir-se, podendo faze-lo. Mediu bem as consequencias d'esse passo.
                    Preferiu, pois, tomar o partido, a que a necessidade o obrigava, tratou de
                    casar-se, e não pensou mais, d'alli em diante, senão em que havia de acabar os
                    seus dias n'aquelle captiveiro. Mandou dois homens seus, que se encorporassem
                    nas caravanas do Egypto, fossem ao Cairo, e d'aqui trabalhassem por passar a
                    Portugal, a fim de levarem a D. João II umas cartas, que lhes entregou.</p>
                <p>Foi o Préste, quem escolheu a noiva de Pero da Covilhan. Muitas o queriam; mas
                    coube a sorte a uma formosa morena de sangue real, chamada Helena. No dia do
                    noivado receberam os conjuges riquissimos prezentes do imperador, mórmente sêdas
                    da India, colchas da China, e arreios de cavallos.</p>
                <p>Helena considerava-se a mais ditosa filha da Ethiopia. Sentada ao lado de Pero da
                    Covilhan sobre uma alcatifa preciosissima da Persia, disse-lhe, tomando-o pela
                    cintura, e fitando-o enlevada: «Ha muito, que suspirava por ser vossa!... Como
                    sou feliz!... Agora para sempre ficaremos unidos, como as pedras na parede, e os
                    corações no amor de Christo!... A toutinegra não quer mais ao seu ninho, do que
                    eu já quero á nossa casa!... Os teus braços, amor meu, são como os ramos do <seg rend="italic">daro</seg>, que dão doce abrigo; e os teus olhos, os luzeiros
                    do céo, em que vou viver!... Tu és o tronco do ulmeiro, e eu a vara da vide, que
                    o buscava!... Amo-te muito!... muito!...»</p>
                <p>Pero da Covilhan estava sonhando, acordado!... Rolaram-lhe sobre a face duas
                    lagrimas, que os labios ardentes de Helena enchugaram!...</p>
                <p>Foi a primeira vez, que elle se viu chorar!...</p>
                <p>—E porque chorava?!...</p>
                <p>Pobre coração humano!...</p>
            </div>
            <div>
                <head>XIII</head>
                <head>REMATE</head>
                <p>O casamento de Maria Thereza com Pero da Covilhan não repugnava a D. Leonor de
                    Lencastre, a qual tinha até o presentimento, de que não viria a realizar-se.
                    Além d'isso Maria Thereza, sempre muito briosa, havia de timbrar em progredir no
                    estudo das sciencias, que cursaria na Universidade, e, comquanto a vehemencia do
                    seu desejo de saber não apagasse a chamma do amor, que lhe incendiava o coração,
                    amortece-la-ia ao menos. Depois a ausencia com arrefecer, e o tempo com gastar,
                    eram no conceito da rainha remedios capazes, de debellar a enfermidade d'esse
                    amor.</p>
                <p>Talvez fosse uma illusão similhante pensamento, porque o maior incentivo do amor
                    de Maria Thereza era a gloria de Pero da Covilhan, e esta não tardaria a
                    engrinardar-lhe o nome. Assim o esperava Maria Thereza, e tinha para isso
                    fundamento.</p>
                <p>D. Leonor, porém, preferia illudir-se, a deixar de nutrir a esperança tambem de
                    continuar a ver junto de si a meiga companheira das suas devoções, apenas ella
                    completasse os seus estudos. E, como a formosa rainha era dotada de um espirito
                    não só eminentemente religioso e caritativo, mas ao mesmo tempo illustradissimo
                    e pratico, imaginem-se os primores de educação, dada por essa Senhora a Maria
                    Thereza, que logo nos mais tenros annos revelou a sua intelligencia peregrina e
                    uma docilidade encantadora!</p>
                <p>Tal era, com effeito, o juizo que D. Leonor formava das singulares qualidades da
                    sua donzella, que, tendo esta apenas dezeseis annos, a fazia já sua confidente,
                    e com ella conversava frequentes vezes ácerca do seu vasto plano de beneficencia
                    e fundação de casas religiosas, o qual havia traçado com o fim de collaborar, no
                    desenvolvimento da prosperidade nacional, e na exaltação da fé catholica.</p>
                <p>No meio das variadas e constantes distracções da côrte, a excelsa rainha não
                    olvidava, um só instante, o desempenho da missão civilisadora, que a si propria
                    impozéra. E, conhecendo as aptidões de Maria Thereza, teve sempre em vista
                    eleva-la pela cultura do espirito, e aproveitar-lhe os recursos intellectuaes,
                    para associa-la na execução das obras meritorias, que projectava.</p>
