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                <title type="main">Amanhã</title>
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                <title type="short">Amanha</title>
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                    <idno type="viaf">-</idno>
                </title>
                <author>
                    <name type="short">Botelho</name>
                    <name type="full">Botelho, Abel</name>
                    <idno type="viaf"> 37048086</idno>
                </author>
                <principal xml:id="uhk">Ulrike Henny-Krahmer</principal>
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                        4.0</licence>
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                <date>2016</date>
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                <bibl type="digital-source"> Botelho, Abel. "Amanhã." <seg rend="italic">Luso Livros</seg>, <date when="2013">2013</date>, <ref target="https://www.luso-livros.net/Livro/amanha/">https://www.luso-livros.net/Livro/amanha/</ref>. </bibl>
                <bibl type="print-source">unknown</bibl>
                <bibl type="edition-first">
                    <date when="1901">1901</date>
                </bibl>
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            <abstract>
                <p>
                    <quote>
                        <p>Mateus, um jovem anarquista, revoltado com o sistema vigente, decide
                            revolucionar a sociedade promovendo campanhas de consciencialização e
                            revolta, numa obra sobre o nascimento do socialismo e do sindicalismo
                            português.</p>
                        <p>‘Amanhã’ de Abel botelho é parte integrante de uma série, composta por
                            cinco livros, intitulada Patologia Social, no qual o autor explora
                            várias “moléstias” sociais que, na sua opinião, afetavam a sociedade
                            portuguesa do final do século XIX.</p>
                        <p>Nesta obra, que é a terceira dessa série, o tema em foco é a exploração
                            da burguesia patronal face à exploração da classe operária, o que a
                            torna a primeira obra portuguesa que fala sobre a formação do socialismo
                            português e enaltece o sindicalismo, enquanto pinta o retrato de uma
                            época, em plena revolução industrial, durante a passagem do século XIX
                            para o século XX, numa altura marcada por inúmeros conflitos
                            internos.</p>
                    </quote>
                    <bibl>"Amanhã." <seg rend="italic">Luso Livros</seg>, <date when="2013">2013</date>, <ref target="https://www.luso-livros.net/Livro/amanha/">https://www.luso-livros.net/Livro/amanha/</ref>.</bibl>
                </p>
            </abstract>
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                <keywords scheme="keywords.xml">
                    <term type="author.continent">Europe</term>
                    <term type="author.country">Portugal</term>
                    <term type="author.gender">male</term>
                    <term type="text.language">Portuguese</term>
                    <term type="text.form">prose</term>
                    <term type="text.genre.supergenre">narrative</term>
                    <term type="text.genre">novel</term>
                    <term type="text.genre.subgenre" resp="#uhk" cligs:importance="2">social</term>
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                    <term type="text.narration.narrator">heterodiegetic</term>
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            <change when="2016-10-30" who="#uhk">Initial TEI version.</change>
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            <div>
                <head>CAPÍTULO I</head>
                <p>— Essa ceia está pronta? — perguntou enfastiado o Serafim, cuja figura esgalgada
                    e curva, tendo vencido o último degrau da escada, assomava oscilando à porta da
                    cozinha.</p>
                <p>— Há que tempos! — respondeu-lhe, sem o olhar, uma mulherita atarracada e bruna,
                    que no vão da chaminé, à esquerda da porta, mesmo junto à esquina, de candeia
                    suspensa da mão esquerda mexia um tacho de barro fumando sobre e fogareiro.</p>
                <p>— Bem... vamos então a aviar! — comandou o operário, numa leve impaciência,
                    atirando o corpo descadeirado e longo para cima de um mocho de pinho, de
                    encontro à mesa, do outro lado da porta de entrada, e projetando o chapéu com
                    arremesso.</p>
                <p>— É para já! — acudiu de salto a mulher, enquanto lhe vinha perto pendurar a
                    candeia, de um grande prego enferrujado. A seguir, foi à chaminé, voltou, e
                    fitando agora firme o Serafim, inquiria, com um significativo ar, quando na
                    frente lhe punha, sobre a gordura gretada das tabuas ressequidas, o tacho
                    fumegante: — Vens-lhe com gana hoje?</p>
                <p>— Mas gana de quê?... — logo repontou o Serafim, enviesando malevolamente os
                    olhos.</p>
                <p>— Ora de que há de ser?... De tasquinhar. E ainda bem!</p>
                <p>Dizendo, a ladina da Clara rodopiava ligeira no acanhado aposento, descendo do
                    armário e dispondo na mesa dois pratos de barro, singelamente vidrados a branco
                    e a sua franja de azul nos bordos, depois colheres e garfos de chumbo, pão, um
                    pires esbeiçado com azeitonas. E então, com o mesmo ar finório, as costas da mão
                    sobre a mesa:</p>
                <p>— A não ser que tu... sim... lá tenhas outro sentido. — A cara patibular do
                    Serafim torcia-se num sorrisinho implicante. E a mulher a insistir: — Não sei o
                    que te acho! Estás-me assim a modo campeiro...</p>
                <p>— E tu estás muito doutora...</p>
                <p>— Cada um é como Deus o fez...</p>
                <p>— Senta-te! — gritou com ímpeto o Serafim, fuzilando-lhe um relâmpago de cólera
                    na abaçanada frouxidão dos olhos. E arrastou ainda, numa sorna de ameaça: — Nós
                    temos festa... — Depois imperiosamente a repetir: — Então!?</p>
                <p>Ao que a mulherita prontamente obedeceu, trazendo cadeira para junto do seu
                    homem, e dando-lhe ao sentar-se um amorável repelão no braço:</p>
                <p>— Mostrengo!</p>
                <p>Mas, insensível, o Serafim lançava do tacho para o prato e sorvia
                    automaticamente, sem vontade, sem prazer, uma negra e triste aguadilha,
                    mosqueada de olhitos de azeite, condensando na frialdade do ambiente um vapor
                    nauseabundo, e de cuja dessorada fluidez a quando e quando emergia a ironia
                    cortical de um feijão, ou a coriácea insipidez de alguma couve saloia da sua
                    banda a Clara imitava-o, atacando também, mas de longe, como quem se despacha de
                    uma fastidiosa obrigação, o sujo tacho requeimado; e para isto estendia o braço
                    direito, todo longo, e sobre o antebraço esquerdo em repouso tinha o avental
                    colhido no regaço.</p>
                <p>Então, durante alguns minutos, num silêncio ao mesmo tempo desalentado é ávido,
                    em alternativas cruéis de voracidade e fastio, de anorexia e de fome, trataram
                    os dois de filosoficamente iludir a sua irremediável condição de insaciados. A
                    boa da Clara, se por acaso a sua colher extraía do tacho algum feijão mais
                    inteiro, algum torrãozito mais tenro, ia e deitava-os, com amorosa isenção, no
                    prato do companheiro, que, insensível e cabisbaixo, sorvia sempre a insulsa
                    mistela, com ruido. Projetada de alto, a luz incerta e lívida da candeia
                    prolongava-lhes as magoadas figuras num destaque violento e enternecido. Eram
                    bem duas criaturas de azar, dois enjeitados da sorte, derreados a poder de
                    privações e sofrimento, — ele com c? Longo dorso alcachinado, onde, escorchadas
                    com anatómico rigor, as omoplatas cavavam esqueléticas sombras, e com os braços
                    moles, escalavradas, roxas as mãos, a face estirada e verde; ela com as suas
                    espaduas muito redondas, a sua cor ardente de canela e a vida arrogante dos seus
                    olhos lutando ainda contra a consumpção, cujo triunfante estrago se acusava já
                    bem palpável na ósseo apontar das articulações, nos grandes seios sem vôo, nas
                    miuditas rugas precoces e no fundo bistre das olheiras. A luz titubeante da
                    candeia estirava num realce cruel todos estes sinais patentes de ruina; e
                    afusando ao alto seu grosso penacho de fumo, passeava em volta caprichosos
                    cancans de sombras pela nua desolação das paredes encardidas. A mobília era
                    rudimentar: alguns mochos claudicantes, uma grande mala de pau, duas cadeiras
                    estripadas. Á ilharga da mesa onde os dois comiam, via-se uma porta entreaberta,
                    dando para qualquer repartimento interior. Na parede ao lado, fronteira à porta
                    por onde o Serafim entrara, havia uma outra mesa, com gavetas, igualmente de
                    pinho, igualmente suja, também por igual flanqueada por uma portita ao lado; na
                    parede seguinte, notava-se um armário, uma janela, e a para a junto da chaminé.
                    Ao alto, no estuque fumarento do teto, dançavam sanefas de teias de aranha,
                    prenhes de pó, e negrejava, por milhares, um constelado planisfério de dejeções
                    de moscas. Da cornija da chaminé para a quina oposta, suspensa em diagonal,
                    bamboava uma corda com roupa. E na janela que dava para o quinteiro, junto da
                    lareira, vinham de espaço a espaço, vergados pelo vento, esqueletos de árvores
                    arranhar os vidros fuliginosos.</p>
                <p>Quando terminava, um calefrio correu o corpo fruste do Serafim, que, aconchegando
                    com as duas mãos a jaleca, lamuriou:</p>
                <p>— Sempre está um raio de um tempo!</p>
                <p>— Chove?</p>
                <p>— Não, agora não... Mas debaixo, do rio, vêm um barbeirinho de respeito!</p>
                <p>— Pois, olha, eu estou com calor! — retorquiu-lhe num jeito agreste a
                    companheira, erguendo as duas mãos também ao cabeção do chambre de chita, de
                    miuditas ramagens, que desabotoou e esgorjou, num assoprado alívio.</p>
                <p>— Tens calor?... Eu logo vi... Quem te coçasse bem, minha cabra!</p>
                <p>— Estás tolo! — contestou, a fazer de agastada, a Clara, acudindo com outro
                    significativo beliscão, e este na coxa, do Serafim, a quem encarou com
                    lascívia.</p>
                <p>Mas ele, sem a ver, arredando o prato:</p>
                <p>— Que mais há?</p>
                <p>— Mais?... Só se for o resto dos carapaus do jantar.</p>
                <p>— E louvar a Deus, hein?... — comentou o Serafim, numa dolorosa ironia.</p>
                <p>— Então?... — fez a mulher, encolhendo num protesto de inocência os ombros.</p>
                <p>— Ora valha-te o demo!</p>
                <p>— Meu rico! Não estamos em tempo de milagres... Ora essa... Muito faço eu!</p>
                <p>— Bem, bem... Venha de lá o que houver!</p>
                <p>Aplacada, a Clara tirou a si a gaveta da mesa e sacou de dentro, postos a monte
                    sobre um número amarrotado do Seculo, uma meia dúzia de carapaus fritos.
                    Espalmados, moles, tinham um aspeto repugnante, escabiosos de purulências
                    brancas, nadando numa suja e crassa oleosidade, que repassava ao papel em
                    areolas negras. Não obstante, resignadamente, o Serafim tomou um e levou-o de
                    manso com as mãos aos dentes, ao tempo que sobre a mesa procuravam o que quer
                    que fosse com sofreguidão os seus olhos desvairados.</p>
                <p>— Clara! O que falta aqui?...</p>
                <p>A rapariga, imóvel, não respondeu.</p>
                <p>— Não ouves?</p>
                <p>— Sou de gesso... — respondeu ela, conciliadora, ensaiando sorrir.</p>
                <p>Ele porém volveu, ameaçador:</p>
                <p>— Tu queres que eu te apalpe!</p>
                <p>Ao que a Clara, numa revolta, erguendo-se:</p>
                <p>— Ai, ai, ai!... A modos que vens hoje com muita <seg rend="italic">fajéca</seg>... Pois fica sabendo que não me metes medo nenhum!</p>
                <p>— Dá-me vinho, Clara! — insistiu de sobrecenho, numa aparente serenidade, o
                    Serafim.</p>
                <p>— Não há...</p>
                <p>— Pois vai por ele!</p>
                <p>— Onde?...</p>
                <p>Aqui o Serafim, rôta a paciência, ergueu-se de salto, com estrondo, e atenazando
                    com força, numa grande osga malfazeja, os pulsos da mulher:</p>
                <p>— Vais ou não vais?... — Depois, numa crescente onda de raiva, mandou-lhe a mão
                    estendida contra a face, o que a fez ir de recuo até à chaminé, cambaleando. —
                    Raios te partam!</p>
                <p>— Bruto! Animal! Não tenho medo, não... Ainda que me mates! — gaguejou Clara,
                    esbraseada, ofegante, com as mãos pendulando em assomos de vingança e os olhos
                    enresinados. — É este o pago que você me dá?... Estes homens!... Sim, porque
                    você está farto de saber que eu, se lhe nego o vinho, é para seu bem... é pro
                    não ver mais estragado do que você já está, seu traste!</p>
                <p>— Lérias! — comentou cinicamente, de olhos no chão, o Serafim.</p>
                <p>Veio de dentro, pela porta da direita, um choro alto de criança. E a Clara, agora
                    já com uma leve tinta amorável na expressão:</p>
                <p>— Você bem sabe o mal que o vinho lhe faz.</p>
                <p>— Quando é demais...</p>
                <p>— Não que tu não te contentas com pouco! Puseste-te fresco!... Deixaste esse
                    vicio tomar-te posse do corpo, de sorte que agora, em vez de reconheceres o bem
                    que te fazem, qual história! Ainda em cima refilas... Lambada para cima! São
                    todos assim... E eu é que sou tola... É bem feito! Que eu devia mas era deixa-lo
                    a você enfrascar-se à vontade... e depois, se o diabo te levasse... ora! Mais
                    depressa me via livre de ti.</p>
                <p>— Clara! Clara! Não mo atentes mais...</p>
                <p>— Que demónio de chinfrim é este?... — acudiu de relance, apontando da porta da
                    direita, uma rapariguita aganada e débil, ruço o cabelo, os ombros ladeiros, o
                    peito raso, mal agouradas hepatizações na face, e uma bondade escampe água
                    tintada na garça translucidez dos olhos. — Cá estão vocês outra vez pegados!
                    Ora, ora... Acordaram-me a pequena... Valha-as Deus!</p>
                <p>Dizendo, avançara a enlaçar Clara afetuosamente, enquanto num piedoso olhar de
                    reprimenda continha em respeito o Serafim.</p>
                <p>— Ó Sra. Ana, — acudiu logo este, embrulhando a fala, meio vexado, — veja
                    vossemecê se isto não é de razão?... Este raio apura-me a paciência!</p>
                <p>E insofrida a Clara:</p>
                <p>— Ó Deus do céu! Mas que homem...</p>
                <p>— Mas então que foi?... — disse Ana com doçura.</p>
                <p>— Então não se lhe meteu agora em cabeça a este diabo acostumar-me a que eu coma
                    sem beber! — voltou à carga, adiantando-se, o Serafim.</p>
                <p>Encarando alternamente os dois, numa amorável censura, numa carinhosa visagem
                    maternal, Ana sorria... Da mesma porta por onde ela entrara, uma pequenita dos
                    seus cinco anos veio agora e num timorato jeito, abrindo de pavor os olhos,
                    afogou-lhe o rosto na saia, com os dedos muito agarrados. Protectoramente, a Ana
                    baixou a mão a afagar-lhe os cabelos de oiro. Entretanto o Serafim, forte na sua
                    implacável rezinga, disse:</p>
                <p>— Chega um homem ralado, moído de trabalho... e é isto! Em vez do descanso de que
                    tanto precisa, vai e fazem-lhe um inferno!</p>
                <p>E num descoroçoamento infantil, baixando a cabeça e abatendo os ombros, de novo
                    amarfanhou o descadeirado arcaboiço sobre o mocho, ao canto, junto da mesa.</p>
                <p>Então a Clara, vendo que se havia dissipado a tempestade, afastou-se da vizinha,
                    e, suasiva, amigável, tratou de explicar:</p>
                <p>— Ó homem! Mas se eu já te disse... agora, ainda que te quisesse dar vinho, não o
                    tenho! — Lá do seu canto, o Serafim teve um gesto incrédulo.</p>
                <p>— Não tenho! Palavra...</p>
                <p>Correu ao armário, e sacolejando bem no espaço e voltando de gargalo ao fundo,
                    uma após outra, quantas garrafas aí tinha:</p>
                <p>— Vês?... Nem pinga!</p>
                <p>Ante a irrecusável evidencia, subjugado, o Serafim dobrou mais a espinha e sobre
                    a comissura da boca o bigode fino e ralo estirou-se-lhe, num desalento.</p>
                <p>Mas providencialmente aqui acudiu a Ana. Foi despedida ao seu armário, junto à
                    janela, com a filhita presa sempre à saia; tomou de uma prateleira uma garrafa
                    com vinho; e prantando-a em cheio, com um copo, na mesa em frente do Serafim: —
                    Lá por isso não seja a dúvida! Pronto! Têm aqui do nosso.</p>
                <p>Ao ver assim de improviso, diante de si, o cubicado, o imprescindível licor, o
                    derreado tanoeiro aprumou-se, mordido de uma comoção galvânica. Logo as mãos
                    avançaram a tatear a garrafa, numa desconfiança, enquanto se lhe esbugalhavam,
                    muito secos do prazer, os olhos, e com a língua a crescer dentro dos beiços
                    ávidos, mal conseguia entaramelar: — Ob... obrigado, vizinha! — Depois,
                    achincalhadoramente, para Clara: — Toma conta, vês?... Isto sim! Isto é que é
                    mulher…</p>
                <p>Numa passiva desaprovação, a Clara, em pé contra a parede, cruzara os braços no
                    regaço. E o Serafim, depois que bebeu o primeiro copo, num indizível bem-estar,
                    consolado e tranquilo, perguntou:</p>
                <p>— Então esse Esticado ainda não veio?...</p>
                <p>— É verdade... — respondeu Ana, contrafeita. — Muito longe se lhe fez hoje o
                    largo do Assucar!</p>
                <p>Ao tempo, uma furiosa rajada de vento, prestes a apagar a candeia, irrompeu da
                    porta da escada, aberta, e silvou pelas frinchas mal vedadas; e logo uma
                    violenta corda de água fustigava através os vidros da janela e tamborinava fora,
                    na claraboia, com estrondo.</p>
                <p>— Ena, como chove! — exclamou Clara.</p>
                <p>— Assim, como há de ele romper?... — acrescentou Ana, abrindo compassivamente os
                    olhos.</p>
                <p>— Safa! É isto que veem! — vociferou então, esbofado e entrando de ímpeto, o
                    Esticado, um belo e forte rapaz, alto e moreno, cabelo crespo, narinas fogosas,
                    farto bigode negro, solido o tronco nas pernas robustas. — Raios parta minha
                    vida!</p>
                <p>— Ai! Filho... — lamentou Ana, erguendo as mãos. — Vens uma sopa!</p>
                <p>— Tira-te, que te encharcas... — volveu meigo o mocetão para a filhita, que tinha
                    ido carinhosa enlaçar-se-lhe ás pernas. E, com ela pela mão, avançou à porta da
                    direita.</p>
                <p>Vinha literal mente a pingar. No ponto do soalho onde parara um momento,
                    negrejava uma poça de água. A boina cinzenta, a blusa de ganga azul e por baixo
                    desta a camisola de lã, as mesmas calças de riscado, empapadas e moles,
                    modelavam-lhe a musculatura com vigor. Luzidio e fresco, parecia o bigode
                    camarinhado de pérolas.</p>
                <p>— Olha do que eu me livrei! — murmurou regalado o Serafim.</p>
                <p>E o Esticado, já conformado e risonho:</p>
                <p>— Isto em mim é a pouca sorte!</p>
                <p>— Avia-te! — gritava-lhe a mulher, de dentro, no compartimento da direita.</p>
                <p>O Esticado seguiu logo. — Era uma pequena sala, asseadita e quadrada,
                    rudimentarmente lambuzada a vermelho, com duas janelas abrindo para à rua. O
                    melhor compartimento da casa. Lisas cortinas de cassa branca resguardavam as
                    vidraças. Acusava bem o soalho, na sua cor açafroada e macia, o uso constante da
                    potassa. Á esquerda de quem entrava, via-se uma porta de alcova, e, a seguir, a
                    indispensável comoda de pinho envernizado, com a sua toalha de chita com folho;
                    em cima, um candeeiro a petróleo, de latão, aceso, duas jarrinhas de vidro
                    azuloio com flores de papel, várias bugigangas de cartão, um cesto de costura, e
                    um espelhito de moldura doirada oblíquo contra a parede, da qual pequenas
                    fotografias pendiam, em molduras de palha a cores, entrançada, tendo nos ângulos
                    grandes laços vermelhos. Depois, mais longe, no recanto à direita, salientava em
                    angulo reto um pequeno espaço retangular, formando vão, e correspondente à caixa
                    da escada do prédio, sobre o qual, como num estrado, se acomodava diretamente
                    uma cama.</p>
                <p>Daí voltou a lamuriar, mais imperioso e alto, o mesmo choro insistente de
                    criança. Logo, muito solícita, a Ana acudiu; e erguendo da cama uma criancita de
                    meses, que beijou com efusão, enquanto a embrulhava num velho saiote seu, de
                    baetilha, veio com desvanecimento oferecê-la ao pai, que, beijocando-a
                    também:</p>
                <p>— Então esta <seg rend="italic">berrélas</seg> está acordada?</p>
                <p>— Olha, foi obra ali dos vizinhos... — disse Ana, baixando a voz e indicando a
                    cozinha.</p>
                <p>— Como?</p>
                <p>— A bulharem, como de costume!</p>
                <p>Complacente, o Esticado teve um sorriso de piedade; e deixando-se cair, à ilharga
                    da cama, sobre um grande canapé de palhinha, estripado, tirou então
                    pachorrentamente a boina, a blusa e as calças, sacudindo a cada momento as mãos,
                    em vagas , expirações de arrelia. Aa lado dele, interessada e imóvel, com o
                    queixinho apoiado na mão e o cotovelo finque no braço do canapé, a filha mais
                    velha, lembrando um arcanjo rafaelesco, seguia-lhe carinhosa os movimentos com
                    uns grandes olhos compadecidos.</p>
                <p/>
                <p>Quando viu o homem em camisola e ceroulas, apoquentada sinceramente, disse
                    Ana:</p>
                <p>— Mas que hás de tu vestir agora?... Valha-me Deus!</p>
                <p>— Então a outra blusa?</p>
                <p>— Lavei-a há bocado... Está lá fora, a enxugar.</p>
                <p>— E a jaqueta de ver a Deus?</p>
                <p>Sempre com a filhita ao colo, Ana estendeu ao marido umas calças que tirara da
                    comoda, e baixou os olhos, sem responder.</p>
                <p>— Ah, sim... está no prego! A guarda-roupa dos pobres... — obtemperou o Esticado,
                    com amargura.</p>
                <p>— Não me lembrava, mulher... É sina! — Depois, com a mais estoica resignação,
                    erguendo-se: — Bem olha... A camisola escapa, fico com ela... Deita-me o teu
                    xaile pelas costas. Por agora, remedeia!</p>
                <p>Com um sorriso triste, soltou Ana a escapola, que o sustinha, o seu esfiampado
                    xaile cor de cinza e passou-o aos ombros do marido, que com uma forçada
                    animação, mirando-se:</p>
                <p>— Então, que tal?...</p>
                <p>— Quem me dera o teu génio!</p>
                <p>— Não estou nada mau...</p>
                <p>E, num saracoteio de troça, já todo faceiro o-Esticado saía para a cozinha, com a
                    pequena lida segura aos restos de franja do chale, e atrás a Ana com a outra
                    filhita ao colo e o candeeiro na mão.</p>
                <p>Mal que naquele preparo o virara, a Clara e o Serafim não se puderam ter que não
                    rompessem, mandíbula batente, a rir. E, muito desvanecido, o Esticado, dessa
                    mesma zombeteira acolhida tirando estimulo :</p>
                <p>— Estou um bom pãozinho, hein?... para fazer rente a um guita? — Mas de repente,
                    sério, arrumando-se num cansaço contra a sua mesa, sobre a qual poisara a Ana o
                    candeeiro, suspirou: Ai! Ai!... não há remédio senão fazer a gente gala na
                    miséria... — Depois, quadrando-se na cadeira e arranjando ao lado lugar à filha:
                    — Vamos nós mas é fazer bem ao estomago... enquanto há que comer!</p>
                <p>A Ana fora à lareira, e punha agora diante do marido um tacho com comida. Trouxe
                    talheres, o pão, o vinho, e sentou-se também, sempre ao colo com a filha.</p>
                <p>— Servem-se? — ofereceu o Esticado aos vizinhos.</p>
                <p>— Obrigado... a nossa já cá canta, — respondeu, do seu canto, o Serafim,
                    enrolando um cigarro com a folha da navalha, que sacara do bolso.</p>
                <p>A Clara, essa, parecendo-lhe haver agora ali demasiado luxo de iluminação, apagou
                    a sua candeia.</p>
                <p>Entretanto o Esticado, com a mais patente voracidade, passava ao prato e
                    rapidamente deglutia o guisado que tinha diante de si, fumegando, —
                    inclassificável miscelânea de ossos, gorduras, alguma batata, muito tomate e
                    nacos de chouriço. Enquanto comia, disse para o Serafim:</p>
                <p>— Esta só pelo diabo! Hein?... com uma noite assim, como há de a gente ir?...</p>
                <p>— Onde é que vocês vão?... — acudiu logo a Clara.</p>
                <p>E o Serafim, com mau modo:</p>
                <p>— Não é da sua conta!</p>
                <p>Mas já o outro inquiria com interesse a mulher:</p>
                <p>— Tua mãe não quer comer?</p>
                <p>— Não... Coitada! Desconfio que está pior.</p>
                <p>Tinha feito o prato à Idazita, e, soltando o lenço de lã cor de chocolate, que um
                    alfinete lhe mantinha trespassado sobre o seio escasso, deu o peito à filhinha
                    que tinha nos braços, e procurou também comer.</p>
                <p>— Anda, come, mulher! — incitava o marido com meiguice.</p>
                <p>— Não posso...</p>
                <p>— Asneiras!</p>
                <p>— Se tu tivesses a dor que eu tenho... Vai-me do peito ás costas!</p>
                <p>E, de cotovelo na mesa, a pobre Ana dobrava-se toda, extenuada, febril, pela
                    implacável sucção da filha.</p>
                <p>Na sua instintiva logica infantil, a Idazita entendeu que não precisava de garfo,
                    visto que as suas mãos tinham dedos. Mas o pai, dando-lhe uma forte palmada:</p>
                <p>— Menina! Então... Tenha propósito! Não me seja porca.</p>
                <p>A mãe acudiu logo em defesa da inocente. E o pai, com violência, assentando de
                    ímpeto o punho fechado sobre a mesa, num trejeito de enfado:</p>
                <p>— Aí está para que nos serve esta praga! Deus me perdoe... Nem uma pessoa é
                    senhor de comer descansado! Vamos a querer-lhes dar educação e logo saltam as
                    mães com a água benta... Forte estopada!</p>
                <p>— Ó homem! Deixa o anjinho... — suplicou Ana com invocativa ternura, passando os
                    dedos emaciados pela cabecita de oiro de lida, em cujos olhos bailavam
                    amimadamente lágrimas. — Credo! Até nos pode o céu castigar...</p>
                <p>— O céu! O céu!... — fez, desdenhoso e incrédulo, o mocetão, abanando os ombros.
                    — Olha, num inferno estamos mas é nós aqui, com esse raio dessa porta
                    aberta!</p>
                <p>E aconchegando o xaile encarava oblíquo, para a esquerda, numa colérica visagem,
                    a porta que dava para a escada. Correu logo a fecha-la a Clara, que continuava
                    junto dela, em pé, arrumada de costas e espalmadas ás mãos contra a parede.</p>
                <p>— Obrigado, vizinha! — retribuiu o Esticado, sem olhar, todo novamente dobrado
                    sobre o prato. E, enquanto comia, voltando à rezinga anterior: — Não, mas é que
                    é assim... até nesta obra dos filhos essa corja dos ricos têm sorte! Vocês não
                    veem?... Quantos não há, aí assim, a nadarem em dinheiro e sem filho nenhum!</p>
                <p>— E a má semente... — murmurou o Serafim.</p>
                <p>— Nós cá então, os pobres, os da ralé, como eles nos chamam... sem mantença que
                    chegue não que nem sequer para nós, e é isto... E apontava as duas filhas. —
                    Cada cavadela, cada minhoca!</p>
                <p>— Deixa, homem... — observou Ana com doçura. — Tudo o que vêm é para bem!</p>
                <p>Depois de uns minutos de silêncio, voltara-se agora o Esticado, tendo acabado de
                    comer, para o Serafim; e enquanto inflamava a ponta do cigarro ao alto da
                    chaminé do candeeiro:</p>
                <p>— Então a gente vai, ou não vai?...</p>
                <p>— Deixa ver se pára a chuva.</p>
                <p>— Ele o vento cada vez é mais... E tanto fez fechar a porta como nada! Olha,
                    olha... Raio de casa!</p>
                <p>É que continuava lufando com violência o vento, que varria em todas as direções a
                    quadra, entrando pelas numerosas fisgas e juntas imperfeitas. Vinha assim da
                    escada, a espaçados ímpetos, um forte cheiro a bacalhau assado, ao tempo que
                    também, soprada em tremiculosas ampliações e prestes a apagar-se, crescia
                    agitadamente a chama do candeeiro.</p>
                <p>Entretanto, o tanoeiro explicava:</p>
                <p>— Então?... tu bem sabes que todas estas casas aqui da Belavista foram feitas
                    quando foi da nossa greve...</p>
                <p>— Fizeram-na asseada!</p>
                <p>— Pudera! Nem nós sabíamos da poda, nem as madeiras eram próprias. Foi um simples
                    remedeio, para nos entreterem, para nos darem que fazer.</p>
                <p>— E então vocês arranjaram estas indecentes barracas!</p>
                <p>— Pois sim, mas o senhorio leva bom dinheiro por elas! — apostrofou a Clara com
                    decisão.</p>
                <p>— Almas do diabo! — rosnou o Esticado, quase impercetivelmente, crispando numa
                    ameaça os punhos e repregando os olhos.</p>
                <p>O Serafim foi à janela, e depois de investigar um momento para o exterior:</p>
                <p>— Espera... o vento parece que quer rondar ao norte. Isto ainda se compõe... — E
                    voltando para o seu canto predileto: — É verdade, ó Clara, olha lá... tu é que
                    podes dizer à gente... Que faixa tem o novo contramestre lá da fábrica?</p>
                <p>— Quem, o Sr. Mateus?... É um homem muito bem parecido!</p>
                <p>— Eu ainda o não vi. Há que tempos que não vou para esses lados! — disse Ana
                    naturalmente, com a filhita ao colo, movendo os joelhos num carinhoso embalo,
                    sentada junto da mesa, onde poisava, sobre as mãos, a loira cabecita da lida
                    adormecida.</p>
                <p>O Serafim disse:</p>
                <p>— Gostam lá dele?</p>
                <p>— Muito!</p>
                <p>— Homens e mulheres?</p>
                <p>— Toda a gente.</p>
                <p>— Porque diabo é isso?... — interveio o Esticado, dobrando com interesse o busto
                    nos joelhos.</p>
                <p>— Tem muito bom modo, sim senhor... E então umas falas! Um modo de dizer as
                    coisas, tão bom, tão claro, tão lindo, que parece que vêm direito ao interior da
                    gente!</p>
                <p>— Que bem informada que tu estás!</p>
                <p>— Ah, não quele vai lá aos teares, muita vez... Trata muito bem a gente... E tão
                    senhoril, tão principal! Ele é que parece o patrão.</p>
                <p>Com um ar desconfiado, disse então o Serafim para o amigo:</p>
                <p>— Que te parece?...</p>
                <p>— Sabe-a toda!</p>
                <p>— Tem querença para as mulheres, o ladrão!</p>
                <p>— A mim cheira-me mas é a que o maroto usa de manhas de jesuíta... Já me não
                    agrada!</p>
                <p>— Não, homem... deixa ver!</p>
                <p>E, dizendo, o Serafim voltara à janela:</p>
                <p>— Olha! Já vejo estrelas... Vamos?...</p>
                <p>O Esticado pôs-se em pé, e num lastimoso acento, mirando-se e sorrindo:</p>
                <p>— Mas como?...</p>
                <p>— Não saias... — ainda insinuou Ana docemente.</p>
                <p>— Se tu queres, — ofereceu com vivacidade o Serafim, cujos olhos brilhavam de uma
                    ansia doentia, — tenho aí um casaco de pano que outro dia comprei na Feira da
                    Ladra. Ainda nem o estreei... Está-me largo, deve-te servir.</p>
                <p>— Venha de lá isso! — exclamou o Esticado, jucundo, de rompante, arremessando
                    para a cadeira o xaile e retesando num aprumo viril os braços; ao tempo que as
                    duas mulheres trocavam um olhar de muda submissão, contrariadas.</p>
                <p>— Ciara! Despacha-te... dá cá essa coisa! — disse então com império o Serafim
                    para a mulher, que atarefada se sentia remexer roupa, dentro, na alcova junto à
                    janela. E como demorava a aparecer: — Deixa! Que tu não dás com ele.</p>
                <p>Por seu turno entrou, e daí a instantes voltava, com a Clara seguindo-o, e
                    suspenso na mão o casaco, que o Esticado enfiou num pronto.</p>
                <p>— Ora! Está ótimo... Parece que foi feito para mim!</p>
                <p>— Nem um fidalgo, sim senhor! — aplaudia o Serafim, batendo as mãos.</p>
                <p>— Bem... vamos lá! — disse com decisão o caixoteiro, já de chapéu na cabeça,
                    abrindo a porta.</p>
                <p>— A que horas vens? — perguntou-lhe Ana, no patamar, enquanto iluminava.</p>
                <p>— Sei lá!</p>
                <p>— Não, diz... Sempre gosto de saber.</p>
                <p>— Não sei, mulher... que seca! Quando vier, cá me encontras... Deita-te... Fechem
                    bem a porta!</p>
                <p>— Valha-me Nossa Senhora! — suspirou resignadamente, recolhendo com a luz, a
                    rapariga.</p>
                <p>Chegados agora ao fundo da escada os dois companheiros, pararam um momento à
                    porta, já os pés assentes na soleira, pregados numa incerteza perante a vaga
                    escuridão da noite.</p>
                <p>— Vamos a direito? — perguntou o Serafim.</p>
                <p>— Não... — acudiu logo, acendendo outro cigarro, o Esticado. — Vamos aqui
                    primeiro pela ilha do Grilo, buscar o Manaio. O Silvério diz que também quer
                    ir.</p>
                <p>— Ó homem, vê lá...</p>
                <p>— Fico por ele!</p>
                <p>— Bem... Se aquele bolha do Ventura se decidisse a vir também e deixasse as
                    raparigas em paz por hoje!</p>
                <p>— Isso sim!</p>
                <p>— Era um socio de primeira ordem para a coisa...</p>
                <p>— Com aquela esperteza, aquele génio!</p>
                <p>— Mal empregado rapaz!</p>
                <p>Assim discorrendo, os dois avançavam de manso pelo <seg rend="italic">macadam</seg> da rua larga e mal iluminada, derreados e mãos nos bolsos,
                    chapinhando na lama. Ao cabo da rua, aí onde isolado se erguia um pequeno prédio
                    em osso, — provisoria construção ainda por concluir e já tombando em ruina, —
                    tomaram à esquerda, internando-se então ás terras, por um estreito carreiro
                    valeirado no terreno natural, anfractuoso, irregular, cada vez mais cavado
                    descendo entre áridos taludes negros. Aqui a iluminação municipal acabara-se; o
                    último lampião tinham-no eles já deixado nas costas, soldado à esquina, contra a
                    taipa desnuda do prédio em osso, cuja desamparada armação se riscava com trágica
                    violência no espaço, como uma forca. De sorte que se adiantavam com crescentes
                    precauções, a cabeça baixa aproada ao nordeste e sumida té aos olhos a face nas
                    golas levantadas, enquanto essa luz rasa e agonizante lhes estirava para a
                    frente indefinidamente as sombras, ao longo da viscosidade barrenta do
                    caminho.</p>
                <p>A um angulo mais escuso, o Serafim parou:</p>
                <p>— Não enxergo nada, que raio!</p>
                <p>— Não tens mais cigarros?... Toma! — ofereceu-lhe o companheiro.</p>
                <p>O tanoeiro aproximou-se, acendeu; depois reataram a andar, e esclareciam agora o
                    caminho, alternam ente puxando a brasa dos cigarros.</p>
                <p>Em volta deles, àquela hora desabrida e triste, alastrava uma implacável toalha
                    de sombra... a obscuridade, o silêncio, a desolação eram completas. Na álgida
                    pacificação da noite apenas ressoava, pegajoso, espaçado, o chlap, chlap do seu
                    calcar na estrada. E, por cada fumaça que tiravam, instantâneas na sua frente as
                    poças de água luziam como espelhos. Como o caminho seguia cavado sinuando pelo
                    dorso do outeiro, a um e outro lado o instinto dos dois adivinhava um largo
                    desdobramento de aspetos, panorâmicas distribuições que lhes eram familiares, os
                    extensos e variados panos de perspetiva a que tão afeitos andavam os seus olhos
                    extenuados. — Assim, para a esquerda pressentia-se um amontoamento vago de
                    construções, a vida industrial empilhada e intensa, como que um grande
                    formigueiro em repouso, a leviatanesca fecundação da miséria e do trabalho;
                    claraboias, telhados, armazéns, alpendres, longas blindagens de zinco mordidas
                    de oliveiras, apontavam de escorço nesse imenso anfiteatro, que descia a
                    quebrar-se abruptamente, em duras linhas caprichosas, no manso estanho
                    horizontal do Tejo. Para a direita, rasgava-se-lhes no flanco a violenta curva
                    da linha-férrea de cintura, ao longe barrava o horizonte uma chapada negra, e
                    entre estas duas projeções de tinta, mais opaco ainda e mais negro, se era
                    possível, corria como um traço o estreito vale de Chelas, picado aqui e ali de
                    luzitas distantes, como pirilampos, e com a fiada valente das suas fábricas
                    adormecidas acusada apenas pela floresta das chaminés, que em esfumaçamentos de
                    cinza se aprumavam num arranque triunfal para o Infinito, sob o peneiramento
                    lucido das estrelas.</p>
                <p>Agora, súbito, o talude natural das terras interrompia-se, continuado como que
                    por um duplo muro vertical, alto e seguido, num paralelismo linear, formando
                    rua. Tomando por ela, os dois internaram-se numa espécie de corredor de
                    Penitenciaria, negro claustro aberto à noite, velha catacumba desterroada, a
                    qual mergulhava por igual na treva e em cujas misteriosas entranhas arfavam
                    gemidos vagos, tremulava o dolorido murmúrio de um grosso resfolgar humano...
                    Estavam na ilha do Grilo. — Um duplo renque de casebres, de singela madeira e
                    taipa, mal armados, imundos, quase sem beirais, sem forros, sem vidraças, todos
                    riscados no mesmo padrão, com a mesma feição patibular, todos calcados no
                    anonimato peculiar ás coisas ínfimas. Assim como era um, eram todos. Rés do chão
                    e um andar: em baixo, alternadamente, uma janela e uma porta; em cima uma
                    sucessão monótona de janelas. Mas nem as portas tinham resguardo, nem as janelas
                    caixilhos por onde entrava a luz, havia de entrar também o vento, a chuva, o
                    frio, o calor, toda a sorte de inclemência. As paredes eram uma casca de noz, os
                    alicerces uma abstração, a segurança um mito, a higiene um impossível. Aberta,
                    cada uma destas reles barracas era uma praça; fechada, era um túmulo. E túmulo
                    com carneiros, pavorosamente cavado em subterrâneas ramificações, a avaliar
                    pelas exíguas frestas que no seu carcomido rodapé tenuemente luziam, aqui, ali,
                    mesmo à raiz da terra.</p>
                <p>Ao longo de toda a ilha alastrava a mesma grossa e vaga escuridão do campo.
                    Apenas, a intervalos irregulares, algumas raras janelas, como vazias órbitas de
                    espetros, radiavam lívidos luaceiros na absorvente espessidão da sombra. O piso,
                    talhado no terreno natural, era um misto traiçoeiro e imundo de restos de
                    comida, dejetos de toda a sorte, cacos, barro, cisco, cascalho e lama. Na grande
                    valia longitudinal fermentavam acidamente as podridões. Havia um cheiro acre e
                    nauseante, cumulativamente a hospício, a curral e a cemitério. E dessa sórdida
                    promiscuidade animal, dessa fruste aglomeração de miseráveis, subia para a
                    frialdade inerte do ar, dançando nas infetas emanações de caneiro insalubres
                    harmonias, um como surdo verrumar de febre, um atormentado e bárbaro concerto,
                    feito ao mesmo tempo de pragas, risos, lamentações, balidos de cabras, mugidos
                    de vacas, grunhidos de porcos, latidos de cães e choros de crianças.</p>
                <p>O Esticado parou junto de uma das portas, à esquerda, e pondo o pé no degrau,
                    bateu:</p>
                <p>— Ó Manaio!</p>
                <p>— Quem é?... — rompeu de dentro uma voz rouquenha.</p>
                <p>— Manaio! Abre...</p>
                <p>Uma pequena cabeça grisalha assomou ao postigo, desconfiada.</p>
                <p>— Ah, são vocês?... Entrem!</p>
                <p>E o mesmo homem pequenino e curvo, logo cobrada a confiança, escancarava a porta
                    para o interior da sua misérrima toca. — Um acanhado recinto, surrado e negro,
                    simultaneamente sala e cozinha, atramochado de coisas sem brilho, pelintras,
                    reles, a mais formal negação do asseio e do conforto. Em cima da mesa havia um
                    candeeiro de petróleo, de folha, com a chaminé partida. Junto à lareira, sobre
                    uma arca, enovelava-se uma velha com um gato ao colo. E num recanto à esquerda,
                    protegida por um ténue resto de cortina de chita, farpada, correndo sobre uma
                    corda, jazia uma enxerga ignóbil afogada num monte de farrapos, entre os quais
                    aflitivamente se debatia estrebuchando, arfando, como tenalhada nas garras
                    imateriais de algum pesadelo, uma rapariguita apenas núbil, esgalgada, anémica,
                    o cabelo raro e sem brilho, afilado e branco o nariz, e uns grandes olhos cor de
                    cinza no rosto oblongo, mordido das bexigas. — O Manaio insistiu:</p>
                <p>— Então vocês não entram?</p>
                <p>Mas logo, sem perder tempo a entrar, o Esticado:</p>
                <p>— Queres vir?</p>
                <p>— Merecerá ele a pena?...</p>
                <p>— Eu cá estou que sim... — apoiou o Serafim, com a pupila num fulgor de
                    esperança.</p>
                <p>— Ó filhos! é que eu já estou tão escaldado de fantochadas destas... — objetou o
                    Manaio; e depois de uma breve hesitação: — Enfim! Como vamos todos de
                    paródia...</p>
                <p>Tornou dentro, à alcova, e reaparecendo logo de chapéu na cabeça e um velho
                    xaile-manta pelos ombros:</p>
                <p>— Vamos lá!</p>
                <p>— Não saias, homem! — observou-lhe mansamente, imóvel no seu púlpito, a
                    mulher.</p>
                <p>Fitou-a o Manaio de rancor, sem responder, e encaminhou-se à porta; ao que ela,
                    projetando longe o gato e saltando a segurar-lhe a franja do chale:</p>
                <p>— Onde é que tu vais? Não ouves?</p>
                <p>O homúnculo sacudiu-a, num arremesso:</p>
                <p>— Larga-me!... Olha essa rapariga.... Fecha a porta! — E, já fora, arreliado e
                    tateando à cautela o espaço, enquanto enterrava os pés no lamaçal: — Ora o diabo
                    da tarasca!</p>
                <p>Tinham os três dado alguns passos no escuro, quando com o Esticado esbarrou um
                    vulto desempenado e esbelto, cujos grandes olhos ardentes cintilavam na treva
                    como carbúnculos, e que no mesmo sentido deles seguia, porém mais depressa.</p>
                <p>— Ó Ventura! és tu?...</p>
                <p>— Adeus! Seus bandidos...</p>
                <p>— Não vens até Marvila? — arriscou-lhe ao ouvido o Serafim.</p>
                <p>— Se eu fosse tolo! — E, perante o desapontado gesto do tanoeiro: — Nada! Não
                    acho graça a homens... Vou-me mas é bater té à fonte da Samaritana. — com uma
                    noite destas?...</p>
                <p>— Pro amor são as melhores! — E com inflexões de sátiro, baixando a voz, para o
                    Serafim, a quem apertava nervosamente o braço: — Demais a mais, hoje tenho lá
                    coisa... daqui! — Premia lascarinamente o lóbulo da orelha, e explicava, a
                    seguir: — Uma petizota dos Fósforos... em primeira mão, dizem... Anda a
                    meter-se-me à cara, mesmo perdidinha por mim!</p>
                <p>— Não te dói a consciência, meu traste?</p>
                <p>— Então! Se há de ser outro...</p>
                <p>— O diabo te de o que te falta! — resmoneou o Manaio, enfadado.</p>
                <p>— Ah, por enquanto, não falta, não... graças a Deus!</p>
                <p>— Olha que africa! — desdenhoso comentou o Esticado.</p>
                <p>— Adeus! Adeus!</p>
                <p>E, assobiando e saltando, o Ventura desceu a rua e breve o seu ágil perfil
                    desaparecia na sombra.</p>
                <p>— Não tem emenda, este ladrão!.</p>
                <p>— Anda aqui ao Silvério... — dizia para o Manaio o Esticado tomando-lhe do
                    braço.</p>
                <p>— Olha que eu não sei se ele virá...</p>
                <p>— Porquê?...</p>
                <p>— Aquele mulherio todo tem lá feito hoje um inferno!</p>
                <p>— Diabos as levem!... Não era eu... Mas é que capaz de não vir!</p>
                <p>— Era até uma Providencia! — arriscou, muito intencional, o Serafim.</p>
                <p>— Mas que cisma que tu tens com o homem! — retorquiu logo, numa exaltação, o
                    Esticado. — Quem demónio te azoinou assim?... Olha que ele não é o que tu
                    pensas... Vamos sempre lá a ver!</p>
                <p>E, seguido dos dois companheiros, silenciosos, o caixoteiro demandou, com uma
                    rápida segurança de familiar, uma porta que estava entreaberta, quase ao cabo da
                    ilha.</p>
                <p>— Licença a três, seu Silvério!</p>
                <p>— Á vontade, amigos! — disse de dentro uma voz pausada e cheia.</p>
                <p>Ao convite, o Esticado fez rodar a porta e entrou, enquanto, suspensos no limiar,
                    com um pé sobre o degrau, os outros dois encaravam num confrangimento de tédio o
                    desordenado e torpe interior da locanda. — Aberta a porta, logo de dentro
                    vaporou este cheiro peculiar, relentado e doce, denunciativo de grande
                    acumulação de mulheres numa casa. Ao fundo, contra a parede salitrosa e verde,
                    abancava junto à mesa o Silvério, tipo flácido de gordo, muito branco, timpânico
                    o abdómen, as carnes empapadas, o cabelo ruivo já rareando, o nariz afogueado, e
                    na larga insipidez da face rolando lascivos uns pequeninos olhos negros. Ele
                    tinha ao lado, sobre a mesa, uma botija de genebra, e com os dedos cruzados
                    amparava o ventre, cuja obesa enormidade lhe fazia retesar opressivamente o
                    busto, firmando na parede a nuca. Em volta, aos seus pés, todo o sobrado andava
                    crassamente juncado de trapos multicores, dos mais diversos tecidos, das mais
                    opostas procedências, porém todos por igual saturados de porcaria, realizando
                    maravilhosas combinações de tons, de linhas, de relevo, como o mais imaginoso
                    tecelão persa não lograria inventar, e sobre cuja andrajosa imundície seis
                    criancitas, todas quase da mesma idade, refocilavam nuas, no abandono e na
                    fome... Também, de pé junto da mesa, em atitude mutuamente agressiva e
                    ardendo-lhes de um lume odiento os olhos, viam-se três mulheres, todas novas,
                    com um patente ar de família, todas de um traço de parentesco próximo por igual
                    marcadas.</p>
                <p>O Esticado disse:</p>
                <p>— Ó seu Silvério! O dito, dito... Cá estamos!</p>
                <p>— Ah, sim, eu vou... — disse moroso o confesso polígamo, deslaçando as mãos e
                    espreguiçando-se.</p>
                <p>— Estava a pôr esta bicharia na ordem!</p>
                <p>Maliceiramente, olhando baixo as mulheres, o Esticado sorriu. E impaciente o
                    Silvério, erguendo-se:</p>
                <p>— Safa! Que praga... Dão comigo em doido!</p>
                <p>— Pudera!... e você para que é torto?... — rompeu uma das mulheres com
                    arrogância, crescendo para o Silvério, de mãos nos quadris e prolongando
                    ameaçador o queixo.</p>
                <p>— Torto porquê?... — acudiu outra do lado, a mais velha, interpondo-se. — Lá
                    voltas tu! Para que é isso bom?... Tudo porque o meu homem me deu uns reles dez
                    tostões da féria, e a você não lhe deu nada.</p>
                <p>— Já se deixa ver que sim!</p>
                <p>— Ó minha alma esganada! Pois tu não vês que ele direitamente é meu e só meu?...
                    que comigo é que ele foi à igreja?</p>
                <p>— E tu não reparas que, se o padre lhes fez lá a vocês essa intrujice das rezas,
                    eu não tenho menos direitos?... Tenho aqui assim, nada menos! Três filhos...
                    Vês?... Isto não é nada?</p>
                <p>E num enternecido ímpeto puxava a si as crianças que largaram a chorar com
                    medo.</p>
                <p>— Quem te mandou pôr debaixo dele? — volveu a outra.</p>
                <p>— Não quero cá saber! Tanto é pai de uns, como de outros... Tem igual
                    obrigação!</p>
                <p>— Isso é que não tem!</p>
                <p>Pachorrentamente, num vaidoso cinismo, tinha ido o Silvério, em silêncio, tomar o
                    chapéu de sobro uma cadeira; ao passo que o Esticado continuava a sorrir,
                    escandalizado o Manaio retrocedera para a sombra da rua, e piedosamente o
                    Serafim, embrulhando um cigarro:</p>
                <p>— Para que uma mãe cria três filhas!</p>
                <p>Mas agora adiantava-se a mais novita das três raparigas, e num lastimoso acento,
                    a que emprestava eloquência a ruina precoce da sua figura:</p>
                <p>— E então eu?... Vamos! Eu é que estou primeiro que ninguém! — Espanto refilão
                    das outras duas. — Talvez não seja de razão?...</p>
                <p>— Coitada!</p>
                <p>— Vocês têm saúde, estão capazes de trabalhar, podem ganha-lo... enquanto eu, por
                    me fiar nas araras deste senhor, lixei-me... fiquei arruinada para toda a minha
                    vida!</p>
                <p>E num jeito doloroso, curva à frente, premia com as mãos o ventre, à altura dos
                    ovários.</p>
                <p>— Então, que querem vocês? — explicava conciliador, entre aquela lacrimosa
                    tríade, o lamecha do Silvério. — Isto tem de ir por partes... Hoje uma, para
                    semana outra... Sempre assim foi! O que eu ganho não dá para todas.</p>
                <p>— Ora adeus! Quisesses tu...</p>
                <p>— Silveriosinho da minha alma!</p>
                <p>— Não, não... não posso! Já disse. Nem vocês precisam... Deixem-me! — Adiantou-se
                    à porta, com o Esticado, — E ala! Que se faz tarde.</p>
                <p>— Não, sem me dar alguma coisa é que você não vai! — exclamou resoluta a mais
                    ribaldeira das três mulheres, barrando-lhe o caminho.</p>
                <p>— E a mim também... olé! Tenho que ir à botica! — reforçou no mesmo tom a mais
                    nova.</p>
                <p>— Não dês! Não dês! — gritou a terceira, de murro erguido ás irmãs, que abanou
                    pro lado.</p>
                <p>— Atreve-te, que te chego!</p>
                <p>— Você aqui não manda nada!</p>
                <p>E num furioso ingranzéu, tomando roda à pacífica figura do Silvério,
                    acotovelavam-se, injuriavam-se, fazendo-lhes coro o amedrentado grazinar dos
                    pequenos.</p>
                <p>— Ah, ele é isso?... — exclamou por fim, rôta a paciência, o matulão. — :Eu já
                    vos arranjo! — Em duas musculosas braçadas desembaraçou-se, atravessou a quadra,
                    com o Esticado adiante de si; depois, já na soleira, puxou sobre si a porta, a
                    que desandou a chave; e, metendo-a na algibeira: — Agora, chiai para aí!</p>
                <p>Dizendo, saltou para a rua, numa grossa expiração de alívio, enquanto dentro
                    rompia uma atroadora litania de maldições, acompanhada do reboante matraquear
                    dos punhos abanando a porta.</p>
                <p>— Que paciência que tu tens! — fez, num dó, o caixoteiro.</p>
                <p>— São os meus pecados, homem...</p>
                <p>Chegavam ao pé do Serafim e do Manaio. Aquele observou:</p>
                <p>— Falta o Lourenço, das Varandas.</p>
                <p>— Ele ficou de vir aqui ter... — aclarou o Silvério.</p>
                <p>— Diabo! Para irmos agora à vila Dias, faz-se tarde... — disse o tanoeiro,
                    impaciente, profundando longe com o olhar o espaço.</p>
                <p>— E ele que já conhece o gajo, de lá da fábrica! — disse o Manaio. — Não se me
                    dava de o ouvir primeiro.</p>
                <p>— Ah, ei-lo aqui vêm! — prorrompeu radiante o Serafim.</p>
                <p>E indicava um vulto tarraco e negro, que pela rampa em curva do fim da ilha vinha
                    subindo, açodado.</p>
                <p>— Ora vivam lá!</p>
                <p>— A que horas vens!</p>
                <p>— Tenham paciência... Isto, ao sábado, sempre a gente ceia um pouco melhor!</p>
                <p>— Virá também alguém de Xabregas?... — perguntou o Esticado.</p>
                <p>— Provavelmente.</p>
                <p>— Pois, olha, eu dispensava-os bem! — resmungou o Serafim. — São muito burgueses
                    demais... querem-se folgados. Não gostam de se incomodar!</p>
                <p>Agora, avançando os pés com precaução, os cinco operários desandaram, medindo a
                    todo o comprimento a ilha, e voltando a percorrer toda a rua da Belavista;
                    depois, cortando ao alto a calçada do Grilo, internaram-se pela rua de Marvila,
                    voltando novamente a marchar na mais completa escuridão, entre altos muros
                    solitários. — Na sua maior extensão a rua de Marvila, desprovida ainda de
                    iluminação a gaz, era de noite servida por alguns escassos candeeiros de
                    petróleo, que a camara dos Olivais mantinha. Naquela noite, porém, obra talvez
                    do temporal, estavam apagados. O que fez, numa inquieta surpresa, o Lourenço
                    observar:</p>
                <p>— Diabo! Marvila assim ás escuras... Isto é um perigo!</p>
                <p>E instintivamente os seus dedos nodosos procuravam a sevilhana no bolso da
                    jaqueta.</p>
                <p>— É que o Zé Pequeno fez o que lhe eu disse... — explicou com sibilino ar o
                    Serafim. — Apagou os candeeiros!</p>
                <p>— E para quê!?...</p>
                <p>— Para a patrulha, se nos visse e mais os outros nestas andanças, não
                    desconfiar...</p>
                <p>Então, tranquilizados e fortes da engenhosa explicação, todos cinco atacavam
                    agora a sombra com denodo, o tronco atirado à frente, e os pés tartameleando
                    incertos no basalto.</p>
                <p>— Vamos então ouvir coisas bonitas? — mascou em tom incrédulo o Silvério,
                    renovando entre os dentes o cigarro.</p>
                <p>— Mais cantiga, menos cantiga... ora adeus! — arrastou o Manaio, num desdém.</p>
                <p>— Não senhor! — emendou logo o Serafim com enfâse.</p>
                <p>— Ora! E eu que os conheço...</p>
                <p>— Este agora é outra loiça, verás!... Desta vez é que a coisa rebenta!</p>
                <p>E como que prematuramente vergados ao trafico vaticínio desta hipótese decisiva,
                    avançaram uns segundos em silêncio estes broncos conspiradores. Até que, num
                    palpitante interesse, parando de andar, o Manaio:</p>
                <p>— Mas afinal que casta de homem é ele?</p>
                <p>— Tem uma linda apresentação, isso é que tem! — disse o Esticado.</p>
                <p>— E é uma grande cabeça! — admirativamente completou o Serafim.</p>
                <p>— Olha, aqui está o Lourenço, que o conhece, de quando ele andou na fábrica das
                    Varandas.</p>
                <p>— Ó Lourenço, que tal?...</p>
                <p>— Eu cá gosto dele! É honrado, é sério... sabe de tudo!</p>
                <p>— Caramba!</p>
                <p>— E muito bons conhecimentos lá fora!</p>
                <p>— Como é que tu sabes?</p>
                <p>— Mostrou-me ele cartas, livros, jornais... muitas vezes! É homem de capacidade,
                    isso é... Não andam aí nessa patifaria da política muitos que se lhe comparem...
                    Isso então na honradez, nenhum!</p>
                <p>— O homem embruxou-te, não há que ver...</p>
                <p>— Digo-lhes mais: com ele, ou mandado por ele, eu ia ao fim do mundo!</p>
                <p>Com a curiosidade progressivamente estimulada, o Manaio disse:</p>
                <p>— Diz que tem um partidão nas mulheres!</p>
                <p>— Oh, se ele me livrasse das que lá tenho em casa! — rompeu com ansia o
                    Silvério.</p>
                <p>Ao que os outros de força riram. E reataram todos caminho.</p>
                <p>Tinham agora alcançado o ponto em que a estrada, dali ao Poço do Bispo, era já
                    servida pelo gaz. Então, nesta invasão súbita da luz, contraíam-se-lhes de
                    instinto as iris, e, automaticamente movidos naquela cegueira de momento, iam os
                    pés dos cinco esconjuros tropeçando nas pedras erráticas do caminho. Mesmo o
                    Silvério, com a sua grande obesidade desatinado e perro, atolou-se na brava
                    torrente que, grossa da chuva, pelo rego longitudinal do centro da rua jorrava a
                    sua tara perene de imundícies, em pastosos gorgolões enastrados de trémulas
                    arestas de prata.</p>
                <p>— Raios parta diabo! Para onde é que eu vou?...</p>
                <p>— Aqui, homem! Perdeste o tino? — o Manaio gritou, tomando-lhe do braço.</p>
                <p>Foi quando cavidamente, fazendo pé num escasso retábulo de sombra, o Serafim
                    observou:</p>
                <p>— Ó rapazes! O seguro morreu de velho... Agora aqui é melhor separarmo-nos.</p>
                <p>E cauteloso parou, de mão na ilharga, depois de haver num jeito banzeiro
                    inclinado o chapéu à nuca, o esguio tronco acuchilado sobre as pernas em
                    compasso.</p>
                <p>Os quatro companheiros, aderindo em silêncio, toca então de avançarem
                    isoladamente, por intervalos desiguais, na calçada sonora e húmida, ao longo da
                    lúgubre fiada dos altos muros salitrosos, por cujas bossas obliqua a luz do gaz
                    de capricho bocejava. Sobranceiras e gementes, sentiam-se oscilar, carvoadas em
                    verde-cinza, as grandes massas de arvoredo dos parques opulentos; e ao de cima e
                    muito, longe, barrava de negro o espaço a impenetrável caligem do céu, novamente
                    obscurecido. — Assim foram seguindo os cinco, em dissimiles andamentos,
                    silenciosos, como estranhos, atravessando agora uma pequena meia-laranja,
                    cortada da aparatosa mancha do portão da Quinta da Inauguração do Caminho de
                    Ferro; costeando depois alguns raros prédios de habitação, cocheiras, uma
                    fábrica de papel pardo; até que tomaram à esquerda, justo à esquina da ruela
                    escura que dava para o pátio do Picadeiro, e logo, a dois passos mais, levava ao
                    apeadeiro da linha férrea.</p>
                <p>Aí, tornearam todos sucessivamente essa modesta casita, de um só andar, em cujas
                    lojas ardiam faceiramente as duas largas portas, franco-abertas, da taberna do
                    Zé Pequeno. Tomada porém a esquina, na face lateral da casa, havia uma pequena
                    porta, cerrada discretamente, pela qual eles subtis se escoaram, no cómodo favor
                    da sombra.</p>
                <p>Na frente, do outro lado do atalho, centelhava, como que em fogo, no embaciamento
                    fosco da velha alvenaria, a torneira de latão dura chafariz; e havia de roda um
                    grupo chilreiro de mulheres, esperando vez para encher. Aglomeradas ali
                    soltamente, ao acaso, de costas para o caminho, sentadas umas na boca dos
                    canecos, outras melancólicas seguindo o fio moroso da água que caía, é certo que
                    não deram pela manobra prudente dos operários. Apenas a Bandeirinha, que tinha
                    lume no olho, e, por haver sido uns meses concubina do Zé Pequeno, havia tido
                    conhecimento e lição de várias conspiratas saloias, essa apreendeu, observou o
                    desfile num sorrisinho inteligente; e quando no coice viu finalmente apontar o
                    Serafim, não se pode ter que lhe não dissesse :</p>
                <p>— Olé! Você também?...</p>
                <p>— O que é que tu queres?</p>
                <p>— Então, reinata hoje cá pro sitio?...</p>
                <p>— Eu cá... vou a Lisboa.</p>
                <p>— A Clara deu licença?... — insinuou trocista a rapariga.</p>
                <p>E com mau modo o Serafim:</p>
                <p>— Mete-te com a tua vida, ouviste?</p>
                <p>O grupo feminino da fonte voltava-se para os dois, tomando no diálogo seu maligno
                    interesse. E a Bandeirinha, vendo que tinha auditório, continuou de ironia:</p>
                <p>— A Lisboa! A esta hora... Hum! Tão cedo não há comboio. Credo! Muito desafinados
                    trazem vocês os grilos!</p>
                <p>— Se julgavas que vinha o Ventura, enganaste-te! — rosnou, adiantando para a
                    taberna, o Serafim.</p>
                <p>— Quero lá saber! Foi tempo...</p>
                <p>— Bem sei... Estão verdes! Minha rica, quem comeu, comeu...</p>
                <p>— Melhor para ele!</p>
                <p>— Olha, se o queres ver... — dizia o Serafim, progressivamente azedo, — vai lá
                    abaixo, à fonte da Samaritana...</p>
                <p>— Ora!</p>
                <p>— Vai, anda! Que não o encontras só... com as cachopitas é que se ele quer!</p>
                <p>— Tem mais juízo que vocês!</p>
                <p>De roda as mulheres, atraídas ao pique da novidade, algumas já de cântaro à
                    cabeça, fechavam círculo e riam, com grave escândula da Bandeirinha, que, a
                    derivar de si o cómico incidente, em termos de implicar disse:</p>
                <p>— Ora mas estes bananas, a pensarem que me embaçam... A Lisboa, a estas horas!...
                    Ai! Se eu quisesse falar...</p>
                <p>— Adeus, amiga! — disse sacudido, voltando costas, o Serafim, que começava a ter
                    receio do pendor indiscreto da conversa.</p>
                <p>— A coisa é outra! — ainda insistiu, com modos de iniciada, a rapariga. E de
                    repente, adiantando-se e mudando de tom, muito chegada ao ouvido do tanoeiro: —
                    Eu também sei da marosca, entende?... Andai lá! E à vontadinha... que, se vier a
                    rusga, cá fica a palerma pros avisar!</p>
                <p>Assim que tal ouviu, o rosto mole do Serafim desenrugou-se num sorriso alvar. Ao
                    tempo que, direito por igual à taberna, descia das bandas de Braço de Prata o
                    João dos Unguentos. — Era um tipo mercenário e banal, acaboclado, bexigoso, de
                    olhos languidos e melenas, exímio cantor do fado, que o vicioso comércio com
                    mulheres e um sedentarismo relaxe efeminara. Tinha o segredo do Sicativo
                    milagroso, o mais pronto, admirável e eficaz específico para doenças venéreas,
                    mirifica droga da sua invenção, a qual ele pelas suas próprias mãos, com o
                    destro auxílio da amiga e em casa, preparava. Além disso, grande entendedor na
                    preparação de cremes, licores, elixires e toda a casta de perfumarias. Em suma,
                    o químico, o habilidoso, o endireita, o sábio da redondeza.</p>
                <p>Mal que viu o tanoeiro, em baixo:</p>
                <p>— Serafim! és tu?...</p>
                <p>— Ó João!... — exclamou pronto o Serafim, numa expansiva efusão tocada da sua
                    ponta de respeito. — Ora se tu havias de faltar!</p>
                <p>E pela portita escusa da ruela os dois entraram também, de braço dado.</p>
            </div>
            <div>
                <head>CAPÍTULO II</head>
                <p>Havia primeiro uma sorte de pequeno pátio interior, ladrilhado a tijolo, com
                    portas abrindo sobre imundas cafuas em esconso, que promiscuamente serviam de
                    depósito de géneros e quartos de dormir. Uma outra porta, em frente da entrada,
                    dava serventia para uma grande sala em osso, assimétrica e oblonga, o teto sem
                    forro, nua ainda na sua provisoria aspereza a taipa escura das paredes, e onde a
                    intensa absorção da luz, por efeito da ausência quase completa do branco, junta
                    com um espesso véu de fumo sobrenadando, apagava as arestas, comia os contornos,
                    emprestava aquele vasto cenário um ar fantástico, impedindo a nítida visionação
                    das coisas.</p>
                <p>Entretanto, via-se logo porção de gente abancada contra as duas compridas mesas
                    paralelas, que longitudinalmente tomavam toda a quadra. Difusas, vivas, em todos
                    os sentidos cruzavam-se as conversas; um estrupidante rumor de interesse reboava
                    alto no recinto, por entre o alegre tilintar dos copos e o lento espiralar dos
                    rolos de fumo dos cigarros. Da asna central do teto, — cuja ossatura pelintra, a
                    descoberto, acusava a grade irregular das vigas e permitia contar as telhas, —
                    pendia um varão de ferro, tendo nos extremos dois grandes candeeiros de petróleo
                    com para-luz de folha pintado a verde. De roda, numa caótica confusão, vestindo
                    as traves, pejando os cantos, em rima junto ás paredes, por toda a parte
                    riscando cabalísticas sombras, apontavam vagos perfis de arados, ancinhos,
                    foices, aduelas, arcos de pipas, talhas para azeite, rosários de cebolas, pilhas
                    de lenha, um promontório enorme de batatas. Cheirava a feno e a peixe frito;
                    respirava-se um ar morno e penetrante, cumulativo a tasca e a curral, a
                    abegoaria e a caserna.</p>
                <p>Além dos sócios do Serafim, estariam agora ao todo ali umas quinze pessoas, que
                    os recém-chegados cumprimentavam em alvoroço, à medida como, aproximando-se, iam
                    descortinando os conhecidos. — Lá estavam assim, entre outros, o Queimadela, o
                    Adelino, o Manuel António, da Vidreira, o Zanaga, dos Fósforos, o Romão, do
                    Campo-Grande. — A bela sociedade! — E de roda de todos eles, irrequieto, de pé,
                    furando, pulando, insinuando-se rápido pelos grupos, completando os
                    conhecimentos, arranjando lugar a um, trazendo vinho a outro, desorbitado e
                    feliz numa vertiginosa, uma estonteante e loquaz ubiquidade, incansavelmente
                    lidava um homem coxo e pequenino, a pupila inflamada, a face devorada de febre,
                    a cabeça grisalha ventoinhando sem repouso, e os lábios de cera vibrando abertos
                    num risinho triunfante.</p>
                <p>— Olha lá, ó Fagulha, — disse-lhe, baixo, o Manaio. — o tal Mateus já aí
                    está?</p>
                <p>— Não o conheces?</p>
                <p>— Qual é?...</p>
                <p>— Aí o tens... chutt que ele vai falar!</p>
                <p>E indicava um simpático vulto de homem, miudito, delicado, que vagaroso e solene
                    se erguera do seu banco, quase ao centro da sala. — Á primeira vista,
                    encantava... Tinha o ar, a um tempo, humilde e dominador, imperioso e tímido. O
                    seu longo perfil semita, energicamente vincado da coroa do frontal ao mento,
                    acusava a tenacidade, dava bem eloquente o síndroma desta forma absorvente do
                    querer, capaz ela só de arrastar ás extremas soluções, no paroxismo de um
                    sentimento ou no aferro a uma ideia. Cabelo castanho, olhos negros, e na base
                    das narinas fumegantes a branda caricia de um bigode algodoado e fino,
                    impercetível quase. Atrigada e sem brilho, tinha a sua pele essa inalterável cor
                    de marfim velho, que nos países do sol caracteriza os temperamentos fortes. A
                    regularidade de linhas do rosto, a expressão ingénua e simples, o gesto
                    comedido, rebuçavam de concerto o fogoso agitador, a um exame superficial
                    mostravam Mateus como sendo a mais pacífica e angelical das criaturas; mas o que
                    quer que era de voluntarioso e arrogante chispava a espaços nos seus olhos, e
                    impercetíveis carfologias de impaciência corriam-lhe de relance nos dedos
                    trémulos. Aquela mesma docilidade aparente não era senão o meio, tão suave como
                    eficaz, de ele solidamente cimentar a sua vontade, à custa do mínimo atrito
                    sobre a vontade alheia.</p>
                <p>— Vivam, rapazes! — saudou ele, a meia voz. E logo, como por encanto, tendo-o
                    mais adivinhado do que ouvido, todos se voltaram com interesse, imobilizando-se
                    em atitudes expetantes; logo instantaneamente se abriu na tumultuária multidão
                    um largo e ávido silêncio. — Estão então decididos a fazer alguma coisa?...
                    Vejam bem! Eu de discursos estou farto... de os fazer e de os ouvir! Venho, mais
                    uma vez, aqui ter com os meus queridos irmãos, para lhes bradar bem alto que é
                    tempo demais de mostrarem quanto podem e quanto, valem. — Reboou pela sala um
                    longo murmúrio envaidecido. — Ação! Ação meus amigos... É o vosso dever; é o meu
                    desejo. Se achais cedo, dizei-o já... e eu vou-me embora!</p>
                <p>— Cedo?... — Não! Não! — Estamos prontos, decididos a tudo! — Vamos a dar cabo
                    dessa corja! — É para já!... — tais foram as vozes que o apropositado reto do
                    Mateus fez chispar na multidão.</p>
                <p>E então ele, sentindo-se senhor da situação e do auditório, com uma voz de
                    catequista, suasiva e potente, de que ninguém suporia capaz o seu corpo franzino
                    e repousado, continuou:</p>
                <p>— Devo começar por lhes dizer que não me traz a este lugar nenhuma sorte de
                    ambição... Nem viso a que falem de mim nos jornais, nem pretendo
                    engrandecer-me.</p>
                <p>— É a cantiga de todos! — rosnou baixo para o Serafim o Manaio, num dar de ombros
                    incrédulo.</p>
                <p>— Ouve! — limitou-se a retrucar, a meia voz, o tanoeiro, cujo derreado arcaboiço
                    todo inflamadamente se erguia agora, dir-se-ia que suspenso dos lábios do
                    orador.</p>
                <p>— Traz-me aqui... mal parece eu dize-lo, mas é a verdade! — e ao dizer, o Mateus,
                    dobrando o braço, arrancava do peito a murro inflexões convictas, — traz-me aqui
                    o cuidado, o amor pelo vosso bem-estar... esta febre, esta ralé, esta ansia
                    constante por libertar os eternamente explorados, por galvanizar os fracos, por
                    erguer os oprimidos... febre, cuidado e ansia que tanto dissabor me têm
                    causado... horas negras, noites de pavor, dias de fome! Ao mesmo tempo o
                    tormento e a esperança, o mais fundo espinho e a preocupação essencial da minha
                    vida!</p>
                <p>— Pois já se vê! Ora não há!... — volveu o ceticismo contumaz do Manaio a
                    escarninhar.</p>
                <p>E indignado o Serafim, acotovelando-o:</p>
                <p>— Tu não te calarás?... — Depois, todo estendido, bancada fora, ao Fagulha: — Ó
                    coisa! Dá para aqui uma droga.</p>
                <p>— Que nós nesta campanha, vocês já sabem, não estamos sós... — prosseguia Mateus
                    no seu ardiloso exordio, cavando a voz e arrastando em sibilinas intenções as
                    silabas. — A luta pela verdade abarca o mundo! Aquilo que nós hoje aqui
                    resolvermos terá logo, para bem de todos nós, sua imediata repercussão lá fora.
                    Em todas as principais sociedades operárias da Europa e da América eu conto com
                    amigos dedicados. Quer dizer: são outros tantos irmãos, cujo coração bate igual
                    com o nosso, que aguardam com avidez as nossas deliberações, prontos a
                    fornecerem-nos toda a qualidade de auxílio, toda... em conselho, em experiencia
                    e em dinheiro!</p>
                <p>— Ah!... — Então que dúvida temos?...</p>
                <p>— Posso-vos provar. Não me faltam felizmente os documentos... Eu vos trarei! E
                    por eles podereis então bem na evidência certificar-vos de que as sagradas
                    reivindicações do povo estão hoje indestrutivelmente ligadas, por todo esse
                    mundo em fora, poios laços da solidariedade universal! Para onde quer que
                    volteis, no vosso anseio libertador, os olhos, aí vereis o aceno animador de
                    irmãos... e irmãos tanto mais para admirar e amar, para gravar no coração e
                    seguir no exemplo, que eles há muito servem com alma a nossa causa comum... e
                    enquanto vós aqui, moles e indecisos, palavrosamente esperdiçais o tempo, lutam
                    eles com fé e ardor, lutam deveras... arriscando tranquilidade, haveres,
                    posição, família, jogando a reputação, perdendo a vida... mártires no sacrifício
                    e heróis no desespero com que à conquista se votam cegamente desse grande
                    principio igualitário, — o Sol do dia de amanhã. — que deve ser o lema, a
                    bandeira, o norte, o ideai de todos nós!</p>
                <p>Á medida como seguia no seu crescendo natural a inflamada eloquência do tribuno,
                    paralelamente também no bronco auditório o interesse, o entusiasmo e a
                    fascinação cresciam. Arrastavam-se bancos, apertavam-se os grupos, havia copos
                    entornados pela impaciência de cotovelos correndo de repelão as mesas, e a mesma
                    expetante uniformidade orientava direitos à dominadora figura do orador todos
                    aqueles perfis ávidos e sombrios. Somente, isolada e impassível, no extremo de
                    uma das mesas se ficara a flácida obesidade do Silvério, ingerindo genebra a
                    saborosos tragos, os dedos em tresilha amparando o ventre, e inquisitorialmente
                    apontados ao Mateus os seus pequeninos olhos de camaleão, redondos e lascivos. O
                    Zanaga, dos Fósforos, tinha vindo, em pé, plantar-se cerce na frente do orador,
                    as mãos nos bolsos, as pernas em compasso, e o seu inseparável cachimbo,
                    entalado nos lábios negros, comovido tremulava sob a magnética influição daquela
                    voz potente e sugestiva. Enquanto, desorbitada e feliz, a pequenina figura
                    grisalha do Fagulha de um para outro grupo incansavelmente saltitava,
                    claudicando, erguida a face flamante à extática adoração do «seu homem», e num
                    lume triunfador ardendo-lhe os olhos fascinados.</p>
                <p>Como, depois da última tirada, entendesse por bem o Mateus fazer uma pequena
                    pausa de importância, com a sua irritante voz de falsete o Adelino
                    interrogou:</p>
                <p>— Mas o que vai então a gente fazer?...</p>
                <p>— O que vamos fazer?... — aclarou logo Mateus, com decisão. — Vamos pôr as coisas
                    no seu devido sítio! Reivindicar os nossos direitos... os direitos naturais do
                    homem... Não tolerar da sociedade restrições nem peias, senão aquelas que nós
                    muito livremente quisermos aceitar! Vamos, em suma, pugnar pela nossa alforria
                    moral, pela definitiva abolição dos abusivos limites que o Estado impõe à
                    liberdade de cada um!</p>
                <p>— Apoiado! Pois isso é que é!...</p>
                <p>E vigorosos brados de adesão, decididos golpes de punhos sobre as mesas, em
                    uníssono vibraram no recinto. A grossa face oleosa do taberneiro, o Zé Pequeno,
                    jubilosamente assomou à porta, a espreitar.</p>
                <p>Quando, firme e sereno na frisante evidenciação do seu triunfo, o Mateus
                    prosseguiu:</p>
                <p>— Eu já outro dia vos disse, o Estado é uma pura excrescência que vive à custa de
                    todos nós. Dispensa-se... Ele nada nos faz, nada nos traz de bom...</p>
                <p>— É uma sanguessuga a pólvora e bala! — Abaixo com ele!</p>
                <p>— É uma organização artificial, violenta, contraria ás leis naturais... a qual
                    não aproveita senão a um limitadíssimo numero de indivíduos, com prejuízo de
                    todos os outros... que não tem outro fim senão explorar o misero
                    trabalhador!</p>
                <p>— Muito bem! Muito bem! — Fora com os gulosos! — Abaixo a autoridade!</p>
                <p>— Vá de chinfrim! Menos parodia! Rapaziada... — prudencialmente aconselhou, da
                    porta, o locandeiro, num cauto receio enviesando o olhar ao corredor.</p>
                <p>E logo, de salto ao pé dele, o Fagulha:</p>
                <p>— Não te agonies, homem! Deixa... Isto não se ouve lá fora... Roda-me mas é tu,
                    anda! Lá para o balcão... Toma conta com a rusga.</p>
                <p>Convencido, o Zé Pequeno voltou para a taberna; ao tempo que já o ubíquo Fagulha,
                    dando-lhe costas e esfregando as mãos num radioso enlevo:</p>
                <p>— Que bem que isto vai!</p>
                <p>E voltava extático a encandear-se do Mateus no verbo fascinativo e quente.</p>
                <p>— Porque há aqui uma coisa que eu preciso explicar-vos, — continuou este. —
                    Reparai bem... Até agora tem-se pensado que o governo, o Estado são coisas
                    indispensáveis na vida das nações. Acredita-se na sua origem divina, na sua ação
                    sobrenatural. E eu rio-me... eu revolto-me contra semelhante absurdo! Lá porque,
                    nos primitivos tempos da sociedade, foi necessária a intervenção de um governo
                    espiritual e temporal para regular as coisas, inferiu-se daí que ela o há de ser
                    sempre. Ora não há nada mais tolo. Se os que uma tal heresia proclamam e
                    defendem são uns miseráveis especuladores, aqueles que a aceitam, que a ela se
                    submetem e lhe dão crédito, não passam, — tende paciência!~ de uns lastimáveis
                    palermas.</p>
                <p>— Essa agora!... — remoeu alto, coçando a cabeça, o Esticado.</p>
                <p>— É assim mesmo! O homem antigo, que, cheio de superstição e ignorância, pensava
                    que o sol e a lua tinham sido projetados e postos a dançar no Espaço por uma
                    invisível mão toda poderosa, e que a espécie humana fora modelada em barro pela
                    suprema influição de um artista sobrenatural, imaginava também que a sociedade a
                    que pertencia fora por igual modelada e enquadrada de antemão em moldes
                    imutáveis, ou diretamente pela Providencia, ou indiretamente pela sabedoria
                    transcendente do tal sobre-humano legislador. E como a corrente da tradição tem
                    muita força, e cada um foge de ordinário a pensar por si, este pernicioso ponto
                    de vista radicou-se, perpetuou-se, ficou... fazendo ainda hoje atribuir ás
                    instituições caducas do passado um carater sacrossanto e augusto, que as torna
                    intangíveis ao exame e as ergue acima de toda a crítica. E aí está o erro...
                    Parece incrível! Mas ainda agora a grande maioria das pessoas pensa e crê que o
                    estado social de uma nação é o resultado da obra dos seus governantes, a
                    aplicação feliz, vejam vocês! — e frisava a ironia, — das lucubrações dos génios
                    políticos que essa nação há tido a felicidade de possuir.</p>
                <p>— Fora com a política! — Todos para o guano! — Hemos de pendura-los dos
                    candeeiros!</p>
                <p>— Pois eu não estarei na razão? Não é certo isto que eu digo?... Governar,
                    legislar... Mas governar quem, a quem e como?... Legislar, mas porque forma, com
                    que autoridade, saber, com que direito?... Vós já pensastes acaso nisto: na
                    surpreendente facilidade com que a presunção humana faz supor-se cada qual
                    investido e iluminado, sem maior escrúpulo nem preparo, na complicada faculdade
                    de legislar?... Nos atos mais insignificantes, mais individuais, mais íntimos da
                    sua vida, a cada passo o homem cinca, recua, hesita, a todo o momento se afunda
                    na dúvida, tropeça em dificuldades. Um renúncia à ideia de governar a mulher e
                    deixa-se dominar por ela; outro não atina com o meio de salutarmente educar os
                    filhos; outro reconhece-se finalmente incapaz de administrar a casa, de dirigir
                    os seus negócios domésticos, de disciplinar os criados. Pois não obstante estes
                    desastres parciais, apesar das contrariedades em que tão frequente o homem
                    esbarra, nas suas relações miúdas com a humanidade, falai-lhe em relações
                    coletivas e vereis como ele logo se julga um onipotente, um sábio... como esse
                    mesmo ente inconsequente e fraco, que uma conta de deve e haver ataranta, pronto
                    sempre a capitular perante um capricho feminino, se reconhece e declara ato e
                    forte para regular os negócios dos homens formando o conjunto-nação!</p>
                <p>— Eles conhecem-nos lá! — objetou aqui, num cambeteio impaciente, o Fagulha. E
                    agora de salto, vergado ao ombro do Queimadela: — Nem nós sabemos nunca quem
                    eles são... Que os leve o diabo!</p>
                <p>— Dizes bem, Fagulhai — apoiou rápido Mateus.</p>
                <p>— Incapazes de governarem a sua casa, mas querem mandar na casa dos outros! Viram
                    já um absurdo, um desaforo assim?... Que maior competência, poder, valor têm
                    eles para o caso, do que qualquer de nós?... Leis! Agora leis... Não são leis,
                    são lérias!</p>
                <p>— Apoiado! Roda com eles!</p>
                <p>— A Lei é uma coisa feita à vontade deles. Pois seja-o agora à nossa!</p>
                <p>— Muito bem! Muito bem! — Abaixo esses ladrões! — É tempo de vingar o povo!</p>
                <p>A violenta apóstrofe do Mateus, como um rastilho, tivera o condão de acender
                    naquela tumultuaria jolda de famintos uma rabida explosão de vaias, uivos,
                    imprecações, insultos, cóleras. Interminavelmente e sem trégua, em epilepsias de
                    dor, em exasperados lamentos, em paroxísmicas febres de revolta, de lado a lado
                    estrugiram brados vingadores, cruzaram-se torturadas vozes de deserdados. Era a
                    virulenta reação que estoirava contra cinco gerações seguidas de desenganos, de
                    burla, de abandono e de fome. E toda essa inflamada fúria apreendia-a,
                    absorvia-a o Mateus embriagantemente. A cada nova estralada de impropérios os
                    seus olhos, irrequietos, ávidos, beatificamente fuzilavam. Dir-se-ia ali que
                    ele, sôfrego, ardente, recolhia a alma, bebia a vida do estrepitoso referver da
                    onda... Uma boa parte da assembleia, agora compacta e de pé, tinha vindo
                    irresistivelmente agrupar-se-lhe em roda. Apenas junto à mesma quina de mesa,
                    frente à sua querida genebra, o obeso e mole Silvério permanecia, a tudo atento
                    mas tranquilo, dessa veemência afogueante da multidão cada vez mais antinómico e
                    mais distante. O cachimbo homérico do Zanaga, apagado, riscava no espaço, ao
                    sabor das nervosas deslocações daqueles beiços de cafre, cabalísticas ameaças. A
                    saltitante inquietação do Fagulha preza na hirta solenidade do momento,
                    imobilizara-se. E por sobre o insofrido e vago remoinhar da multidão, radiosa
                    superando essa rembrandtesca aglomeração de cabeças sórdidas e terríveis,
                    apagadas no fumo, carvoadas na sombra, somente iluminada e serena, na rutila
                    evidenciação do triunfo, trepada a um banco, perorando sempre, do Mateus a
                    cândida e voluntariosa figura destacava.</p>
                <p>— Ora digam-me vocês uma coisa: todos vós, sim, tendes um ofício... e esse
                    ofício, por mais simples que ele seja, custou-vos um certo tempo de
                    aprendizagem, não é verdade?... Muito tempo trabalhastes, sem ganhar, amparados
                    à lição de um mestre, gradual e progressivamente assimilando o vosso noviciado
                    técnico, os segredos da vossa profissão. E isto é indispensável, não é assim?...
                    Ninguém faz milagres, ninguém nasce ensinado. Pois bem! Toda a sorte de
                    ocupação, todo o género de trabalho, ainda o mais elementar, carece então, para
                    se poder exercer capazmente, de um tirocínio prévio, e só não há de exigir
                    aprendizagem o que há de mais difícil, — o oficio de fazer leis para uma
                    nação!... para isto, está-se a ver! é só os protegidos, os meninos bonitos
                    quererem: num pronto se tornam infalíveis!</p>
                <p>— Raios os partam!</p>
                <p>— Eles não conhecem a milésima parte dos seus concidadãos, nunca lhes falaram,
                    nunca os viram, nada se interessam, nem podem interessar, por eles... não têm
                    senão ligeiríssimas noções, quantas vezes falsas! Do modo de pensar, dos
                    hábitos, costumes, reclamações, necessidades das classes a que pertence a grande
                    massa dos oprimidos... a que pertencemos todos nós! E não obstante creem
                    firmemente que poderão tudo abarcar nos seus planos legislativos... que todos
                    lhes obedeceremos, e caminharemos para o mesmo lado, e ficaremos contentes! —
                    Que me dizem a isto?... — E cruzava sobre o peito indignadamente os braços. —
                    Querem prova mais frisante de que as tais leis são boas só para eles? Que são
                    uma coisa arbitrária, violenta, injusta... puramente artificial?</p>
                <p>— Pois já se deixa ver que são! — Cambada! — Isto é que é uma cabeça!</p>
                <p>— Nós não precisamos das tais leis para nada! — reforçava agora imperioso o
                    Mateus, descruzando os braços e em fulvas crispações das mãos anavalhando
                    ameaçador o espaço. — Um chefe é um tirano. Vamos suprimi-los! Valeu?... Não
                    devemos ter ninguém por senhor, nem também sermos os senhores de ninguém! A
                    sociedade, tal como as leis naturais a traçaram, tal como deve ser, — como nós
                    vamos fazê-la! — não é o escandaloso logradoiro, monopólio insolente de meia
                    dúzia de malandrins com sorte... É um produto orgânico vivo, como outro
                    qualquer, dentro do qual os homens são assim outras tantas células, espontânea e
                    solidariamente concorrendo, — mas todos! Todos por igual... tanto uns como
                    outros... — para o desenvolvimento, para a vida, para a harmonia e o bem
                    comum!</p>
                <p>— Mas como há de ser então essa coisa?... — voltou a voz em falsete do Adelino a
                    interrogar:</p>
                <p>— Alguém nos há de dirigir... — Eu cá não entendo! — Oiçam!</p>
                <p>— Não é novidade nenhuma isto que vos proponho, — aclarou o Mateus, sorrindo da
                    ingénua dificuldade que aquelas dúvidas acusavam. — Nem no mundo há novidades!
                    Vede lá... quantas vezes, de dia, o sol brilha claro, o céu está limpo, e brusco
                    forma-se uma nuvem. Esta nuvem foi acaso uma substancia nova que se formou? Uma
                    nova coisa que apareceu?... Não! Mas simplesmente a transformação de uma outra
                    substancia, a qual, — a humidade por condensar, — sob uma forma difusa e
                    transparente já anteriormente existia. Analogamente, o cometa que de repente se
                    desdobra airoso pelo Espaço, amedrontando os ignorantes, dando origem a toda a
                    sorte de patranhas, também não é um corpo novo, que criado fosse naquele
                    instante. Já anteriormente existia, mas a uma tão grande distância, que andava
                    fora do alcance da nossa vista... Pois também a sociedade, o modo de viver que
                    nós tomos a organizar, com o inteiro e completo exercício dos nossos direitos, a
                    distribuição equitativa e perfeita dos gozos e bens da terra, a definitiva
                    abolição de todos os limites à liberdade de cada um, não é uma coisa nova,
                    abstrusa, imprevista, que de improviso surgisse agora do Nada... não é o produto
                    de uma imaginação escandecida, sem origem nem preparo nos misteriosos domínios
                    do equilíbrio universal. Essa organização será, pelo contrário, a consequência
                    lógica, natural dos titânicos esforços em que há dezenas de séculos se debate e
                    consome a humanidade. Até agora não a podíamos ver nem atingir, porque a traziam
                    fora do alcance da nossa ação toda a casta de pressões exteriores. Porém os
                    ominosos tempos da tirania, do obscurantismo, da superstição passaram. Hoje os
                    homens sabem perfeitamente que não são máquinas: são consciências! E, como tais,
                    têm sentimentos, aspirações, desejos... irresistivelmente reclamam o pleno uso e
                    expansão das suas forças interiores... Não queremos portanto mais leis, senão as
                    leis naturais! Nem batinas, nem becas, nem patrões, nem reis! Queremos que o
                    domínio da nossa vontade seja finalmente um fato; e que a sociedade não imponha
                    à nossa esfera de ação mais limites do que aqueles que nós consentirmos em
                    aceitar livremente! É isto, ou não é?...</p>
                <p>— Sim! Sim! — Mãos à obra... vamos!</p>
                <p>— Mas isso é uma coisa sem rei nem roque! — objetou então, com pasmo geral, em
                    voz pausada mas forte, o Silvério, do extremo do seu isolamento.</p>
                <p>E alongava a insípida face num desdém.</p>
                <p>— É que você não percebeu nada... — exclamou o Romão, furioso.</p>
                <p>— Enganas-te! — veio, muito solícito, dizer-lhe ao ouvido o Fagulha.</p>
                <p>— Cala a boca, bruto! — gritou-lhe de longe, numa visga olhada de rancor, o
                    Serafim.</p>
                <p>— Pelo contrário, meus amigos… — acudiu o Mateus, sempre com o mesmo sorriso
                    inteligente. — A revolução que nós vamos fazer, o ideal a que aspiramos, é o que
                    há de mais prático, de mais compreensível, mais justo! — E juntando teatralmente
                    os braços e apoiando na concha da mão o queixo reflexivo: — Mas como vos hei de
                    eu explicar...?</p>
                <p>Neste momento, rasgou áspero o ar o silvo estridente do <seg rend="italic">tramway</seg> que perto passava, na linha de cintura. Tão perto, que
                    demorado ressoou pelo recinto o seu estalido tremulante, o som ferrolhado e
                    cheio do seu rápido rodar. — E no mesmo instante o Mateus, como iluminado de uma
                    ideia súbita, erguendo de ímpeto a cabeça e deslaçando os braços:</p>
                <p>— Ah! Aí têm vocês. . . Ouvem?. . . Passou agora o <seg rend="italic">tramway</seg> uma das mais prodigiosas e fecundas aplicações da inventiva
                    humana. — Os caminhos de ferro rasgaram, galgaram as entranhas da terra por toda
                    a parte; como uma teia de aranha colossal, a sua rede de aço liga e abarca o
                    mundo. De continente para continente, de país para país, o sistema ferroviário
                    forma atualmente a mais sabia e bem ordenada engrenagem, com uma correspondência
                    perfeita de horários, analogias de material e as convenientes especializações de
                    serviços. Pois essa vastíssima organização, típica como modelo, de um rigor e de
                    uma harmonia tão perfeita apesar da sua extensão imensa, do seu domínio
                    internacional, funciona e exerce-se, — vede bem! — sobranceira e independente ás
                    chamadas fórmulas políticas; não obedece a nenhum poder central; não tem
                    parlamentos, nem reis, nem padres, nem fidalgos, nem guarda municipal.
                    Governa-se por si... individualmente nas questões regionais, coletivamente nos
                    assuntos de universal interesse. E assim tudo vai perfeitamente! Não obstante
                    faltar-lhe a consagrada tutelação do antigo, semelhante organismo mantem-se,
                    regulai e progride de um modo admirável. É espontâneo e é útil. O seu mecanismo
                    é completo, porque a sua solidariedade é perfeita!</p>
                <p>Este paralelo fisgado a tempo, esta tão oportuna aclaração eterizou num grave
                    silêncio entusiasta a assembleia, que em adorativo êxtase à tribunícia figura do
                    Mateus erguia os olhos pasmados. E agora a crassa fisionomia, emoldurada em
                    negros matacões, do Zê Pequeno, tendo de novo desertado o balcão, voltara a
                    colar-se, bisbilhoteira e sorridente, à porta do recinto.</p>
                <p>O Mateus continuou:</p>
                <p>— E aqui tendes vós, neste curioso caso dos caminhos de ferro, prodigiosa
                    aglomeração de valores e interesses vários, funcionando perfeitamente bem, só
                    por livre e mutuo acordo, aqui tendes o mais triunfante exemplo de como a
                    sociedade pode otimamente governar-se sem a intervenção de Estados, nem mandões,
                    nem chefes... Essa organização, como tantas outras semelhantes, hoje derramadas
                    por esse mundo fora, — a Cruz Vermelha, as Associações de beneficência, as
                    grandes Sociedades suíças e alemãs de tiro, — e que, aqui há cinquenta anos
                    atrás, pareceriam aos nossos avós uma utopia, um sonho, mostram bem como no
                    funcionamento da sociedade e da vida humana a tirânica imposição do poder
                    central é, no fim de contas, inútil... e pode e deve com vantagem ser
                    substituída, ou pela cooperação de sociedades entendendo-se livremente, ou pela
                    simples atividade de cada um!</p>
                <p>— Isso! Isso! — Vamos a arranjar uma coisa assim!</p>
                <p>— É esse o meu ideal! Deve ser por igual o sonho, o supremo desejo, a preocupação
                    constante do todos vós... Para vos tornar livres trabalho eu incansavelmente,
                    desde que me entendo; nessa obstinada lida vou de toda a alma e todo o coração
                    consumindo a vida! E porquê?... Porque vejo que o mundo é ainda quase que
                    exclusivamente povoado, e arroteada a terra, e fomentada a abundancia, e criada
                    a riqueza, por bandos inconscientes de escravos; porque são ainda profundamente
                    iníquas as desigualdades da civilização atual... E, assim, não há hoje mais
                    nobre, mais instante, mais sagrada missão para o homem, do que lutar por
                    emancipar-se, a si e aos outros, da infame exploração, do odioso jugo do
                    privilégio e do capital... tornar-se cada um para esse fim como que o cristo de
                    si mesmo... arcar com os poderosos, sofrer, profanar, destruir, morrer... até
                    que consiga tornar o indivíduo livre, completamente livre! Em todas as
                    manifestações naturais da sua atividade. Rapazes! Vamos a isto?...</p>
                <p>— Sim! Sim! — Toca a marchar! — É já! Para onde quiser...</p>
                <p>O Romão do Campo Grande, — homem dos seus 40 anos, pequeno e redondo, quase
                    absolutamente calvo, bronco mas tagarela, a quem a solene e ampla nudez do
                    crânio luzidio e um portentoso instinto assimilador davam entre a classe
                    operaria prestigiosa autoridade, — não se pode aqui ter sem exclamar:</p>
                <p>— Eu sempre lhes disse a vocês que o homem por si, quando quiser, pode tudo!</p>
                <p>— Isso é velho!</p>
                <p>— É... mas vocês não se mexem!</p>
                <p>— Não tínhamos com quem... quem nos guiasse! — Talvez você?...</p>
                <p>— Vamos agora a ver, — atalhou conciliador o Mateus, — se com boa vontade,
                    inteligência e coragem, unimos o nosso esforço ao dos nossos irmãos do
                    estrangeiro, para conseguirmos enfim, apeando os ladrões, arrasando as
                    fronteiras, constituir, em suma, a espécie humana, amorosa e unida, numa família
                    única, numa santa comunidade universal!</p>
                <p>— O dinheiro devia ser universal também... — irrompeu o Romão, na sua impulsiva
                    loquacidade. — Por toda parte o mesmo... E ter sempre o mesmo valor.</p>
                <p>— Isso pode lá ser! — retrucou-lhe de longe o Esticado.</p>
                <p>— E porque não?...</p>
                <p>— Tu não vês as diferenças que há nos interesses de nação para nação?</p>
                <p>— Diferenças?... Mas que me importava a mim ser francês, espanhol, russo ou
                    china, contanto que me pagassem e eu tivesse, para onde quer que fosse, livre o
                    direito de escolha e a posse dos frutos do meu trabalho, e a minha liberdade de
                    ação assegurada?</p>
                <p>— Não, pois eu cá isso é que não! Antes de tudo sou português! — para que é isso
                    bom, ô coisa?... — assobiou trocista a irritante voz do Adelino.</p>
                <p>Mas numa obstinação o Esticado a insistir:</p>
                <p>— Português, sim... Nem quero ser outra coisa!</p>
                <p>— Pois olha, então… — vibrou-lhe em ar de mofa o Romão, alongando de desprezo os
                    lábios, — não percebes nada do que a gente queremos fazer, nem estás aqui bem!
                    Vai-te embora!</p>
                <p>O Esticado fez-se lívido; e crescendo para o Romão, de punhos fechados:</p>
                <p>— Que é que você diz, seu gato pelado?...</p>
                <p>Logo os mais próximos intervieram, contendo o importuno esbravejar dos dois
                    bárbaros polemistas. perante a perturbadora iminência do conflito, os pequeninos
                    olhos de camaleão do Silvério tiveram um relâmpago de júbilo. E valeu que
                    imediatamente o Mateus, interpondo à torrente do disparate o provado dique da
                    sua autoridade, prudencialmente aconselhou:</p>
                <p>— Então! Rapazes... juízo! Guardem esses furores para mais tarde. Não lhes
                    faltará ocasião... — E vendo que, novamente polarizados na prestigiosa
                    influência do seu verbo, todos voltavam a premir-se-lhe em volta, por completo
                    desfeito aquele agoirento prelúdio de desordem, suasivo smorzando a sua forte
                    voz abaritonada, prosseguiu: — O Romão no fundo tem razão... disse bem. É
                    exato... Esta consideração, hoje tradicional, do patriotismo, não passa de uma
                    invenção egoísta do regímen burguês! Não tem pés nem cabeça! — Abriu o
                    imprevisto arrojo do paradoxo um pasmo de incredulidade, de como que latente
                    revolta, na assembleia; e, estimulado e contente do efeito, os grandes olhos
                    negros brilhando da esperta antecipação do triunfo, então o Mateus aclarou: — O
                    patriotismo é uma das muitas e habilidosas formas de opressão que, para
                    impunemente nos esmagarem, têm inventado os ricos e poderosos. Durante séculos,
                    vocês sabem, o seu meio de dominação foi outro: foi a religião. Quanto tempo as
                    classes privilegiadas não exploraram e cavalgaram ao seu bel-prazer o povo,
                    ameaçando-o, fanatizado e embrutecido, com o temor de um Deus de açougue,
                    vingativo, cruel... com os tétricos horrores das penas do inferno! E depois,
                    quando essa formidável criação de hipocrisia e de embuste caiu, quando o espetro
                    religioso se esvaiu na sombra e o poder de Roma se afundou no ridículo,
                    substituíram-no então pela ideia de pátria. Aí têm o que é!... De sorte que,
                    hoje, semelhante modo de ver só aos nossos odiosos dominadores aproveita! Só
                    eles podem ter empenho e interesse no manter. Nós não... As gentes de massa e
                    privilegio, essas sim!... Por exemplo, surge aí uma grande questão de interesse,
                    há uma companhia poderosa, um sindicato qualquer, patrocinado pelo Estado, de
                    cujos corpos dirigentes fazem muitas vezes parte altos personagens, o qual quer
                    violentamente apossar-se do território, dos haveres, da riqueza, da
                    independência de um outro Estado. — Como há de ser?... Declarando-lhe guerra. E
                    esta guerra de que modo coonesta-la? Qual o meio de interessar nela, até ao
                    heroísmo, até ao sacrifício, até à morte, a nação inteira?... Invocando o
                    patriotismo, está bem de ver! E então, estupidamente arrebanhados pelo estatuto
                    militar, mais estupidamente ainda dementados por uma noção sentimental, absurda
                    e iniqua, aí marcham dezenas e dezenas de milhares de homens , para a famulenta
                    chacina dos campos de batalha, vítimas de uma falsa compreensão do dever, a
                    benefício de uma sórdida e infame exploração dando de barato a vida... aí se
                    despovoa um país, se sopra e derrama pela sagrada, a inviolável paz de lares sem
                    conto o luto, a miséria, a desolação, a desonra, a fome... tudo para acabar de
                    encher, para trazer algumas libras mais aos cofres de meia dúzia de insolentes e
                    arbitrários mandões! Cada desgraçado a menos, cada um dos nossos que o chumbo
                    vareja, que a metralha estripa, será um adorno a mais para os seus salões, um
                    regalo mais para as suas mesas!</p>
                <p>— ... Que os pariu!</p>
                <p>— Achais bonito isto?... Valerá a pena, para semelhante efeito e por tal preço,
                    conservar a terra dividida em tanta agremiação diferente?... Que importa ao
                    pobre, se ele em toda a parte e de toda a forma é invariavelmente roubado, que
                    lhe importa receber o salario de um patrão português, inglês, americano ou
                    turco? Que mais lhe faz pagar impostos, visto como de todo o modo lhe levam
                    sempre a pele, ao Senhor D. Carlos, ao doutor Floriano Peixoto ou à rainha
                    Vitoria?</p>
                <p>— Isso é que é! — Rua com todos!</p>
                <p>— Estou achatado... Ó Romão... desculpa! — balbuciou, cabisbaixo, vergado à
                    evidência, o Esticado.</p>
                <p>E cortando o grosso do grupo, foi num efusivo ímpeto apertar entre as suas a
                    escoriada mão do serralheiro, em cujos olhos bailavam.</p>
                <p>— Pois vocês não veem?... — prosseguiu com rubra intimativa o Mateus. — O
                    alargamento da ideia de pátria, a internacionalização de todas as manifestações
                    da vida social, revelam-se hoje numa triunfante evidência, com uma intensidade
                    cada vez mais forte, em todas as principais descobertas do génio humano.
                    Caminhos de ferro, telégrafos, telefones, comércio, indústria, livros, jornais,
                    congressos, — aí tendes outros tantos elementos do igualitarismo universal,
                    todos tendentes a alargar o âmbito emancipador da Espécie... aí tendes o imenso
                    laboratório em cuja complicada química se está generosamente elaborando a união
                    dos povos e o amor dos homens. Irresistivelmente a Humanidade caminha para uma
                    homogeneização cada vez maior; e só quando essa titânica obra se houver
                    conseguido, quando a completa igualdade coletiva e a absoluta independência
                    individual forem finalmente um fato, — e quanto tempo não levará ainda esta
                    sedutora utopia a realizar! — só então poderá o homem descansar certo e feliz de
                    haver para as futuras gerações enfim assegurado o gozo e a posse da maior soma
                    possível de perfeição e de felicidade... de ter preparado para seus filhos uma
                    organização social tão harmónica é tão perfeita, que dentro dela não mais haverá
                    revoluções, porque não haverá desigualdades; nem usurpações, porque todas as
                    manifestações da atividade serão legítimas; nem portanto o rico se prostituirá
                    pela ociosidade, nem o trabalhador pela miséria!</p>
                <p>O Fagulha recolhia numa delicia irrequieta os patentes sinais de mudo aplauso em
                    que fascinativamente se paresiavam todas aquelas cabeças ansiosas. Mas ao mesmo
                    tempo, desandando, num receio, até junto ao dono da locanda:</p>
                <p>— Ó Zé Pequeno, vê lá!...</p>
                <p>E com um grande ar de segurança, sempre colado à porta, o taberneiro:</p>
                <p>— Não há novidade... tenho patrulhas.</p>
                <p>Agora o Mateus, tenebroso, solene, ranilhado e erguido o amplo frontal numa torva
                    caligem de ameaça, descera do banco, amalgamara-se, fundira-se no grupo... e
                    exprimia-se em vozes cavas, de funda raiz na alma, por vezes quase em segredo,
                    jogando o pensamento todo em termos incisivos, sacudidos, breves, que, agudos
                    como punhais, rútilos como uma descarga elétrica, ele familiarmente despedia ao
                    ouvido de cada um.</p>
                <p>— Ora é claro, — ia insinuando, — que tudo isto se não poderá alcançar senão por
                    meios violentos: abatendo e destruindo implacavelmente, sem dó, sem medo, tudo
                    quanto tenha o arrojo de cortar a nossa resolução, de empecer-nos o caminho!
                    Diga-se a verdade toda, rapazes... temos que ir à revolução! — Arrepiou-se a
                    onda num calefrio de enleada surpresa. — E não vos espanteis: que nem o
                    expediente é novo, nem nos fica mal... Não há nada mais justo. Eu não quero
                    fazer de vós abomináveis carniceiros, mas os íntegros executores das leis
                    naturais. Ser-se revolucionário, entendei-me bem, não é ter o coração repleto de
                    ódios, nem o espirito fechado à compreensão desses lindos ideais que até aos
                    astros exalçam o ser humano, pelo contrário, é ser-se desinteressadamente o
                    amigo e o defensor dos nossos irmãos! Eu bem sei que os livros clássicos não
                    dizem isto... pintam os demolidores da tradição, os vingadores do Mal, como uns
                    excomungados e uns carrascos. Mas é porque esses livros são inspirados e
                    mandados fazer por aqueles que exatamente com o atual estado de coisas
                    aproveitam... Oh, a Verdade paira muito longe e acima deles! Nem precisa de
                    canhões, nem de roupetas... A obra do revoltado é uma obra de amor. Tudo pelo
                    Bera! — é a nossa divisa. Reparai que armar-se, sublevar-se, impor-se a gente é
                    preparar a felicidade dos nossos filhos, combater pelo restabelecimento das
                    prescrições da Natureza, é lutar pelo que de mais nobre existe no cérebro e no
                    coração do homem, — a integridade do seu pensamento e a liberdade da sua
                    ação!</p>
                <p>Vergados à decisiva gravidade do momento, dobravam-se os bustos dos
                    circunstantes.</p>
                <p>— Hesitais?... Falece-vos a coragem, desarma-vos a compaixão?... Não estareis
                    ainda fartos de sofrer, de ter complacências com os ricos e poderosos?... Pois
                    não será já o tempo de nos constituirmos, seja porque modo for! Naquilo que
                    devemos, que temos o direito e a obrigação de ser?... Já lá vão doze séculos
                    sobre aquele em que o glorioso poeta romano deplorava a sorte dos míseros «que
                    cavam a terra e não têm pão... que tecem o linho, o veludo, a seda e vestem
                    burel... doze séculos, doze! E o nosso estado ainda hoje é pior... Pior, sim!
                    Mais duro, mais aviltante; porque hoje os nossos arrogantes dominadores, mais
                    timoratos ou mais hipócritas, mascaram a sua tirania de escárnio, a sua opressão
                    com a caridade... Pois nós não estamos a ver como eles nos amam? Como velam por
                    nós?... É aí por toda a parte, para nosso uso e engodo, albergues, asilos,
                    creches, sopas económicas... Fingem interessar-se pelo nosso bem-estar e não
                    pensam senão em nos acorreiar mais a canga. Concedem-nos por esmola o que nos
                    pertence de direito. E não será isto uma troça agravando a humilhação?...</p>
                <p>As últimas palavras do orador, numa significativa ressonância, prolongaram-se
                    pela assembleia em vagos rugidos de ameaça. Banzeiramente o Serafim, que estava
                    borracho e com a navalha embrulhava um cigarro, ficou-se volutuoso e pertinaz
                    passando a folha da naifa pela palma da mão, como quem a afiava. Houve
                    instintivos movimentos de braços, direitos aos refegos das cintas, ao cós das
                    blusas, ás algibeiras. Nervoso o Manaio soprava ás mãos, numa tremura. O Zé
                    Pequeno, na sua consciência acobardado perante os lances fortes, desandara
                    vagaroso para o balcão. E entretanto o Silvério, pacifico e longe no seu
                    invariável isolamento, frente à botija de genebra vazia, em pausada peristáltica
                    o abdómen, caída e amarfanhada no peito a glabra insipidez da face, parecia ter
                    adormecido.</p>
                <p>Não descansava o Mateus:</p>
                <p>— Aproxima-se o Natal, meus amigos... a época mais santa é doce do ano! A
                    carinhosa quadra votada ao culto da religião da família, a páscoa dos bons, o
                    jubileu das almas, o Eldorado das crianças... Família! E qual de vós é que a
                    pode ter?... Vem próximo o tempo em que todo o homem com coração se esforça por
                    ver luminosamente pairando, em torno a si e aos seus, a paz, a abundancia, a
                    alegria, o afeto. Nisto consiste o seu maior empenho, por isto recebe da sua
                    consciência o mais salutar aplauso, daí extrai e assimila novas forças que o
                    amparem, novas energias que o aguentem na faina ímproba da vida... Pois bem! O
                    que é que vai agora suceder, mais uma vez?... É que os ricos terão tudo, e nós
                    não teremos nada! Se as coisas estivessem repartidas como devia ser, a todos
                    caberia seu equitativo quinhão no uso, beneficio e posse dos gozos e bens da
                    terra; mas assim, não! Não pode ser! — dizem eles... E a sistemática, a odiosa
                    exploração continua! Eles, sim... os nossos intoleráveis dominadores, fortes no
                    seu impudente egoísmo, que milhares de privilégios cercam, que milhares de
                    baionetas defendem, esses hão de banquetear-se rijo... terão toda a casta de
                    felicidades, diversões, prazeres, orgias... o comércio jorrando no seu proveito
                    sedas, veludos, pedrarias, oiro, guloseimas, toda a sorte de maravilhas... esses
                    terão concertos, bailes, teatros, criados prontos como eunucos, ávidos do seu
                    soldo, mulheres agachadas e submissas como gatas, regalado cevo à sua luxuria!
                    Tudo! Terão tudo... desde os supremos requintes da arte e da opulência, até
                    esses pobres bandos de perus que já coalham as ruas, lugubremente piando de
                    antemão o seu destino... E nós?... Nós, — aqueles a quem a saúde estrompada o
                    permitir, — teremos por muito favor o recurso pelintra das hortas, alguma
                    caldeirada barata em Cabo Ruivo, envenenadas zurrapas aí pelas tabernas, ou
                    alguma escassa merenda comida de levante na sombra anémica dos olivais, por uma
                    aberta de chuva, sem que o álgido açoite do vento nos deixe aquecer...
                    desagasalhados, rôtos, nus sobre a terra encharcada... Se nos excedermos, lá
                    está a cadeia... É o mais a que podemos aspirar, e louvar a Deus! Que mesmo
                    assim, se o quisermos, ainda havemos de pagar depois tamanha prodigalidade,
                    passando o resto da semana a sardinha, ou indo entregar ao prego o último
                    cobertor, o último farrapo!</p>
                <p>— Somos umas bestas!</p>
                <p>— Assim, como a iniquidade social é enorme, como são imensas as diferenças, mais
                    irritante e doloroso se torna, pelo contraste, o confronto do arrogante
                    bem-estar dos grandes com as incomportáveis penas da miséria... Nessa época
                    abençoada e linda em que vamos entrar, não há pequeno episódio íntimo que não dê
                    aso a uma celebração festiva; reconciliam-se famílias, esquecem-se agravos,
                    perdoam-se ofensas, erros, crimes; sobre o mundo passa do Amor a aza
                    acariciadora e branca... E só nós não podemos amar! Só os nossos implacáveis
                    verdugos nos não perdoam, nem deixam respirar nem viver!</p>
                <p>— É demais, isso é!</p>
                <p>— Tudo isto porquê?... Porque o vosso salario não é o que deve ser! Porque não
                    vos pagam equitativamente o trabalho. O salario fixo, arbitrado ao sabor dos
                    caprichos e conveniências do patrão, é uma ladroeira! Se o vosso trabalho rende,
                    se a indústria próspera, tendes todo o direito a participar dos lucros. O vosso
                    capital e o dos grandes industriais equivalem-se; não digo bem... vale mais o
                    vosso... porque, se eles adiantam o dinheiro, vós consumis a vida! Que sejam
                    portanto proporcionais, equivalentes, mutuas as vantagens e interesses
                    conferidos a cada um! O lucro líquido tem de ser repartido por todos: por
                    obreiros e patrões, pelos que dirigem e pelos que executam. Mais: a diuturnidade
                    no trabalho, a permanência de colaboração ativa, deve dar o direito de relativa
                    posse, é um título legítimo para alcançar sociedade na empresa. — É isto o que
                    nós queremos, o que deve ser! O que implacavelmente vamos tratar de conseguir...
                    Pois não representa o regímen atual uma iniquidade que brada aos céus?... Pois,
                    quando uma qualquer fonte de riqueza industrial aí se expande e progride, não
                    teremos nós melhor direito a colher-lhe os benefícios... nós, que para esse
                    resultado contribuímos rudemente, esperdiçando as forças, esgotando a saúdo,
                    sacrificando a vida, do que essa emproada choldra de acionistas, muitos dos
                    quais nasceram ricos, não conheceram nunca privações, outros vivem, sem
                    intervenção direta, sem estímulo imediato no negócio, disseminados e ausentes
                    por toda a parte do mundo... que por vezes não conhecem senão de nome a
                    industria que lhes engrossa a burra, e que para escandalosamente engordarem os
                    seus haveres não precisam ter mais trabalho do que abrir a carteira e estender a
                    mão?...</p>
                <p>— Mas para onde vai a gente?...</p>
                <p>— O que é que querem de nós?...</p>
                <p>— Vamos fazer uma greve geral? — perguntou incrédulo, coçando a nuca, o
                    Manaio.</p>
                <p>O Mateus abanou negativamente a cabeça. E logo o Zanaga a protestar:</p>
                <p>— O que é que isso dava?...</p>
                <p>— Agradava-lhe talvez ir passar, comos padeiros, uns dias de frescata à serra de
                    Monsanto... — rompeu sarcasticamente o Romão, em ar de reprimenda.</p>
                <p>— E se nós fizéssemos um manguito a estes gajos todos, — propôs o Adelino, — e
                    fôssemos fundar para África uma sociedade nova!</p>
                <p>Tornou o Mateus a desaprovar, num sorriso complacente.</p>
                <p>— Só o tempo que isso levava! — o Manaio objetou.</p>
                <p>— E o dinheiro?... — acrescentou o Esticado.</p>
                <p>— Ora o pedaço de burro! — tartameleou com dificuldade o Serafim.</p>
                <p>— A única coisa a fazer, meus amigos, — acentuou o Mateus com energia, — já vos
                    disse... é a revolução!</p>
                <p>E perante a pávida hesitação da assembleia, transfigurado e ardente, o fogoso
                    agitador continuou:</p>
                <p>— É incrível, é adorável isto! Sois tão cegos, tão ingénuos, tão bons, tão
                    simples, que passivamente vos submeteis ao jugo, tendo a sorte do mundo nas
                    mãos!... Aqui, por exemplo, em Lisboa, reparai! Sois para cima de vinte mil
                    operários: se estreitamente vos unirdes, no mesmo pensamento e na mesma decisão,
                    a vossa força é incalculável. O reconhecimento, a reivindicação em massa do
                    vosso direito, é como se vos multiplicassem. Centuplica-vos o número o
                    desespero... para diante, pois! Que é que podeis recear?... O sabre, as patas
                    dos pretorianos? As balas das tropas da guarnição?... Mas isso, aqui de portas a
                    dentro, não tem valor nenhum! A tática do combate nas ruas está por fazer... não
                    a aprendem eles, não está definida, nem pode estar, nos regulamentos... é uma
                    coisa tumultuária, escabelada, internai, absolutamente imprevista, como uma
                    congestão de vingança, como o Génio da revolta! E mesmo, — que dúvida tem? — vós
                    sois homens como eles. Eles trazem as suas carabinas e espadas, vós tendes as
                    vossas ferramentas; e na luta corpo a corpo estas valem bem mais! Vamos, para
                    diante!... As bocas das ruas num momento se tapam com barricadas, uma carroça
                    voltada inutiliza um esquadrão, um fio de arame detêm uma bateria. — Para
                    diante! Rapazes... para além do mais, o perigo é insignificante: de uma mesa, de
                    um saco, dura colchão, de um travesseiro fazem-se magníficos abrigos. Vamos! De
                    fraca monta é o que se arrisca, comparado com o que se pode obter!</p>
                <p>Inflamada e atropeladamente, sem coesão, sem ordem, mas como que iluminado por
                    uma generosa fatalidade iniludível, por uma grande luz sobrenatural, assim este
                    empolgador Mateus falava, falava sempre... De roda dele, o grupo apertara-se e
                    arfava sinistramente, convulsivo, doido... numa aflitiva impaciência, num
                    resfolgar de ansiedade. A escassa luz dos dois únicos candeeiros, exaustos quase
                    de petróleo, e acabada de comer pelo verde dos anteparos, abandonava
                    progressivamente aquele grande recinto à mortalha da escuridão, a um vago
                    esfumaçamento de coisas em que dançavam espectralmente as sombras. Agora, no
                    igualitário borrão da penumbra, na crescente invasão da noite, orador e ouvintes
                    confundiam-se, deliam-se na mesma compacta mancha, eram solidários. Cada uma das
                    impetuosas apóstrofes «Para diante» numa comoção galvânica sacudia os nervos
                    daquela exasperada jolda de derreados e famintos. Toldava-lhes o encéfalo a
                    vertigem do odio, a embriaguez do crime. E assim na confusa espessidão do grupo,
                    naquele negro alastramento humano, tumultuário, incerto, que uma torva
                    unanimidade de sentir arrepelava, só vingadores e ardentes, aqui, ali, a dois e
                    dois fuzilavam os olhos como brasas.</p>
                <p>O Mateus não os deixava.</p>
                <p>— E não ter medo! Repito... O processo é seguro, o resultado é certo! Se
                    manobrarmos todos de acordo, unidos, fortes, orientados no mesmo pensamento
                    vingador, em breve também, espertos à simpática impulsão do movimento, tocados
                    da legitimidade inauferível do nosso direito e do insuperável furor da nossa
                    força, virão agregar-se a nós todos os que sofrem... os enjeitados da sorte, os
                    que não têm que perder, os desarrumados, os infamados, os tristes, as infinitas
                    vítimas da iniquidade social, os desordeiros e os tímidos, que a engrenagem
                    centralista do sistema cautelosamente repele de qualquer ativa intervenção ou
                    lucrativa ingerência, virão todos! Incluindo esses escravos diretos do Estado, o
                    enxame faminto e imenso do proletariado oficiai, dos amanuenses e burocratas de
                    ínfima espécie, classe que sob o enganoso verniz de uma discreta mediania
                    dolorosamente padece e rebuça toda a sorte de privações, mais espezinhados, mais
                    necessitados, mais miseráveis talvez ainda do que nós... Como vedes, é mais de
                    meia cidade! Mas teremos mais ainda! Acentue-se, afirme-se, rompa bem imperativo
                    e veemente o nosso reto de emancipação, o nosso exasperado grito de alforria
                    moral, que até os próprios soldados, que são uns oprimidos, uns deserdados como
                    vós, algemados, chumbados à sua dura condição pela veniaga, pelo oiro e a
                    influencia dos ricos, esses mesmos, esses virão formar ao nosso lado, valentes,
                    irmãos, amigos, prontos a apontarem as espingardas, não contra nós, mas contra o
                    inimigo comum, nosso e deles! — E que mais nos é preciso para vencer?... para
                    diante! Vamos... que em breve seremos nós os senhores, isto não falha... e o
                    domínio da situação é nosso!</p>
                <p>— Para diante... Mas a quê? Com que plano?... — extraiu finalmente da sua manhosa
                    placidez o João dos Unguentos até então silencioso.</p>
                <p>— O meu plano?... — acentuou sorridente, frisando de importância as palavras, o
                    Mateus. — O meu plano é o meu segredo! Vamos devagar... Antes que viesse aqui
                    arengar convosco, abrir-vos os olhos, estimular os vossos brios e reclamar o
                    vosso auxílio, sabeis lá!... no mesmo sentido incansavelmente lidei, durante
                    cinco longos meses de seguida, junto dos vossos irmãos em Alcântara. Sem grande
                    resultado, infelizmente! Que diferença enorme eles fazem de vocês!... A
                    proximidade da corte agorenta-lhes a coragem, dessora-lhes as energias... Eles
                    sentem bem a miséria da sua condição, têm a consciência do vilipêndio em que
                    apodrecem e a noção da própria força... não há dúvida de que os consome um
                    delírio latente de revolta. Eles ardem, — vê-se, — por arremeter, por sacudir o
                    jugo; mas contanto que levem alguém na sua frente, que os garanta das primeiras
                    balas... que lhes ampare as costelas e lhes ensine o caminho! Ora eis a missão
                    que eu confiadamente vos destino, amigos... Vós sim! Vós sois bem dignos dela, —
                    não me resta dúvida... Sois todos homens de capacidade e influencia; conto
                    convosco! Mandei-vos reunir aqui, para duas coisas essenciais: primeira, para
                    que empenheis agora, perante mim, a vossa palavra de homens de bem em como
                    guardareis sobre o assunto a mais absoluta reserva. — Um decisivo gesto, de
                    assentimento unanime, alongou todas as mãos, aprumou todos os peitos. — Bem! Em
                    segundo lugar, pretendo e quero que, desde este momento, todos vocês de alma,
                    vida e coração se entreguem a uma propaganda insistente e enérgica entre os seus
                    subordinados, os seus colegas, os seus amigos, não lhes desvendando, é claro, a
                    parte secreta das nossas combinações, mas enristando-lhes a vontade e
                    inflamando-lhes a imaginação por forma que depois, no momento oportuno, nós
                    possamos com inteira segurança ter em cada um deles um partidário incondicional,
                    um fogoso e implacável lutador!</p>
                <p>— Bem! Bem! — Tomaram eles já!... — para isto vamos trabalhar todos! — insuflou
                    ainda o Mateus; e, voltado ao João dos Unguentos:</p>
                <p>— Também hei de precisar de ti, João...</p>
                <p>— Para o que as minhas químicas servirem, — disse num risinho cínico o fármaco, —
                    estou ás ordens...</p>
                <p>— E agora, meus amigos, a primeira coisa a fazer…</p>
                <p>Não pode continuar, porque neste momento, angustiada, lívida, à porta do pátio
                    mais uma vez rompia a enxundiosa figura do Zé Pequeno, sibilando numa voz
                    estrangulada de pavor:</p>
                <p>— Rapazes! A rusga... Passem-se! Passem-se!</p>
                <p>E, dado o alarme, ele mesmo numa pressa desandou para o balcão.</p>
                <p>Também, o seu terrífico aviso num relance desmanchou, transformou por completo a
                    efémera coesão do grupo. Tudo de esfuziada abalou, houve uma indominável
                    debandada geral... em roda ao Mateus irresistivelmente se abriu uma larga
                    clareira de abandono e de terror. — Era tudo atoadamente a correr à porta, tudo
                    a pelidar por uma saída, tudo a furar para um refúgio. Na embrulhada confusão do
                    lance, naquele imprevisto horror de uma colhida em flagrante, galgavam uns pelos
                    outros, desconheciam-se, esmurravam-se, pisavam-se, caíam... Em breve, no cómodo
                    favor da noite tinham-se todos eliminado, disseminados uns pela vaga amplidão
                    das terras, outros nas imundas cafuas acoitados do pátio do Picadeiro, outros de
                    tropel invadindo, apesar da cancela fechada, a via-férrea, prestes a serem
                    colhidos por um comboio rápido que passava.</p>
                <p>De sorte que, ao tempo que os dois agentes da policia secreta entraram, com
                    suspeitosa atenção considerando a desordem patente do recinto, — garrafas, copos
                    tombados, guardanapos de rojo pelo chão, escabelos de pernas ao alto, um fartum
                    estranho rebalsando o ambiente, o ar grosso de fumo, — com o Mateus e o Fagulha
                    toparam apenas, tranquilos, um frente ao outro, tomando cerveja... enquanto do
                    seu escaninho o Silvério, erguendo uma das pálpebras, trocava com os
                    recém-vindos um furtivo olhar de inteligência, e o cachimbo do Zanaga indiscreto
                    luzia por traz da ruma das batatas.</p>
            </div>
            <div>
                <head>CAPÍTULO III</head>
                <p>Simultaneamente com esta clandestina conspirata nos promíscuos desvãos da locanda
                    do Zé Pequeno, ali a não muitos metros dela, em casa de Afonso de Carvalho
                    Meireles, o arrogante senhor da fábrica do Almargem, se retinira também a
                    pequena sociedade habitual. Numa aparatosa antessala, austera e fria, — té meia
                    altura vestida do seu rodapé de azulejos, para cima um carcomido forro de
                    preciosos gobelins, em capelas, paveias, listrões de flores, mal amparados
                    erguendo-se a entestar com a bisarma piramidal do negro teto apainelado, —
                    abancavam, como de habito, a uma quina, em volta ao grande bufete de ébano
                    torcido: o velho Meireles e a mulher, o comendador Sulpício, o Bernardo Gonzaga,
                    o padre Sebastião. E um pouco a distancia, no outro extremo da diagonal,
                    Adriana, a patrícia filha dos donos da casa, distraída bedelhava ao piano, em
                    vagos acordes, em fugazes e cérulas melodias.</p>
                <p>Toda a quadra de escasso iluminavam apenas as, duas velas do piano, e, alto
                    erguido sobre a mesa monumental que condensava o grupo, um esbelta candeeiro
                    cónico, em porcelana antiga do Japão e bronze, de cremalheira para azeite e
                    globo fosco. Com ser, porém, assim, esta mesma parcimónia de luz mais sugestiva
                    amplidão emprestava à solenidade hierática do recinto. — Era todo o palácio uma
                    grossa e maciça construção, de fins do século XVII, o qual em Lisboa contava
                    entre os raros que logrado tinham resistir ao terremoto. Nesta vasta antessala
                    quadrangular tudo era hirto, nu e triste como a época vazia e contrafeita que
                    simbolizava. Pela alta espessidão dos muros, nas destintas e comidas grinaldas
                    do forro, na profundeza dos escalavrados caixotões do teto, havia grupos de
                    nódoas senis, vagas manchas da ruina, fazia ninho a solidão, bailavam seu
                    caprichoso sabat as sombras. Nem alegria, nem conforto. Dava frio aquela
                    grandeza, tão despida solidez esmagava. A mobília, dura e solene, era toda em
                    carvalho, castanho e coiro lavrado tauxiado a amarelo tirando um pequenino
                    fauteuil de juta alaranjada com flores a seda fulva, indispensável ao reumatismo
                    crasso e à flatulenta obesidade da dona da casa. Sobre o bufete havia os últimos
                    números da Palavra, uma edição de luxo, em dois volumes grandes, do Génio do
                    cristianismo, álbuns piedosos, um crucifixo de ébano e madrepérola, trazido,
                    bento, de Roma, quando foi da remessa da capela de S. João batista ao nosso
                    magnificente D. João V, e os três volumes em 8.° da História Eclesiástica do
                    padre Rivaux. Junto a uma das paredes da sala, no sentido do seu maior
                    comprimento, entre as duas grandes janelas, abrindo ao sul, poisava um refolhudo
                    contador português de pau-santo, com o supedâneo lavrado, ladeado de duas
                    peanhas rendadas de pau sisão, que sustentavam enormes jarrões dessa preciosa
                    cor de chocolate, rofa, recortada em esmaltes de folhagem branca, cujo segredo
                    se perdeu e faz hoje o desespero dos vários japonistas e contrafatores da
                    Europa. Ao de cima do contador, pendente do friso rendado do teto por um grosso
                    fio vermelho em triângulo, e resguardada com amor em rica moldura de talha
                    doirada, gloriosamente resplandecia, como um lírio ensopado em sangue, a
                    emaciada e espiritual figura, artificialmente sorridente, do célebre retrato,
                    pintado por Chartran, do papa Leão XIII. Mais arredados, aos cantos,
                    amparavam-se esguios e cambos dois obsoletos tocheiros de ferro, tão sugestivos
                    na sua fatura ingénua, no seu recorte rudimentar, com o fino tripé em ansa, com
                    as sanefas de fuzis quase de rastos, e superados, em vez do clássico brandão de
                    cera, por dois candeeiros banais de petróleo, agora apagados, com resguardos de
                    cretone e renda, fantasiados por Adriana.</p>
                <p>Nas outras paredes, tinham seu vantajoso destaque também reproduções fotográficas
                    de alguns dos mais iluminados cartões de Sequeira, — A Ressurreição, O Calvário,
                    O Presépio; e um grande quadro a óleo, muito suportável cópia desse assombroso
                    Rubens, O descendimento da Cruz, coroava a porta que dava para o interior da
                    casa, através de cujas umbreiras escassamente se apreendia, no alongamento da
                    perspetiva e no esfumaçamento incerto da penumbra, a decoração, toda em purpura
                    mordida a oiro, do grande salão das receções. No mais, por toda a quadra
                    solidamente se impunha o cavername refeito das paredes, bem patente no profundo
                    envasado das portas, desnudamente riscadas nas suas lisas vergas e umbrais de
                    mármore sanguíneo de Pero Pinheiro. Somente, por diante do boqueirão da entrada,
                    caía um farto reposteiro de veludilho granate, liso, com o escudo da casa ao
                    centro, — em campo azul uma estrela de oiro de oito raios, no centro de uma
                    quaderna de crescentes de prata, cuja orla a quando e quando oscilava ao golpe
                    do sopro que gelado rompia assobiando pela marmórea amplidão da escadaria também
                    resguardavam as duas grandes janelas umas simples cortinas de cassa bordada,
                    ténues bastante que permitissem entrever a rumorosa confusão do parque, vigoroso
                    e próximo como um borrão, o retângulo negro da chaminé da fábrica, e mais longe,
                    lá muito em baixo, adormecido, fosco luzindo, como uma placa oxidada, o manso
                    esteiro das águas do rio.</p>
                <p>O comendador Sulpício, que entrara naquele instante, terminava os seus
                    comprimentos, e caindo de peso sobre um amplo tamborete, à D. Mafalda Meireles
                    perguntava, todo afável, mostrando o descalabro patibular dos dentes:</p>
                <p>— Como se sente Vossa Excelência hoje, minha senhora?</p>
                <p>— Graças a Deus, melhor... — arrastadamente peganhou a valetudinária,
                    aninhando-se com regalo no fauteuil e encostando à mão, forrada na inseparável
                    mitene, a mandibula preguiçosa.</p>
                <p>Desfranziu-se num esgar de beatitude banal o rosto untuoso do comendador;
                    enquanto da sua banda o Gonzaga, todo curvo, acentuava com desvelo:</p>
                <p>— Tem sido muito notada... e muito sentida! Em S. Carlos a sua ausência.</p>
                <p>— Não é pela minha vontade... — suspirou D. Mafalda.</p>
                <p>— Tem saído? — disse o comendador.</p>
                <p>— Tenho, sim... Ainda hoje, um instantinho. É ordem do médico... Estive aqui em
                    baixo, nas Comendadeiras. Já me faziam saudade!</p>
                <p>— E então?....</p>
                <p>— Sempre arranjaram dinheiro para as obras.</p>
                <p>— Ah, eu logo vi! — frisou de importância o Gonzaga. — O primo Arneiro, que é
                    íntimo do ministro, havia-mo prometido.</p>
                <p>— Aquilo está lindo! A capela-mor então... Só vendo-se... E o claustro, que
                    fresco, que limpo, que asseado! Tem muita água, flores... Paz gosto!</p>
                <p>— Ainda bem! Ainda bem!</p>
                <p>— Este ano as festividades do Natal e Ano Bom vão ser feitas ali com um brilho e
                    uma pompa fora do costume. Só a condessa de Montalto deu quinhentos mil réis...
                    há de haver, feita ao vivo e com toda a figuração apropriada, a adoração do
                    Redentor, o Presépio, o Menino Jesus no templo, — imaginem!</p>
                <p>— Com efeito! — disse, muito atencioso, o Gonzaga, sempre curvo à frente, com as
                    mãos entaladas nos joelhos.</p>
                <p>O padre Sebastião piscava de contentamento os olhos pequeninos, e com as suas
                    símias desarticulações fazia ranger a poltrona que ocupava.</p>
                <p>— E tudo isso continuará a ser feito, já se vê, à porta fechada? — insinuou o
                    comendador, com segurança. — Não se admite lá homem nenhum?</p>
                <p>— Já se deixa ver que não! — rompeu com gesto inquisitorial o padre.</p>
                <p>— Fazem bem mal! — não se pode aqui ter Adriana que não censurasse, numa
                    irreprimível sublinha de desdém, lá do outro extremo da sala.</p>
                <p>Ao ouvi-la assim dizer, interrompeu de salto o pai a leitura do jornal, num
                    repelão de desgosto; enquanto, em doce reprimenda, a mãe:</p>
                <p>— Cabecinha de vento!</p>
                <p>— Homens, além de nós, os capelães, — insistiu, irritante, o padre, — para
                    quê?...</p>
                <p>— Eu gostava bem de ver! — disse Bernardo Gonzaga.</p>
                <p>— Desculpe... Não são lá precisos para nada! Não fazem falta nenhuma!</p>
                <p>— Por isso dizem o que dizem... — disse Adriana.</p>
                <p>E logo a mãe, aprumando-se com dureza no fauteuil:</p>
                <p>— Menina!</p>
                <p>Afonso Meireles, com a Palavra abandonada sobre os joelhos, pendulava, num
                    desgosto, resignadamente a cabeça.</p>
                <p>— Eu cá, não obstante respeitar muito as opiniões em contrário... — enfático
                    interveio aqui o comendador, — também acho que é bom assim!</p>
                <p>— Pois não é! — disse o padre na sua atrabiliária faria. — Aquilo é regalo só
                    para as almas eleitas do Senhor... Homens! Homens só se fosse para profanarem a
                    casa... Nada! Nada! Não se querem lá pedreiros livres... que é agora o que mais
                    há!</p>
                <p>Adriana ergueu-se, a dominar a quezília dos nervos, e foi, no vão de uma das
                    janelas, pelo vago negrume exterior apaziguar a alma, alongando a vista.</p>
                <p>— Meu Deus! Meu Deus! Aquele génio... — a meia voz lastimou a mãe,
                    observando-a.</p>
                <p>— Deixa-a lá... — acudiu logo o marido.</p>
                <p>— E tão boa menina! — arrastou compassivo o comendador.</p>
                <p>— Mal empregada! — disse ainda o padre Sebastião, num saltinho provocante.</p>
                <p>Percebendo bem que se ocupavam dela, Adriana então, arreliada, impaciente, voltou
                    ao piano, e no instintivo propósito de abafar aquelas humilhadoras vozes de
                    piedade, largou a executar o tremolo de Gotschalk com acalorado brio.</p>
                <p>Entretanto, carinhosamente perguntava ao Afonso o comendador:</p>
                <p>— E o nosso Jorge, que é dele?...</p>
                <p>— Não tarda... Jantou e saiu logo.</p>
                <p>— Já lhe passou mais a mania da fábrica?</p>
                <p>— Isso sim! Cada vez pior!</p>
                <p>— A culpa é tua... Dás-lhe-todas as largas... Quantas facilidades, quanto
                    dinheiro ele quer!</p>
                <p>— Falas bem... — com paciente bonomia o Meireles retorquiu, encolhendo os ombros.
                    — Ele é sincero, é leal, tem um modo irresistível de pedir... é meu filho... O
                    que é que eu hei de fazer?</p>
                <p>— Ora, o quê?... Devias ter feito como eu: manda-lo educar fora... longe das
                    inevitáveis fraquezas do teu coração e das funestas influencias desta terra
                    perdida!</p>
                <p>— Bem lhe preguei eu! — exclamou D. Mafalda, desolada.</p>
                <p>— Coimbra! Coimbra! Era o que devia ter sido... — gritou o padre Sebastião.</p>
                <p>— E você porque não foi para lá?... — acudiu, estimulado, o Meireles.</p>
                <p>A esta agridoce interpelação, desprevenido, o padre, que era bronco e pusilânime,
                    embatucou. — Ele era uma espécie de bobo familiar, alvissareiro e prestadio,
                    inofensivo e tagarela, chocarreiro factótum de longa data acumulando ali o
                    trabalho humilde de um como que serviçal para voltas, com a grotesca função de
                    desopilador à eutrófica rabuge da D. Mafalda. Por isso, mal que o surpreendeu
                    naquele cómico embaraço, logo, muito trocista, o Gonzaga:</p>
                <p>— O nosso querido padre Sebastião longe de nós… podia lá ser! O braço direito da
                    Sra. D. Mafalda... a providência, o timão, a alegria desta casa!</p>
                <p>E todos riram de vontade, perante a escarniqueira confusão do padre, que abanava
                    de raiva o busto,, fincando nos braços da poltrona os cotovelos.</p>
                <p>Mas já, teimoso na sua terapêutica impertinente, continuava o caturra do
                    comendador:</p>
                <p>— Tem paciência, Afonso... mas mal avisado andaste com a educação do teu filho...
                    Vê lá tu o meu... Por lá anda sozinho, e governa-se, e dá boa conta de si! Não
                    há como o isolamento para fortalecer um homem. Longe do bafo desmoralizador dos
                    pais, os rapazes inçaram mais de frente a vida, consideram e defendem-se... Ele
                    lá vive, com os seus dezasseis mil reis por mês. Menos não podia ser; é a taxa
                    mínima da casa... mas chega-lhe. Que eu também ainda que quisesse, não lhe
                    poderia dar muito mais... E assim é bom: não há pretexto a extravagancias, e ele
                    vai de pequeno aprendendo a dar valor ao dinheiro.</p>
                <p>— Ele não vêm agora a férias?</p>
                <p>— Virá ou não... conforme o que dele me disserem os lentes. Isto, meu rico, hoje
                    em dia é preciso assim! Está muito bem ali no Seminário... E ainda eu não
                    descanso, que não lhe esteja sempre dando a constante lição do meu conselho.
                    Ainda há dois dias... deixa ver... — acrescentou com interesse o conspícuo
                    velho, forrando na algibeira interior da sobrecasaca a mão cerdosa, boguda de
                    anéis. — Eu devo ter aqui... guardo sempre os rascunhos.</p>
                <p>Na saborida antevisão de mais um grave espécimen epistolar, todos se
                    aproximaram.</p>
                <p>— Venha de lá isso! — animou, num sorriso complacente, o Meireles, achegando-se e
                    repondo o jornal sobre a mesa.</p>
                <p>— São dignas de uns lugares Seletos! — confirmou o padre Sebastião.</p>
                <p>E, muito desvanecido, o comendador, baixando a ampla calva ao reflexo mordaz do
                    candeeiro:</p>
                <p>— Obrigado! Muito obrigado... Não exagerem, meus amigos... Eu não tenho
                    pretensões a continuador de Elmano ou de Filinto; eu não sou escritor. Curo
                    simplesmente de aplicar o que aprendi, e dizer as coisas consoante essa modelar
                    perfeição dos nossos clássicos, a que infelizmente tão alheias andam os bárbaros
                    de agora! — E extraindo do bolso um pequeno papel dobrado, que estendeu alto, na
                    extremidade cio braço glorioso: — Ah, aqui está!</p>
                <p>Mais se estreitou em roda ao desgarrado quinhentista o pequeno circulo curioso. O
                    padre Sebastião, em saltitos bruscos de antropoide, arrastara consigo a cadeira.
                    Interrompera Bernardo Gonzaga o consciencioso relato, que estava fazendo à D.
                    Mafalda, dos assinantes das récitas pares, aquele inverno, em S. Carlos. A mesma
                    esquiva Adriana veio negligente debruçar-se da espalda da alta poltrona a que
                    abancava o comendador.</p>
                <p>E agora nesta graciosa atitude de abandono, colhida em cheio na luz do grande
                    Carcel de porcelana e bronze, saltava num maravilhoso destaque, vivia do mais
                    fascinante encanto, a sua ondeante e patrícia figura, por excelência o tipo da
                    mulher soberanamente espiritual, o mais garboso e completo exemplar da
                    elegância. — Caberia exata num triângulo a linha severa do seu belo rosto
                    egípcio. Testa ampla, lisa, esquadrada, cujos mortificados tons de papiros velho
                    aqueciam aos cantos, entre as breves fissuras naturais do cabelo castanho. A
                    seguir, sob uma arcaria ciliar a um tempo vigorosa e doce, arrebitada e triste,
                    rasgavam-se uns grandes olhos cor de azeitona, imperiosos, sérios, tracejados
                    com largueza numa linha reta que impunha respeito, e quando, raro, de acaso
                    crespos num sorriso, penetrando-nos a alma de doçura. Uma finíssima pele,
                    tostada levemente, amaciava dos malares o contorno sóbrio e forte. No
                    prolongamento da testa, o nariz, fino, direito, denotando na pureza do seu
                    recorte etrusco uma seleção de raça e uma vida sem mácula. Depois, a boca,
                    pequenina, breve, airosa erguendo no vértice das comissuras... boca que era
                    positivamente infixável, desnorteadora, única, prometendo o mais almo convívio
                    espiritual e realizando a mais sedutora combinação estética, na sua intensiva
                    rubrica de expressão, na graça menineira do plexo central dos lábios... boca
                    amparada, nobilitada por um destes mentos que imprimem carácter, longo,
                    querençoso, altivo, mas que a Sensibilidade tocara entretanto de uma doce dedada
                    impercetível. — Esta formosa cabeça ligava, numa euritmia perfeita, e por via de
                    um pescoço alto e redondo, com os ombros apolíneos, com o carinhoso busto,
                    triangular também, quebrando excessivamente nos rins, firme, elástico, bojando
                    numa discreta convexidade o tórax, a linha zigomática e dorsal direita. Quando
                    concentrava, nalgum absorvente e largo sonho, o pensamento, os olhos
                    semicerravam e tomava também então a boca a linha reta. Era a mascara de uma
                    esfinge com velaturas de Madona Tinha o segredo das toiletes frescas, um
                    desempeno viril nos movimentos, um ritmo despachado e amplo no andar. As suas
                    duas grandes predileções eram: rijas caminhadas a cavalo, e, pelo vago, a
                    música. Ausência absoluta de garridismo e uma bondade inestancável. Nada, em
                    suma, possível imaginar-se de tão desataviado e tão nobre, tão sublimado e tão
                    simples... nada tão vigorosa e lealmente acusando a castidade, a saúde, a
                    singeleza, a inocência... nada que melhor objetivar pudesse a potente eucrasia
                    daquela maravilhosa organização, apurada e forte.</p>
                <p>— Vamos, comendador... sou toda ouvidos, — disse ela, em tom brincado, quando, ao
                    aproximar-se do grupo, se encostou ás costas da poltrona.</p>
                <p>E beatificamente o velhorro, que tinha acabado de segurar a luneta nas azas moles
                    do nariz:</p>
                <p>— Lá vai, lá vai, minha menina... Ora oiçam!</p>
                <p>— Desdobrou, estendeu a todo o comprimento dos braços a carta, e, sacudindo-a com
                    as costas da mão direita, passou a ler:</p>
                <p> </p>
                <p><seg rend="italic">«Filho,</seg></p>
                <p><seg rend="italic">Recebi a tua carta com prazer, porque tenho interesse em que
                        vivas, e com saúde, tomando os documentos de moralidade que se devem
                        respirar nessa casa.</seg></p>
                <p><seg rend="italic">Disse e torno a repetir que não exijo trabalho superior ás
                        tuas forças, mas o plano que te destino é por experiencia o melhor que acho.
                        Quero que bem aprendas a língua latina, porque é a dos sábios, e para nós em
                        especial é o fundamento da nossa própria língua, que sô bem castigão os que
                        daquela têm perfeito conhecimento. Esta língua latina, que já devias saber,
                        é mais impertinente do que parece, pela colocação dos termos, e hipérbatos,
                        que a cada passo se encontrão nos mesmos clássicos; porém se tu considerares
                        a oração regular, e fores traduzindo como no francês, isto é, pela ordem
                        direita das palavras, dando logo tradução a cada uma delas, — evo adverbio,
                        à preposição, ao nome no seu caso, ao verbo no seu tempo, — virás na
                        inteligência da oração, que ao depois de entender porás em ordem e forma
                        natural e regular. Isto é um dos segredos, que te explico, para te poupar
                        inquietações e tempo.»</seg></p>
                <p><seg rend="italic"> </seg></p>
                <p><seg rend="italic">— </seg> Sabe da poda, sim senhor! — disse sacudidamente,
                    abanando a cabeça de aplauso, o padre Sebastião.</p>
                <p>Desvanecido, o comendador teve um risinho de importância, continuando sempre a
                    ler:</p>
                <p> </p>
                <p><seg rend="italic">«Quando mais senhor estiveres do latim, desejo que te apliques
                        à geometria, substituindo por ela o francês, que, por mais fácil, para mais
                        tarde podes guardar. Se tu venceres até Junho as duas coisas e quiseres
                        seguir o que eu te designar então, conclui em dois anos os preparatórios,
                        para depois entrares nas ciências exatas ou positivas, à tua escolha. Não
                        tenhas receio quando faças diligencia por aprender, porque a aplicação vence
                        o talento do inerte e preguiçoso, e nisto deves fazer capricho e timbre,
                        agradando assim aos Mestres, com proveito para ti, considerando que o teu
                        património é muito pequeno. E, ainda que este fosse largo, não poderia
                        comparar-se com o legado, que quero deixar-te, da educação.»</seg></p>
                <p><seg rend="italic"> </seg></p>
                <p><seg rend="italic">— </seg> É encantador! — interrompeu Adriana, abanando
                    graciosamente, no vértice do espaldar, o busto, e enconchando a boca num
                    sorriso.</p>
                <p>— Se todos os pais assim fizessem... não víamos o que se está vendo! — obtemperou
                    a D. Mafalda com decisão.</p>
                <p>— Não iam os tempos como vão! — reforçou hipocritamente o padre.</p>
                <p>Mas o comendador, muito melífluo:</p>
                <p>— Oiçam... oiçam... — E continuava de importância a ler:</p>
                <p> </p>
                <p><seg rend="italic">«Quando entrares profundamente no rigor das demonstrações
                        geométricas, então provarás o desenvolvimento das faculdades intelectuais, e
                        a facilidade nos mais estudos será pronta; porém, tomo a repetir, nada além
                        das tuas forças, porque é minha vontade que aquilo que aprenderes seja para
                        ficar perpetuamente, e o que te recomendo em particular é que não
                        desperdices o tempo que voa.</seg></p>
                <p><seg rend="italic">Primeiro que tudo, lembra-te sempre que és criatura, e como
                        tal deves adoração ao criador, ao qual um dos sacrifícios mais gratos é o
                        sacrossanto que se oferece no nossos altares; portanto não faltes â Missa, e
                        Deus te ajudará, e de ti haverá providência, inspirando-te, e dando-te vigor
                        nos teus trabalhos. E nada comeces sem invocar o Espirito Santo.»</seg></p>
                <p><seg rend="italic"> </seg></p>
                <p><seg rend="italic">— </seg> Ó senhores, mas isto é que é! — rompeu de novo o
                    padre, entusiasmado, sarilhando com simiesca vivacidade os braços.</p>
                <p>— É admirável... — apoiou o Gonzaga. — Depois da lição ao espirito, o banho
                    lustral à alma.</p>
                <p>— Muito bem! Muito bem! — cabeceou Afonso Meireles, numa passiva sonolência.</p>
                <p>— Ainda não é tudo... — anunciou risonho o bom Sulpício, com o liso crânio rubro
                    de glória e na mais ruinosa evidenciação os malares desguarnecidos. E voltando a
                    ler: — Aí vai o resto.</p>
                <floatingText type="letter">
                    <body>
                        <div>
                            <p><seg rend="italic">«Convêm que te ensine a ser económico, para que no
                                    futuro encontres o que poupares. Nós não precisamos de papéis
                                    bonitos não gastes nisso o dinheiro; inscreve-se bem a nossa
                                    letra em papel vulgar. Basta que escrevas uma carta por semana ;
                                    e quando queiras escrever a tua Mãe ou tia, falo em meia folha
                                    de papel, introduzindo a carta dentro da minha para evitar a
                                    despesa de uma estampilha. E não dês ouvidos a quem queira
                                    desviar-te da obediência aos superiores e ás regras da casa,
                                    porque um jovem sem regra é como o poldro indómito, que sem tino
                                    vai lançar-se no precipício para onde corre
                                desacordado.</seg></p>
                            <p><seg rend="italic">A tua mãe, tia e irmão gozam saúde e saudosos se
                                    recomendam. Deus te conserve na sua graça e santifique a bênção
                                    que te lança</seg></p>
                            <ab type="signed"><seg rend="italic">O teu pai amigo —
                                António.»</seg></ab>
                        </div>
                    </body>
                </floatingText>
                <p>Tendo terminado, dobrava agora o comendador com pomposo vagar a carta, perante a
                    sincera admiração e o reverente aplauso incondicional dos circunstantes.</p>
                <p>— Que lindas cartas! — exclamou, em adorativo extais, a D. Mafalda, com as
                    sapudas mãos à frente do ventre erguidas.</p>
                <p>— Eu cá não me farto! — sublinhou no mesmo tom o padre.</p>
                <p>— Na verdade, isto é padre Bernardes puro! — julgou-se também o Gonzaga obrigado
                    a dizer. — Não digo bem... É Bernardes, debruado de Frei Luís ou de Vieira. Que
                    vernaculismo, que unção, que estilo! Um encanto... um encanto, palavra de
                    honra!</p>
                <p>— E como ele tem tempo para estas coisas! — preguiçoso observou Afonso
                    Meireles.</p>
                <p>— Pudera! — logo com calor retrucou a esposa.</p>
                <p>— Faz o Sr. comendador muito bem! Ah, que bem encaminhado que esse menino vai...
                    — E despedindo um grosso olhar de censura ao marido, que baixou discretamente as
                    pálpebras: — Não lhe há de dar a mania para fábricas, não!</p>
                <p>Adriana, em cujo rosto espiritual se esboçava um vago sorriso complacente, mal
                    ouviu este áspero remoque da mãe, visando o irmão, que ela adorava, tremeu num
                    instantâneo frio de arrelia, e tudo era dobrar-se agora, num jeito entre
                    interessado e implicante, sobre a espalda e os braços da poltrona, prestes a
                    roçar com o cabelo e a orvalhar com o cálido perfume dos seus lábios o depilado
                    e oleoso frontal do comendador. Este, naturalmente, voltou-se, um pouco
                    intrigado, medindo-a inquisitivamente com o olhar. E logo Adriana, com um
                    maliceiro risinho, explicando:</p>
                <p>— Olhe, sabe, comendador?... é que... eu queria ver... Com todo esse arqueológico
                    ressaibo de austeridade e purismo, fazem-me as suas cartas o efeito de haverem
                    sido escritas há uns bons cinquenta anos... Palavra!... de sorte que eu estava a
                    ver... e não sei explicar, e admiro-me... como é que esse papel não está
                    amarelecido, e não cheira a bolor...</p>
                <p>E como a ironia patente da explicação molestasse n um constrangimento à pequena
                    sociedade, logo ela, a compor:</p>
                <p>— No entanto, já lhe disse, eu gosto!</p>
                <p>Ao que, largando de junto ao grupo, vagueava agora pela sala num desdém, enquanto
                    movia a mãe piedosamente os ombros.</p>
                <p>Mas já, carinhosa e solícita, a mesma D. Mafalda voltava:</p>
                <p>— Olhe lá, ó comendador... Não há por aí mais?</p>
                <p>Modestamente, o comendador piscava os olhos e franzia a testa num misterioso
                    sorriso, ogre de promessas.</p>
                <p>— Vá lá! Vá lá! — insistiu, animador, o padre Sebastião.</p>
                <p>— Tenha paciência! — disse, em uníssono, a dona da casa. — Quem possui desses
                    mimos, não tem o direito de os sonegar.</p>
                <p>— Bem... uma vez que tanto apertam... — condescendeu afinal, com bem composta
                    humildade, o precioso velho.</p>
                <p>E num momento sacava do bolso o borrão de nova missiva; enquanto a face languida
                    de Afonso Meireles se estirava num bocejo resignado, retomava Adriana o seu
                    lugar ao piano, e Bernardo Gonzaga, ao seu pesar impotente para furtar-se à
                    demonstração do seu enfado, passava a folhear distraidamente um álbum, colhido
                    de cima da mesa.</p>
                <p>O comendador explicava:</p>
                <p>— Esta é anterior... Foi de uma vez em que o maganão, tendo-se demorado em me
                    escrever, se desculpava depois... que não tinha que me dizer Mas eu ensinei-o! E
                    dei-lhe no vinte... Vão ver! Vão ver!</p>
                <p>E de seguida leu, deletreando gulosamente as palavras, numa radiação, crescente
                    de vaidade:</p>
                <p> </p>
                <p><seg rend="italic">«Filho,</seg></p>
                <p><seg rend="italic">Tens pouco que, relatar, e eu, vê, sempre tenho que dizer...
                        porque já trilhei o mesmo caminho, e com muito menos recursos pecuniários, e
                        até de livros destituído; mas, atento e curioso deploro ainda assim muito
                        tempo perdido.</seg></p>
                <p><seg rend="italic">Por ventura contigo murmurarás irreverente que as minhas
                        cartas são testamentos: — concedo-te que tal lhes chames, contanto que
                        advirtas que são eles, entre outros, os títulos pelos quais se transmitem os
                        legados, e em perpétua memória conserves a# que vou escrevendo para ti, e
                        são do maior alcance.</seg></p>
                <p><seg rend="italic">Essa tua inércia em escrever é pecadilho natural da juventude.
                        Tem cautela... A perceção das coisas sensíveis, com a grave comoção do suco
                        nérveo e do sangue, produz os afetos e paixões, que são por isso próprias e
                        da essência da natureza humana. Se esses afetos são regulados pela reta
                        razão, em beneficio do seu morigerado culto nos trazem bens de valor
                        incalculável. Se, pelo contrário, nos deixamos arrastar das paixões
                        violentas, caímos no torpor do corpo e do espirito. Destas provêm a
                        volutuosidade, ou antes, é um desses vícios que hoje campeiam impunes, e em
                        tom de gala, do qual deves afastar-te; porque afinal nos tornam raquíticos e
                        estólidos. Quantos homens estamos vendo, pela sua sensualidade com a saúde
                        perdida para sempre? Quantas embrutecidos? Quantos esquecidos dos seus
                        deveres, abandonando as famílias e sacrificando-as com os seus
                        escândalos?... Passa ligeira vista pela lua terra, entra em ti, e observarás
                        esta verdade.»</seg></p>
                <p><seg rend="italic"> </seg></p>
                <p>Aqui interrompeu, cheio de si, a leitura, para dizer:</p>
                <p>— Não é isto?...</p>
                <p>E amparado no tácito aplauso dos ouvintes, continuou:</p>
                <p> </p>
                <p><seg rend="italic">«Já tens idade para pensar, medita por isso na definição dos
                        afetos. Se eles veem da comoção dos espíritos vitais, quanto mais forte e
                        frequente aquela for, tanto mais se debilitam e gastão as forças desses
                        espíritos, tão necessários para a conservação do corpo, o qual sem eles não
                        pôde existir. A nossa alma, ocupada da dor ou do prazer dessas sensações
                        violentas, não pôde desenvolver suas nobres funções de perceber, cogitar,
                        julgar e raciocinar. Depois, como muito bem disse o nosso Vieira, os vidos,
                        ainda, que se juntem no mesmo sujeito e para o mesmo fim, sempre são atados
                        ao revés, como as raposas de Sansão, sempre desencontrados e inimigos. Não
                        assim as virtudes... Entregue aos prazeres sensuais, não poderás adiantar um
                        passo nas letras, serás desprezado por aqueles que as cultivam; ignorante e
                        vicioso, sofrerás o repúdio dos homens honestos, que não permitirão tua
                        entrada no seio das suas famílias, porque temem delas o desdouro; e sobre
                        tudo pecas mortalmente contra Deus, em cujo amor e graça é melhor morrer
                        prematuramente, do que viver no seu desagrado, como diz Santo
                        Agostinho.»</seg></p>
                <p><seg rend="italic"> </seg></p>
                <p>O mágico efeito produzido agora por este pretensioso aranzel no piedoso ânimo da
                    pequenina assembleia, traduzia-se por um ávido e extático silêncio. Todas as
                    vistas e atenções estavam saboridamente polarizadas no copioso verbo do
                    comendador... presas e absortas por tal forma, que nem repararam da entrada de
                    Jorge, o qual, tendo primeiro parado junto do piano, agora subtilmente avançava,
                    com Adriana, direito ao grupo, conjugada a fresca expressão dos dois na mesma
                    sublinha amável de troça, — a escutarem também.</p>
                <p>Conspicuamente, sem dar por eles, o comendador continuava:</p>
                <floatingText type="letter">
                    <body>
                        <div>
                            <p><seg rend="italic">«Sê, pois, casto, porque o corpo imundo infeciona
                                    o espirito. Um vaso corruto estraga o conteúdo mais puro; e
                                    quando aquele se quebra, este se não aproveita...</seg></p>
                            <p><seg rend="italic">Se não te atinei com a moléstia, esquece tudo
                                    quanto aqui fica como se nunca o viras, sujeita os afetos â
                                    razão sã, e acharás logo em ti a emulação, esse nobre sentimento
                                    que nos estimula a igualar, se não a exceder, os outros; porém
                                    não o confundas com o pecado da inveja, porque esta é o desejo
                                    de sermos superiores, sem igual e sem trabalho da nossa parte;
                                    aquela é o desejo de conseguir pelo nosso esforço o mesmo que os
                                    outros conseguem, sem que eles deixem de possuir e avançar no
                                    que é seu, e sem que por isso lhes tenhamos aversão, antes os
                                    estimemos e respeitemos.</seg></p>
                            <p><seg rend="italic">Toma estes conselhos, que são necessários e uteis,
                                    como filhos do amor que te consagro; e agora, que tens um
                                    Dicionário português, não mais me escrevas palavras duvidosas, e
                                    usa da letra S com cautela, não me tornes a escrever com ela o
                                    verbo ACERTAR.</seg></p>
                            <p><seg rend="italic">Também convém que te corrija de uma coisa que
                                    praticas por ignorância, e vem a ser — pôr a data no alto da
                                    carta, quando deve ser no final dela, Aquele modo sô se usa no
                                    comércio, ou de superior para inferior.</seg></p>
                            <p><seg rend="italic">Ora a Deus e juntamente lhe interpõe a proteção da
                                    lua Madrinha, Nossa Senhora, para que te faca digno dela e te dê
                                    luzes para conheceres as suas maravilhas. Aceita recados de
                                    todos e a bênção do</seg></p>
                            <ab type="signed"><seg rend="italic">Teu pai amigo —
                                António.»</seg></ab>
                        </div>
                    </body>
                </floatingText>
                <p>— Ámen, Jesus! — epilogou Jorge picaram ente, afetuoso dando a mão ao
                    comendador.</p>
                <p>— Ah, o menino Jorge! — exclamou, um pouco desconcertado, o velho. — Estava
                    aí?... Não sabia!</p>
                <p>— Por onde demónio entraste tu?... — fez com interesse, já esperto, o pai.</p>
                <p>E ao mesmo tempo a mãe numa expressão fundente de ternura:</p>
                <p>— Tem artes este meu filho!</p>
                <p>O Gonzaga e Adriana olhavam-se de inteligência e riam com vontade.</p>
                <p>— Ó senhores, mas que espantos! — entretanto acudia o simpático e vivo Jorge, com
                    a brincada mimalheira de quem se sentia feliz por aquela incidência amiga de
                    cuidados. — Eu entrei muito singelamente pela porta, como qualquer simples
                    mortal... E não é minha a culpa, nem eu por isso me estimulo, se a reverenciosa
                    atenção devida à pessoa ilustre do nosso estimado comendador absorveu por tal e
                    tão exclusiva forma as atenções de Vossas Excelências, que a minha entrada lhes
                    foi completamente despercebida... Era natural!</p>
                <p>— Não sei, não sei como isto foi... — disse, alegre, a mãe.</p>
                <p>— Que, isto é, — insinuou com desenvoltura Jorge, — se os amigos insistem em que
                    nesta minha aparição interveio qualquer magico alçapão ou arte de bruxedo, peço
                    já aqui ao padre Sebastião que me esconjure...</p>
                <p>— Do que Deus Nosso Senhor o livrará! — acudiu logo o padre, muito arisco.</p>
                <p>— E porquê?... — interrogou Adriana.</p>
                <p>— Ora, porquê?... Ele bem se conhece… Sendo o padre Sebastião a peste que nós
                    sabemos, bem sabe também que o Auto exorcismo não é coisa praticável. Nem vêm
                    nos rituais, nem tem jurisdição sobre o Inferno.</p>
                <p>— Jorge! Então?... — atalhou D. Mafalda.</p>
                <p>— Sempre a mangar, este menino! — murmurava o padre, benzendo-se, num
                    atabalhoamento de despeito, enquanto os mais, mirando-o de troça, riam sem
                    medida.</p>
                <p>— Senta-te... — disse de manso então Afonso Meireles ao filho, na generosa
                    intenção de desviar conversa. E como Jorge viesse logo, muito solícito, tomar
                    uma cadeira ao lado da sua: — Foste lá abaixo?</p>
                <p>— Fui, sim, meu pai... verificar se tudo estava bem fechado e encerrar umas
                    contas.</p>
                <p>— E então?</p>
                <p>— Não há novidade... Está tudo bem.</p>
                <p>— Tu escusavas bem destes cuidados!</p>
                <p>— Teria outros...</p>
                <p>— Não tinhas precisão nenhuma de andar metido com gente ruim! — aproveitou a
                    oportunidade para dizer a mãe, procurando com o olhar o apoio do padre
                    Sebastião.</p>
                <p>— Ruins porquê?... Coitados! — observou Jorge.</p>
                <p>— Só se ruindade é sinonimo de miséria... — reforçou Adriana com doçura.</p>
                <p>E apoplética a mãe, fazendo gemer o fauteuil ao irritado embate da sua crassa
                    obesidade:</p>
                <p>— Olhai, sabeis que mais?... Não vos posso aturar!</p>
                <p>— Ó minha rica mãezinha, por amor de Deus! Sejamos justos... — acudiu Jorge com
                    vivacidade, erguendo-se, à beijocar a D. Mafalda. Deixe lá essa pobre gente. Bem
                    lhes basta o seu mal... Neles a percentagem dos aleijões morais é enorme, de
                    acordo; mas a mãe está farta de saber que eu, na fábrica, gente suspeita não a
                    consinto lá! É uma coisa era que eu sou intransigente... E, depois, a ruindade é
                    por acaso apanágio da pobreza?... velhacos, impostores, ladrões não os há em
                    todas as classes, em todas as camadas sociais?... Cá mesmo na nossa roda,
                    esgaravunhando bem?... A mamã conhece-os…</p>
                <p>— Cala-te! — interrompeu a fidalga, contrariada.</p>
                <p>Mas, cego na instintiva veemência do seu ímpeto, o filho disse:</p>
                <p>— É assim, ou não é?...</p>
                <p>— Tens razão, rapaz... — a meia voz apoiou o pai.</p>
                <p>— E mesmo, pensando bem, — continuou Jorge, já de novo sentado junto do pai, —
                    aqui está a nossa comendador que não me deixa mentir... mas não há neste mundo
                    desgraça nem miséria tão indigna,, a que não estejamos todos sujeitos... todos
                    quantos nasceram homens.</p>
                <p>— Isso é que é uma grande, uma triste verdade! — num solene cabeceamento apoiou o
                    comendador.</p>
                <p>— Eu mesmo, — voltou Jorge, — eu sei lá a asneira, a vergonha, o crime que posso
                    cair em ir cometer amanhã!</p>
                <p>E, dizendo, ergue-se, a atenuar na derivação salutar do movimento o começo de
                    exaltação que a aguilhoava. Depois, como ninguém se manifestasse continuou,
                    voltado aos pais:</p>
                <p>— Eu bem sei que os contrariei enormemente, levando-os a acederem à montagem
                    desta fábrica. Mas digam-me: têm perdido alguma coisa com isso? Eu não lhes
                    tenho dado lucros razoáveis, logo desde o primeiro ano? Não anda assim mais bem
                    gerido um capital que para aí jazia, pouco menos que improdutivo?</p>
                <p>— Devemos-te muito nesse ponto, filho... — disse o Meireles. — Não há duvida.</p>
                <p>— Ora, mas andas metido com a canalha... — obtemperou com severidade a mãe.</p>
                <p>— A canalha formiga e moireja e vegeta lá muita em baixo, bem longe das
                    venerandas paredes deste solar... não pode alcançar até nós o seu hálito
                    empestado... nem a sua tumultuária agitação perturbar esta paz de séculos, ou
                    macular-nos o surro das suas mãos os pergaminhos... E assim bem vê, minha mãe,
                    dar-lhes trabalho, industria, pão é até uma obra de caridade.</p>
                <p>— Não me parece… — contestou rijo, movendo negativamente a cabeça, o padre
                    Sebastião.</p>
                <p>— Segundo o estreito critério dos parasitários evangelizadores da sua laia, —
                    disse Jorge, — não será... mas é-o em face da essência mesma do cristianismo,
                    que o amigo pelos modos achou cómodo esquecer... Assim como era realmente também
                    um destes pecados que bradam aos céus, teimar em deixar entregue à judiaria
                    imoral dos Bancos tamanha soma de capital sem aplicação.</p>
                <p>Implicativamente, não cessava o padre de abanar, em patente demonstração de
                    desagrado, a cabeça grisalha e pequenina. Ao que, exasperado, agitando-se de
                    novo, Jorge Meireles:</p>
                <p>— Ó meu Deus! Mas que está ali assim aquele homem a provocar-me com a sua mímica
                    de arrelia! — E plantava-se franco e de frente, braços cruzados, no raio visual
                    do contendor. — Se tem que me contestar, com a breca! Fale, desembeste, ande...
                    diga!</p>
                <p>— E digo, sim! — rompeu agora com decisão, sinceramente estimulado, o padre, que
                    abria muito os olhos e retesava o tronco sobre as mãos, finques nos braços da
                    poltrona. — Digo que isto de estar a dar que fazer a certa qualidade de gente, o
                    mesmo é que contribuir para a expansão dos seus baixos instintos, engrossar a
                    população do Inferno! — Pelo corpo vibrátil de Jorge correu um relâmpago de
                    impaciência. — Eles não merecem nada disso... é tudo uma corja! Uma raça a pedir
                    extermínio... mas pronto, formal, completo! Pudesse eu!</p>
                <p>— O que aí vai! — exclamou Jorge, de capricho, destacando os braços. E ia com
                    arrogância a voltar costas ao adversário; mas impediu-lho a irmã, que veio
                    carinhosa pendurar-se-lhe dos ombros, fitando lambem de frente piedosamente o
                    padre.</p>
                <p>Ao mesmo tempo, intervinha conciliador o Gonzaga:</p>
                <p>— Sim, senhor! Era o que me faltava ver... O nosso padre Sebastião a comprazer-se
                    no paradoxo.</p>
                <p>— Não há tal! Creiam que lhes digo a verdade... falo sério! Então eu não os
                    conheço?... Positivamente uma cambada! Preguiçosos, moralões, indecentes,
                    insuscetíveis de regeneração... refratários, em suma, a toda a espécie de
                    autoridade!</p>
                <p>— A mim respeitam-me... — contrariou Jorge com ufania.</p>
                <p>— Fingem, fingem...</p>
                <p>— Vejam lá em que ficam... — atalhou Afonso Meireles — Quando acaba a
                    sabatina?</p>
                <p>— Pois então os senhores não veem?... — continuava entretanto, agora em pé, no
                    indominável furor da sua convicção o padre. — Em todas as manifestações públicas
                    da sua vida?... que a particular, essa então, é uma vergonha! Eles não querem
                    saber de nós para a nada, eles não concorrem à igreja, não conservam as
                    mulheres, não legitimam os filhos... nem sequer os mortos respeitam, porque os
                    levam civilmente ao cemitério! E então que, malignamente e por sistema, hão de
                    sempre enxovalhar as coisas mais santas... E tudo lhes serve de pretexto...