                <p>Havia já fundado, ainda em vida de seu marido, um hospital, e junto d'elle uma
                    povoação, que tomou o nome de Caldas da Rainha, para perpetua memoria da sua
                    origem; mas não só mandou provêr aquelle estabelecimento do necessario para a
                    sua sustentação, como obteve do páe de Lucrecia Borgia, o papa Alexandre VI,
                    indulgencia plenaria para os enfermos, que lá fallecessem, muito embóra não
                    houvessem contemplado o hospital em seus testamentos.</p>
                <p>Não faltava assim a esmola do remedio para o corpo e para a alma, aos que fossem
                    procurar allivio ás enfermarias da caridosa fundadora.</p>
                <p>Maria Thereza partira effectivamente na companhia de seu tio para Lisboa, antes
                    das festas de Evora, e foi frequentar a Universidade, a qual occupava as casas,
                    de que lhe havia feito doação o infante D. Henrique, situadas acima da egreja de
                    S. Thomé, contra o muro velho da cidade.</p>
                <p>O novo estudante, com o seu habito talar mais curto do que o dos lentes, conforme
                    prescrevia o Estatuto, a sua formosa cabeça, que ninguem suppunha fosse de
                    mulher, o desembaraço de suas maneiras, e a gentileza do seu pórte, era alvo da
                    sympathia publica no bairro das Escolas Geraes. As raparigas do sitio sabiam já
                    a hora, a que <seg rend="italic">elle</seg> passava para as aulas, ou saía a
                    passeio, por isso esperavam-n'o á janella, e, ao vê-lo, iam-se-lhe os olhos no
                    galante <seg rend="italic">moço</seg>. Maria Thereza ignorava, que era objecto
                    d'essa curiosidade feminina, a qual começava a despertar ciumes na visinhança;
                    mas o tio, que nunca deixava de acompanhar a sobrinha, percebeu, que a
                    requestavam, e uma ou outra vez sorria-se maliciosamente para as admiradoras
                    d'ella, o bom do velho.</p>
                <p>Na convivencia com seus condiscipulos e collegas, os mais vaidosos davam a Maria
                    Thereza, sem querer escarnece-la, a primazia no talento, no saber, e até na
                    graça da palestra.</p>
                <p>Nas conclusões, que defendeu, para tomar o grau de bacharel, bem como no acto
                    para licenciado, causou assombro aos mestres.</p>
                <p>Aproveitou tanto emfim, que saíu doutissima em theologia e direito canonico. </p>
                <p>Quando ella tinha concluido os seus estudos, falleceu o tio. O corpo docente foi
                    logo convida-la, para reger a cadeira, que ficou vaga. Maria Thereza agradecendo
                    o convite, respondeu: «Sem approvação de sua alteza a rainha, minha senhora, não
                    pósso acceitar encargo algum, nem este que tão honroso é, e tenho a certeza de
                    que a não alcançarei, sejam quaes forem as instancias, que junto de sua alteza
                    se façam».</p>
                <p>Os lentes não insistiram em presença de tão cathegorica resposta, e Maria
                    Thereza, sem que pessoa alguma tivesse dado pelo disfarce, com que, durante
                    quatro annos lectivos, cursou as aulas da Universidade, saíu de Lisboa, e no dia
                    29 de setembro de 1495, chegou ás Alcaçovas, onde residia então sua real
                    ama.</p>
                <p>D. João II tinha recebido as cartas, que Pero da Covilhan lhe enviára da
                    Abyssinia por creados seus; como, porém, estivesse em preparativos de passar ao
                    Algarve, a fim de procurar allivio aos seus padecimentos nas caldas de
                    Monchique, ficaram para depois da sua saída, as novas, que D. Leonor queria dar
                    a Maria Thereza.</p>
                <p>Na entrada do mez de outubro partiu o rei para as caldas, deixando á rainha o
                    escrinio, onde guardava aquellas cartas.</p>
                <p>Depois de haver tomado quatro banhos, aggravou-se de tal modo a sua doença, que
                    por conselho dos physicos se mudou para Alvor. Achando-se cada vez peor, desejou
                    ver a rainha e o duque de Beja, fazendo ao mesmo tempo tenção de communicar a
                    este, que em testamento o declarava por só e legitimo herdeiro do throno, e lhe
                    deixava encommendado, como vassallo seu, D. Jorge de Alencastro—que era o filho
                    D. João II e de D. Anna de Mendoça.</p>
                <p>Estava a rainha com o duque seu irmão em Alcacer do Sal, por se haver assentado
                    esperar alli o rei na volta do Algarve, e partirem depois para Santarem. D.
                    Leonor iria embarcada até Setubal, d'aqui atravessaria por terra para Alcochete,
                    e seguiria logo pelo Tejo acima até á velha e pittoresca rainha do Riba-Tejo.
                    Este itinerario, differente do que para si traçára o monarcha, pareceu o mais
                    commodo, por estar D. Leonor ainda convalescente da grave doença, que a pozéra
                    ás portas da morte.</p>
                <p>Na tarde, porém, de 25 de outubro de 1495, quasi ao sol posto, expirou D. João
                    II, ou <seg rend="italic">morreu o homem</seg>, como sentenciosamente disse
                    Isabel, a Catholica. Logo ao outro dia foi dada, tanto á rainha, como ao duque,
                    nova certa do fallecimento.</p>
                <p>Succedeu, com effeito, no throno o duque de Beja, então na bella edade de vinte e
                    seis annos. Pela préssa, com que tratou de se casar, pendemos a crêr, que foi
                    essa a sua primeira idéa, ao ver-se senhor da corôa. Tal era a paixão, que lhe
                    havia inspirado a formosa viuva do mallogrado principe D. Affonso—quem sabe se
                    nas festas de Evora!...</p>
                <p>No mesmo anno de 1497 contrahiu um enlace, que muito ambicionava, e satisfez uma
                    obrigação, que tinha herdado, enviando á India a frota, que D. João II havia
                    apparelhado, commandada por Vasco da Gama, a quem deu cartas para alguns
                    principes do Oriente, incluindo o Préste João, conforme as informações e
                    documentos, que deixára e houvera d'aquellas partes o Principe Perfeito.</p>
                <p>Não foi estranha a rainha D. Leonor ao ultimo d'esses dois actos, sem duvida os
                    de maior transcendencia, que seu irmão praticou no começo do seu reinado.</p>
                <p>Era a rainha, ao tempo do passamento de seu marido, depositaria da importante
                    correspondencia de Pero da Covilhan; e, fazendo entrega d'esta ao novo monarcha,
                    rogou-lhe, que não só mandasse saber do nosso explorador, mas apromptasse,
                    conforme as indicações do mesmo, uma embaixada, que o acreditasse junto do
                    Préste, confirmando as cartas, que lhe levou, e com instancia solicitasse a
                    resposta.</p>
                <p>Vasco da Gama nada soube da Abyssinia; e não admira, porque nem tempo, nem gente
                    lhe sobrava, para lá mandar alguem. Voltou, pois, a Portugal sem novas nem
                    mandados do Préste. E, como a empresa da India tinha por fim primario
                    apossarmo'-nos do commercio oriental, assegurado o nosso predominio nos mares
                    levantinos, facil seria estabelecer relações com o abexim, e até este as
                    buscaria.</p>
                <p>A rainha D. Leonor não se descuidava, porém, de lembrar a D. Manoel a
                    conveniencia de entabolar negociações com o Préste; e Pero da Covilhan, porque
                    já soavam em todo o Oriente as façanhas dos portuguezes, não perdia o ensejo,
                    agora tão opportuno, de inspirar ao imperador abyssinio uma grande idéa de
                    Portugal, de incita-lo a responder á nota do rei, que o tinha enviado junto
                    d'elle, e a dirigir-lhe, por seu turno, uma solemne embaixada.</p>
                <p>Afinal Duarte Galvão, que mui singular prudencia, sagacidade e experiencia de
                    negocios manifestara, como embaixador junto de Alexandre VI, do imperador
                    Maximiliano e do rei da França, saíu de Lisboa na mesma qualidade para a
                    Ethiopia em abril de 1515; mas não satisfez o mandamento, por haver fallecido na
                    ilha do Camarão a 9 de julho de 1517.</p>
                <p>Ao imperador Escander succedera Andeseon, que reinou unicamente seis mezes, e
                    logo Naod, que teve tambem um curto reinado.</p>
                <p>Á morte d'este ultimo principe subiu ao throno uma creança, que tinham baptisado
                    com o nome de Lebna Danguil, mas adoptou depois o de Onag Segued, e por ultimo o
                    de David. Contava apenas onze annos, e por isso, durante a sua menoridade, tomou
                    as redeas do governo a imperatriz Helena.</p>
                <p>As circumstancias do imperio eram gravissimas. Estava ameaçado não só pelos
                    islamitas de Zeila, mas pelo formidavel poder que se elevára sobre as ruinas do
                    imperio dos Khalifas. Aos arabes haviam succedido os turcos, que sustentados por