                    Olhem, aqui perto, o que acontece com o edifício das Senhoras Comendadeiras...
                    Ainda bem as paredes não são rebocadas de novo e logo reaparecem garatujadas de
                    indecências!</p>
                <p>— É uma pouca vergonha, isso é... — apoiou a fidalga, agitando a mão espalmada à
                    altura do nariz. — Tem a gente de fechar os olhos!</p>
                <p>— Deviam requisitar para ali uma sentinela da municipal, — lembrou o
                    comendador.</p>
                <p>— Isso não significa nada! — atenuou Jorge, com rasgada tolerância. — É uma
                    questão de educação.</p>
                <p>— E, depois, essas manias revolucionarias com que eles andam... Pode lá ser!...
                    Os tais socialismos, ou anarquismos, ou o que é... essas infernais manigâncias
                    de agora, que visam a destruir tudo o existente... pilhar, enxovalhar, roubar,
                    matar à vontade... para se governarem depois por si!</p>
                <p>— Não temos nada com isso... É um inofensivo ideal como outro qualquer.</p>
                <p>— Não está má essa!</p>
                <p>— Uma espécie de só-li-dó político, sim... Entre nós não tem perigo... Deixa-los
                    lá!</p>
                <p>— São doentios exageros, são... — fez o Gonzaga, complacente.</p>
                <p>— Não sei, não sei... — arriscou, a favor do padre, o comendador.</p>
                <p>— O que eu sei é que semelhante sistema, além de um pecado, de uma absurda e
                    monstruosa irreverencia, é uma grandessíssima tolice.</p>
                <p>— Apoiado! Apoiado! — disse o comendador com enfâse. — E a propósito me lembra
                    aquela famosa parábola de Menénio Agripa ao povo romano, sabem?... quando este
                    se recusou a sustentar os seus magistrados. Muito lucidamente lhes mostrou ele
                    que, no corpo humano, todas as partes convergem com relações mútuas para o mesmo
                    fim, e há perfeita conjugação e subserviência entre uns e outros membros, para a
                    sustentação e conservação do todo. — Pois assim há de suceder no corpo social,
                    seja qual for a forma de governo... é-los, todos nós da grande cadeia, não
                    podemos desprender-nos sem interromper e frustrar a harmonia comum.</p>
                <p>— Ora eis aí está! — exclamou, radioso do frisante argumento, o padre Sebastião.
                    — Ah, aquilo é gente daninha... São como a víbora: mordem quem os afaga. Livrar
                    deles! Livrar...</p>
                <p>— Diz muito bem... — disse a apoiar, batendo o pé na alcatifa, a D. Mafalda,
                    comovida.</p>
                <p>— Perdão! Também eu imaginava isso... — observou, já um pouco aplacado, Jorge,
                    agora sentado, com a irmã, junto da mãe, cujas mãos os dois procuravam com
                    meiguice. — Mas agora, que lido com eles, que os conheço melhor, vejo que não
                    passam de uns pobres diabos... O que eles querem é importância, bom modo... e,
                    acima de tudo, os meios de irem penosamente atamancando a vida!</p>
                <p>— Pois sim, menino... — volveu contumaz o padre. — Fie-se neles e verá o pago que
                    lhe dão!</p>
                <p>— Depois de uma confiada pausa de acalmação, perguntou o Meireles ao filho:</p>
                <p>— É verdade, Jorge... que me dizes do tal Mateus?</p>
                <p>— Cada vez gosto mais dele! Acho-o muito zeloso, muito inteligente, ativo,
                    disciplinador... e tem a estima de todo o pessoal.</p>
                <p>— Pois é o pior que ele tem! — insinuou o padre.</p>
                <p>— Não sei porquê!</p>
                <p>— Ó fidalgos! Lembrem-se de que ele veio corrido de Alcântara por ter o pensar
                    muito livre.</p>
                <p>— Quem sabe lá?...</p>
                <p>— Posso-o provar a V. exa.</p>
                <p>— É um homem singular! — murmurou Adriana, erguendo ao alto, nalguma vaga
                    meditação, a esclerótica branca nas pálpebras semicerradas.</p>
                <p>— Seja o que for... — disse Jorge para o padre. — É um grande descanso para mim.
                    Enquanto me não der motivo para isso, não o despeço.</p>
                <p>Começavam dois criados a servir o chá. Em grandes bandejas de charão, com flores
                    inverosímeis e pavões doirados, um trazia alinhadas preciosas xicaras de velha
                    porcelana, com o ambreado licor fumegando; o outro um prato com guardanapos, e
                    as torradas em pilha dentro de cestas de trança de prata. E entrara com eles,
                    familiarmente, um descadeirado e intonso velho, avançando as pernas com
                    precaução, grande e recurvo, num bambaleio de ruina o tronco, a face
                    caparrosada, variolosa a sebácea nudez do crânio, olhos piscantes de míope,
                    azuis com estrias de vénulas roxas, a larga ossatura aflorando desguarnecida
                    como um cabide sem uso, perros os dedos nas grossas mãos de podágrico, e
                    circunscrita aos malares pendentes a barba mal cuidada. — Era o marquês de Vai
                    de Madeiros, parasitário resíduo ainda dessa casta bruta e forte que no século
                    anterior em absoluto empolgara a bronca ingenuidade nacional, pelo abuso do
                    cacete, a boa tempera dos rins e o horror à letra redonda. Agora, perdulário,
                    sestro; indolentão, com a bolsa vazia e o solar em ruinas, verdadeiro paranoico
                    moral tendo descido, pela dissipação e a incúria, ao ínfimo degrau do
                    aviltamento e da miséria, frandunamente arrastava uma existência de acaso, um
                    ignominioso viver de incerteza e de fome. Porém sempre alegre, sempre mordaz,
                    invariavelmente cínico e frialão, numa arrogante disestesia do pudor, do brio
                    atávico, na beatifica inconsciência do seu destino, desbaratando o tempo pela
                    crapulosa boémia de cocheiras e tabernas, quando não vinha aos sobejos da mesa
                    dos amigos.</p>
                <p>Ele avançara com precaução, na cauda dos dois criados. Trazia na mão um chapéu
                    mole, de abas enormes, com capa de oleado, que atirou para um canto. Vestia uma
                    velhusca sobrecasaca de briche, esfiampada e luzente, polvilhada a gola de
                    caspa, os cotovelos e os canhões farpados; a camisa era sem goma, o colete não
                    tinha botões; nas calças estiradas e amplas, de uma cor inclassificável, havia
                    ao longo das pregas uns claros verdoengos; e do seu pegajoso rasto ia ficando
                    ortografada a impressão em altos losangos de barro, no macio e uniforme tom
                    sanguíneo da alcatifa.</p>
                <p>— Ó marquês! — exclamou D. Mafalda, assim que o viu, erguendo juntas as mãos em
                    sinal de alegria.</p>
                <p>— Isto são horas?... — reforçou afetuoso o Meireles; enquanto o Gonzaga voltava
                    num patente desgosto a face e Adriana e Jorge de simpatia trocavam o mesmo
                    comiserativo olhar.</p>
                <p>— Há que tempos que eu estou aí! — disse na sua voz enferrujada o marquês,
                    enquanto beijava a mão da dona da casa. — Mas é que primeiro tratei de fazer bem
                    ao estomago... Vim lá pela cozinha.</p>
                <p>— Porque não há de vir antes, acima, à nossa mesa?</p>
                <p>— Ora... a prima bem sabe,., não tenho horas para nada.</p>
                <p>— Enfim, ao menos ainda vêm a tempo de rezar o terço connosco, quando saírem
                    estes senhores.</p>
                <p>Mas logo, muito maliceiro, o marquês, na sua intonação grossa e áspera:</p>
                <p>— Ah, não! D. Mafalda, isso não... Bem sabe que a minha gota não me deixa
                    ajoelhar.</p>
                <p>E, sorrindo; esfarelava com as unhas a acnosa devastação da testa.</p>
                <p>O padre Sebastião, entretanto, no gostoso desempenho das suas truanescas funções,
                    tudo era rodar agora muito cingido à cadeira onde o marquês ao acaso enrodilhara
                    o seu torpe desmazelo; e pequenino, aos saltos, num propósito evidente de
                    motejo, mirava-lhe com insolência o círculo gorduroso da gola do casaco, junto à
                    nuca, o fundo das calças roído, argamassado a surrampa, as grandes botas
                    encoscoradas. Por fim, quando conseguiu que o marquês fizesse reparo na sua
                    impertinente inquirição, perguntou de modo que todos ouvissem :</p>
                <p>— Ó Sr. marquês, faz-me um favor?... Vende-me um bocadinho de lama?</p>
                <p>Mas também o marquês, sem se desconcertar, estendendo ao padre a perna:</p>
                <p>— Veja lá... de que ano a quer?</p>
                <p>E depois que todos fartamente riram, num inalterável descaro, explicou:</p>
                <p>— Pus-me neste bonito preparo há bocado ali, no alto de S. João. E mais não
                    passei da porta do cemitério... mas estava tudo encharcado! Fui ao enterro do
                    Mendonça. Deixei os cangalheiros e os padres fazerem a sua obrigação, e
                    fiquei-me cá fora, a caturrar com o Cara linda. Tem uma parelha de estalo! De
                    graça, a bem dizer... — Sacudia de entre as unhas as pequeninas escamas brancas
                    que não despegava de, coçando, fazer chover da epiderme, e continuou: — Mas que
                    tempo que aquelas coisas levam, santo Deus! Por isso também eu já lá tenho no
                    testamento... quando morrer, nada de luxos nem cerimoniais... quero ir de corpo
                    à terra.</p>
                <p>E piedosamente a D. Mafalda a protestar:</p>
                <p>— O primo! Não diga isso...</p>
                <p>— Quererá penitenciar-se, — disse para Jorge o Gonzaga, — com esta coerência
                    perante a morte, da permanente desordem da sua vida.</p>
                <p>Agora o comendador, que dava o cavaquinho por política, aproximara-se docemente o
                    marquês, encavalara de novo a luneta, condimento indispensável ao seu pensar nas
                    ocasiões de circunstância, e mirando de longe, numa atitude de presbita e num
                    aprumo de importância, o fidalgo, que era par do reino, inquiria da sua opinião
                    sobre as novas medidas de fazenda. O marquês nem o ouvia; respondia por breves
                    monossílabos complacentes. E, ao lado dos dois, Adriana e Jorge interpelavam com
                    carinho o pai, ambos jogando de harmonia, — via-se, — no mesmo empenho, na mesma
                    solicitação ardente.</p>
                <p>— Então, papá, veja lá... — balbuciava a filha, afagando-lhe o cabelo com
                    mimo.</p>
                <p>— Eu já outro dia lhe expliquei... — atacou Jorge. — Precisamos de dar um certo
                    número de salutares diversões à nossa gente, para que eles trabalhem mais de
                    vontade. — Uma ligeira contrariedade ensombrou o rosto de Afonso Meireles; mas o
                    filho prosseguiu: — Para os homens estamos nós bem... já temos a charanga, os
                    jogos da malha e da pela. Veja o pai o resultado! Mas as mulheres? As que têm
                    filhitos pequenos?...</p>
                <p>— Não têm onde os deixar! — insistiu Adriana com doçura.</p>
                <p>— E então, que culpa temos nós? — objetou o pai com dureza.</p>
                <p>— Temos obrigação de pensar nisso! — disse com piedosa decisão a filha. —
                    Deixando esses anjinhos em casa, sabendo os perigos, as inclemências a que ficam
                    expostos... todos os dias se ouve falar em desastres desses... as pobres
                    mulheres é como se não estivessem na fábrica. Deixaram a alma longe, não fazem
                    trabalho que preste.</p>
                <p>— E era tão fácil, ali numa sala qualquer, — acudiu Jorge, — arranjar-lhes uma
                    espécie de creche um depósito em comum para as crianças!</p>
                <p>— Estás doido!</p>
                <p>— Pois que dúvida tem?... Elias mesmas traziam para ali os seus berços,
                    nomeava-se cada dia uma encarregada...</p>
                <p>— Era lindo!</p>
                <p>— E bom para todos...</p>
                <p>— Ó filhos, isso não tem jeito nenhum!</p>
                <p>— Então porquê?...</p>
                <p>— Desmoraliza-as. — pelo contrário!</p>
                <p>Agora ladeavam os dois filhos o pai, no mesmo comovido interesse, — Adriana
                    pendendo-lhe dos ombros, Jorge quase ajoelhado, — acariciando-lhe ambos
                    irresistivelmente as mãos. Adriana disse, com uma voz de veludo:</p>
                <p>— Então?... Era uma obra de caridade e um bom ato de administração... Sim,
                    rapazinho? Deixa...</p>
                <p>Por fim o bom velho, rendido:</p>
                <p>— Está bem, está bem... andem lá... Combinem lá isso os dois!</p>
                <p>E teve as últimas palavras comidas por uma girandola de enternecidos beijos.</p>
                <p>A este tempo, já a imobilidade pontifical de D. Mafalda, de olhos cerrados e
                    colada a nuca à espalda do fauteuil, dera para findar o serão o sinal
                    convencionado. Quando tal viram, o comendador e Bernardo Gonzaga tinham-se
                    levantado e tomado os chapéus, na impositiva disposição de partir. Então,
                    simultaneamente, como por uma destra maquinaria de teatro, o grande reposteiro
                    granate da escada franziu a um lado, deixando ver fora um escudeiro, já aprumado
                    no patamar, iluminando a escada. E no mesmo instante, cosida com a manobra,
                    abria a dona da casa os olhos.</p>
                <p>Seguiu o arrastado cerimonial das despedidas. Adriana e Jorge tinham
                    desaparecido. Afonso Meireles, de pé, fechava os punhos e distendia ao longo do
                    busto os braços, num disfarçado espreguiçar de alívio. E enquanto o Gonzaga, o
                    marquês e o comendador tomavam rumo à porta, acercava-se da D. Mafalda o padre
                    Sebastião, de papel e lápis prontos a anotarem o rol das incumbências para o dia
                    seguinte.</p>
                <p>— Já sabe... — recomendava ela, debruçada sobre a mesa e defendendo com a mão, do
                    ar cortante que vinha da escada, a obesa face, cuja barbela de paquiderme
                    desaparecia no amojo colossal dos seios. — Primeiro tem que ir ver em que altura
                    vai a minha encomenda, ao santeiro da rua augusta. E veja-me em Santa Justa se
                    há lausperene, ou não. Depois, as flanelas para amostra... e por fim compre-me a
                    tintura na mulher do Rossio.</p>
                <p>O comendador, já no patamar, dizia para o marquês, ferindo ainda o mesmo
                    estribilho:</p>
                <p>— Eu cá acho muito bem assim! Se os rendimentos são progressivos, porque o não há
                    de ser o imposto também?</p>
                <p>E ia solicito a tomar o braço do marquês, que, ligeiramente irritado, num tom
                    sacudido:</p>
                <p>— Ah, obrigado, eu enxergo bem...</p>
                <p>— Verá, verá, meu caro marquês! Eu sempre tive grande confiança neste homem...
                    nunca andou em cafés! Este seu novo projeto é um plano a valer, é o que se chama
                    um verdadeiro ato de homem de Estado.</p>
                <p>— De estrada, de estrada... é que você queria dizer!</p>
                <p>E, sorrindo, o besuntão sacudia o cotovelo do interlocutor, e apalpava cauteloso,
                    de perna à frente, a aresta do primeiro degrau da escada.</p>
            </div>
            <div>
                <head>CAPÍTULO IV</head>
                <p>No dia seguinte, — domingo, — logo de manhã, um bulício e animação fora do habito
                    galvanizavam o penitenciário corredor da ilha do Grilo. Não parecia a mesma
                    estercoral catacumba a céu aberto, de ordinário jorrando, nas cinzas albentes da
                    manhã, filamentos de farrapos vivos; marasmada depois num silêncio manante de
                    tristeza, pelo contrário, o que quer que era de leve e estúrdio remoçava a sua
                    lazeirenta escuridão. Corriam no ar delgado e fresco invocações patuscas,
                    galremos crespos de alegria. Das portas entreabertas saía um bafo de podridão
                    que repousa; e fora, cochiladas no degrau da soleira, de avental branco à
                    frente, o nariz e o queixo no regaço, as mulheres alisavam com volúpia o cabelo,
                    passando-lhe o pente desde a raiz da nuca. Algumas, nesta inércia crepuscular
                    dos anestésicos, sonoleavam. Outras catavam-se. Ás janelas dos primeiros andares
                    apontavam, e fariscavam de regalo o céu, vultos barbeados de homens, esticando a
                    camisola, abotoando o colarinho e os punhos sem goma, da camisa lavada. De
                    dentro, um toque instantâneo, de vidros chocando-se nos farnéis, vinha e cortava
                    em límpidas estrilncias o afinar banzeiro das guitarras. E, em solta camaradagem
                    com as galinhas, os garotitos, impacientes, esgaratujavam na terra húmida, sem
                    ouvidos aos ralhos das mães, que colhiam à pressa a roupa suspensa das
                    cordas.</p>
                <p>O dia amanhecera realmente um encanto, de uma pacificação dominical, acariciadora
                    e cantante. Verdadeiro dia de outono, a sua doce e perenal tranquilidade
                    deslaçava beatificamente os músculos, aquecia os corações, clareava em alentos
                    de confiança o espirito. Um poético bucolismo invadia a Natureza. Balsâmicas
                    emanações vinham das árvores, ainda policromadas de frutos, a terra cheirava a
                    fresco, as aves passavam devagar, eram imoveis os penachos de gramíneas secas na
                    beira dos telhados. Não chegava a atingir os outeiros das margens, o seu fraco
                    poder de expansão antes perdido na serenidade diáfana do ar, a ténue brisa que
                    em baixo, como um grande manto riço de prata, frisava as águas do Tejo. E,
                    parcamente filtrada por uma esgarçada trama de nuvens de opala, debruadas de
                    cobre, a luz do sol era repousada e discreta como convêm que seja a vida do
                    homem, passante dos quarenta anos.</p>
                <p>O primeiro a sair de casa em demanda ao campo foi o Manaio, levando à ilharga a
                    mulher e a filha. Ele estreava uma blusa nova, de ganga azul, grandes algibeiras
                    e botões de osso, e do lustro seboso da boina tufavam com arrogância os anéis do
                    seu cabelo grisalho. A mulher, em corpo, toda cachaço e abdómen, levava as mãos
                    tomadas por um pequeno cabaz e uma saca de retalhos de chita, com comida. O
                    rosto de cera da filha, esse quase totalmente desaparecia embiocado num grosso
                    lenço de malha de lã, da mesma deslavada cor do seu esguio nariz gretado; ao
                    passo que também lhe envolvia e empapava as formas sumidas um amplo chale, russo
                    e mortiço como a fria cinza dos seus olhos.</p>
                <p>A rapariga, nos primeiros segundos de transição brusca da voluntaria penumbra, a
                    que em casa se votava, para a franca luz do exterior, teve uma contratilidade
                    hostil por todo o corpo e avançou numa hesitação, com as pálpebras franzidas. Ao
                    que logo, áspero, o Pai:</p>
                <p>— Que é isso?... Abre os olhos, rainha pitosca!</p>
                <p>Ela porém vibrou novamente, como que num arrepio friorento, retraída a expressão
                    num esgar de desgosto, e coseu-se com a mãe, sem responder.</p>
                <p>E o pai outra vez:</p>
                <p>— Torces-me o focinho, minha lesma?... Pois olha, se te não agrada, volta para
                    traz!</p>
                <p>Mas a rezinga não prosseguiu, porque vinham aderindo ao grupo os conhecidos.</p>
                <p>Mal chegavam estes ao extremo da ilha, quando no extremo oposto já assomava
                    também com o seu folgaceiro bando o João dos Unguentos e uma chula sociedade de
                    rascoeiros em férias, espertos matulões e gandaeiras baratas do amor. Entre
                    estas a Bandeirinha. — Pinchavam de tropel à frente os garotos, guerreando,
                    coucinhando ás portas; marchava depois ao centro, no lugar de importância, o
                    João, feliz, dominador, de jaqueta e cinta, dedilhando com arreganho o
                    cavaquinho, rolando ao alto os olhos lascivos, a emaranhada gaforina ao vento.
                    Trazia, inseparável, ao lado a amiga, mais alta do que ele, tomando-lhe com
                    império o braço, grandalhona virago de feições duras e olhos felinos, farta
                    grenha frisada e mantilha, acolchetada sobre esta a capa, muitos anéis cigarro
                    na boca. E fechava o estrídulo rancho a malta de mariolas derrengues o calejados
                    proletários, em promiscua sucia com as marioilas. Tudo isto folgazava e cantava,
                    na mais solta impudência, mas numa como que jubilação à sobreposse, em forçados
                    arrancos de prazer, em epilepsias de salto esfuziando num fundo imanente de
                    tristeza. A sua petulante estropeada ressaltava nos pardieiros encardidos da
                    ilha em ingratas ressonâncias, acordando-lhe os ecos preguiçosos; de banda a
                    banda, grossa gente afluía a incorporar-se; e das janelas debruçavam-se bustos
                    complacentes de velhinas, anediando o dorso aos gatos amesendrados nos
                    parapeitos.</p>
                <p>Foi quando, entre os que no atasqueiro betuminoso da rua paravam, cruzando o
                    palreiro bando, viu a Bandeirinha o desempeno ardente do Ventura; e logo num
                    enternecido alvoroço, afogueada, fez por passar junto dele, acotovelou-o e
                    premiu-lhe o braço, fazendo-lhe praça ao lado, numa incendida mirada suplicante.
                    Ao que o rapaz, num sacudido desdém:</p>
                <p>— Larga!</p>
                <p>E arredou-se. Mas, ao contato daquela criatura de pecado, os lábios mascaram-lhe
                    de instinto, e, sem que ela visse, ficaram-lhe os grandes carbúnculos dos seus
                    olhos seguindo o balanceio das ancas roliças, numa saudade concupiscente.</p>
                <p>Também, ao passarem à porta do Silvério, logo uma das mulheres deste, na
                    sugestiva impulsão do reboliço, saltou zorata à porta, pondo atabalhoadamente a
                    capa. De repente, mirando-se:</p>
                <p>— Está bom... tenho hoje algum presente! Pus a capa do avesso.</p>
                <p>E, rindo muito, corrigia o disparate, enquanto comandava para dentro:</p>
                <p>— Aviem-se!</p>
                <p>Porque a varava familiarmente um dos do rancho com a sua imperiosa visagem de
                    ternura.</p>
                <p>Agora, na volta para a vila Dias, alcançava a gente do João o dianteiro grupo do
                    Manaio. Ia então o farrancho engrossado por uma nova estratificação de
                    pobretanas, pelo surramposo escumalho da oficina e da viela, pela farragem miúda
                    de todo o lixo social. Uns e outros pararam, houve larga cópia de saudações, —
                    alcunhas cruzando-se no ar, pernas gingando, braços ao alto; interrompeu seu
                    brejeiro fandango o João, para apertar as mãos ao Adelino, e ao Lourenço da
                    fábrica das Varandas, que acorreram ao som da estúrdia; e entretanto de todos os
                    lados figuras curiosas vinham e abriam olhos de púcaro para o grupo estabareda,
                    entre eles os filarmónicos molhados à porta da sede do cirio civil, e um rústico
                    de cara meio ensaboada à porta do barbeiro.</p>
                <p>Postos de novo em marcha, atravessaram a linha férrea, desceram a ingreme ladeira
                    ao norte, de tropel, uns pela curva cega do atalho, outros fazendo gemer sob a
                    brocha dos sapatos, para evitarem o lamaçal, o gordo balsamo dos taludes; depois
                    serpearam um instante, num colear desordenado, ao longo do vale de Chelas,
                    flanqueando alvenarias sujas, sumindo-se na desmantelada bisarma do convento,
                    reaparecendo mais além, linearmente, pelo escaqueado recorte dos quintais,
                    hortas, pomares enquadrados em silvedos; e ei-los que finalmente escalam,
                    atacando a direito as terras, a encosta em frente, e estendem agora pelo
                    absconso declive uma esfarrapada e morosa toalha humana, a que fica fazendo
                    rodapé a folhagem amarelenta dos vinhedos. E eles aí lentamente se dispersam, em
                    improvisados bivaques, em soltos grupos de ocasião, buscando velhos abrigos
                    conhecidos; eles aí rolam em tosca peanha as pedras, formam círculo nos socalcos
                    naturais, ou estão de posse dás clareiras onde os marnes aflorando, fazem o piso
                    mais enxuto.</p>
                <p>Por toda a redondeza do sítio, àquela hora, se desenhava este pelintra êxodo
                    domingueiro e ia a mesma tropeada cantante pelos caminhos. De toda a parte
                    ranchadas rompiam de gente mesclada e fruste, devastados arcaboiços, cadavéricas
                    faces em ruina, numa avidez insalubre erguidas a qualquer problemática hipótese
                    de prazer. Iam ao desgarre, ao acaso, nesta alucinada ansia travando o chouto ás
                    carroças, batendo os pardais das moitas, de esfuziada cortando o silêncio
                    tumular das casitas isoladas. Os pequenos fugiam com medo, os cães
                    ladravam-lhes. Era a caça ao gozo, jorrando ás lufadas. Era o legítimo apelo
                    sensual, aflitivo como o trágico aferro de um moribundo à vida, dessas muitas
                    centenas de miseráveis, ali inexoravelmente consumidos, agrilhoadas vítimas em
                    holocausto ao Moloch industrial, amaldiçoada carne alimentando a multidão de
                    fábricas que num resfolgar opressivo e triste estrangulam este arrabalde da
                    cidade. De forma que por volta do meio dia, na extensão de uma boa dezena de
                    quilómetros, do Areeiro por Marvila a Cabo Ruivo, não havia atalho que à
                    epicúria invasão não estremecesse, não havia azinhaga cujos valeirados flancos
                    não sacudisse a mesma embriaguez doentia e famulenta. — Mas, também, como o
                    aguado riso de todos eles tristemente se casava com a atonia crepuscular do céu,
                    com a desbotada sépia dos outeiros, com a mediocridade anémica da paisagem! Se
                    esta não tinha grandeza, também não vibrava aquele do espontâneo alor da
                    juventude. Nem panorâmicas audácias, nem cores garridas. A banal amenidade do
                    cenário ia bem de harmonia com a farrapagem pelintra das figuras. Destas todo o
                    aparato exterior era mesquinho como a sucessão raquítica das colinas. Vestiam de
                    negro os homens, as mulheres de castanho, azul ou roxo. Predominava a cor
                    viscosa do andrajo, a crassa e mole confusão das coisas enxovalhadas. Raro nessa
                    parda sensaboria apontava um lenço claro, uma cinta vermelha, uma calça ou blusa
                    branca. A remendada lastima dos trajes era irmã da noite patibular das suas
                    almas. Assim, apreendidas de longe, em globo formigando nessa tela amplíssima
                    que-era o chavascos livor da terra, as filaças negras dos seus lilipocinos
                    perfis pareciam obra do mesmo génio merencório e rude que dera o tom ao chorar
                    banzo das noras e riscara a carvão os troncos ferrugentos das oliveiras.</p>
                <p>E enquanto, até longe de roda irradiando, esta pitangueira animação se
                    espolinhava nos valados e rebolava pelos outeiros, no ínvio corredor da ilha do
                    Grilo, agora silenciosa e deserta, somente à porta do Silvério se via a mais
                    novita das suas três mulheres, sentada de costas contra a umbreira, as mãos
                    cruzadas à frente das tíbias dobradas em angulo e deitada a face nos joelhos,
                    amalhoada e com o ar sofredor, numa resignação idiota, olhando vagamente o céu
                    elétrico e sombrio...</p>
                <p>Aquela áspera encosta onde fizeram alto, com a sua gente, o João e o Manaio, era
                    a todo o comprimento coroada por um alto muro branco, tendo no topo um
                    caramanchão. As mulheres agora, em desordem semeadas, depunham os cestos e
                    embrulhos, e, atirando para traz com os chales e os lenços, sorviam a pulmão
                    regalado, num cansaço, o ar, passeando longa e amorosamente a vista pela
                    comedida e pacifica vastidão em frente: primeiro, aos seus pés, a esconsa fuga
                    da ladeira; depois, de através, o risonho vale em baixo, esmeraldino, pautado de
                    hortas, e a seguir, indefinidamente, até ao rio, a mesma suave ondulação de
                    discretas gibas numerosas, encapeladas de arvoredo, tons de abundancia a definir
                    os córregos, pelas faldas cintas brancas de macadam; e por fim, desamparado e
                    hirto no espaço barrando sinistro o horizonte, o encastelamento sepulcral do
                    alto de S. João, todo riscado a arestas de mármore e agulhas de cipreste.</p>
                <p>Os homens esses, maquinalmente, punham a recado as mulheres e desandavam fazendo
                    sua querida sarabanda pelas tabernas. De todos eles o mais lesto e contumaz
                    visitador era o Serafim, que, emancipado por momentos da Clara, em passadas de
                    metro corria, num volutuoso fadário, a sabida ronda das chafaricas. E aí, depois
                    de beber com o primeiro proletário que encontrasse, batendo-lhe com intimativa
                    no ombro, insinuava:</p>
                <p>— Alegra-te, homem!</p>
                <p>— Então...</p>
                <p>— Se tu soubesses!</p>
                <p>E vertia-lhes no ouvido coisas que os faziam arregalar numa vingadora esperança
                    os olhos.</p>
                <p>A Bandeirinha, — um arrebite, alta e esperta, na epiderme a tostada marca dos
                    temperamentos excessivos, com uns olhitos de azeviche que falavam ao coração, —
                    tinha à sua parte um interessante auditório feminino. Nada menos que a Joaninha
                    Perdigota, sua inseparável sócia na boémia galante; a Intruja, batida sopeira em
                    disponibilidade, misto repelente e inclassificável da alcaiota e da ladra; a
                    mulher do Manaio com a filha; e a Ana e a Clara, que chegavam agora, — esta
                    muito encalmada, em corpinho de chita, o lenço para traz e uns grandes olhos
                    inquietos; aquela ajeitando com esforço sob o esfiampado xaile cor de cinza o
                    enganido esqueleto da filhita de peito.</p>
                <p>A mulher do Manaio, como mais abonada, passando até por ter muito sofrível pé de
                    meia sacara do cesto um grande guardanapo, mal passado por água, que estendeu
                    sobre o ingrato rastolho do campo, e dispôs-lhe em cima farta ração de pastéis
                    de bacalhau, embrulhados num jornal, e uma perna de carneiro. A filha completou,
                    pegando no saco de chita, de onde tirou pão e maçãs. A Ana trazia peixe espada,
                    a Clara duas garrafas de vinho. A Joaninha e a Intruja, de mãos vazias, miravam
                    numa faminta, numa jubilosa avidez o convidativo estadeio da pitança; e
                    estouvadamente a Bandeirinha semeou, mesmo de pé, pelo guardanapo encardido um
                    punhado de amêndoas torradas, que juntas com o lenço tramposo e verde extraiu da
                    algibeira da saia, muito curta, de casimira cor de vinho.</p>
                <p>Tinham-se as outras sentado em círculo, sobre os calcanhares, como escravas,
                    frescatonas e mansas na meia-tinta melancólica do céu. Porém, mal que se tinha
                    agachado, a filha do Manaio teve por todo o corpo uma nova retração friorenta. E
                    exclamou:</p>
                <p>— Credo! Passou agora a Morte por mira!</p>
                <p>Evidentemente raolestada, levantou-se:</p>
                <p>— Não estou aqui nada bem... Vêm muito ar. Adeus! Adeus!</p>
                <p>Foi e procurou abrigo, a uma dezena de metros, no tépido refolhamento de uma
                    figueira. Sem nada contestar, limitou-se a mãe a segui-la com um olhar
                    comiserativo e triste. E logo a seguir, derivando, incitava as outras a
                    comerem.</p>
                <p>— Que demónio tens tu, mulher? — disse ela para a Bandeirinha,
                    espertalhotonamente, levando um pastel à boca.</p>
                <p>— Sei lá... — murmurou esquiva a rapariga, num saracoteio ladino em torno ao
                    grupo, encolhendo os ombros.</p>
                <p>— Não sejas tola... Homens há muitos!</p>
                <p>— Quero cá saber!</p>
                <p>— Tontinha! Então não queres?... Pensas que eu há bocado que não vi, mesmo de
                    longe?</p>
                <p>— Ora! Passei por ele, mais nada...</p>
                <p>— E os olhos derramados que lhe deitaste?</p>
                <p>— E o atracão que tu lhe deste? — atacou maligna a Intruja.</p>
                <p>— Mentira! — protestou a Bandeirinha com decisão, batendo o pé e as mãos na
                    anca.</p>
                <p>Mas acabou de a desarmar a Perdigota, na mais desavergonhada sublinha suspirando,
                    com os olhos cheios de quebranto:</p>
                <p>— Ai! Filha... se ele é tão bom, sempre que é dado com alma.</p>
                <p>Ao que a Clara e a Intruja muito riram; ao passo que a mulher do Manaio, num
                    grosso gaudio, com o cachaço rubicundo, espalmava forte nas coxas as mãos
                    sapudas; e a Ana, vincando de censura a testa, achegava ao seio murcho com
                    carinho a filha.</p>
                <p>Com um ar superior, a mulher do Manaio sentenciou :</p>
                <p>— E bom, sim... mas não dado a garotos e malandretes, que é no que vocês hoje se
                    perdem... A tudo arreganham a taxa, tudo lhes serve... — Baixaram as três
                    raparigas os olhos, de vergonha. — Por causa desse traste é que a minha Chica
                    emparveceu! Tinham de vocês ver, no meu tempo, que opinião que a gente tínhamos!
                    Ah, bô! — Dobrou de regalo, num grosso estalido, sobre o primeiro copo de vinho,
                    a língua; depois alongou cautelosa o olhar, a certificar-se de que continuava a
                    distância a filha, e, baixando a voz, numa intimativa complacente: —</p>
                <p>Vou-lhes contar... Eu quando fui rapariga também tive o meu namoro...</p>
                <p>— Só um?</p>
                <p>— Dúzias! — disse a Intruja.</p>
                <p>— Perdeu-lhe a conta! — escarnicou, a tirar a desforra, a Bandeirinha.</p>
                <p>— Também não... mas não fui santa, para que hei de eu agora estar a dizer?... Fiz
                    a minha obrigação menos mal: tudo obra de pegar e largar... A bem dizer, em
                    nenhum fazia finca-pé. Mas houve um raio de um gargajola, aprendiz de
                    marceneiro, por quem eu era perdida! Nem vocês fazem ideia, raparigas! Ainda
                    agora me dão tonturas... — A Bandeirinha, estimulada, veio sentar-se-lhe ao
                    lado, e as demais apertaram círculo. — Lindo que ele era! Com o seu bigodito que
                    nem uma estriga, com os seus olhos como a flor do linho... Tão bonito como
                    malandro, o alma do diabo! E que doida que eu andava com este amor! Eu não
                    comia, eu finava-me... O meu gosto era conta-lo ás paredes e ás esquinas...
                    Quando tinha o rapaz à minha beira, era que nem uma rainha... quando ele se ia
                    embora, parece que se me ia a vida!</p>
                <p>— E ele? E ele?...</p>
                <p>— Também bebia vento por mim, não havia dúvida... No que não fazia favor nenhum!
                    Porque eu não era peste, sem desfazer...</p>
                <p>— Bem o mostra...</p>
                <p>— Podia-se-me escrever na cara, — explanou com desvanecimento a matronaça. — A
                    cintura era isto... — Fechava com o polegar o indicador. — O artelho cabia num
                    anel; e cá isto então, — voltava a percutir com eloquente arreganho o quadril e
                    a coxa, — já era a boa obra de torno que vocês veem! Apalpem... vamos!</p>
                <p>— Olha lá...</p>
                <p>No impulsivo calor da narrativa, o enxundioso monstro atacava agora com valentia
                    a perna de carneiro; e dadivosa, para as outras: — Comam! — Depois, ruminando
                    devagar: — vai eu não tinha pai nem mãe... vivia com uns tios meus, numa loja,
                    em Alcântara. Nós, as mulheres, trabalhávamos no Daupiás, meu tio na fábrica
                    Sol. Ás noites, vinha o rapaz para ali assim... e eu derretida! Mas não passava
                    de falácia. Guardavam-me que eu sei lá!</p>
                <p>O rosto miudito e moreno da Bandeirinha estava numa ardente atenção suspenso dos
                    lábios careais da narradora. A Joaninha também, numa avidez patente,
                    adiantara-se, estendida de bruços com os cotovelos finques na terra húmida, a
                    garupa alta, o queixo nas mãos e ao longo da cova dorsal o chambre todo em
                    refegos. A Clara abanava-se com o avental. E, num guloso furor de esfomeada,
                    aproveitava a Intruja a interessada distração das outras para ás mãos ambas
                    atafulhar a boca.</p>
                <p>— Quantas vezes minha tia me disse, — continuou a mulher do Manaio, — quando o
                    marau se ia embora, ao ver-me os olhos gázeos: «Toma tento, rapariga...
                    defende-te! Olha que ele o que quer é calcar sete palmos de trigo contigo, e
                    depois dá-te dois pontapés!»</p>
                <p>— Isso é sabido! — para além do mais, era um perigo; ou ainda tinha o
                    melhor...</p>
                <p>— Pois é... aí está o que nos atrasa, o que nos perde! — rompeu de ímpeto a
                    Bandeirinha saltando em pé, num irreprimível fogo de revolta.</p>
                <p>— O quê!?</p>
                <p>— Que dizes tu?...</p>
                <p>— Já se deixa ver que sim!... Pois de que nos serve a nós estarmos a guardar
                    tanto esse trambolho; senão para afugentar os homens, para nos tolher a nossa
                    liberdade?</p>
                <p>— Ó mulher, tu estás doida!</p>
                <p>— É o contrário...</p>
                <p>— Sempre és muito descarada!</p>
                <p>— Palavra! Que se eu sei que a coisa era daí há mais tempo, logo que deixei os
                    fatos curtos, tinha pedido ao primeiro homem que encontrasse: «Olá! Ó seu coisa,
                    por quem é... desentale-me, livre-me desta sujeição.»</p>
                <p>— É admirada!</p>
                <p>— Acabada seja eu, se o não fazia! — confirmou a toleta, rodando nos calcanhares
                    e avançando com decisão a cabecita.</p>
                <p>— Deus te não dê filhas... — reprimendou Ana docemente.</p>
                <p>— Bem... — reatou, passado o espanto pelo desabusado paradoxo, a pachorrenta
                    criatura, — mas uma vez fomos nós lá de casa ao arraial a Benfica. Lembra-me
                    como se fosse hoje... Resolveu-se aquilo na véspera, já tarde da noite, o rapaz
                    não sabia. E abalámos logo de manhã. Mas o alma do diabo, que era muito andejo,
                    adivinhou a coisa por artes... lá apareceu. Passou o dia de paródia connosco,
                    comemos juntos; e eu não sei o que lia, o que achava nos seus olhos! Depois, à
                    tardinha, não sei bera como aquilo foi... eu fiquei-me para traz, com duas
                    colegas... pára aqui, bebe acolá... Os meus tios desapareceram; e quando mal me
                    precato, íamos três mulheres sós pela estrada, já noite feita, e todo o mundo a
                    contender connosco. Mas logo nos deixavam... Só aquele raio é que não! Ferrou-se
                    como uma carraça ao meu lado, zoina que zoina... veio-me todo o caminho a jogar
                    chicanas. E eu, moita! Mas o calor que aquela rezinga de fogo me fazia!</p>
                <p>— Ai! Não... Pudera! — apoiou, voltando a sentar-se, a Bandeirinha.</p>
                <p>— Depois, na azinhaga da Fonte, as outras duas porcas somem-se nas moitas com os
                    namorados, e o malandro agarra-me, mete a perna, traça-me os braços... quer
                    fazer pouco de mim!</p>
                <p>— Ah!... — fizeram em coro as ouvintes, abrindo muito, num indignado espanto, os
                    olhos.</p>
                <p>— Ah, pai! Aqui é que foram elas... a coragem que eu tive! — prosseguiu com
                    honesto orgulho a narradora, rubescente, o braço no colo em descanso com mais um
                    copo cheio. — O sobressalto, a raiva, o medo multiplicaram-me as forças. Ágora
                    me acobardei eu... tinha Nossa Senhora por mim! Briguei com o tipo, num salto
                    furtei-me, ferrei-lhe os dentes no cachaço... nisto, ele tropeça, cai para a
                    valeta... e eu, pés para que te quero! Estava escuro como um prego, mas eu
                    voava... parece que via uma luz adiante, de mim! Sem descansar trotei por ali
                    fora, atravessei a Luz, Sete Rios, as Laranjeiras, direita ás portas... não
                    parei senão em casa. — Despejou o vinho de um trago, num regalado instante, e
                    depois de uma pausa de importância: — Qual de vocês era capaz?...</p>
                <p>As outras mulheres, num confortado silêncio de alívio, admiravam-na. A Ana
                    chamava com a mão a lida, que no alto da ladeira apontara, junto ao muro,
                    descendo para o grupo.</p>
                <p>— E ainda em cima depois a minha tia, ao contar-lhe: a Bem feito! Não te dizia
                    eu?...</p>
                <p>— E o gajo?... — perguntou com interesse a Intruja.</p>
                <p>— Tomei-lhe uma raiva de morte! Nunca mais lhe falei. Na missa, roguei-lhe uma
                    praga entre a hóstia e o cálix... E praga foi ela, que o desgraçado pegou a
                    aganar, a aganar... veio-lhe uma héctica e morreu... Um ano depois, casava eu
                    com o Manaio. — Nisto, vendo que a filha, com a Ilda pela mão, se aproximava: —
                    Psiu! Não se falia mais no rapaz!</p>
                <p>A Perdigota, porém, ainda de bruços, na sugestiva influência da conversa, não se
                    pode ter que não epilogasse:</p>
                <p>— Isto os homens são uns tiranos, o que querem é ver uma pessoa bem em baixo. Por
                    isso bem faço eu, que não me sujeito a nenhum! Tó rola... Tenho tempo... Por
                    ora, estou como a outra: estende-te, perna! Lá virá quem te governa.</p>
                <p>E, num pitoresco gesto emancipador, erguia a percutir a nádega o calcanhar,
                    mostrando a tíbia nua.</p>
                <p>— E o caso é que te dás bem com o sistema, — disse a mulher do Manaio, mirando-a
                    com agrado. — Andavas aí que parecias vomitada dos cães...</p>
                <p>— Fazia lástima... — disse a Clara.</p>
                <p>— Mas agora não... estás limpa!</p>
                <p>— Meu proveito!</p>
                <p>— Que demónio tinhas tu?...</p>
                <p>Chegava a Idazita, a correr, e colava-se ao pescoço da mãe, que perguntou:</p>
                <p>— Então o pai?...</p>
                <p>— Ficou lá em cima, no Puncaré... Mandou-me embora.</p>
                <p>E a Intruja, inquirindo também a Perdigota, malignamente :</p>
                <p>— Diz que eram moléstias...</p>
                <p>— Isso são aldrabices da Balhona!</p>
                <p>— Sempre se sai com cada uma! — ajudava, de reforço à amiga, a Bandeirinha.</p>
                <p>— E o caso é que ganhei má fama!</p>
                <p>— É uma invejosa!</p>
                <p>— Mas não! Era sangue mau que eu tinha... para mo puxar fora, minha mãe pôs-me
                    sobre o vazio do estomago, três dias a fio, um frango, frito vivo em cera
                    virgem...</p>
                <p>— Fizeste isso!?... — exclamou a Intruja, piscando para a Clara um olho
                    incrédulo.</p>
                <p>— É verdade! E depois aberto ao meio... Que revolução me fez!</p>
                <p>E por uma reminiscência irritante sacudida, a rapariga ergueu-se, vindo tomar com
                    carinho o braço a Chica. A mãe dizia-lhe:</p>
                <p>— Anda comer.</p>
                <p>— Não me apetece nada...</p>
                <p>— Sempre estás uma perua choca!</p>
                <p>— Se vossemecê me deixasse!</p>
                <p>Acocorou-se à margem do grupo, de sobrecenho. E implicativa a mãe:</p>
                <p>— Anda, minha focinhuda!</p>
                <p>— Deixe-a lá... — aconselhou a Ana com doçura ; e passava uma posta de peixe à
                    lida: — Toma.</p>
                <p>— Dá-lhe antes carne, — ofereceu a do Manaio.</p>
                <p>— Nada, que é mau costume.</p>
                <p>— Fica aí comer! — disse com desgosto a outra.</p>
                <p>— Eu falo franco... — interveio a Clara. — Até que quisesse trazer mais que o
                    vinho, não podia! Vejam vocês: não chego a receber nove-tostões de féria. Agora
                    tirem-lhe pro padeiro, tenda, botica... fora o que o meu Serafim me carda...</p>
                <p>— Coitada!</p>
                <p>— E eu então, com isto! — desculpava-se também a Ana, passando com amor a mão
                    esburgada pelos anéis de oiro do cabelo de lida, e achegando a outra filhita
                    contra o regaço.</p>
                <p>Mordida de tédio por este sudário de tristezas, desandara a Bandeirinha, indo
                    sentar-se junto da Chica com interesse. Foi quando, numa adorável sinceridade, a
                    Perdigota:</p>
                <p>— Pois eu cá também não estou com imposturas... por cada saca que vocês abriam,
                    entrava em mim uma alma nova! Tinha uma fome de pedras. Estava desde ontem à
                    tarde com uma xícara de café!</p>
                <p>— Fosses lá por casa, mulher! — disse a do Manaio, compadecida.</p>
                <p>E a Joaninha, agradecendo, num sorriso:</p>
                <p>— Ó tia Clara, arranje-me lugar nos teares, lá no Almargem.</p>
                <p>— Tu sujeitavas-te lá!</p>
                <p>Mas já a Joana desandava também para onde a amiga, que com meiga solicitude
                    interpelava a Chica sobre a sua depressiva irritabilidade, a sua melancolia
                    irredutível.</p>
                <p>E a pobre neurasténica, escanzelado produto de sucessivas estratificações da
                    miséria, com os olhos cismadores boiando no vago, ia pausadamente arrastando
                    :</p>
                <p>— Então, que querem vocês?... A minha vida é de noite... Em me aparecendo a luz
                    do sol, é isto! — Levava com desgosto as mãos aos olhos. — Põe-se-me em toda a
                    cabeça um peso, que parece de chumbo... vejo tudo numa confusão, não tenho
                    forças para nada! — Caíam-lhe numa pesada hipostenia os braços e franziam-se-lhe
                    dolorosamente as capelas dos olhos, agora sem defesa. — Por minha vontade estava
                    sempre a dormir... É quando eu vivo... E então, como não posso, como não me
                    deixam, ando ás vezes todo o dia a chorar ou a rir, sem saber de quê?.</p>
                <p>E, dizendo, encolhia os ombros numa inconsciência, e insinuando o indicador
                    direito entre o lenço s o cabelo, coçava atrás da orelha com delícia.</p>
                <p>— Porque não comes, para criar forças? — gritou-lhe a Joaninha.</p>
                <p>— Comer?... tudo me sabe mal!</p>
                <p>— És tola!</p>
                <p>— O que eu tenho sempre é sede...</p>
                <p>— Só se queres vinho.</p>
                <p>— Tomara eu que me deixassem lá estar sempre metida no meu canto! Escusava de
                    ninguém ma ver e eu de ver ninguém... Escusavam de me querer mal, de ninguém me
                    ter inveja.</p>
                <p>— Quem é que te quer mal, mulher?...</p>
                <p>— Ó filha, todos! — acudiu com rancorosa vivacidade a rapariga, em cujos olhos de
                    cinza um relâmpago passou de obsessiva desconfiança. E vendo que a mãe cabeceava
                    ao peso da digestão, num ripanço pantagruélico: — A começar lá poios de casa...
                    Contrariam-me, espezinham-me em tudo! Ainda hoje... em vez de me trazerem para
                    aqui, porque me não deixaram eles ir antes para a igreja?... Gosto tanto do
                    cheiro do incenso!</p>
                <p>— E eu! — disse a Bandeirinha com volúpia.</p>
                <p>— Esta manhã acordei aos vómitos... E então o coração aos pulos... sempre a suar!
                    — Premiu num gesto brusco a região lombar direita, ranilhando num esgar de
                    angústia a face emaciada. — Cá está esta maldita dor nas costas! Quando me não
                    vêm também aos queixos... — Pela deslocação do movimento, uma tossi-ta seca e
                    breve a sacudiu. E no mesmo instante a derrancada criatura: — Estou este pastel
                    que vocês veem... Bem posso tirar passaporte pro outro mundo! — E um frio
                    desânimo lhe molhava a anémica frouxidão das pálpebras.</p>
                <p>A Bandeirinha e a Joana trocaram um olhar do enfado. A Chica ia dizendo:</p>
                <p>— Pois então vocês cuidam que eu de noite que durmo? Isso sim!... Estou para ali
                    assim, sossegada, a malucar, a pensar... Sonho acordada. É o meu tempo melhor! A
                    horas tantas, meus pais largam a roncar e deixam-me à vontade viver com quem eu
                    quero. Oh que ricas horas que eu passo então! Que de gente me aparece ali
                    assim... como se me alegra e paramenta aquela casa! Ás vezes, lá tenho minhas
                    passagens mais aflitas... mas, de ordinário, puxo da cabeça e vai aparece-me
                    tudo quanto me dá gosto, tudo quanto melhor eu quero... Grandes travessas de
                    arroz doce, o Santo António das Comendadeiras... e por fim, — aqui fez pausa, e
                    depois, com o olhar inflamado e um perturbado acento na expressão, — por fim lá
                    vêm também o Ventura... levanto-me, agarro-o, toda eu sou lume... embrulho-me,
                    gozo com ele, como se fosse a valer!</p>
                <p>Na concomitante hipercinesia desta ardente evocação, o dessorado corpito da Chica
                    tremeu num mórbido alvoroço, os seus destemperados nervos acordaram. E já de
                    novo a pobre hipnopatia levava doridamente a mão ao lado; e a curtas
                    intermitências da tosse:</p>
                <p>— Maldita dor! Um dia acabo com a vida!</p>
                <p>O seu dolorido queixume, sem um eco simpático, arrastou-se amargamente, numa
                    arrepiada ressonância, pelo espaço, como se fora, num lugar paresiado e ermo,
                    simplesmente o reflexo da tristeza apática do céu... Porque a este tempo a mãe,
                    amparada a um cómodo recosto de pedras, desatara a ressonar, definitivamente
                    adormecida; fazendo-lhe epicúria parelha a Intruja, a todo o comprimento na
                    terra estendida, de braços abertos, esbagachado o ventre para o ar. Fora a Clara
                    em cata do marido; as duas tunantes tinham abalado para junto do grupo mais
                    próximo; ao passo que a Ana, com a lida adormecida nos joelhos, morosamente
                    embalava a filhita de peito, que chorando agitava no ar as manitas roxas:</p>
                <p>— Coitada da minha menina, que nasceu para passar fominha!</p>
                <p>E sobre estas suas palavras de magoada resignação um cansado silêncio caiu, a
                    espaços avivada apenas pelo tilintar das malhas, em cima, num jogo de
                    chinquilho.</p>
                <p>Era isto na horta do Puncaré quintalejo banal debruado de caniçados com o seu
                    toldo, gotejando topázios, de parreiras; por baixo um tosco enfileiramento de
                    velhas ripas, cheias de canjirões girando; e tendo à frente, arrimada ao muro
                    branco, a indispensável baiuca, com mais mesas, e entre estas e a renque das
                    pipas o traço gorduroso do balcão.</p>
                <p>Lá estava abancado, junto da porta, o Serafim, patibularmente verde, puxando as
                    farripas com a mão à frente e persuasivo movendo os grossos lábios, na sua
                    libertária catequese a dois homens largos de ombros, de pele taninosa e mãos de
                    pedra. Acolitavam-no o Esticado e o Zanaga, com a pupila vinolenta e o gesto
                    vingador, polarizados no mesmo evangelizador empenho.</p>
                <p>— Se vocês ouvissem, rapazes! Este agora, sim, que é homem decidido! — insinuante
                    conclamava o Serafim, com instantâneos fogachos na apagada lassidão dos olhos. —
                    E tem boas escoras lá fora!</p>
                <p>— Vocês <seg rend="italic">handem-o</seg> ouvir! — corroborava o Zanaga, cujo
                    desmarcado estrabismo lhe permitia ao mesmo tempo aquecer a alma dos dois
                    recém-chegados na imperativa divergência dos seus olhos.</p>
                <p>— Este sabe o que quer!</p>
                <p>— Queira a gente arriscar-se, que virámos esta caranguejola toda de pernas para o
                    ar!</p>
                <p>Não viu ele o frio protesto do Puncaré, que incrédulo sorria, lá do balcão.</p>
                <p>— Eu cá um dos primeiros a quem mo atiro, é a esse miserável ao serviço de quem
                    nós andámos agora... — prometeu, de mandibula cerrada, um dos dois broncos
                    iniciados, ameaçadoramente erguendo a manápula enorme.</p>
                <p>— Quem é ele? — perguntou o Esticado.</p>
                <p>— Um malandro, um estupor podre de rico...</p>
                <p>— Só amigas tem seis! — exclamou o outro comensal, crispando numa odienta
                    turbação os olhos.</p>
                <p>Ao que jocosamente, enquanto servia aguardente a um freguês, o taberneiro:</p>
                <p>— Que diabo tem isso? Não acho demais... Diz que a cada homem é dado sete
                    mulheres e meia...</p>
                <p>— O quê!?... Isso é lá para eles... que cá a um pobre, nem meia, se calhar!</p>
                <p>— Vamos, vamos... — disse, com envaidecido mistério, o dono da locanda.</p>
                <p>— Onde é a tua ucharia, ó Puncaré?... perguntou-lhe em ar de censura o Serafim. E
                    vendo que ele, fazendo o troco ao da aguardente, se limitava a sorrir de manha:
                    — Ora mete-te com a tua vida!</p>
                <p>— Pois esse malandro, — volveu o pedreiro, — é dos tais que não pensam senão em
                    explorar a pobreza! Sem precisão... Diretor não sei de quantos bancos bons
                    contos de réis a juros, léguas e léguas de terras em Africa...</p>
                <p>— Não o mandar a gente para lá!</p>
                <p>— Em suma, dinheiro por toda a parte! Pois para os que estão abaixo dele é mesmo
                    um cão! Não quer gastar, só quer receber...</p>
                <p>— Então... diz que é para levar as massas ali pro alto de S. João, — chalaceou o
                    Zanaga.</p>
                <p>— Já para isso lá mandou fazer uma burra no carneiro! — o lascarinho do
                    bodegueiro apoiou, voltando a meter-se na conversa.</p>
                <p>E todos riram.</p>
                <p>— Acabámos-lhe agora um grande prédio na Avenida... — disse, passada a galhofa,
                    um dos pedreiros.</p>
                <p>— Pois só o que aquele malandro forrou, em descontos e multas, lá da sua alta
                    recreação, palavra! Fazia a independência de qualquer de nós.</p>
                <p>— Oh, se fazia!</p>
                <p>— Mas também a gente vinguemo-nos, arre! Ontem, depois de tudo pronto, ao descer
                    do telhado,, fui-me ao zinco dos canos com a tesoura, zás! Que zás... — Refazia
                    o gesto, num regalo. — Retalhei-o todo!</p>
                <p>— E eu?... — secundou o outro. — Uns poucos de algirozes lá ficaram partidos!</p>
                <p>— E furei-lhe o encanamento do gaz com um prego! — disse o outro.</p>
                <p>— Anda-me! — aclamava o Serafim, esfregando-as mãos e acesos num mégalofobo
                    espasmo os olhos.</p>
                <p>E em torno destes justiceiros sociais pela ruina, nova gente afluíra, premia-se
                    um círculo deliciado, por sobre cuja demolidora febre desenhava o ratado
                    cachimbo do Zanaga cabalísticas ameaças.</p>
                <p>— Aquilo agora, em chovendo, é obra... — inquiria odiento o Serafim, com as
                    pelhancas da face assopradas num prazer maligno.</p>
                <p>— Está claro! — aclarava um dos pedreiros, radiante, coçando a guedelha. — A água
                    repassa as argamassas frescas, tudo aquilo amolece... Não tem remédio senão
                    gastar mais dinheiro... manda-nos logo chamar.</p>
                <p>— É bem feito, ladrões! — exclamou de repente o Esticado com o seu bigode
                    arrogante erguido, certo no aplauso aquiescente dos outros. — Pois então vocês
                    não veem como eles andem sempre com o olho em cima de nós?... Se compramos uma
                    corrente, um fato novo, uma bugiaria qualquer, logo isso lhes serve para nos
                    abaixarem o salario!</p>
                <p>— Também é certo...</p>
                <p>— Corja!</p>
                <p>E com um tonitruante murro sobre à mesa selou a libertária apostrofe, terrincando
                    os dentes.</p>
                <p>Á porta do quintal surdiu um busto grandalhão de homem refeito, em camisa, calvo
                    e matacões grisalhos, malha na mão:</p>
                <p>— Ó Esticado! Anda... a nossa partida é agora.</p>
                <p>Como o caixoteiro não desse mostras de ter ouvido, insistiu, mais alto:</p>
                <p>— Ó minha lesma! Não ouves?</p>
                <p>Sem maior atenção, o Esticado apenas teve um depressivo encolher de ombros. E
                    então, desapontado rodando, o pretenso parceiro:</p>
                <p>— Sensaborões!</p>
                <p>Logo as atenções do rancho, um momento desviadas, voltaram a fixar-se na figura
                    desaprumada do Serafim, que com as jugulares congestionadas e cosidos numa visga
                    ameaça os olhos, continuou:</p>
                <p>— Nada, estamos fartos de ser bestas de carga! O mundo é para todos! O nosso S.
                    Martinho vai agora chegar.</p>
                <p>— Ah, isso vai! É já para a semana... — observou, chocarreiro o Queimadela.</p>
                <p>— Não digo isso, estúpido! — repontou irado o tanoeiro, — mas quero dizer a
                    reivindicação, a posse, o gozo dos nossos direitos naturais... Nem mais
                    impostos, nem mais governos, nem mais sujeição nenhuma! — Aqui arpoava com a mão
                    o braço de um dos pedreiros, e com gulosa intimativa: — Cada um governa-se,
                    pronto! Pois então?... Aquilo a que deitar a unha, é seu!</p>
                <p>— Quem me dera já!</p>
                <p>— Oh, que rica vida!</p>
                <p>— Então?... É o mais natural, o mais próprio da nossa condição.</p>
                <p>— Para que somos nós homens?... — concluía o Zanaga.</p>
                <p>E, preso na convulsiva ginástica dos lábios, garatujava macabras interrogações no
                    ar o seu cachimbo fumegante.</p>
                <p>— Quer então dizer que, se eu roubar, se arrombar, por exemplo, as gavetas ao
                    merceeiro da avenida ali em baixo, — disse de chacota o Queimadela, — ninguém me
                    toma contas... não deixo de ser homem honrado?</p>
                <p>— Já se deixa ver que não!</p>
                <p>— Não me fazem crime por isso?</p>
                <p>— Não, homem! É de justiça que passe para os outros, para os que precisam, o que
                    ele tem a mais... Fizeste a coisa mais natural.</p>
                <p>— O meu rico amor! Que me dizes?... — exclamou num grotesco espalhado o
                    Queimadela, posto de salto ao pé do tanoeiro: — Se não fosses Serafim, digo-te
                    que eras um anjo!</p>
                <p>E afagava e beijava, em contrafeitos momos de jogral, o tanoeiro, perante a
                    estimulada avidez dos circunstantes.</p>
                <p>Sério, o Serafim defendia-se.</p>
                <p>— És doido! — Depois, voltando à sua ideia: — Ainda ontem o disse o nosso
                    homem... E provou-o e justificou-o muito bem! Ah, tinham de vocês ouvi-lo!</p>
                <p>E com o apoio do meneio pendular da nobre cabeça do Esticado, continuou
                    atropeladamente reeditando, num destrambelhado rosário de sabatina mal ingerida,
                    muitas das alucinadas apóstrofes, das paradoxais verdades, das audácias
                    candentes que na memorável noite anterior o verbo impulsivo e quente de mestre
                    Mateus lhe colara a branco na cérebro.</p>
                <p>Mas um pequeno contratempo veio cortar-lhe a hiperémica torrente da eloquência.
                    Num dos mais inflamados ratos do seu propagandista furor, quando este automático
                    Demóstenes saloio reforçava a sua argumentação com uma nova tarraçada de vinho
                    surge-lhe de improviso à porta a Clara, censurando:</p>
                <p>— Ó Serafim!...</p>
                <p>Colhido de surpresa pela intempestiva aparição, o tanoeiro, com o olhar branco e
                    imobilizado no ar o braço, enlivideceu. Mas num instante, adivinhando o sentir
                    dos que o rodeavam e cobrando animo:</p>
                <p>— Roda!</p>
                <p>De sua banda a mulher não se intimidou, e cravando nele os olhos imperativos:</p>
                <p>— Anda daí, Serafim!</p>
                <p>— Ora livra-te dela... — alguém do grupo murmurou.</p>
                <p>Vexado e confuso, o Serafim teve uns segundos de vergonhoso enleio; mas por fim,
                    dominando-se, repetiu :</p>
                <p>— Rode lá para onde estava! Já lhe disse... — Acobardada por ver tanto homem, não
                    teve a Clara remédio senão obedecer. E ele então, radiante do esforço, aprumando
                    de importância o descadeirado tronco e assentando com império o copo na mesa: —
                    Então, hein?...</p>
                <p>Mal tinha porém tempo de reatar conversa, e já o Esticado, indicando-lhe a mesma
                    porta por onde a Clara saíra, o acotovelava:</p>
                <p>— E agora este?...</p>
                <p>Era o bojo enorme do Silvério, que tomava de lés a lés a entrada, fazendo sombra.
                    Mal o viu, o Serafim:</p>
                <p>— Safa! Que azar... Já aqui não estou bem!</p>
                <p>E ergueu-se num ímpeto de contrariedade, esmigalhando nos dedos o cigarro.</p>
                <p>Entretanto o Silvério avançara de pausa, e com a mais afável melúria:</p>
                <p>— Boa tarde, rapazes! — Vendo porém o silêncio de hostilidade que a sua presença
                    determinara, e que, tomados do exemplo do Serafim, todos à uma &amp;e
                    levantavam, numa queixosa estranheza arrastou:</p>
                <p>— Então?...</p>
                <p>Mas, impaciente, o Serafim retrucou logo:</p>
                <p>— Adeus, amigo! — E desprezivelmente, dando-lhe costas: — Gireza!</p>
                <p>Dito o quê, saiu, levando espontaneamente na cauda arrebanhados os mais
                    companheiros; enquanto o Esticado ia pagar ao balcão, e na desconfiada dilatação
                    do espanto mais se exagerava a extravagante paropsia do Zanaga.</p>
                <p>O Silvério, impercetivelmente pálido, manteve-se superior à demonstração, e foi
                    moroso e tranquilo sentar-se a um canto, pedindo genebra, enquanto encolhia num
                    cínico desdém os ombros.</p>
                <p>Cá fora, mal tendo torneia do quintalejo, o Serafim parou à espera do Esticado
                    com os punhos ainda maquinalmente cerrados na sua instintiva osga ao gordo
                    malandrim. Deu então de acaso com os olhos num amoroso grupo, ali um pouco à
                    parte, cosido na sombra de uma oliveira; o qual o fez, assim que o amigo chegou,
                    puxar-lhe com intimativa a jaqueta:</p>
                <p>— Olha, olha, olha...</p>
                <p>— O que é?...</p>
                <p>— Tu não te querias acreditar! — E, apontando, tinha nos olhos um consolado rir
                    sarcasticamente.</p>
                <p>Era com efeito uma das mulheres do Silvério que ali assim de rebuço derriçava com
                    um gargajola de carapuça e cinta, — por certo o mesmo cuja saborida aparição lhe
                    fizera aquela manhã, no atabalhoado ímpeto do prazer, pôr a capa do avesso...
                    Ele, matreiro, imóvel e fito como um podengo de fila à sua presa, insinuava-lhe
                    doces coisas sensuais, que a fresca mocetona apreendia, numa repassada volúpia
                    de todo o seu ser, vicioso e insatisfeito, com a expressão dengue, encolhida a
                    atitude, as mãos correndo nervosas a fímbria do avental, e os olhos baixos
                    distraidamente seguindo a impressão circular da ponta do seu pé calcando a
                    terra.</p>
                <p>Animalmente arrepanhados os malares num <seg rend="italic">rictos</seg> de
                    sátiro, o birbante aventurou:</p>
                <p>— Então, meu amor! Secas-me a alma... Quando há de ser o nosso casamento?</p>
                <p>— Tem muita pressa? — objetou ela, sorrindo com malicia.</p>
                <p>— Naturalmente...</p>
                <p>— Espere o meu quarto de hora...</p>
                <p>— E quando virá ele?...</p>
                <p>— Não sei!</p>
                <p>— Isto é para ralar um homem!</p>
                <p>— Então! Eu também esperei que a minha mãe me parisse... Espere, se quiser!</p>
                <p>E desta vez a rapariga, num arrebite sensual, ergueu o rosto em togo ao namorado,
                    varando-o com um olhar meigo e impudente, que para breve lhe garantia a
                    satisfação do seu desejo…</p>
                <p>Vendo porém que eram observados, derivaram sonsamente a continuar o seu idílio
                    para detrás do caramanchão.</p>
                <p>Indignado, surpreso, não se fartava o Esticado de os olhar:</p>
                <p>— Mas que cabra esta! Parece impossível! Com três filhos... Quem havia de
                    dizer?...</p>
                <p>— Ora! — redarguiu o Serafim. — A mim nunca ela me enganou! — Então não se via
                    logo? — Isto, mulher que olha de lado... já se sabe... é com a vaca
                    assistida.</p>
                <p>Ia andando sempre, sem desfitar os dois; e esfregando as mãos num maligno
                    júbilo:</p>
                <p>— O que eu não sei é como outro ainda cabe pelas portas!</p>
                <p>Passavam agora pela frente do caramanchão; e um momento pararam, atraídos pela
                    reboante animação e a grossa estúrdia que extravasando marulhava no recinto. —
                    Cá fora, pitorescamente ladeando o gradeamento verde, vestido de madressilva,
                    apinhoavam-se híbridos grupos de curiosos, — tristes mulheritas ávidas de
                    emoções, derreados frascários ruminando maus instintos, cascalheiras rondas de
                    crianças, — miserável rodilha humana indefinidamente rolando em cacho pelo
                    anfiteatro da vertente, apagada mancha ruça escalonada na baça lividez da terra,
                    sob a frialdade hostil do céu impassível. Dentro formigava um amontoamento
                    folião, havia condensada uma patusca alegria bravejando para o exterior, no meio
                    da qual, numa discreta penumbra de santuário, adorado e cingido como um
                    semideus, faceiramente destacava, — entronado num mocho de verga, à ilharga a
                    vigilância esfíngica da amasia, — o vulto abrejeirado e casquilho do João dos
                    Unguentos. Miravam-no numa respeitosa emulação os homens, acotovelavam-no
                    familiarmente as raparigas. E o envaidecido farmacopola, rolando sensualmente os
                    olhos, absoluto senhor da situação, da pequena estância embalava em sentidos
                    acordes os ecos preguiçosos.</p>
                <p>Quando os dois pararam em frente, chegava-lhe a amiga um copito de licor aos
                    lábios lambisqueiros; e o marmanjão, depois de beber, tendo enrolado a língua
                    num estalido regalado, voltou a arranhar com amorosa fúria o bandolim,
                    cantando:</p>
                <lg>
                    <l>Os teus olhos, Mariquinhas,</l>
                    <l>Quando se fitam nos meus,</l>
                    <l>Dizem coisas, fazem coisas...</l>
                    <l>Ai, Jesus, valha-me Deus!</l>
                    <l>Ai! Ai!</l>
                    <l>Ai, que dor!</l>
                </lg>
                <p>Aqui todo o mulherio atacou em coro, acabando com ele:</p>
                <lg>
                    <l>Eu não sei quem possa estar</l>
                    <l>Ausente do seu amor!</l>
                </lg>
                <p>Enquanto, dominadora e feliz, atirando ao ar grossas fumaças, à função presidia a
                    virago ao lado; e a mesma beatífica pasmaceira desfranzia em roda os lábios aos
                    circunstantes.</p>
                <p>— Vê lá tu se este se rala! — disse para o companheiro filosoficamente o
                    Serafim.</p>
                <p>E, orientados a nova taberna, os dois foram andando.</p>
                <p>Ficava-lhes gemendo sempre nas costas, progressivamente atenuado, do bandolim do
                    João aquele peganhar lascivo... Os mais acompanhavam em coro, passiva e
                    arrastadamente, por vezes num monótono desfiar de ladainha, dir-se-ia como que
                    por obrigação. Eram sem brio os compassos, eram as vozes sem frescura. Uma toada
                    banal de alcouce, rasteira e dissolvente. Tinham os rapazes improvisado à frente
                    do caramanchão uma toirada. Pelo declive absconso da ladeira farandolavam
                    docemente pequenas rondas de mulheres, dançando. Os homens, animalmente
                    acocorados, tinham pregadas atitudes de brutos, ou olhavam alvarmente o céu. E
                    uma grande pacificação, uma volutuosa inércia sobrenadando... a folhagem imóvel,
                    a luz peneirada, o ar sereno. — Largo e absorvente panorama, que com um pouco
                    mais de luz avivando as arestas das coisas, e o antigo vigor plástico restituído
                    ás figuras, seria a viva reprodução de uma dessas soberbas telas pagãs que
                    imortalizaram o pincel clássico de Siemiradzki ou de, Kaulbach.</p>
                <p>Num momento em que a banzeira canção parou, acercou-se do João com respeito uma
                    mulher morena e redonda, com olheiras:</p>
                <p>— Ó Sr. Joãozinho, desculpe... mas o meu homem está muito mal!</p>
                <p>— Vocês conversam tanto... — sublinhou do lado a amasia, numa amorável
                    censura.</p>
                <p>E a mulherzinha a suspirar:</p>
                <p>— Isso sim! Foi tempo...</p>
                <p>— Dá-lhe um caldinho de agriões todas as noites, já te disse... — receitou o
                    saloio esculápio; acrescentando de malicia: — E deixa-o dormir...</p>
                <p>Depois, entre o rir escarninho dos circunstantes:</p>
                <p>— E de manhã duas colheres de toucinho, com ovos, canela e assucar, tudo batido e
                    feito ao lume. Ou então, cose uns marmelos, parte-os em fatias e dá-lhos com
                    assucar.</p>
                <p>Ruborizada, a mulher acuou, agradecendo; ao tempo que um velhinho trôpego e
                    sincero, — de olhos mortais, o agudo crânio em osso, e na face chupada a branca
                    barba grossa e prismática com arestas de gelo, — demandava com humildade os
                    grupos, de um para outro passando, trémulo e curvo, como quem esmola, de
                    carapuça na mão.</p>
                <p>— Preciso muito, rapazes... pela minha boa sorte! — lamuriava ele na sua voz
                    tarda e côncava. — Cinco netinhos em casa, ainda sem poderem ganhar... a mãe
                    deles numa cama, perdida... a minha Joaquina a mesma coisa! Todos os dias enche
                    bacias de sangue... eu, o estafermo que veem. E o meu pobre filho, que era quem
                    valia a tudo, quem a todos nos amparava... então, por amor de Deus!... esse
                    partiu a perna, lá está no hospital... e nós sem uma migalha de pão! — Por fim,
                    gemia dolorosamente, com a voz molhada: — Ai, livre-os Deus Nosso Senhor!</p>
                <p>Os homens abatiam os ombros de dó, as mulheres desviavam a vista, apiedadas; mas
                    nem por isso aquele suplicativo pregão surtia o efeito desejado, porque o pobre
                    ia a um, ia a outro, e cada um de disfarce lhe voltava costas, num retraimento
                    desconfiado, sem que uma só mão caridosa lhe acudisse à precisão.</p>
                <p>Foi quando o João dos Unguentos, chamando com ar de importância o velho:</p>
                <p>— Homem, deixa lá ver a mão...</p>
                <p>O triste velhinho, tremulando, estendeu timidamente, pesada e enorme a dançar no
                    extremo do braço esquelético, a sua escoriada mão de proletário, retalhada
                    profusamente, em todas as direções cavada de sulcos profundos, surramposa e dura
                    pela sobreposição de setenta anos seguidos de trabalho, imundície e de miséria.
                    O João examinou-a, investigou-lhe as linhas com carinho; e por fim,
                    compenetradamente, franzindo numa compassiva expressão o rosto:</p>
                <p>— Diabo! Tens a vida atrapalhada...</p>
                <p>E logo, metendo mão ao colete, verteu-lhe na carapuça quanto cobre trazia. O que
                    foi sugestivo sinal para que também toda a assistência pressurosamente
                    socorresse com o seu óbolo o homenzinho, a quem agora, com o saco verde cheio, a
                    comoção quase fazia ajoelhar.</p>
                <p>Rompia a este tempo em assobiada troça a garotada contra uma criatura fantástica
                    e repelente, que no campo em frente passava, toda em farrapos pendentes, cortado
                    rente o cabelo, o rosto embiocado, os olhos no chão. — De estatura menos que
                    meã, alcachinada e torpe, baloiçava à frente o tronco em perros movimentos de
                    autómato, atirando ao acaso as pernas, desarticulando em bruscos sacões o
                    arcaboiço descarnado. Era toda ela um frangalho. Parecia a atormentada criação
                    de algum pesadelo demolidor de Gavarni. Não seria fácil marcar-lhe a idade;
                    assim como, a não ser pelo traje, seria impossível definir-lhe o sexo.