                    suas idéas de fatalismo, invadiram avidos tudo, desde as cumiadas do Caucaso até
                    ás fronteiras da Nubia. Á sua frente o feroz Selim I, tornou-se senhor do
                    Egypto, juntando-o ao imperio ottomano, e com suas frotas cobriu logo o Mar
                    Vermelho. Djiddah, Mokha, Suaquem e Zeila receberam successivamente guarnições
                    de janizaros, que levaram ahi armas novas, ainda desconhecidas n'esses paizes. A
                    mosqueteria e artilheria espalharam ao longe o terror por seus effeitos
                    rapidos.</p>
                <p>Foi então, que a regente do imperio abyssinio, atemorizada de tão terrivel
                    vizinhança, se lembrou de solicitar, a favor da causa do seu povo, a protecção
                    de um rei, cujas grandezas Pero da Covilhan tanto exaltava, e de cujas victorias
                    alcançadas em toda a India, nas pelejas contra os mahometanos, já se ouvia o
                    écco na Ethiopia. Mas desconfiada sempre, como todos os da sua raça, tratou de
                    procurar pessoa, que podésse certifica-la tanto dos acontecimentos da India,
                    como das coisas que lhe contava Pero da Covilhan, e ella muito lhe
                    perguntava.</p>
                <p>Na côrte do Préste andava um mercador armenio, chamado Matheus, que, por fallar
                    ou entender o portuguez, pareceu á imperatriz Helena mais proprio, do que outro
                    qualquer, e mandou-o a Portugal. Veiu, com effeito, ao nosso reino, mas
                    secretamente, o embaixador Matheus com cartas da imperatriz em nome do Préste,
                    um pedaço de lenho da Vera Cruz, como signal da fé professada na Abyssinia, e
                    tudo foi recebido pelo rei D. Manoel. Entendeu o nosso monarcha, não dever
                    demorar o delegado da imperatriz Helena, e despediu-o com muita honra, ordenando
                    a Diogo Lopes de Siqueira nomeado governador da India, que na esquadra do seu
                    commando conduzisse Matheus á ilha de Massuah.</p>
                <p>A esquadra, composta de dez náus, largou do porto de Lisboa no dia 27 de março de
                    1518, e levou tambem D. Rodrigo de Lima, o qual ia á Ethiopia com uma embaixada
                    do rei D. Manoel para o Préste. Eram treze as pessoas, que constituiam a
                    comitiva do embaixador, e n'aquelle numero contava-se o P. Francisco Alvarez,
                    capellão do rei.</p>
                <p>Diogo Lopes cumpriu as ordens do soberano, entregando em Massuah ao Bahar-Nagays,
                    governador das terras maritimas da Ethiopia, Matheus e a embaixada
                    portugueza.</p>
                <p>Logo em um dos primeiros dias de marcha para a côrte do Préste falleceu Matheus,
                    no mosteiro da Visão. A embaixada proseguiu, até que chegou ao seu destino,
                    depois de longas e arduas jornadas.</p>
                <p>Tiveram os portuguezes a satisfação de encontrar Pero da Covilhan, que exultou ao
                    ver os seus nacionaes, e não poude conter as lagrimas, ao lembrar-se da patria,
                    á qual o não deixavam voltar as obrigações, que tinha tomado.</p>
                <p>Durante os seis annos, que D. Rodrigo de Lima esteve na Abyssinia, de muito lhe
                    serviu o voluntario e nobilissimo exilado, que tão heroica e honradamente
                    sacrificou a vida pelo seu paiz.</p>
                <p>Nas cartas, que o imperador David escreveu a D. Manoel, por D. Rodrigo de Lima,
                    dizia:</p>
                <p>«O Pero da Covilhan achei, quando reinei, que meu páe não encaminhára, até ver
                    coisa, que o mais certificára; o que Deus a mim fez e não a elle, e sabe como
                    fica meu coração até ver vossa, resposta, que muito desejo».</p>
                <p>Os desejos do Préste eram, que o rei de Portugal mandasse fortificar Massuah e
                    Suaquem, por medo dos rumes, que, fazendo-se ahi fortes, o desbaratariam e aos
                    portuguezes. Offerecia gente, mantimentos, e o que necessario fôsse emfim,
                    lembrando ao mesmo tempo, que seria bom tomar Zeila, porque d'este porto iriam
                    as mercadorias para Aden, Djiddah e toda a Arabia, até ao Tor e Cairo.</p>
                <p>Entretanto continuava de refem Pero da Covilhan...</p>
                <p>Chegámos ao fim do primeiro quartel do seculo XVI, sem comtudo irmos mais longe,
                    do que deviamos; é-nos, porém, preciso retroceder. </p>
                <p>Da correspondencia de Pero da Covilhan estremou a rainha D. Leonor a seguinte
                    carta, que mandou lêr a Maria Thereza:</p>
                <ab><seg rend="italic">Maria Thereza</seg></ab>
                <p>Sabeis naturalmente já o bastante para apreciar a minha situação, e comprehender
                    a impossibilidade, em que me vejo, de sair d'ella, como eu desejava, ou—porque
                    não direi?—como nós ambos desejavamos.</p>
                <p>Devo crer, que vos não faltarão informações de Sua Alteza a Rainha minha Senhora,
                    e que tambem vós as havereis solicitado a miude. Mas a El-Rei meu Senhor pedi
                    licença de vos escrever, pela primeira e ultima vez, para de longe conversar
                    comvosco, condemnado, como estou a não mais vos vêr, nem ouvir.</p>
                <p>A palavra humana é fraca, para exprimir a violencia da dor, que soffro, ao
                    lembrar-me d'essa condemnação eterna! Deus me conceda a resignação precisa, e a
                    minha alma se fortaleça com tão duras provações!...</p>
                <p>De como desempenhei o real serviço, desde que sahi de Portugal até hoje, tem
                    El-Rei larga noticia, enviada por mim a Sua Alteza. Restava-me unicamente
                    dar-vos conta dos meus passos, que dirigi esperançado sempre, em merecer o
                    agrado de meu Augusto Amo, e de tornar-me digno de vós.</p>
                <p>Em caravanas e recóvas de mouros, e por mouro a seus olhos passando, estudei o
                    commercio e navegação do Oriente, visitando para esse fim os principaes portos;
                    e alcancei certificar-me, de que pelo mar se podia vir de Portugal á India. Do
                    mesmo modo, sabendo em Calicut, que do grão Cairo para aquella cidade, que é a
                    primeira e a mais formosa das terras indianas, traziam os mouros fortes armadas
                    de muitas náus com grande trato de grossas mercadorias, provenientes de Mecca,
                    fui ver com meus proprios olhos o centro d'este mercado. </p>
                <p>Voltando de Ormuz, aonde por ordem de El-Rei meu Senhor, acompanhei o rabbi
                    Abraham, desembarquei na cidade de Djiddah, que é o porto de Mecca no mar
                    Vermelho.</p>
                <p>Tendo encontrado alli numerosos peregrinos, que se preparavam para ir visitar a
                        <seg rend="italic">cidade santa</seg>, como elles fanaticamente chamavam a
                    Mecca, encorporei-me na sua caravana.</p>
                <p>Não vos encareço os riscos d'esta minha empresa, para jactar-me d'ella, senão
                    para vos assegurar, que muito devo á misericordia divina, a qual decerto moveram
                    mais as vossas orações do que as minhas.</p>
                <p>Com extrema confiança em Deus, e em que vós não cessarieis de velar pelos meus
                    passos, ousei ir da-los, onde a christãos é vedado transitar.</p>
                <p>Felizmente não adivinharam os meus companheiros, que lhes profanava os seus
                    lugares santos...</p>
                <p>Ser-vos-ia fastidiosa a relação das ceremonias a que assisti, e em que tive de
                    tomar parte—perdôe-me Deus!—na terra natal de Mohammed. Sómente vos direi, que
                    não póde ir mais longe o fanatismo nem a cegueira humana!</p>
                <p>É realmente Mecca um centro de commercio muito rico, e sem duvida o mais variado
                    de todo o Oriente, no tempo das romarias, pois que se accumulam nos bazares
                    producções mui valiosas de todos os paizes sujeitos á lei do <seg rend="italic">propheta</seg>, e fazem-se negocios importantes.</p>
                <p>De Mecca passei a Medina, onde está o tumulo do <seg rend="italic">sancarrão</seg>. Atravessei igualmente uma região immensa, adusta e
                    maninha.</p>
                <p>Terminada a peregrinação, retirei para Yambo, que é no mar Vermelho o porto, que
                    abastece Medina, e alli embarquei logo em um zambuco, no qual me dirigi a
                    Tor.</p>
                <p>Eu tinha necessidade absoluta de purificar-me, de retemperar a minha fé. O Sinai
                    ficava-me perto. Fui vêr essas solidões da Arabia Petrea, por onde vagaram tão
                    longo tempo os filhos de Israel, desde o exodo até entrarem na Chanaan
                    promettida. Subi á montanha sacrosanta, onde Moysés dictou a lei aos hebreus.