                    Pavorosamente repugnante, não haveria meio de destrinçar naquele esquálido
                    andrajo ambulante o que era pessoa do que era coisa. A mesma viscosidade
                    uniforme de cor, a mesma repulsiva e sórdida promiscuidade confundia atanada
                    asperidão da epiderme com a imunda rodilha que era o lenço, com o retalho de
                    manta que lhe servia de chale, com a sarapilheira farpada que lhe formava a
                    saia. A sua macabra e exótica figura pendia vorazmente para o solo, prolongada
                    conicamente, do vértice microcefálico da cabeça ás negras e fundas ranhuras do
                    artelho descomunal. Ela ia andando e esquadrinhando com avara sofreguidão a
                    terra, indiferente a tudo o mais, a alma toda nos olhos, num sinistro
                    alheamento; escolhendo de preferência a sua industriosa freima os sítios onde
                    houvera merendas, cujos restos a megera se abaixava a apanhar avidamente.</p>
                <p>A Bandeirinha, quando a viu, deu-lhe vontade de lançar. As criancitas fugiam
                    diante dela, choramingando — que era a cuca, — e indo esconder de susto o rosto
                    no colo das mães. Os cães ladravam-lhe. Mas ela continuava sempre a sua
                    colheita, serena, imperturbavelmente. Evitava arisca os grupos, os lábios
                    monologavam blasfémias surdas, e no extremo de uma das suas enormes palmoiras
                    acabavam de desfazer-se uns miserandos restos de chinelo. Não a largavam os
                    rapazes, que ela sacudia em gestos de símio, dizendo obscenidades. E assim foi
                    esmadrigada seguindo a latrinária aparição, cata aqui, fisga acolá... disputando
                    aos animais e escondendo no regaço côdeas de pão, espinhas, ossos, cascas de
                    fruta e pontas de cigarro.</p>
                <p>Mas já do lado oposto do campo um bando d&amp; cigarreiras rompera a gritar
                    estouvadamente:</p>
                <p>— A Toira! Olha a Toira! Viva a Toira!</p>
                <p>Assim falavam de uma galharda e turbulenta rapariga, que açodada e vibrante
                    apontara, vinda do fundo do vale, trazendo na cola um farisqueiro rancho de
                    galãs.</p>
                <p>— Agora Toira — objetou com o seu pique de inveja a Perdigota. — Vocês deviam-lhe
                    chamar mas era a choca.</p>
                <p>E apontava como argumento vivo a matilha dos pretendentes.</p>
                <p>Mas a rapariga tinha em dois atrevidos saltos atingido o grupo das amigas, que a
                    aclamavam num entusiasmo folião, batendo palmas, colhidas todas na simpática
                    esfera de influência desta grande figura rosada e insinuante.</p>
                <p>— Donde vens tu, minha doida?... — perguntava-lhe uma afetuosamente.</p>
                <p>— Então agora... já são aos pares? — maliciosa outra inquiria, olhando de viés os
                    rafeiros.</p>
                <p>— Pois olha que continuam a fazer cruzes na boca! — protestou logo a Toira
                    despachadamente, na sua acariciadora voz de predestinada.</p>
                <p>— O quê!?...</p>
                <p>— Já te disse!</p>
                <p>— Ainda que assim seja, da fama já tu te não livras. — insinuou uma outra,
                    sardenta, mordendo os beiços.</p>
                <p>— E a mim bem se me dá! — fez num desprezível dar de ombros a estabanada.</p>
                <p>— Com que então, honradinha?... isto! Honradinha?... — não se pode ter que não
                    comentasse, cascalhando de moía, a Perdigota. — Sempre a gente ouve coisas!</p>
                <p>A Toira afiançou, muito afogueada, espalmando a mão com ímpeto sobre o amplo
                    amojo dos seios:</p>
                <p>— Até ao ponto de hoje ainda desavergonhado nenhum se pode gabar...</p>
                <p>— Então nem o Ventura? — interpelou com os olhos em brasa a Bandeirinha.</p>
                <p>— Não! Não! E não!</p>
                <p>E batia o pé com decisão, arregalando os olhos.</p>
                <p>A indignação da pretensa donzela chamou a atenção do alveitar, que, passando à
                    amasia o bandolim, chamou:</p>
                <p>— Anda cá, rapariga!</p>
                <p>A Toira obedeceu num pronto; enquanto estimulada a multidão corria a rodeia-la, e
                    o João acrescentava misteriosamente, a ganhar auditório:</p>
                <p>— Também sempre quero ver...</p>
                <p>Depois, passeando de importância em torno a vista:</p>
                <p>— Quem tem aí uma linha, uma guita, que me empreste?</p>
                <p>Adiantou-se, erguido ao alto por entre aquele mar de cabeças, um dessangrado
                    bracito oferecendo um carretel de algodão branco, que o João tomou, passado de
                    mão em mão, agradecendo:</p>
                <p>— Bem, vamos a isto... — volveu ele com entono de charlatão, desenrolando a linha
                    vagarosamente, de braços erguidos. Depois partiu dela uma porção; restituiu o
                    carrinho à dona, agradecendo outra vez; e novamente para a Toira:</p>
                <p>— Ora bem... Chega-te cá...</p>
                <p>Corando, a rapariga aproximou-se, cheia de respeito. Fez-se logo de roda um
                    grande silêncio. Apertaram círculo as mulheres; e enquanto os homens, numa
                    afetada indiferença, esboçavam sorrisos incrédulos, por sobre os seus ombros
                    avidamente avançavam pequeninas cabeças supersticiosas.</p>
                <p>O João comandou:</p>
                <p>— Abre a boca! Aperta...</p>
                <p>Fez-lhe entalar as duas pontas da linha entre os dentes, que a Toira mostrou
                    muito brancos e iguais, brilhantes e húmidos como nácar.</p>
                <p>O que foi causa a que, de inveja, a Bandeirinha exclamasse:</p>
                <p>— Olha que linda mobília de sala de entrada ela tem!</p>
                <p>— Mas logo as demais, numa impaciência, lhe impuseram silêncio.</p>
                <p>O João, muito sério, passara os dois ramos da linha por sob o queixo da
                    observada, e aí, cruzando-os, ergueu-os depois, a fechar circulo, até à raiz do
                    nariz, onde os equilibrou com dificuldade. E quando obteve, em sucessivas
                    tentativas, exata esta medida:</p>
                <p>— Agora larga!</p>
                <p>A Toira soltou a linha; e o João passou-lha em volta do pescoço, que ela não
                    chegou para abarcar. Ele então, perentoriamente, sentenciou com ares de Salomão,
                    batendo-lhe protetor no ombro:</p>
                <p>— Disseste a verdade, rapariga! Tomaram elas! Deixa-as falar...</p>
                <p>E guapa e rutilante, no meio do estrondoso aplauso de umas, da desapontada
                    confusão das outras, a Toira sumiu-se, desatou novamente a correr.</p>
                <p>Entretanto o Serafim, o Esticado e o Zanaga prosseguiam na sua digressão
                    doutrinal pelas tabernas. Seguia-os a Clara a distancia, inseparavelmente.
                    Começava a tarde a descair, vislumbrando numa escassa luz de crepúsculo o
                    movimento crescente de figuras masculinas que aquele catequista furor
                    impulsionava. Vaga e difusa como um ar de sonho, envolta no cocegante véu do
                    mistério, a notícia do conciliábulo noturno anterior alastrara e correra,
                    fazendo que a multidão procurasse com ardente avidez colher o verbo inspirador
                    também dos raros iniciados. Assim, a cada passo, em todas as direções apontavam
                    e seguiam, cávios e oblíquos como conspiradores, grupos minazes de matulões
                    perscrutando suspeitosamente o Espaço. Ao cruzarem uns pelos outros,
                    acotovelavam-se, faziam-se interrogações, e havia de banda a banda inflamadas
                    interjeições, vertidas em segredo nos ouvidos. Assim como o dia avançava, na
                    mesma proporção em que aquele rubro boato emancipador crescia, também
                    processionalmente ia engrossando a corrente na direção da última locanda onde
                    perorasse o Serafim. Aí em torno dele, as sucessivas camadas de pobretanas
                    afluíam, seguindo todos depois na mesma obsessiva embriaguez para a estação mais
                    próxima. Porque todos queriam ouvir informes, colher impressões reflexas desse
                    ainda desconhecido e já lendário Messias da véspera... todos queriam alistar-se
                    adeptos do homem temerário e singular que lhes vinha dizer coisas novas, como
                    eles nunca tinham ouvido!</p>
                <p>Depois, progressivamente, à medida como as sombras da noite, afogando primeiro em
                    luto o vale, iam morosas trepando pelas colinas, os mesmos grupos erráticos
                    voltavam a definir-se, mas agora em sentido oposto, numa refrataria pausa, já
                    descendo, ladeados das mulheres e os filhos, com uma torva repugnância voltando
                    a acolher-se à negra escravidão das suas tocas. Vinha de longe, docemente
                    atenuada na distância, a gemebunda toada dos harmóniuns dos padeiros. Picavam-se
                    ao acaso de lumes as colinas distantes da cidade, pontilhava-se o céu das
                    primeiras estrelas. E esses derreados bandos de bastardos da sorte iam descendo,
                    vagarosos e mudos na sua eterna humilhação, como vergados à fatalidade de um
                    jugo invisível. No em tanto, a sugestiva estenia propagandista do Serafim
                    sacudira-os em intermitências bruscas de furor; e nos olhos vingadores
                    brilhavam-lhes logo extintos, instantâneos fogachos de revolta.</p>
                <p>Quando a meia encosta passava, na frente do caramanchão, já deserto, o Zanaga
                    aprumou-se com decisão, impondo alto aos que iam com ele; e estendendo na noite,
                    a todo o comprimento do braço, à brasa do cachimbo, a apontar em baixo a Fabrica
                    de pólvora sem fumo, onde saltavam também as primeiras luzes:</p>
                <p>— Rapazes! Ali está uma das primeiras casas onde a gente temos que entrar...</p>
                <p>Noite feita, marchava agora pela estrada, amparado apenas da Clara, o Serafim,
                    titubeante e arrastado, trocando as pernas, tão totalmente enfrascado em vinho,
                    como por completo falido de baboseiras. A cada momento parava, renitente,
                    gesticulando à toa, com a cabeça pesada, as mãos inertes, preso nesta amaurótica
                    irresolução dos bêbados; e não raro implicava então com a companheira:</p>
                <p>— Deixa-me, mulher... Mal hajas, que não serves senão para comer!</p>
                <p>— Ah, eu não ganho também?...</p>
                <p>— Ganhar o quê?... Vocês são mas é umas carraças, que sugam em todo sentido um
                    homem! Vai-te daqui!</p>
                <p>E deu-lhe com as costas da mão uma violenta bofetada.</p>
                <p>A mulher recalcitrou com um murro entre as espaduas do beberrão, a quem
                    facilmente desequilibrou, atirando-o a terra. Ele porém ainda teve tempo, ao
                    resvalar, para deitar-lhe as mãos a um braço; do sorte que ambos caíram e uns
                    momentos rolaram pelo chão, lutando. Por fim ela desenvencilhou-se, ajudou-o
                    caridosamente a erguer-se, apanhou o chale, compôs o lenço; e tomando de novo o
                    braço ao malandrim, lá foi penosamente amparando, ladeira abaixo, aquela misera
                    carcaça devastada pelo álcool e pela fome.</p>
                <p>Mais abaixo, ao fundo do vale, dispunham-se â passar a linha, quando à
                    queima-roupa lhes voou pela frente um tramway, reboante de alaridos,
                    estrupidante de alegria. Verdadeiro tramway de domingo, ia repleto; rugia dentro
                    alacremente a estúrdia de uma filarmónica; das portinholas extravasavam cachos
                    de cabeças turbulentas. A ferrolhada, o ruido, a corda esfusiante daqueles
                    pequeninos retângulos de fogo vergastando a retina tria e inerte do Serafim,
                    tornaram a exaspera-lo. Num cambeteio impotente, estonteado, parou, de punhos
                    cerrados para o comboio, fechando os olhos.</p>
                <p>— Vês tu como todos esses malandros vão de paródia?... Só eu aqui a atura-la a
                    você!</p>
                <p>E com rancorosa birra aplicou nova sova à mulher, que numa passiva resignação
                    agora, muda e submissa, sem reagir, ia sempre andando com ele.</p>
                <p>Assim nesta interminável rezinga, nesta bruta expansão animal ora em pé, aos
                    rebolões, ora de rastos, entre gestos de carinho e pragas de arrelia, foram os
                    dois palmilhando caminho, até que, tarde da noite, entraram em casa; quando já
                    no compartimento ao lado, na sua enxerga arrumada sobre o vão da escada, havia
                    muito que o Esticado resfolgava a sono alto, e ao lado dele a pobre da Ana,
                    estiraçada e imóvel, com a filhita implacavelmente sugando-a, o aflitivo pescoço
                    erguido e esticados em ânsias de dispneia os lábios, abria numa insónia de
                    extenuamento os grandes olhos febris na escuridão.</p>
            </div>
            <div>
                <head>CAPÍTULO V</head>
                <p>Neste mesmo domingo o Mateus tomara, logo de manhã, lugar num carro da Lusitana,
                    ao largo do Assucar, e viera apeirar-se no Terreiro do Paço. Tendo seguido
                    depois ao longo de toda a rua do Oiro, de passeios desertos e lojas entaipadas
                    como túmulos, costeou pelo lado oriental o Rossio e entrou na Avenida. Ia
                    alheado e pensativo, por completo cego e indiferente à mesclada onda de
                    grotescos que cruzavam com ele, — famílias graves recolhendo da missa de S.
                    Domingos, burguesas aparatosas que iam ouvir a banda da municipal. Um nimbo de
                    iluminada fé o encaminhava. A mesma nobre e querençosa altivez lhe firmava com
                    arrogância os passos, lhe clareava o rosto num sorriso perenal de esperança.</p>
                <p>Subiu a travessa da Glória e tomou logo, à direita, pela rua do mesmo nome, quase
                    ao termo da qual enfiou rápido por um pátio de velho prédio, bafiento e imundo,
                    com um sapateiro patibular ao lado. Atacou ligeiro a escura escada, muito sua
                    familiar, parando só junto da cancela que na volta do terceiro para o último
                    andar a interrompia. Aí bateu; alguém puxou de cima a corda da aldraba; ele
                    subiu mais dois pequenos lanços; e estava agora numa pequenina sala de teto
                    esmadrigado e paredes encardidas, com uma sacada abrindo para quintais. —
                    Ressaltava bem pelintra a feição de desnuda república académica, providente
                    refúgio aberto a boémios sem rumo e estudantes sem dinheiro. Completa ausência
                    de ordem, de asseio, de conforto. O soalho, gosmento e negro, era
                    inverosimilmente ortografado de grandes cabeças de pregos, altas e luzentes, e
                    mosqueado por bastos eczemas de escarros, alternando com efidroses nojentas de
                    nódoas; entre as tabuas ressequidas do teto rasgavam-se fendas amostrando
                    trechos lineares do céu; e as paredes, os móveis, os alizares, as portas tinham
                    uma cor pegajosa e triste, esta monótona cor inclassificável denotando a pátina
                    ignóbil de longos anos acumulados de miséria, imundície e desmazelo. No que toca
                    a mobília, apenas um canapé com uma tabua atravessada, desfavorável hipótese
                    suprindo a total ausência da palhinha, um velho baú de coiro, e encostada à
                    parede, ao lado da sacada, uma tosca mesa de pinho, de pranchas empenadas, tendo
                    em cima um esbeiçado vaso de barro, servindo de peanha a um candeeiro de
                    folha.</p>
                <p>— Vivam, rapazes! — saudou familiarmente o Mateus, entrando.</p>
                <p>— Olá, seu Mateus! — disse distraído, erguendo a cabeça de cima do livro que
                    tinha sobre os joelhos, um rapazote esgrouvinhado e ruivacento, de luneta, que
                    estava acocorado num dos extremos do canapé.</p>
                <p>— Que diabo estás tu a ler?</p>
                <p>— O Duchartre... É um sensaborão! Não me dá nada do que eu quero.</p>
                <p>— Continuas então a ter grandes ideias?</p>
                <p>— Imaginas lá!</p>
                <p>— Á custa dos outros?...</p>
                <p>— Ah, filho! Não... — repeliu com persuasiva intimativa o interpelado,
                    erguendo-se, na pedantesca ameaça de alguma didática massada iminente.</p>
                <p>Mas sem lhe dar maior atenção e adiantando-se trocista à janela, para um
                    galhofeiro e airoso militar, loiro, de calças de lista encarnada e jaquetão de
                    cheviote, que acenava com a mão para em frente, exclamava agora o Mateus:</p>
                <p>— E este então a namorar?...</p>
                <p>— Pudera! Vale mais namorar na realidade, que esquentar o cérebro com alucinações
                    de hipotéticas revoltas... — contestou com sobranceria o aspirante, sem se
                    voltar.</p>
                <p>O Mateus adiantou-se mais, piscando o olho para o escanzelado míope, que avançara
                    também, encostando-se à mesa, e retorquiu para o outro:</p>
                <p>— Sim... com a diferença de que essa tua baboseira é tão ridícula, quanto a
                    prossecução do meu ideal pode ser útil!</p>
                <p>— Útil a quem e a quê?... — disse o militar. — Com a gente que frequentas?...
                    Neste país?...</p>
                <p>— Ó Valentim...</p>
                <p>— Com apóstolos do teu jaez! Não é verdade, Baleizão?</p>
                <p>No regalado desfrute deste prenúncio de rezinga, o censor imberbe do Duchartre
                    atirara com o livro, e juntava de interesse as mãos, com um pique de calor no
                    rosto macilento.</p>
                <p>O Mateus disse com achincalhante piedade ao militar:</p>
                <p>— Bem se vê que estás ajuramentado...</p>
                <p>— Não tem nada pro caso!</p>
                <p>— Ou tu não vestisses a libré de El-rei Nosso Senhor!</p>
                <p>Desprevenidamente colhido pela afronta, o Valentim voltou-se de ímpeto, muito
                    pálido, ameaçando :</p>
                <p>— Vê como falas...</p>
                <p>Sem se intimidar, o Mateus fitava firme o contendor, com o seu inflexível olhar
                    sarcástico. Mas o Baleizão apressou-se a intervir:</p>
                <p>— Não faças caso, rapaz... — aconselhou ele, muito suasivo, afagando as espaduas
                    do Valentim com doçura. — Aquilo foi força de expressão... — E como a faces de
                    nenhum dos adversários desenublasse: — Que diabo! Não vês que estava a
                    brincar?</p>
                <p>— Bem sei... — murmurou, um pouco aplacado, o militar. — Mas é que há coisas com
                    que se não brinca! Tu compreendes... — E depois de uma pausa, voltando a encarar
                    o Mateus, agora já, ao seu pesar, com um leve sorrisinho amorável. — O que tu
                    precisavas...</p>
                <p>O Mateus, de prometo serenado também, castigava comicamente o peito:</p>
                <p>— Poenitet!</p>
                <p>— Uns asnos afinal! é o que vocês são... — disse o garboso aspirante, de novo
                    voltado à janela, com as costas para os dois e o olhar meigamente despedido
                    longe. — Não sabem senão estragar a vida. Avassalados por esta corrosiva
                    obsessão da ciência, desaproveitam o que aquela tem de bom, de belo... nascidos
                    por condição num oásis e teimam estupidamente em se mirrar no deserto!</p>
                <p>— Sempre assim foi... Assim é preciso. — para que tanto pensar, seus tansos?...
                    Sentir, sentir primeiro... É o coração que alimenta o cérebro: cuidemos primeiro
                    dele, amando... O mundo é um coração, — já lá disse o filósofo.</p>
                <p>E num extenuante júbilo interior rompeu a recitar, inflamado, alegre, de mãos nos
                    quadris e um galhardo sapatear sobre a soleira de pedra da sacada:</p>
                <lg>
                    <l>A vida é o dia de hoje,</l>
                    <l>A vida é ai que mal soa...</l>
                </lg>
                <p>— Bom! Bom! Bom! — fez, rindo, o Mateus. — Estás cada vez mais incorrigivelmente
                    lírico.</p>
                <p>— Para não dizer: mais deploravelmente lamecha... — no mesmo tom emendou o
                    Baleizão; e em voz baixa para o Mateus, de braço estendido janela fora: — Olha,
                    olha...</p>
                <p>No encardido terreiro de um pequeno quintal, em frente, vedado por alta grade de
                    madeira, podrida caindo a trechos, deslocava-se em desencabrestadas correrias,
                    pinchando, uivando, um exótico vulto de microcéfalo, rapaz dos seus vinte anos,
                    desaprumado e grotesco, estiolada a face, a pequenina cabeça piramidal, e
                    miseramente marcado todo o arcaboiço dos atróficos estigmas de um degenerado.
                    Cabriolava à toa, num espinoteio infantil, nama atabalhoada fúria,
                    respondendo-lhe os ecos familiares. Isto ao tempo em que das traseiras do
                    prédio, por uma limosa escada de madeira, esfarpada, pingando escorrências
                    verdes, ao mesmo quintal descia uma encantadora figurita de mulher, apenas
                    núbil, em cabelo, saia escura, casaco claro cintado, derivando fácil pelos
                    quadris impercetíveis, no rosto uma destas epidermes que dão claridade,
                    avançando com melindre o sapatito branco. Caía-lhe o sedoso cabelo castanho,
                    palhetado de oiro, ao longo do sulco dorsal numa trança opulenta, frisada na
                    ponta e cingida por um grande laço negro. Baixava virginalmente as pálpebras,
                    trazia nas mãos um livro aberto. Desceu docemente e veio com saboroso vagar
                    roçando o seu fino perfil por junto à grade; trocando então furtivas miradas de
                    ternura com o Valentim, a quem a arrebatadora aparição imobilizara, galvanizado
                    e feliz, numa atitude de extática adoração, inflexos gravemente os cílios, as
                    ardentes narinas rufiando, e numa instintiva ansia apreensora ao peitoril da
                    varanda as mãos cingidas.</p>
                <p>Prometia esta empolgadora atração eternizar-se, quando ao deliciado enleio o
                    arrancou súbito um tamborinado e bárbaro ruido, que o fez estremecer... Fora um
                    desalmado padeiro que, no saguão ao lado, chamava poios pombos, agitando com
                    força no extremo do braço uma quarta cheia de milho. Era o sabido sinal. Ao
                    impulso daquele convidativo sacolejar, desparzia-se uma chuva de contas de oiro,
                    os loiros grãos saltavam, redopiavam, erguiam-se em repuxo, caíam; e de toda a
                    parte em roda, — das claraboias, beirais, chaminés, das árvores, dos telhados, —
                    crescia um sussurro quente, rompiam e fechavam-se macias revoadas, um trémulo
                    bater de azas vinha e abatia-se palpitante sobre a fulva toalha de bagos
                    dançando.</p>
                <p>O Mateus e o Baleizão, também chocados do incidente, riam entretanto de troça
                    perante o irritado confrangimento do Valentim. Muito mais porque agora, no
                    quintal em frente, o patetinha, solicitado pelo ruido, viera colar à grade a
                    face inexpressiva, com os olhos brancos pregados no militar gaguejava numa
                    insistência idiota:</p>
                <p>— Senhor, senhor... oh, senhor! Os dias agora são mais pequenos.</p>
                <p>Mas no mesmo instante o Mateus tomava por uma pequena porta que fazia angulo com
                    a janela, o com afetuosa familiaridade inquiria para dentro:</p>
                <p>— O Gomes como está?</p>
                <p>— Adeus, meu safado! — respondeu-lhe dali, voltando-se, de toalha nas mãos e com
                    o busto nu à frente, um pequeno homem grisalho, de calças de linho cru, que
                    acabara de regaladamente chapinhar numa bacia com água, banhando o seu belo
                    torso de bronze, musculoso e refeito.</p>
                <p>— Sempre ralaço você... — disse-lhe o Mateus. — A lavar-se a estas horas!</p>
                <p>— Para o que tenho que fazer... — arrastou epicureamente o Gomes, enquanto
                    passava com volúpia a toalha pela epiderme fumegante.</p>
                <p>Ele tinha acabado de enxugar o rosto, de carvoadas feições de índio, enérgico e
                    subtil. Pelo acobreado amojo do tórax, nos bíceps grossos e redondos, nas fartas
                    regueifas de bistre da cintura, a água tremulava, apontava em pérolas, escorria
                    em facetadas camarinhas miniaturando as coisas. Era grata de ver a tónica
                    frescura daquele solido arcaboiço, rociado e forte. Parecia prospera garantia de
                    saúde o tom cálido da sua tinta, a firme opulência do seu modelado; mas já o
                    cabelo, a barba eram grisalhos, e em volta da íris uma aréola de nevoa, um
                    círculo senil precoce, acusavam a acelerada ruina interior de uma existência
                    minada de provações, incerteza e de fome. Com afetuosa simpatia, o Mateus
                    mirava-o em silêncio. E ele, esfregando os braços:</p>
                <p>— Meu rico, não tenho ambições parvas.</p>
                <p>— Um modo cómodo esse de iludir a falta de coragem, de decisão.</p>
                <p>— <seg rend="italic">Deus nobis hcec otia fecit</seg>...</p>
                <p>— Nós aqui estudamos, curamos de coisas sérias! — interveio, entrando também no
                    quarto, o Baleizão.</p>
                <p>E o Mateus para os dois, exasperado:</p>
                <p>— Pois é! Por os homens de inteligência serena todos hoje uns indolentões como
                    vocês, é que nada se faz, que a sociedade não avança um passo!</p>
                <p>— E os decididos como tu o que é que fazem?</p>
                <p>— Ora essa! Então tu não sabes? Ainda o queres mais claro?...</p>
                <p>— Algum assassinato estúpido, algum atentado brutal...</p>
                <p>— Que intimida sem melhorar, que destrói sem nada criar de novo...</p>
                <p>— Lutamos, arriscamo-nos, damos tudo para os tornar felizes, a vocês e aos
                    mais!</p>
                <p>— O quê? Felizes?... Ah! Ah! Deixa-me rir... — disse o Gomes, de achincalho. —
                    Ninguém trava o Desuno. Se a humanidade tivesse que esperar, para ver melhorada
                    a sua condição, pela vossa ingénua terapêutica, estávamos aviados!</p>
                <p>E, tendo vestido a camisa, o manso fatalista alisava agora com uns restos de
                    velho pente o cabelo, em frente a um pequeno espelho pendurado na parede.</p>
                <p>— Não dês corda a estes tipos, homem! — veio bradar então, muito exaltado, para o
                    Mateus, um epilado homem verde que surdira da alcova ao fundo, rebarbativo e
                    magro, de olhos chamejantes, rala a barba e o bigode na face glabra e iracunda.
                    Tinha um chapéu mole muito enterrado na cabeça, descaindo à nuca, um xaile-manta
                    pelos ombros, e esfregava nas mãos, grumosas de sabão, um trapo branco.</p>
                <p>— Adeus, Azinhal! — saudou o Mateus.</p>
                <p>— Destes maricas não fazes nada, desengana-te! — disse o recém-vindo. — Têm
                    capilé nas veias. Acomodatícios, manhosos, nada há que os aqueça... nem as
                    vergastadas insolentes com que a todo o momento lhes sarjam as faces e algemam o
                    livre arbítrio esses despóticos mandões da terra. São mais refratários ao brio
                    do que a argila ao fogo. Verdadeiras almas de batráquios, envergonham a
                    incorrigível sinceridade, a pureza contumaz de crenças dos velhos como eu!</p>
                <p>— Bom, aí vêm agora o outro maduro buzinar-nos os ouvidos e azedar-nos o almoço!
                    — observou cético o Gomes, enquanto cofiava diante do espelho a barba
                    messiânica.</p>
                <p>Mas o Azinhal ripostou, de olhos sinistramente revoltos, com envenenada
                    fúria:</p>
                <p>— Pois não é isto?... Não anda aí todo o mundo a queixar-se? Pois vocês não
                    sofrem, não padecemos, não protestamos todos contra este flagício causticante,
                    enorme das iniquidades sociais?</p>
                <p>— Muito bem! Muito bem! — apoiou regalado o Mateus; enquanto o Baleizão dava
                    desdenhoso aos ombros e não largava o índio de sorrir.</p>
                <p>— Pois não estão aí assim cada dia a ressaltar, bem reais, bem fumegantes, deste
                    cadoz de ignomínias que é a sociedade humana, motivos que farte para absolver a
                    redentora invenção de Orsini, para divinizar o ferro providencial de
                    Ravailac?</p>
                <p>— Ó Azinhal... Felizmente o governo civil é longe.</p>
                <p>— Bem, não temos remédio senão entoar em coro o <seg rend="italic">Ça
                    ira</seg>... — disse em tom escarniqueiro o Gomes, que abotoara o colete,
                    encostando depois, de braços cruzados, os rins contra e peitoril da janela, na
                    complacente disposição de ouvir.</p>
                <p>Mas implacavelmente o Azinhal, na sua libertaria raiva continuava sempre:</p>
                <p>— Vocês veem... enquanto medra para aí tanto malandro com fortuna, enquanto as
                    luxuosas equipagens dos sicofantas sem consciência, dos proxenetas sem vergonha
                    impudicamente nos afrontam na Avenida, eu que sou sincero, eu que sou honesto,
                    se quero aparecer na Escola com os colarinhos limpos, é isto… — estendia à
                    frente a pequena tira de linho nas mãos molhadas, — tenho que os lavar!</p>
                <p>E vingadoramente, perante o incrustável rir dos companheiros, estregava na concha
                    dos dedos nodosos o amarfanhado retalho branco, irisado de espuma.</p>
                <p>— Pois eu cá também, meus caros, — observou, apontando com o mavórcio buço à
                    porta do quarto, o Valentim, — eu se quero andar na rua de modo a não dar nas
                    vistas, tenho que usar luvas... na cama.</p>
                <p>— O quê!? O que é que ele diz?...</p>
                <p>— Tu na cama dás bailes?</p>
                <p>— Palavra de honra! — insistiu, corando ligeiramente, o militar. — Até faz
                    vergonha dize-lo... mas é que ali naquela minha pocilga as pulgas são tantas,
                    que para eu poder ir receber o <seg rend="italic">pret</seg> com as mãos limpas
                    e sem levar o pescoço indecentemente picado de chupões roxos, já lhes disse...
                    tenho todo o cuidadinho, à noite, quando me deito, em cingir um lenço bem
                    apertado ao pescoço e calçar luvas de cinco botões! E assim durmo... e agora no
                    inverno até dá muito a conta!</p>
                <p>Todos riram, menos o Mateus, que, muito inflamado:</p>
                <p>— Porque não te revoltas então? Porque não fazes coro connosco?</p>
                <p>— Não fazemos nada! Não vale a pena, — murmurou o militar.</p>
                <p>E resignado, desenvolto sapateando, voltou para a sacada.</p>
                <p>— Que gentinha estai — exclamou, gázeo de raiva, o Azinhal. — Ah, mas também,
                    deixa! Que no grande dia, quando essa suprema aurora, que a. A minha província,
                    que já vos deu o alor do Desconhecido, vos há de também acender... quando a hora
                    solene da desforra soar, eu serei o primeiro a aponta-los a vocês à irrisão, ao
                    desprezo público!</p>
                <p>— Não, não, menino! Isso não... — de troça o Baleizão acudiu. — Dá-me ao menos um
                    lugar de contínuo.</p>
                <p>— Ou varredor de ruas, vê lá... — acrescentou o Gomes.</p>
                <p>Não se podendo agora ter que não risse, voltou para a sua atrabiliária alcova o
                    Azinhal, torcendo a preceito o colarinho, que estendeu depois num barbante posto
                    em bambinela a um canto, a enxugar. E para o Mateus, que entrara atrás dele:</p>
                <p>— Tens aí correspondência, jornais...</p>
                <p>— Já venho, — disse o Mateus.</p>
                <p>E atravessou a todo o comprimento a mesma alcova, e assim penetrou num outro
                    quarto em esconso, ainda mais interior.</p>
                <p>Tinha o mais fantástico e extravagante aspeto. — Ali o teto, lezardento e
                    rasteiro, com as cancerosas traves a nu, por um lado resvalava em forte declive
                    a entestar com o sobrado, atapulhado o angulo de junção por enormes sarcomas de
                    lixo; e do lado oposto apoiava num salitroso desvão de parede, rasgada por uma
                    esguia fresta, quase linear, e tendo ao fundo encostado um raso enxergão sobre
                    uma esteira. Depois, ao centro da exígua quadra, e do soalho ao teto
                    complicadamente erguida, havia uma inextricável carpinteria, uma como que subtil
                    missanga mecânica, estranha e inverosímil, composta de toda a sorte de feitios,
                    linhas, espessuras, cores, tecida ao infinito de roldanas, alavancas, chumaços,
                    cremalheiras, puas, fuzis, minúsculas anastomoses, ranhuras, carreteis, fios de
                    seda... geringonça ideal a poder de tenuidade e capricho, de transcendentes
                    combinações dinâmicas, eriçada de arestas como um monstro, como um abismo
                    valeirada de mistérios, simultaneamente relógio e carrilhão, cavername de prédio
                    e pré-histórico esqueleto, emaranhada fantasia japonista e esotérica evocação de
                    pesadelo. Nos flancos palpitavam-lhe escamosos brilhos de metais, a parcimónia
                    de luz do recinto dava uma fantasmática amplidão a toda a carapaça,
                    multiplicava-lhe vagamente as formas. E tudo aquilo ao tempo se movia,
                    tranquila, silenciosamente, numa solidariedade impecável, numa harmonia
                    perfeita... as serrilhas engrenavam morosas, os dentes ajustavam leves,
                    despegavam fáceis, passavam maciezas lúbricas, osculavam-se volutuosamente as
                    curvas... e toda aquela estonteante profusão de melindrosas peças manobravam de
                    manso e à socancra, num automatismo inteligente, sob a proteção discreta da
                    penumbra, como os órgãos vivos de alguma submarina aparição, como se de
                    indústria tocadas fossem por espertas mãos invisíveis; enquanto junto à bisarmal
                    construção um homem esguio e pequenino, cingido estreito com ela, a vida toda
                    nos olhos, seguia numa absorção total de todo o seu ser o movimento, empoleirado
                    sobre uma escada portátil, abertos os dedos como tentáculos nos braços longos,
                    apreensivo e grave, meditando.</p>
                <p>— Olha o meu antigo quarto como está! — exclamou o Mateus, numa comoção de
                    espanto.</p>
                <p>E de cima da escada, voltando-se, o engenhoca:</p>
                <p>— Ah, ó Mateus! és tu?...</p>
                <p>— Adeus, Anacoreta!</p>
                <p>— Tenho o problema quase resolvido, sabes?... — disse com iluminada fé o ignorado
                    Pigmalião, poisando no alto do seu cavalete-escada o longo estilete de aço que
                    empunhava, e logo descendo.</p>
                <p>O Mateus sorria incrédulo.</p>
                <p>— Palavra! Agora é que é certo, — disse o Anacoreta, avançando. E como abanasse a
                    cabeça o Mateus em ar de dúvida. — Homem! Porque diabo é que não há de ser
                    assim? Porque motivo a solução a esse arreliador problema do movimento contínuo
                    se não há de alcançar um dia?</p>
                <p>— Deixa-te de malucar em absurdos, emprega melhor o teu tempo. Isso é
                    impossível!</p>
                <p>— Não é tal! — exclamou, progressivamente enardecido, o engenhoso visionário. —
                    Pois que razão há para que esta assombrosa invenção que é a mecânica, a qual
                    teve o condão transcendente, o sumo poder sintético, único na ciência, de numa
                    simples formula integrar toda a doutrina que lhe é própria, de resumir em três
                    breves as leis gerais de todo o movimento cósmico, porque não há de ela também
                    agora, caminhando um pouco finais, subtilizar-se até ao ponto de substituir
                    parcialmente a Natureza?</p>
                <p>Silencioso, o Mateus cravava impassivelmente no interlocutor os mansos olhos
                    penetrantes, e o algodoado buço erguia-se-lhe num liso ar de piedade. Mas
                    renitente o outro:</p>
                <p>— A dificuldade, o segredo da coisa não consiste senão em anular por completo o
                    efeito dos momentos de inércia. É a questão do Emc², sabes?... É mais um
                    corolário a derivar do teorema de Alembert. Feito isto, tudo o mais, gravidade,
                    reações latentes, variações térmicas, gasto molecular, o atrito do ambiente, não
                    faz mal, anula-se, vence-se… não vale nada! Tudo isso se disciplina, conjuga e
                    invariavelmente submete a um movimento uniforme, por uma adequada série de altas
                    combinações dinâmicas... Olha! — E transportadamente, com a longa face inflamada
                    e o pequenino busto reteso de formidando orgulho, apontava a bisarma piramidal,
                    alucinada parturição do seu engenho. — Vês como esse maravilhoso organismo se
                    regula, escorrega e manobra já por si, limpa e serenamente, como se tivesse
                    também nervos, músculos, sangue, alma... como dotado de vida própria?... — Agora
                    num indominável júbilo, rompendo de salto a espalmar com decidida convicção a
                    concha da mão sobre o ombro contumazmente incrédulo do Mateus: — Ah, meu rico! O
                    ponto está em conseguir acumular no mínimo da massa o máximo da energia
                    potencial. Reduz-se um a zero se se eleva o outro ao infinito: isto é infalível!
                    E eis o que eu estou no trilho de definitivamente conseguir, de triunfalmente
                    apregoar ao mundo!... Vê tu que resultadão, que espanto, que fama, que
                    glória!</p>
                <p>Na desnorteadora antevisão do seu triunfo, como se fora já o consagrado alvo a
                    algum delírio divinizador de apoteose, desandou ele então, grande, feliz, a
                    saltar, a dançar, a rir, batendo palmas e com os olhos húmidos, de roda da sua
                    mirabolante construção, que silenciosa e deslise no seu macio automatismo ia
                    seguindo, com discretos brilhos de metais e gordos contatos.</p>
                <p>Depois, num dado momento, outra vez triste diante do Mateus, e com a face
                    estirada apreensivamente e bambo o busto de desânimo:</p>
                <p>— Falta-me apenas uma coisa.,, tenho ali o desenho... Não é fácil! — E todo
                    intimativo, batendo com as costas de uma das mãos na outra, muito chegado ao
                    peito do amigo: — Tem de ser uma peça muito especial, percebes?... ao mesmo
                    tempo balestilha e pião, meio roldana, meio alavanca... — Aqui gaguejava, a
                    nebulosidade do pensamento travando-lhe a limpidez da expressão. — Uma coisa
                    excessivamente ténue e absolutamente forte... Sim, eu sei bem como há de ser...
                    Mas imaginas lá! São umas carruagens estes nossos artistas... Tenho corrido seca
                    e meca, ninguém me entende, não tenho quem ma execute!</p>
                <p>E embaraçado mexia ao acaso em várias peças de ferramenta que tinha numa pequena
                    mesa, contra a parede.</p>
                <p>— Ora espera... — disse-lhe naturalmente o Mateus. — Eu tenho lá no Almargem, na
                    oficina de torneiro, um artífice bem hábil. Talvez esse...</p>
                <p>— Parece-te?...</p>
                <p>— Sim...</p>
                <p>— Será capaz!?</p>
                <p>— Explicando-lhe tu bem...</p>
                <p>— Oh, isso seria ideal! — exclamou o Anacoreta, radiante, crescendo de esperança,
                    para o Mateus. E tomava-lhe os pulsos com alma. — Vê tu, anda lá, ajuda-mo!</p>
                <p>— Sim, filho, sim... já te disse... da melhor vontade.</p>
                <p>— Faz-me isto, por quem és!</p>
                <p>O Mateus furtou-se o melhor que pode à exoração, e ponderadamente:</p>
                <p>— Mas espera, vamos por partes... — Depois acentuou: — também tenho que te
                    pedir... São serviços mútuos.</p>
                <p>— Então?...</p>
                <p>Olhando cautelosamente de roda, o contramestre baixou de instinto a voz:</p>
                <p>— Eu também pretendo de ti um alto, um singularíssimo favor! Nem vim cá para
                    outra coisa!</p>
                <p>— Homem! Diz lá... desembucha, — acudiu o outro, generoso. — Não peças tu
                    dinheiro, que no mais estou ao teu dispor.</p>
                <p>Cavido e solene, olhando a porta, como se usa era teatro, o ingénuo conspirador
                    disse:</p>
                <p>— Ouve lá... isto é segredo... tu és capaz de me fabricar um modelo de pequeno
                    instrumento explosivo, assim como que uma bomba?...</p>
                <p>— O quê!?</p>
                <p>— Mas com tempos marcados, de sorte que se lhe possa com segurança regular o
                    momento da explosão?</p>
                <p>— Tu não estás em ti!</p>
                <p>— Mau! És ou não és? — insistiu irritado o Mateus.</p>
                <p>— Talvez… Isso é fácil.</p>
                <p>— Vai então pensando na coisa...</p>
                <p>— És doido! Mas para que serve isso?...</p>
                <p>— Não é da tua conta!</p>
                <p>— Queres-te desgraçar...</p>
                <p>— E ele a dar-lhe!</p>
                <p>— Bem, bem, — condescendeu afinal, vencido por aquela teimosia de aço, o lunático
                    ideador. — Um dia destes por lá apareço. Estou ao teu dispor!</p>
                <p>O Mateus, contente com a promessa, retorquiu:</p>
                <p>— Olha, lá pelo meu homem respondo eu. É um portento, verás! Agora o que se quer
                    é que me cor — respondas pela mesma forma.</p>
                <p>— Não há duvida!</p>
                <p>Ia efusivo o Mateus a agradecer-lhe, quando notando que o extravagante aparelho
                    cessara de trabalhar, observou então, rindo de troça:</p>
                <p>— Mas vê lá... toma sentido! Olha que eu quero obra mais perfeita que esta tua
                    sublime engenhoca, hein?</p>
                <p>— Porquê?... — exclamou indignado o Anacoreta.</p>
                <p>Mas ao ver a imobilidade da sua obra, num solavanco de terror:</p>
                <p>— Parado outra vez! — Correu perdido para o estrado, que escalou num relâmpago, e
                    aos murros na cabeça, arrancando cabelo aos punhados, aflitivamente: — Eu
                    endoideço! Isto dá-me cabo da vida!</p>
                <p>Neste momento, assomou à porta única da baiuca a jacobina cabeça do Azinhal.</p>
                <p>— Ouve lá, ó Mateus... quando estiveres farto desse maduro... eu tenho que te
                    falar!</p>
                <p>— Que é que temos? — acudiu prometo o franzino agitador, passando à alcova do
                    iconoclasta e tomando-lhe com avidez o braço.</p>
                <p>E misteriosamente o Azinhal:</p>
                <p>— Então, quando vens à coisa?...</p>
                <p>— Quando quiseres! — o Mateus logo aquiesceu. E com a voz cava de emoção, num
                    recalcado jubilo: — Oh, filho, sabes lá! Estou contentíssimo... Parece-me que
                    dei com a minha gente!</p>
                <p>— Sim!? — fez o Azinhal, com os olhos em brasa.</p>
                <p>— Aquilo agora em Marvila é outra loiça! Fazendo-lhes luz no caco, aquecendo-os
                    bem...</p>
                <p>— Conta connosco! A gente entra pela rua do Arsenal e sai pela travessa do
                    Cotovelo... vais ver também a qualidade de tipos que ali se reúne. Magníficos
                    auxiliares em todas as camadas, em todas as classes... até generais!</p>
                <p>— Bem! Bem! — balbuciava o Mateus, esfregando as mãos.</p>
                <p>— Toca a manobrar, hein? — vertia-lhe com veemência ao ouvido o outro. E tirando
                    da gaveta da mesa um pequeno maço de cartas e jornais: — Toma!</p>
                <p>— Ah, eu não descanso... Agora vou eu a Alcântara ver se convenço um
                    sujeito...</p>
                <p>Guardara a correspondência na algibeira interior do jaquetão e tinha passado,
                    sempre com o Azinhal à ilharga, da alcova ao quarto da frente, na clara
                    disposição de tomar à sala e partir. Porém, mal que o viu atravessar os seus
                    domínios, disse-lhe convidativamente o Gomes, numa inflexão arrastada e
                    meiga:</p>
                <p>— Olha aqui, meu rapaz!</p>
                <p>Ele estava molemente dobrado no chão, a um canto, entre a parede e a janela,
                    vestido um casaco de linho, longo como uma túnica, de pernas traçadas, os
                    cotovelos nas cochas, as mãos nas barbas; tinha na frente uma cadeira, com
                    papéis garatujados de claves, ementas, cruzetas, fórmulas e um livro aberto; e
                    do epicúrio lábio pendia-lhe o grosso rolo de um cachimbo enorme, o qual
                    desdobrado, coleante e negro, em amplas roscas de reptil pelo soalho, ia por fim
                    sumir-se longe na base do grande deposito piramidal, negro também, tarjado ainda
                    de farpados restos de arabescos de prata e cobre, e sobre o qual estalava o
                    tabaco entre carvões, dentro de um púcaro de barro capado.</p>
                <p>Levemente contrariado, o Mateus parou. E manso o índio a insistir:</p>
                <p>— Olha aqui, ouve!</p>
                <p>— Querem ver que temos outra invenção?</p>
                <p>— Tal qual! — confirmou o índio, erguendo ao interlocutor os olhos sonhadores,
                    numa grande bonomia sorridente.</p>
                <p>Então, vagamente interessados, tinham ido o Azinhal e o Mateus apoiar-se ao dorso
                    da cadeira. E, muito fito para os dois, o Gomes, de lápis na mão sobre as notas
                    soltas:</p>
                <p>— Olha, lembrou-me isto ontem... e calha! — E após breve pausa, num sorriso
                    envaidecido: — Estou a ver que é facílimo explicar aproximadamente pelas leis da
                    química a derivação racional das línguas!</p>
                <p>O Mateus e o Azinhal trocaram um escarninho olhar de dúvida. E suasivo o
                    Gomes:</p>
                <p>— Já vos disse!</p>
                <p>Reavivou numa volutuosa inspiração as brasas do narguilé; um claro gorgolejo
                    citolou na água do depósito; e logo ele, com as narinas e os lábios fumarando
                    num regalo, de espaço continuava:</p>
                <p>— Não há dúvida de que tanto num como noutro fenómeno temos a mesma ordem de
                    afinidades, as mesmas leis íntimas de atração, a mesma seriação fatal e
                    progressiva... Oiçam... O segredo da estrutura e derivação dos corpos orgânicos
                    reside na atomicidade, não é assim?... pois também a morfologia secular da
                    linguística procede na essência de uma como que atomicidade psicológica dos seus
                    elementos naturais. Digo-vos eu!</p>
                <p>— Não percebo nada! — exclamou o Mateus.</p>
                <p>— És levado do diabo! — corroborou admirativo o Azinhal.</p>
                <p>Mas bonacheiramente o Gomes, na antecipada radiação do seu triunfo:</p>
                <p>— Ora vai-te bugiar... Queres ver?... — E traçava no papel chavetas complicadas.
                    — Vocês sabem muito bem que hoje em dia as teorias linguísticas, dominantes
                    ainda aqui há dez anos atrás, estão inteiramente postas de parte, por absurdas e
                    pueris. Sim... nem o francês deriva do romano, nem o português do moçárabe, nem
                    o latim do grego, nem o grego do sânscrito, pelo contrário, sânscrito, grego e
                    latim procedem, paralela e simultaneamente, da mesma língua-mãe comum que deu
                    igualmente origem aos idiomas iraniano, eslavo, germano, celta, hindu, etc...
                    Isto não sou eu só que o digo... está assente, está escrito; é uma verdade
                    definitivamente conquistada para a ciência. E como é que isto foi?... Aqui têm
                    vocês, olhem... Entre a língua mãe indo-europeia e os grupos dela derivados
                    foram sucessivamente operando-se, pela ação das migrações e dos climas,
                    desdobramentos de outras céu! Tem então aqui assim a pátria, neste ignorado
                    terceiro andar, um alfobre de génios?</p>
                <p>— Ora essa! E porque não?...</p>
                <p>— Capazes de transformar, de refundir, de criar de novo o mundo!</p>
                <p>— Têm-se visto coisas mais extraordinárias.</p>
                <p>— Que adorável prisma que é o dos 20 anos!</p>
                <p>— E tu, não andas também com a tineta de salvar a humanidade?... Ora tem
                    paciência, escuta cá... e diz-me depois se isto não é de razão? — Resignado, num
                    vago interesse, o Mateus atirara-se, deslaçando os braços, para cima do álgido
                    catre de ferro, no canto da janela oposto aquele onde pacífico o Gomes recaíra
                    na sua beata imobilidade de faquir; e incansável o botânico, muito persuade-te,
                    em cima dele: — Sabes que eu parto do princípio da unidade de substancia,
                    formando ela só, total e universalmente, o mundo. De que natureza essa
                    substancia seja é que eu não pretendo, não posso mesmo saber...</p>
                <p>— Ou há de ser matéria ou espirito, — interveio o Azinhal, sentencioso.</p>
                <p>O Baleizão riu de troça; e o furioso homem do xaile-manta, já com o olhar
                    avinagrado:</p>
                <p>— Tu ris?... Bem sabes que, segundo a filosofia, nenhuma outra substancia
                    existe!</p>
                <p>— O que eu sei, — contestou, segurando a luneta, o Baleizão, — é que, com licença
                    tua e da tal senhora filosofia, isso é uma tremendíssima asneira!</p>
                <p>— Ora o pedante!</p>
                <p>— Já te disse! O tempo das abusões, das mistificações pueris da metafisica
                    passou.</p>
                <p>— Vais bem, rapaz! — aplaudiu lá do canto a Gomes, fazendo rouquenhar o fumo no
                    cachimbo.</p>
                <p>— Ora essa! Então no homem, por exemplo?... — obtemperou sereno o Mateus. — Vocês
                    não admitem ao menos em nós essa dualidade de matéria e espirito?</p>
                <p>— É verdade, no homem?-disse também o Azinhal, contumazmente incrédulo.</p>
                <p>— Sim?... ides ver o absurdo! — contestou logo o Baleizão, num inabalável
                    convencimento, sacudindo os braços. — Essas duas pretendidas substâncias são ou
                    não são diametralmente heterogéneas?</p>
                <p>— São...</p>
                <p>— Portanto hão de fundamentalmente repelir-se! Não podem conservar-se unidas.
                    Precisam para este efeito de uma outra substancia, intermedia. E qual há de ela
                    ser?... Segundo a tal filosofia, essa argamassa essencial não pode deixar de ser
                    matéria ou espirito, visto como, afora estas duas substâncias, nenhuma outra
                    existe...</p>
                <p>— Bem! Muito bem! — apoiava subtilmente o Gomes.</p>
                <p>— Mas, neste caso, ser matéria e espirito ao mesmo tempo seria um absurdo; ser
                    parte matéria e parte espirito não resolveria a dificuldade, porque ao seu turno
                    precisaríamos, para unir essas duas partes, de um novo mediador.</p>
                <p>— Mas então tu não distingues, por exemplo, a inteligência do instinto?</p>
                <p>— Ora adeus! O instinto foi uma palavra inventada pela nossa vaidade para iludir
                    a nossa ignorância. Temos conversado!</p>
                <p>Ao estímulo espiritual do debate, viera o Gomes juntar-se ao grupo, tendo-se
                    mansamente erguido também da sua dilucular toca surdira radioso o Anacoreta, com
                    o esguio tronco a prumo sobre as pernas microscópicas; e já junto da cama,
                    passando pela curva do braço do Azinhal a face estirada e rúbida, procurava
                    fisgar a atenção do Mateus numa insistente mimica de triunfo. O Baleizão,
                    vaidoso do auditório, continuava:</p>
                <p>— Bem! Pois a rainha grande teoria é a seguinte: essa substância primária, única,
                    essencial em tudo o que há criado, é que, pela manifestação gradual de um certo
                    número de propriedades, a princípio latentes, vai dando origem à formação dos
                    três chamados reinos da Natureza.</p>
                <p>— Vamos a ver... — arrastou numa dúvida o Mateus.</p>
                <p>— Em primeiro lugar, não esqueçam vocês que só pelas propriedades é que nós
                    podemos conhecer um objeto qualquer. Mas, em rigor, essas tais propriedades
                    vulgares, só por si, nada distinguem... Que me importa a mim que o chumbo pese
                    mais do que o estanho, se todos os corpos são pesados? E que o metal seja melhor
                    condutor elétrico que a madeira, se todos os corpos são elétricos?...
                    Propriedades características são só aquelas que pertencem à matéria em geral, e
                    que no princípio eu suponho existem, no estado latente, todas juntas nela,
                    neutralizadas, ligadas por um certo número de forças em equilíbrio. — Depois, o
                    desaparecimento de uma dessas forças irá sucessivamente dando origem ao
                    desdobramento de uma propriedade. Eu me explico...</p>
                <p>Uma laranja é pesada; contudo, enquanto ligada ao extremo do pedúnculo, ela não
                    manifesta essa propriedade; apenas porém as células terminais do pedúnculo
                    perdem com a vida, a força para reter a laranja, esta cai, manifestando então
                    uma nova propriedade que vêm juntar-se ás de solida, rugosa, esférica, etc., que
                    nós já lhe conhecíamos também um líquido, quando se evapora, passa a manifestar
                    propriedades diferentes, ao dilatarem-se-lhe as moléculas pela ação do
                    calor.</p>
                <p>— Como diabo imaginaste tu?... — Tem a faísca o ladrão!</p>
                <p>— Bem! Pois o que eu nestes dois exemplos vos mostrei de um modo grosseiro, é o
                    que, ao meu ver, se passa na constituição íntima da primitiva substancia
                    universal. Esta, tendo as suas moléculas agregadas de um certo modo para
                    formarem o mineral, apresenta assim primeiro à nossa observação apenas as
                    propriedades caraterísticas dos minerais, conservando as dos vegetais e animais
                    latentes, depois esses minerais são absorvidos pelas raízes das plantas... as
                    suas moléculas deslocam-se e como que se desdobram para deixarem a descoberto
                    maiores porções de superfície... daí vêm um maior jogo de forças, que cessam,
                    que se anulam, e, como consequência, novas propriedades rompem, formando-se o
                    vegetal. Mais tarde, este é apreendido, deglutido, assimilado pelos animais; e
                    aí temos nós então a mesma elementar e primária substância dando os fenómenos,
                    já mais elevados, da sensibilidade, da inteligência e da vontade! Nada mais
                    simples, creio eu.</p>
                <p>— Bravo! Bravo! Muito bem! — aplaudiu com alma o Anacoreta, agitando o pequenino
                    rosto herpético, flamante de entusiasmo.</p>
                <p>— E já agora diz tudo, homem! — acudiu com intimativa o Gomes, avançando um
                    passo. — Anda! Mostra que sabes tirar da tua bela teoria as últimas
                    consequências...</p>
                <p>Todos se voltaram de relance, num picante interesse, sem perceber. O Baleizão in
                    ter rogava-o, num mudo espanto. Veio o Valentim espreitar à porta, mas logo
                    fugiu... E solenemente o índio, cruzando as fartas abas da túnica sobre o peito,
                    e um iluminado olhar de fé no rosto acobreado:</p>
                <p>— Essa substancia única, sim! Irá por uma sério de evoluções progressivas
                    desdobrando cada vez mais numerosas e mais nobres propriedades...
                    aperfeiçoar-se-á indefinida, eternamente, por esses mundos fora... a Terra é um
                    dos seus estádios. Porque as ideias de princípio e fim, de tempo e espaço são
                    mesquinhas conceções, artificiais e contingentes, da nossa mera invenção; com o
                    homem nasceram, com o homem hão de morrer! Enquanto que a perenal transformação,
                    o indefinido afinamento da substancia primitiva, oh! Esse seguirá por todos os
                    séculos dos séculos, ininterrupta, invariavelmente, em demanda da absoluta
                    perfeição... — E aqui, espiritualmente, como que transfigurado, alando para o
                    céu os grandes olhos transcendentes: — Neste globo que habitamos, o mineral, o
                    vegetal e o animal são os efémeros laboratórios dessa misteriosa evolução
                    essencial; ela vêm já anteriormente de um qualquer mundo, inferior ao nosso; e
                    daqui a porção de substância, suscetível de aperfeiçoar-se, passa, no estado a
                    que nós chamamos alma, a continuar a sua transformação incessante num mundo mais
                    perfeito; peio contrário, a porção que ainda se não achou ata para atingir esse
                    afinamento, é novamente por meio da Morte devolvida à terra.</p>
                <p>Cavaram um admirativo silêncio estas sibilinas palavras, vertidas devagar. Mas,
                    despeitado, o Baleizão:</p>
                <p>— É muito bonito isso, mas não vêm nada pro caso!</p>
                <p>— Sim... — disse também o Mateus, — não fujamos do assunto.</p>
                <p>— Ora a minha questão é esta, — volveu o outro: — não existe ainda hoje em
                    botânica, vergonha é dize-lo! Uma classificação verdadeiramente digna do nome de
                    natural. E isto por um motivo muito simples... porque para origem de um trabalho
                    dessa ordem ainda se não tomou a única base verdadeira, logica, — a
                    sensibilidade.</p>
                <p>— Então para ti os vegetais sentem?</p>
                <p>— Evidentemente! Menos que os animais, mas sentem.</p>
                <p>— Porquê?... Lá vêm o exemplo da sensitiva, querem ver?</p>
                <p>— Não é só esse!</p>
                <p>— Tudo meros fenómenos de irritabilidade mecânica... Que valor tem isso?</p>
                <p>— Não há tal!... Lê o Fechner, lê os trabalhos do Dr. Hooker sobre as plantas
                    carnívoras... Ora esta! Que sensibilidade queres tu mais evidente, mais viva,
                    mais bem definida do que os movimentos das sarracénias, das nepentes... e essa
                    admirável função, que Rot observou, da drósera rotundifólia a qual apreende,
                    digere, escolhe os insetos, e sabe muito bem repelir as substâncias minerais que
                    lhe vertermos na corola?</p>
                <p>— Conhece-as, hein?</p>
                <p>— Ninguém a enganai — confirmou o Baleizão. — E as clematis, as cefalotos, a
                    oxalis sensitiva e algumas solâneas?... E a dionwa muscipula, que tem contrações
                    exatamente análogas ás dos músculos dos animais?</p>
                <p>— Apre! Que sabe muito, — disse esfregando as mãos, o Azinhal.</p>
                <p>— Tenho estudado, tenho... Ora, dado então que os vegetais são capazes de
                    fenómenos sensoriais, onde localiza-los?... Naturalmente, e procedendo por
                    simetria com o que se dá no reino animal, a sua sede é a medula!-Abriram-se nos
                    ouvintes esgares de dúvida. — A medula, sim! Formando sistema com os raios
                    medulares e esses tenuissimos filamentos celulares que, no interior dos feixes
                    fibrovasculares, se espalham por toda a planta, transmitindo à periferia as
                    sensações.</p>
                <p>— O que aí vai! Isto é que é inventar!</p>
                <p>— Precisas, para provar essa coisa, de proceder primeiro a largos estudos de
                    anatomia comparada...</p>
                <p>— Bem sei... não me dão novidade nenhuma! Ainda assim, olhai lá: Dutrochet provou
                    há pouco que a irritabilidade se transmite ás folhas por meio dos feixes
                    fibrovasculares que formam o interior do pecíolo, percebem vocês?... e também,
                    segundo os estudos microscópicos de Meien, Brucke e J. Sachs, está averiguado
                    que os pequenos inchaços celulares, próximos da base das folhas, os
                    transmissores, repito, da função de irritabilidade, têm uma disposição em
                    cordões centrais e células alongadas, perfeitamente comparável aos gânglios do
                    sistema nervoso animal!</p>
                <p>— Com efeito! — era agora o Anacoreta que ingénuo exclamava.</p>
                <p>— Que mais quero eu?... Além disso, notem bem! Uma incisão feita no caule de uma
                    planta, se profundou até à medula, causa-lhe fatalmente a morte.</p>
                <p>— Também não sabia...</p>
                <p>— É isto! Não há dúvida... As modificações do sistema nervoso são as melhores
                    bases de classificação, tanto para os animais como para os vegetais. E então que
                    é admirável, flagrantíssima, completa a correspondência das principais
                    alterações na forma e aspeto da medula, não só com as três grandes divisões do
                    reino vegetal, mas também com as correspondentes na escala zoológica! E senão,
                    vejam... A medula, tão bem localizada, das dicotiledóneas aproxima-se
                    perfeitamente da espinal-medula dos vertebrados; já nas monocotileas a mesma
                    medula, um pouco mais difusa, se aparenta com o sistema nervoso, um pouco menos
                    distinto também, dos articulados; analogamente as plantas de colmo são, na
                    escala descendente da organização, comparáveis aos moluscos; e, finalmente, as
                    acotiledónea têm como naturais afins os radiários.</p>
                <p>— Exato! Mas é admirável... é perfeito!</p>
                <p>— Aqui têm pois vocês, em resumo, as bases de uma classificação bem mais logica e
                    natural do que quantas aí há conhecidas, de Lineu a De Candole... e tendo a
                    vantagem de se fundar em cara-teres análogos aos das magníficas ideias, ainda
                    hoje em pé, de Cuvier! É isto... Reino vegetal, quatro grupos: plantas de caule,
                    plantas de estipe, plantas de colmo, plantas amorfas; e no reino animal,
                    correspondentes: animais vertebrados, articulados, moluscos e radiários... Tenho
                    dito!</p>
                <p>— Bravo! Bravo! Eureka! Muito bem!</p>
                <p>— Acabou a massada... bravo! — rompeu também, mesmo da varanda, o Valentim.</p>
                <p>Uma entusiástica salva de palmas troou; e logo no mesmo instante, ao fulgurante
                    exemplo do Mateus, todos os mais disputavam aquele glorioso génio in herbis ao
                    carinhoso furor dos seus amplexos. Isto no meio de um tão descomposto e forte
                    ingranzéu, que até no quintal em frente o assaralhopado idiota, vibrando em
                    uníssono com a berrata, desandou a cabriolar também e a ganir com fúria.</p>
                <p>Mas uma doce voz feminina veio à porta do quarto dizer:</p>
                <p>— Meninos! Venham jantar.</p>
                <p>E logo, muito terna, ao descortinar a visita:</p>
                <p>— Ai, o senhor Mateus por cá!</p>
                <p>Com o que a doce velhinha, de olhos tão claros como a sua vida, de cabelos tão
                    alvos como a sua alma, acarinhava familiarmente, num sincero júbilo, os ombros
                    suaves do rapaz, convidando:</p>
                <p>— Jante também!</p>
                <p>— Não, vou-me embora... Obrigado!</p>
                <p>— Janta connosco, homem! — insistiu o Anacoreta.</p>
                <p>— Sopinha, carne de porco, uns carapaus... é o que há, — explicou a dona da casa,
                    afetuosa. — Mas dado de vontade!</p>
                <p>— Não, não...</p>
                <p>— Anda... e pagas o vinho... — disse o Gomes, de malicia.</p>
                <p>— Vou-me embora, tenho que fazer... E levo a cabeça doida, de tanta ciência!</p>
                <p>Então, rapidamente, o Mateus desembaraçou-se e cortou rápido a sala, direito à
                    escada; enquanto, de um lado, o Baleizão e o Gomes chegavam o canapé à mesa,
                    para terem em que se sentar; do outro, o Azinhal e o Anacoreta faziam o mesmo ao
                    baú; e, arredando finalmente da varanda, o militar se dobrava para em frente num
                    gesto de quem oferecia de comer; o que fez com que o pobre tarouco do quintal
                    voltasse, estimulado, ao estribilho daquele dia:</p>
                <p>— Oh, senhor, senhor... os dias agora são mais pequenos.</p>
            </div>
            <div>
                <head>CAPÍTULO VI</head>
                <p>Chegado à rua, num instante o Mateus alcançou a praça da Alegria, onde o
                    aguardava o Fagulha, inquieto e nervoso na sombra das palmeiras; e seguidamente
                    os dois desceram à Avenida, a tomar um americano para Santo Amaro. Não trocavam
                    palavra; mas no compenetrado respeito com que ao manso rosto espiritual do
                    Mateus o seu dedicado companheiro erguia os olhos ávidos, adivinhava-se uma
                    inteira e leal conformidade, a ardente prossecução de um ideal comum, a perfeita
                    inteligência de planos previamente concertados.</p>
                <p>Pelo bairro de Alcântara a jornada dos dois foi longa. Todo o tempo ferrenhamente
                    votado a uma exasperada caça de adeptos, a afervorar dedicações, a estimular
                    velhos conhecimentos. E como em novembro os dias são uma coisa de nada, sucedeu
                    ser já noite feita quando o Mateus, tornado a Marvila, entrou na taberna do Zé
                    Pequeno, com o Fagulha, a jantar.</p>
                <p>Inquirido o dono da locanda sobre o incidente da véspera: — que não tinha havido
                    novidade. Os secretas, se de alguma coisa tinham desconfiado, nada apuraram
                    afinal ao certo. Foram-se muito sossegados... Um deles esteve até conversando
                    muito à mão com o Silvério. — O Fagulha teve um esgar de contrariedade. — E o
                    taberneiro completou:.</p>
                <p>— E bebeu um cálix de genebra com ele.</p>
                <p>— Hum! Desconfio desse gajo... — disse o Fagulha, todo caído a um lado, agitando
                    com furor as mãos e procurando ler tios olhos do Mateus, que paresiara a
                    expressão num mutismo inacessível.</p>
                <p>Por fim, misteriosamente:</p>
                <p>— Será o que eles quiserem!</p>
                <p>Pagou a despesa, despediu-se num monossílabo e saiu, perante a passiva
                    imobilidade do cocho, já por demais afeito a repentes desta ordem, que ele,
                    embora os não percebesse, tinha por obrigação incondicionalmente respeitar. O
                    Mateus mediu rapidamente a rua de Marvila, desceu a calçada do Grilo, e em
                    baixo, na rua Direita de Xabregas, voltando à direita, breve atingia um extenso
                    muro de alvenaria e ao cabo dele, cosida quase com um grande estabelecimento
                    fabril, uma porta verde que abriu e, tendo entrado, logo voltou a fechar nas
                    costas. Aqui era quase total a escuridão, e o grande silêncio apenas, muito raro
                    e brando, interrompido poios madrigais cantantes da noite no arvoredo. Uma
                    luxuriosa profusão de parque afogava e vestia, a perder de vista, a encosta,
                    toda em colunatas sussurrantes como naves de catedrais, em asfixiadoras abobadas
                    de oficina, em escabeladas figurações de pesadelo.</p>
                <p>Uma pacificação de deserto, uma monstruosidade de sombra. Entretanto, pegando com
                    o portão, destacava no escuro, atrigada e fria como uma banda de linho, a
                    sinuosagem rastejante de um carreiro ensaibrado, o qual lá ia enastrando-se pela
                    ladeira, entrevisto a retalhos, em curva solta e preguiçosa. A umas dezenas de
                    metros acima, este carreiro, seguindo sempre, encostava a um escasso trecho de
                    terra desmoutada; e no centro desta erguia-se uma pequenina casa térrea, de
                    aparência modesta mas limpa, e de construção recente, via-se, — a porta ao lado
                    com o seu singelo frontão de alvenaria, depois duas janelas mais, com
                    ventiladores no subsolo o platibanda corrida à frente do telhado.</p>
                <p>Tendo tomado pelo carreiro, o Mateus parou em frente dessa casita, meteu-lhe
                    chave à porta também, entrou, voltou a fechar; atravessou com segurança, mesmo
                    ás escuras, a casa de entrada, como quem manobrava em região muito sua familiar;
                    e indo à parede em frente, aí abriu primeiro as portadas, depois a vidraça de
                    uma janela de peitoril. Então uma furtada claridade entrou, um como lasseiro de
                    agonia, e na mesma onda veio um fresco ar acariciador, como o hálito húmido da
                    mulher amada, feito de todas as balsâmicas auras da noite e de todos os
                    misteriosos esponsais da floresta. Uma aragem de veludo, a tépida macieza de um
                    regaço. Poi como se, pressurosa e quente, do exterior avançasse uma invisível
                    mão, a acarinha-lo. E deliciadamente, esquecidamente, o Mateus ficou-se ali
                    assim, as conchas da mão apoiadas no peitoril, enleado, imovei, considerando
                    meditativo o espaço, oferecendo numa plena volúpia o rosto aquele discreto
                    ósculo perfumado. Parecia querer decifrar a treva, era como se alguma doce e
                    indominável força lhe polarizasse de longe, contra o seu querer, a alma... E
                    contudo, nada ali, encosta acima, se descortinava, na aparência capaz e digno de
                    por aquela forma lhe ensilveirar a atenção. Por toda a parte alastrava
                    invariável, indefinidamente, o mesmo borrão compacto e violento do arvoredo. Era
                    só e sempre a mesma uniformidade negra e revolta, o mesmo caliginoso mar, o
                    mesmo céu de tinta, a mesma monótona ausência de cor, a mesma afonia redundante
                    da Natureza. — Apenas, justo na frente do Mateus, e umas dezenas de metros mais
                    acima, dealbava vagamente, como um grande lençol farpado, um vasto e maciço
                    quadrilongo branco, com a sua linha monumental, e que aquele emaranhamento negro
                    de capricho recortava. Era o solar do Almargem, ali ciosa, altivamente
                    flanqueado, como por um grave pelotão de alabardeiros, pela cerrada confusão dos
                    caules seculares, e para o topo da colina toucado ainda pela toalha rumorosa e
                    profunda de um grande pinheiral. Lá muito em baixo, à ilharga mesmo do parque e
                    rente com a rua, ficara a fábrica; e a meia distância entre esta e o palácio, na
                    pequenina clareira que a fita de saibro ladeava, havia Afonso Meireles mandado
                    construir para o jardineiro aquela linda e casquilha habitação, destinada agora
                    a alojamento do contramestre da fábrica; o qual ficava bem ali assim, a meio das
                    duas antagónicas construções, sendo ele o intermediário também, o natural
                    interprete e mediador entre a oligarquia arrogante dos patrões e a aflitiva
                    jolda de miseráveis que em baixo marulhava, convertendo o seu sangue em oiro,
                    cambiando em proveito alheio a própria vida, na sua desvalida condição vítimas
                    ainda dos conspícuos desdéns do comendador e das birrentas esconjuras do padre
                    Sebastião.</p>
                <p>Aí continuava pois enlevadamente o Mateus, em pé, preso à janela, regalado e
                    atento, — e sem bem saber-se dizer porque motivo, — avançando o rosto e cravando
                    os olhos no vago negrume, na plena quietação do exterior. E um momento houve
                    então em que, na sensaboria marmórea do solar, um vivo ponto luminoso saltou,
                    radiou primeiro, como uma estrela, e logo, crescendo, abriu um pequeno retângulo
                    de oiro fosco na monotonia de cinza da fachada... Era exatamente a última sacada
                    da esquerda, quase à esquina. Assim que tal viu, irreprimivelmente, o Mateus
                    estremeceu. Os seus olhos negros faiscaram na sombra, como se a instilação
                    daquele raio distante viesse, penetrando-o, quebrar-se-lhe na retina em mútuas
                    coruscancias. Avançou de instinto na treva o busto, cerraram fileira os dedos, a
                    boca abriu-se-lhe numa dispneia de ansiedade. E já os pés não tinham sossego, e
                    a impassibilidade logo perdida! Agora, no loiro quadratim em frente, começou de
                    esboçar-se difusamente uma sombra... breve ela era um vulto feminino, que
                    indeciso e vago vinha crescendo, que depois, mais reduzido e mais nítido, por um
                    momento se colou distraidamente à vidraça... e um airoso braço se definiu,
                    erguendo a cortina, houve uma atitude de quem inquiria o céu; depois, num
                    relâmpago, cortina e braço caíram... desapareceu a sombra, E o Mateus sempre a
                    olhar!</p>
                <p>Ficara-lhe tão fundamente impressa na alma a fascinativa aparição, que ele na
                    reçaga lhe conservava íntegra a imagem, como se presente ela ainda fosse; e todo
                    o seu empenho era agora alimentar viva, flagrante esta ilusão, té que, a
                    prolonga-la nos domínios novamente da realidade, essa apetecida sombra voltasse.
                    E voltaria?... Baldadamente, tempo esquecido, ele esperou... Não havia meio de
                    recobrar a sua querida visão de um instante; na insipidez bisarmal do grande
                    prédio adormecido mantinha-se invariavelmente lisa, nua, insensível a
                    integridade do pequenino retângulo de oiro, e a querida, a cubicada sombra não
                    vinha.</p>
                <p>Por fim, num repelão da vontade, sacudindo os ombros:</p>
                <p>— Tolice!</p>
                <p>Ergueu a cabeça com império, num altivo arranque emancipador, e, arredando firme
                    da janela, passou ao quarto contiguo, à esquerda, onde acendeu luz, — um
                    candeeiro trivial de petróleo, através cujo para-luz branco froixamente se
                    iluminou então aquele seu quarto, ao mesmo tempo de dormir e de trabalho.
                    Modesto e simples: soalho nu de pinho, escaiola rosada nas paredes, teto de
                    estuque com florão ao centro, duas estantes de vinhático com livros, algumas
                    cadeiras de palhinha, uma prateleira vergada de jornais e estampas, mais duas
                    ingénuas litografias na parede, — os retratos de Pedro Kropotkine e José Fontana
                    — ; um cabide com roupa, uma comoda, sobre dois banquinhos de madeira uma grande
                    mala negra, fechada a cadeado, ao canto da esquerda o lavatório, e no da
                    direita, entre duas janelas sem cortinas, uma cama de ferro com varões
                    doirados.</p>
                <p>Tendo distraidamente rodado pelo aposento, Mateus aproximou-se da mesa, puxou a
                    si a cadeira, ia a sentar-se, mas... mas na outra casa a janela tinha ficado
                    aberta... e sob este pretexto ei-lo que aí deriva n um instante ao seu
                    observatório primeiro, e de novo ali se fica maquinalmente, embevecido, colado
                    na instintiva, hipnose de uma esperança a essa janela fatal! Mais feliz desta
                    vez... Ou fosse mero efeito do acaso, ou inexplicado fenómeno de emotiva
                    sugestão, o certo foi que, agora, ele a chegar e na iluminada janela cimeira a
                    estremecida sombra a reaparecer também... logo prolongados os braços aos lados,
                    como azas, depois o pequeno quadratim de oiro a estreitar... num momento é uma
                    aresta, um fio, uma abstração, era sonho... apagou-se de todo.</p>
                <p>O Mateus, desconcertado, teve frio na alma, como se o varasse um punhal de gelo.
                    Tomou-o uma imobilidade absoluta, ia a protestar. Mas logo, dominando-se, aquela
                    atormentada fascinação repeliu, num alto suspiro, simultaneamente lástima de
                    saudade e expiração de alívio; fechou a sua janela também; e já no quarto
                    imediato outra vez, junto, da mesa, caiu em peso na cadeira, puxando a si o
                    livro que ali tinha aberto.</p>
                <p>Era uma tradução portuguesa da Rússia Subterrânea, livro alucinado e terrível,
                    estonteador. Compêndio de sacrílegas revelações, em que sob o pseudónimo de
                    Stepniak, o celebre revolucionário Kravtchinski tão primorosa e empolgadoramente
                    história a luta titânica do povo eslavo pela sua emancipação. Mateus dera por
                    acaso, há dias, na escusa montra de um alfarrabista, com essa tentadora
                    brochura, em cuja capa negra o titulo destacava sinistramente em grandes letras
                    de fogo, torcidas como labaredas. Comprara-o logo e fora em irreprimível júbilo
                    mostra-lo ao Azinhal, — que ficou bem admirado de que ele não conhecesse ainda
                    semelhante obra. Agora tinha-o aberto nas páginas em que de um modo tão claro e
                    impressivo é descrita a inverosímil evasão de Kropotkine do hospital presidio de
                    Nicolau. O genial arrojo do estratagema fanatizava-o. E assim lia com obsessivo
                    interesse, com um pique de entusiasmo afogueante, que lhe engrossava o sangue
                    nas artérias e fazia dançar na retina luzitas congestivas, o paciente preparo, a
                    formal decisão,, o miraculoso êxito da romanesca aventura. Tanto mais que o
                    ligavam de instinto ao fogoso apostolo do libertarismo individualista afinidades
                    de temperamento especiais. Antes de lhe assimilar as teorias, adivinhara-lhe o
                    Mateus os sentimentos. Juntava-se ao simpatismo do seu ideal comum a analogia
                    estrutural das suas almas.</p>
                <p>Também, como o arrebatado sucessor de Bakounine na direção espiritual do partido,
                    Mateus era um orador fogoso, um agitador sincero e ardente, todo coração, rudeza
                    e vontade também, como o amigo de Reclus, o panegirista imprudente de Ananief,
                    punha o contramestre da fábrica do Almargem uma fé absoluta nas suas convicções,
                    sonhava em êxtase o sacrifício, na inflamada catequese dos seus ideais não
                    hesitaria perante o holocausto da própria vida. Um e outro, porque eram
                    inabaláveis nas suas crenças, eram intransigentes nos seus processos. O seu
                    caminho era a linha reta. Desviar é transigir. Segundo eles, um obstáculo não se
                    ladeia, arrasa-se. Por isso não admitiam as fórmulas deprimentes da evolução, a
                    hipocrisia oportunista da meia-tinta. Toda a delegação de poderes era para eles
                    uma abdicação da dignidade, o exercício do voto uma defeção moral. Espíritos de
                    titânica envergadura, de amplo folego, não compreendiam senão a revolução em
                    ponto grande, desdenhavam de toda a forma pacífica de protesto, repudiavam de
                    nojo, como a gelatina purulenta de um escarro, essas torpes maravalhas da
                    intriga política, tão indignas deles como prejudiciais aos povos. E a sua única
                    volutuosidade era a luta. Não conheciam outro prazer, não os esteniava o amor.
                    Exclusivos apóstolos do bem da humanidade, dentro desta era para eles a mulher
                    um ente degradado e mesquinho, o animal de cabelos compridos e ideias curtas de
                    Spencer; própria para lhe votarmos apenas o minuto indispensável à procriação,
                    mas não devendo nunca merecer-nos os exageros de culto, as aviltantes demasias
                    sentimentais que são o mais abjeto sintoma da discrasia moral do homem. Nada,
                    não podia ser... Mero instrumento fisiológico, a mulher nunca deveria ser
                    tirânico motivo de sujeição à nossa alma. Aí estava bem fulminante a condena-las
                    a História, onde de ordinário as mulheres não têm sido, como Dalila, como
                    Ônfale, mais do que daninhos agentes de retrocesso social.</p>
                <p>E só muito raramente essa nociva jaca se transmuta em oiro, e a sua missão
                    alcança voos de sublime, quando, a exemplo de Joana D’Arc, de Vera Zassulitch de
                    Sofia Perowskaia, as mulheres abandonam num iluminado, impulso as vantagens da
                    sua posição social, os confortos e regalos da vida, para se dedicarem até ao
                    martírio, para se sacrificarem, até à morte, no santo empenho de melhorar a
                    sorte e conquistar a alforria moral aos seus ínfimos irmãos na escala da
                    fortuna.</p>
                <p>Mateus era pois, como Kropotkine, fundamentalmente um apaixonado. Na mais
                    insignificante ideia talhava arestas, a veemência chispava-lhe no mínimo desejo.
                    Além disso era, a mais não poder, rasgado e franco, — e aí residia o segredo da
                    sua irresistível fascinação nas massas. Não haveria no mundo poder capaz de lhe
                    algemar o pensamento, de lhe ser dique à expressão daquilo que ele entendesse
                    ser a verdade. Dizia sempre o que sentia, sem refolhos nem medo, límpido e
                    certeiro como o gume de uma espada. Por isso podia dar-se-lhe inteiro crédito;
                    por isso aqueles que, como o Zanaga e o Fagulha, melhor o conheciam, votavam uma
                    cega, uma incondicional submissão aos ditames do seu verbo dominador.</p>
                <p>Espirituoso e cáustico nas discussões de acaso, nas controvérsias particulares,
                    havíeis de ver como, ao ter que orar em público, ele se transfigurava! Aqui era
                    admirável de impetuosidade, de decisão, de audácia. A esse subversivo fogo
                    interior, a timidez, a ingénua calma aparente evaporavam-se; todo aquele
                    pequenino corpo nervoso e vibrátil parecia latejar, crepitar, crescer...
                    Fazia-se mais pálido ainda; o tegumento do frontal encrespava-se-lhe com
                    arrogância; enroscava-se-lhe na regularidade discreta das feições um escabelado
                    sopro de insânia e de revolta. E rugia de império a sua voz, e as palavras
                    fremiam deste acento de profunda convicção que não pode enganar, que se não
                    escuta indiferente... assim como as catadupas de apóstrofes, que não eram um
                    produto artificial dos lábios, mas lhe subiam das entranhas, fumegantes,
                    determinavam essas instantâneas e persuasivas correntes que eletrizam
                    pateticamente as multidões.</p>
                <p>Mateus era filho de um grande proprietário do Alto Douro, generoso e forte;
                    carater participando da mesma natureza atropelada e violenta, toda em ressaltos,
                    bruscamente passando da amenidade à braveza, da desolação à abundancia, que
                    convulsiva a paisagem daquela região privilegiada e rude na sua casa a mesa
                    estava sempre posta, havia sempre nas camas dos hóspedes lisos lençóis de linho,
                    cheirando a maçãs camoesas. E ao verem-se os tardos caminheiros perdidos nas
                    entaliscadas margens do rio, por aqueles caminhos de cabras, inçados de ladrões,
                    arrepiados de fraguedos, sempre ao alcança-los antes de tempo à noite, ao
                    colhê-los de surpresa o temporal, convidativamente lhes sorria então, no vértice
                    da encosta, a casa do morgado de Ventoselo, garrida e vermelha entre dois
                    ciprestes.</p>
                <p>A abolição dos vínculos e várias confiscações dos miguelistas tinham-no porém
                    arruinado. Passado o primeiro quartel do seculo, a vida deste grande
                    proprietário antigo desbaratava-se no atormentado empenho de iludir o vexame do
                    cerceamento enorme dos seus bens, de procurar pôr um travão no ladeiramento
                    inevitável da miséria. Para isso valeu o recurso das dívidas, primeiro; foi-se
                    até ao último limite do crédito. Mas, mesmo assim, caminhavam sempre fatalmente
                    as coisas de mal a pior... Então, tiveram que começar por abster-se de um certo
                    número de confortos e regalias, tradicionais na casa. Deixaram de ir anualmente
                    tomar banhos à Foz, depois de vindimas. Nunca mais para esse efeito voltou a ser
                    posto aparatosamente a caminho, tirado por duas juntas de bois, o enorme
                    carrejão doirado, forrado a damasco carmesim, improvisada arca de Noé que agora
                    apodrecia a um canto da loja, servindo apenas para o Mateus e o irmão jogarem
                    com os filhos do caseiro as escondidas. Até que um estrangeiro apareceu, que a
                    levou por uma bagatela. E foram sucessivamente dispensados o procurador e os
                    escudeiros, venderam-se os cavalos, despediu-se o padre capelão. Vieram as
                    penhoras depois, as vendas forçadas, as vinhas a monte, as tulhas e os toneis
                    vazios. A mina de água que alimentava os tanques, secou. Assim, quando o
                    pequenino Mateus saltou ao mundo, a quinta era um panascal, a casa um pardieiro.
                    E então que nem piorno, nem trovisco dava aquela terra maldita! Valia, a
                    atamancar a grande precisão, que sempre iam rendendo alguma coisa o figo, os
                    sabugueiros e as oliveiras.</p>
                <p>Deste modo, sucedeu que o espirito impressivo e avido do Mateus se abriu à
                    compreensão num envenenado ambiente de desenganos e tristezas. Nada que lhe
                    sugerisse esses claros sonhos cor de rosa, exclusivo apanágio da infância; nada
                    que lhe fizesse tomar em gosto a vida. Vinha fora, intimidava-o a grandiosidade
                    alpestre da paisagem, — serras sobre serras escalando o céu, espadagões de xisto
                    retalhando a terra, pelos córregos a prumo caudalosa a água a bravejar; entrava
                    em casa, e não ouvia senão suspiros, lamentações, por vezes blasfémias, o pai a
                    ralhar, a mãe chorando, — as amargas litanias do presente em confronto com as
                    evocações saudosas do passado... Daí que, insensivelmente, de volta com a
                    educação, com a assimilação física, instalou-se na substancia mesma do seu ser
                    um arreigado gérmen pessimista, um instintivo odio mesclado de desprezo por
                    todas as formulas e convenções sociais. Para mais, esta admirável criança, de
                    uma inteligência prodigiosa e rara, de uma precocidade fenomenal, não havia nada
                    que não perguntasse; aquilo que lhe encobriam, adivinhava-o; tudo inquiria, tudo
                    notava, tudo queria saber. E foi assim como, inicialmente, o sentimento agudo da
                    sua condição fez dele um revoltado.</p>
                <p>Sendo o rapaz ainda criança, a mãe tinha morrido, guinada de desgosto,
                    entrevadinha e idiota na sua cama, onde não fazia mais volume que um garavato
                    seco. Do irmão mais velho, partido para o Brasil, nunca mais houve noticia. Por
                    último, quando o pai faltou também, um seu antigo socio e amigo, do Porto,
                    mandou ir o pequenino órfão, que ficara sem nada, sem ninguém no mundo, e
                    arranjou-lhe admissão no colégio do padre Siks, a Cedofeita. — Aprendia tudo por
                    artes raro ainda, no dizer dos professores, lhes fora dado depararem com um
                    prodígio assim. Mas um pouco intratável de génio, arisco, altivo. Nem admitia
                    repreensões, nem procurava amigos. Só amava a solidão. Nos dormitórios, nas
                    salas de estudo conservava sistematicamente o silêncio; nas horas de recreio
                    procurava o inalterável abrigo da sombra. Era isto efeito da dureza essencial do
                    seu temperamento, e também do seu espirito de rebeldia, da sua irreprimível
                    aversão ao regímen jesuitico da casa. Repugnavam aquele carater impetuoso e
                    límpido os refolhos servis do pensamento; era refratário à tortuosa sujeição do
                    farricoco a sua alma, toda direitura e sol. Nem a enérgica arrogância do futuro
                    agitador poderia nunca pactuar com a cavilosa impostura das insinuações coadas
                    pelo ralo dos confessionários, na penumbra hipócrita das sacristias.</p>
                <p>De uma vez, já no terceiro ano de colégio, na aula de História, deram-lhe, como
                    aos mais alunos, uma dissertação de importância a fazer, — nada menos que a
                    história apologética da Companhia de Jesus. Pois o Mateus não pode esquivar-se à
                    generosa cólera do seu coração, ás sugestivas fulminações do seu espirito. Com
                    uma admirável coragem, com uma sinceridade absoluta, parecendo até que vivamente
                    rejubilando de poder dar vasão por esta válvula, que tão a propósito lhe
                    aparecia, à demolidora febre que o trabalhava, ele escreveu uma longa tese,
                    fidelíssimo traslado do seu sentir, do seu estudo, na qual se propunha pouco
                    mais ou menos demonstrar o seguinte: «Que a Companhia, obra de um místico sonho
                    de Loiola, breve deturpara por completo os fins da sua instituição. Loiola
                    imaginara os seus adeptos como os primitivos companheiros de Jesus, pobres,
                    humildes, alheios ao interesse, tendo por único ideal e exclusivo estímulo a
                    santa alegria de levaram a toda a parte a amorosa doutrina do Divino Mestre. Mas
                    com o andar dos tempos todo esse adorável programa altruísta se adulterou, se
                    corrompeu... Os que deviam ser evangelizadores do Bem converteram-se em
                    apóstolos do Mal, e pela manha, pelo perjúrio e pela intriga foram conseguindo
                    arrepanhar fortunas enormes, fundando dentro dos Estados constituídos
                    verdadeiros estados de usurpação. E, para isto, o seu caminho era simples:
                    suspender o progresso, imobilizar o espirito humano, estreitar o campo ás
                    consciências e atenuar as luzes da ciência, refugando-a cuidadosamente para o
                    vago, por forma que a humanidade intelectualmente se imobilizasse rastejando num
                    cómodo crepúsculo invariável.»</p>
                <p>É claro que, ousadamente lançadas naquele meio, semelhantes afirmações não só
                    causaram indignação, fizeram escândalo. Para mais, avolumava-lhes o sabor
                    sacrílego a vivacidade da forma, esta macabra audácia no dizer, simpático dom da
                    juventude. Chamado o Mateus à presença do superior do colégio, taxou este de
                    pernicioso amontoado de heresias o seu trabalho; queimou o impio caderno na
                    presença do rapaz, não fosse a sua conservação atrair sobre aquela casa de
                    religião a cólera celeste; e convidou-o a que, como reparação, escrevesse um
                    novo tema, ortodoxo e sensato, sobre a origem e progressos da mesma Companhia de
                    Jesus em Portugal.</p>
                <p>— Imperturbavelmente, o Mateus, sem proferir palavra, com um riso estranho,
                    retirou; e logo nessa mesma noite, aquecido numa afogueadora torrente de
                    improvisação, com todas as vingadoras reações do seu instinto sacudindo-o de
                    concerto, escreveu despachadamente, de um jato, um tremendo libelo no qual se
                    demonstrava que em Portugal o jesuitismo arrastara a nação ao último grau de
                    abjeção; moral e fizera muito de propósito estagnar as ciências, as letras e as
                    artes, no mais esterilizante marasmo de que há noticia em toda a história
                    pátria. Baldadamente por vezes a nação quis sacudir o ominoso jugo, essa
                    opressiva canga de treva que lhes avassalava a consciência e caliginava o
                    espirito. Assim, em 1652, as cortes chegaram a representar, contra o monopólio
                    da instrução pelos jesuítas; também contra a instituição dos colégios dos mesmos
                    padres, ali no Porto, protestaram no tempo dos Filipes, em 1638, a nobreza e o
                    povo da cidade. Esta deletéria influencia fora tão radicalmente nociva e tão
                    profunda, que ainda em 1804 a Diretoria geral dos estudos, por consulta de 24 de
                    setembro, asseverava que os jesuítas tinham estabelecido no país «uma barbara e
                    perniciosa ignorância, a qual ameaçava aviltar e entorpecer o génio e o carater
                    português.» Mas a despeito de tudo isto, — continuava, com audácia
                    verdadeiramente infantil o ardido colegial, — os jesuítas em Portugal tudo
                    avassalaram, minaram, conseguiram tudo! Em nenhum outro país eles foram mais
                    poderosos, nem mais funestos. Na sua odiosa oligarquia de dois séculos,
                    deprimiram e arrastaram pelo lodo das ínfimas abjeções um povo dos mais
                    ilustres. Entraram no Paço para manobrarem de intrigantes políticos;
                    açambarcaram as escolas e fizeram com que o país se atrasasse de um século nas
                    correntes do saber então dominantes na Europa; apossaram-se dos confessionários
                    para ganharem pelo terror os espíritos simples, para oprimirem e dirigirem ao
                    seu sabor a consciência da nação: Por último, dois deles bondaram a impelir D.
                    Sebastião à decisiva catástrofe de Alcácer-Quibir!</p>
                <p>Se a primeira dissertação causara escândalo, esta segunda deixou o superior e os
                    lentes positivamente estupefatos. Não os assombrava só a audácia, o infantil
                    despejo das proposições; mas tamanha soma de conhecimentos, em tão escassos anos
                    assimilados. Como se obtivera aquele prodígio? Quem lhe arranjara tão maus
                    livros? Porque sobrenatural poder alcançara semelhante fedelho tamanha soma de
                    erudição? Aquelas lúcidas sínteses de critério, aquela lapidar segurança no
                    dizer? Pareciam artes do diabo... Porque, para mais, ninguém, ao vê-lo, poderia
                    nem de leve imaginar que um ente assim miudinho e tímido pudesse deflagrar em
                    heréticos ímpetos, que naquele pautado e melindroso cérebro escachoasse um
                    vulcão de blasfémias. — E sinceramente estas considerações desconcertavam-nos.
                    Desde o começo que os ardilosos embaidores, em Mateus fariscando um espirito
                    disciplinado e uma rara inteligência, dele tinham planeado fazer, moldando-o a
                    preceito, mais um subtil e manso cooperador. Mas estas últimas manifestações do
                    garotaço ameaçavam frustrar-lhes o intento. Pretendiam fazer dele um neófito,
                    saía-lhes um demolidor.</p>
                <p>Ainda assim, não tiveram o rapaz por absolutamente incorrigível: tomaram aquelas
                    aberrações por demasias de temperamento, brotas de génio, que convinha com
                    paciência e jeito esmoitar. Castigaram-no com prisão a pão e água, e ele fugiu,
                    logo na tarde do dia em que o soltaram, à hora do recreio. Trazia consigo apenas
                    uns doze mil réis de economias, intangível produto de sucessivas dádivas e
                    convites do seu protetor. — Vagueando primeiro ao acaso, sem plano, pelas ruas
                    da cidade, em breve teve que submeter-se ás famélicas exigências do seu juvenil
                    estomago, tornado insaciável pela tortura de oito dias de jejum. Lembrou-se
                    então de ter ouvido falar nuns pantagruélicos jantares do restaurante Cisne, a
                    cinco tostões por cabeça, vinho incluso, e que ninguém levava ao fim. Foi, comeu
                    a rebarbar de quanto lhe serviram, não poupando mesmo as sobremesas; depois
                    seguiu a pé até ás Devesas, onde se meteu no comboio-correio para Lisboa. E aí
                    começou então, para esta desvalida criança de 14 anos, precocemente emancipada,
                    uma torturada vida de acaso, uma sombria e infernal odisseia de azares, de
                    privações. Então, durante anos de seguida, o pequeno e débil Mateus foi o mais
                    admirável exemplo de judiciosa conduta, de mansa conformidade com a sorte, de
                    tenacidade, de luta pela independência, de rija afirmação individual. Austero e
                    sóbrio, nunca teve juventude, fugia de instinto ao prazer. Em breve esgotado
                    aquele magro pecúlio que trouxera, sem mais recursos de espécie alguma,
                    sentiu-se inteiramente só no mundo; e a consciência desta situação, longe de o
                    desalentar, estimulou-o fazendo-o da própria necessidade extrair os meios de
                    atamancar a vida. Quantas vezes, na sua precisão sem fim, baixou m
                    implacavelmente a noite um negro véu de incerteza sobre o dia seguinte. E ele
                    então, resignadamente, nas atormentadas insónias da sua enxerga, levava horas a
                    concertar com inquebrantável afinco a cadeia dos esforços a tentar para vencer.
                    Todo o seu empenho era adiantar-se, ganhar, impor-se, «fazer-se homem.» A
                    precisão fê-lo reflexivo; cedo as dificuldades materiais da vida o encarrilharam
                    na linha do Dever. Foi a mesma dureza da sua condição que lhe temperou o
                    carácter. Depois, o vivo sentimento das necessidades presentes, algumas
                    irredutíveis, fecundou e engrossou os gérmenes de revolta colhidos na angustiosa
                    lição da infância, nas lembranças deprimentes do passado. Assim cresceu e se
                    formou, de reigota sempre contra o destino, como um titânico remador, e por cada
                    novo triunfo mais e mais aziumado o coração de um grande travo de amargura.
                    Assim empubesceu, sem desfalecias e sem risos, sem distrações sensuais, olhando
                    sempre alto e na frente, na mais infantil e cândida despreocupação do amor.
                    Fez-se à custa de muita dor represa, de muita chorada, a cristalização estoica
                    da sua alma. E daí lhe veio essa atenção particular poios quadros de miséria, a
                    sua grande curiosidade enternecida poios que sofriam, a sua fúria iconoclasta
                    pelas iniquidades sociais.</p>
                <p>Matriculara-se na Escola Politécnica e fizera-se anunciar domo lecionista. E,
                    cumulativamente, estudava por conta própria e alheia. Muitas vezes, logo de
                    manhã, com ansia febril ele ia à Biblioteca assimilar o tema da sua lição para a
                    Escola, e ao m mesmo tempo a tese da preleção que havia de nessa tarde lazer aos
                    seus raros discípulos. Datava desta época a sua hospedagem naquela boémia
                    providencial da rua da Glória, a três tostões por dia, cama e comer. Aí travou
                    conhecimento com um culmine-o núcleo de espíritos, claros e independentes, quais
                    eram o Anacoreta, o Baleizão e o Gomes; aí rastilhou incendiários alentos nos
                    ímpetos rubescentes do seu animo aquele curioso estudante crónico da Escola
                    Medica, o Azinhal, — panfletário, agitador de fama e íntimo amigo do Carrilho
                    Videira. Com eles aproveitou muito o novo hospede, nesse sugestivo aprendizado
                    se firmou a sua iniciação doutrinal e se alargou a sua compreensão da vida. Ali
                    as teorias, as audácias, as discussões por vezes paradoxais, pelo irrequieto
                    cenáculo nutridas a título de mero passatempo, perante a sensibilidade virgem do
                    Mateus assumiam foros de dogmas, feriam na sua melindrosa ingenuidade grandes
                    sulcos luminosos, obrigavam-lhe o querer como mandamentos, gravavam-se-lhe no
                    espirito como cunhas. E porque, naturalmente, eram todas também pela
                    reivindicação dos direitos dos humildes as generosas utopias desses jovens
                    corações anónimos, sucedia que a sua simpática influição vinha em larga medida
                    reforçar a hiperemia espiritual do recém-vindo.</p>
                <p>Aos domingos, nos dias feriados, todo o regalo dele era ir percorrer os bairros
                    pobres, esmiuçar os antros de miséria, numa volutuosa piedade palpar e profundar
                    as fontes autênticas da fome e da desgraça; e com esse pavoroso exame colher ao
                    seu messiânico furor calorias novas, e nesse envenenado ambiente exasperar as
                    justiceiras indignações da sua alma. Ás noites, também a sua devorante ansiedade
                    o levava errante, sob a égide primeiro do Azinhal, depois sozinho, pelo sigiloso
                    dédalo das sociedades secretas; era frequente vê-lo então, vivo e incansável,
                    evangelizando, orando, pelas ruas do Bem formoso e Arsenal, largo da Páscoa,
                    pátio do Fiúza e mais centros militantes de anárquica propaganda. E como do seu
                    sonho o vôo não tinha limites, também o âmbito da sua ação não conhecia
                    fronteiras. Não se limitando a adquirir noções, tão quanto possível completas,
                    do movimento atertratico lá fora, — suas principais ramificações, tendências,
                    importância, carater, a linha biográfica dos seus chefes, — procurou logo também
                    enlear-se na engrenagem, pôr-se em comunicação direta com eles. Dentro em pouco,
                    estava em correspondência ativa com os diretores dos jornais Combatiamo, Révolté
                    Avantil e possuía, entre outras, algumas cartas de Cario Cafiero, o amigo de
                    Bakounine, Tolstoi e Reclus. E então que, inflamado no sublime exemplo dos
                    estudantes russos, quando estes iam, campos fora, vergados aos ínfimos místeres,
                    a evangelizar o povo, também ele agora se submetia a todas as baixezas e
                    recorria a toda a casta de sujeições e estratagemas que pudessem trazer-lhe luz
                    ou aplanar-lhe caminho; que algum novo plano fossem capazes de acrescentar ao
                    horizonte sem fim do seu desejo. Assim, foi algum tempo bufo para surpreender da
                    autoridade o plano defensivo; e chegou a bufarinhar-se de frente para poder,
                    ignorado e livre de suspeita, assistir a algumas raras conferências que a esse
                    tempo, com dois delegados da Internacional, vultos como Saraiva de Carvalho e
                    Oliveira Martins celebraram, para inutilizar a pista da polícia, em botes, no
                    meio do Tejo.</p>
                <p>Fizera o Mateus com distinção o primeiro ano da Escola, saindo premiado em todas
                    as cadeiras. Depois, no segundo, na aula de economia prolífica, uma vez chamado
                    à lição, como tivesse o cérebro fumegante ainda dessa estonteadora obra de Karl
                    Marx, O Capital, que devorara na véspera, improvisou uma impetuosa e fulgurante
                    diatribe contra as ferinas desigualdades e opressões do regímen social. Cheio de
                    pasmo, várias investidas fez o lente para interrompe-lo; sempre debalde. Era uma
                    bravia e incrustável torrente de furianas indignações, de sacrílegas audácias
                    ricocheteando sobre a própria autoridade do_ professor. Chamou este
                    paternalmente o fogoso recalcitrante à ordem; ele insubordinou-se. E com uma
                    veemência de energúmeno apodou o bom do velho de «vendido também à burguesia»;
                    terminando, com uma epitética virulência raiando pela loucura, — que,
                    instrumento providencial como ele se estava sentindo ser das vinditas sagradas
                    do povo, nada, absolutamente nada no mundo haveria capaz de amordaça-lo, nem o
                    amor à liberdade, nem o apego à vida!</p>
                <p>Trazido o caso a conselho, foi riscado por um ano. O anúncio brutal do castigo
                    arrepiou-lhe irredutivelmente os brios. Desde esse momento, julgou incompatível
                    com a sua dignidade a Escola, deixou definitivamente os estudos oficiais. E
                    então, paracleto com a incerteza da sua condição, com a negra vacuidade do seu
                    futuro, mais tirânico e veemente se lhe incrustou na alma o odio a todo o
                    existente, bem como a crença na indispensabilidade de uma profunda e implacável
                    remodelação social. Resolveu aproximar-se mais dos humildes, e, para depois os
                    comocionar, identificar-se primeiro com eles. Às suas melhores horas eram agora
                    passadas em Alcântara, pelos grémios, nas ruas, nas ilhas pelas tabernas, na
                    veemente analise, na dolorosa auscultação do viver íntimo aos muitos milhares de
                    proletários que lento agonizam nesse bairro insalubre e triste. Conseguiu ser
                    admitido, como contramestre, numa fábrica de fundição. — E o seu convicto furor,
                    o seu entusiasmo, o seu prazer quando tomou posse! Ali estava ele agora, de fato
                    e de direito, em inteiro e perenal contato com a sua gente... Para os espertar,
                    para inflamar-lhes o coração e polarizar-lhes, inflexíveis e altos ao direito
                    caminho, os olhos, já não precisaria de andar caçando-os a espaços, em furtadas
                    maquinações, como um facínora. Nada, agora tê-los-ia sempre ali assim prontos e
                    unidos, tão obedientes ás suas ordens como ávidos dos seus conselhos. E nesta
                    ordem de ideias logo tratou de lidar sem precaução, de tramar sem descanso. No
                    sonho dominante da sua vida, — a propaganda libertaria, — consumia todo o
                    exclusivismo ardente da sua alma, toda a desprevenida impulsão da sua idade.
                    Sobrava-lhe em sinceridade e ardor o que lhe faltava em resguardo. Corolário: a
                    breve trecho, a imprudente manobra transpirou, deu brado; começaram de espia-lo.
                    Rondavam-lhe a casa, farejavam-lhe a correspondência, seguiam-lhe os passos. E
                    breve contra o tredo proceder as provas se acumularam, fulminantes. As suas
                    parlendas e familiaridades com o pessoal das oficinas eram por demais
                    comprometedoras; do estrangeiro remetiam-lhe jornais subversivos e volumosas
                    cartas, muito lacradas. Tido evidentemente por um homem perigoso, foi despedido;
                    e ainda deveu ao ânimo suave e tolerante do patrão não o ter denunciado à
                    polícia.</p>
                <p>Algumas semanas voltou a divagar então pelos meandros de uma vida de acaso, sem
                    ocupação garantida, sem pão para o dia seguinte... E isto preocupava-o
                    mediocremente. Perante o iluminado ardor da sua fé, era nulo o sentimento da
                    desgraça própria, generosamente delido na piedade pela miséria alheia. Que lhe
                    importava sofrer, se tantos desvalidos da Lei padeciam muito mais do que ele?...
                    Havia de vingar-se, libertando-os. Cimentaria na alforria moral dos outros a sua
                    mesma felicidade. — Assim, agora muito mais à solta, a sua propaganda anárquica
                    continuou. E era o seu alimento essencial. De cada novo dia cifrava-se-lhe o
                    cuidado dominante em atrair mais um adepto, embora não tivesse que comer. — Foi
                    quando lhe disseram que em Xabregas, na fábrica do Almargem, precisavam de um
                    contramestre. Apresentou-se. Jorge simpatizou com o seu modo rasgado, aberto;
                    apreciou-lhe a solida cultura intelectual, tão rara em homens daquela condição.
                    Admitiu-o logo, sem proceder a mais indagações, sem mesmo exigir-lhe precedentes
                    abonatórios. E foi assim como pela segunda vez o Mateus se achou naturalmente e
                    à vontade em meio da sua gente; e logo num alvoroço reconheceu que tinha ali
                    assim para a santa cruzada do seu ideal cooperadores bem mais decididos e
                    valorosos.</p>
                <p>Tinha-se ele agora, arredando o livro, erguido de ímpeto da mesa, e fora direito
                    à mala negra, que abriu, tirando de dentro uma espécie de grosso caderno de
                    apontamentos, encadernado. Com ele voltou à mesa, sentou-se e folheou-o
                    nervosamente, até chegar à primeira página em branco. Então começou para o
                    caderno trasladando várias passagens, datas, conceitos, sínteses do livro
                    formidável que tinha diante de si. E à medida como prosseguia nesta obsidiante
                    operação, a ambreada impassibilidade do seu rosto afogueava-se, e um querençoso
                    e místico ardor inflamava o espiritual azeviche dos seus olhos.</p>
                <p>Tendo terminado, arrojou longe a pena, pôs de parte caderno e livro, e forrando
                    da algibeira a correspondência que o Azinhal lhe dera, começou desta o exame
                    pelos jornais. Eram alguns exemplares, hoje raros, do Eguaglianza, e os últimos
                    números do Combatiamo, La dinamite, e Avanti! E entre estes últimos, que o
                    Mateus percorria com particular interesse, deparou-se-lhe um que trazia na
                    última coluna da primeira página, ao alto, em grandes letras de evidência, um
                    artigo titulado — II SOCIALISMO IN PORTOGALO. O Mateus cravou nele avidamente os
                    olhos, teve um jubiloso sorriso envaidecido. Aquele artigo era obra sua! Nele se
                    fazia primeiro o registo da atual desorganização e impotência do partido
                    republicano português, passando-se depois à breve resenha apoteótica da grande
                    coesão e solidariedade da vida, do pensamento operário entre nós, «um verdadeiro
                    mundo em formação.» aí se aludia, justificando-o por números, ao extraordinário
                    desenvolvimento da organização cooperativista do quarto estado, impositivo e
                    florescente por via da solida rede das suas federações locais, com especialidade
                    em Lisboa, Porto, tomar e mais alguns pequenos centros de indústria.
                    Enaltecia-se também o papel dirigente e ponderador, a brida centrípeta que nesta
                    organização sindical verdadeiramente admirável, afeiçoada pelos grandes modelos
                    belgas, representa a Confederação Nacional das Associações de Classe, a qual, só
                    na capital, alimenta e dirige cinquenta e quatro sindicatos de artes e ofícios,
                    contando para mais de trinta mil sócios. Depois, consequentemente, e sempre com
                    a prova irrefutável dos números, explanava-se e encarecia-se a significação, a
                    importância, a força de agremiações como a Resistente, a Industria social, a
                    Federação, a Lusitana com o seu largo passeio de capitães e os seus cinco mil
                    sócios, a Libertadora, com a sua expressiva divisa — Unidos teremos o pão
                    barato; e muito logicamente terminava o artigo por enaltecer a benemérita função
                    social “Da Voz do Operário” sociedade de instrução e beneficência que subsidia e
                    mantêm uma biblioteca, uma tipografia e escolas próprias, e cujo popularíssimo
                    jornal, a um vintém de assinatura por semana, com a sua tiragem de trinta mil
                    exemplares e o seu programa a um tempo sensato e enérgico, prudente e radical,
                    constitui hoje em Portugal «uma espantosa força ignorada, o grande traço de
                    união moral da simbiose operaria portuguesa.»</p>
                <p>Num alado júbilo interior, o Mateus leu e releu este seu artigo, prestimosa obra
                    de divulgação em que ele juntamente bem servia o país e o partido. Mercê de tão
                    singela e explícita documentação, ficariam dora avante os seus irmãos de lá fora
                    sabendo com o que na realidade poderiam contar aqui. E perante os seus
                    correligionários, agora, que inesperado efeito, que acréscimo enorme de
                    influencia e de prestigio ele não ia obter, quando lhes lesse aquele jornal! —
                    Dobrou-o e guardou-o na algibeira, com os dedos trémulos, mordidos de um brilho
                    de triunfo os olhos; e passou ao exame das cartas. Pois lá vinha também entre
                    estas uma que o fez vibrar num sobressalto, crispando-lhe a nuca, varrendo-lhe
                    por um momento a luz da vista... Finalmente! Era a carta de um mestre chapeleiro
                    de Antuérpia, de nome Bazeleefts, o homem talvez de maior preponderância sobre
                    todo o proletariado belga, o qual lhe prometia com certeza uma visita, para
                    janeiro próximo, acompanhado por um outro delegado, italiano, da
                    Internacional.</p>
                <p>Quando tal leu, o Mateus aprumou-se de orgulho, arredando com violência a
                    cadeira, que um momento oscilou, em desequilíbrio. Então, de pé, aproximou mais
                    o papel dos olhos, voltou a ler, fixou em detido exame a data, a assinatura...
                    não queria crer. A evidência da promessa, a transcendente importância que aos
                    seus planos vinha trazer o simples anuncio daquele fato, insuflou novas energias
                    na sua alma, rasgou largos horizontes de esperança no claro céu do seu desejo.
                    Seria um meio aquele, seguro, infalível, de melhor se aproximarem todos, de no
                    mútuo conhecimento mais solidamente escorarem o generoso impulso altruísta do
                    seu ideal comum. E esta vinda dos dois estrangeiros a Lisboa era ainda obra
                    dele; seria o magnífico epílogo do seus esforços, o prémio ao seu trabalho
                    perseverante, a poder de muita tenacidade, diligencia e amor penosamente
                    conseguido... O que o fez, quando tal considerou, e enquanto demorado dobrava e
                    guardava a carta na mesma algibeira do jornal, passear pelo aposento um
                    vitorioso olhar dominador, como de general que acaba de alcançar o seu objetivo
                    decisivo.</p>
                <p>Depois tomou de cima da mesa o caderno, juntou as cartas e os jornais, e, quando
                    novamente se dirigia à mala misteriosa, passando pela frente de uma das janelas
                    que abriam ao poente, através da sua negra quadrícula fitou de relance o vago
                    escorço ao longe, da cidade adormecida. Atirou com os jornais para cima da
                    prateleira, e seguidamente aferrolhou no cofre o caderno e as cartas, enquanto
                    agora os seus olhos, numa doentia febre invariavelmente acesos, passeavam de
                    carinho, na maquinal atração filha do hábito, pelas duas estantes vergadas de
                    livros preciosos, os mais deles a primor encadernados, e em cujas lombadas
                    vermelhas e roxas os títulos centelhavam verticalmente em riscas na penumbra,
                    uns apagados como sonhos, rútilos outros como ameaças. — Acumulava-se ali, sob o
                    ponto de vista libertário, uma rica biblioteca profissional. Subsídios e livros
                    de toda a ordem, quase todos clássicos. Uns teóricos, tais: O socialismo
                    integral de Benoit Malon, A definição do Crime de Hamon, esse fascinativo
                    breviário de revelações que é Os bastidores do Anarquismo, de Flor O’Squarr, de
                    Cario Malato a Filosofia da Anarquia, Da Comuna à Anarquia; e entre eles alguns
                    recentíssimos, como O Anarquismo, de António de Serpa, e a Psicologia do
                    anarquista socialista, a derradeira obra, daquele mesmo ano, de Hamon. Outros
                    falando de preferência à imaginação, ou de acentuado sabor prático, sugerindo
                    resoluções, esboçando programas, como: as duas brochuras célebres de Kropotkine,
                    A moral anarquista e Um sonho de ansiedade, de Jean Grave A sociedade futura, as
                    Paginas rubras, de Sévérine, A conquista do pão, de Reclus. E mais se liam
                    nessas duas terríficas estantes, vingadoramente enfileirados, entre outros, os
                    nomes de Rudolf Meier, Liebknecht, Proudhon, Naquet, Max Stirner, Molinari, Léon
                    Sai; e havia, soltas, coleções de processos de fama, os anais da Mão Negra,
                    sanguinariamente garrotada pelo governo espanhol, programas impressos de várias
                    associações secretas, proclamações, opúsculos; em suma, um curso perfeito de
                    iniciação, o foral completo da doutrina comunista-anarquista, trazida desde a
                    origem na sua evolução vertiginosa, — estremecido tesouro que o Mateus, durante
                    anos, sistematicamente amontoara, com uma paciência, uma isenção e uma porfia
                    inarráveis, tirando muitas vezes ao vestuário e ao sustento para poder
                    acrescenta-lo.</p>
                <p>Estava ali assim toda a sua alma exteriorizada. Nessa pequena enciclopédia se
                    resumia o dinamismo do seu desejo e se fechava a razão da sua vida. Fora na
                    leitura apaixonada e tenaz, na assimilação: exclusiva e ardente dessa
                    fascinadora ideologia de piedade e rancor, de amores e ódios, de iconoclastas
                    fúrias e utopias generosas, que se embrulhara a confusão ingenuamente caótica do
                    seu espirito, que se forjara a dura têmpera do seu carater, misto singular de
                    iluminismo desinteressado e violência cega e brutal. E, pelo aturado convívio
                    espiritual com todos esses epitéticos sublimes obsesso ele agora também da mesma
                    libertaria aspiração, reputava-se sinceramente investido de uma grande missão
                    providencial, tinha de ser, queria ser, no seu país e no seu meio, o supremo
                    evangelizador do Bem, o messiânico redentor dos fracos e oprimidos.</p>
                <p>E então, em piedosa meditação junto à janela, baixou ele os seus olhos magoados
                    de tristeza para a extensa e negra colina que à sua esquerda, e indefinidamente
                    prolongada, como uma giba de ignomínia descia rastejando té à beira do rio. Ali
                    arfava e gemia compactam ente, na promíscua podridão do montufo, amarfanhada na
                    sombra, empilhada em deletérias tocas fundo cavando a terra, toda a imunda
                    supuração da escória e da desdita humana. Eternamente a sua vida de fome e
                    escravidão estava condenada a fermentar dentro desse circuito infernal, que
                    escapou ao Dante, de tetos rasos de zinco, alfurjas de tijolo, pocilgas de palha
                    e areia, abobadas de catacumba, ninhos de toupeira, covas de lobo incrustadas
                    nos taludes, tudo ciosamente fechado pela linha das chaminés, de roda altas e
                    inflexíveis como esculcas de gigantes. Aí a turbamulta dos rôtos, dos tristes,
                    dos oprimidos tinha de arrastar as suas penas, as suas vigílias de prostração e
                    o seu degredo aviltante; aí rugia os seus írritos arrancos de revolta; aí iam
                    padecendo e engrossando. Aí tinham por fatal obrigação, ao mesmo tempo, sofrerem
                    e amarem, estafarem-se e procriarem, consumir-se e viver... para que a
                    germinação do mal seja contínua, para que umas ás outras as sucessivas gerações
                    de humildes transmitam com o sentimento das privações passadas, o direito ás
                    reivindicações futuras; e para que do seu misero sangue os vapores envenenados
                    vão alimentar longe esse peneiramento luminoso que, como uma exsudação de
                    prazer, ele via aureolando, redondo e alto pelo ar, as sete colinas da
                    cidade.</p>
                <p>Como este doce incêndio, esta coroa arrogante e jucunda dolorosamente contrastava
                    com aquela jazida de treva, com a penúria eterna dessa legião de lázaros, almas
                    amassadas no ínfimo barro, maldito rebanho de máquinas vivas, carne precita e
                    impura, ao mais formal desprezo, ao mais completo oblívio votada na eterna noite
                    da sua dor... tendo aos horrores do seu trabalho de extenuamento por lenitivo
                    único o vício, tragicamente redouçando na alternativa entre a miséria e o crime!
                    Quando havia de esta tremenda iniquidade acabar?... Fora a mesma batalha, ia
                    para vinte séculos, de Jesus cristo. Mas este ao menos conseguira alguma coisa.
                    Porque é que esperavam então, ele e os mais que como ele, por esse mundo fora,
                    aquecidos na té pela mesma santa cruzada, polarizados à mesma generosa
                    aspiração, Comum, tinham sobre os seus ombros o cargo e nas consciências ardendo
                    a iluminada ansia de emanciparem totalmente o homem, conquistando-lhe pela
                    liberdade a paz, assegurando-lhe com a igualdade a ventura?... O grande ideal
                    seria que essa suprema, remodelação se fizesse pacifica, serenamente, toda por
                    meio da concórdia e do amor, talhada na voluntaria abdicação de uns, nas
                    moderadas reclamações dos outros. Que bom que o formidável cataclismo social
                    iminente se operasse pela persuasão, numa espécie de suave e cândido apostolado,
                    consoante ao do Evangelho; ou que o advento da nova era pudesse, segundo o voto
                    de Tolstoi, preparar-se apenas por meio da «resistência passiva ao Mal...» Pois
                    porque não tinham de as ideias, as revoluções: caminhar serena e
                    irredutivelmente, como os astros no Espaço, com a majestade, a fatalidade e a
                    energia de um plano divino?</p>
                <p>Mas não... era uma irrealizável utopia esta; garrotava-a na origem o terino
                    egoísmo humano; balizavam os dois extremos do campo antagonismos irredutíveis. E
                    então, visto como era forçoso recorrer à violência, ele lá iria também, entre os
                    primeiros, escravo da vontade e senhor do coração, incondicional executor da
                    fatalidade das coisas; ele seria prometo a marchar, a precipitar-se na torrente,
                    quando o terrível molosso negro, acordando, sacudida num estremeção de brio a
                    poderosa gárgula de lama que envolve a cidade, resolvesse finalmente erguer-se e
                    num vitorioso ímpeto seguir à conquista do pão e do descanso. — Do seu ignorado
                    posto, agora mesmo, ele como que via já crescer, agitar-se e mover-se esse
                    imenso bando implacável... Era primeiro, na sua grossa madorna de reptil, um
                    impercetivel coleamento; depois ele aí caminha na sombra, torvo e inflexível,
                    alastra, monta, avança... e logo adstringe numa invisível gargalheira de aço
                    toda a cidade, esmaiada no gozo, adormecida na ignorância. O assalto é
                    fulminante; sente-o ele de longe... aí! E breve depois sobre as sete colina já
                    não paira o mesmo aurorai e manso lasseiro, antes a sua atenuada claridade, era
                    que vingadoras sombras se projetam, adquire sinistros brilhos, em exasperados
                    rodilhões escala as nuvens, tem estrebuchamentos de agonia, cruóricos laivos,
                    alucinadas crepitações de labaredas. — É o sangue dos grandes e poderosos que
                    agora ali espadana a jorros, e depois de haver com o seu morno plasma amolecido
                    a raiz dos privilégios, lambe espavorida mente o céu em espiraladas estrias,
                    fumegando...</p>
                <p>Entretanto, enquanto a decisiva hora não chega... sim, é bom que todos esses
                    milhares de proscritos da fortuna sofram... muito, cada vez mais... e que cada
                    nova geração de miseráveis passe a outros, mais miseráveis ainda, a sua
                    progressiva herança de ódios. O exacerbamento da dor é providencial. As
                    iniquidades acumuladas, de cada novo coração de deserdado farão um acumulador
                    também de insuperáveis energias para a obra vingadora e justa de amanhã!</p>
            </div>
            <div>
                <head>CAPÍTULO VII</head>
                <p>Mal rompia ainda a manhã, quando ao longo da tortuosa artéria que margina o rio,
                    entre Marvila e Xabregas, os postigos das primeiras tabernas, abrindo-se, de
                    onde a onde almagravam convidativas lucarnas no amorfismo vago da cacimba. Um
                    confuso algodoamento obliterava as coisas. Envaginava a paisagem como que uma
                    aérea cortina de moliço azul, pontuada levissimamente de murça cor de rosa. Da
                    cidade o languido espreguiçar matutino, a vida, o movimento deliam-se sob essa
                    rociada camisa de noite da Natureza que acordava. E o bairro teria a aparência
                    de um deserto, seria como que a necrópole secular, na sua mortalha de névoa
                    acoinchada, Nalguma grande civilização extinta, se não fora, no vértice das
                    chaminés, o fumo que começava a jorrar em ralos famulentos, bolsando grossos
                    rolos de treva, isófonos com a rouquenha artagem da minúscula multidão que em
                    baixo, esparsa em filamentos negros e direita ás avinhadas boqueiras, se
                    difundia, formigava e engrossava, orientada ás suas sabidas etapas de prazer,
                    numa obsessiva avidez virgulando a terra.</p>
                <p>Dir-se-ia, pela monstruosidade, pelo horror, que estas aparições sinistras eram
                    incorpóreas figurações do nevoeiro, que formavam o resíduo à pulverização
                    diáfana do ar, ou que emergiam do espontâneo fermento das podridões da rua. Iam
                    apressados todos, gorros para os olhos e mãos nos bolsos, numa eterna
                    humilhação, vergados ao destino implacável, seus passos batendo muito claros no
                    silêncio húmido da noite que debandava. E então que, na luz nascente, faziam
                    praça inconsciente de todos os aleijões, de todas as deformidades, a que a
                    escassa luz da manhã ainda prolongava vagamente o horror. Nesta asquerosa
                    tapeçaria humana, os trajos e as expressões fundiam-se em tão estreita harmonia,
                    que não seria possível diferençar onde acabava o farrapo e onde começava a
                    carne. Os trechos visíveis da epiderme eram mais esquálidos que os andrajosos
                    restos que a cobriam. Como se, na sua sofreguidão, na sua miséria insaciável, a
                    mesma pele tivesse devorado o pano, e agora, envenenada e sórdida também por
                    essa assimilação infeta, adquirisse inconfundíveis analogias de estrutura e
                    essência com os trapos que ao sabor da aragem lhe açoitavam a anatomia
                    derrancada. — E eram tudo evocações de presídio e hospital, tipos de fome e de
                    ruina. Uns movendo-se de salto, perramente, na sinartrose das articulações
                    exaustas; outros com os ombros ladeiros demandando, numa ansia de libertação, a
                    terra; uns com os músculos dilacerados por excessos, esboicelados os ossos por
                    desastres; outros, vibriões da desgraça, com o rosto lascado, roído de miséria;
                    estes, derreados de trabalho, com os fémures fazendo angulo a meio das pernas
                    prestes a ajoelhar; aqueles dobrando horizontal a espinha, numa insensível
                    resignação de doidos tranquilos; estômagos cuja sondagem faria vertigens, lábios
                    cosidos sobre vulcões de ameaça, pupilas ardendo num delírio de vingança ;
                    crianças com os esguios troncos como linhas e dolorosamente estiraçados, até ao
                    calcanhar, os braços; velhos em cujas pequeninas figuras, cavadas e lívidas,
                    apenas descomunalmente avolumam os pés e as mãos. — Pois toda esta ronda
                    patibular de espetros, que é rara primeiro, a cada momento cresce e se reforça,
                    rompendo das tocas, fumando da calçada, surdindo das vielas; toda se arrasta
                    maquinalmente, como um bando de hipnoblesicos, na avassaladora atração daqueles
                    pontos luminosos.</p>
                <p>Ao balcão da tenda do Zé Pequeno, que fora uma das primeiras a abrir, o Manoel
                    António e o Adelino tomavam na ponta das unhas gretadas cada um seu cálice de
                    aguardente. E o primeiro, tendo bebido e, poisado o cálice, espalmando de regalo
                    a mão no extenuamento concavo do tórax:</p>
                <p>— Isto faz peito!</p>
                <p>Ao que o Adelino, bebendo também, pipiou:</p>
                <p>— Olé! É o que nos vale.</p>
                <p>E a sua devastada figura assumia projeções descomunais na fumosa luz do
                    candeeiro.</p>
                <p>— Que demónio de homens são vocês? — observou com desprezo o da locanda.</p>
                <p>— Falas bem...</p>
                <p>— Não têm sangue!</p>
                <p>— Não levamos a tua vida, é o que é... Ora o safado!</p>
                <p>— Que, isto é, — acudiu e Manoel António com tristeza, — eu daqui a nada estou
                    com o coiro a arder. Nem que tivesse já a pá no inferno!</p>
                <p>— Ora... — arrastou em tom de dúvida o Adelino dobrando sobre o segundo copo a
                    língua encoscorada. — Primeiro que acendam os fornos...</p>
                <p>— Qual! — disse o outro. — Apenas entro... Aquele raio daquela tijolada estão
                    recozidos, têm o calor entranhado... chisnam uma pessoa. Porque tenho eu os
                    olhos estoirados?</p>
                <p>— Quer não que eu, todo o dia ali assim, no Almargem, aferrado à calandra, de
                    peito à finca... um cheiro de dar volta ás tripas, a casa fria que nem uma
                    praga! Não sei qual seja pior!</p>
                <p>— Leve o diabo a escolha!</p>
                <p>Entrou ao tempo, derreado e trémulo, o Zanaga. O seu invariável cachimbo aceso,
                    com um embrulho na mão:</p>
                <p>— Adeus, Zanaga!</p>
                <p>— Vens fornecido hoje...</p>
                <p>— Que demónio trazes tu aí?</p>
                <p>— Tiveste queijada?</p>
                <p>— Eh! Veja como fala... — repontou de ameaça o enfardador dos Fósforos. — Eu não
                    tenho as suas manhas, ouviu, seu cara de canejo?</p>
                <p>Mas, muito guloso, o Adelino, chegando-se e aflautando familiarmente a voz:</p>
                <p>— Bom, bom... já aqui não está quem falou. Repartes com o teu amiguinho?</p>
                <p>Sacara o Zanaga com importância, em cima do balcão, de dentro de um imundo
                    retraço de jornal, um cibo de chouriço, e comandava para o redondo
                    locandeiro:</p>
                <p>— Vamos, morraça para aqui!</p>
                <p>Depois estrinçou nas mãos a apetecida vianda; e, enquanto o taberneiro lhe servia
                    a aguardente, estendendo ao Adelino um pedaço entre os dedos reluzentes:</p>
                <p>— Eu não sou homem de nabos era sacos. Vá lá... — E dando outro isco ao Manoel
                    António: — Toma! É pouco, mas de sustância.</p>
                <p>Em seguida bebeu; e enquanto atochava de tabaco o cachimbo:</p>
                <p>— E então, alguma novidade ontem?... — O grosso bodegueiro teve um sorriso
                    misterioso e encolheu os ombros com desdém. — Deixaram-te em paz?</p>
                <p>— Os guitas por aí andarem toda noite. Cada olho cá para dentro!... E então com
                    as meias-arrobas debaixo dos oleados, pareciam-me as basílicas da Sé. Mas eu,
                    moita quatro vinténs! Andando sempre na minha lida... Nem para eles olhava!</p>
                <p>E ria alvarmente, cofiando os matacões; ao passo que o Zanaga, renovando o
                    fogo:</p>
                <p>— Deixa! A coisa há de andar...</p>
                <p>Mas de repente, olhando a porta, o Adelino:</p>
                <p>— Olha! Olha! Este já vêm armado pro que der e vier.</p>
                <p>Aludia ele ao Serafim, cujo terroso esqueleto protuberára na locanda, trazendo,
                    nu e luzente sobre o ombro, o seu largo cutelo de tanoeiro.</p>
                <p>Todos olharam; mas a sua bonacheira expansão quebrou-se perante a maligna
                    frialdade do Serafim, que cabisbaixo rosnou:</p>
                <p>— Vá de paródia!</p>
                <p>— Homem! Que bicho te mordeu?</p>
                <p>— Então já um homem não pode andar com a sua ferramenta?</p>
                <p>— Não, é que estávamos aqui assim a falar na nossa grande combinação, meu tanso!
                    — insinuou-lhe com vivacidade ao ouvido o Zanaga, ainda de cachimbo na mão. — E
                    como entraste de alfange... — para essa combinação não contem vocês comigo!</p>
                <p>— Então!? — acudiu o Zanaga, desconfiado.</p>
                <p>E lugubremente o Serafim, depois de beber:</p>
                <p>— Antes disso, estico...</p>
                <p>— Maluqueiras!</p>
                <p>— Anda comigo uma tristeza mortal... não há sol que me aqueça, nada me apetece,
                    não durmo... os ouvidos sempre como dois búzios, as pontas dos dedos a
                    arder...</p>
                <p>— Isso é medrança, homem! — disse, batendo-lhe no ombro, o Zanaga.</p>
                <p>E, direito cada qual à sua obrigação, os quatro dispersaram-se; enquanto o Zê
                    lhes anotava num caderno o débito, e depois, trepado a um mocho, soprava o
                    candeeiro.</p>
                <p>Dia claro agora, tinham um brilho lavado as coisas, a paisagem recuava ás suas
                    linhas normais, definiam-se direitos de alto a baixo os prédios. Já se erguia a
                    espreitar sobre o Tejo o grande disco rutilo do sol, ensanguentando as águas; já
                    um grosso murmúrio humano subia no ar e de roda das moagens os pardais
                    esvoaçavam. Cortando a toada cantante dos pregões, o silvo estridente das
                    máquinas tocava a reunir, naquele imenso acantonamento de tristeza de trabalho.
                    E a grande artéria marginal, corrida em frémitos de vida, era em todas as
                    direções cortada e cheia por uma dolente invasão de proletários, — menos
                    esquálidos estes, menos fantásticos, sem essas sinistras e monstruosas mascaras
                    a que a indecisa luz da madrugada emprestava um ar de pesadelo; antes
                    aconchegados num relativo bem-estar, molhados em grupos mansos, medindo com
                    igualdade o passo, os fatinhos cerzidos com carinho. Trajavam os homens jaqueta
                    de pano ou blusa de ganga azul; os garotitos, numa gravidade precoce, vinham
                    descalços; e as mulheres, muitas mulheres, iam todas invariavelmente
                    amortalhadas no xaile e o lenço, vergadas a uma lassidão resignada e tranquila,
                    de olhos à terra e uma grossa restolhada de chinelos pela brita húmida dos
                    passeios. A cada momento, na embrulhada confusão da rua, a promiscua jolda
                    embarrava com as carroças do lixo, tresmalhava os rebanhos de cabritas anémicas,
                    imobilizava ao alto as cestas dos jovens de padeiro. De sorte que a esta hora
                    preguiçosa todo o bairro, servilmente estiraçado pela falda lívida das colinas,
                    barrando o rio de caliças caprichosas, era como uma floresta desgrenhada e
                    cantante de cabeças que deliram gozos, de chaminés que vomitam nuvens, de
                    vidraças que incendeia o sol.</p>
                <p>Cerca a meio da rua e prolongando, ladeira abaixo, caminho de Lisboa, o muro do
                    parque, destacava a fábrica do Almargem, com a sua grande fachada irregular,
                    toda em cinzento, dura e fria na sua carapaça industrial; como um gigantesco
                    pólipo complicada e chumbada à terra, fiadas seguidas de ventiladores, negros e
                    redondos como tentáculos, incrustado longe pelas terras o bracejar geométrico
                    das oficinas; anastomoses de canalizações, azas de fios metálicos por toda a
                    parte, e os tetos de zinco, caixilhos de ferro, vidros despolidos, lisos os
                    umbrais riscados na mesma cor uniforme da parede, e apenas as vergas e os
                    peitoris em bordaduras salientes de tijolo. Em baixo, rente com a rua,
                    rasgava-se alternamente, a todo o comprimento, em portões e frestas; e
                    corria-lhe por cima uma alta platibanda, lisa, de alvenaria branca, natural
                    resguardo a uma espécie de larga varanda ou terraço, ao fundo do qual, num plano
                    mais recuado, se aprumava então o colosso banal, em dois andares, das oficinas.
                    Instalavam-se num dos extremos os escritórios; no outro a casa da máquina e do
                    dínamo especial para a iluminação, formando corpo à parte, empenachada agora de
                    fumo, suando ruídos gordos de óleos e metais, e com a elevada ponta do seu
                    frontão e o amplo portal em arco, todo envidraçado, tomando um simultâneo aspeto
                    de armazém e de cárcere, de estufa e de templo.</p>
                <p>A mansa multidão obreira vinha entrando devagar, numa arrastada passividade, numa
                    inconsciência de máquinas, enfarados, inertes pelo sentimento da fatalidade
                    iniludível daquela forçada contribuição dos melhores glóbulos do seu sangue, de
                    toda a arrogância e vigor da sua vida. Franqueavam em baixo um portão, ao
                    centro, subiam uma escada de pedra, entaliscada na muralha, e depois em cima,
                    alastrando pelo asfalto do terraço, vinham todos desfilar em revista por diante
                    da doce figura sorridente do Mateus, o qual lá estava plantado firme no seu
                    posto, rente à dura mole da fábrica, à ilharga do enorme e negro boqueirão que
                    na sua insaciável voracidade a todos ia engolindo.</p>
                <p>O bom ar protetor do contramestre animava-os, fazia-lhes mais leve a dura
                    condição da sua sorte, aquecia-lhes o coração e refrescava-lhes as entranhas.
                    Saudavam-no com olhos de agrado as mulheres, os homens num instintivo movimento
                    de amor e de respeito. E ele a todos falava, a todos conhecia; tratava a este
                    pelo nome, aquele por qualquer epiteto familiar, aqueloutro por alcunhas filhas
                    da profissão; e nas costas os ficava com piedosa atenção considerando, à medida
                    como essas muitas centenas de pacíficos condenados se sumiam por aquele antro
                    sem esperança, entregando as senhas.</p>
                <p>Uma mulherita derrancada e pequena, — de preto, olheiras fundas e uma dolorosa
                    quebreira no pergaminho dos lábios ao abandono, — aproximou-se dele com
                    humildade:</p>
                <p>— Com licença, Sr. Mateus...</p>
                <p>— Adeus, Margarida; diz lá...</p>
                <p>— É que eu ontem... peço desculpa... faltei meio dia, porque fui ao enterro da
                    minha irmã.</p>
                <p>— Fizeste a tua obrigação, rapariga.</p>
                <p>— Se me perdoassem a falta... Era uma esmola.</p>
                <p>— Não penses mais nisso. Vai com Deus!</p>
                <p>— Agradecida, patrão! — suspirou a fiandeira.</p>
                <p>E num grato meneio, de cabeça baixa, entrou à fábrica, com os macerados olhos
                    fundentes de ternura.</p>
                <p>Mas já outra se adiantava também, andrajosa e oftálmica, na tanada asperidão da
                    pele ardendo-lhe cruamente as pálpebras túmidas, mordidas de vermelho. — Pedia
                    escusa por dois dias; era ordem do médico. Não via o fio. Em forçando a vista,
                    eram logo os olhos a chorar... — E erguia numa súplica ao Mateus o rosto de
                    cera, num molesto bater dos cílios, grossos de purulências.</p>
                <p>— Pois não venhas amanhã, — disse-lhe apiedado o Mateus, desviando os olhos. —
                    Trata disso, mulher!</p>
                <p>— Ah, já não tem cura, patrão... É escrofuloso.</p>
                <p>E resignada, num sorriso lívido, seguiu para a oficina, com os dedos ásperos e
                    ácidos ainda de rês-tos de comida, esfregando maquinalmente os olhos.</p>
                <p>Outra passava agora, ruça, lábios de febre, o miudito rosto herpético, a face
                    assimétrica e o peito côncavo, a tossicar. — Pedia para retirar em tendo dado o
                    seu meio dia. E era se pudesse... Doíam-lhe muito o peito e as costas. Uma
                    pontada constante!</p>
                <p>— Sabes que estás sempre a faltar? — objetou o Mateus com doçura.</p>
                <p>— Que remédio tenho eu! Assim Deus me dê saúde, em como não posso.</p>
                <p>— Isso custa pouco a dizer...</p>
                <p>— Ó Sr. Mateus!</p>
                <p>— Ora olha bem para mim...</p>
                <p>— Juro-lhe que vim eu mesma, por não ter quem mandar! Senão, não deixava a
                    cama.</p>
                <p>— Deus te dê saúde... Pois vai-te embora, anda lá!</p>
                <p>— Obrigada! Muito obrigada, Sr. Mateus! Deus Nosso Senhor lho pague... —
                    exclamou, numa explosão de grato jubilo, a pobre rapariga. — Ai, filhas! Isto é
                    um santo.</p>
                <p>E desandou rápida, direita à escada, entre o mudo aplauso e o comovido sorrir das
                    companheiras.</p>
                <p>Seguiu-se um matulão já grisalho, prognata e refeito, os dedos felinos, o nariz
                    impudente, e olhos de falsidade nas pequeninas pálpebras inquietas.</p>
                <p>— Ó Sr. Mateus, eu vinha-lhe pedir licença...</p>
                <p>— O quê! Pois também tu?...</p>
                <p>— Dar hoje só meio dia...</p>
                <p>— Já me tardavas!</p>
                <p>— Não mas é que tenho meu cunhado no governo civil... Mandou-me agora dizer.</p>
                <p>— Que fez ele?</p>
                <p>— Se calhar, foi bebedeira... alguma paródia em que se meteu.</p>
                <p>— Lá se avenha!</p>
                <p>— Pois sim, Sr. Mateus, mas é que está lá sem ninguém... sem dinheiro, nem
                    comer.</p>
                <p>— Manda-lho.</p>
                <p>Depois de uns segundos de pausa, com a maxila cafreal sacudida numa crispação de
                    arrelia, o marmanjão disse:</p>
                <p>— Não, eu preciso lá ir...</p>
                <p>— Pois vai, — disse-lhe com firmeza o Mateus.</p>
                <p>— Na certeza que não voltas!</p>
                <p>O molosso estremeceu e nos olhos cosidos passou-lhe uma faísca de ameaça. Por
                    fim, depois de uma hesitação, voltando costas e agitando os ombros:</p>
                <p>— Ora! Em toda a parte se ganha.</p>
                <p>E partiu; enquanto o Mateus, impassível, era agora rodeado por um lamuriento
                    bando de mulheres, que todas avançando à compita, invetivando-se,
                    atropelando-se, com aflitivo exaspero pediam trabalho, ferozmente o extenuamento
                    e a fome vincados na atitude, na expressão, nos olhos, torcidos ao alto, numa
                    suplica dilacerante, os braços, os longos dedos ressicados à frente das mãos
                    erguidas.</p>
                <p>Contrariado, sem as olhar e recuando, o Mateus defendia-se. — Que não podia ser,
                    tivessem paciência... havia falha de encomendas... já tinha gente a mais. — E
                    amalhoadas, sucumbidas, as pobres postulantes estacavam e debandavam, tornada
                    por esta recusa mais amarga a algidez do seu abandono, mais negra a noite da sua
                    dor; quando, do portão mesmo da fábrica, rompeu a risonha figura de Jorge
                    Meireles, airoso e forte, de chapéu mole, chicote, fato cinzento e botas de
                    montar. Pois, mal que o viram, ei-las de novo atacando, numa faminta avidez,
                    molhada de lágrimas:</p>
                <p>— Dê-nos que fazer, Sr. fidalgo! — Menino Jorge, tenha dó de mim! — Cinco filhos
                    em casa e nem um trapo para empenhar! — Ninguém me fia um pão! — Fidalgo! Por
                    amor de Deus...</p>
                <p>Entretanto Jorge, que retribuirá afetuoso a saudação do Mateus, sem lhe estender
                    a mão:</p>
                <p>— Isso não é comigo.</p>
                <p>— Por amor de Deus! — Pela sua boa sorte, Sr. Jorge!</p>
                <p>— Entendam-se aqui com o mestre Mateus.</p>
                <p>— Não quer...</p>
                <p>— O que ele fizer está bem feito.</p>
                <p>Mateus adiantou-se, e urbanamente, mas com firmeza:</p>
                <p>— Não pode ser!</p>
                <p>E, sobre esta recusa formal, Jorge voltou ligeiramente costas ao doloroso bando
                    das pedintes, que avergadas, numa forçada resignação, numa passividade idiota,
                    foram lentas desandando à escada, de olhos baixos e as mãos juntas, numa
                    convulsão de exaspero agora retesando os braços.</p>
                <p>Quando as viu afastarem-se, o contramestre, inclinando-se, perguntou:</p>
                <p>— O Sr. Jorge quer alguma coisa?</p>
                <p>— Não... Que hei de eu querer?... — disse Jorge distraidamente, olhando o céu. —
                    Não há novidade nenhuma, não?</p>
                <p>— Por enquanto...</p>
                <p>— Está muito bem, — disse com agrado o simpático rapaz, enquanto se voltava para
                    o criado que o acompanhava a distância. — Francisco! Aparelha-me o Emir. Num
                    instante, ouviste? — E ao tempo que o criado corria na direção do parque,
                    novamente para o Mateus, explicando: — A manhã está a desafiar. Vou
                    desenferrujar as pernas dar uns saltos ao Campo-Grande.</p>
                <p>Sem acrescentar palavra, o Mateus curvou-se ligeiramente.</p>
                <p>Jorge seguia ainda, com a vista apiedada, o rasto humilde das últimas mulheritas
                    na frialdade húmida do asfalto.</p>
                <p>— Diabo! Não se poder atender nem sequer uma ou duas...</p>
                <p>— A ocasião, sinceramente, é péssima.</p>
                <p>— É o que esta gente não quer ver...</p>
                <p>— E ainda se houvesse fartura de encomendas... Mas, infelizmente, V. exa. bem
                    sabe, há aí uma porção de fardos por colocar. — Jorge abanava numa aquiescência
                    a cabeça bondosa e enérgica. — A única coisa que conviria talvez desenvolver era
                    o fabrico de toalhas grossas e serguilhas; mas os teares estão todos
                    tomados.</p>
                <p>— Bem, você sabe muito bem o que melhor convêm à fábrica. E com despreocupada
                    leveza, dando meia volta e afagando o calção com o chicote: — Que tenham
                    paciência... Até logo, adeus!</p>
                <p>Tinha já dado alguns passos em direção à escada, quando, erguendo a mão numa
                    reminiscência e voltando-se:</p>
                <p>— Ai, é verdade, ó Mateus... eu depois de almoço volto. Temos que falar aí numa
                    coisa...</p>
                <p>— O que V. exa quiser.</p>
                <p>— Um melhoramento mais, uma inovação... Ideias da minha irmã!</p>
                <p>O contramestre abriu perturbadamente os olhos.</p>
                <p>— É preciso desimpedir alguma dessas casas do fundo, — prosseguiu Jorge. — Uma
                    clara, que tenha bem ar.</p>
                <p>— Ao fundo?... Não será fácil.</p>
                <p>— Então a última casa da ponta, ao norte?... Ali assim, deitando para o terreiro
                    dos jogos, é que ficava bem.</p>
                <p>— Está lá o depósito de material.</p>
                <p>— Isso muda-se.</p>
                <p>— Enfim, vamos a ver... Tudo depende do novo destino que lhe queiram dar.</p>
                <p>— O nosso plano é bem simples e bem humano... — ia Jorge a explicar. Porém nisto,
                    como visse já na rua, em baixo, o Francisco com o cavalo: — Olhe, Mateus, o
                    melhor... a Adriana vêm cá e falia ela mesma consigo.</p>
                <p>Impercetivelmente o Mateus, corando, estremeceu. Jorge completou:</p>
                <p>— O maior empenho é dela; entendem-se melhor os dois. Até logo!</p>
                <p>E desapareceu lesto pela escada de pedra; em-quanto o contramestre ficava uns
                    segundos pregado no mesmo lugar, tímido, apreensivo, absorvido por uma deliciosa
                    inquietação interior... Depois, sacudindo a cabeça, entrou à fábrica, para a sua
                    invariável inspeção matinal.</p>
                <p>Agora ali dentro a vida tomava um aspeto especial, as horas contavam devagar, o
                    frio, a indiferença, o tédio despiam de alto a baixo as brancas paredes
                    salitrosas. O que quer que era de opressivo e triste, sobrenadando, colava cada
                    um à sua faina, vergava os dorsos e encruecia as coisas. Havia uma troca formal
                    de carateres entre o homem e a matéria bruta, tornada inteligente e ativa à
                    custa da passividade sem remissão dos serventuários. As máquinas transmitiam a
                    sua insensibilidade, o que elas têm de fatal, de irresponsável, de sinistro, a
                    essas centenas de míseros seres ali de manhã à noite inexoravelmente amarrados
                    ao trabalho, sem alívio, sem trégua, sem descanso, pálidos e cativos na crua
                    luz, na álgida nudez das oficinas. Havia um enfarado cheiro ao algodão.
                    Emanações resinosas pesavam no ar. Um fartum estranho rebalsava aquele ambiente
                    agitado e sujo. E era anestesiada a vontade, e estrangulada a alegria e toldado
                    o cérebro pelo cheiro acre dos óleos, pelo áspero buzinar dos engenhos de aço,
                    por aquele ronquido incessante, aquele atropelado fermentar da riqueza, aquele
                    remoinhar vertiginoso e febril de correias, rolos, cilindros, êmbolos, turbinas,
                    veios e roldanas.</p>
                <p>Logo no primeiro compartimento, à direita, — a sala da mistura — cinco homens
                    apenas trabalhavam. A meio da casa, o algodão em bruto, rompendo em rústicas
                    escamagens dos sacos intumecidos, mareado de manchas húmidas, como a lã virgem,
                    posto a monte em farfalhos sujos, era impelido para o interior de uma grande
                    caixa de madeira, erguida a prumo, dentro da qual rapidamente escarpado,
                    aparecia em cima depois, numa rama solta e mais leve, posto a correr pelos
                    carris horizontais que de banda a banda tomavam toda a quadra; e daí caía na
                    joeira do primeiro abridor esparso em farrapos, como neve. E todo este movimento
                    seguia manso e fácil, em velaturas de carinho, desdobrado em maciezas fluentes
                    pela alta atmosfera peneirada de filamentos brancos.</p>
                <p>Quando viram entrar o contramestre, os cinco abridores levaram as mãos ás boinas,
                    saudando. Ele correspondeu sobriamente, com um gesto; e aproximando-se do mais
                    velho dos cinco, — um honrado tipo de ancião, bem espaduado, curto, olhos azuis,
                    uma fina lanugem vegetal algodoando-lhe os tesos pêlos brancos da barba, —
                    exprobrou-lhe ao ouvido :</p>
                <p>— Faltaste no sábado!</p>
                <p>— Estava tão doente! — balbuciou, confundido, o velho tecelão.</p>
                <p>— Eu logo vi... — disse o Mateus, com desprezo, — Assim, que diabo querem vocês
                    fazer?</p>
                <p>— Não me podia arrastar, palavra.</p>
                <p>Mas renitente o Mateus, encolhendo os ombros:</p>
                <p>— Sentem-se bem com a canga... Andai lá! — E já junto de outro, elevando a voz: —
                    Pois a vossa libertação esta mais próxima do que vocês imaginam... Muita união,
                    muita união! E um bocadinho de coragem. Que demónio custa isto?</p>
                <p>— Eu cá estou prometo!</p>
                <p>— Eu não fui, porque ninguém me disse nada!</p>
                <p>— Vamos para onde o mestre Mateus quiser!</p>
                <p>E com os olhos incendidos num clarão de esperança, enquanto o Mateus descia à
                    sala seguinte, já os cinco ingénuos conspiradores com impulsivo ardor se
                    apegavam ao trabalho.</p>
                <p>Na segunda sala cinco homens também. O encarregado da oficina, ao centro,
                    plantado junto da caixa-forte, todo cingido com ela, vigiava atento a entrada
                    dos grossos flocos de algodão arminhado para a goela, eternamente faminta, desse
                    paralelepípedo colossal de ferro maciço, desse negro sumidouro impenetrável, com
                    a base afogada nos montões da rama expelida, quase topetando com o teto a larga
                    cornija chapeada, e incessante golfando nuvens de dejetos brancos. A porção ali
                    dentro afastada vinha sair ao de cima, passando depois por um caleiro à balança
                    automática, que o pesava. Daí, entrava nas talas em rampa dos batedores, que
                    pelo seu turno o deglutiam também, industrializando-o, babujando pardas
                    excrescências; e entregando-o por fim, imprensado, sujeito em camas
                    concêntricas, empastado e enrolado em grandes cilindros de ferro lavrado, os
                    quais eram levados então para a oficina ao lado. Aquilo que os batedores
                    rejeitavam, passava ao alimpador; os sobejos deste iam ainda à esfarrapadeira,
                    que definitivamente sentenciava a inutilidade dos últimos resíduos.</p>
                <p>Um grande e ruidoso curador batido de bravas sonoridades, regulava os andamentos
                    e centralizava o trabalho. Mas as suas prudentes vibrações perdiam-se no alto
                    estridor dos outros engenhos, que periodicamente, voltando à mesma nota,
                    grazinavam o seu vaivém, com uma intensidade grossa e aflitiva, por vezes
                    trágica, ora em hinos cheios de triunfo, ora em arrancos de suprema dor... cava,
                    torcida e ululante como a súplica de pavor de um condenado, arrastada em atritos
                    que eram estertores, sibilada em contatos longos como gemidos.</p>
                <p>Ao ver o contramestre, deixou o seu posto o encarregado, soltando as pernas da
                    filaçagem gorda que o envolvia, e veio adonde a ele, respeitosamente, sincero e
                    simples dentro da sua velha blusa, salpicada de coágulos vegetais, com a barba
                    rude rompendo em desmazelo no livor das faces encovadas.</p>
                <p>Com mostras de uma deferência especial, o Mateus apertou-lhe a mão.</p>
                <p>— Adeus, Pascoal! Então, anteontem à noite?...</p>
                <p>— Está muito bem, senhor!</p>
                <p>— Entendeste-me?</p>
                <p>— Pudera não!</p>
                <p>— Respondes cá pelos teus homens?</p>
                <p>— Estou que sim, senhor.</p>
                <p>— Pela sua discrição, pela sua coragem?</p>
                <p>— Não haja dúvida, mestre! — afirmou categórico o Pascoal, cambiando olhares
                    furtivos de inteligência com os colegas, que de longe, cada um do seu lugar, o
                    apoiavam, momentaneamente distraídos da sua faina.</p>
                <p>O Mateus epilogou:</p>
                <p>— Em breve havemos de ver!</p>
                <p>Dito o quê, sumariamente, reatou caminho e sumiu-se no compartimento
                    imediato.</p>
                <p>Na esmagadora amplidão desta terceira sala, — toda arranhada de uma ressonância
                    estrupidante, dançando toda numa vertiginosa fúria, sob o teto de zinco em
                    tremidos, pelas fugas distantes das asnas atrevidas, — funcionavam rijamente
                    trinta cardas, quatorze torsos e doze introitos. Tudo arfava num empolgante
                    sopro criador, sentia-se o peso avassalador da matéria bruta. Irrequieta e
                    convulsamente, era o ar em todas as direções cortado pelo galopar parabólico das
                    correias, que,, enroscadas nas varas longitudinais do teto, traziam do alto
                    aquela disciplinada confusão de estranhos seres a alma, o movimento, a vida.
                    Nesse grande espaço, atormentado e doido, a insalubridade era contagiosa. A
                    impenetrabilidade das vidraças verticais, cerradas totalmente, grado a grado
                    condensava o calor e armazenava as emanações doentias. Assim, enquanto as
                    máquinas em delírio arquejavam, passeava de regalo no ambiente e acumulava-se
                    nos intervalos um crasso fétido a surro, a febre e a suor, como que a carne
                    derretida.</p>
                <p>Junto do bojo bisarmal das cardas, o matraquear vibrante dos metais quase anulava
                    a voz humana, apagava a noção da consciência e fazia os homens mais pequenos.
                    Ali, o algodão em pasta dos cilindros dos batedores, trazido da sala ao lado,
                    sumia-se num instante, ingerido pela voracidade insaciável desses ventres
                    enormes de madeira, blindados de rodinhas reluzentes; aí dentro então
                    implacavelmente sofria, como num cadinho misterioso, nova digestão afinadora,
                    nova série de torturas; era esgarçado, laminado, triturado, moído, rôto; e vinha
                    depois sair no extremo oposto do monstro, onde as grandes bobinas dentadas do
                    coado, no seu manso rolar, o iam largando, macerado e diáfano, como um véu,
                    cuspido e solto, quase incoercível, em te nuíssima trama que um homem ajudava a
                    colher em pregas. Para juntar-se ainda, na cabeceira da carda, em três molhos,
                    os quais, confundidos, entravam afinal pelo orifício único do capacete, já num
                    esboço de torcida, lasso e redondo, enrolando helicoidalmente, em coleamentos
                    mudos de verme, nos cilindros de zinco verticais que poisavam no solo.</p>
                <p>De um para outro repartimento da sala, rapazitos descalços corriam arrastando
                    estes cilindros, das cardas para os torsos; e, destes para os introitos, os
                    baldes cheios de novelos. Os introitos alinhavam-se do lado da luz, as cardas
                    ruminavam na proteção da sombra. Num grande cardador, a um canto, um velho fazia
                    baetilhas. Junto a uma das janelas, outro afiava os coados em duas máquinas de
                    esmeril.</p>
                <p>O Mateus, num franzir doloroso da expressão, atravessou rápido as duas linhas
                    paralelas das cardas, vertendo apenas guturalmente no ouvido do encarregado, ao
                    passar:</p>
                <p>— Vocês têm que receber novas instruções. Fala com o Serafim.</p>
                <p>O encarregado, num sedicioso relâmpago, bateu as pálpebras cansadas; enquanto o
                    contramestre se refugiava brevemente na outra metade da oficina.</p>
                <p>Aqui era menos violento o ruido, mais delicado o trabalho; e as esguias bancas
                    dos torsos e introitos, dispostas em longas fiadas horizontais, finas e
                    recortadas, quase lineares, no seu leve paralelismo marcialmente alinhadas,
                    davam ao recinto um ar de graça melindrosa e estiraçavam a perder a perspetival.
                    E era ao longo de todas elas um turbilhão esfusiante de pequenos cilindros,
                    rolos e carretes, ás centenas em compactas filas prolongados, ventoinhando
                    simultâneos, sem cessar, em escalonados planos, rodopiando alucinadamente numa
                    velocidade que encrespa o ar e faz sopro, à cabeça de cada um zinindo um rodizio
                    estonteador de antenas de aço de uns para outros, incansavelmente, gira o fio;
                    primeiro nos torsos, passando dos cilindros a apertar nos fusos; depois
                    rapidamente arrebatado ao bojo dos grandes novelos de chapitéus amarelos, à
                    frente dos quais forma uma geométrica e complicada rede que mãos previdentes de
                    mulheres vigiam, — levantando, esticando, calibrando, atando, — enquanto cada
                    três fios, feitos num, descem a oscular, a cingir, a sobrepor-se em baixo, nos
                    pequeninos cilindros de buxo era prumo ao longo de cada máquina.</p>
                <p>A aproximação do Mateus determinou nas mulheres instintivas abertas de alegria.
                    Cada uma delas então, num segundo de consolado alívio, dilata o mortificado
                    peito; e umas ás outras se chamam por sinais, e, como se a presença do
                    contramestre lhes trouxesse claridade, piscam num meigo enleamento os olhos.</p>
                <p>E ele a uma:</p>
                <p>— Bons dias, Joaquina. Olha que eu ainda não vi teu irmão... para quando te
                    guardas?</p>
                <p>A outra:</p>
                <p>— A tua filhita está melhor?</p>
                <p>— Isso sim, mestre!... Tudo remédios tão caros! A gente não lhes pode chegar...
                    Nem o anjinho escapa!</p>
                <p>— Trata dela, não esmoreças, vê lá... — confortou meigo o Mateus; e metendo-lhe
                    furtivamente na mão uma moeda de prata: — Olha, toma... para uma galinha.</p>
                <p>— Deus Nosso Senhor lho pague!</p>
                <p>— O teu homem, preciso muito falar com ele... não te esqueças! Esta noite sem
                    falta, ás 8, no Zé Pequeno.</p>
                <p>E a outra:</p>
                <p>— Adeus, Maria! O teu Zé das Palas, que é dele?</p>
                <p>— Está na tanoaria aqui em baixo, senhor.</p>
                <p>— E então que te disse eu, outro dia?...</p>
                <p>A Maria, timidamente, baixou as pálpebras roxas.</p>
                <p>— É que ele acanha-se...</p>
                <p>— Ou tem medo?... — A rapariga estremeceu num protesto. — Seria indigno do amor
                    de uma raocetona como tu! — E chegando muito à orelha de Maria, rubra de
                    vaidade, os lábios: — Está bem! Pois faz com que ele hoje me apareça, sem falta,
                    ás 10 da noite, no Cerquinho. Ouviste?</p>
                <p>— Tão tarde!</p>
                <p>— Não importa! — rematou o Mateus com império.</p>
                <p>E pouco depois tomava direito à porta; donde, tendo relanceado um derradeiro
                    olhar de conjunto à perfeita labutação da oficina, voltou costas e sumiu-se,
                    passando logo, no elevador, a novo compartimento, em cima outra vez, contiguo
                    &amp; sala da mistura.</p>
                <p>Outra grande sala, — esta de largos espaços limpos, de ruídos atenuados, onde uma
                    relativa pacificação reinava e o duro ronronar das máquinas chegava esbatido,
                    como um zumbido distante. Em três linhas paralelas, no mesmo estirado enfiamento
                    horizontal, havia aqui as longas e esguias mesas de seis mules, postas a par e
                    picadas a todo o comprimento também pela cegarrega alucinante de filas cerradas
                    de pequeninos cilindros, girando a prumo, colhidos numa enliçagem subtil, num
                    alabirintado tecer de fios brancos. Cada mesa vigiada por um oficial e um
                    ajudante; e mais à frente de cada qual seu aprendiz, seguindo o doce rodar,
                    pelos carris perpendiculares, das carruagens automáticas, que num
                    espreguiçamento lento, avançando e recuando, vinham, aproximavam-se, tocavam os
                    carretes e fugiam, a enastrar, a afinar o fio progressivamente.</p>
                <p>Ora entre os oficiais o Mateus notou um que, epicureamente, de mãos nos bolsos e
                    costas para o trabalho, junto a uma das janelas, atirava longe num vago
                    alheamento os olhos pelo espaço. Por isso disse-lhe:</p>
                <p>— Lourenço, que diabo fazes tu?...</p>
                <p>O interpelado, voltando-se, sorriu de chacota, numa implicativa expressão de
                    confiança, mas sem despegar da atitude. Ao que,, muito sério, o Mateus
                    disse:.</p>
                <p>— Nada! Nada! Meu rico, bem deves saber... assim não me serves. Daquela porta
                    para dentro a ordem é trabalhar.</p>
                <p>Com o mesmo risinho sorna, o Lourenço não se moveu. E o Mateus, exasperado:</p>
                <p>— Não ouviste?... — Avançou para ele dois passos. — As outras conversas são lá
                    para fora... Mas enquanto aqui estamos e as coisas não mudam, temos que fazer
                    jus honesto ao salario. É a nossa obrigação! — E como ainda nem assim o
                    recalcitrante lombeiro se mexesse: — Vamos! Vamos! — rematou com decisão.</p>
                <p>Agora não teve o Lourenço mais remédio... foi e arrumou-se à sua mule, coçando a
                    nuca, num mal disfarçado arremesso. Enquanto os colegas, numa passiva
                    indiferença, dobrados sobre as mesas, nada pareciam ver. E ao tempo que o
                    encarregado da oficina, claudicando, se arrastava té junto ao Mateus, e,
                    oscilante nos bicos dos pés, lhe coava a medo no ouvido:</p>
                <p>— Ó Sr. Mateus, veja lá...</p>
                <p>— O que é!? — fez o Mateus, impaciente.</p>
                <p>— Esse diabo é torto... se dá com a língua nos dentes, é capaz de nos
                    comprometer.</p>
                <p>— Pensas muito no perigo... Outra vida! — retorquiu baixo o Mateus, com um olhar
                    oblíquo.</p>
                <p>E logo o velhote, muito pequeno e humilde outra vez, a derivar:</p>
                <p>— Eu tenho uma coisa a dizer ao Sr. Mateus...</p>
                <p>— Então?... — acudiu logo de interesse o contramestre, já outro, abrindo muito os
                    olhos.</p>
                <p>— Estive ontem à noite com o Esticado, caixoteiro.</p>
                <p>— Sim?...</p>
                <p>— O homem veio influidíssimo, não imagina!</p>
                <p>— Bem! Bem!</p>
                <p>— É nosso para a vida e para morte!</p>
                <p>— Desses é que convêm... Aprende! Aprende!</p>
                <p>— E então que aquilo, se quiser, traz com ele a vila Dias em peso! Tudo gente
                    decidida!</p>
                <p>O Mateus, animadamente, baixou ao ouvido cerdoso do velho os lábios brancos.</p>
                <p>— Manda-o logo, à meia noite, vir cá abaixo... e espera-me com ele à porta da
                    mata, aqui à raiz do muro. Já sabes...</p>
                <p>— Sim, Sr. Mateus...</p>
                <p>Mas, dizendo, o velho tecelão não desfitava do Lourenço os olhos inquietos. O que
                    notando, o contramestre :</p>
                <p>— Deixa lá o homem, que não te mata!</p>
                <p>— Aquele demónio... se a gente pudéssemos dar-lhe de mão...</p>
                <p>— Ora adeus!</p>
                <p>— É da pele do diabo, patrão! Eu conheço-o...</p>
                <p>— Precisamos de todos.</p>
                <p>— Enfim, você lá sabe...</p>
                <p>— Deixa! — epilogou com segurança o Mateus, misteriosamente. — Se nos for
                    estorvo, o remédio é fácil... — Espalmou-lhe com força a mão sobre a espadua —
                    Vigia-mo tu bem!</p>
                <p>Mais bancas também, e o mesmo ruido atenuado, a mesma áspera moenda, as mesmas
                    intermináveis fieiras paralelas de fusos dançando, na sala imediata, — onde
                    funcionam vinte e quatro engenhos de fiação e um de trama, servidos todos por
                    menores. O fio dos primeiros é passado à oficina das encarretadeiras, do
                    pavimento inferior; a trama vai diretamente para os teares. Em todo o vasto
                    recinto, além do encarregado, só mais dois homens, aplicados aos sarilhos,
                    aparando tramas e urdiduras; e seis mulheres apenas, manobrando atentas de roda
                    das aspas, a dobar linha. Pouca assistência faz portanto aqui o Mateus. Mal
                    afaga de relance a cabeça de um ou outro adolescente; e abrangendo numa vista de
                    conjunto exame a oficina, passa rápido e preocupado, por entre esse caprichoso
                    dédalo de ruelas e ângulos, atravancado de toda a sorte de asperezas, através
                    aquele brando e monótono serrilhar, cortado apenas de acaso pelo silvo de aviso
                    de algum fuso cuja canela saltou fora. Entretanto, nesta oficina braveja e
                    acumula-se uma grande diversidade de máquinas, uma complexidade interessante de
                    géneros de trabalho. Aí está uma elegante máquina de fazer cordão; uma
                    torcedora, a qual recebe das encarretadeiras o fio limpo e apertado, para dele
                    fazer linha; outra para a escovar; outra que a enovela; uma dobadoira, uma
                    prensa; e, finalmente, uma solida e esbelta banca de entrançado, toda em
                    colunelos áticos de ferro, do alto de cujo capacete, vertiginosamente e em
                    graciosas umbelas cónicas, os fios derivam, cuspidos, a enrolar em baixo em
                    minúsculos carretes, que aos grupos de cinco e numa dança eurítmica de bilros,
                    rodam, rodam, rodam sem cessar, no meio de um zumbido forte de colmeia,
                    emaçarocando a linha numa saltada complicação de movimentos a que chamam baile
                    pitorescamente os operários.</p>
                <p>Novamente no piso inferior, o Mateus entra agora na oficina das encarretadeiras e
                    urdideiras. Naquelas, em número de seis, o fio dos fusos, trazido dos engenhos
                    de cima, é limpo nas escovas, estica automaticamente, no sentido vertical, e
                    torna a enrolar em novos carretes, nos quais vai para a torcedora. Uma mulher só
                    vigia cada máquina, que move quinhentos carretes. Nas urdideiras ao lado, —
                    também em numero de seis, também servidas por mulheres, esses carretes, já
                    torcidos, formam finas grades, engatados, suspensos numa espécie de grandes
                    rotulas de madeira, assim de alto a baixo capsuladas de novelos brancos, e
                    convergindo com os seus milhares do fios num angulo à frente do qual dois
                    tambores, horizontais e sobrepostos, vão pachorrentos e cantantes esmoendo a
                    urdidura.</p>
                <p>Vigiando uma destas máquinas, destacava naturalmente a Bandeirinha com os seus
                    olhitos de azeviche e o seu desempeno grácil de movimentos, a cantarolar. Foi
                    direito a ela o contramestre, e todo afável, num patente jeito aliciador:</p>
                <p>— Adeus, Bandeirinha!</p>
                <p>— Bons dias, Sr. Mateus!</p>
                <p>— Então o Ventura?...</p>
                <p>— Sei lá, senhor... — arrastou meiga a rapariga, sacudindo a garupa redonda num
                    frémito provocante.</p>
                <p>E o Mateus, com frieza e decisão:</p>
                <p>— Tens que o catequisar outra vez, entendeste? — para quê?... — interrogou a
                    Bandeirinha num obliquo olhar de malicia. E desenvolta partiu um dos fios da
                    urdidura, a fazer parar a máquina, para poder conversar.</p>
                <p>— Porque preciso dele! — disse o Mateus com intimativa. — E não conseguirei que
                    essa fera me obedeça, nem pô-lo dócil aos meus planos, senão se tu mo trouxeres,
                    rendido e lamecha, pelo beiço, num começo de sujeição que será o apoio do meu
                    poder.</p>
                <p>— Ora! — objetou num momo de enfado a zorata, encolhendo os ombros.</p>
                <p>— Hás de amansa-lo a ele... e a outros mais!</p>
                <p>— Ó Sr. Mateus! Eu não sou dessas... — protestou, a fazer de envergonhada,
                    baixando o rosto, a rapariga.</p>
                <p>— Tem paciência, filha... para que fez a Natureza apetitosas e soberanas as
                    criaturas de pecado, como tu, senão para que, ao vosso irresistível influxo
                    molemente embalada, fique então a vontade do homem à mercê da vontade
                    alheia?</p>
                <p>Num peganhar lascivo, num claro lume de vaidade, a gentil tecedeira
                    balbuciou:</p>
                <p>— Sempre este nosso contramestre tem uma letra mais miúda...</p>
                <p>— Então, a minha flor faz-me o que eu lhe peço? — disse o Mateus,
                    imperturbável…</p>
                <p>— Que remédio!</p>
                <p>— Bem! Toma conta... Olha o que dizes!</p>
                <p>— Ainda que, é um grande sacrifício, creia... Ir agora a gente apajear pessoas
                    com quem embirra! — O Mateus teve um sorriso incrédulo. E a Bandeirinha,
                    cravando nele olhos gulosos e suspirando: — Só quem eu quero me não quer!</p>
                <p>— Isso quem sabe?... — murmurou numa sublinha sensual o Mateus, fazendo um
                    esforço.</p>
                <p>Ao estímulo vago da promessa, a Bandeirinha passeou a língua pelos lábios
                    quentes, e com um rir mocanqueiro:</p>
                <p>— Se eu domesticar esse moinante, quem é depois meu amiguinho?...</p>
                <p>— Eu mais do que ninguém... já se vê.</p>
                <p>— Promete?</p>
                <p>— Sim, filha... depois terás o pago...--confirmou ainda o contramestre com
                    doçura, dominando o tédio.</p>
                <p>— Veja lá...</p>
                <p>— Vê tu mas é se me trazes o Ventura ao rego, e depois falaremos... Quero que ele
                    se encontre à noite, na fonte da Samaritana, com o Fagulha.</p>
                <p>— Está direito!</p>
                <p>— E agora não te esqueças! Olha-me essa urdidura... Adeus!</p>
                <p>Dizendo o quê, o Mateus passou a dialogar com as outras mulheres, que já
                    hostilmente fulminavam com invejosos olhares aquele coloquio interminável;
                    enquanto, afogueada e esperta, a Bandeirinha repunha, atando o fio, a sua
                    urdideira a trabalhar, com as pupilas boiando num vago clarão de esperança.</p>
                <p>Pouco depois, já atravessava o Mateus, leve e indiferente, a oficina das
                    repassadeiras, mera escola de aprendizagem dos pequenos; depois, passava a
                    correr pelo nauseabundo retângulo, térreo e fumegante, em que duas grandes
                    engomadeiras trabalham, num calor abafado, junto aos tanques da cola, donde a
                    fermentação do sebo, da farinha e do sabão faz supurar um cheiro ardido,
                    repugnante; e apontava por fim à galeria envidraçada que dava ingresso na
                    vastíssima arena em que trezentos teares simultâneos batalhavam. — Empolgante e
                    máscula impressão! Aqui novamente toda aquela infinidade de pequenas máquinas,
                    duras, incansáveis, ao mesmo tempo disciplinadas e turbulentas, rompendo num
                    alarme de ensurdecer, desatam a roncar a sua ansia perene de produção, tornam a
                    fazer ouvir as suas vozes de agonia. O embate rijo dos metais, a imensidade
                    reboante do recinto, as paredes nuas, o espaço resplendente, a claridade
                    generosa, estonteiam, esmagam, embrutecem; e todo esse embricamento colossal de
                    goelas de aço transmitem ao ser humano o mesmo atordoamento resignado e fatal
                    que as alucina. Um aziúme insalubre e espesso satura o ar. Das ásperas rampas do
                    teto, alto e distante, metade é envidraçada; daí jorrando torrencialmente a luz,
                    em amplas toalhas que com a sua abundancia vitoriosa e crua parece virem ainda
                    agravar o mal-estar, atropelar a velocidade e engrossar as vozes aquele
                    torvelinho estonteante, aquele desaurido e galopante engrenar de rodas,
                    alavancas, bobinas, pratos e correias, pelo meio do qual centenas de pequeninas
                    mulheres andam perdidas, derreadas e atentas, moirejando, tressuando, desfeito o
                    tórax em opressivas dispneias de cansaço e nos olhos febris ardendo-lhes um
                    grande brilho estimulado. Para qualquer parte por onde se lance, nesta quadra
                    ciclópica e infernal, a vista, é sempre o mesmo implacável e estralidante
                    escabujar, incessantemente renovado, repetido ao infinito. Em cada tear a caixa
                    bate, bate; e bate a lançadeira, projetada ao lado, com violência, pelo braço,
                    despedida em fugas cegas como flechas, instantâneas como relâmpagos; e batem
                    também as aviadoras, alternadamente acima e abaixo, entre os liços trémulos
                    acamando, cruzando, apertando e tecendo o fio, que à frente depois a bobina
                    enrola, mansamente.</p>
                <p>Quebram a monotonia de linhas e o matemático empilhamento daquele arranjo alguns
                    teares mais altos e refeitos; são os do pano enfestado, cada um tem duas teias.