                    Puz a mão na pedra, da qual o propheta fez brotar um jôrro de agua com o toque
                    da sua vara mysteriosa. Penetrei na caverna do monte Horeb, onde o propheta
                    Elias se escondeu, para escapar á vingança da rainha Jesabel. Percorri emfim
                    toda essa região pedragosa e triste, que cérca o Sinai; esse antigo paiz
                    biblico, um dos mais celebres da historia. N'ella encontrei ainda as ruinas de
                    Petrea, que fôra outr'ora o grande deposito do commercio da Arabia meridional,
                    bem como o mercado, aonde as caravanas de Yemen levavam o incenso e os aromas,
                    recebendo em troca os productos da Phenicia.</p>
                <p>Voltei depois de Tor, e d'aqui atravessando o mar Vermelho, fui desembarcar em
                    Zeila.</p>
                <p>Tinha chegado ás portas da Abyssinia.</p>
                <p>A residencia do Préste é ordinariamente no reino de Chôa, mui salubre, e situado
                    quasi no meio do vastissimo imperio ethiopico.</p>
                <p>Os que vão do Levante demandar a côrte, vêem-se obrigados a trepar uma altissima
                    serra, como se fôra inexpugnavel fortaleza. Por cima d'ella corre um caminho
                    muito ingreme, o qual no espaço de um tiro de bésta de tal modo se aperta, que
                    mal cabem dois homens a cavallo, indo emparelhados. É uma lomba cortada a pique
                    de ambos os lados, á qual conduzem tão escabrosos passos, abertos no recosto da
                    montanha, que, se alguem embicar, ou a cafila, que sobe, topa com a que desce,
                    não indo com o prumo attento nas passadas, fazem-se em pedaços os caminhantes, e
                    perdem-se totalmente as mercadorias, rolando tudo por aquelles horriveis
                    despenhadeiros abaixo! Na entrada de taes precipicios estão de uma parte e da
                    outra umas como portas, onde pagam direitos ao Préste todos os que por lá passam
                    com tamanho risco de suas vidas.</p>
                <p>Fui emfim recebido pelo Préste, e, vendo que elle me detinha, roguei-lhe
                    instantemente me despachasse, dando-me a resposta ás cartas d'El-Rei. E sabeis
                    vós, qual foi a decisão irrevogavel do Préste?</p>
                <p>—Que tratasse de me casar, e depois de ter um filho, para lh'o deixar por fiador,
                    me mandaria a Portugal!</p>
                <p>Impôz-me, como vêdes, o maior dos sacrificios!</p>
                <p>A vós, a El-Rei e á nossa querida patria o offereço.</p>
                <p>Eu poderia arrostar qualquer perigo, disfarçar-me, e saír d'aqui; mas
                    perder-se-ia tudo quanto tenho feito. Se eu me retirasse, esta gente sempre
                    desconfiada, e em geral de pouca verdade, ficaria tendo-me na conta de um
                    embusteiro; no que não perigava a minha consciencia, mas o credito e os
                    interesses, de quem me mandou cá. Assim tomariam por grande falsidade tudo o que
                    lhes tenho dito, para exalçar o nome de meu Augusto Amo; para convencer o
                    Préste, de quanto lhe será util alliar-se com Sua Alteza; para conseguir
                    finalmente que todo este povo considere, respeite e admire a nação portugueza. E
                    não descançarei, emquanto não resolver o Préste a enviar uma embaixada a El-Rei
                    meu Senhor.</p>
                <p>De nenhum modo conviria a El-Rei fazer guerra a um povo, cujo territorio a
                    natureza tão prodigamente fortificou. Essa temeraria empreza traria comsigo
                    muitos encargos, por ser o paiz mui remoto, para se poder conquistar e
                    conservar, e debilitaria tanto as forças de Portugal, que ficaria este sem as
                    necessarias para a sua conservação. Prefere decerto Sua Alteza crear e manter as
                    mais pacificas relações de amisade com o Préste.</p>
                <p>Muito contribuirá para isto a vinda da nossa frota ao Oriente; e, como El-Rei já
                    sabe o caminho, não tardará ella em sulca-lo.</p>
                <p>Os abexins são muito ciosos de suas coisas. Tenho, pois, de lisonjear-lhes a
                    vaidade, para lograr a sua inteira confiança, porque depois será menos difficil
                    admittirem o meu conselho. Como prouve a Deus, que eu viesse acabar meus dias a
                    este exilio, empregal-os-ei todos no serviço d'El-Rei, e da patria.</p>
                <p>Fui constrangido a constituir familia, e todavia—crêde-me, Thereza!—vivo em uma
                    solidão immensa!...</p>
                <p>Como, porém, quando a alma nos sáe da carne, deverá levar comsigo todas as suas
                    affeições, ter-vos-hei junto de mim no Paraizo. O céo é o verdadeiro lugar do
                    amor, e n'esta esperança immortal repousa docemente o meu coração. E, emquanto
                    andarmos ambos sobre a terra, as nossas orações e os nossos votos juntar-se-hão
                    no caminho do céo...</p>
                <p>Estou longe de vós, mas acompanho-vos sempre, e não me vêdes, por não ser visivel
                    o pensamento... São terriveis combates os accessos de abatimento, que repetidas
                    vezes me tomam!... Mas, para que esta separação nos não custe, experimentemos...
                    vós o serdes menos amavel, eu amar-vos menos...</p>
                <p>Não nos é dado realizar o impossivel!</p>
                <p>O tempo de lagrimas, de solidão, de aborrecimento, que de vós me sepára, acabará,
                    para nos unirmos e gosarmos juntos da bemaventurança eterna!...</p>
                <p>Adeus.</p>
                <ab><seg rend="italic">Pero da Covilhan.</seg></ab>
                <p>Quando Maria Thereza terminou a leitura d'esta carta, estava como «a candida
                    cecem das matutinas lagrimas rociada»; mas tinha ao pé de si quem lh'as
                    enxugasse, quem lhe respirasse os suspiros, que as entrecortavam.</p>
                <p>Conservando a carta apertada n'uma das mãos, voltou-se para a rainha e
                    exclamou:</p>
                <p>—Assim o quiz Deus!... Faça-se a sua vontade!... Que duvidosas são as coisas
                    d'esta vida!...</p>
                <p>—Tambem as ha certas—interrompeu D. Leonor com muito carinho—e uma d'ellas será a
                    tua resignação, que não pósso pôr em duvida...</p>
                <p>—Sim, minha Senhora; nas mãos de Deus me resigno... E, se voss'alteza me
                    permitte, cumprirei tambem as ultimas palavras, que disse a Pero da Covilhan:
                    «de outro jámais serei!»</p>
                <p>—Não admiro a tua fidelidade ás promessas, que fazes—tornou a rainha—; mas ás
                    vezes... em momentos irreflectidos... e ha tantos em galanteios!... Emfim é
                    necessario, que penses no teu futuro...</p>
                <p>—Tenho pensado, minha senhora. Eu nunca perdi a esperança de tornar a vêr Pero da
                    Covilhan; agora, porém, depois da sua carta, ainda que elle voltasse já não
                    podia ser sua mulher. Serei esposa do Senhor.</p>
                <p>—Não póde haver união mais santa—retorquiu com jubilo a rainha—; mas
                    sentir-te-has tu bem forte para a contrahir?...</p>
                <p>—Se sinto!... Creia voss'alteza, que não é filho de um desespero o meu proposito;
                    anima-me, pelo contrario, a esperança, de que, servindo melhor a Deus na
                    clausura, mais util poderei ser a Pero da Covilhan, orando por elle, e mais
                    facilmente será perdoada a minha fraqueza de o não esquecer... A dôr é o mais
                    seguro laço, que prende dois corações...</p>
                <p>—Minha boa Thereza!... Cada vez considero mais digno da minha estima o teu
                    coração de ouro!...</p>
                <p>Maria Thereza cahiu de joelhos aos pés da rainha, e beijou-lhe as mãos,
                    regando-lh'as de lagrimas. D. Leonor deixou resvalar por sobre a formosa cabeça
                    da sua predilecta, as que lhe borbulharam dos olhos...</p>
                <p>Eram duas almas diamantinas, que se confundiam em um crysol, formado do mesmo
                    affecto finissimo.</p>
                <p>Fôra a rainha D. Leonor encarregada do governo do reino, por carta patente de 24
                    de março de 1498, durante a ausencia do rei D. Manoel, que passára com sua
                    mulher a Castella, a fim de serem jurados herdeiros d'esta monarchia; e logo, a
                    15 de agosto do mesmo anno, a piedosa regente instituiu a Misericordia de
                    Lisboa. Não satisfeita com erigir esse monumento, que por si só bastaria para
                    immortalisa-la, é infatigavel no caminho do bem, alumiada pelos esplendores da
                    fé, e profundamente inspirada nos estremecimentos de amor, com que a sublime
                    virtude da caridade commovia a sua alma a trasbordar de candura.</p>
                <p>Creou albergarias em Obidos e Torres-Vedras, fundou o convento da Annunciada em
                    Lisboa, e na mesma cidade o hospital de Sant'Anna, sobrando-lhe ainda tempo para
                    dar protecção ás lettras e ás artes, pois á sua munificencia indefessa se deviam
                    monumentos preciosos da nossa typographia, que tentava então os seus primeiros
                    ensaios em Portugal.</p>
                <p>Mas de todas as suas instituições religiosas a mais querida e por isso mais
                    velada pela fundadora, foi o mosteiro da Madre de Deus, que D. Leonor mandou
                    edificar em Xabregas, e que tantas preciosidades artisticas possuia.</p>
                <p>N'elle professou Maria Thereza, preferindo aos mimos e regalos da côrte as
                    asperezas da vida monastica, em ordem tão apertada, como aquella a que se
                    votou.</p>
                <p>Antes da profissão, pediu Maria Thereza á rainha, que fizesse chegar ás mãos de
                    Pero da Covilhan a seguinte carta, da qual foi, com effeito, portador o P.