                    Outros são encabeçados por umas traquine-tas maciças de ferro, aparafusadas ao
                    sobrecarro: fazem toalhas, Todos têm pendente ao lado um livrete com lápis, para
                    registo da obra que se vai fazendo. No topo da sala, junto à galeria, as
                    mulheres veem, por turmas, colher em baldes de zinco as maçarocas de trama, que
                    lhes caim de cima, e que elas têm de encavar nas lançadeiras. E confusa,
                    promiscuamente, minúsculas e diligentes como formigas, elas serpeiam sempre
                    pelos intervalos arruados, somem-se, agacham-se por instantes, lidam cada uma de
                    roda do seu tear... não param, não descansam. E incansavelmente também agora o
                    Mateus pelo meio delas gira e manobra... vai a uma, vai a outra... a esta
                    despede um galanteio, aquela faz uma promessa, a esta outra transmite uma ordem,
                    àqueloutra insinua uma ideia; como se, vesanicamente sacudido e vibrante o seu
                    cérebro pelo fragor tormentoso e fecundo que o rodeia, atingido ao abalo dessa
                    intensa trepidação o máximo poder de atividade, procurasse então avidamente, no
                    inspirado que da lucidez, no impulsivo calor do entusiasmo, alargar e firmar
                    pela persuasão, pelo carinho, peio império a sedutora evangelização da sua
                    propaganda.</p>
                <p>E estava, podia dizer-se, finda pelo momento a sua tarefa oficial. Não costumavam
                    ter inspeção quotidiana as demais dependências da fábrica, a saber: a casa da
                    máquina, oficinas de serralheiro e torneiro, arrecadações, a calandra, as
                    prensas, e as caneleiras e máquinas de dobrar, na casa da fazenda. Dos teares
                    pois o Mateus passou logo direitamente ao terraço, oferecendo em cheio à caricia
                    tónica do ar fresco a cabeça escandecida. E cá fora, direito e contente,
                    alongando alto e longe pelo espaço a vista em devaneio, supunha-se já esse
                    cândido visionário antecipado senhor da situação. Tinha inteiramente sob a mão
                    os explorados, os párias, os humildes. A vitória estava segura, era dele o
                    futuro Sim, porque a sua alma sentia-o bem... todo esse arfar potente de
                    engenhos que o rodeia, o marulho de trabalho que aquela hora braveja em torno
                    ali, por toda a parte, confunde-se na mais santa e absoluta irmanação com o seu
                    desejo, é como o acantonamento de um grande exército, onde tocou a reunir,
                    prometo a manobrar, compacto, cego, à voz do seu comando. — Oh, havia de
                    consegui-lo! Já estivera mais longe... E então nesse ansiado momento, síntese
                    suprema da sua vida, que alavanca invencível de libertação, que formidável
                    engenho de vingança!</p>
            </div>
            <div>
                <head>CAPÍTULO VIII</head>
                <p>Neste momento, o apitar insistente de um americano, que num dificultoso tropear
                    de ferraduras vinha subindo a rua, chamou a atenção do Mateus, fazendo-lhe
                    baixar maquinal mente a vista. Ao tempo que em baixo, rompendo de sob o
                    tejadilho, um pequeno rosto familiar se alongava, fitando nele alegremente os
                    olhos.</p>
                <p>Era a miudita figura, era a face estirada e rúbida do Anacoreta, que desde longe,
                    numa ardente inquirição, o vinha demandando; e que agora, mal o reconheceu,
                    saltou logo em terra, mesmo sem o carro parar, e em jubilosa impaciência tomou
                    ao terraço, enfiando pela escada que, meio surpreendido, o Mateus lhe indicara
                    de cima.</p>
                <p>— Ó Anacoreta!</p>
                <p>— Afinal dei contigo! Apre, custou!</p>
                <p>— Tu por aqui... a esta hora?</p>
                <p>— Já devias calcular... Sabes o meu feitio, a minha genial preocupação...</p>
                <p>— A tua formidável telha.</p>
                <p>— Não penso noutra coisa, meu filho... Nem há ideia grande sem esta continuidade
                    de aplicação, esta sujeição, espontânea e total, de todo o nosso ser posto ao
                    seu serviço — disse com intimativa o Anacoreta, com uns olhos de febre ardendo
                    no rosto afogueado.</p>
                <p>E, sinceramente deslembrado, o Mateus:</p>
                <p>— Mas então?...</p>
                <p>— Ó meu traste, pois já te não lembras?</p>
                <p>— Ah, sim, o torneiro...</p>
                <p>— Meu rico, não ignoras o ditado: a pobre não prometas... — O Mateus sorriu
                    afavelmente. E com impaciência o outro, tomando-lhe do braço:</p>
                <p>— Vamos, mexe-te! Apresenta-me a esse fenómeno... o meu derradeiro recurso, o meu
                    homem-Providencia!</p>
                <p>Morosamente, sem uma palavra de aquiescência, o contramestre tomou em direção à
                    fábrica, como que arrastado num peganho de contrariedade. E então o insofrido
                    companheiro, empenhado em vencer por completo essa implicativa resistência,
                    guindou quanto pode o busto, esticando as pernas microscópicas, e todo descaído
                    ao ombro do amigo, segredou-lhe com persuasiva manha:</p>
                <p>— Sabes? Já pensei na tua coisa...</p>
                <p>— Sim!? — exclamou, sacudido de interesse, o Mateus, como desperto de um
                    sonho.</p>
                <p>— Arranjo-te uma coisa tubular, de pequeno diâmetro, graduada em volta... e com
                    uma espécie de chapeleta girando sobre ela. — E com os longos dedos irrequietos
                    diante do Mateus, imobilizado de atenção, exemplificava. — Assim com as
                    espoletas da tropa. Nunca viste?...</p>
                <p>— Não.</p>
                <p>— É oca, enche-se com o que se quiser... e tem na extremidade uma rosca para
                    aparafusar onde convenha.</p>
                <p>— Sim, sim... estou a ver! É ótimo! — balbuciou transportado o Mateus, esfregando
                    as mãos, cravando no outro visionário com grata efusão os olhos.</p>
                <p>E sempre de industria, aquecendo-o, o Anacoreta:</p>
                <p>— É simples, infalível e até elegante... verás! E é cá o teu homem também que há
                    de fazê-lo! Mas então que é dele?... Vamos!</p>
                <p>Agora o Mateus não hesitou mais um instante, e encarreirou rápido pelo portão da
                    fábrica, levando colado ao lado o amigo, que ia no seu invariável passinho
                    miúdo, roendo as unhas. Mal transpuseram o portão, voltaram à esquerda,
                    atravessaram alguns armazéns banais, e entraram finalmente, ao tundo, num grande
                    casarão irregular, pejado de heteróclitos objetos numa estonteadora desordem
                    baralhados, de teto em esconso e com duas amplas janelas projetando a sua
                    poeirenta esquadria no talude lívido das terras. — No vão de cada janela havia
                    uma longa e tosca banca de pinho, com um torno no rebordo, e atramochada cada
                    qual de toda a sorte de ferramentas: puas, goivas, formões, plainas, limas,
                    grampos, lupas, maços e torqueses. Pelas paredes garatujavam pendurados toda a
                    espécie de utensílios, uma infinidade de linhas extravagantes. Eram esboços de
                    plantas, modelos em cartão, serrotes, rodelas, esquadros, prumos, rodas
                    dentadas. Um como caos profissional, uma profusa desordem, fecunda, inteligente.
                    E avançava-se com dificuldade pelo estalado piso do asfalto, pejado a capricho
                    de montes de ripas, esqueletos de máquinas, inclassificáveis destroços, bobinas
                    lascadas, tubuladuras, limalhas de metal, aparas, pregos.</p>
                <p>Junto a uma das bancas mal se descortinava, e só mesmo junto ao pé, o alcachinado
                    busto de um velho, todo curvo e confundido com ela, a enriçada barba branca, em
                    mangas de camisa, limando muito atento, e quase pegada com os óculos, uma
                    pequena peça de ferro.</p>
                <p>O Mateus apresentou-o ao amigo, com encarecimentos lisonjeadores do seu agrado. E
                    enquanto o franzino ancião se descolava com dificuldade da posição,
                    desbarretando-se, dizia-lhe alto o contramestre, indicando o Anacoreta:</p>
                <p>— Este meu amigo é um engenheiro, um grande inventor, uma celebridade! Pretende
                    de si um alto serviço, ouviu?... — Desconfiado, o velho apurou o ouvido,
                    arregalou os olhos. — A fatura de uma pequena peça, que eu, sinceramente, não
                    sei de outro que seja capaz de lha executar.</p>
                <p>— Se eu souber...</p>
                <p>— Ah, isso é que você sabe, amigo Simões! Como ninguém! — Agora o derrancado
                    torneiro sorriu, desvanecido.--E isto, é claro, é um trabalho que depois se lhe
                    remunerará extraordinariamente. É um serviço, note bem... além de favor. Mas
                    serviço muito especial!</p>
                <p>O torneiro escancarou numa aquiescência as gengivas desguarnecidas.</p>
                <p>— Estou ás ordens!</p>
                <p>— O ponto é que se entendam...</p>
                <p>Mas já intrometidamente o Anacoreta, que, tendo arrastado um mocho, trepado a ele
                    se instalara junto à banca, traçando as pernas:</p>
                <p>— Ah, não há de haver duvida. Deixa-nos cá...</p>
                <p>E sacava da algibeira interior do jaquetão um monte de papéis, cheios de
                    apontamentos, canto a canto hieróglifos de combinações geométricas, que ele
                    espalmava todo contente, arredando as miuçalhas, sobre a mesa; e que o Simões,
                    ainda em pé, olhava de alto, num respeito, por cima dos óculos, vagamente.</p>
                <p>Quando um aprendizito, a correr, entrou na oficina.</p>
                <p>— Sr. Mateus! ó Sr. Mateus!</p>
                <p>— O que é?...</p>
                <p>— O menino Jorge que o procura mais a senhora sua irmã.</p>
                <p>O Mateus, sacudido o busto, empalideceu; e muito despachado, para o amigo:</p>
                <p>— Bem, até logo, rapaz... Explica-lhe bem, a ver se ele entende.</p>
                <p>— Onde vais?... — inquiriu pesaroso o Anacoreta, erguendo os olhos ardentes de
                    cima da papelada.</p>
                <p>— Tenho que fazer lá em cima. Depois volto...</p>
                <p>— Espera, ouve!</p>
                <p>— Vou em serviço, deixa-me! — rematou o Mateus, impaciente.</p>
                <p>E desapareceu na fiada banal dos armazéns, com o rapazito na sua frente, aos
                    saltos.</p>
                <p>Cá fora, no corredor, encontrou com efeito Jorge, no mesmo traje ainda de algumas
                    horas antes; e ao lado dele a figura patrícia e ondeante de Adriana, em cabelo,
                    vestindo uma simples blusa de seda lilás com estrias brancas e largo cabeção de
                    guipura creme, sobre uma saia de lã em funil de um cinzento de aço, sem
                    folho.</p>
                <p>Correspondeu num leve meneio de cabeça à profunda reverência do Mateus,
                    estudando-o com interesse. E familiarmente Jorge, voltado à irmã, de braço
                    estendido:</p>
                <p>— Apresento-te, Adriana, o nosso mestre Mateus... a providência desta casa, o
                    nosso grande amigo!</p>
                <p>— Muito prazer, murmurou Adriana, num sorriso esfíngico, docemente.</p>
                <p>O Mateus, sem proferir palavra, voltou a curvar-se, com as pálpebras
                    humildes.</p>
                <p>— Sei que tem a estima de todo o pessoal... — disse Adriana, encrespando os
                    lábios num sorriso amável, demorando atenta no contramestre os olhos.</p>
                <p>Jorge ampliou:</p>
                <p>— E a nossa confiança!</p>
                <p>Visivelmente embaraçado, de braços estendidos, o Mateus alongava as costas das
                    mãos, num enleio lorpa, mirando as unhas.</p>
                <p>— Aqui a trago, conforme há pouco lhe disse... — continuou Jorge Meireles. E para
                    a irmã: — Agora explica-lhe tu melhor...</p>
                <p>Adriana adiantou-se com desembaraço.</p>
                <p>— É muito simples, meu caro contramestre! Vegetam e consomem-se aqui assim,
                    fatalmente chumbadas pela necessidade a este novo género de escravidão, alguns
                    centos de mulheres... muitas delas são mães... e eu queria que as pobrezitas não
                    se vissem obrigadas pelas duras exigências a passar tão longas horas afastadas
                    desses pequenos pedacitos da sua alma.</p>
                <p>— Elas importam-se lá! — observou Jorge Meireles, num risinho cético.</p>
                <p>— Não digas isso, Jorge! — atalhou com sincera indignação a irmã. — Então não
                    importam?... Vocês os homens não percebem disto... Oh, mas eu, coitaditas! Eu
                    estou a ver...</p>
                <p>— Pieguices!</p>
                <p>— Enganas-te! Não há nada mais grave, mais justo, mais humano... — continuou
                    Adriana, sob o olhar enlevado do Mateus, e progressivamente estimulada. —
                    Semelhante separação forçada é para essas tristes criaturas uma fonte perene de
                    inquietação e uma causa certa de ruina. Pois não se está a ver?... Eu por mim
                    imagino... Nem se resignam à adversidade, nem trabalham com descanso.</p>
                <p>— Vossa Excelência tem razão... — não se pode o Mateus ter que não dissesse.</p>
                <p>— Enquanto que, tendo as crianças aqui assim perto de si, mais a recato, já a
                    vida lhes pareceria outra... tomariam esta sujeição infernal por uma tutela
                    salutar, tinham de vir procurar-nos por instinto...</p>
                <p>— E até o trabalho renderia mais! — corroborou o contramestre.</p>
                <p>— Não é verdade?... — exclamou Adriana, com um obstinado calor na face, cambiando
                    com Mateus um olhar de simpatismo inteligente. E avançou direita ao perturbado
                    contramestre, com os longos cílios numa linha imperiosa, e prolongado com
                    decisão o mento altivo. — Arranje-nos então aí assim uma sala um pouco à parte,
                    com bem luz, bem ar...</p>
                <p>— Isso lhe disse eu... — acudiu com espontaneidade Jorge, tomado agora também,
                    generoso e complacente, pelo altruísmo sentimental da irmã.</p>
                <p>— Cada uma traz o seu berço... nomeia-se cada dia por escala, entre todas as que
                    forem mães, uma encarregada...</p>
                <p>— A ideia é soberba, minha senhora! — apoiou Mateus.</p>
                <p>— Merece o seu aplauso?</p>
                <p>— Não precisa do meu aplauso para nada... Eu não tenho mais senão cumprir as
                    ordens que me dão... Mas sinceramente devo confirmar que esse pensamento é tudo
                    quanto pode haver de mais nobre e de mais santo... é verdadeiro socialismo
                    prático, é a pura religião do Amor.</p>
                <p>— Bem, mas nós queremos então saber... o que é que nos arranja? — atalhou Adriana
                    com graciosa intimativa, o antebraço à frente numa súplica eloquente e arqueando
                    airosamente os lábios menineiros.</p>
                <p>— Só se for, além ao fundo, conforme já há pouco disse ao Sr. Jorge, o depósito
                    de material, — explicou, depois de uma hesitação, Mateus. E adiantando, como
                    guia, um passo no corredor: — Vossa Excelência quer ver?</p>
                <p>— Deus me livrei — protestou logo Adriana, com uma piedosa repugnância.</p>
                <p>Jorge, porém, a desafiar:</p>
                <p>— Anda! E de caminho dás uma vista de olhos à fábrica. — E como a irmã, pregada
                    no mesmo lugar, movesse a cabeça negativamente: — Para quando te guardas?...</p>
                <p>— Sabes que sempre fugi de ver coisas desagradáveis. Nem no teatro as quero! Bem
                    basta quando elas venham inevitavelmente ter connosco... Depois, depois...</p>
                <p>— É lindo ver como tudo isto trabalha!</p>
                <p>— Á custa da saúde, do bem estar, da vida de milhares de predestinados, sim... —
                    Adriana suspirou, enquanto empapuçava a curva discreta do tórax numa opressiva
                    ansia. — Tomara-me eu já daqui para fora!</p>
                <p>— Vamos quando quiseres, — aquiesceu Jorge com doçura.</p>
                <p>— Credo! Que opressão... É como se se tivessem alojado dentro de mim os males de
                    toda esta gente... Falta-me o ar!</p>
                <p>— Mas é que assim, — disse o irmão, — no ar fica também toda esta ideia. Nem ele
                    sabe com exatidão o que é que a gente quer... por onde há de começar.</p>
                <p>— Ora essa! A primeira coisa é desobstruir, limpar, sanear essa tal casa. E
                    depois eu venho então...</p>
                <p>— E alguma coisa há de achar mais, garanto-lhe! — disse Mateus.</p>
                <p>— Vejo que me compreendeu... Agradecida!</p>
                <p>— Apertou-lhe a mão. — E então é começar quanto antes. Sabe de mais o quedem a
                    fazer.</p>
                <p>— Vou tratar de cumprir, o melhor que puder e souber, as ordens de Vossa
                    Excelência.</p>
                <p>— Por essa estou eu!</p>
                <p>— A casa começará a ser desimpedida já amanhã.</p>
                <p>— Muito bem! Muito bem! Eu não sei se a minha ideia é com efeito a sublimidade
                    que os Srs. dizem, — disse Adriana, já direita à porta. — Agora do que vou
                    convencida é de que ela terá no Sr. Mateus o mais prestimoso e sincero
                    cooperador! — Fitou-o de novo com familiar interesse. — De si antecipadamente
                    confio todo o bom êxito dela, não?... — Ao mudo gesto de aquiescência do Mateus,
                    voltou de todo costas e ia a afastar-se; quando, torcendo o airoso busto, muito
                    cortesmente: — Adeus!</p>
                <p>E num vôo de meteoro, rapidamente, tomou então à porta com Jorge e saiu pelo
                    terraço; seguidos a distancia os dois por Mateus, que veio à frente, té junto à
                    platibanda, a que se apoiou esteirando com os olhos o breve percurso deles na
                    rua, entre a fábrica e o portão verde do parque; e aí se ficou depois, tão
                    distraído e insensível que nem deu pelo Anacoreta, o qual lhe batia nervoso no
                    ombro, explicando «que sim... que agora tinha homem! Uma maravilha... e que
                    retirava por Marvila, ia tomar o comboio.</p>
                <p>Até sucedeu que, tendo este subido a rua na mesma direção de Adriana e Jorge, e
                    vendo em baixo, sempre pregado no mesmo lugar, o Mateus, se voltava repetidas
                    vezes, julgando-o ali pela sua causa, a acenar-lhe adeus com a mão.</p>
            </div>
            <div>
                <head>CAPÍTULO IX</head>
                <p>Nessa mesma noite o Mateus, depois de recolhido ao seu quarto, passou uma noite
                    singular. Nunca mais, durante a longa sequência do dia se lhe desarreigara do
                    espirito a perturbadora impressão do seu primeiro encontro com Adriana, naquela
                    memorável manhã. A labuta ordinária da fábrica, o exame da correspondência,
                    expedição de contas e aviamento de encomendas, tudo ele fizera maquinalmente,
                    num alheamento, num desdém, num tédio, perdido num como alto nimbo de sonho,
                    embalado por inebriantes carícias perfumadas... Ainda depois, à noite, na sua
                    ronda ardente de conspirador, enquanto o seu propagandista furor o arrastava,
                    acolitado pelo ubíquo Fagulha, a essa fervida cadeia de conciliábulos, de
                    antemão cuidadosamente aprazados, lá lhe ia sempre sobranceira, suspensa como
                    uma lâmpada de sacrário sobre a alma, a mesma luminosa e doce impressão, como o
                    lume discreto do farol que, soldado à popa do navio, resiste imperturbável e
                    sereno ás titânicas convulsões da tempestade. E agora, ali a sós com o seu
                    coração, por completo à mercê da comovida obstinação dos seus pensamentos,
                    tomava-o com mais avassalador império, abria-lhe horizontes novos de gozo, nas
                    suas roscas volutuosas, a divina recordação desse instante, a quente evocação
                    dessa imagem bem dita.</p>
                <p>O seu primeiro movimento, mal que acendeu o candeeiro, foi tomar de cima da mesa
                    um lápis e ir pressuroso fixar na escaiola rosada da parede, junto à cabeceira
                    do leito, mesmo ao canto, a data daquele dia, que ele instintivamente sentia
                    teria de exercer grave e decisiva influencia no seu destino. Feito o quê,
                    sentou-se à mesa, e de cotovelos à frente e com a cabeça comprimida nas mãos,
                    embevecidamente, tudo era entregar-se agora à absorvente reconstrução da cena,
                    eterizando-a, procurando reter desse instante a memória saudosa, tornando a
                    reviver desses fugidios minutos a delicia infinita... E então, imediatamente
                    quase, queria logo reagir contra essa miragem dissolvente. A suave religiosidade
                    do seu êxtase aziumava-se de um travor amargo, embraveciam-no fugazes ímpetos de
                    revolta. Sim, porque evidentemente a maquiavélica ideia de Adriana era o mais
                    inoportuna e absurda, a pura antítese do seu sonho... vinha rasgar como um
                    relâmpago de sarcasmo o querido mistério da sua obra. Lembrara-se ele ainda, na
                    ocasião, de a contrariar, mas a verdade é que se acobardara, titubeara e
                    calara-se... sem saber porquê. E esta humilhante consideração desconcertava-o,
                    sacudia-lhe a alma num misto de exaspero e prazer, de volúpia e de raiva. — Pois
                    não viria aquela maldita ideia da creche ou o que quer que era, por geral
                    intempestivo e hipócrita, armada ali dentro da oficina, formular-se na pior
                    ocasião, amaciando velhos atritos de castas, mostrando a lendária fereza dos
                    patrões por um prisma favorável?... Era o meio infalível de catar a gratidão das
                    mães, faria capitular, por essa brecha aberta no coração, o elemento feminino...
                    e, conquistado este, alcançada era também, pela sua incombatível influencia, a
                    paciente sujeição dos homens. Seria a destruição, pelo amor, de tudo quanto ele
                    andava preparando pelo odio. Uma desgraça! Tudo perdido! Porque se não tinha ele
                    oposto, franca, formalmente? Sobrar-lhe-iam argumentos, era o seu dever. Vamos!
                    Tinha que fazê-lo, sob pena de entregar-se indecorosamente, posto ao serviço e à
                    discrição do inimigo. Triste coisa! Afinal, estava vendo, era também um fraco,
                    um escravo estúpido do sentimento e, como em todo o bom português, o seu grande
                    e tumultuário coração governava-lhe de capricho a exiguidade funcional do
                    cérebro! — E assim adormeceu com a ideia fixa de baldar, — não sabia ainda bem
                    como, porém havia de consegui-lo, — baldar um plano que seria fatalmente a
                    prematura, a fatal anulação do seu esforço messiânico.</p>
                <p>No dia seguinte, mandou Mateus com efeito proceder à desobstrução do grande
                    espaço, asfaltado e coberto de zinco, que no extremo da ala norte da fábrica
                    servia de depósito de material. Mas sem avançar uma única palavra acerca da nova
                    função a que o destinava. A operação era morosa e difícil.</p>
                <p>Havia ali um pejamento compacto e enorme, feito em muitos meses seguidos, de
                    refugos de fazenda, sobejos de material, pilhas de sucata, destroços de
                    ferramentas, óleos, farinhas, máquinas deterioradas.</p>
                <p>A sua remoção e consequente distribuição pelas outras dependências da fábrica,
                    deu naturalmente origem a uma labuta fora do comum: a toda a hora, pelos
                    corredores, grupos de homens, descalços, carregando fardos, cabos gemendo nos
                    guindastes, o esmagado raspar das zorras. E claro que tudo isto veio complicar o
                    matraqueado arquejar da fábrica de ruídos novos, a cuja tremula vibração vinham
                    a cada momento pinhas de cabeças curiosas grupar-se ás portas das oficinas.</p>
                <p>E uns aos outros interrogavam-se com maligno interesse. Com especialidade as
                    mulheres, que sem conta no trabalho se partiam tagarelando em grupos, e com
                    pródiga inventiva iam em progressivo exagero passando os comentários. Alguma
                    que, mais confiada, interrogava sobre o caso o Mateus, não obtinha dele mais que
                    um breve encolher de ombros, sublinhado por um sorrir esperto. A mesma coisa aos
                    homens, que lhe ficavam a morder nas costas, desconfiados. O Fagulha,
                    interpelado igualmente, protestava que nada sábia, e dizia a verdade.</p>
                <p>O madraceiro Lourenço, das mules homem bisbilhoteiro e ruim de condição, e dada a
                    relativa privança do Serafim com o contramestre, dele se aproximou ao levantar
                    do trabalho, uma tarde, — para que lhe explicasse que raio de “magicadela” iria
                    agora sair dali?</p>
                <p>— Olha, eu cá ao certo não sei... — disse-lhe de pausa o Serafim, enquanto
                    embrulhava um cigarro, parado no passeio. — Mas, por umas palavras que ouvi ao
                    gajo, imagino que vão fazer uma oficina nova... querem meter mais gente.</p>
                <p>— O quê?... — objetou o outro, incrédulo, arregaçando a pálpebra.</p>
                <p>— Ele disse-me que era... por causa do aumento da população.</p>
                <p>— Nada, não me entra cá... Aqui anda grossa tramoia! E se não, veremos...</p>
                <p>— Que tramoia há de haver? És doido.</p>
                <p>— Veremos...</p>
                <p>— Arre, que és teimoso comum jumento!</p>
                <p>— Meu rico, nasceram-me os dentes a aprender as manhas desta gente.</p>
                <p>— Mas o Mateus...</p>
                <p>— Será tão bom como eles! — epilogou com rancorosa decisão o Lourenço. E, levando
                    o indicador à testa: — Olha que eu, entendes? Eu para beber não preciso que me
                    assobiem.</p>
                <p>Entretanto, em cima, no velho solar dos Meireles, também continuava o caso a ser
                    falado. Na primeira noite em que em sessão plenária se tratou do assunto,
                    dividiram-se as opiniões. Combatia renitente a ideia a D. Mafalda, que ia tendo
                    uma síncope de indignado horror quando pouco antes, ao jantar, lho tinham
                    comunicado expansivamente os olhos. Que não sabia o que a juventude de agora
                    fazia ao juízo. Era positivamente deitar pérolas a porcos... Já não havia
                    dignidade, já ninguém conhecia o seu lugar... Nem pareciam seus filhos! Por
                    forma que bom trabalho teve o marido em aplaca-la, só conseguindo abrandar-lhe
                    os rigores a poder de toda a sua bonacheirona eloquência.</p>
                <p>Mas, à noite, exposto perante o reduzido conclave o plano, o primeiro a
                    manifestar, com boçal impertinencia, o seu espanto, foi o padre Sebastião.</p>
                <p>— Era uma heresia! Era desvirtuar por completo o sublime princípio da Caridade,
                    aplicando-o tão mal.</p>
                <p>Adriana protestava, — que a ideia até como especulação era excelente, porque
                    prenderia pela gratidão todas essas desgraçadas.</p>
                <p>— Qual gratidão! — objetou logo o padre, num frouxo de rir sarcástico, sarilhando
                    simiescamente os braços.</p>
                <p>— Também acho que sim... — disse Afonso Meireles.</p>
                <p>— Ora! — disse o padre. — Veja Vossa Excelência as sopas económicas... uma
                    providência! Vale lá a pena! Dizem mal delas e continuam a preferir a taberna. —
                    Jorge ergueu-se e derivou pela sala, impaciente. — Agora gratidão! Essa canalha
                    é como a víbora: morde quem lhe faz bem.</p>
                <p>Bernardo Gonzaga, muito complacente, com as mãos entre os joelhos, vendo que a
                    fidalga o provocava com o olhar a manifestar-se; num bamboleio indolente do
                    busto arrastou:</p>
                <p>— Pois eu, com o devido respeito, minha senhora, sinceramente... não vejo no caso
                    esses perigos. Acho até interessante. — Dentro das suas flácidas pálpebras em
                    saco, os olhitos da mãe de Jorge fuzilaram; e logo o Gonzaga, a compor: —
                    Contanto que se não ponha na coisa um grande interesse, está entendido... ao
                    ponto de fazer de uma diversão um apostolado. Sim, pode ser um sport como outro
                    qualquer.</p>
                <p>Jorge voltou a afastar-se, mordido de uma aguda contrariedade; enquanto os
                    minúsculos olhos da mãe, agora momentaneamente aplacados, demandavam a opinião
                    do comendador Sulpício.</p>
                <p>— Tem seus quês, tem seus quês o problema, meu caro Gonzaga, — sibilou ele de
                    importância, por entre as gengivas desguarnecidas. — A espontânea impulsão da
                    Sra. D. Adriana e o seu simpático mano é linda! Seria mais uma encantadora
                    versão da doutrina sublime do Crucificado. Mas da teoria à pratica, meus
                    filhos...</p>
                <p>E meneava desconfiadamente a um e outro lado a cabeça pomposa e sorna.</p>
                <p>Forte com tão assinalado conselho, D. Mafalda comandou:</p>
                <p>— Ouviu, padre Sebastião?... Amanhã, logo de manhã, muito cedo, a primeira coisa
                    que tem a fazer é ir-me lá abaixo à fábrica... — O tonsurado símio teve um
                    movimento de contrariedade; ao que logo a fidalga, com irritada impaciência: — O
                    quê! Não lhe agrada?... Pois não tem outro remédio!</p>
                <p>— Sim, minha senhora... — arrastou o padre a custo, sobre os braços da poltrona
                    dobrado à frente, numa mesura.</p>
                <p>D. Mafalda continuou:</p>
                <p>— Vai lá abaixo, vê-me a casa destinada a essa... loucura, e verifica, em
                    primeiro lugar se ela fica bem longe das mais oficinas.</p>
                <p>— Ó mãe, pois não fica! — disse meigamente Jorge, temperando a observação num
                    sorriso.</p>
                <p>— É no extremo de uma das alas, — apoiou Adriana.</p>
                <p>— Deixem-me cá! — disse a mãe com obstinação.</p>
                <p>— Quero-a bem isolada do resto, note bem... Em sítio onde não chegue o contágio
                    diabólico da canalha.</p>
                <p>— Sim, minha senhora...</p>
                <p>— Depois havemos de benzer o recinto... — Adriana e Jorge, sorrindo,
                    entreolhavam-se de piedade; Afonso Meireles parecia nada ouvir. — Será o único
                    meio da nossa Senhora nos perdoar a parvoeira. E leva-se para lá o grande
                    crucifixo de pau-santo que temos aí, sem se ver, no corredor à entrada da
                    capela... peço ao capelão das Comendadeiras que venha fazer umas catequeses... e
                    o padre Sebastião é quem dirige a casa.</p>
                <p>— O quê!? — exclamou Jorge de salto, abrindo com espanto os braços.</p>
                <p>— É o responsável por tudo!</p>
                <p>— Então a ideia é nossa e esse patetinha é que a vai utilizar! — disse Jorge.</p>
                <p>— Olhe que ele estraga tudo, mamã! — disse também Adriana. — É uma usurpação em
                    forma! O comendador acha bem?</p>
                <p>O comendador Sulpício, em silêncio, baixava e erguia de pausa, numa regalada
                    aprovação, o crânio luzidio. O que vendo, a fidalga:</p>
                <p>— Ou há de ser assim, ou então não consinto... Não quero cá saber!</p>
                <p>— Bem, está dito! — epilogou então Afonso Meireles, aos filhos com significativos
                    olhares impondo aquiescência.</p>
                <p>Por isso no dia seguinte o padre Sebastião, de ouvido alerta, mal que a máquina
                    da fábrica apitou a chamada matinal para o trabalho, desceu logo, mesmo por
                    dentro do parque, ás oficinas, de chapéu mole de feltro e ensacado na sua
                    invariável batina, verde de velha. A sua presença foi muito notada, porque
                    aquela hora ele vinha naturalmente cruzar-se, no seu aborrecido constrangimento,
                    com os grupos que entravam devagar. Não menos surpreso ficou o Mateus, quando a
                    grotesca figura lhe apareceu e disse ao que ia. O seu primeiro movimento foi de
                    desdenhosa repulsa, de altiva estranheza. Recebeu-o mal. Porém logo,
                    reconsiderando, num relance modificou a sua atitude. — Naquela altura, o padre
                    Sebastião caía do céu... A intervenção dele no assunto era a enxadada mais a
                    propósito no generoso plano de Adriana. Nada mais seria preciso para o tornar
                    antipático, para o invalidar à nascença. Bastava que a sua gente pressentisse
                    naquela impertinente intervenção uma cilada... que se preparava algum tenebroso
                    trama clerical, alguma artimanha infame do bando negro! Era insinuar-lho... e
                    deixar correr.</p>
                <p>Tratou pois, logo que tal percebeu, com cativante afabilidade o padre. Levou-o à
                    sala norte da fábrica pelo caminho mais longo, parando com ele a miúde, para que
                    todos o vissem bem. E à saída a mesma coisa: tudo lhe era pretexto para o
                    demorar, para o fazer poisar inconsciente perante a instintiva osga da multidão.
                    Guiou-o depois pelos teares, pelas cardas e urdideiras, passeando-o assim quanto
                    pode, e sem que o bronco sotaina o suspeitasse, por diante da receosa
                    inquietação dos seus.</p>
                <p>Na hora do descanso, ao meio dia, quase não ruminaram outro assunto as intrigadas
                    gentes da fábrica. A visita do padre era o tema de todas as interrogações: nas
                    oficinas, nas tabernas em torno, nos degraus dos portais onde pares esquálidos
                    se acocoravam, de roda dos tachos de barro com comida. E formulavam-se
                    hipóteses, choviam toda a casta de conjeturas. Então a imaginativa inzoneira das
                    mulheres não conhecia termo, chegando a raiar pelo absurdo das suas invenções o
                    vôo extravagante.</p>
                <p>No dia seguinte, logo ao entrar para o trabalho, um grupo delas, mais confiadas,
                    aí vai direito ao Mateus, no propósito firme de aclarar o mistério. Compunham
                    amimadamente os lábios rôtos, coçavam atrás dos lenços. E então, mais destemida
                    à frente delas, a Clara:</p>
                <p>— Ó Sr. Mateus, faz favor... desculpe, mas a gente queríamos saber... para que é
                    afinal a casa nova?</p>
                <p>— Temos negócio de padres? — acudia outra.</p>
                <p>— Algum novo coio?</p>
                <p>— Vamos ter aqui Irmãs da Caridade?</p>
                <p>— A coisa não cheira bem!</p>
                <p>— Não, raparigas, sosseguem... — aclarou o Mateus, no íntimo radiante. — Não se
                    trata de vocês.</p>
                <p>— E que tratasse! — exclamou com desempeno viril a Clara, arregaçando as mangas,
                    — Vinham bem!</p>
                <p>— Trata-se mas é da proteção, da educação dos vossos filhos.</p>
                <p>— O quê!? — rosnou uma, do fundo.</p>
                <p>— Educação, virgula! — comentou de arreganho a do Manaio, de mãos na ilharga.</p>
                <p>— Não, não é em filha minha que eles põem o gadanho! — veio também a Ana dizer,
                    erguendo numa fúria o peito entabuado. — Essa lhes juro eu!</p>
                <p>Os olhos negros do Mateus faiscaram de entranhado júbilo.</p>
                <p>— A coisa e bem natural, — disse ele de manso, — os pequenos em casa não aprendem
                    nada, pegam o fogo, perdem-se... Vocês trazem-nos para aqui...</p>
                <p>— Quem? Quem cai daí abaixo?... — rugiu o mulherio em coro. — E para quê!</p>
                <p>— Ensinam-nos a rezar... — aqueceu o contramestre.</p>
                <p>— E isso dá pão? é coisa que se coma?... Ora a léria!</p>
                <p>— A nós é que nos querem comer, mulheres!... Olho alerta!</p>
                <p>— Já não lhes basta a chuchadeira dos ricos, querem também a única riqueza de uma
                    pessoa! A eles papam-lhes as heranças, a nós querem-nos engazupar os filhos!</p>
                <p>— Olha! — comentou rijamente, de olhos apopléticos, a do Manaio, cruzando num
                    gesto obsceno os braços.</p>
                <p>— -Tiram-lhes a amizade a nós, é já sabido... para levarem as inocentes pros seus
                    serralhos!</p>
                <p>— Para fazerem óleo humano!</p>
                <p>— Será mais fácil deitar a gente o fogo a toda esta trampa!</p>
                <p>— Ai, os almas do diabo!</p>
                <p>E passivamente no meio do sedicioso bando, o Mateus, silencioso agora, deixava
                    alastrar e alentava o irritado frémito com um risinho misterioso.</p>
                <p>Logo o boato assustador cresceu. A originária corrente de desconfiança avolumou
                    rapidamente, breve era a mais decidida e odienta lição de hostilidade. E o
                    contramestre, que manobrava de contínuo, ao palpar, ao sentir o efeito
                    empolgador do estratagema, rejubilava. Sem se abrir claro com qualquer, em todos
                    entretanto, mulheres e homens, ia ardilosamente, por meias palavras, confirmando
                    as suspeições e assoprando o incêndio.</p>
                <p>Assim decorreram dias, até que, desobstruída de todo a casa, limpa, caiada de
                    novo, e com aplicação de caixilhos moveis nas janelas, assim o comunicou Mateus
                    a Jorge Meireles, que nem quis ver. Não tão desinteressada a D. Mafalda, que
                    segunda vez mandou o padre Sebastião, como delegado seu com poderes plenos, a
                    conferir pelos seus próprios olhos o trabalho feito. E nem ele foi só.
                    Conseguira a fidalga que por especial atenção e deferência o acompanhasse ao
                    piedoso exame o indigitado capelão das Comendadeiras de Santos, tipo de
                    ultramontano estreme, desnalgado e adunco, sempre também de cabeção e roupeta
                    negra, grande chapéu de abas com borlas sobre a nuca.</p>
                <p>Mas aqui foi Troia... Agora, dado o astuto preparo anterior, a aparição do
                    agoureiro par na fábrica determinaria naturalmente algum violento alarme, uma
                    destas irreprimíveis convulsões de revolta que na antagónica prevenção de um
                    meios individual ou coletivo, produz sempre a intervenção de seres estranhos.
                    Com efeito, sem que os dois de tal se apercebessem, a passagem das suas
                    abominadas figuras pelos corredores e armazéns ia concitando e erguendo prontas
                    cóleras, colando cingidas com os seus passos as mais insofridas impaciências.
                    Largando de reigota o trabalho, muitos seguiram-nos, na distância conveniente,
                    para verem e observarem, sofreando tentações ruins... Daí a pouco, estavam os
                    dois placidamente concertando onde melhor conviria colocar o grande crucifixo e
                    o altar, — se ao centre do muro da direita, no sentido do comprimento da casa,
                    se na parede norte, ao fundo, entre as duas janelas, — quando um assobio
                    escarninho cortou o ar, no corredor, ali bem próximo, com um agudo timbre
                    metálico, numa evidente intenção de troça.</p>
                <p>Não fizeram caso. Inocente ousadia de algum dos inúmeros marmitões que circulavam
                    na fábrica. Nem sequer se voltaram. Mas, daí a segundos, um outro silvo se
                    prolongou e veio feri-los, mais próximo este, mais ameaçador, mais sarcástico e
                    estridente. — A coisa era com eles... e mais do que uma gaiatice isolada, não
                    havia duvida. Despediram grandes olhos de medo ao corredor e logo tiveram a
                    aterradora confirmação da sua suspeita: pois lá viram ao longe, no vago
                    delimento da distancia, a espia-los com rancor um núcleo de cabeças hostis e
                    decididas. Então, sinceramente intimidados, entreolharam-se, muito pálidos:</p>
                <p>— Que quer esta canalha de nós!?</p>
                <p>— Corja! Mas que é isto?...</p>
                <p>E o Mateus não aparecia... Que imprudência! Estavam perdidos... Instintiva e
                    simultaneamente, dando-se os braços, deixaram a sala e arrastando-se nas pernas
                    trémulas tomaram à direita, com o objetivo de se escapulirem pela porta do
                    parque. Más encontraram-na tomada. Uma multidão compacta e enorme havia-se já
                    interposto entre eles e esse ansiado e providencial refugio. Arrojavam-lhes
                    vaias, pulhas, insultos, impropérios, numa fúria crescente, numa arranhada
                    dissonância de vozes de extermínio, com os punhos cerrados e floreteando ao alto
                    vingadoramente os braços. Toda a sorte de imundície, toda a ordem de
                    represálias, ódios e misérias se chocavam e baralhavam nas convulsas dobras
                    dessa onda desordenada e esquálida, com lívidas faces estortegadas de iras ao
                    rubro, fétidas bocas escancarando abismos, torvas pupilas disparando lampejos
                    rancorosos. Abundavam as mulheres; e nestas as mais andrajosas eram as mais
                    ferozes; do meio dos seus farrapos atiravam o busto à frente, rugindo, como
                    leoas.</p>
                <p>Num pávido atabalhoamento, afásicos, perplexos, quiseram ainda os dois avançar,
                    alongando para o grupo em frente as mãos, com império primeiro, depois em
                    posturas suplicantes. A cada passo porém que feles arriscavam, logo no mesmo
                    sentido avançava também a multidão; de sorte que assim momento a momento mais se
                    reduzia o fugidio espaço intermedio. Uns minutos mais e ficariam
                    irremissivelmente à mercê do inimigo! E o alarme, a sanha, a raiva cresciam
                    incessantes. Era na direção do cerco feito aos dois padres uma tropeada que
                    reboando ali convergia e engrossava, comocionando em colunas de odio toda a
                    fábrica. E a assuada também crescendo. Começara por um assobio e era agora um
                    alarido estrangulado e forte, que a áspera moenda do volante e o potente
                    resfolgar das máquinas reforçavam, prolongando-lhe selvaticamente o horror.</p>
                <p>Ante a iminência fatal do perigo o padre Sebastião e o colega, num desesperado
                    arranque de coragem, recuaram então de salto, mudando de plano, até ao corredor
                    central, e por ele desataram a correr, direitos ao terraço, avergados de pavor,
                    voltando a cada momento para traz num cavido receio as cabeças, frias de suor. E
                    em cima deles, praguejando, rugindo, uivando, tomou logo também pelo novo
                    caminho a multidão, cada vez mais grossa, cada vez mais próxima. Um martelo,
                    despedido não se sabe donde, raspou a aba do chapéu do capelão e caiu-lhes em
                    peso, adiante, no asfalto; o que foi sinal para que a sacrílega vozearia
                    redobrasse, sacudida num concertante de sinistras ameaças.</p>
                <p>Inevitavelmente, antes mesmo de conseguirem sair da fábrica, iam os dois
                    fugitivos ser atingidos pela turba, quando súbito assomou à porta da primeira
                    oficina a figura imperiosa e séria do Mateus, atalhando-lhes, de braço
                    estendido, a carreira louca, por um brado enérgico impondo-lhes alto e
                    comandando silêncio. Foi o bastante; pois como por encanto, instantaneamente,
                    toda aquela furibunda jolda estacou, emudeceu. E os dois foragidos puderam
                    seguir então até ao ar livre, açodados e brancos, fazendo pelo acelerado mover
                    das tíbias trapejar as abas dos hábitos, como corvos.</p>
                <p>Mas ainda a mesma apupada os perseguiu na rua, até onde inexplicavelmente havia
                    alastrado a tumultuosa agitação de cima.</p>
            </div>
            <div>
                <head>CAPÍTULO X</head>
                <p>Andava ao tempo em Lisboa um pouco acesa a questão religiosa. Durante os últimos
                    oito anos que o partido ultramontano, cobrando progressivos alentos, vinha
                    estadeando um crescente aparato de forças e promovendo a aliciação de
                    influências novas. Perante a desprevenida indiferença dos liberais, adormecidos,
                    depois de 1834, numa estulta e cega confiança, embalados na ingénua crença de
                    que a vitória do seu épico esforço desafiaria os séculos, aqueles tinham
                    trabalhado sempre pela desforra, disciplinadamente e na sombra, sem descanso, e
                    tenazmente arregimentando no mistério tolerado dos velhos mosteiros em ruina,
                    legiões novas de prosélitos. Tudo lhes facilitava este minar de sapa nas
                    consciências: a inação dos governos, o egoísmo dos interesses e a ignorância do
                    povo. Assim sucedeu que os resultados foram galopantes; e tão seguros se
                    achavam, que tinham agora por azado o momento de fazer ostensiva parada dos seus
                    recursos, de realizar uma ostentosa e solene demonstração que pelo
                    deslumbramento e pelo espanto cavasse fundo na imaginação das massas.</p>
                <p>A ocasião, o pretexto estava achado. Tinha um cativante sainete popular, vinha de
                    molde e perfidamente a jeito de alcançar sobre os elementos contrários uma
                    vitoria decisiva. — Era a celebração do centenário de Santo António, para junho
                    do ano seguinte. Em magno concilio de prelados, titulares e argenta rios
                    concertara-se rodear esta celebração de todos os possíveis coeficientes de
                    êxito, pela propaganda, pelo esplendor, pelo suborno e pelo ruido. As festas
                    durariam quinze dias; haveria <seg rend="italic">te-deums, lausperenes</seg>,
                    luminárias, magnifica ornamentação de ruas e monumentos, quermesses, cortejos,
                    procissões; celebrar-se-ia um congresso católico no paço de S. Vicente. O
                    governo estava de acordo. O Núncio, com o seu dulceroso talento, estimulava. E
                    para a realização do audacioso programa havia já comités da aristocracia, havia
                    comissões paroquiais nomeadas. O conservantismo dava o seu apoio incondicional,
                    não faltava o dinheiro.</p>
                <p>Ora a série de boatos incessantes que sobre os espaventosos manejos da reação
                    corriam, eram mais que motivo para o indignado alvoroço das consciências livres
                    e honestas. Um legítimo e agudo sobressalto remordia os homens de pensamento e
                    ação, que pressentiam e temiam um calamitoso ladeirar ás sombras intolerantes do
                    Passado. Seria o inevitável regresso aos ominosos tempos em que a nação perdera
                    o seu destino histórico, debruçada a entoar ladainhas. Já todos os dias os
                    jornais avançados tocavam a rebate inflamadamente, e a sua leitura enardecia os
                    proletários, chocava o fermento de possíveis revoluções na baixa população das
                    oficinas. A grande massa burguesa da cidade continuava a sono Lear na sua
                    egoísta indiferença, sepultada nesta beatitude inerte dos que sentem o gozo
                    fácil e a vida segura. Uma instintiva manha aconselhava mesmo a multidão enorme
                    dos ganhões e traficantes a aproximarem-se, num escoramento mútuo de interesses,
                    dos grandes mandões dispondo da influência e dos ganhos. Mas o eterno explorado,
                    o proletário, pela miséria irremissível da sua condição tornado incrédulo, não
                    podendo recear-se de penas sobrenaturais mais horríveis que o seu incomportável
                    inferno já neste mundo, esse dia a dia mais violento e negro sentia no íntimo
                    crescer-lhe o odio por todo o existente, e se consultava a alma não colhia da
                    sua tumultuaria ansia senão explosivas ameaças.</p>
                <p>Na mesma cruzada andavam de concerto empenhados também os vários centros
                    socialistas da cidade. Nunca em Lisboa este partido fora tão unido, tão
                    numeroso, tão forte; nunca o comocionara um tão intensivo ardor de ação, um tão
                    desapoderado furor de propaganda. Eram amiudadas, quase quotidianas, as reuniões
                    dos seus principais dirigentes, ora no pátio do Fiúza, na rua do Bem formoso, ou
                    na sede do círio civil da vila Dias. Aí se pesava com judicioso critério a
                    situação; aí se fazia próximo o passo das manobras de sapa dos ultramontanos, no
                    propósito de as contraminar e inutilizar a tempo; aí choviam, bastos e cegos, os
                    alvitres revolucionários, a cuja tempestuosa onda veio depois o verbo candente
                    do Mateus acrescentar um sopro estonteante de revolta. No fim deste ano de 1894,
                    não havia pois centro operário da capital que um ardente anseio de libertação
                    não trabalhasse. Cada um desses ínfimos seres estava disposto a suar sangue pela
                    liberdade do seu pensamento, o que de mais nobre existe na organização do homem.
                    A benemérita Voz do Operário sempre firme e inalterável na prossecução do seu
                    programa, — a união pela vida, — chamava com insistência ás armas os
                    correligionários pela voz tão autorizada como difusa do seu jornal; e nas
                    modestas salas da sua sede, ao largo do Outeirinho da Amendoeira, oferecia aos
                    pobres e aos humildes a vulgarizadora lição de conferências semanais, proferidas
                    poios mais celsos e cultivados espíritos. Acentuava-se assim, rija e
                    instintivamente, essa luta de defesa do individuo contra o Estado, de que
                    modernamente o grande apóstolo foi Spencer, esse Aristóteles moderno. A
                    tendência para o equilíbrio social, esta intima febre de revolta dos oprimidos,
                    eram agora exacerbados pela aversão contra a ostentosa desfaçatez dos grandes.
                    Piorava o mal-estar presente a desconfiança pelo futuro. E no recetáculo
                    desprevenido e fácil da alma popular, a colorida ampliação dos fatos, feita
                    pelos jornais, mais temeroso volume assumia ainda, desdobrada pela imaginação,
                    envenenada pela ignorância.</p>
                <p>Um dos sintomas desta excitação crescente do espirito público, foi a assuada da
                    gente do Almargem contra os dois padres, a qual esteve por um triz a motivar o
                    encerramento da fábrica. A flatulenta imundície da D. Mafalda incendiou-se em
                    timpânicas iras, deflagrou em trejeitos apopléticos. Foi todo o dia, pelo alto
                    sossego dos salões, uma berraria doida. Valeu porem, a abrandar-lhe os rigores
                    pelo momento, que o balanço do fim do ano ia acusar um lucro liquido de algumas
                    dezenas de contos de reis.</p>
                <p>Em todo o caso, o magno escândalo foi naturalmente debatido em conselho privado,
                    logo na mesma noite do desacato, entre a sociedade de hábito, no conhecido salão
                    do Almargem, incluindo o marquês de Vale de Madeiros. — Estivera este, por
                    espaço de três dias, preso em casa pela gota, no seu esmadrigado palácio da
                    Murtosa, à Mouraria, sem poder sair. Naquela manhã, porém, acordara mais
                    aliviado. Desaparecera o inchaço das pernas, as dores tinham diminuído. Tinha-se
                    por isso o marquês levantado, o arrastara-se até a uma grande poltrona Luís
                    XIII, que ele tinha no vão de uma das janelas do salão de entrada, deitando para
                    o pátio quando, sobre a tarde, ouviu garotos apregoando com demoníaco furor um
                    suplemento à Vanguarda, à última hora! Atraído pelo ar sedicioso do pregão,
                    apurou o ouvido. Colheu palavras soltas, — grande escândalo... jesuítas
                    feridos... uma fábrica em greve... e por fim pareceu-lhe ouvir também
                    distintamente a palavra «Almargem.» Instintivamente estremeceu. Ao pique natural
                    da curiosidade juntou-se no seu ânimo um sentimento de piedoso interesse pelos
                    Meireles, de quem era sinceramente amigo. Chamou pelo escudeiro, mandou comprar.
                    — E com efeito o caso era com eles! — Mal que o criado veio com a folha volante,
                    como não podia estar a afirmar-se, o marquês mandou-o ler. Era de verdade a
                    narração, exagerada de indústria pela mira mercantil do momento, da assuada
                    feita aos dois padres no Almargem, naquela manhã. Falava-se em desordens graves,
                    ferimentos, morras, a fábrica cercada por forças da municipal. Num sincero
                    ímpeto de indignação e susto, o marquês aprumou-se na cadeira, ergueu-se e
                    avançou dois passos, na intenção de ir inquirir pessoalmente, valer ao mal no
                    que pudesse, acudir aos seus amigos. Mas breve se viu colhido numa grave
                    dificuldade, uma amarga aflição lhe ranilhou a caparrosada aridez da face. — As
                    pernas tremiam-lhe ainda como vimes, perras, moles, cheias de picadas. Não podia
                    ir a pé, carecia de uma tipoia... e não tinha em casa 5 reis! Se fosse questão
                    só de o levarem, bem estava; mandava ali ao Rossio, qualquer “lagoia” lhe fazia
                    da melhor vontade a esmola da corrida. Eram todos seus amigos... muito mais do
                    que isso lhe deviam eles. Mas quem o levasse tinha de esperar, para o trazer
                    também. E isto é que já era um favor mais puxado. Não se atrevia a pedir
                    tanto... Demónio! E o pobre Meireles lá, e o Jorge, e Adriana, e o pateta do
                    padre Sebastião aquela hora quem sabe se vivos... sabe Deus como! — E perplexo e
                    inquieto, sobre brasas, o marquês sentia tenalhado o coração no cuidado e na dor
                    por esses vagos perigos, que a sua imaginação de artrítico mais avolumava.</p>
                <p>Nisto, — estava-se em vésperas de pagamento de rendas, — anunciam-lhe a visita de
                    um dos locatários de algumas terras de semeadura e horta que o marquês possuía
                    ainda, hipotecadas havia muito, nas várzeas da ribeira de Algés, cerca da
                    estrada militar. Distraidamente, voltou a sentar-se, mandou-o entrar.</p>
                <p>O caçapo saloio avançou humilde e devagar, todo desfeito em zumbaias, com um
                    espertalhão sorriso a debruar-lhe de vez em quando os olhos e o chapéu à frente,
                    rodando nas mãos calosas.</p>
                <p>— Ora salve-o Deus, amigo Jerónimo! — disse-lhe afável o marquês, depois que, de
                    mão em palia à frente da testa, conseguiu reconhecê-lo.</p>
                <p>— A paz do Senhor seja nesta casa, Sr. marquês! — acolitou o ladino, com uma nova
                    mesura.</p>
                <p>— Então o que é que o traz por cá?...</p>
                <p>Adiantou mestre Jerónimo mais um passo, com mostras de envergonhado, cofiando os
                    matacões.</p>
                <p>— Vossa Excelência sabe... eu vinha para dizer ao Sr. marquês... Isto a lavoura
                    está uma desgraça! As terras não dão nada: nem há produtos, nem compradores. Os
                    anos cada vez piores...</p>
                <p>— Ora! Desde que me entendo que eu lhes oiço dizer isso.</p>
                <p>— Ah, queira desculpar, Sr. marquês, mas isso é que não! Nunca como agora... Eu
                    cá falo franco, assim não posso continuar lá com a fazendita.</p>
                <p>— Então entregue-a.</p>
                <p>— Ó Sr. marquês! E o dinheirinho que eu ali tenho enterrado?... Tenha dó de
                    mim.</p>
                <p>— Mas então o que é que você quer?</p>
                <p>O saloio fez pausa, baixou mais a cabeça, e numa lamurienta distensão dos
                    lábios:</p>
                <p>— Se Vossa Excelência me perdoasse por este semestre a renda...</p>
                <p>— Você está doido! — vociferou súbito o marquês. — E então eu de que é que vivo?
                    Eu e a minha gente não havemos de comer?... Nada! Nada! Preciso muito de
                    dinheiro.</p>
                <p>— Tem muita razão, Sr. marquês, tudo isso é muito direito, mas...</p>
                <p>— Bem, bem, vamos a despachar!</p>
                <p>— Mas então ao menos um abaixamentosinho...</p>
                <p>— Abanou o marquês negativamente a cabeça. — Era uma esmola!</p>
                <p>— Homem! Já de outra vez eu lhe fiz a redução que podia.</p>
                <p>Sobre esta contestação, o marquês abriu uma pausa transigente. E o outro,
                    adivinhando-o, balbuciou:</p>
                <p>— Eu vinha para pedir isto, para saber... sim, para ver como hei de então trazer
                    depois de amanhã o recibo.</p>
                <p>Manteve silêncio o fidalgo. E na sua insistente moenda o Jerónimo, perante aquela
                    condoída hesitação, lamuriava sempre monossílabos de súplica; quando de repente
                    o marquês, com familiar descaro:</p>
                <p>— Olhe lá, tem você aí dez tostões que me empreste?</p>
                <p>— Pois não tenho, patrão! Acudiu logo o saloio, num vitorioso relâmpago. — Até
                    mais, se quiser! Ora essa, meu fidalgo!</p>
                <p>— Não, não... dez tostões bastam.</p>
                <p>O feliz arrendatário puxou da bolsa e adiantando as duas moedas de prata:</p>
                <p>— Pronto!</p>
                <p>— Está bera, obrigado... — disse, colhendo sôfrego o dinheiro, o outro. — Abata
                    lá então alguma coisa.</p>
                <p>— Quanto, Sr. marquês?</p>
                <p>— Eu sei... para aí um terço.</p>
                <p>— É pouco!</p>
                <p>— Bem, olhe, encha lá o recibo, em consciência, para a melhor forma que entender.
                    E não me masse mais...</p>
                <p>Despedido por um gesto, deu-se pressa o Jerónimo em retirar. Mas o marquês
                    disse:</p>
                <p>— Já agora, dê-me cá mais cinco tostões... — E depois de servido, com um frialão
                    cinismo ao saloio, que retirava todo humilde, ás arrecuas: — Adeus, meu
                    rapaz!</p>
                <p>Meia hora depois, já o besuntão se apeava à porta da casa senhorial do Almargem.
                    Entrou pela cozinha, jantou; e no momento em que os seus grossos sapatos
                    apontavam tartameleando na fria antessala do andar nobre, recapitulava o padre
                    Sebastião atabalhoadamente, perante a escovada indignação do comendador
                    Sulpício, a sacrílega agressão de que ia sendo vítima, aquela manhã. A D.
                    Mafalda, do seu fauteuil, sublinhava a carfologias de odio as palavras do padre,
                    tremulas ainda de pavor. Jorge e Adriana, de pé e enlaçados, sorriam
                    complacentes. O pai lia a Palavra. E Bernardo Gonzaga, perfeito, invariável no
                    seu papel de cortesão barato, não descurava de ás iras rompantes da D. Mafalda
                    acudir com o seu reforço de exclamações e gestos indignados.</p>
                <p>Quando viu o descadeirado vulto do marquês, logo a fidalga exclamou:</p>
                <p>— Ah, ó marquês! Venha cá... Ainda bem! Então já sabe?</p>
                <p>— Pois então não sei! — acentuou do marquês a laringe oxidada.</p>
                <p>— Quem lhe contou?...</p>
                <p>— Andam suplementos nas ruas.</p>
                <p>— Vejam!</p>
                <p>— Vão lá fazer bem a esta gente!</p>
                <p>— Foi por isso que eu cá vim... Deu-me cuidado! Mandei ao demo a gota e pus-me a
                    caminho.</p>
                <p>— É amigo! — exclamou D. Mafalda, com os olhos boiando numa ternura envaidecida.
                    E indicando ao marquês uma poltrona de coiro, ao lado: — Sente-se...</p>
                <p>O marquês avançou com precaução, e tomando lugar, muito amparado aos braços, na
                    cadeira:</p>
                <p>— Estão então todos vivos?</p>
                <p>— Graças ao Senhor! — acudiu num plácido sorriso o Meireles, sem desfitar o
                    jornal.</p>
                <p>— E ao mestre Mateus, digam também! — observou alto Jorge, adiantando um
                    passo.</p>
                <p>— Ora adeus! — rompeu colérico o padre.</p>
                <p>— Não me venhas falar nesse traste! — apoiou no mesmo tom a fidalga.</p>
                <p>— Mas porque não, minha querida mãe?... — disse com afável bonomia Jorge
                    Meireles, trocando com a irmã um sorriso de irónica piedade. — Pois a verdade
                    não é esta? Sim, se não fosse ele... padre Sebastião, diga lá... eu sempre
                    queria ver!</p>
                <p>Como o padre se mantivesse mudo, o marquês invetivou:</p>
                <p>— Vamos! Que diz a isto, seu jarreta?</p>
                <p>— É sempre bom firmar em toda a sua pureza a verdade dos fatos, — aqui achou
                    oportuno sentenciar o comendador.</p>
                <p>E então, vendo todos com os olhos nele postos, o padre:</p>
                <p>— Lá isso, verdade, verdade... estávamos quase a ser apanhados, mas mal que esse
                    danado contramestre apareceu e lhes fez um sinal, toda aquela furibunda choldra
                    estacou e emudeceu... ficou de pedra!</p>
                <p>— É singular... é bonito isso! — arranhou o marquês.</p>
                <p>— Eu cá nunca assim vi!</p>
                <p>— Mas que homem! — exclamou Adriana num transporte, corando e abrindo ao alto
                    enlevadamente os olhos.</p>
                <p>— Foi um achado, isso foi... — murmurou compenetrado Afonso Meireles, largando
                    para cima do bufete o jornal.</p>
                <p>D. Mafalda, com os olhos sumidos de raiva, batia de punho fechado na concha da
                    mão esquerda. E então bajuladoramente o Gonzaga, a ir com ela:</p>
                <p>— Eu acho-o perigoso...</p>
                <p>— Pois não é!</p>
                <p>— Sim, até certo ponto, pode-se dizer... — interveio de pausa o comendador, de
                    mãos no ar suspensas, na grave preparação de uma pitada. — Esse homenzinho,
                    vê-se, está identificado de mais com a canalha... há de pensar e sentir como
                    eles. Não convêm! — Sorveu a pitada, sacudiu os dedos e limpando-se, epilogou: —
                    Eu cá despedia-o!</p>
                <p>— Veem! Veem! — disse D. Mafalda para o marido e os filhos, num riso
                    triunfante.</p>
                <p>— Não pode deixar de ser! — ajudou o Bernardo, prometo à deixa.</p>
                <p>— Homem, essa! — observou com toda a sua rude estranheza o marquês. — Então há de
                    ser votado ás feras um homem que acaba de prestar-lhes tamanho serviço? Um homem
                    que é a primeira garantia de ordem que vocês têm ali assim, das portas para
                    dentro?...</p>
                <p>— Ora, marquês, eu sei lá!</p>
                <p>— Quem sabe se não andaria aí plano para mais tarde?... — insinuou Bernardo
                    Gonzaga com ar misterioso. E como Afonso Meireles o fitasse com sincero espanto:
                    — Sim, com o ascendente enorme que o meliante tem sobre aquela gente, se um dia
                    lhe dá para mal, imaginem!</p>
                <p>— Que lembrança!</p>
                <p>— Está doido! — fulminou Adriana.</p>
                <p>E, de nojo, voltou com o irmão costas à conversa.</p>
                <p>— Está claro que sim! Há que pensar nessa coisa… — apoiou irritadamente, pondo-se
                    em pé, o padre. — Mormente no tempo falso e perigoso em que vamos.</p>
                <p>— Não há coisa nenhuma! — disse aborrecido o Meireles.</p>
                <p>— O tal senhor Mateus é declaradamente pedreiro livre...</p>
                <p>— Lá volta a asneira! Pois ainda há disso?</p>
                <p>— Ah, isso é que ele é! Conheço-os pelo cheiro... Ia jurar! Ora se ele se lembra
                    de se ligar a esse trabalho de extermínio que anda iminente, de roda de nós e
                    contra nós... se arrasta consigo, e é só ele querer, toda essa sucia de
                    malandrins que lhe obedecem como autómatos, vejam! Vejam que calamidade! Não há
                    quem os sustenha, veem para aí acima… dão-nos cabo da vida!</p>
                <p>E num irreprimível trejeito de pavor, como se já estivesse sendo vítima dos maus
                    tratos da canalha, o padre Sebastião voltou a acoitar-se na cadeira que momentos
                    antes deixara, enovelando-se todo, a tremer, aos suspiros, de pés no ar; numa
                    tão arrevesada e grotesca apostura, que de roda dele estalaram grossas e
                    unanimes as gargalhadas.</p>
                <p>Ao ruidoso cascalhar voltaram-se Jorge e Adriana; exclamando esta:</p>
                <p>— Ai o nosso pobre padre Sebastião, que arranjou susto para sua vida!</p>
                <p>E, dizendo, Adriana ria, ria também... com um riso claro e crepitante, que rufava
                    em todos os seus nervos e lhe tomava todo o corpo numa aleluia de troça... um
                    riso petulante e amorável, que era só dela e de mais ninguém. Era como se os
                    seus lábios se partissem em casquinadas de cristal, e a sua boca infixável se
                    esbagoasse em frescas notas de carne, que arlequinadas e cheias, atropelando-se,
                    vinham umas sobre outras rolando a sua música zombeteira e súbito espipavam numa
                    estralada vibrante para o ar. Riso feito de agudas cintilas, de pequeninas fugas
                    doidas, límpidos jatos de alegria, espadanando, afusando, espirrando para o céu
                    em rutilas toalhas, um momento interrompidas, para logo recomeçarem mais
                    espumantes e mais jucundas, na sua tamborilada e cantante alacridade. Nem era
                    contrafeito, nem mau, nem agressivo; mas um rir bem timbrado e forte, um rir de
                    saúde, a que a encantadora criança plena e regaladamente se entregava por uma
                    tendência ao seu temperamento essencial, porque isso lhe dava prazer, e porque,
                    em suma, há momentos em que a vida não merece outra coisa.</p>
                <p>E de roda dela o pai, a mãe, todos menos Jorge, a fitavam de espanto, realmente
                    admirados por a verem, em vez de indignada, toda entregue a um daqueles seus
                    acessos de rir tão raros, como de quem adivinha uma grande e suprema felicidade,
                    — e que só muito de espaço costumavam vir transtornar o severo triângulo do seu
                    rosto egípcio, a linha sossegada e séria do seu perfil.</p>
                <p>Passados alguns minutos, quando a calva académica do comendador conseguiu fechar
                    a poder de compassados meneios este parêntesis de troça, achegou ele de
                    importância o seu fauteuil do de Afonso Meireles e deblaterou:</p>
                <p>— Em todo o caso, meu caro Meireles, não tenha duvida... entre nós algum grave
                    fenómeno social se prepara.</p>
                <p>— Não sei porquê... — o outro objetou, num dar de ombros incrédulo.</p>
                <p>— Ah, é evidente... diz-mo a minha experiencia. Leia o amigo os jornais,
                    surpreenda-me por aí as conversas, observe-me as fisionomias de toda essa gente
                    nas ruas.</p>
                <p>— Ora adeus! Já há pouco disse... não vejo coisa nenhuma!</p>
                <p>— Perdão, pai... vê-se uma coisa... — acudiu muito irónico Jorge, sentado junto
                    da mãe. — E é um ridículo e dispensável aparato de opas e sotainas. Ainda esta
                    manhã!</p>
                <p>— Cala-te! — segredou-lhe, com palmadinhas de mimo nas mãos, D. Mafalda.</p>
                <p>— Não se digladiam duas classes, esperta-se a lembrança de um santo folião.</p>
                <p>— Sempre a fazer espirito este menino! — arrastou numa protetora complacência o
                    comendador.</p>
                <p>— Ó meus caros senhores, é a pura da verdade! — insistiu Jorge com calor. — Os
                    ultramontanos, cá a nossa gente, mexem-se... não sei se fazem bem, se mal, mas o
                    fato é que, presumindo muito de si, estão buscando um pouco a evidência; trazem
                    para o sol a sua influência, a sua organização, a sua força. Naturalmente, fazem
                    sombra aos contrários, que pelo seu turno, provocados, se alvoroçam e se agitam
                    também.</p>
                <p>— Este meu filho! — comentou o velho Meireles, desvanecido.</p>
                <p>— De sorte que, em última analise, o tal grave fenómeno social, de que a grande
                    caturreira deste nosso comendador se arreceia, com perdão de s. exa, mas não
                    passa de uma minúscula reedição do Hissope, uma pífia questão de confrarias.</p>
                <p>— Não me tens respeito nenhum! — disse a mãe.</p>
                <p>— E eu assim, no tal iminente conflito, não vejo soldados, mas sacristães. O
                    medonhento combate que vai travar-se não será a pólvora e bala, mas a brandões e
                    água-benta. A mãe deve estimar!</p>
                <p>— Agora água-benta! — exclamou furioso o padre. — Um grande martelo vi eu por
                    diante dos meus olhos... essa não está má!</p>
                <p>— Não, agora, falando sério, — disse, enquanto os outros riam, e depois de uma
                    pausa complacente, o comendador, — a coisa não está bem, Isso não está...</p>
                <p>— Pois não! — resmoneou o padre. — Só quem for muito cego ou muito... herege, é
                    que é capaz de sustentar o contrário.</p>
                <p>— Padre! Padre! — ameaçou, rindo, Jorge. — Olhe que eu levo-o por uma orelha até
                    lá baixo à fábrica.</p>
                <p>Coseu-se de novo o padre Sebastião, quanto pode, com o fundo espaldar da sua
                    poltrona. Ao tempo que o Gonzaga informava:</p>
                <p>— Eu ouvi dizer que o governo, para assegurar a ordem e reprimir a desaforada
                    licença que aí campeia à solta, vai restringir o direito de associação e
                    publicar uma nova lei de imprensa.</p>
                <p>— Diz que sim... e é muito bem entendido!</p>
                <p>— Há muito que eu não prego outra coisa!</p>
                <p>— É verdade, olha lá, — disse com intimativa Afonso Meireles para o marquês,
                    batendo-lhe na cocha, — agora, quando o parlamento abrir, tens que apoiar nesse
                    ponto o governo.</p>
                <p>— Não, menino, isso é que não! — redarguiu logo o interpelado.</p>
                <p>— Então porquê?...</p>
                <p>— Esquece-se de que é dos nossos! — censurou a D. Mafalda com amorável
                    estranheza. — e Vossas Excelências esquecem-se de que eu fui feito par pelos
                    progressistas.</p>
                <p>— Ora e isso que tem?</p>
                <p>— Quem se prende hoje com essas coisas!</p>
                <p>— Um membro da camara alta deve ter opinião sua, deve ser independente.</p>
                <p>— E deve ser grato também... — acentuou o marquês com dignidade.</p>
                <p>O Bernardo Gonzaga aclarou, todo solícito:</p>
                <p>— Olhe, é verdade, aí tem o marquês o Vargas, que foi feito para o reino na mesma
                    ocasião que V. exa e está do nosso lado.</p>
                <p>Ao que o velho frialão, com uma expressão sarcástica singular, demoradamente:</p>
                <p>— Ah, perdão, perdão... mas isso é o Vargas, que é um homem honrado... pode
                    faze-lo. Agora eu, um cínico, um valdevinos, eu é que não!</p>
                <p>Entretanto Adriana, altivamente alheada da conversa, passeava nervosa pelo
                    aposento a sua alegria estimulada, em quebros felinos dos rins, em contraturas
                    bruscas das mãos e caprichosas circuições no passo. Não sabia o que tinha...
                    Dir-se-ia que instintivamente rejubilava, num diagnóstico vago de vitória, sem
                    bem saber-se dizer porquê... Mas em todo o caso esta propicia excitação
                    dominava-a por completo, fazia-a manifestar naquela dança de febre o seu
                    antecipado anseio de triunfo. — É que o seu temperamento vivo e másculo tinha
                    naturalmente a obsessão do mando. Da sua alma, embora feminina, a preocupação
                    constante, essencial, era este garridismo dos fortes que consiste na sujeição
                    dos outros. Sob este ponto de vista, a grandeza moral do Mateus desafiava-a...
                    não pelo deslumbramento, não pelo afeto, não por qualquer fascinação
                    sentimental... mas por uma espécie de duelo de primazias, por um acre ciúme de
                    competências. Não era nada banal aquele homem! Tinha vontade sua, eloquência,
                    poder, alma, prestigio. Quem o pudesse dominar! Aquele sim, valia a pena! Era de
                    tentar a experiencia. A ver qual dos dois era mais forte! — E quanto mais
                    considerava na arriscada empresa, mais também a atração, o encanto por um êxito
                    que tinha como certo, a empolgava. A termos que, desde aquela noite,
                    progressivamente tomou corpo e cada vez mais fundas raízes mergulhou na
                    virgindade arrogante da sua alma o apetite absoluto e ardente de vir ela a
                    tornar-se ainda a suserana, a dominadora suprema de um homem assim!</p>
            </div>
            <div>
                <head>CAPÍTULO XI</head>
                <p>Estimulado e aquecido também pela mais promissora alegria se sentia o Mateus,
                    desde aquela manhã. Tinha ele agora para si como indubitavelmente assentes duas
                    coisas: a submissão incondicional de todo o pessoal da fábrica ao seu
                    fascinativo império, e a eficácia maravilhosa do seu estratagema. Com certeza os
                    patrões não pensariam mais em creches, ou qualquer outra inovação piedosa; era
                    um negócio arrumado. Assim, já não havia perigo de que inoportunas lágrimas de
                    gratidão viessem amolecer a generosa semente de ódios que ele com tão incansável
                    furor andava espalhando; a sua obra providencial de reivindicação e justiça
                    continuaria inalterável; no momento próprio poderia finalmente então dispor ao
                    seu talante, e arrojar em massa contra o inimigo comum, a passividade
                    disciplinada e feroz da multidão. — E a evidência deste fato, a iniludível
                    confirmação deste resultado mais ardidamente o faziam agora afervorar na sua
                    cruzada igualitária; como que lhe reacendiam o entusiasmo e lhe decuplicavam as
                    forças.</p>
                <p>Vinha próximo o Natal, e portanto a anunciada visita do mestre chapeleiro
                    Bazeleerts e do companheiro. Que enorme importância ia esta visita dar-lhe! Que
                    influencia decisiva para o êxito da sua causa! Era afinal ele, sim, o pobre e
                    ignorado Mateus, o primeiro que conseguia trazer a Lisboa dois delegados da
                    Internacional... Por coisa nenhuma no mundo abdicaria desta glória! — Muito
                    havia já que o contramestre do Almargem passava as noites a renhir no caso. Era
                    o tempo de dispor para essa grave entrevista as coisas, de modo a garantir toda
                    &amp; segurança aos recém-vindos, e a tirar da aproximação deles com os nossos
                    todo o possível resultado no sentido da execução da sua ideia. Tornava-se
                    indispensável recebe-los bem, fora de toda a contingência de perigo, rodeando-os
                    ao mesmo tempo de correligionários à altura, e dispondo, para influírem no animo
                    deles e dos de cá, um cenário de efeito. Mas como, onde?... A tenda do Zé
                    Pequeno já não oferecia garantias, nem era decente. Outra qualquer em condições
                    também por ali não havia. Na vila Dias, a sede do Cirio Civil era segura, mas
                    acanhada, dava muito na vista. De sorte que só se fosse talvez... em casa do
                    João dos Unguentos.</p>
                <p>Logo na tarde do mesmo dia da arruaça, resolveu o Mateus ir lá, para combinar.
                    Terminada a entrada das 2 horas, deixou pois a fábrica, tomou calçada do Grilo
                    acima, e depois à direita, pela estrada de Marvila toda, até, passado o pátio do
                    Picadeiro, ao alto. Aí, antes da descida para Braço de Prata, a rua aplana e
                    alarga, num esboço irregular de praça, onde, à direita, bizarramente entalada
                    entre dois prédios banais, se afirmava pelo seu ar misterioso e exótico uma alta
                    e maciça construção vermelha, meio armazém, meio celeiro. — Era primeiro um
                    largo portão de pinho, pintado a sumagre, com os gonzos embebidos em dois
                    pilares rústicos de alvenaria, flanqueados por frades de pedra e no topo
                    sustentando dois grandes monstros arqueológicos, também de pedra, voltados um
                    para o outro e coinchados numa apostura que lembrava a da celebre loba
                    mitológica, da fundação de Roma. Depois, sobre o portão e contornando os
                    devastados lombos das duas feras, corria uma espécie de novo embasamento de
                    madeira, vermelha também, com o seu vistoso aparelho nos rebordos, o qual
                    suportava um tapume protegido de zinco, fechando espaço, com janelas aos cantos.
                    E por toda esta enigmática fachada escorriam herpes de abandono e de ruina.
                    Grossas teias de aranha, prenhes e negras de pó, sanefavam as vidraças. As algas
                    e os musgos acolchoavam as fendas, enchiam os ângulos, debruçavam-se dos
                    ressaltos, destingiam junto à base as ripas carcomidas.</p>
                <p>O Mateus aproximou-se, puxou um cordão de campainha que se ouviu tinir dentro
                    estrondosamente. Segundos depois, um dos postigos do portão abriu-se, o
                    contramestre entrou, fechou-o sobre ele; e estava agora num longo pátio deserto,
                    calçado a brita miúda, como a rua, com as duas faces maiores tomadas por lojas,
                    e sobre elas, salientes como balcões, correndo varandas envidraçadas. Ao fundo,
                    uma escadaria de pedra com corrimão e o seu alpendre, encostada à parede, dava
                    serventia ao interior da casa por via de um aparatoso portão armoriado. De roda,
                    pelo chão, havia profusos destroços de garrafas, retortas, frascos, fogareiros
                    de barro, cacos e resíduos de toda a sorte. Á esquerda, o parapeito circular de
                    um poço, com balde de roldana. Á direita, enferrujando o muro, uma
                    nespereira.</p>
                <p>Quando o Mateus entrou, assomavam ao portão do alpendre, do lado oposto, a
                    cunhada mais velha do Silvério e a grandalhona e dura amasia do dono da casa.
                    Mal que esta viu em baixo o Mateus, os seus olhos felinos fosforaram numa
                    expressão que pretendia ser afável.</p>
                <p>— Ó Sr. Mateus! Por aqui?...</p>
                <p>E o contramestre, de mão ao chapéu, adiantando-se:</p>
                <p>— É verdade... Salve-as Deus, meninas! Então o nosso João?</p>
                <p>— Rijinho, graças ao Senhor... E o que ele vai ficar de contente! — exclamava
                    envaidecida, do alto da escadaria, a virago, desengonçando vivamente os braços.