                    Francisco Alvarez:</p>
                <ab><seg rend="italic">Pero da Covilhan</seg></ab>
                <p>Sois um benemerito, Deus, que é remunerador, hade recompensar os vossos
                    sacrificios.</p>
                <p>Vou ámanhã professar. Vou ser clarista no mosteiro da Madre de Deus, fundado em
                    Xabregas pela nossa Santa Rainha a Senhora D. Leonor. Na minha clausura, onde
                    espéro servir melhor a Deus, do que se ficára no mundo, lembrar-me-hei sempre de
                    vós nas minhas orações, e o Eterno Páe, a quem nada póde esconder-se,
                    attender-me-ha, por ver a intenção pura, com que lh'as dirijo.</p>
                <p>Elle vos acompanhe sempre!</p>
                <p>Adeus.</p>
                <ab><seg rend="italic">Maria Thereza.</seg></ab>
                <p>Perto da sua querida pupilla residia a rainha no seu palacio em Xabregas, onde
                    entregou a sua alma ao Creador; e no claustro do mosteiro, á porta da casa do
                    capitulo, foram cobertos seus venerandissimos restos por uma singela lapide, na
                    qual se lia unicamente;</p>
                <ab>AQUI ESTÁ A RAINHA D. LEONOR.</ab>
                <p>Que mais era preciso, para não esquecer o nome, de quem foi, toda a sua vida,
                    exemplar inestimavel das mais peregrinas virtudes?!</p>
                <p>As estatuas, ou os grandes monumentos sepulcraes, se quasi sempre testemunham a
                    vaidade de quem os erige, nunca fazem esquecer os erros do glorificado.</p>
                <p>O monumento da rainha D. Leonor está no coração dos povos de Portugal, que tantos
                    beneficios teem recebido e continuam a receber das Misericordias.</p>
                <p>As relações do nosso paiz com a Abyssinia estabeleceram-se definitivamente no
                    seculo XVI, e conservaram-se até o seculo seguinte.</p>
                <p>Affonso de Albuquerque, sendo governador da India, teve o grande pensamento de
                    unir-se ao Préste, com o fim de divertir a corrente do Nilo, para a banda do mar
                    Vermelho, junto da peninsula de Méroé, entre aquelle rio e o Atharah, abrindo um
                    novo leito, e entulhando aquelle pelo qual descia para o Egypto. D'esse modo
                    esterelizaria os campos egypcios, que eram os principaes graneis do sultão
                    ottomano.</p>
                <p>E Christovam da Gama, á frente de um punhado de bravos, partiu de Massuah a 9 de
                    junho de 1541, e correu em soccorro do Préste, ameaçado pelo scheick de
                    Zeila.</p>
                <p>D'esse heróico filho de Vasco da Gama diz um historiador nosso: «era o primeiro,
                    que tomava o fato ás costas, e com esta fragueirice e vontade acrescentava a dos
                    outros soldados, para que trabalhassem dobrado sem o sentir.»</p>
                <p>Foi desbaratado e morto pelos adversarios do Préste; mas os valentes portuguezes,
                    que escaparam, tiveram pouco depois a gloria de vingar a morte do seu illustre
                    capitão, derrotando completamente o inimigo.</p>
                <p>Aureos tempos!...</p>
                <p>Maria Thereza revelou a sua vasta illustração, publicando algumas obras em latim,
                    e sendo por isso aurora brilhantissima da renascença das lettras em
                    Portugal.</p>
                <p>Todas as tardes ia sentar-se a uma das janellas do mosteiro, e de lá contemplava
                    o Tejo...</p>
                <p>Quando voltavam as náus da India, perguntava talvez ao formoso rio, se com ellas
                    teria vindo alguma saudade de Pero da Covilhan!...</p>
                <p>E depois da morte de D. Leonor, quando retirava da janella, ia ajoelhar sobre a
                    sepultura da rainha, orava alli, durante algum tempo, no maior recolhimento, e
                    deixava a lapide orvalhada de lagrimas!... </p>
            </div>
        </body>
        <back><!-- Notas --></back>
    </text>
</TEI>