                    — Entre, suba, faça favor!</p>
                <p>O Mateus havia tomado com presteza à escada; e já em cima, no patim, apertava ás
                    fluas mulheres as mãos com familiar engodo. A do João disse-lhe ao ouvido:</p>
                <p>— Temos coisa de importância?</p>
                <p>— Não... Apenas ver se o seu homem me empresta a casa para uma noite destas.</p>
                <p>— Pois entre! — insistiu com intono protetor a amasia, quadrando os ombros do
                    Mateus com a porta. E a meia voz explicava: — Estamos aí a aviar umas freguesas
                    e ele depois já o atende. Ficamos sós...</p>
                <p>— Bem, filha, obrigada... Adeus! — disse para esta a dó Silvério, estendendo do
                    mimo a face.</p>
                <p>— Até quando quiseres.</p>
                <p>— Deus Nosso Senhor vos faça tanto bem como eu desejo para mira!</p>
                <p>— Tomaste bem sentido?... Cénia, maná e sal inglês... ferves bem, com as por um
                    pano e bebes todas as noites, ao deitar da cama. É infalível!</p>
                <p>— Bem hajas!</p>
                <p>E enternecidamente as duas beijocavam-se, piscando os olhos húmidos. Depois, já
                    descendo a escada, a do Silvério suspirava:</p>
                <p>— Se me vejo livre disto! Ai, Nossa Senhora!</p>
                <p>Enquanto, com maligna intimativa para o Mateus, a outra:</p>
                <p>— Esta desavergonhada... conhece-a?</p>
                <p>— Não tenho bera ideia.</p>
                <p>— É a cunhada do Silvério... a mais velha.</p>
                <p>— Ah, sim...</p>
                <p>— Está metida em boa! — bisbilhotou a dura abantesma, irreprimivelmente, com
                    regalado interesse. — Anda aí enrolada cum gargajola que mal ganha para comer.
                    Parece impossível! — E erguia ao alto numa indignação a mão enorme, espalmada.
                    Mas vendo que a rapariga lhe acenava uma última saudação da porta da rua,
                    corrigiu logo o gesto, acenando-lhe também: — Adeus, filha! Desejo as
                    melhoras... — E mal que ela desapareceu, outra vez com intimativa para o Mateus,
                    passando com ruido as costas da mão pelas narinas e arregalando os olhos: — Em
                    suma, para que o senhor Mateus veja, o tal moinante é desta força: tem sete
                    prisões, ninguém lhe conhece casa... Ainda da última vez que esteve preso, veio
                    quase nuzinho... teve que vender tudo para sair!</p>
                <p>— Esses homens têm atrativos!</p>
                <p>— “Nanja” para mim! Pois esta lesma desconfia que ocupou dele... E agora têm
                    medo! Se ao Silvério se mete isso na ideia, teme que ele lhe dê má vida... quer
                    desmanchar a obra. Ai, se ele desconfia, credo! É capaz de a matar.</p>
                <p>Visivelmente enfastiado, o Mateus olhava fito o portão, sem responder. E então
                    ela, percebendo:</p>
                <p>— Entre! Entre! Estão só mais duas... Aqui não se faz mistérios.-t-E passando
                    adiante do Mateus, muito chalreira e contente para dentro, batendo as palmas: —
                    João! ó João! Olha quem aqui vêm!</p>
                <p>O João, que ao fundo do lezardento casarão estava sentado, junto a uma secretária
                    trivial de mogno, com prateleiras, ergueu-se logo e veio numa grata surpresa ao
                    encontro do recém-vindo.</p>
                <p>— Olha o nosso homem por aqui! Como está, Sr. Mateus? Ora até que enfim!</p>
                <p>E efusivamente apertava entre as suas a mão do Mateus, que, sorrindo:</p>
                <p>— Então! Alguma vez havia de ser.</p>
                <p>— Não te dizia eu que nós hoje tínhamos grande novidade? — acudiu, toda dobrada
                    sobre o cachaço farrusco do João, a amiga.</p>
                <p>— Mas que honra! — dizia ele em êxtase.</p>
                <p>E ela repisando:</p>
                <p>— Se eu esta manhã, andava a pôr a mesa para o almoço, ouvi as cafeteiras
                    traquinar!</p>
                <p>— Pra aqui, pro pé da gente! Ora o nosso homem! Á vontade... sente-se.</p>
                <p>E com o mais solícito respeito fazia o João que o contramestre se instalasse numa
                    cadeira de braços, à direita da secretária, enquanto ele retomava o seu lugar,
                    com a gadelhuda mulher ao lado.</p>
                <p>— Então o que o traz por cá? — apressou-se a inquirir com interesse.</p>
                <p>— Acaba de aviar essa gente, que depois falamos. — atalhou em ar imperativo a
                    amasia, acotovelando-o e acendendo um cigarro.</p>
                <p>— Está dito! — condescendeu o João; e, fazendo ao Mateus uma vénia: — Com sua
                    licença...</p>
                <p>Depois, num quebramento languido dos olhos e tufando com os dedos, cheios de
                    anéis, a gaforina, voltou-se para duas mulheritas que mudas, em pé e num
                    acatamente humilde, se mantinham a distância.</p>
                <p>— De que te queixas tu, Tereza? — disse a uma delas o fármaco.</p>
                <p>— Ó Sr. Joãozinho, o meu estomago... — balbuciou, adiantando-se, uma mulher ruça
                    e pequena, sem peito, de um androginismo anémico os quadris, os braços pendentes
                    num desânimo e cavadas faces macilentas. — É sempre um peso! Não me consente
                    nada. Quanto menos como, menos vontade tenho...</p>
                <p>— Mas que diabo fazes tu?</p>
                <p>— Ora, que hei de fazer?... Ralo-me com trabalho, e à procura do meu homem!</p>
                <p>— Andam sempre pelas tabernas! — criticou a amiga do João, numa fumaça de
                    desprezo.</p>
                <p>— Ele! Ele! Isso dois pontos... — protestou Teresa com vivacidade, crispando os
                    olhos. — Ele é que anda... e eu em casa, horas, à espera... a moer-me, a gastar
                    carvão.</p>
                <p>— De sorte que não tens hora certa para comer?</p>
                <p>— Há muito tempo que não sei o que isso seja. Assim me Deus salve! — E erguia ao
                    alto com tristeza os olhos de crepúsculo. — Nem dormir uma noite descansada!</p>
                <p>— Pois é isso que te não convêm. Porque não comes tu à parte?</p>
                <p>— Ó Sr. Joãozinho e a despesa? Posso lá!</p>
                <p>— Vê se lhe apanhas mais alguma coisa... — insinuou a virago com dureza.</p>
                <p>— Ah, quem falia nisso?... para ele me sacudir o pó, ainda em cima. Aquele dianho
                    anda na forra. Socancra que nem um prego... Tudo é pouco para vinho.</p>
                <p>— Mas tu... tens a tua féria... porque não vais à Sopa económica?</p>
                <p>— Não gosto daqueles comeres., Têm muita soda.</p>
                <p>Tinha o João puxado com importância uma das gavetas da prateleira em frente,
                    donde tirou uma pequenina caixa redonda de papelão.</p>
                <p>— Toma estas pilulas... duas por dia. Depois me dirás o efeito... E faz por comer
                    ás horas, ouviste? É a melhor coisa que te posso receitar.</p>
                <p>Tereza colheu comovida da mão do casquilho alveitar o remédio; guardou-o no bolso
                    da saia; e saqueando então de sob o xaile um dessangrado galináceo, que, piando
                    rouco, passou à mão pronta da inseparável acolita dó João:</p>
                <p>— Eu dinheiro não tenho... mas contudo, como a senhora tem criação, lembrei-me de
                    lhe trazer este frangainho.</p>
                <p>— Obrigada, Tereza!</p>
                <p>— Os senhores desculparão, mas não tenho posses para mais.</p>
                <p>— Nem eu para outra vez quero que te incomodes. Adeus!</p>
                <p>E de um gesto expedito o João despediu a mulher, que tomou à porta; enquanto a
                    derradeira consulente vinha ao lugar por ela deixado; e a amasia atirava para o
                    chão o frango, que fez uma grossa restolhada de azas, com as pernas presas e o
                    bico sedicioso.</p>
                <p>O Mateus, vagamente distraído, considerava agora com particular atenção a última
                    das demandantes. — Era uma rapariguita esnalgada e esperta, apenas núbil, com
                    uma pele alva e translúcida, o cabelo castanho em fartas ondas sob o lenço roxo,
                    a boca rasgada com impudência e grandes olhos negros, mordidos de paixão. Uma
                    aragem de pecado, uma contagiosa e ardente precocidade lhe alvoroçava o corpito,
                    quase impúbere; sobre o pescoço, que era uma linha, a sua oblonga cabeça de
                    predestinada oscilava numa instabilidade inquieta; e por baixo da barra da saia
                    curta de lã apontavam, calçadas em meias azuis, longas as tíbias como arestas
                    vivas.</p>
                <p>Quando a viu, não pode a Virago conter o seu rir sarcástico:</p>
                <p>— Olá! Também por aqui o Contrapeso!</p>
                <p>— É verdade... — murmurou a pequena num trejeito humilde.</p>
                <p>— Bem digo eu! Isto hoje é o dia das novidades.</p>
                <p>Mas carinhosamente, a anima-la, o João:</p>
                <p>— Que tens tu? Andas assim a modo arrelampada...</p>
                <p>Depois de uma enleada pausa, de olhos baixos, correndo a mão pelo avental e
                    frisando a testa, a rapariga aventurou:</p>
                <p>— Então que quer, Sr. Joãozinho?... Aquele Ventura!</p>
                <p>— Que te fez ele?</p>
                <p>A pequena corou, e muito naturalmente:</p>
                <p>— Foi-se-me o melhor!</p>
                <p>— Outra! — exclamou o João, dando um grande murro na carteira e com um brilho
                    guloso nos olhos, menos de indignação, dir-se-ia, quede inveja. — Mas que
                    menino!</p>
                <p>O Mateus, muito pálido, estremeceu. E a outra, atirando longe o cigarro:</p>
                <p>— Ó mulher, mas que pressa! Que danadas vocês são! Nem ratas...</p>
                <p>— Ele é um rapaz tão bonito! — disse com singeleza a débil criança.</p>
                <p>E com desolado espanto observava o Mateus o amoroso relâmpago que lhe ardeu nas
                    pupilas.</p>
                <p>— Nem eu fiz isto por ser doida... juro pela luz dos meus olhos! Nem conhecerei
                    nunca outro homem. — O João e a amiga cambiaram um olhar escarninho. — hei de
                    ser só tele e de mais ninguém!</p>
                <p>— Sim, filha... É a cantiga de todas.</p>
                <p>— Ó senhora, verá!</p>
                <p>— Ainda é preciso que ele queira...</p>
                <p>— Se me deixar, — volveu resignada, como que monologando, a rapariga, — também já
                    cá fiz o meu plano... É certo, vou para Irmã da Caridade... — E rematou, num
                    frouxo de choro: — Se não morrer antes de paixão I</p>
                <p>— Tola! Sabes a fama que ele tem... — repreendeu João com doçura.</p>
                <p>— Que esperas tu dali? — disse a amiga.</p>
                <p>— Se esse malandro gostasse de ti... mas a valer!</p>
                <p>— Ele diz que sim... que me põe casa. — E perante o rir incrédulo dos dois: — Mas
                    tenho ouvido tanta coisa... ele é tão maroto, tão vário, que a falar a
                    verdade... sim...</p>
                <p>— Que queres tu então? — disse-lhe com particular intenção o saloio
                    esculápio.</p>
                <p>E timidamente, numa sublinha acre de malícia, a arveloasita:</p>
                <p>— Queria uma droga que o prendesse...</p>
                <p>Na sua cadeira o Mateus teve um movimento de impaciência, franzindo os
                    cílios.</p>
                <p>— Aquele melro há de ser custoso... — acudiu a amasia do João.</p>
                <p>Mas piedosamente o Contrapeso rolava para ela os grandes olhos negros,
                    balbuciando:</p>
                <p>— Eu bem sei que fiz mal! Por causa dele perdi fortunas... Olhe o fiscal lá dos
                    Fósforos.</p>
                <p>— Então não sei!</p>
                <p>— E então o velho aqui de cima... o morgado das Veigas?</p>
                <p>— É verdade...</p>
                <p>— Quantas vezes a senhora mesma me disse: Tu estás assim tão tristinha ao pé
                    dele! Mostra-lhe graça, que ele deixa-te tudo.</p>
                <p>— Falava-te uma mulher de experiencia...</p>
                <p>— Afinal, tinha este raio desta sina talhada... Já não tem remédio!</p>
                <p>E, fungando, tornava a esfregar com a aba do avental os olhos. Depois
                    suplicava:</p>
                <p>— Sr. Joãozinho, então?...</p>
                <p>— Está direito! — providenciou por fim o João, colhendo da prateleira ao lado um
                    pequeno boião de vidro, com um pó violáceo. — Vamos! Por seres boa rapariga,
                    toma lá... — Meteu a espátula, projetou uma porção dó pó num minúsculo retângulo
                    de papel, dobrou e deu à pequena, que, abrindo muito os olhos:</p>
                <p>— Mas como é?...</p>
                <p>— Tu não comes com ele? Pois num instante, sem que o sujeito veja, arruma-lhe com
                    uma pitada desses pós para dentro do vinho ou do café...</p>
                <p>— Mesmo na sopa, — completou a amasia.</p>
                <p>— E verás! É prisão certa!</p>
                <p>A sincera indignação do Mateus fê-lo erguer-se de salto e afastar-se, numa
                    explosão de revolta. Enquanto o João, com intimativa:</p>
                <p>— Mas isto muito segredo, ouviste? Toma conta... E traze o resto.</p>
                <p>A rapariga agora tudo era revolver a algibeira, colhida num novo embaraço.</p>
                <p>— Deixa, filha... depois pagas.</p>
                <p>— Quando tiveres casa...</p>
                <p>— Se Deus quiser! — agradeceu o Contrapeso num alívio.</p>
                <p>— E olha, meu pivete, quando for esse grande dia, não te esqueças... a primeira
                    coisa que deves levar para lá é, num pucarinho de barro, azeite, sal, carvão,
                    meio tostão em prata, e cinco réis, que tens que dar a um pobre.</p>
                <p>Sobre esta oficiosa indicação suplementar, a dura virago tomou o frango do chão
                    com presteza, ergueu-se, beijou com hipócrita efusão a rapariga; e, enquanto
                    esta saía, tomando também à porta que dava para o interior, disse, fazendo uma
                    mesura:</p>
                <p>— Bem, então agora, meus senhores... o que é com os homens é com os homens, com a
                    sua licença!</p>
                <p>E ia a retirar-se. Vendo porém o claro sobrecenho do Mateus, que, visivelmente
                    contrariado, passeava longe pelo aposento, julgou de boa tática intervir; e com
                    melúria:</p>
                <p>— Ó João! O senhor Mateus parece que... não vês? Não está corrente...</p>
                <p>— Eu? Não... Pelo contrário... — acudiu logo o contramestre, desanuviando e
                    voltando-se. — Que ideia!</p>
                <p>— Não acredita nestas coisas?... — disse a mulher, com um espertalhão
                    sorriso.</p>
                <p>E ele, estacado com decisão diante dos dois, cruzando os braços:</p>
                <p>— Ora, sejamos francos... nem vocês!</p>
                <p>— Ah, senhor Mateus! Nem a brincar diga isso... — protestou ela com veemência,
                    num ensarilhado dobar dos braços, que fazia o frango ao seu turno protestar
                    também, num dolorido pipiar, sacudindo as azas. — Por alma da minha mãe lhe
                    juro! Não há coisa mais certa... Pois então, se assim não fosse, metia-se lá a
                    gente numa dança destas, credo! Costuma-se a dizer que o pecado mais amargado é
                    o que sai da boca de uma pessoa... e assim, se a gente não estivéssemos bem a
                    cavalo na certeza do que é este remédio... este livre! Nem eu nem o meu João o
                    passávamos a ninguém.</p>
                <p>— Falas com cabeça, mulher!</p>
                <p>— Olhe que ainda o mês passado, Sr. Mateus... isto é verdade, assim me Deus
                    salve! — Atirou furiosa contra o soalho o frango, que não aplacava no seu
                    sedicioso queixume. — Diabos te levem!... Pois ainda o mês passado veio aqui
                    assim uma senhora da Baixa... que fartura de mulher! Linda, alva de neve.
                    Casada, com o marido estabelecido... moram na rua Augusta. Ele andava-lhe aí a
                    modos perdido com uma espanhola. Eram ralhos, pancada, uns gastos doidos, noites
                    fora de casa...</p>
                <p>Gomo o Mateus voltasse em ar de dúvida os olhos para o João, este corroborou:</p>
                <p>— Foi assim!</p>
                <p>— E vai eu tirei-me dos meus cuidados, fui lá...</p>
                <p>— Prosseguiu a amiga. — A coisa combinou-se e eu fui como mulher a dias. Pois o
                    homenzinho tomou a droga, e em tão boa hora que o prendi! Parece outro agora...
                    caseirinho, lamecha, não larga um instante a mulher!</p>
                <p>— Ora então isto foi mal feito? — comentou o João com vivacidade.</p>
                <p>— Não foi uma obra de caridade? — disse também a amasia, erguendo de novo a ave,
                    agora pelas rémiges espontadas. — Já vê... Cá a gente sabe o que faz!</p>
                <p>E saiu triunfante.</p>
                <p>Logo o João se aproximou do contramestre, e dobrando-se urbanamente:</p>
                <p>— Meu rico Sr. Mateus, estou ás ordens.</p>
                <p>E como indefinidamente se mantivesse o contramestre num silêncio meditativo e
                    vago:</p>
                <p>— Então, em que pensa?...</p>
                <p>— Penso... Olhe, sabe, meu caro João?... estou a ver, e cada vez mais nitidamente
                    sinto, a indispensabilidade e a urgência, para a redenção humana pela igualdade
                    e pela justiça, de uma radicalíssima, de uma grande e inexorável remodelação
                    social!</p>
                <p>— Ah, isso também eu estou que sim!</p>
                <p>— Pois porque é que há atritos, revoluções, contendas, guerras? Porque é que os
                    pequenos sofrem a desaforada exploração dos grandes?... Porque é que tantas
                    iniquidades morais, como esta burla dos salários, como a torpeza de que foi
                    vítima essa pobre criança, se perpetram e ficam impunes, senão porque em toda a
                    sua odiosa prepotência as favorece e incita e é por elas, a nossa sociedade de
                    convenção, de impostura e compadrio? Bem vê você, — o chamado direito é a
                    tirania regulamentada; a jurisprudência é a alcaiota do Mal. O homem é
                    fundamentalmente ruim; mas veem os usos, os códigos, as tradições e
                    legitimam-lhe as infâmias! O crime, a loucura, o vício têm o mesmo carater de
                    fatalidade; são três manifestações diferentes do mesmo fenómeno, separadas
                    apenas poios preconceitos, pelas ficções sociais. E destas a instigadora, a
                    imoralíssima fonte é a Lei. É ela que as sentenceia, que as classifica e define,
                    segundo melhor convêm... Assim, tal ação que, cometida por um pária, concita o
                    anátema ou desafia a força, seja ela obra de algum poderoso ou feliz da terra, e
                    passará pela coisa mais divertida e inocente. As leis são isto... Alçapão para
                    uns, pelourinho pros outros... aí está!</p>
                <p>Atoleimado, sem perceber, abanava a cabeça num assentimento o João e esgazeava
                    estupidamente os olhos.</p>
                <p>Numa convicção irreprimível, o Mateus continuou :</p>
                <p>— E só deixará de assim suceder quando todos nós acordarmos deveras! Quando
                    tenhamos conseguido garantir o máximo da iniciativa individual... quando
                    assegurarmos, com o direito absoluto à liberdade, o correspondente e efetivo
                    dever da responsabilidade de cada um.</p>
                <p>Dizendo, o cândido visionário voltara a medir a passo largo o aposento, como que
                    alheado no seu ardente soliloquio, já de novo sem atenção ao farmacopola, que o
                    olhava com respeito.</p>
                <p>Por fim o Mateus voltou a ele, e batendo-lhe no ombro:</p>
                <p>— Diga-me uma coisa, amigo João... você tem-me ouvido... Acredita em mim?</p>
                <p>— Isso nem se pergunta!</p>
                <p>— Sim, ou não?... Tem fé na sinceridade, na justiça, no sacrossanto ideal da
                    minha propaganda?</p>
                <p>— Toda!</p>
                <p>— E você atinge bem os trabalhos em que os quero meter? As dificuldades, os
                    perigos enormes desta nossa aventura?</p>
                <p>— Vejo que é obra de costa acima, isso é... Mas tanto melhor!</p>
                <p>— Ora muito bem! Parece-me que nos entendemos... — fez numa cordial expansão o
                    Mateus, com os olhos faulando clarões de júbilo. — também eu confio em você,
                    João... e instintivamente diagnostico e sinto que encontrei no meu amigo o
                    grande, o indispensável e providencial colaborador à minha obra!</p>
                <p>Com os olhos deliquescentes de vaidade e a boca humilde, o João curvava-se; ao
                    tempo que inflamadamente o Mateus lhe insinuava ao ouvido, depois de haver cauto
                    olhado em roda:</p>
                <p>— Sabe?... vamos ter aqui em Lisboa, dentro em breves dias, dois dos nossos
                    irmãos lá de fora!</p>
                <p>— Sério!? — acudiu num espanto o lascivo caboclo, aprumando-se de interesse.</p>
                <p>— Não há dúvida nenhuma. E são dois tipos de vulto! Um é belga, outro italiano. O
                    primeiro é o revolucionário de maior popularidade e prestigio no seu país...
                    arrastaria as pedras! O segundo já pelas suas ideias sofreu cinco anos os
                    horrores do regímen celular. São desta força!</p>
                <p>— Mas que grande reinação! — exclamou o João aos saltinhos, muito alegre,
                    esfregando as mãos entre os joelhos.</p>
                <p>— Veem palpar pessoalmente o terreno, conhecer isto, oferecer-nos recursos... ver
                    com o que podem aqui contar.</p>
                <p>Agora, ao seu entusiasmo de há um instante substituíra o João um vago receio, uma
                    cautelosa manha, que o fez compenetradamente aventurar:</p>
                <p>— É preciso muito cuidado!</p>
                <p>E levava a mão à cabeça, acamando a gaforina, antecipadamente erguida de
                    pavor.</p>
                <p>— Está claro! — apoiou o Mateus. — A gente temos que reunir... combinar qualquer
                    coisa, trocai ideias. Toda a cautela será pouca... Precisamos de uma casa em que
                    eles e nós possamos estar afoitos... longe da espionagem do governo, do faro da
                    polícia... e não sei onde!</p>
                <p>Mudamente, oscilava a cabeça do João num meneio hesitante. O Mateus arriscou:</p>
                <p>— Estátua casa é que convinha...</p>
                <p>— Não é decente.</p>
                <p>— Mas é segura! Cá longe, com a fama que o vosso tem, ninguém se lembra...
                    ninguém é capaz de suspeitar.</p>
                <p>E enquanto o João, colhido numa grave perplexidade, retardava por um apreensivo
                    silêncio o seu assentimento, voltava o contramestre a olhar com mais minuciosa
                    atenção aquele vasto casarão defumado e banal, meio arruinado, com os negros
                    artesões de velho castanho do teto farpados e comidos do tempo, sanefados em
                    abundancia de teias de aranha; salitrosas escumalhas pelas paredes nuas: à
                    frente do rodapé de azulejo a monótona enfiada de uns bancos escolares; e mais,
                    apenas, à direita junto ao canto, a secretária, ladeada por grandes armários
                    suspensos, mostrando uma lustrosa profusão de frascos através das vidraças, e em
                    baixo contra a parede, ao alcance da mão, o cavaquinho.</p>
                <p>Mas interrompeu-lhe o exame o João, dizendo com arrogância:</p>
                <p>— Disponha da casa como sua, Sr. Mateus!</p>
                <p>— Vê lá...</p>
                <p>— Não tenho duas palavras!</p>
                <p>— És um homem de bem! — exclamou no mais efusivo júbilo o contramestre, premindo
                    o João num grande abraço. E com um novo alento de familiaridade, levando-o muito
                    cingido ao longo do salão: — Mas então aqui estaremos realmente seguros? Toda a
                    casa é assim?</p>
                <p>— Ah, felizmente aqui há muito pano para mangas. E temos várias saídas... Venha
                    ver! — Entrava, com o contramestre pelo braço, na galeria da direita,
                    perpendicular com a sala. — Isto aqui é o meu laboratório.</p>
                <p>Diante dos dois alongava-se um esmadrigado e negro compartimento, espécie de
                    corredor, com a sua frente, provisoria, de mirante de pinho envidraçado, dando
                    sobre o pátio, e correspondente do lado oposto uma aparatosa parede mestra, de
                    cantarias lavradas, com a grossa cornija distante empenachada de avenca e ninhos
                    de andorinha. Passadas transversalmente ao alto, velhas cordas bamboavam ainda,
                    estaladas em parte, entre as traves combalidas; e ao longo da parede encostavam,
                    formando banca, várias tinas de lioz e de zinco, em plano inclinado, algumas
                    ainda com torneira. — Sucessivas estratificações da sorte; escarninhos vestígios
                    das várias metamorfoses de acaso porque passara aquela casa, seguidamente
                    residência solarenga, fábrica de sabão e de papel pardo.</p>
                <p>Mas também, vitoriosamente, lá se viam, mais recentes, os testemunhos do génio
                    industrial do João. Era ao longo da parede alinhada, sobre umas prateleiras
                    muito sumarias, uma fieira enorme de frascos, todos iguais e encabeçados todos
                    por filtros de papel, cuja ponta ia coando gota a gota um líquido viscoso e
                    leitoso, como orchata. E do topo da quadra, alongando o braço com orgulho, o
                    charlatão:</p>
                <p>— Ora tem o Sr. Mateus aqui assim a casa principal do meu palácio, o produto do
                    meu trabalho honrado. A composição deste maravilhoso licor é pura invenção
                    minha, não devo nesse ponto nada a ninguém... deixe falar quem falia. Pôde-se
                    gabar de que é a primeira pessoa que eu aqui admito, a surpreender o meu
                    segredo., porque também sei com quem trato! Olha os outros... Tomarem eles!
                    Dando medíocre atenção a este autopanegírico intempestivo, o Mateus passeava
                    pelo esguio compartimento, num exame de conjunto, os olhos. O que vendo, o João
                    aclarou:</p>
                <p>— Estranha a casa?... Está sujita, está... Se todo o tempo é pouco para aviar as
                    encomendas! E mesmo essas cordas e mais trapalhadas velhas que para aí assim
                    apodrecem, é tudo anterior ao meu! Tempo. O meu é só isto: veja! — E, adiantando
                    dois passos, tornava o lascarinho a apontar com desvanecimento a monótona
                    enfiada dos frascos, em cujo ventre aquelas leitosas gotas, com uma
                    simultaneidade marcial, silenciosa e mansamente, iam caindo.</p>
                <p>— E então esta sua receita é muito complicada? — perguntou num vago interesse o
                    Mateus.</p>
                <p>O João ergueu a cabeça com ar de importância, assobiando e piscando os olhos.</p>
                <p>— Tem muitos ingredientes? — disse o contramestre.</p>
                <p>— Pouca coisa... Tome sentido: é copaíba, é licor de hortelã, água de rosas,
                    alcatrão, gema de ovo. A copaíba, sabe? é o secante por excelência; estimula as
                    mucosas, afugenta o mal porque esperta a fibra; depois, o alcatrão também não
                    deixava de convir, hein? Como desinfetante; a água de rosas aperta; a gema de
                    ovo é para prender... Tudo isto eu pensei, tudo isto eu fiz, e o resultado
                    vê-se! Perfeitamente milagroso, como eu lhe chamo, como à uma confirmam todos
                    quantos o têm usado. É ler os jornais!</p>
                <p>E com crescente intimativa, agarrado ao braço do Mateus, numa loquacidade vaidosa
                    e complacente o João continuava:</p>
                <p>— Primeiro, quer ver? A gente toma da copaíba e do alcatrão, cá em certas
                    proporções... aí é que está a coisa toda... E então batem-se com as gemas,
                    depois vão ao lume.</p>
                <p>— Olhe, Sr. Mateus... — disse de um penumbroso recanto, no extremo oposto da
                    galeria, a esborrifada amante do João, que o contramestre só agora descortinava,
                    mexendo amorosamente com uma grande colher de pau num tacho, sobre um
                    fogareiro.</p>
                <p>— Quer-se o lume brando... o mais é operação fácil de fazer.</p>
                <p>— E é até muito agradável. Parece que está a gente a fazer doce de calda.</p>
                <p>— Vai dali agora a mistura é decantada a frio; depois leva ma água de rosas,
                    passa-se ao filtro, por último vertem-se em cada frasco umas gotas de licor,
                    para fazer paladar... e pronto! É rolhar, lacrar, pôr o rótulo e mandar para as
                    drogarias.</p>
                <p>— Fora o que veem buscar cá a casa.</p>
                <p>— Ainda bem! Muito estírio.</p>
                <p>— Por isso é tratar logo de fazer mais. Não preciso outra vida. Não imagina a
                    saída que tem!</p>
                <p>Tinham o João e o Mateus percorrido a todo o comprimento a galeria e estavam, na
                    ocasião, perto da amasia, que o primeiro, ao passar, enlaçou com efusão pela
                    cinta, enquanto dizia:</p>
                <p>— É quem me vale, Sr. Mateus! Isto é o meu grande braço direito.</p>
                <p>— E a tua aduela esquerda, maganão! — murmurou a amasia com ternura.</p>
                <p>E descabida num requebro atrevido sobre o João, beijou-lhe a gaforina.</p>
                <p>Entravam agora os dois homens num outro compartimento, perpendicular com este,
                    vasto quadrilongo também provisório e agreste, deitando para a rua. — Era todo
                    pintado grosseiramente a sumagre, como o exterior, o seu rústico esqueleto de
                    vigas de refugo e tortuosas pranchas, postas de cutelo. Em cima, junto ao teto,
                    dançava a mesma complicada anastomose de cordas com hirtos retraços de papel,
                    petrifeitos na dura litíase do abandono, providencial suspensão aos sacos negros
                    das teias de aranha. Aos dois cantos, na frente, erguiam com arrogância a garupa
                    alva e puída, por entre as suturas toscas do soalho, os monstros mitológicos da
                    fachada. E havia uma desordenada distribuição de várias bancas de pinho,
                    rudimentares, luzentes de cristalizações sacarinas, lastradas de nodoas gordas,
                    pejadas de cadinhos, pipetas, frascos, retortas, muflas e campânulas; por sobre
                    as quais uma nova linha corria de prateleiras, tendo à frente uma infinidade de
                    vidrinhos com fluidos rutilantes, e por traz arrimada uma formidável e vistosa
                    bateria de garrafas brancas, todas em cintilações polícromas também, com
                    capsulas espelhadas e rótulos de oiro.</p>
                <p>Risonho, cheio de si, já o João explicava:</p>
                <p>— Aqui faço eu as minhas curiosidades para entreter... Um desafogo recreativo, e
                    afinai útil ao mesmo tempo, pois então! Olhe, tudo isto são cordeais, elixires,
                    artigos de perfumaria. Tenho aí um extrato de essência de jasmim que é uma
                    especialidade. No Quintans não querem outro! — Passava a outra mesa.</p>
                <p>— Agora, aqui assim, licores... à escolha, vê? Banana, tangerina, alperce,
                    arinto... Mas tenho então um licor de café que é um espanto, um mimo, vai ver!
                    Como lhe juro que não há melhor em Portugal.</p>
                <p>Havia tomado da prateleira uma garrafa com um líquido incolor, e completamente
                    nua, com rolha apenas de cortiça.</p>
                <p>— Que vai fazer?... — atalhou logo o Mateus, levemente contrariado.</p>
                <p>— Ora essa! — disse obsequioso João, sorrindo e deslocando entre o polegar e o
                    indicador a rolha.</p>
                <p>— Vai verificar!</p>
                <p>— Ah, não, muito obrigado... dispense-me.</p>
                <p>— O quê!?</p>
                <p>— Creia que nunca bebo licores, senão muito excecionalmente. Agradeço muito,
                    mas...</p>
                <p>— Não, não, tenha paciência. Era uma desfeita! Só provar...</p>
                <p>E já em dois melindrosos cálices, facetados em bisel, estilo <seg rend="italic">bacarat</seg>, um liquido alambicado e rutilo corria, todo em lampejos
                    metálicos, fumando um aroma peregrino. O Mateus ergueu um dos cálices, agitou,
                    olhou por transparência, levou-o aos lábios; e logo, todo presunçoso, o
                    outro:</p>
                <p>— Que tal?...</p>
                <p>— É ótimo, palavra de honra!</p>
                <p>— Já então vê o meu amigo que, quando os tais figurões vierem, há não só casa
                    para os receber, mas com que os obsequiar. — E bebeu o seu cálice de um
                    trago.</p>
                <p>— Eu não peço tanto.</p>
                <p>— E, caramba! Coisa que não envergonha a industria nacional, — rematou o João,
                    lambendo os beiços.</p>
                <p>— Vamos ao resto! — disse com impaciência o Mateus, na manifesta disposição de
                    seguir.</p>
                <p>— Ás ordens, meu rico senhor! — acudiu pronto o João. E, tendo reposto no seu
                    lugar a preciosa garrafa, num momento passou, com o contramestre, ao novo
                    compartimento à direita, — uma outra galeria envidraçada, paralela com a
                    primeira, mas repartida esta em pequeninos cacifos por meio de biombos e
                    tabiques de lona, vestidos de papel lascado e amareladas gravuras de
                    jornais.</p>
                <p>Logo no primeiro, espécie de arrecadação familiar, pendia das rôtas cordas do
                    teto roupa branca encardida; a seguir, vinha o quarto da cama, a casa de jantar,
                    a cozinha. Em todos havia o traço comum da desordem, em todos assentara à
                    vontade arraiais o mais baralhado e imundo desmazelo. Instintivamente vexado, o
                    charlatão passava rápido com o Mateus, e ia explicando:</p>
                <p>— Ó Sr. Mateus, a gente não o esperava... não repare, desculpe. Casa de gente
                    pobre...</p>
                <p>E, na cozinha, arrastou-o logo à porta que se lhe via ao fundo, abrindo para o
                    exterior. Dava para um pequeno patamar, de podrida madeira, vanguejante, com
                    parapeito vermelho e a aresta enfeitada de velhos potes de barro e panelas de
                    folha com craveiros. Dele depois descia, amparada ao muro do prédio té mergulhar
                    na terra, uma escada do mesmo carater, insegura e podre também, dando para uma
                    espécie de pequeno quinteiro, em cujo chão caliçoso esgaravatavam as galinhas.
                    Um ripado baixo de pinho, facilmente salvável, o afastava da caprichosa
                    esquadria das hortas e quintais em roda, os quais, numa vaga e solta confusão
                    riscados, iam por fim findar longe, em baixo, no cais, sobre o rio.</p>
                <p>Enquanto com olho grave e atento o Mateus estudava a fisionomia e as ligações do
                    terreno, ao lado dele, muito ancho, o João dizia:</p>
                <p>— Ora vê o meu amigo? A gente podemos reunir ali assim... — Apontava o casarão de
                    entrada, que já lhes ficava, lés com lés, à direita. — Depois, se houver
                    novidade, é uma beleza! A sociedade tinga-se por aqui...</p>
                <p>— Sim, sim...</p>
                <p>— Por esses quintais fora, cada um navega que nem o peixe na água. Vão lá
                    saber!</p>
                <p>Evidentemente o contramestre acertara. Quanto mais detidamente esmiuçava o espaço
                    em volta, mais se robustecia na convicção de que o local reunia as condições
                    topográficas requeridas. Num efusivo gesto de gratidão tomou as mãos ao
                    efeminado alveitar; e passavam ambos, concertando os últimos pormenores, ao
                    salão de entrada, quando da banda oposta os atingiu a amasia do João, que, muito
                    cingida a este e sorrindo lambidamente, ao contramestre suplicou:</p>
                <p>— Ó Sr. Mateus, por quem é! Disponha da nossa casa e utilize como entender as
                    sabedorias aqui do juju, mas, pelas almas! Não mo meta em alhadas.</p>
                <p>— Esteja descansada.</p>
                <p>— Que seria de mim sem ele, ai! — dizia ela, n um tom arrepiadoramente languido,
                    afagando a gaforina do João e abarcando-lhe as omoplatas em eróticos
                    requebros.</p>
                <p>— Sempre tens cada uma... — murmurou, vagamente vexado, o João.</p>
                <p>Mas ela, incorrigível:</p>
                <p>— Não sei o que este mafarrico me fez!</p>
                <p>E dispunha-se a beija-lo.</p>
                <p>— Descanse, mulherzinha, — atalhou prudente o Mateus, — que o seu homem não há de
                    ter perigo. Era uma pena!</p>
                <p>— Pois não era! Em boa hora o diga, meu rico senhor.</p>
                <p>— Hei de restituir-lho tão inteirinho, tão completo como o receber...</p>
                <p>— Isso! Isso!</p>
                <p>— E pagar os seus bons serviços fazendo dele um grande homem.</p>
                <p>— Pelo menos, visconde...</p>
                <p>— O que quiserem... Adeus! Adeus! — rematou o Mateus em tom sacudido.</p>
                <p>E, direito à porta, despediu-se muito sumariamente, já sem ânimo para sofrear o
                    tédio.</p>
                <p>Apenas salvado, em baixo, o postigo do portão, que fechou sobre si com estrondo,
                    apressado tomou rua abaixo, direito ao largo do Assucar. Declinava o dia
                    rapidamente e ele queria aproveitar aquela sua diversão para prevenir também
                    ainda o Serafim. Nas ruas calmas e sombrias, de um pronunciado ar industrial,
                    quase desertas, começavam a formigar pela penumbra dos passeios, gofrando
                    turbulentos dos boqueirões das fábricas, os grupos anémicos das crianças. As
                    mais delas sumiam-se nos atalhos, esbagoavam por aquele dédalo de construções de
                    acaso; outras seguiam na mesma direção do Mateus e vinham chalreiras e felizes,
                    a meio do largo, tropear nos degraus pelintras do coreto.</p>
                <p>Pois fronteira e sobranceira a este, marginando pelo norte a rua, havia uma ancha
                    porta dando para um grande espaço quadrangular, velho barracão de construção
                    provisoria, desaprumado e sujo na sua envergadura enorme de gigante fossilizado.
                    O ladrilho vermelho do piso mal se descortinava, profusamente ortografado de
                    serradura, maços, pregos, arcos de pipa e roscas de aparas, em que os artelhos
                    acariciadoramente se perdiam, como numa seara. As paredes eram de taipa, toda em
                    negros ressaltos, emoldurando um empilhamento desordenado e colossal de vergas
                    de ferro, cubas, tampos, canecos, balseiros, dornas, vasilhas de toda a espécie.
                    O cavername do teto perdia-se nas-nuvens, tendo ao alto suspenso um velho pombal
                    deserto. E de uma pequenina porta entreaberta, ao fundo, vinha com fortes
                    emanações resinosas o grosso resfolgar de uma forja próxima, cortado pelo sonoro
                    batucar dos tanoeiros, que, batido e cheio, pelo farto espaço alastrava numa
                    ampla ressonância.</p>
                <p>O Mateus, entrando, tomou logo à direita, onde, junto da porta e sobre um
                    formidável cepo de castanho, o descadeirado vulto do Serafim, de cutelo em
                    punho, impando, fazia aduelas.</p>
                <p>— Viva o amigo Serafim!</p>
                <p>— Ó Sr. Mateus! Seja muito bem aparecido. Então por cá?... — disse todo afável,
                    parando um momento de cortar, o interpelado.</p>
                <p>— Bravo! Isso é que é atirar com alma ao trabalho.</p>
                <p>— Que remédio, Sr. Mateus! — E o tanoeiro agachava-se, a colher material da pilha
                    ao lado. — Pois se a gente de inteligência e poder se não resolve a tirar-nos
                    desta sujeição, que havemos de nós, os pequenos como eu, fazer senão puxar pela
                    vida?</p>
                <p>— Não há então quem vos ame, quem vos liberte?</p>
                <p>— Ah, isso é que não há... É o que se vê... — confirmou num desânimo o Serafim;
                    mas logo, acobardado pelo olhar de aço do Mateus: — Que, isto é... agora...</p>
                <p>— Nós não queremos, — murmurou o Mateus, numa expressão singular, — enquanto
                    vocês não quiserem...</p>
                <p>— Ó patrão, vamos a isso! É para já! — rompeu galvanizado o Serafim, com um
                    brilho ruim nos olhos. — Eu cá, olhe, entendo que com a mesma certeza com que
                    alanho estes paus... Quer ver como se estripa um homem?</p>
                <p>E entalava com agudo rancor o grande cutelo recurvo na madeira, rasgando de alto
                    a baixo com matemática precisão o tofo de vinhático, de que atirava depois longe
                    para o monte as duas lascas, ainda rangendo.</p>
                <p>O contramestre do Almargem saboreou este movimento uns instantes com entranhado
                    júbilo; e numa carinhosa intimativa depois, aproximando-se:</p>
                <p>— Sabes que veem aqui breve, falar, fraternizar connosco, ensinar-nos, guiar-nos,
                    dois dos nossos mais dedicados e valentes irmãos lá de fora?</p>
                <p>— Essa agora! — sublinhou, num risinho alvarmente incrédulo, o tanoeiro.</p>
                <p>— É o que te digo: aqui mesmo! — confirmou o outro.</p>
                <p>O Serafim teve novo momento de pausa na sua labuta maquinal, e com filosófico
                    desdém, encolhendo os ombros:</p>
                <p>— Ele isso cá a nós que nos faz?... A gente não os entende...</p>
                <p>E para o monte arremessava negligente as duas tabuas que retivera suspensas dos
                    dedos.</p>
                <p>Sacudido por um frio de contrariedade, logo o Mateus:</p>
                <p>— Não me faças bruto! Vocês não os entendem, mas estou eu, mas hão de estar
                    alguns dos homens em quem superiormente vocês mais confiam...</p>
                <p>— Agora, agora...</p>
                <p>— Que todos seremos perante vós os intérpretes do seu sentir!</p>
                <p>— Bera bom! Bem bom!</p>
                <p>— É preciso aquecer, afervorar nesta ideia, ouviste?</p>
                <p>— Rica coisa! — apoiava inflamado o Serafim, brandindo rápido o cutelo
                    reluzente.</p>
                <p>— E é preciso também que tu me arranjes e escolhas gente para assistir a essa
                    reunião... Gente de recato e decisão, capazes de guardarem um segredo e de
                    sacrificarem a vida.</p>
                <p>— Está entendido!</p>
                <p>— Um homem por fábrica, é o bastante.</p>
                <p>— Sim... antes poucos e bons.</p>
                <p>— Tu vais, já se vê... E os mais querem-se representantes, não só aqui do sítio,
                    mas também algum de Sacavém, da Povoa, do Campo Grande...</p>
                <p>— Daí ninguém melhor que o Romão. E fala-se também ao Zanaga, aqui dos Fosfores,
                    ao Manoel António, da Vidreira, hein?...</p>
                <p>— Melhor sabes tu do que eu!</p>
                <p>Começavam a sair do interior da loja compassadamente os tanoeiros. Vinham de
                    camisola e boina, jaqueta ao ombro, enxugando do pescoço taurino o suor e dos
                    antebraços. Passando junto do Mateus, cortejavam levemente, num mudo respeito,
                    alguns mesmo sem olhar, e seguiam; um ou outro parando apenas depois na orla da
                    rua o instante preciso para fazer um cigarro. E a todos invariavelmente, num bom
                    ar protetor, o contramestre correspondia:</p>
                <p>— Boa noite, rapaz!</p>
                <p>Também o Serafim descavalgou a sua banca rudimentar, e morosamente, enterrando o
                    cutelo no cepo ao lado:</p>
                <p>— Se o Sr. Mateus não quer mais nada daqui...</p>
                <p>— Vamos embora, — aquiesceu pronto este, saltando à rua.</p>
                <p>O Serafim enfiou pela cabeça um velho boné de alpaca, lustroso e crasso, sem
                    pala, vestiu a jaqueta, fechou meia porta aplicando a tranca, depois a outra,
                    dando volta à chave; e enquanto guardava esta no bolso, voltou-se na direção do
                    rio, assobiando um estribilho convencional.</p>
                <p>Ao sabido apelo, logo de uma outra loja do largo, em baixo, lado do Tejo, rompeu
                    o vulto brunido e forte do Esticado, que, muito risonho, num momento vinha
                    adonde aos dois, com um vivo pique de interesse nos grandes olhos negros.</p>
                <p>— Anda daí, homem! — disse-lhe logo, enquanto ele cumprimentava, impaciente o
                    Serafim. — Anda, que temos grande novidade! — Falou-lhe ao ouvido; e depois ao
                    Mateus, a explicar: — Com este também a gente pode falar... é dos nossos, é de
                    uma cana!</p>
                <p>E os três riram de inteligência. Depois todos muito à vontade, já em passo de
                    conquistadores, foram na direção do Xabregas ao longo dos prédios marginando o
                    rio. O Mateus ia no centro, incansável na sua catequese, falando, gesticulando
                    sempre, obsidiando o pensar e enrolando o querer dos dois proletários com
                    incentivos novos. A cada momento paravam; e ao imperativo grupo, que ia sendo
                    notado, aderiam então ocasionalmente os conhecidos. Estes engrossavam, ao sabor
                    do acaso, o bando, descendo também com ele, dispersando parcialmente a cada
                    esquina. Não sem levarem carinhosamente rugindo-lhes na alma o fermento candente
                    das palavras que tinham ouvido. Uns debandavam e no mesmo instante outros os
                    substituíam, enquanto outros das portas das tascas apontavam admirativamente o
                    Mateus, que inflamado e persuade-te continuava rojando, rua abaixo, aquela onda
                    crescente de revolta. Seguia-o desconfiado o olhar de um polícia, de sobrecenho
                    franzido, a meio da rua plantado entre os <seg rend="italic">rails</seg> do
                    americano. Mas a pequenina onda rolava e crescia sempre, confiada,
                    resolutamente. E foi como, tenaz e incansável, mais uma vez o Mateus pôs em
                    generosa labutação e, esquecido do jantar, prolongou bem pela noite fora o
                    messiânico furor da sua propaganda.</p>
            </div>
            <div>
                <head>CAPÍTULO XII</head>
                <p>Acontecia que Adriana nos seus matutinos passeios procedia agora por forma que
                    quase quotidianamente havia de vê-la o Mateus. Declinara até ao mínimo habitual
                    de cada ano a extensão das manhãs; cada vez mais tardio era o romper do sol da
                    envaginadura hiemal dos nevoeiros; e apesar disso a patrícia figura da irmã de
                    Jorge no parque era com o seu vestido branco invariável comentário aos primeiros
                    alvores do dia. Custava-lhe isso o esforço de violentas madrugadas, que, por
                    serem um pouco fora da razão e do hábito, D. Mafalda Meireles não deixava de
                    estranhar. Mas Adriana insistia — que realizava assim um grande prazer seu, que
                    obedecia apenas ao espontâneo calor do seu desejo; e como, ao dize-lo, tomava a
                    mais encantadora e convincente expressão o mistério infixável dos seus lábios, e
                    como, além disso, era sempre irrepreensível o seu porte, e isentas sempre tais
                    excursões de toda a leviana suspeita, as amoráveis advertências dos pais logo
                    amainavam, deixando limpo e livre avoejar o capricho da mimada criança.</p>
                <p>O certo é que o Mateus raro saía agora, de manhã, de casa em direção à fábrica,
                    que um momento não sentisse perto, rabejando pelos resíduos soltos do mato, ou
                    inundando os raleiros de árvores de um fugidio clarão de alvorada, a linha já
                    familiar daquela grande figura branca. E a doce frequência destas aparições, de
                    princípio fortuitas, fazia-lhe bem, converteu-se num hábito, numa das
                    reclamações egoístas do seu querer. Tornaram-se-lhe em breve imprescindíveis;
                    eram a antecipada bênção do seu dia, a ablução matinal da sua alma. Já
                    perturbado as procurava com amor; já não era senhor de tomar pelo carreiro que o
                    conduzia à fábrica, sem que o senhoreasse o supersticioso receio de não ver
                    iluminando-lhe o caminho essa efémera visão estremecida... Foi por isso que, com
                    o volver dos dias, ele agora antes de sair, por mais mau tempo que estivesse,
                    não se esquecia nunca de ir antes abrir a janela da sua casita de entrada que
                    defrontava com o solar do Almargem. Daí erguia interessadamente ao maciço
                    quadrilongo a vista, a indagar pé a janela da última sacada da esquerda já
                    estaria aberta. Se estava, dava-se pressa em sair; se não estava, aguardava
                    religiosamente, marruaz, invisível, que a verificação desse sinal lhe garantisse
                    depois fora,, no parque, a correspondente colisão da sua alma com aquele meteoro
                    fugaz e necessário. E também, antes que saísse, olhava-se cuidadosamente,
                    afeiçoava em erguidas projeções o bigode algodoado, escolhia gravatas, alisava o
                    cabelo, punha, em suma, um ingénuo garridismo, um escrupuloso esmero no trajar,
                    a que dantes era por completo rebelde o seu espirito. E os seus modos para com o
                    pessoal da fábrica tinham experimentado igualmente uma modificação sensível;
                    como se a piedosa tendência do seu coração tivesse aumentado, e generoso
                    quisesse repartir com os tristes e os humildes um pouco do clarão de felicidade
                    que o inundava.</p>
                <p>Ora aconteceu que um dia, já passado o Natal, o contramestre saiu de casa no
                    momento exato em que na orla superior da pequena clareira, ali mesmo a dois
                    passos dele, apontava resoluta e ágil, talhada com um vigor de água-forte no
                    emolduramento negro do arvoredo, a dominadora figura de Adriana. Nunca, depois
                    do breve coloquio com ela na fábrica, a tornara a encontrar; nunca mais a tivera
                    tão próxima de si. A inesperada aparição ensopou-lhe os nervos de uma delícia
                    infinita, imobilizou-lhe a expressão numa beatitude alvar. E logo lhe dava
                    rebate na consciência uma surda contrariedade... Tinha de lhe falar
                    forçosamente, a menos que não quisesse ser tomado pelo último dos selvagens no
                    conceito daquela criatura divina. Sim, falar-lhe... E esta ideia acobardava-o. O
                    fogoso e audaz agitador, o caudilho veemente das multidões, sentia toda a sua
                    energia esbarrondar-se perante esta delicada figura de mulher. Tinha que a ir
                    cumprimentar, era forçoso; mas uma contratura instintiva de defesa pregava-o no
                    mesmo lugar, fazia-o de antemão revoltar-se contra o desempenho desse dever
                    banal.</p>
                <p>Entretanto, depois de uma hesitação, adiantou-se, de cabeça descoberta e apertou
                    a tremer a mão longa e branca que Adriana familiarmente lhe estendia. Ao tempo
                    que balbuciava:</p>
                <p>— Folgo imenso de ter encontrado V. exa, para lhe dar finalmente contas da
                    incumbência que me fez...</p>
                <p>— O que foi?... — interrogou distraidamente Adriana, espelhando nos olhos vagos
                    um simulacro perfeito de alheamento altivo.</p>
                <p>— A sala, lá em baixo, que V. exa tão judiciosamente queria aproveitar...</p>
                <p>— Ah, sim...</p>
                <p>— Está pronta.</p>
                <p>— Muito obrigada!</p>
                <p>— E agora realmente... aguardo ordens... não sei que mais deva...</p>
                <p>— Nem mais pensei em tal... não se incomode. Verei depois...</p>
                <p>E, dizendo e cortejando levemente, num movimento alto e brusco, quase desabrido,
                    Adriana sumiu-se entre o arvoredo, deixando vexado e aturdido o contramestre,
                    que, na sua virginal ignorância da tática feminina, agora se increpava
                    violentamente, acoimando-se de desastrado, convencido de que a melindrara, certo
                    de que se excedera, e de que fora talvez pela sua extemporânea diligencia anular
                    para sempre aquela inocente embriaguez de cada dia.</p>
                <p>Oh, como dolorosamente o trabalhou, todo o dia, toda a noite, esta aguda e
                    terrível suspeita! A cada hora, a cada instante, por entre o travamento dos
                    negócios, no mais grave momento das suas preocupações industriais, o
                    mortificante receio vinha e contra o seu querer insinuava-se-lhe no cuidado,
                    empolgava-o, distraí-o, tomava-lhe conta da vontade, era a tirânica obsessão do
                    seu espirito, fazia-lhe aflitivamente galopar no peito o coração. Que
                    atormentados minutos, que duras e cruéis alternativas de febre e desânimo, de
                    remorso e duvida, aquela alma virgem de namorado sentiu então balotinarem-lhe,
                    como um brinquedo infantil, as mais afastadas e fundas radiculas do seu ser! Ora
                    se odiava, como um renegado confesso, na abominação consciente da sua fraqueza;
                    ora doce e volutuosamente se abandonava, no alado calor da esperança, à
                    contemplativa evocação da sua miragem, ao saborido domínio do seu sonho.</p>
                <p>Por esta forma atropelada e incerta se lhe arrastou interminavelmente o dia. Com
                    a morto na alma, esperou, esperou... Felizmente na madrugada seguinte a branca
                    aparição não faltou ao programa habitual. Com uma pontualidade de astro, aos
                    primeiros alvores da manhã ela aí veio riscar, serena e rutila, por diante do
                    Mateus, a imprescindível trajetória no abrasado céu do sou desejo. Mas sempre
                    longe outra vez, retraída em meteóricas fugas, pomo um bólide perdido, vagamente
                    acendendo apenas os intervalos das árvores, o saibro breve dos carreiros, no seu
                    rasto efémero, no fugidio desenho, sobre o carvoamento húmido da manhã, da sua
                    orbita de luz e de ternura.</p>
                <p>Até que, — num lindo dia de inverno, como a felicidade brunido e claro, — disse
                    novamente o Mateus a defronta-la perto, na pequena clareira que lhe circuitava a
                    casa. E desta vez a cavalo, igualmente sozinha, airosa e firme sobre um nervoso
                    alazão mordicando o freio com orgulho, mais fina ainda, mais adelgaçado e
                    enobrecido o busto ondeante dentro do seu negro vestido de amazona, quase
                    roçagando, em pregas esculturais, a terra. Mal que ela sentiu apontar no limiar
                    da porta o Mateus, saltou lesta do cavalo, com toda a aparência de quem o não
                    vira, mas por forma que ele a visse muito bem.</p>
                <p>E, com a mão direita nas rédeas, uns instantes circunvagou o olhar em volta,
                    inquisitivamente, numa expressão que era um misto de estranheza e de arrelia.
                    Depois, na mais perfeita afetação de quem se supunha só:</p>
                <p>— Francisco! Francisco! ó Francisco! — a espaços exclamou.</p>
                <p>Continuando, contrariada, vagamente aflita, a rolar pela orla da clareira os
                    olhos sérios.</p>
                <p>Viu-se o contramestre fatalmente obrigado a intervir. E vencendo a timidez,
                    direito a Adriana, cortejando:</p>
                <p>— V. exa precisa de alguma coisa?</p>
                <p>— Ah, o Sr. Mateus! Estava aí?... — correspondeu logo ela, voltando-se, com a
                    maior naturalidade. — Não o tinha visto, desculpe.</p>
                <p>E, muito afetuosa, para lhe estender dois dedos da mão esquerda, soltou por um
                    momento a cauda do vestido.</p>
                <p>Entardecido pelo acolhimento, o Mateus disse:</p>
                <p>— Se nalguma coisa lhe posso ser útil...</p>
                <p>Com um sorriso Cortez, Adriana continuava vagamente a olhar. O contramestre
                    insistiu:</p>
                <p>— Mas, por Deus! O que é que aflige?... Mande-me no que quiser!</p>
                <p>— Sabe?... — disse por fim Adriana. — É que... a manhã está um pouco fresca de
                    mais... e este maroto muito folgado! — Por um impulso da mão direita, que não
                    largava o bridão, sacudiu a cabeça ao animal, que fitou as orelhas de espanto. —
                    Estranho-o hoje, fatiga-me. E arrefeceram-me os pés... Queria continuar o meu
                    passeio, agitando-me toda, andando. Queria que o Francisco levasse o cavalo. É a
                    única pessoa por quem ele se deixa conduzir à mão. Mas não o vejo!</p>
                <p>— Vou chama-lo...</p>
                <p>— Mas onde?... Tinha ordem de me seguir; não posso saber onde se meteu. Ora
                    esta!</p>
                <p>E vergastava a saia com impaciência. Por fim, como quem toma uma resolução,
                    sacudindo os ombros:</p>
                <p>— Bem, o remédio é eu seguir com o cavalo. — Fez pausa e, novamente perplexa: —
                    Mas como hei de eu aqui montar?...</p>
                <p>O Mateus, elevadamente, cravou nela, numa grande concentração espiritual, os
                    olhos, que iluminou um relâmpago jucundo, enquanto a mais dolorosa emoção lhe
                    pregava os lábios, e se lhe ensopava a face nesta palidez de âmbar que lustra os
                    mármores antigos. Depois, sem ferir palavra, fitando-a sempre, adiantou-se, e
                    com uma gentileza medieval, de mãos enconchadas formando estribo, junto aos pés
                    de Adriana, galantemente, ajoelhou.</p>
                <p>— Mas, Sr. Mateus! O que é isto? O que é que o senhor faz?... — acudiu com
                    vivacidade Adriana, levemente ruborizada, no mistério infixável dos seus lábios
                    correndo um risinho de triunfo. — Não tem jeito nenhum! E o culpado foi aquele
                    Francisco. Parece impossível!</p>
                <p>E tornava a olhar impaciente o carreiro que conduzia ao solar. Mas o Mateus,
                    sempre na-mesma atitude, sempre sem arriscar uma palavra, alongou os braços como
                    numa súplica, ergueu mais as mãos. A termos que finalmente Adriana,
                    subjugada:</p>
                <p>— Pois não tenho outro recurso senão utilizar-me da sua amabilidade. É um
                    perfeito pajem de ocasião!</p>
                <p>Agora, enquanto arpoava com a mão direita a forquilha, confiava o pé ao carinhoso
                    apoio das mãos do Mateus, e formava o salto apoiando-se-lhe no ombro, o seu
                    forte riso peculiar estalidou, cristalino, triunfante. E, ao cair na sela:</p>
                <p>— Muito obrigada!</p>
                <p>Fustigou a garupa do cavalo, que partiu as upas; ao tempo que o Mateus descia
                    vagaroso ã fábrica, preocupado e sombrio, vergado a uma mordente humilhação e
                    olhando cauteloso em volta, como se tivesse perpetrado um crime.</p>
                <p>A lembrança, o cuidado, o amoroso respeito de Adriana absorviam-no mais do que
                    convinha. Estava-se saindo um piegas, quando tinha vindo para ali um revoltado.
                    Fantasiara instalar-se n aquela fábrica para dentro dela tenebrosamente urdir, e
                    fazer deflagrar depois por toda a cidade, um largo e providencial plano de
                    vingança, e eis que arreliadoras causas, alheias ao seu querer, se apostavam em
                    contraminar-lhe o esforço, em baldar do seu ideal a febre ardente e generosa.
                    Não tinha jeito nenhum! De princípio não dera ele importância aquela diversão
                    inocente; parecia-lhe que em nada poderia tão inofensivo parêntesis abrir
                    continuidade na solidez estrutural da sua obra. Mas com alvoroço reconhecia
                    agora o contrário; tinha de pôr-se em guarda, era forçoso parar. A ação
                    entorpecedora e deprimente dessa preocupação feminina reconhecia-a ele agora,
                    quando tentava reagir...</p>
                <p>A gente do Almargem, naquele dia, achou-o como nunca brusco e intratável. Cortou
                    de longe A entrada, para evitar os pretendentes, atravessou rápido as salas,
                    mudo e de sobrecenho, quase sem falar a ninguém. Na oficina das mules o
                    encarregado, o velho Tobias, fisgando-o com dificuldade, chamando-o à parte,
                    renovou as suas queixas contra o Lourenço; — que continuava sendo um calmeirão,
                    um indisciplinado, um ralaço, não se fazia bem dele, custava muito a aturar. O
                    Mateus mandou-o ir ao escritório, e sumariamente, insensível a rogos, inabalável
                    perante umas vagas nuvens de ameaça, fez-lhe contas e despediu-o. E na fábrica
                    ninguém mais naquele dia o viu.</p>
                <p>Encerrado muito cedo em casa, no meio dessa atmosfera de proteção feita pela
                    condensação estratificada do seu pensamento, a sós com a sua consciência, junto
                    dos seus livros, protestou furtar-se por completo ao amavioso influxo de
                    Adriana, couraçar-se contra essa volutuosa fraqueza por onde tentava talvez o
                    amor abrir traiçoeira brecha na sua alma.</p>
                <p>Assim deu-se a evita-la, tomava cada dia por atalhos diferentes, entrava, saía de
                    casa a horas caprichosas; e foi com uma sincera retração de contrariedade que,
                    passados alguns dias, e quando à hora do descanso se dirigia a casa, no caminho
                    ele viu Adriana, sentada, muito atenta ao trabalho do jardineiro junto a um
                    canteiro de flores. — Vestia um sóbrio vestido inteiro, de guipura, toda em
                    entremeios de seda levissimamente azul, que em diagonal partiam, muito juntos e
                    paralelos, formando angulo, da cintura aos lados; tinha aos ombros uma pequenina
                    capa de lã de camelo, com cabeção Stuart; e a sua vigorosa cabeça, nua e altiva
                    no ar cortante, desdobrava com arrogância no espaço o rolo farto e livre do seu
                    cabelo castanho. Agachado e curvo diante dela, o velho jardineiro sachava com
                    cuidado, a desembaraçar e limpar as violetas do enxurro das últimas chuvas. —
                    Mal que a viu, quis o Mateus retroceder, furtar-se, eliminar-se; mas era
                    tarde... O jardineiro passara naquele momento das violetas a cuidar das
                    roseiras, mais acima; e os olhos de Adriana que, acompanhando-o, se ergueram,
                    deram então com a linha rebarbativa do contramestre, a quem ela naturalmente
                    despediu, muito afável, um convidativo sorriso.</p>
                <p>Não havia remédio... Muito sério, devagar, o Mateus aproximou-se, cortejou,
                    trocaram-se as saudações de hábito, houve um trivial aperto de mãos. E logo
                    Adriana, a desfrisar-lhe a hostilidade da atitude, adivinhando-o:</p>
                <p>— Mas que é isso?... Sempre sério, apreensivo, sempre avergado ao trabalho!</p>
                <p>— É a minha obrigação... — redarguiu baixo o Mateus, de olhos £ terra e sorrindo
                    tristemente.</p>
                <p>— Deixe um momento os negócios. Isso nem lhe faz bem... O próprio Deus descansou.
                    A vida também é para gozar.</p>
                <p>— Cada um goza a sou modo, minha senhora... — disse com uma expressão singular o
                    Mateus, com um trio de aço lampejando na sombria noite das pupilas. — Eu vou
                    assim muito bem!</p>
                <p>E dispunha-se a partir.</p>
                <p>Mas Adriana interrogou ainda, amimadamente, com a mais doce expressão nos olhos e
                    um superlativo de graça no plexo central dos lábios menineiros:</p>
                <p>— Gosta de flores?</p>
                <p>Ainda arisco e duro, com filosófico desdém, o Mateus retrucou:</p>
                <p>— Acho agradáveis... Lisonjeiam-me, uma ou outra vez, a vista. .</p>
                <p>— Sempre, não?...</p>
                <p>— Só quando tenho tempo para atentar nelas.</p>
                <p>— Não tem bom gosto.</p>
                <p>— É que, habitualmente, a minha alma é insensível ás solicitações banais do mundo
                    exterior. Nem dou por elas, creia-me! E, assim mesmo, ainda ás vezes me
                    preocupam mais do que eu quisera...</p>
                <p>— Não o percebo... O quê!? Pois então perante um dia assoalhado, perfumado e
                    lindo como o de hoje, numa hora como esta, não vê, sinceramente, não vê, não
                    sente nada do que o rodeia?</p>
                <p>E, dizendo, Adriana erguia e cravava com amor nos olhos sombrios do Mateus a
                    azeitona aveludada dos seus olhos.</p>
                <p>— O que é que eu hei de ver?... — suspirou este alheadamente, já sem força para
                    arredar-se dali, encolhendo os ombros. — Por exemplo, agora sei, calculo que
                    aqui mesmo em volta de nós desdobra vitoriosamente as suas harmonias pagãs a
                    Natureza... toalhas de luz, ondas de perfumes, um cabriolar estonteante de
                    cores, as mais admiráveis simonias de tons, fragrâncias, cânticos. Mas que me
                    fazem, que me importam a mim todas essas futilidades do exterior?... Tudo isso é
                    para mim como se não existisse: não vejo, não sinto nada!</p>
                <p>— Diz isso por pose...</p>
                <p>— Não digo, não, minha senhora.</p>
                <p>— É uma original presunção.</p>
                <p>— É a pura da verdade!</p>
                <p>Adriana sentiu instintivamente que não levava a melhor, no melindroso torneio em
                    que se embrenhara; mas decidida a ganhar a partida, na sua querençosa altivez
                    estimulada, teve um sacudido desempeno, cheio de airosa decisão, e ergueu-se
                    soltando este remoque de piedosa censura:</p>
                <p>— Dir-se-ia que não tem coração!</p>
                <p>— Conforme... — arrastou, sempre na defensiva, o Mateus.</p>
                <p>— Não, isso é que não tem dúvida nenhuma!</p>
                <p>— Adriana insistiu. Fracos são os meus conhecimentos, mas mesmo assim avalio
                    muito bera que esta coisa da metafisica é a região polar da filosofia, pois não
                    é?... — Abanava o Mateus negativamente a cabeça. — A abstração é para o homem o
                    que é para a terra o gelo. Alma que no exclusivismo espiritualista se perdeu,
                    ressicou, morreu para a vida... e a sua, meu caro Sr. Mateus, não está nesse
                    caso!</p>
                <p>— Posso ser um espiritualista e sentir vivamente as coisas.</p>
                <p>— Tenha paciência, isso é que não pode ser!</p>
                <p>Insensivelmente, tinham os dois agora desatado a andar, lado a lado,
                    vagarosamente, subindo irmãos e amigos o sinuoso declive do carreiro. E numa
                    familiar insistência, Adriana:</p>
                <p>— O Sr. vai-se rir deste meu inquérito... mas é que eu sou naturalmente curiosa,
                    ando ávida sempre de bons ensinamentos, e com os homens superiores é que é
                    aprender.</p>
                <p>— Ó D. Adriana, por amor de Deus! — atalhou o contramestre, curvando-se,
                    confundido.</p>
                <p>— Bem, bem, deixemo-nos de falsas modéstias, incompatíveis com a tal sua
                    pretendida isenção... objetiva, e responda-me, como quem se confessa. Quer-me
                    então convencer de que, sendo um homem sensível como é não ama, ou nunca
                    amou?...</p>
                <p>— É o caso de eu repetir: conforme... — disse, sorrindo irónico, o Mateus.</p>
                <p>— Não é com tais subtilezas que me escapa, — obtemperou com intimativa Adriana,
                    alongando na sua imperiosa linha reta os cílios. — É claro que me refiro ao amor
                    por uma mulher.</p>
                <p>— Deus me livre!</p>
                <p>— Porquê?... — fez Adriana com decisão, parando.</p>
                <p>— Porque o amor individual, — acudiu logo o Mateus, — é uma das formas do
                    egoísmo, e como tal um sentimento bastardo e mesquinho, que degrada o homem...
                    que é indigno de mim!</p>
                <p>E plantado, firme e austero, diante dela, olhava-a com os seus implacáveis olhos
                    de aço, fascinadoramente.</p>
                <p>Adriana, porém, derivando pelo seu turno o bote, ria agora a perder, e com
                    sarcástica expressão, reatando o passo:</p>
                <p>— E ainda o senhor não quer que eu apregoe a exatidão daquela minha teoria? Veja
                    bem em si mesmo, aplicando <seg rend="italic">el cuento</seg>... pôs-se de mal
                    com as formas, os sons, as cores, e desterrou o coração para a Sibéria!</p>
                <p>— Devemos amar, sim! Mas coletivamente, a humanidade em globo, com um fim útil em
                    mira...</p>
                <p>— Que massada que isso era!</p>
                <p>— Amar como Jesus amou... Por forma que a amor seja não só um esteniante prazer
                    para nós, mas para os outros uma fonte perene de felicidade um bem, um estímulo.
                    Pudesse eu!</p>
                <p>— Tem pensamentos estranhos, sabe? — balbuciou Adriana com carinhoso interesse. —
                    E eu queria pedir-lhe...</p>
                <p>— O quê, minha senhora? — acudiu solícito o Mateus, que, com galanteria curvado,
                    desenriçava o vestido de Adriana de um dos arbustos do caminho.</p>
                <p>— Olhe que é uma coisa muito banal, muito comezinha também... Não se indigne!</p>
                <p>— Versos num álbum? — disse, sorrindo, o contramestre.</p>
                <p>— Não...</p>
                <p>— É que, se fosse... eu não faço versos, mas tenho um amigo capaz de
                    desempenhar-se a primor dessa missão catita. — E o Mateus pensava vagamente no
                    lamecha e galhardo Valentim.</p>
                <p>— Pois não, deixemos o seu amigo em paz... não se trata de versos. Mas quase... —
                    E com uma suavidade insinuante Adriana, parando novamente: — Oiça. Tenho um
                    leque, um precioso leque de varetas de sândalo é pano de seda castanha... muito
                    grande assim... É das coisas que mais estimo. O pano tem apenas, a guache, a um
                    lado, um opulento lírio roxo, pintado pela minha maior amiga há portanto um
                    grande espaço em claro. — E rematou, numa carinhosa súplica: — Não o dispenso de
                    me escrever nele um pensamento seu.</p>
                <p>Encantadoramente lisonjeado, numa grata surpresa, o Mateus, embora atingisse bem
                    a iminência do amavioso laço que lhe armavam, dobrou-se numa humilde reverencia
                    e murmurou:</p>
                <p>— Quando V. exa quiser...</p>
                <p>— Bem, bem, logo lho mando. Adeus! — E nos grandes olhos de Adriana passou um
                    relâmpago vitorioso.</p>
                <p>Enquanto, alegre e donairosa, com o seu andar despachado o amplo, num instante se
                    sumia por entre a rumorosa trama do arvoredo.</p>
                <p>Á noite recebia o Mateus, das mãos do Francisco, e cuidadosamente embrulhado em
                    papel do seda branca, um grande leque, que numa religiosa comoção foi
                    imediatamente depositar, levado nas pontas dos dedos, sobre a sua mesa de
                    trabalho. Em seguida, acendeu o candeeiro, fechou-se por dentro à chave, cerrou
                    as portas de todas as janelas, lavou as mãos, e, sentado à mesa, passou a
                    desembrulhar com mil cuidados o precioso mimo. E por um requinte de
                    volutuosidade, rolando moroso o papel que lhe estalava nos dedos, demorava
                    propositalmente a operação. — Era um belo artefacto de japonismo artístico, de
                    longas varetas lineares, afusando ligeiramente para o, vértice, de uma cor baça
                    e uniforme, como a epiderme de uma virgem judia rofa e ardente, e todas abertas
                    em alucinados recortes, filigranadas ao infinito em te nuíssimas combinações, em
                    caprichosos, em miniaturados arabescos, em dolentes e languidas figurinhas, da
                    mais solta e alada fantasia. Aberto, a seda tinha a mesma esmaiada cor uniforme,
                    radiada apenas, na direção das varetas, de brunas maciezas e mordicada de
                    reflexos de oiro. E, ao abri-lo o Mateus sentiu que lhe tomava o aposento e lhe
                    escalava perturbadoramente o cérebro um perfume estranho e capitoso, esse divino
                    perfume do sândalo, cálido, inebriante, que parece feito dos mais irresistíveis
                    filtros da sedução e que era como que a fixação aromática, naquele momento, da
                    volutuosa embriaguez que lhe embalava a alma... Lá tinha a um lado efetivamente,
                    à esquerda, um grande lírio roxo, descaindo com graça da haste longa e delicada.
                    O resto, que era muito, que era quase tudo, estava limpo por completo. Era nesse
                    traiçoeiro espaço que ele tinha de agora escrever alguma coisa, — e esta ideia
                    dava-lhe vertigens. Contraíra voluntariamente essa obrigação, havia de
                    cumpri-la. Mas como descera ele a semelhante abjeção?... Que ignorado poder o
                    transfigurara? Que homem era ele? Quem lhe aniquilara a vontade, o livre
                    arbitro, o brio?... Parecia-lhe uma monstruosidade moral tudo aquilo pela
                    primeira vez na sua vida se via a braços com a complexa solução de um problema
                    feminino; pela primeira vez a sua alma de anjo proscrito sofria o domínio de
                    outra alma, e, em vez de revoltar-se, sopesava o jugo com delícia, bem dizia a
                    sua humilhação!</p>
                <p>Numa perplexidade mordente, sem achar uma solução, sem atinar com uma ideia, o
                    Mateus esquecia-se a abrir e a fechar o leque interminavelmente, acariciando-o
                    entre os dedos trémulos. — Que havia de ele ali assim escrever, que fosse ao
                    mesmo tempo austero e amorável, galante e sério? Que nem desdissesse da
                    decoração, nem fosse indigno dele?... Nada, evidentemente não havia. Ou tinha de
                    ser um atrevimento, ou uma baboseira. Estúpido compromisso! — Num repelão de
                    impaciência, largando o leque, levantou-se e abriu as portadas de uma das
                    janelas do poente, em cuja negra quadrícula se lhe figurou logo, faulando,
                    despertando-o de longe, o peneiramento luminoso, a coroa arrogante e jucunda que
                    como uma exsudação de prazer aureolava, redonda e alta pelo ar, as sete colinas
                    da cidade. Depois, acercando-se mais do peitoril, descortinou também ali mais
                    perto, à sua esquerda, esse negro bairro de ignomínia, a extensa e sórdida
                    colina em cujas lobregas profundezas gemia e arfava compactamente, na promíscua
                    podridão do monturo, na abominação e na treva, uma população, uma raça inteira.
                    Propusera-se ele trazer a luz, a prosperidade, a paz redentora a essa ínfima
                    legião de lázaros, nivelar aquele contraste, acabar com essas seculares
                    infâmias. Impusera-se também a si mesmo esta obrigação, a qual era anterior, a
                    qual valia bem mais que todas... E era o que tinha a fazer. Tudo o mais eram
                    ridículas futilidades, impróprias do seu carater, excêntricas ao seu
                    destino.</p>
                <p>Forte com esta resolução, voltou à mesa, arremessou com rancor o leque para o
                    fundo de uma gaveta, afastou dele o pensamento com obstinação, com denodo. E n
                    esta emancipadora disposição adormeceu.</p>
                <p>Porém, no dia seguinte, ás primeiras noções nítidas do despertar, lá estava de
                    volta com ele essa ideia demoníaca. Sem poder dominar-se, foi direito à gaveta
                    para reaver o leque; e, antes que o visse, denunciou-lhe a presença desse
                    amuleto estremecido a mesma exalação cálida e forte, como que o seu hálito
                    perfumado. Era uma estonteadora emanação, feita de pecado e de sonho, era a
                    essência do Amor idealizada, sugerindo a morbidez sensual do Oriente, todo um
                    mundo bíblico de sublimados desvarios... como se o vulto singelo e ardente de
                    uma nova Sulamense tivesse abatido ali as azas deslumbrantes, e abandonada,
                    extática ungida de óleos peregrinos, viesse numa fascinação embebedar-lhe os
                    nervos e abeberar-lhe a alma de doçura!</p>
                <p>Todo o dia andou vibrando ao dúlcido estímulo daquela impressão; todo o dia
                    procurou com afinco, baldadamente, uma ideia. Por fim, à noite, vergado ao seu
                    avassalador império, espalmou diante de si o leque sobre a mesa, e um pouco ao
                    sabor do acaso num vago desgosto de si mesmo, com a mão a tremer, garatujou esta
                    coisa desconchavada e incompleta :</p>
                <p><seg rend="italic">«Amar é respeitar... Nas relações de homem para mulher, as
                        mais austeras fórmulas do respeito são muitas vezes o colete de forças da
                        alma. Na sua rígida abstenção dissimulam e condensam verdadeiros poemas
                        cândidos, ferventes, de incondicional dedicação de efusiva
                    ternura.»</seg></p>
                <p>Depois leu, teve uma hesitação, datou, assignou, e num mais acentuado movimento
                    de desgosto atirou o leque para o lado. E toda a noite foi para o torturado
                    lírico uma arrelia, um remorso, uma preocupação constante. Já depois de deitado,
                    a miúde se levantava, numa inquietação... vinha e acendia a luz, retomava o
                    leque, abria-o, lia, relia, mirava num desolado exame a sua obra. — E ora
                    tropeçava numa palavra, achava o pensamento linfático, desenxabido, reles; ora
                    embirrava com a disposição gráfica do que escrevera, que teria ficado melhor,
                    mais em diagonal, simétrico com o lírio, mais ao canto; ora era também a forma,
                    o lançamento da letra que lhe desagradava, tremula e desigual como lhe sairá...
                    e a tinta, que não pegava nuns pontos, noutros empastara horrorosamente. — O
                    maior dos fiascos, em todo o sentido! E sem emenda possível!</p>
                <p>Ao amanhecer, pouco depois de abrir a janela do seu quarto que olhava ao norte,
                    viu em cima, na sacada do solar fronteiro, sob os profusos ramos, ainda
                    despidos, de uma glicínia o nobre vulto egípcio de Adriana, que, cortejando-o,
                    lhe perguntou por gestos se já havia escrito. Significou-lhe o Mateus com a
                    cabeça — que sim. Daí a minutos, entregava-lhe o leque.</p>
                <p>Adriana leu, com piedosa atenção; e ao cabo, numa inflexão recalcada,
                    enternecida:</p>
                <p>— Muito bem! Agradeço e compreendo... — E no mais carinhoso dos gestos, fechando
                    o leque e erguendo ao Mateus uns olhos de Madona: — Agora, fica assim!</p>
                <p>Com ardilosa intenção, o contramestre observou:</p>
                <p>— Ainda tem tanto espaço em branco...</p>
                <p>— Engana-se! — acudia vivamente Adriana, olhando-o sempre. — para mim está
                    cheio... Cheio de mais!</p>
                <p>E com um destes sorrisos que vão direitos à alma, despedindo-se, a patrícia filha
                    dos Meireles afastou-se, demoradamente, com o airoso busto balanceando num
                    júbilo envaidecido.</p>
                <p>Mas era agora também o Mateus que, tomado por um ingénuo encanto de vaidade, se
                    supunha sinceramente o vencedor. — Não havia duvida! Aquela criatura de exceção
                    e privilégio, vivendo lá tão alto, de um sentir tão contrário ao dele, pela raça
                    e pelo instinto sua inimiga, fora ela que o procurara, que gradualmente descera
                    adonde a ele, que viera com a fimbria do seu vestido branco iluminar a
                    voluntariosa noite do seu viver. Com que fim, por qual sentimento? Não lhe
                    importava... Fosse por paixão, por jogo, ou por capricho, o certo é que fora ela
                    a demandante, naquele curioso e imprevisto pleito sentimental. Limitara-se ele a
                    deferir-lhe um pouco no seu favor; um dever trivial de cortesia. Mas nem aquele
                    episódio galante era de molde a perturbar a trajetória tensa e honesta da sua
                    vida. Nem por isso a sua consciência tinha porque alarmar-se, ou que sofrer
                    qualquer desvio deprimente &amp; nobre orientação do seu destino. Uma cândida
                    ilusão fazia-o sinceramente tomar por uma efémera futilidade esse afogueante
                    sentimento que, traiçoeiro e breve, lhe ia manietando a alma. E dizia-se: —
                    Acabara, passou... Ela, sim, ela é que descera... ela é que contraíra
                    voluntariamente bem estranháveis compromissos. Aquela patente predileção por ele
                    quem lha insinuou? Quem a obrigou a declara-la insistentemente no misterioso
                    veludo dos seus olhos?... Foi uma coisa absolutamente espontânea, foi o puro
                    voto livre da sua consciência, da sua alma. E votos destes, assumidos na
                    perturbadora querença de todo o nosso ser, tomados e selados na telegrafia
                    galvânica dos olhos, são sagrados também, obrigam para toda a vida.</p>
            </div>
            <div>
                <head>CAPÍTULO XIII</head>
                <p>No último sábado de janeiro desse ano de 1896, por volta das 9 da noite, o coxear
                    nervoso do Fagulha media irrequietamente, indo e vindo, a miúde olhando para o
                    relógio da estação, o asfalto do apeadeiro de Braço de Prata. aguardava-se a
                    chegada do expresso de Madrid, no qual deviam vir, segundo comunicação
                    telegráfica, o belga Bazeleerts e o seu companheiro italiano da Internacional.
                    Para desviar suspeitas, delegara o Mateus no seu azevieiro lugar-tenente a
                    missão de os esperar. Viriam ambos de boina branca, com pala de tartaruga e
                    correia de entrançado de linho, — era o sinal para o seu reconhecimento
                    convencionado. Na estação demorariam apenas o tempo indispensável para libertar
                    a bagagem, e seguiriam logo para casa do João dos Unguentos onde os esperava o
                    Mateus. E aí se hospedariam também, visto como o contramestre os não podia levar
                    para casa, e afinal de contas nenhum outro local fora, para o efeito, reputado
                    mais adequado nem mais seguro.</p>
                <p>Assim que o silvo arrastado do comboio se ouviu, anunciando a sua chegada, logo o
                    Fagulha com os olhos desorbitando de ansiedade, saltou a postar-se no extremo
                    norte da gares donde então, numa impaciência febril, crescendo e avançando o
                    busto sobre a instabilidade funciorial das pernas, passou a cravar a vista na
                    linha arrogante das carruagens que em revista pela frente lhe iam rojando, num
                    desfilar estridente e majestoso, gradualmente amortecido. De repente, um
                    sobressalto de júbilo o sacudiu. Logo na primeira carruagem de segunda classe
                    julgou distinguir dentro, bem evidenciadoramente destacando por entre nuvens de
                    fumo, as duas anunciadas boinas, frente a frente, mesmo junto da portinhola. E
                    com efeito, num instante estavam em terra os dois estrangeiros, que mediram com
                    prudencial desconfiança, dando aos ombros e arredando-se, a pressurosa e exótica
                    figura que os abordava. O Fagulha porém, sem se intimidar, tomou-lhes ao lado, e
                    de afogadilho ejaculou, num francês pegadiço e bárbaro, as frases de combinada
                    senha que para aquele melindroso momento o contramestre lhe ensinara. De sorte
                    que, tido agora por garantia de apresentação bastante este sinal, daí a
                    instantes já os três entravam, mano a mano, na estação, seguros no
                    reconhecimento das respetivas identidades.</p>
                <p>Bazeleerts era um achaparrado e refeito tipo de homem, de pescoço taurino e pés
                    plantados solidamente, passante dos quarenta anos, em volta do rosto opado e
                    rubro a barbicha loira já grisalhando, os lábios negros do cachimbo, e na base
                    do frontal amplo e liso, projetados muito à frente, os pequeninos olhos azuis,
                    de um azul vago e translúcido. Vestia, singelamente, calça, colete e jaquetão de
                    bombazina cinzenta, e ao pescoço, desalinhavadamente pendida e baralhada com as
                    rugas de acaso de uma grossa camisa de Oxford, uma estripalhada gravata negra. O
                    italiano era muito alto, ladeiro e esguio, macilento, de um prognatismo
                    característico, quase imberbe, com a torva expressão malignamente enublada por
                    uns olhos de extermínio. Avançava derreado, com as mãos enterradas nos bolsos de
                    um longo e farto sobretudo, desta desbotada e crassosa cor das coisas velhas,
                    desabotoado à frente, a gola levantada; e via-se assim que não trazia gravata, e
                    apenas sobre a áspera camisola, listrada de negro, faziam grandes refegos as
                    calças, cingidas por uma correia.</p>
                <p>Além de uns pequenos volumes de mão, traziam bagagem a despacho; e bagagem que o
                    belga quis pessoalmente receber ao balcão, abrir à obrigada fiscalização dos
                    guardas e atentamente vigiar depois, quando confiada a sua condução a dois
                    rapaz, por forma que estes marchassem sempre bem junto dele.</p>
                <p>Assim se puseram a caminho, e em poucos minutos alcançavam finalmente a casa do
                    João. Mal a campainha do portão soou, logo um dos postigos se abriu com
                    estrondo, e a radiosa figura do contramestre se ofereceu, vibrante de
                    envaidecido alvoroço; enquanto a amasia do João se debruçava curiosa da cozinha,
                    e ele, sob o alpendre do patamar, de barretinho de seda na cabeça e a palma da
                    mão protegendo a vela, iluminava. O Mateus abraçou efusivamente os recém vindos;
                    e tão cega e confiante foi a sua expansão, tão impressivo e sincero o seu
                    prazer, tão persuasivamente amparadas de nobre e fulgurante eloquência lhe
                    saíram as primeiras saudações, as primeiras frases, que logo de escalada aqueceu
                    o coração e ganhou o ânimo dos dois terríveis estrangeiros. Um fulmíneo triunfo.
                    Pela admiração e pelo agrado ele conquistava de improviso a sensibilidade e a
                    inteligência de dois homens que o simpatismo do mesmo ideal comum já
                    antecipadamente lhe emanara na vontade.</p>
                <p>Foram instalados no grande repartimento da frente, a chamada sala das
                    curiosidades do complicado e imundo casarão. As suas grotescas bancas tinham
                    sido arrimadas contra as paredes, mas sobrepujadas sempre pelo mesmo macabro
                    aparato de cadinhos, pipetas, retortas e campânulas. Duas delas, postas topo a
                    topo ao centro da casa, tinham por cima estendida uma toalha, com cinco talheres
                    e um candeeiro de petróleo aceso. E, de novo, havia apenas dois catres tarimbais
                    de ferro, cada um num dos extremos longitudinais da casa, de travesseirinhos de
                    croquet e colchas brancas.</p>
                <p>O tarraco e rubicundo Bazeleerts, que foi o primeiro a entrar na reçaga do João,
                    apreendeu com olho de lince o aspeto do conjunto, e logo, com maliciosa
                    expressão:</p>
                <p>— Oh, quel joli désordre! — Depois, num ar entre bionómico e trocista, para o
                    alveitar: — Savez-vous que c’est égaiant, ca?...</p>
                <p>E mastigando o cachimbo e olhando ao alto, ria de vontade.</p>
                <p>Convidado para se sentar, com o companheiro, à mesa, — a tomarem alguma coisa, —
                    não se fez muito rogado. Tomaram então lugar, aos dois lados do João, e à
                    ilharga deles o Mateus e o Fagulha. Veio a amasia, muito corada, servir primeiro
                    a canja, com os dedos fulgurantes de anéis e arlequinescamente frisada a
                    gaforina. O João pedia desculpa por não lhes poder dar hospedagem melhor — que
                    aquela humilde choupana. Como ele falava em português, o Mateus fazia de
                    intérprete; e assim o busto redondo do belga não cessava de oscilar amavelmente
                    entre os dois, enquanto, em frente dele, os olhos de porco do italiano, ainda em
                    suspeitoso exame, não tinham descanso, e o Fagulha se fartava alarvemente de pão
                    com azeitonas.</p>
                <p>Depois da canja veio a cabidela e o João fez espumejar nos copos um Colares muito
                    sofrível. Regalados e tranquilos como bons burgueses, os dois ferozes agitadores
                    iam saboreando. O italiano ainda era o mais refratário ás reles seduções da
                    mesa; porém, de certa altura em diante, quando uma pantagruélica perna de
                    carneiro assado apareceu, o faceiro Bazeleerts positivamente — a perdu
                    contenance, — conforme ele mesmo confessou; e com familiar ousadia, por momentos
                    reconciliado com o mundo, dando na mesa galhofeiros murros, denunciadores da sua
                    interina despreocupação dos graves problemas sociais, perguntava rindo ao dono
                    da casa se era alquimista, e edulcorava em amaviosas projeções os olhos para a
                    virago que o servia.</p>
                <p>Inquirido pelo Mateus acerca das suas impressões sobre Portugal, desatou-se,
                    estralidando contra o céu da boca a língua, numa enternecida girandola de
                    bucólicas expansões; que lhe parecia o jardim do Ocidente, de uma amenidade sem
                    par, de um encanto paradisíaco; e concluiu dizendo que suspeitava — que um povo
                    criado num tão doce e acariciador clima, não poderia ser um povo revolucionário.
                    Erguendo a deixa, o Mateus contestou, travou-se espiritual e viva a discussão. O
                    Fagulha e o João, que não os percebiam e se sentiam, ao peso animai da digestão,
                    timpanicamente obtusos, retiraram muito humildes. — E então, pela noite adiante
                    os outros três ficaram, esquecidos do tempo e do repouso, interminavelmente, no
                    travamento mútuo de ideias estreitando relações e aproximando interesses;
                    perdido o Mateus em alucinadas fugas pelos fantasiosos meandros do seu otimismo;
                    o belga desdobrando da sua prática da vida, e muito regados em cerveja, os
                    filosóficos desenganos; e o italiano mudo sempre, inalteravelmente fechado na
                    sua expressão sinistra, incessantemente a ingerir copinhos de licor.</p>
                <p>A premeditada conferencia com os delegados portugueses tinha de ser no dia
                    seguinte, domingo, à noite, por isso que os dois retirariam fatalmente na tarde
                    de segunda-feira. Assim, a manhã desse dia grave e decisivo foi para o Mateus,
                    como para o Fagulha, o Esticado e o Serafim, uma correria doida. Era preciso
                    levar o concertado aviso a cada um dos confederados, e tão melindrosa
                    incumbência tinha de ser verbal, direta; nem podia confiar-se do correio, nem de
                    quaisquer intermediários de ocasião. Valeu que nessa mesma manhã apareceu
                    providencialmente o Ventura, o qual, num abandonado minuto de gozo convencido
                    pela Bandeirinha. Vinha agora ao serviço da revolução por incondicionalmente os
                    seus serviços. Este, como era rapaz e o mais moderno naquela clandestina
                    conscrição, foi destacado para longe: para Alcântara e os confins ocidentais da
                    cidade. E todos cinco o dia inteiro andaram, dividida estrategicamente a cidade
                    por zonas, no pressuroso arrebanhamento de sequazes para essa tremebunda sessão
                    da noite.</p>
                <p>Por indicação também do Mateus, nesse dia o João não deu consulta; e teve
                    igualmente ordem terminante para não entrar em privanças comprometedoras com os
                    estrangeiros. De sorte que a sua hospedeira obsequiosidade houve de cingir-se a
                    várias manipulações opíparas de cozinha. — Bazeleerts, durante o dia, saiu.
                    Sozinho. Sacando da ampla algibeira, com uma previdência de ulano em território
                    francês, uma planta da cidade, fez compreender ao João, espantado de tanto
                    saber, que tinha ali assim o melhor guia. Nenhum outro mais dócil, nem mais
                    seguro. Nada como andar só, para espertar o instinto e aprender. Apenas quis que
                    lhe ensinassem onde ficava, afora aquele onde se achavam, algum outro grande
                    bairro operário na cidade. O João indicou-lhe Alcântara. E para lá seguiu,
                    sempre a pé, o frio e arguto Bazeleerts, no seu prático iluminismo já ruminando
                    a conveniência de atrair e ligar na espontaneidade solidaria da mesma obra
                    aqueles dois pólos de miséria da cidade por lá andou quase todo o dia,
                    tornejando fábricas, fariscando pelos cais, abancando nas tabernas; e a sumula
                    do seu exame não o lisonjeava, — porque não encontrava em parte alguma, bem
                    dilacerante, bem autêntica, a nota da servidão e da fome. Todo esse mundo ínfimo
                    com que ele ia cruzando tinha um ar conformado e tranquilo, uma expressão de
                    relativa mediania que o desconcertava. Comparados com a aparência devastada e
                    feroz, com as trágicas mascaras e a lívida ruina dos mineiros e ferreiros do seu
                    país, estes portugueses concertadinhos e mansos eram quase felizes. E como não
                    viam o céu da vida negro, não havia a esperar deles vingadoras convulsões. —
                    Entretanto, não deixou de perguntar onde era, e de ir piedosamente contemplar, o
                    pátio e palácio do Fiúza, cuja revolucionária tradição lhe ora conhecida também,
                    ao ver no alto da Ajuda a esmagadora mole do palácio real, quis saber o que era
                    «aquela pedreira» e, quando lho disseram, indagou então ainda, com os olhos
                    fosforando ódios, «que caminho seguia para ali o rei»; e foi, calçada da Tapada
                    acima, percorrê-lo, num incendido jacobinismo, com exterminadora intenção,
                    demoradamente, de preferência parando na pequenina ponte de alvenaria sobre o
                    rio Seco, que examinou e mediu em todos os seus aspetos, marcando-a na planta
                    com uma cruz negra.</p>
                <p>Pelo contrário, o italiano em todo o dia não saiu. Depois de almoçar, sempre mudo
                    e intratável, vinha e debruçava-se das janelas que davam sobre o pátio, a cabeça
                    revolta amarfanhada entre as mãos, olhando o solo vagamente. Pusera
                    familiarmente de parte o sobretudo, e a sua gorja pelangosa e estéril como o
                    poste fúnebre de uma forca, rompia, magra a ponto de parecer negra, despegada e
                    cosida por edematosas cicatrizes, do envoltório farpado da camisola, através do
                    qual apontavam também esqueleticamente as clavículas. — Nessas atitudes de
                    alheada concentração se imobilizava, teimosa, indefinidamente, como se por muito
                    longe lhe vagueasse a alma, numa interina suspensão da vida. Quando num dado
                    momento os seus olhos de rancor se poisaram em baixo, entre os profusos
                    destroços do pátio, numa velha lata de sardinha de conserva, que namoravam com
                    delícia. E logo foi, pedindo licença ao João, apanha-la; entregando-se depois;
                    sobre a improvisada mesa de jantar, a uma operação absorvente e misteriosa.</p>
                <p>Arredou primeiro a toalha, poisou a lata, extraiu da algibeira das calças um
                    canivete; foi-se depois à sua mala, donde trouxe um tubo de vidro com um pequeno
                    estrangulamento ao centro, uma lima com diamante, rolhas de cortiça, pregos e
                    limalha de ferro, algodão em rama. E, tendo puxado cadeira, ei-lo agora
                    empolgadamente votado ao seu trabalho. Confrontou primeiro o tubo com a pequena
                    caixa de folha, por forma que dentro desta ele podasse caber, posto em diagonal.
                    Era comprido; serrotou com a lima, simetricamente, de um e de outro lado; voltou
                    a medir... quase. Serrilhou mais. Agora o vidro, com uma ligeira pressão, já
                    entrava e ficava entalado, firme. Bem! Tornou a tira-lo, introduziu-lhe
                    delicadamente, até ao ponto em que o seu diâmetro era mais estreito, uma lamina
                    de algodão em rama; afeiçoou e aplicou-lhe duas rolhas nos extremos; e logo a
                    entala-lo dentro da caixa outra vez. Levantou-a, sacudiu... nenhuma das peças do
                    sistema se deslocava. Perfeito! Lançou-lhe então porção de limalha nos dois
                    pequenos compartimentos triangulares que o tubo em diagonal definia, acabou de
                    atochar com pregos, fechou, calcando a tampa; fez a menção de ligar aquele
                    imprevisto modelo de máquina infernal com muitas voltas de fio, bem retesas; e
                    finalmente, de pé, fundibulando largo o braço, traçou o gesto de quem a
                    arremessava longe, enquanto se lhe cosiam num atrabiliário rancor os lábios e os
                    olhos torvos lampejavam sinistramente...</p>
                <p>Á noite, mal tinham soado Trindades e já o Mateus estava junto deles. Não sem que
                    primeiro tivesse tomado de roda daquele improvisado <seg rend="italic">blockaus</seg> as indispensáveis medidas de segurança. A um e outro lado
                    havia postados homens de confiança, de vinte em vinte passos, até grande
                    distância pelas ruas fora. Uma outra vedeta estava postada também,
                    perpendicularmente a esta direção, junto à cancela do apeadeiro de Marvila. E
                    num ponto intermedio, entre a tenda do Zê Pequeno e o chafariz, aí onde era o
                    cruzamento das duas cerradas linhas de esculcas, o Fagulha e o Ventura estavam
                    também a postos, girando incessantes, prontos para, ao primeiro anúncio de
                    perigo, irem dar o imediato alarme.</p>
                <p>A hora já adiantada, quando mal notado o seu passo podia ser na pacificação de
                    deserto daquele dia de folga, os broncos iniciados vinham chegando, batiam de
                    manso com os nós dos dedos no portão, de dentro o Zanaga abria; e por esta
                    forma, sem ruido e sem escândalo, foram todos entrando, discreta e
                    sucessivamente. Nem tudo eram pacóvios e analfabetos nesta demolidora ronda de
                    conspiradores. Contava-se entre eles a figura epilada e verde do Azinhal, havia
                    alguns dos mais conceituados chefes maçons e socialistas. E de todos o mais
                    inflamado e mordaz, o mais tipicamente anotável era decerto o Cavalinho mosca,
                    esse afamado agitador de Alfama e Mouraria. O populacho adorava-o. Nunca andava
                    ossinho, porque na sua insalubre orbita de atracão vinham os gandaeiros, os
                    pilhos, os moinas e os tunos invariavelmente gravitando. Era o deus da ralé, o
                    Moisés da escória de uma loquacidade incorrigível, a sua improvisação por acaso
                    dispunha a primor de um certo número de frases de cliché, de sonoras apostrofes,
                    de blasfémias com lantejoulas, cujo gafo ouropel refrangia deslumbrantes brilhos
                    de oiro na alma fácil do povo, em cuja lama estrutural abria sulcos corrosivos.
                    Uma tempestuosa e amarga experiencia da vida aziumara-lhe o sangue,
                    impaludara-lhe o instinto. Fora sucessivamente marçano, jovem de fretes,
                    corretor de hotel, sapateiro de trança, cobrador, cocheiro, bufo, e agora era
                    cauteleiro e distribuidor de jornais. Sempre esperto e ágil, contra a idade e os
                    desenganos reagindo sempre. A canalha bebia vento por ele; e no Rossio, na
                    Avenida, de manhã, os vadios desertavam dos bancos e iam algareiros fazer-lhe
                    roda, mal viam, pequenina e viva, aquela figura apontar ao longe, um rosto longo
                    de símio, barba grisalha cortada à máquina, o bigode talhado marcialmente, sem
                    guias, uns olhitos claros e saltitantes, crespos de malicia, um estripalhado
                    barrete mal conseguindo disfarçar a calvície precoce do crânio oblongo, em volta
                    do escorchado pescoço invariavelmente um grosso <seg rend="italic">cache-nez</seg>, e o resto do miado corpo tiritando sob um fatinho de velha
                    ganga azul, muito leve, imundo e esfarrapado. E ele então, ao ver-se rodeado dos
                    seus, rejubilava, atirava-lhes de relance coisas incendiárias, transmitia-lhes
                    as descomposturas inéditas da Vanguarda e da Pátria daquele dia. E sempre
                    ligeiro e contente, sem parar, lardeando o <seg rend="italic">ritornelo</seg>
                    alto do seu pregão de pragas e conselhos, ele lá ia e sumia-se no dédalo das
                    ruas bafientas, a falaçar e a correr entre a jolda dos rotos, batendo na
                    surrampa nua do calcanhar com o chinelo de ourelo.</p>
                <p>Quando entrou em casa do João, era de ver a pronta familiaridade com que ele
                    falava a todos quase não havia para ele um desconhecido ali. Tudo, desde a
                    Povoa, por Sacavém ao pátio do Salema e ao Campo Grande, tudo sabidos cúmplices
                    na mesma libertária ideia.</p>
                <p>A improvisada mesa de jantar fora arredada do centro da casa e achegada à parede
                    que dava para o pátio interior, formando presidência. Na frente e aos lados
                    tinham-lhe colocado ordenadamente os bancos da casa de consulta, fechando duplo
                    colchete, três por fileiça. Sobre a mesa havia o mesmo candeeiro de petróleo;
                    mas, considerada para a solenidade do ato a sua luz insuficiente, semeara ainda
                    o João, ao acaso, pelas prateleiras, uma dezena de velas aplicadas sobre
                    gargalos de garrafas, e cuja chama translucidamente se multiplicava e escorria,
                    em polícromas reverberações, em fluidas estalactites de luz, pela diáfana
                    abundancia de frascos que as ladeavam.</p>
                <p>Á medida como chegavam, os convidados iam de capricho e sem ordem tomando Jogar
                    nas bancadas. Os últimos, como já aí não coubessem, arredavam as retortas,
                    cavalgavam as mesas. E todos travados progressivamente num dialogar de
                    interesse, num bravo e tumultuário rezingar, sob esse ambiente gordo da
                    imperfeita combustão das velas e da fumarada acre dos cigarros. De vez em
                    quando, imperativamente, algum psiut prudente esvoaçava por sobre o turbulento
                    chalrar da multidão. E então, no momentâneo silêncio, aqueles olhos ardentes de
                    insaciados iam cravar-se gulosamente nas facetadas dendrites, na cristalina
                    flamula dos licores. — Quando, a um dado momento, os dois estrangeiros,
                    precedidos do Mateus, à porta da esquerda surdiram teatralmente, todos se
                    ergueram, e uma simultânea e unanime faísca de avido simpatismo orientou ao
                    prestigioso grupo aquelas cabeças curiosas. O João, que vinha na cauda, fez-lhes
                    sinal para se sentarem. Em breve, cada um havia retomado o seu lugar, mas
                    adiantando numa ansiedade o busto e com os grandes olhos sofregamente
                    abertos.</p>
                <p>Entretanto, os três avançaram, de respeito, com vagar, e abancaram à mesa,
                    silenciosamente, sem fitar, sem cortejar ninguém, num alheamento altivo.</p>
                <p>— Têm mau focinho! — rosnou logo o Manaio.</p>
                <p>— Nem para gente olham!</p>
                <p>— Espera... — disse-lhe o Serafim.</p>
                <p>— Ora os penetras!</p>
                <p>Decorrido um instante, o Mateus ergueu-se, comandou silêncio, e com os lábios
                    trémulos de emoção, incendido, vibrante de vaidade, fez em encarecidas frases de
                    entusiasmo a apresentação dos recém vindos, a quem agradeceu, por si e pelos
                    presentes, em nome de todo o proletariado português, o incomparável favor da sua
                    presença. Depois, aos seus compatriotas, numa veemente exoração, com as mais
                    persuasivas artes do seu génio, rogou que saíssem dali, para a grande obra da
                    redenção comum, indissoluvelmente unidos; que fossem agora, em tudo e para tudo
                    quanto deles exigissem, verdadeiramente homens; que de alma, vida e coração se
                    entregassem, desdenhando perigos, afrontando a morte, à violenta, à exasperada
                    solução do primeiro dos problemas modernos. E que esse problema era afinal muito
                    simples, estava na logica dos fatos, era um dos corolários fatais da História. —
                    Tinham que libertar por completo o indivíduo do Estado; e este soberano
                    empreendimento, esta missão heroica e sublime, à primeira vista tão subversiva,
                    que taxavam de infernal e sacrílega os sacripantas que os , exploravam, era
                    afinal a conclusão forçosa e necessária do mesmo determinismo dos fenómenos
                    sociais. Ele ia dizer-lho mais uma vez; que vissem bem... O Estado, nascido da
                    divisão da sociedade em castas, atingiu o seu período áureo, quando? Com a
                    centralização monárquica absoluta. Depois, pela adoção do sistema representativo
                    e a consequente democratização social, começou do Estado, como instituição, a
                    inevitável decadência. Pois tinham de força-lo à total ruina, à bancarrota! Hoje
                    já não havia, em todo o mundo, mais que duas representações completas do Estado,
                    na sua antiga fórmula absorvente e tutelar. Eram: na esfera religiosa, a igreja
                    católica; na ordem politica, o império russo. Tudo o mais era provisório,
                    convencional, efémero, estava fatalmente condenado a desaparecer. O sistema
                    representativo, que começou por ser uma transigência comoda da realeza com as
                    classes, era agora um torpe arranjo, era o lema de defesa comum, contra a
                    democracia libertaria, das diferentes classes entre si. Morreria fatalmente! No
                    momento em que o principio democrático, bem cônscio do seu direito e bem senhor
                    da sua força, se imponha e avance, embora sobre destroços, o bastante para
                    indestrutivelmente firmar a sua dominação inteira e completa. É o que é!</p>
                <p>E progressivamente inflamado, num silêncio de convincente sujeição que lhe
                    permitia desvanecido escutar o eco das próprias palavras, conclamava:</p>
                <p>— Vocês percebem-me bem?... Somos uns escravos; não temos liberdade, nem vontade,
                    nem portanto consciência, A Lei atrela-nos desprezivelmente à desalmada
                    exploração dos grandes. É um beco sem sabida. E esta estúpida sujeição só terá
                    fim quando a divisão do trabalho no organismo social for tão longe que cada um
                    de nós possa manobrar por si, com a perfeita autonomia de um órgão independente.
                    E desde este momento o Estado, a Lei, todo o ardiloso e odiento sistema da
                    opressão atual, terão fechado a sua missão histórica, terão os seus dias
                    contados, acabarão miseravelmente ás nossas mãos, no pelourinho da sua própria
                    infâmia!</p>
                <p>Durante esta incendiária parlenda o maciço Bazeleerts, a princípio impassível,
                    começou de mover-se impaciente na cadeira, coçava a cabeça, pôs de lado o
                    cachimbo, crispava as sapudas mãos em visíveis gestos de enfado; por fim não
                    teve mais mão em si e puxava com intimativa ao Mateus a aba do casaco. Este
                    percebeu, e docilmente, sorrindo, perorou:</p>
                <p>— Ora é neste sentido, rapazes! Que nós vamos, ardida, heroicamente, batalhar,
                    não é assim?... Valeu?</p>
                <p>Como o rugido ameaçador do mar, um aprobativo murmúrio da multidão cresceu, que
                    sacudiu no seu torvo imobilismo o italiano, e que as fogosas narinas do Mateus
                    aspiraram com delícia.</p>
                <p>— Pois bem! — terminou com império o contramestre. — A ordem de combate, a forma
                    pratica e eficaz de irmos direitos ao fim, vai-no-la ensinar este nosso irmão,
                    que generoso e complacente se arriscou à vir de tão longe. — E indicava com
                    amorável deferência o belga. — Vamos ouvi-lo... e em seguida jurar que à nossa
                    devoção fervente em lhe escutar as ordens, será absolutamente igual a nossa
                    pronta, a nossa intrépida decisão em executa-las!</p>
                <p>Uma salva de palmas estridente coroou, como uma rutila esfuziada de estrelas, as
                    últimas palavras do Mateus. Mal porém ele se sentou, que já o atrabiliário
                    Azinhal, a quem a empolgante manifestação galvanizara, se levantava também e
                    abruptamente, com as primeiras palavras surdas ainda na estralada quente dos
                    aplausos:</p>
                <p>— Muito bem! Muito bem! Meus irmãos... Agora, sim, começais a ter juízo. Vamos!
                    Mãos à obra, sem compaixão, sem medo. Temos de ser implacáveis para quem tão
                    implacável é também contra nós. Emancipemo-nos finalmente, mas a valer! Mas como
                    homens que somos... Vamos! Para a carroça do lixo os legisladores e as leis!
                    Enterremos esse guano a apodrecer nesse monturo!</p>
                <p>E atrabiliária, apopleticamente, com o macilento frontal regrado em sulcos
                    caliginosos, e bretoejando em rubros ódios a epilada desolação do crânio
                    luzidio, dispunha-se este intempestivo orador a jorrar o torrentoso frenesi da
                    sua eloquência, quando, num claro, cobrador de alentos, em tamanha indignação, o
                    Bazeleerts disse alto para o Mateus, visivelmente contrariado:</p>
                <p>— Paroles, paroles... rien que des paroles. Et ainsi, mes amis la chose ne peut
                    pas marcher!</p>
                <p>Mas sem o atender, sem o ouvir, todo na tirânica obsessão da sua impulsiva
                    arenga, o Azinhal continuava sempre:</p>
                <p>— Disse muito bem há pouco o nosso amigo Mateus: as leis desaparecerão, uma a
                    uma, à medida como o individuo se tornar capaz de se governar por si mesmo.
                    Completa emancipação do Capital e do Poder: eis a sociedade futura, eis o nosso
                    ideal, eis o nosso plano!</p>
                <p>Aqui, um dos chefes cooperativistas presentes, que era socialista moderado,
                    presidente da Liga das Artes Gráficas, homem de algodão em rama nos ouvidos,
                    óculos fumados e gesto comedido, prudencialmente interveio, erguendo-se:</p>
                <p>— É então isso que nós vamos trabalhar para conseguir?</p>
                <p>— Pois já se vê que sim! — acudiu, impetuoso e iracundo, saltando também em pé, o
                    Cavalinho-mosca E logo em tom sarcástico o homem dos óculos, erguendo e abatendo
                    a mão estendida diante do lábio desdenhoso:</p>
                <p>— Haveis de fazê-la asseada!</p>
                <p>— Ora essa! Então porquê?... — exclamou, cruzando em ar de desafio os braços, o
                    Azinhal: — Que quer você dizer?</p>
                <p>— Que tudo isto é uma tolice!</p>
                <p>— Eu logo vi... Lá veem vocês com a agremiação coletivista do seu Lassale!</p>
                <p>— Está entendido! E que dúvida tem?...</p>
                <p>— Esse pé-de-cantiga cá não gruda! — disse o Cavalinho-mosca.</p>
                <p>— Cala a boca, abelhudo! — retorquiu desprezivelmente o ortodoxo socialista; e
                    voltando-lhe costas:</p>
                <p>— Percebeste alguma coisa?... Isto não é com você!</p>
                <p>O insolente cauteleiro, ferido na sua prosápia de agitador de pé-fresco, de
                    libertário bandarra, maravilha para os vibriões da rua, tolerado pela policia,
                    teve um novo salto de indignação e avançou de ameaça, cortando em cunha pelos
                    grupos, salvando os bancos de tropel.</p>
                <p>Também agora, gradualmente enliçados no travamento sugestivo do diálogo, todos
                    murmuravam, todos, baralhando-se, numa desordem assaltavam novos lugares; alguns
                    mais, de punhos à frente, se ergueram; outros, os mais distantes, descavalgavam
                    as mesas e vinham adiante mosquear o sobrado com as suas figuras enardecidas. Do
                    seu posto de honra, o Mateus seguia jubiloso a cena, irrequieto também, vibrando
                    em nervosas desarticulações que contrastavam vivamente com a sinistra
                    passividade de máquina do italiano, ao lado. Precavidamente o João ia escutar ás
                    janelas. E bem lampeiro, bem na frente, mais que todos exibitivo e flamante
                    destacava o Zanaga, que pela sua camaradagem eventual de cachimbeiro com o belga
                    se sentia na sua consciência engrandecido.</p>
                <p>Entretanto, sabatinando sem trégua com o outro, o Azinhal:</p>
                <p>— Pois como querem vocês... sim... casar estas duas anomalias, ligar liberdade
                    com autoridade? Puro absurdo! O vosso socialismo afinal, com a tutelação
                    coletiva, oficial, do Estado, seria uma variante ao atual regímen de servidão,
                    não valia a pena. Então antes deixar estar o que está!</p>
                <p>— Apoiado! — Anda-me com ele!</p>
                <p>— Num regímen de absoluta igualdade, como o que nós queremos, em que não mais
                    haverá grandes nem pequenos, em que nivelará as classes uma implacável
                    rasoura...</p>
                <p>— Assim! Assim!</p>
                <p>— Numa tal organização como pretendem vocês, seus palermas, que possa haver a
                    regular-nos os atos um poder central?... Sociedade livre só uma sociedade sem
                    leis. Delegar é abdicar. A socialização do poder é a coartação da liberdade. Não
                    precisamos dela, não a queremos! Cada um é absoluto senhor seu!</p>
                <p>— E que seja já amanhã! — Que ganas que eu tenho!</p>
                <p>— Cada vez mais a sociedade moderna se mostra capaz de poder prescindir de
                    centros de coordenação legal. A nossa vida tem de ser individualmente
                    espontânea. A descentralização da atividade humana é cada vez maior.</p>
                <p>— E representa isso um progresso? — disse irónico o cooperativista.</p>
                <p>— Indubitavelmente! Salta aos olhos... Os principais centros de produção são hoje
                    autónomos; há organizações livres em quase todos os ramos da atividade. É ver o
                    comércio, a beneficência, a indústria... E o seu funcionamento é tanto mais
                    perfeito, quanto menor é a ingerência neles do Estado. — E rematou
                    desabridamente, no aplauso doido da multidão: — Aqui não pode haver duas
                    opiniões! Quem pensar de outro modo, rua! Não nos faz cá falta, não tem lugar
                    aqui!</p>
                <p>— Ele está como os de Braga: viva a liberdade e chova lenha!</p>
                <p>— Era o ideal do avô!</p>
                <p>— Era uma grande cobardia!</p>
                <p>— Almas de unto não se querem aqui!</p>
                <p>— Carroça!</p>
                <p>E o caso foi que, perante a berrata selvática e as disposições hostis da
                    multidão, o imprudente interrutor entendeu que o melhor que tinha a fazer, apara
                    não desmanchar prazeres, conforme declarou, era voltar a sentar-se, muito
                    encolhidamente, outra vez.</p>
                <p>Agora, no auge da impaciência, o belga erguera-se, e com os olhos chamejantes,
                    agitando colérico os ombros, dando um murro na mesa:</p>
                <p>— Encore du bavardage! Je perds patience, parbleu!</p>
                <p>E solidamente plantado, de pé, com o gesto imperioso e o rosto enérgico, mais
                    dilatado e quadrada ainda, dir-se-ia que pelo ímpeto da indignação, o seu torso
                    refeito, ele passeava dominadoramente pela assembleia a vista, nesta dura
                    expressão de quem está habituado a ser obedecido; enquanto, acolitando-o
                    pressuroso, o Mateus corria, indignado e imperioso também, a impor silêncio, os
                    grupos. Mas breve o sossego e a ordem recaíram; e uma unanimidade de agudo
                    interesse norteava finalmente todas essas alucinadas mascaras à interrogativa
                    contemplação do estrangeiro.</p>
                <p>Então, sentindo-se senhor da situação, no requerido foco de evidência que
                    aguardava, Bazeleerts estendeu em mal desenhada saudação o braço, e foi dizendo,
                    cortado a intervalos pela indispensável interpretação do Mateus: — Que se
                    deixassem de rezingas sem proveito, de estéreis especulações que nada
                    adiantavam. No terreno pratico, terre à terre dando caça implacável ao inimigo
                    comum, de trincheira em trincheira, de antro em antro, é que convinha manobrar.
                    Que nem falassem, nem lessem tanto, fiem se via que eram os descendentes desses
                    ingénuos que tinham passado séculos, prostrados diante dos púlpitos, a adorar
                    baboseiras... Para continuarem assim, mais valia o suicídio! E que o problema
                    era bem simples: tinham de um lado o privilégio, do outro a escravatura; em cima
                    a impudência, em baixo a humilhação; de lá a fartura, de cá a fome. Tratava-se
                    de igualar os dois termos da equação... pôr pelo extermínio e peio terror um
                    travão a esse rodizio colossal de iniquidades, nas quais bastaria que eles
                    pensassem a sério um instante, para que todas, ainda as mais ténues, radiculas
                    dos seus nervos, todas vingadoramente vibrassem, até aos últimos excessos, até
                    aos grandes heroísmos inverosímeis!... Pois eles não viam, não sentiam bem que,
                    se para os grandes viver era sinonimo de gozar, para eles, os pequenos, essa
                    palavra infernal não queria dizer senão pagar, e só pagar, e pagar sempre?....
                    Em virtude do estúpido regímen da propriedade, tinham que pagar renda de casa,
                    depois pagavam décima porque pagavam renda, e pagavam adicionais porque pagavam
                    décima, e porque pagavam tudo isto ainda pagavam selos... Uma verdadeira rede de
                    arrastar! Todo o dinheiro canalisado para os mandões, para os ricaços. O que os
                    patrões enjeitam, arrepanha-o o fisco. Os mais espontâneos, os mais naturais
                    atos da vida, que estão na logica fatal das coisas, que derivam da pura harmonia
                    cósmica e são por essência anteriores a governos e sindicatos, — como o
                    nascimento, a educação, o casamento, a legitimação dos filhos, o trabalho, as
                    profissões, até a morte, — tudo nos fazem pagar! Se quisermos morrer em paz, à
                    moda burguesa, havemos de comprar a cova e pagar ao padre para nos
                    abençoar...</p>
                <p>— Tal vez se pague para entrar no céu! — disse escarninho o Cavalinho-mosca.</p>
                <p>E os circunstantes, ligeiramente, riram, mas em silêncio, mas sem desmancharem
                    atitudes, sem desfitarem a figura iluminada e potente do orador, que
                    empolgadoramente os tinha a todos agora sujeitos, na cálida torrente do seu
                    verbo.</p>
                <p>Ele entretanto continuava:</p>
                <p>— Que o mal ainda não era só esse! Piorava-o a rede iniquíssima de preconceitos,
                    imposturas e mentiras que cada vez mais espessa e acerada, como uma jaula de
                    ignomínia, partia e asfixiava o mundo... Ninguém valia por si, mas pelo que
                    tinha. Tanto tens, tanto vales, — era a nova taboa da Lei. O amor era uma
                    avaliação, a amizade era um inventário. E que, assim, numa organização social em
                    que só o oiro dá honra, esmagava os proletários uma dupla desgraça. A Sociedade
                    não os faz só infelizes, fá-los réprobos também! Roubam-nos e infamam-nos...
                    Porque as classes dominantes tinham pegado da palavra «miserável», que vêm de
                    «miséria» e quer dizer «vítima», e torceram-lhe a significação para um termo
                    equivalente a «bandido» e portanto a «criminoso». Daí que o pobre é também um
                    leproso moral. São dois males... E em vez de lhe dispensar o balsamo da
                    compaixão, a Sociedade fulmina-o com o seu odio! Explora-o e despreza-o. Arma-se
                    contra nós de todo o poder das instituições, — krups e tribunais, becas e
                    baionetas, — e sacode-nos com asco, quando não nos condena à morte, depois de
                    nos haver esvaziado a algibeira!</p>
                <p>Estrugiram atroadores os uivos de aplauso da multidão; e ele crescendo, ele
                    aquecendo sempre:</p>
                <p>— Algozes e ladrões! Já vedes. São eles os criminosos! Temos que os castigar... e
                    reabilitar-nos. É só isto! — E, feita uma pausa, cruzando apreensivo os braços:
                    — Como o havemos de conseguir?... Por um modo também bem simples:
                    concentrando-nos e unindo-nos, formando pela nossa inteligência e a nossa
                    vontade uma formidável barreira contra esses vampiros constitucionais, contra
                    essa oligarquia infame que nos cavalga e nos suga. Mais do que barreira... uma
                    inexorável, uma justiceira e cega avalancha, que os embrulhe e os arraste, que
                    na mesma vingadora mortalha sepulte para sempre toda essa choldra
                    impenitente!</p>
                <p>Cingindo a mesa cada vez mais de perto, e sofregamente unidos na fascinadora
                    impulsão do mesmo sentimento, ocupavam agora os ouvintes já bem metade só do
                    espaço primitivo. A unanimidade no aplauso, a hipnose de inédito do discurso, a
                    conformidade de ideais, uma comunicativa e ardente impaciência, como que lhes
                    tinham adelgaçado e fundido, numa solidariedade de aço, as figuras palpitantes,
                    suprimindo intervalos, anulando as distancias. Para mais, cada uma das
                    inflamadas proposições do tribuno triplicava de valor, ao transitar do Mateus
                    pelo lábio eloquente. De sorte que, agora, essa compacta massa de cabeças
                    alternava os seus olhos de ansiedade, dos olhos profundos do Mateus aos olhos
                    transcendentes de Bazeleerts, que, baixando a cavas intonações a voz e
                    projetando à frente confidencialmente o busto, insinuava:</p>
                <p>— Ah, queiramo-lo nós bem decididamente, bem à tesa, que o mundo é nosso! O
                    capital há de vir a morrer da pletora da abundancia, creiam isto! Como um bêbado
                    afogado em vinho. Já para lá caminha... Mais dia menos dia, a bancarrota dos
                    grandes centros monopolistas da produção é certa. Lá no meu país, as indústrias
                    de fundição e altos fornos já não sabem como hão de equilibrar a criação com a
                    derivação dos seus produtos; na Inglaterra, os fabricantes de tecidos de
                    Manchester, Leeds e Bradford debatem-se na mesma dificuldade também, anteveem o
                    mesmo perigo... Juntai a isto a crise geral das minas; e dizei-me depois se não
                    é próximo, certo, inevitável um pavoroso naufrágio industrial... que nós
                    aproveitaremos para moldar então a sociedade em bases novas! Trabalhando para
                    que cada um goze e possua segundo as suas necessidades e não; como hoje, segundo
                    as suas obras.</p>
                <p>E obstinada, imperativamente, passara, sem deixar de falar, à frente da mesa, e
                    misturava agora, numa persuasiva intimidade, com a massa esquálida do grupo a
                    sua grande figura prestigiosa.</p>
                <p>Acotovelando de manha o Zanaga, o Manaio aventurou:</p>
                <p>— Mas que tem então a gente a fazer?...</p>
                <p>— Dar caça sem tréguas, caça de morte ao burguês! — exclamou o belga. — Enquanto
                    não podemos submetê-lo socialmente, abatê-lo pelo terror, desnorteá-lo pela
                    desordem, semear de roda dele a assolação, perturbando-lhe as digestões,
                    espatifando-lhe interesses, afeições, família... alcançando-o no coração e
                    retalhando-lhe a alma! — E outra vez em voz baixa, dobrado ao ouvido de cada um,
                    sinistramente: — O que tendes a fazer?... O mesmo que fez Ravachol em Paris!
                    Tendes que repetir, que renovar aqui essa campanha fecunda e benemérita!</p>
                <p>A esta intimação formal, a este concludente programa de extermínio, uma boa parte
                    da assembleia, intimidada; deslaçava novamente intervalos, desviava
                    timoratamente os olhos. Porém ele sem os deixar, perentório e duro,
                    apostrofou:</p>
                <p>— É um pouco desagradável, arriscado, sanguinário, isso é... mas é o caminho!</p>
                <p>— E começar quanto antes! — reforçou imperioso o Mateus.</p>
                <p>— Mas vamos a ver primeiro, — disse o belga, — se estais preparados? Quais são os
                    vossos meios de ação?... — Como ninguém lhe respondesse: — Estou a ver...
                    nenhuns!</p>
                <p>Baixara o Mateus a cabeça, embaraçado. Bazeleerts perguntou-lhe:</p>
                <p>— Estais organizados em grupos secretos?</p>
                <p>— Ainda não...</p>
                <p>— Tendes centros permanentes de reunião, de propaganda?</p>
                <p>O Mateus, cada vez mais confuso, abanou negativamente a cabeça; e com douta
                    vivacidade o outro, cambiando um sorriso de desdém com o italiano:.</p>
                <p>— Pois haveis de começar por aí... aliás todo o mais trabalho é perdido! Que nós
                    devemos ser contra todo o sistema de agrupamento, contra toda e qualquer
                    organização em comum. Tudo individual, tudo espontâneo, bem se sabe, é o nosso
                    ideal, é a nossa divisa. Mas agora, na transição, para manobrar, não temos
                    remédio senão socorrer-nos ás fórmulas em uso. — E batendo no ombro do Mateus,
                    com suasivo conselho: — Ande-me! É dividir a cidade por zonas, organizar centros
                    sistemáticos de propaganda, com gente de decisão e fé, rigorosamente
                    escolhida... depois ligar os proletários daqui com os de oeste e alongar a
                    rede... em suma, tecer na profundidade e na sombra, prestes a colher toda essa
                    sociedade de insignes pusilânimes, uma teia tão solida e miudamente urdida que
                    por ela não escape nem um!</p>
                <p>— <seg rend="italic">E por il resto qua sono io</seg>! — exclamou agora
                    finalmente, com espanto geral, o italiano, incendido o seu rosto patibular por
                    um relâmpago de prazer maligno.</p>
                <p>— Pro resto, — reforçou com expressão singular Bazeleerts, — esperem um
                    momento... Eu já lhes vou dar que fazer!</p>
                <p>Num pronto foi até junto da sua cama, direito a uma das malas, toda protegida por
                    um revestimento zincado e largamente chapeada, da qual abriu um fundo falso e
                    extraiu dele seis pequenos cilindros, também metálicos, que veio misteriosamente
                    plantar sobre a mesa.</p>
                <p>— Pro resto aqui tendes! — aclarava ele perversamente, com intimativa ruim,
                    cravando nos circunstantes, um a um, os pequeninos olhos fosforando ameaças. —
                    Estão cheios com dinamite, já têm a mecha no seu lugar... Põem-se onde se quiser
                    e depois é largar-lhes fogo. A mecha dá mais que tempo para gente se
                    safar...</p>
                <p>De roda da mesa agora o grupo, interessado e ardente, apertara ainda mais.
                    Atropeladamente avançavam e emergiam de ímpeto umas sobre as outras, emaranhadas
                    e lívidas como as copas de uma grande floresta, pela noite, aquelas dezenas de
                    cabeças tresvariadas. E simultâneos todos os olhos se fixavam, hiperémicos e
                    pávidos, nesses pequeninos cilindros lambuzados de negro, com a mecha branca de
                    algodão radicando do eixo e pendente, como uma torcida. Neste grave e inesperado
                    momento todos consideravam com sofreguidão, mesclada de terror, num sentimento
                    que era um misto de fascinação e repulsa, de querença e de medo, esses
                    convidativos instrumentos de morte que a providencial alucinação de um homem
                    lhes oferecia, e a cuja decisiva manobra eles se tinham afinal comprometido... O
                    Serafim, que estava sentado à mesa, avançou a mão hesitante e tomou num vago
                    receio um dos cilindros, que logo largou, desconfiado.</p>
                <p>O que fez com que o belga com violência lhe exprobrasse:</p>
                <p>— <seg rend="italic">Tenes ferme, coquin</seg>!</p>
                <p>— Vê se te escaldas, ó coisa! — assobiou-lhe também o Cavalinho-mosca. E
                    escarninho para a malta: — Quem quer passaporte barato para o outro mundo!</p>
                <p>Mas já, forte e incansável sempre na sua catequese de aniquilação ao transe,
                    tornava o contumaz anarquista a insistir no seu plano: — que tinham aqui em
                    Lisboa todas as condições para uma completa e segura réussite; era desnortearem,
                    apavorarem bem primeiro a cidade, e depois atacarem-na em massa, que disporiam
                    dela ao seu bel-prazer... seriam os senhores, teriam o que quisessem!</p>
                <p>— E por el resto io! — disse ferozmente o italiano.</p>
                <p>Mas descoroçoada a roda dos conjurados, timoratamente, enviesando os olhos,
                    acuava.</p>
                <p>— Se a dinamite vos intimida por nunca haverdes trabalhado com ela, — voltava, a
                    contraminar-lhes a indecisão, o belga implacável, — se estes simples aparelhos,
                    cujo interior não conheceis, não vos merecem confiança, o remédio é fácil!
                    Arranjais vós mesmos outros por vossas próprias mãos. Assim...</p>
                <p>£ no mesmo instante o italiano sacava de entre a camisola e o peito a sua caixa
                    de sardinha, e projetando-a ruidosamente, num sanguinário regalo, sobre a mesa,
                    passava a abri-la e a explicar, sempre mediante a interpretação do Mateus, o
                    funcionamento dela, o modo de a construir e carregar, a sua estrutura e o seu
                    uso. — Dois líquidos, ou um solido e um líquido, cuja mistura na ocasião do
                    choque deflagrasse, alojavam-se nas duas metades do tubo; depois este tornava ao
                    seu lugar, atochava-se à volta com pregos; em seguida a tampa... tudo bem ligado
                    com arame, por cima barbante alcatroado, ou pês e enxofre... e não tinha mais, —
                    era só largar!</p>
                <p>A sessão havia tomado assim uma feição carniceira e odienta que repugnava a uma
                    parte da assembleia. Cheirava-lhes a sangueira e a carne derretida... já não
                    estavam bem ali! perante os seus alarmados corações, perante as suas sensitivas
                    almas, formadas na serenidade e na obediência, o grosso e imperioso belga
                    revestia o aspeto de um carrasco, o italiano era positivamente um demónio. Por
                    forma que, enquanto este viperinamente se comprazia na sua letal explicação, uns
                    coçavam, num embaraço, a cabeça, outros foram à formiga demandando a porta, e
                    entre estes o primeiro, o comedido contraditor do Azinhal. E foi como
                    gradualmente começou a definir-se a debandada. O João, plantado junto da saída,
                    regalava cada um com o seu copito de aguardente, e nos intervalos da dadivosa
                    oferenda despedia compassivos olhares de lástima para os belos rótulos da sua
                    bateria de garrafas multicores, cujos oiros ia azebrando a péssima estearina a
                    escorrer abundante dos gargalos.</p>
                <p>Quando finalmente, num começo já de cansaço, se viram sós os dois estrangeiros,
                    Bazeleerts abriu, para renovar o ar, amplas as duas janelas que davam sobre a
                    rua; seguiu ainda um momento, vagamente, os vultos dos últimos conspiradores a
                    sumirem-se na linha sinuosa e mortal dos prédios adormecidos, e patinhando
                    apressados sob a chuva miudinha que caía; depois, passando a guardar de novo na
                    mala os cilindros de dinamite, que tinham ficado completos e intatos sobre a
                    mesa, disse num complacente desdém para o companheiro:</p>
                <p>— <seg rend="italic">Oh, les portugais! Assurêment ils ne sont pas</seg>...
                    pratiques.</p>
                <p>E, desprezivelmente também, enfiando na cama, o italiano:</p>
                <p>— <seg rend="italic">Io non ritorneró qui!</seg></p>
            </div>
            <div>
                <head>CAPÍTULO XIV</head>
                <p>As inéditas impressões daquela noite acenderam na hipertonia cerebral do Mateus
                    uma excitação estranha. Voluntariamente cego na obstinação afogueante do seu
                    desejo, tomava à letra as instruções de extermínio de Bazeleerts, como se já
                    tivesse a sua implacável execução assegurada; como se a mais que duvidosa
                    decisão e coragem dos seus cúmplices não fora antes ao cabal cumprimento do
                    programa uma bom medíocre garantia... Vibrando ao calor obsidiante do cuidado,
                    em toda a noite não dormiu. Debatia apreensivo em todos os seus variados aspetos
                    o problema; e primeiro agitando-se, de pé, depois sentado junto à mesa, depois,
                    finalmente, deitado, traçava um alucinado dédalo de combinações, que agora na
                    solidão e na sombra, tomando vida, cabritando em convulsas espirais, fustigavam
                    a treva com os seus cancans de pesadelo; concertava, pertinaz e afinque, os
                    meios de vir a conglobar e a comandar no mesmo libertário plano toda a população
                    proletária da cidade.</p>
                <p>No dia seguinte, a mesma insistente e fundamentai preocupação. Tomado o ponto na
                    fábrica, foi almoçar com os dois estrangeiros. E então, na mais absoluta
                    intimidade e confiança, conversaram longamente ; então a cada momento, indignado
                    e contumazmente crédulo, o Mateus respondia ás restrições pessimistas do belga
                    com entusiásticos penhores de firme esperança na sua gente, que faziam ao
                    italiano encolher farcistamente os ombros. Por fim, chegaram a apostar. No que
                    do arrebatamento, o Mateus comprometeu-se a que alguma coisa havia de fazer, ele
                    e os seus... coisa que desse brado no mundo! — e com veemência jurou que nessa
                    empresa sacrossanta empenharia a vida.</p>
                <p>Quando à tardinha, de volta da estação, onde fora despedi-los, regressava ao
                    Almargem pela estrada enterrada de Marvila, pareceu-lhe de repente distinguir,
                    na penumbra crepuscular dos altos muros, e postado, como uma suspeitosa vedeta,
                    mesmo à esquina da azinhaga da Bruxa, um indeciso vulto negro. — Movido por uma
                    natural estranheza, mas tranquilo e sem o menor sobressalto, afirmou-se. Não
                    havia duvida... e era um homem. — Quando mais próximo, reconheceu nele o
                    Lourenço, fiandeiro, que ele há dias despedira da fábrica; o que o fez pôr-se
                    instintivamente em guarda.</p>
                <p>O Lourenço, no momento em que o contramestre lhe passava à ilharga, rosnou com
                    altivez, sem se descobrir:</p>
                <p>— Boa noite.</p>
                <p>— Ah, és tu?... — respondeu o Mateus, que tinha feito alto, mirando com fixidez o
                    interlocutor, de mão em pala diante dos olhos. E reatando logo a andar, num
                    despejado ar de desprezo: — Adeus!</p>
                <p>Porém o Lourenço correu, com modo gingão, a tomar-lhe o passo:</p>
                <p>— Ó Sr. Mateus, faz favor... — E como inflexivelmente o contramestre fizesse
                    menção de afastar-se: — Não, o senhor há de me dar atenção!</p>
                <p>— O que é que tu queres? — volveu com sobranceria, tornando a parar, o
                    interpelado.</p>
                <p>Então o Lourenço arrastou, de olhos à terra e bolinando o busto, num vago regougo
                    de ameaça:</p>
                <p>— Eu queria saber quando é que o senhor me emprega?...</p>
                <p>— Tu estás doido!</p>
                <p>— Quando me admite outra vez?</p>
                <p>— Nunca mais, já sabes... Devias-me conhecer.</p>
                <p>— Faz-me diferença...</p>
                <p>— Também ao rendimento da fábrica faz diferença manter madraços como tu! — As
                    mãos do fiandeiro encolheram-se numa crispação de raiva; o Mateus rematou com
                    decisão: — Não penses mais em tal! Nem lá tinhas lugar.</p>
                <p>— É uma coisa muito mal determinada.</p>
                <p>— A outra porta!</p>
                <p>— Ó Sr. Mateus, veja bem...</p>
                <p>— E ainda eu te não dei o castigo completo... A tua mulher, tua mãe continuam lá.
                    Essas não têm culpa...</p>
                <p>E sem mais atenção ao importuno demandante, já de novo o Mateus retomava o
                    caminho. Mas num importuno ímpeto o Lourenço saltou-lhe à frente; e desta vez
                    com intenção hostil manifesta, metendo a mão ao bolso:</p>
                <p>— O senhor tem obrigação de me empregar!</p>
                <p>— Obrigação! O que é lá isso?... — exclamou com energia o contramestre. E tirando
                    também do bolso um pequeno revólver, apontou-o num relance ao Lourenço,
                    eloquente argumento de reforço a esta sumaria intimação: — Roda-me já daí! Se
                    não queres que te faça saltar os miolos. — Depois, quando viu o atrevido
                    afastar-se, furtando e dobrando o corpo, os braços pendentes e a orelha cobarde,
                    como um podengo: — Ora o traste!</p>
                <p>E perante a pávida imobilidade do outro, o Mateus, forrando a arma, continuou
                    então, no mesmo passo resoluto e firme, o seu caminho.</p>
                <p>Mas também, um quarto de hora depois, quando o velho Tobias das mules passava, em
                    demanda de casa, no mesmo sítio, foi súbito prostrado por uma cacetada que lhe
                    ia custando a vida.</p>
                <p>Dois moinas que por acaso, horas depois, passavam pelo local, topando à esquina
                    da azinhaga com aquele obstáculo mole e inerte, agacharam-se logo, muito
                    interessados, fariscando sensacionalmente um crime. E reconhecendo então com
                    espanto o inanimado velho, ergueram-no e levaram-no em braços para o pátio do
                    Picadeiro, a casa. Divulgado o caso no dia seguinte, ninguém para ele achava
                    bastante explicação; e instintivamente caíam sobre o Lourenço unanimes as
                    suspeitas. Suspeitas que com intimativa o Mateus confirmou, mesmo sem contar o
                    episódio passado com ele.</p>
                <p>Mas nem mais o contramestre pensou em tal. Em breve este incidente mínimo se
                    perdeu no apreensivo caos de graves preocupações que lhe baralhavam o espirito.
                    Todo o seu empenho era agora promover uma grande reunião operária, espécie de
                    plebiscitário congresso que na mesma acorde resolução confederasse, bravos até
                    ao heroísmo, até a morte, os proletários de Alcântara com os de Xabregas. Eram
                    os dois pólos extremos da corrente, os dois grandes braços de alavanca. Entre
                    eles seria fácil depois comocionar e envolver nó mesmo amplexo de fogo toda a
                    cidade. E estava no propósito de alargar desta vez os convites. Teria toda a
                    latitude compatível com a importância excecional da causa este magno concílio de
                    burlados da sorte, de cismáticos da fortuna. E para isso ia trabalhar, quase sem
                    precaução, sem rebuço. Á impetuosidade natural do seu animo juntava-se agora a
                    impunidade, o êxito da conferencia com os dois estrangeiros, a fazer-lhe
                    acreditar que dispunha de uma relativa segurança em manobrar, como se qualquer
                    providencial proteção invisivelmente favoniasse a sua obra.</p>
                <p>O local naturalmente indicado para a celebração dessa grande liga libertaria era
                    o palácio do Piuza. Estava para o efeito talhado, por tradição e por
                    conveniência; pela sua prestigiosa lenda revolucionaria, passante de meio
                    seculo, e pela vantagem da sua situação topográfica, na aresta terminal de um
                    bairro, posto um pouco a recato.</p>
                <p>Ora o proprietário do velho casarão e quinta anexa era ao tempo o dono também de
                    uma grande fábrica de fundição, sita ao longo do boqueirão dos Ferreiros, ao
                    Aterro. — Vá de ir falar com ele. — Tomou logo de manhã o americano, apeou ao
                    Conde Barão e enfiou pela ruela em frente, direito a uma extensa e maciça
                    construção cinzenta, espécie de caserna alternamente vazada em portas e frestas
                    gradeadas, deixando ver o seu opressivo interior de negra nave sussurrante,
                    roncando em estalidos secos de metais, sopros ciclópicos de forjas, arranhões de
                    engrenagens e atagantados silvos de correias.</p>
                <p/>
                <p>O Mateus entrou, saudado afavelmente, desde a porta, pelos operários, todos seus
                    velhos conhecidos; e com estranheza viu logo, próximo da entrada, a figurinha
                    miúda e ardente do seu amigo Anacoreta, todo dobrado sobre uma banca onde um
                    operário, calvo e de óculos, lhe limava com carinho um pequena peça
                    reluzente.</p>
                <p>— Ô Anacoreta! Que fazes tu aqui?... — disse logo alto o Mateus, aproximando-se e
                    batendo-lhe no ombro, com um sorriso de piedosa ironia.</p>
                <p>Na surpresa da colhida, o herpetismo espirrante do Anacoreta ganhou uma
                    congestiva cor violácea, enquanto ele, desconcertado e gago, titubeava:</p>
                <p>— Sabes?... A ver se me arranjam uma espécie de grampo de ferro doce, cá com
                    certo feitio... olha... coisa muito especial.</p>
                <p>— Então lá o meu homem não te serve?</p>
                <p>— Esse tem ao seu cargo outra coisa. É ótimo! Deixa-me cá...</p>
                <p>E novamente todo curvo, de pernas penduradas, junto à mesa, voltava o homem do
                    moto-contínuo à absorvente objetivação da sua ideia.</p>
                <p>Implacavelmente porém, o Mateus disse:</p>
                <p>— Olha lá... e então a espoleta que me prometeste?</p>
                <p>— Diabo! — arrastou o Anacoreta, coçando a cabeça, contrariado. — Já lá tenho uma
                    coisa... ainda não pensei bem...</p>
                <p>— É que eu tenho pressa, vê lá!</p>
                <p>— Pois sim, filho... Agora não, bem vês... Vamos a, ver!</p>
                <p>Daí a instantes o Mateus, tendo galgado os degraus metálicos de uma escadita em
                    hélice, que enroscava entre dois colunelos, a meio da casa, defrontava-se no
                    piso superior com o homem que procurava. Era este, por exceção, uma alma
                    justiceira e ardente como a sua. Por isso, muito bem recebido, informou-se
                    miudamente do plano do contramestre, indagou dos seus projetos futuros, enumerou
                    e tomou nota dos elementos com que contava; por fim, eletrizado pela narrativa
                    da conferência com os da Internacional, agastou-se por não o terem convidado nem
                    que desconfiassem dele! E, por completo subjugado, perguntou-lhe então — a que é
                    que vinha? O que queria?... Alguma recomendação, colocação ali, trabalho
                    extraordinário do pessoal, casa, dinheiro?... Quando soube do que se tratava,
                    anuiu logo, muito pronto — que sim! Era só avisa-lo de antemão, para dispor as
                    coisas. Que ele podia-lhes arranjar um magnífico ponto de reunião, na grande
                    cava abobadada que a casa tinha, lá mesmo ao fundo, deitando para o jardim. Mas
                    precisava saber a tempo o dia... para mandar fazer limpeza, pôr bancos e
                    cadeiras, dispor a iluminação, coisa que lá não havia... e mais, estava
                    entendido, algumas bebidas. Conspiração sem vinho era o mesmo que um corpo sem
                    alma. — E com prazenteira vivacidade, gesticulando e rindo muito, acompanhava
                    até ao topo da escada o Mateus, cingido em repetidos abraços, acarinhando-o
                    incessante com o convicto epiteto de «benemérito».</p>
                <p>Saiu pois o contramestre dali, doido de contente, leve da mais promissora
                    alegria, como que erguido nas azas do mais seguro entusiasmo. — A vitória era
                    certa... tudo ás mil maravilhas! — E tomou à rua com uma arrogância de
                    triunfador, liberalizando olhos protetores à multidão, firme o altivo como um
                    tirano pisando país conquistado. E, na disposição de ir logo pessoalmente
                    reconhecer o local, tomou pela calçada do Marquês de Abrantes e Santos, em
                    direção a Alcântara. — Foi quando, próximo ao quartel dos marinheiros, ouviu de
                    repente estentorinar, fioriturado e largo pelo espaço, um pregão muito seu
                    conhecido. Era, com efeito, o Tranca-ruas que avançava do lado da ponte, — esse
                    valente e indomável agitador, o mais popular, o mais querido revolucionário e
                    filosofo da redondeza. F vinha pensando vagamente o Mateus em falar-lhe... pelo
                    visto, estava com sorte: ali o tinha!</p>
                <p>Fez logo próximo o passo do vendilhão, que galhardo seguia ao lado do seu burrito
                    rosilho, sacudindo os seirões da hortaliça com donaire, um farfalhudo cravo de
                    papel na testeira, alternamente arrebitadas as orelhas buliçosas, e arregaçando
                    as patitas com orgulho, como que na jatanciosa demonstração de pertencer a
                    pessoa de tão reconhecida importância quase que a saloia renovação do asinino
                    milagre de Balaan... E a cada momento o dono, empavesado e cómico, parava, e com
                    a mão em repouso na aba de um dos seirões respondia ao questionário
                    coscuvilheiro das pessoas de acaso que o assediavam. — De altura menos que meã,
                    sardento e ruivo, matacões, a maxila contumaz, olhos piscos de tunante, as
                    pernas zambras, usava um grande chapéu de feltro breado em sebo, a aba posterior
                    em mochila sobre a nuca, e na sua invariável jaqueta de fustão azul alforjavam
                    descomunalmente as algibeiras, atafulhadas sempre de jornais. Lia-os todos, por
                    entre a atroadora mimica do pregão, cantando e andando. Lia e comentava
                    dogmaticamente, como um catequista, à sua inúmera clientela de adeptos, à corte
                    adventícia de fiéis que onde quer que fosse lhe faziam roda. Ele tinha mesmo
                    passagens certas, invariáveis pontos de convocação para esta espécie de
                    freguesia. Nem o mais abundoso curandeiro de praça. Um dos seus prediletos
                    centros de prédica era na Junqueira, em frente à Cordoaria. Aí estacionava o
                    grosso Mirabeau, basto tempo, cada manhã; aí à embaralhada turba dos rôtos
                    vinham misturar-se alarvemente as praças do depósito do Ultramar, os calafates e
                    os marítimos; chegavam a apeirar-se dos cavalos as ordenanças.</p>
                <p>Tinha o Tranca-ruas um filho, hortaliceiro também, que se ocupava por igual em
                    arrastar o negócio regulando o chouto do seu jumento. Pois em dias de ocorrência
                    de sensação, quando o hiperbólico desfiar de algum crime alastrava ao desafio
                    pelas colunas dos jornais, vinham então os dois, juntos, para a rua. Para que o
                    pai podasse parlendar mais à vontade, ia o filho adiante com os animais. Um
                    tocava os burros, o outro burlava os tolos. Diferençava-se apenas no número dos
                    pés esta especialização de funções, no fundo idênticas. Uma simples questão
                    anatómica de quebrados, de que os dois eram o denominador comum.</p>
                <p>Quando chegou junto dele, o contramestre exclamou :</p>
                <p>— Adeus, Tranca-ruas!</p>
                <p>— Viva o mestre Mateus! Então por cá?...</p>
                <p>— Ainda bem que te encontro!</p>
                <p>— Então?... — fez com interesse o homúnculo, arregalando os olhos; e logo para o
                    burro, num imperioso puxão da arreata: — Xó aí, Galante!</p>
                <p>O Mateus aclarou convidativamente:</p>
                <p>— Temos assunto importante em que falar...</p>
                <p>— Sim?...</p>
                <p>— Coisa de costa acima, olé!</p>
                <p>— Mas o que vêm a ser?...</p>
                <p>— Aquelas nossas antigas conversas, lembraste?</p>
                <p>— O quê!? A coisa agora vai?... — atacou com avidez o rúbido filósofo.</p>
                <p>— Vai, homem! Ouve... — E o Mateus chegava-se, muito cingido, ao hortaliceiro, a
                    segredar : — Vamos reunir aqui assim todos os da seita, sabes?</p>
                <p>— Bom! Bom!</p>
                <p>— Os de cá com os de lá... Alcântara e Xabregas, Esperança e Mouraria!</p>
                <p>— Ah, por isso... — observou o Tranca-ruas, com olhos de entusiasmo. E numa
                    sublinha misteriosa, tirando um jornal da algibeira: — Diz hoje aqui o Seculo,
                    quer ver?... «Há dias que se nota uma certa atividade e febre de reunião na
                    nossa população operaria, mormente na parte oriental da cidade.»</p>
                <p>— Diabo, isso é uma inconveniência! — exclamou de salto, num repelão de
                    contrariedade, o Mateus.</p>
                <p>— Ainda traz mais... — aclarou o vendilhão; e seguiu a ler: — «A polícia parece
                    andar alarmada com o caso; mas a verdade é que os proletários estão no seu
                    direito de se reunirem, desde o momento em que não ofendam a ordem. Nada tem com
                    isso a polícia.»</p>
                <p>— Essa coisa faz-nos mal... — disse o Mateus, apreensivo.</p>
                <p>— É o que cá está!</p>
                <p>— Veem com tudo pros jornais!</p>
                <p>— Se calhar foi algum Judas... — comentou numa osga de rancor e guardando o
                    jornal, o Tranca-ruas.</p>
                <p>— Em suma, — disse o Mateus com decisão, como quem acorda de um sonho, — seja o
                    que for... toma sentido! Reunimos muito breve, aqui ao pé, no Piuza.</p>
                <p>— Mas quando, quando?</p>
                <p>— Logo que eu tenha as coisas convenientemente preparadas.</p>
                <p>— Ande-me ligeiro, mestre!</p>
                <p>— Agora o que eu quero é que, entretanto, tu vás espalhando a ideia... bem sabes
                    por quem e como... — Aprumado de importância, o vendilhão abanava a cabeça
                    jubilosa. — Corre a nossa roda antiga, faz-lhes bem compreender a
                    indispensabilidade, a decisiva importância desta reunião, esperta os amigos,
                    atira-os cá pro movimento, anda!</p>
                <p>— Não há de haver duvida!</p>
                <p>— E aparece-me lá por Marvila.</p>
                <p>— Está direito, mestre! Está entendido. Adeus! — Deu a mão ao contramestre, e
                    prazenteiro, para o burro: — Vá a ver, Galante!</p>
                <p>O burrito, encabritando com graça, alçou a garupa e partiu; enquanto atrás dele o
                    dono, familiarmente, atirava aos quintos andares o seu pregão, rasgada a boca
                    até aos côndilos e apoiada a mão em concha junto à orelha…</p>
                <p>Tendo reconhecido astutamente o terreno, o Mateus voltou a Marvila, onde começou
                    logo pela sua gente afervorando adesões e distribuindo convites. Cerca da noite,
                    ao retirar, calçada do Grilo abaixo, direito a casa, sentiu que alguém lhe
                    vinha, em passo difícil mas progressivamente acelerado, procurando alcançar a
                    peugada. Voltou-se e viu então, já muito perto, a rotundidade descomunal do
                    Silvério, como um grande rochedo errático, rolando em peso pela ladeira.</p>
                <p>— Ó Silvério! Você quer-me alguma coisa?</p>
                <p>— É verdade que sim, Sr. Mateus, desculpará... — balbuciou o gordo,
                    adiantando-se, muito humilde, todo calcado em zumbaias repetidas.</p>
                <p>— Estou ás ordens, — aquiesceu afável o Mateus; e vendo que o outro não se
                    animava a falar: — Então, homem, diga lá!</p>
                <p>Adiantou o Silvério mais um passo, e hipocritamente, movendo os olhitos de
                    camaleão numa indecisão cobarde:</p>
                <p>— É que eu... sim... tenho ouvido para aí umas coisas... diz que a gente agora
                    pro Santo António vamos espatifar esta caranguejola, ajustar contas com os
                    grandes...</p>
                <p>— E é verdade!</p>
                <p>— E vai todos estão no segredo da manobra, todos têm papel distribuído...</p>
                <p>— Todos, não.</p>
                <p>— Só de mim ainda ninguém se lembrou! E eu, com a breca! Sim... eu mereço bem...
                    creio que o tenho mostrado... não esperava semelhante ofensa. Sou caraçudo,
                    leal... e então, Sr. Mateus, queria também... Sou tanto comos mais!</p>
                <p>— Vale mais que muitos.</p>
                <p>— Obrigado! São favores...</p>
                <p>— Pois isso, para o aproveitar ainda não é tarde, — disse o Mateus, com tão
                    patente sinceridade que pelo pérfido lábio do Silvério correu um sorriso
                    indefinível. — Daqui a dias vamos entrar num período de implacável, de rasgada e
                    decisiva atividade. — Uma insalubre avidez pregava agora, muito fitos no
                    contramestre do insidioso Silvério os olhos. — E então veremos... na grande
                    reunião que havemos de ter, no pátio do Piuza.</p>
                <p>— E como hei de eu ir?</p>
                <p>— A entrada há de ser por senhas. Conte você com uma, pois então! Adeus!</p>
                <p>E, rapidamente, o Mateus tomou calçada abaixo; ao passo que o Silvério, com a
                    expressão radiante, estacado uns minutos no mesmo lugar por um jubilo perverso,
                    era súbito assaltado por uma impetuosa vara de cevados, que ao retirarem,
                    enxurdeiros e grunhões, do mercado pela rua acima, com as recurvas presas
                    brutamente aproando sob a faceira pendente, trombejavam com furor,
                    indistintamente, a um e outro lado, a termos quase de derrubarem, esporeando-lhe
                    os artelhos, erguendo-o pelo abdómen, o solitário, e tredo conspirador.</p>
                <p>O velho palácio, pátio e quinta do Fiúza já não apresentava, ao tempo, mais que
                    uns ténues vestígios da feição e traça primitiva. Ninguém agora, ao divisar,
                    passada a rua do Livramento, à direita, aquele prédio banal e formidável, com o
                    uniforme tom granada da sua frente monotonamente regrado, em cinco fiadas, por
                    comedidos retângulos de cantaria lavrada, ninguém seria capaz de suspeitar
                    quanto fora singularmente expressiva e diversa a sua fisionomia anterior;
                    ninguém imaginaria que intensas crises de luta, que agitados períodos de
                    revolucionário alento aquele discreto e inexpressivo reboco mascarava. Apenas no
                    extremo da extensa fachada lateral pelo lado norte, e prolongando-lhe
                    posteriormente a base, cambava para o exterior um escasso trecho, desaprumado e
                    bolorento, de velha muralha entaliscada em alvenarias recentes, com a sua remota
                    origem pitorescamente atestada na uniforme cor de sépia, no terroso aglomerado
                    de concreções que eram como que a patine do abandono, os herpes da ruina. E,
                    continuando-a ainda no mesmo sentido, seguia um grande espaço retangular, vazio
                    de construções, cingido, como um cemitério, em muros brancos, o qual participava
                    de um carater hibrido, simultaneamente horta e vergel, parte alqueivado e regado
                    com esmero, parte guardando o seu talhe hierático de jardim, moldado em grossos
                    paredões de buxo, maciçamente esquadrados segundo o classicismo frio e simétrico
                    da arte do primeiro Império, circunscrevendo cascatas, fontes sem água, e
                    náiades sem cabeça. E esta sua gélida imobilidade intimidava, entanguia os
                    espíritos, derramando de roda desse fúnebre perímetro o retraimento e a solidão.
                    Uma aura misteriosa de desconfiança e terror envolvia aquela abominada estancia.
                    Instintivamente a multidão evitava o lúgubre recinto, a que andavam ligadas
                    funestas e azarentas tradições.</p>
                <p>Certo é que o palácio do Fiúza tinha sobejos foros para arrogar-se a glória de
                    haver sido por excelência o solar do moderno movimento revolucionário em
                    Portugal. Ali se fundara e instalara, e ali funcionou, desde 1858, durante
                    muitos anos de seguida, a ASSOCIAÇÃO FRATERNAL DOS FABRICANTES DE TECIDOS E
                    ARTES CORRELATIVAS, uma das primeiras cooperativas nacionais, ao depois
                    convertida num centro de agitação dos mais ousados e mais fecundos. Ali
                    celebravam as suas clandestinas sessões várias lojas maçónicas. Ali passaram de
                    preferência a reunir, a contar de 1876, todos os conciliábulos de conspiradores,
                    todas as fenianas ligas de resistência contra os poderes constituídos,
                    presididas e insufladas as mais delas por Carrilho Videira. E de bem sérios e
                    rijos conflitos rezava a lenda, valentemente batidos na sigilosa impunidade
                    daquelas paredes misteriosas. Corria até que não se tinham limitado a meras
                    controvérsias verbais, mais ou menos violentas mas no fundo inofensivas, esses
                    surdos e rígidos combates. Pelo contrário, o travamento homérico das opiniões
                    algumas vezes ali tivera por epílogo o beijo trágico da morte.</p>
                <p>Quando este revolucionário e ingénuo industrial, amigo e confidente do Mateus,
                    entrou na posse do palácio, a antecipada sugestão desses boatos novelescos fê-lo
                    atentar n um corte que havia, feito no buxo, a poucos passos do caramanchão,
                    quase ao fundo do jardim. Não era, evidentemente, uma falha devida a qualquer
                    estiolamento eventual na vegetação, mas uma incisão traumática e artificial,
                    feita muito deliberadamente. Valia a pena investigar... E foi quando, tendo
                    mandado cavar no suspeitoso espaço, donde o raizame do buxo havia totalmente
                    desaparecido, foram descobertas, logo a pequena profundidade, duas ossadas
                    humanas. Corria boato entre o proletariado de Alcântara serem esses talvez os
                    restos das duas incautas vítimas que em tempo tinham sido assassinadas no
                    caramanchão e sumariamente enterradas ali. Que casta de homens?... Boquejava o
                    povo — que dois esbirros do governo, aquele laço de morte atraídos por vingança.
                    O Tranca-ruas porém teimava que tinha sido castigo imposto a dois traidores. — E
                    o caso foi que a macabra descoberta, a qual teria sem dúvida feito avergar de
                    apreensivo terror um homem mais envolvido no travamento burguês dos negócios,
                    mais prático e mais prudente, a este não serviu senão para estimula-lo, para
                    soprar o seu libertário furor de energias novas. Porque tomou o funéreo achado,
                    não como um agoiro, mas como um providencial e incitador aviso, como o símbolo,
                    que o acaso imperiosamente lhe fornecia, do carater da sua missão e do batismo
                    cruento do seu destino.</p>
                <p>Por isso, foi com o mais bravo e confiante entusiasmo que ele acolheu a proposta
                    do Mateus, pondo-se incondicionalmente ao seu dispor.</p>
                <p>Em a noite aprazada para essa magna conjura, logo ao acender dos candeeiros nas
                    ruas tudo estava a postos. O dono do prédio passara nele incansavelmente todo o
                    dia, a dispor e a regular as coisas. Dirigiram o Ventura e o Fagulha a
                    organização do serviço de segurança. Um cordão de escolhidos esculcas se
                    desdobrava desde a ponte de Alcântara até ao pátio, a intervalos cerrados; e uma
                    outra linha análoga vinha convergir no mesmo lugar, trazida desde a Junqueira.
                    Depois, no cómodo favor da noite, por várias ruas e travessas ao mesmo tempo, os
                    convidados vinham chegando; mostravam a senha de admissão a quantas vedetas lho
                    exigiam; e lá seguiam sem obstáculo ao longo do vigilante escalão e entravam. —
                    Para mais, nem um só polícia nas imediações. Mesmo a propósito... tudo
                    ajudava.</p>
                <p>Assim sucedeu que, não obstante ser excecionalmente concorrida a reunião, e não
                    se conhecerem nem de vista uma grande parte dos sócios neste secreto
                    conciliábulo, todos se mostravam no entanto seguros de si, expansivos,
                    contentes. Corria pelos grupos um ar de simpática confiança que facilitou as
                    resoluções, aproximando as vontades. Viam-se ali, numa cordial promiscuidade
                    indistintamente baralhados, os mais prestigiosos chefes socialistas, e
                    representantes das classes dos torneiros, serralheiros, fundidores, tipógrafos,
                    litógrafos, canteiros, jardineiros, tanoeiros, mecânicos em madeira,
                    calceteiros, marceneiros, sapateiros, tecelões, condutores de carroças,
                    cocheiros, cigarreiros, manipuladores de farinha, refinadores de assucar,
                    corticeiros, oleiros, carpinteiros de carros, pintores, carregadores,
                    fabricantes de carruagens, latoeiros, varinos e outros mais. Eram todos os
                    baixos misteres e profissões. Toda a miuçalha, toda a escória. Todos, menos o
                    Silvério, cujo vulto molangueiro não houve meio de distinguir entre os grupos,
                    apesar do seu empenho em obter senha, — conforme notou o Serafim.</p>
                <p>Ora a sessão foi, como bera poucas no género, movimentada e fecunda. Expuseram
                    calorosamente os seus fins o Mateus e o Azinhal, cuja afogueante eloquência
                    também o Zanaga, o Esticado, o Romão, o Tranca-ruas e o Cavalinho-mosca, na
                    vasta sala ao acaso dispersos, pelos grupos parcialmente reforçavam. Em breve,
                    soldava todos esses áridos corações o mesmo anseio irreprimível. Libertários,
                    maçons e socialistas fundiram-se intimamente. Estes puseram à inteira discrição
                    dos primeiros as vantagens da sua acautelada organização, da sua engrenagem
                    estrutural, ao tempo tão disciplinada e tão metódica, com chefes de missão
                    eleitos e comissões paroquiais era toda a cidade, funcionando ativamente. Era
                    assim, quase de improviso, a grande rede subversiva que se lançava, garantindo
                    um formidável poder de propaganda.</p>
                <p>Mas, nesta altura, notou também o Serafim que um individuo crassoso e dúbio, a
                    quem ninguém ali conhecia, um pouco prematuramente, saiu... Mal que o vira na
                    assembleia, tocado por um instintivo rebate de desconfiança, nunca mais o seu
                    olho de porco o tinha largado. Perguntava, mostrava-o a uno, mostrava a outro...
                    ninguém lhe sabia dizer... Agora, quando o viu tomar à porta, foi-lhe inquieto
                    na peugada. Recomendaria fora aos vigias que seguissem, que tomassem de olho o
                    sujeito. — Porém, chegado ao largo, verificou com indignado espanto o tanoeiro
                    que as imprevidentes sentinelas tinham todas desertado! A certa altura da
                    sessão, julgando ainda a menor contingência de perigo por completo arredada, e
                    atraídos ao pique natural do interesse, vieram deixando os seus postos e
                    aproximando-se; por fim tinham entrado também na sala. Os primeiros arrastaram
                    os outros; de sorte que, agora, aquele arriscado empreendimento estava por
                    completo à mercê de uma surpresa. Um aviso a tempo, um golpe de mão ousado por
                    parte da autoridade, e estavam perdidos!</p>
                <p>Deste modo pensava, acobardado, o Serafim, com as mãos frias e o coração a
                    galopar-lhe nas fontes, quando ouviu o indivíduo suspeito, parado a meio do
                    largo, soltar um silvo especial. E logo, com uma presteza de magica, surdindo da
                    sombra e avançando em circulo, ameaçadores o cautos crescendo da imobilidade
                    sepulcral dos prédios, muitos vultos negros.</p>
                <p>Num instante, o tanoeiro arrancou para dentro, e tresvariado, doido, começou a
                    gritar:</p>
                <p>— Rapazes! Num pronto, já... safem-se! Safem-se! Estamos cercados!</p>
                <p>E com efeito. Antes que, na embaralhada precipitação do alarme, tivessem tempo os
                    pávidos confederados, ruindo de tropel, de jorrar para a rua, viram na frente um
                    grosso cordão de polícias, firmes e perfilado o sabre, tapando-lhes as saídas,
                    barricando as esquinas. Num instintivo refluxo de terror, voltam atrás,
                    espalham-se pelo horto, escalam os muros... também aí havia a mesma implacável
                    matilha a cortar-lhes a retirada. A situação era portanto desesperada. Só
                    chocando-se, lutando corpo a corpo, poderiam escapar. O Mateus dá o exemplo.
                    Travam-se braço a braço. Freme na treva e raivoso alastra, arrefecendo o ar, um
                    bravo bater de ferros, um encarniçado e fumante resfolgar que alvorota todo o
                    bairro, que cava súbito um rasto de pânico pela cidade. As blasfémias, as pragas
                    estoiram como bombas, ouvem-se apitos longe. Dois agentes da segurança caem,
                    soltando ais de lástima, segurando as tripas. Um operário que marinhara por uma
                    coluna de candeeiro, atraiçoado pela fragilidade deste supremo refúgio, viera
                    balhar na calçada, horrorosamente queimado.</p>
                <p>Por fim, a tumultuária onda conseguiu quase totalmente sumir-se na infiltração da
                    fuga; e daí a minutos, quando a cavalaria da municipal chegou, apenas havia uma
                    dezena de confederados retidos em mãos da polícia.</p>
            </div>
            <div>
                <head>CAPÍTULO XV</head>
                <p>Entre os fisgados na rusga contavam-se o Esticado, o Adelino e o Romão, qualquer
                    dos três homem de decisão e influencia na sua roda. O Romão, com a sua impulsiva
                    loquacidade e a sua tagarelice incorrigível, gozava de uma grande aura de
                    respeito em todo o vasto formigueiro fabril do Campo Grande. Acercavam-se dele
                    como de um bom deus protetor, escutavam-no com interesse, e a solenidade luzidia
                    do seu crânio iluminava por vezes de um poder de fascinação sobrenatural o
                    báratro de extravagantes ideias que por um admirável instinto assimilara. A voz
                    em falsete do Adelino era um formidável instrumento de sedução também, porque
                    arranhava os nervos, porque, despedida toda em monossilábicas estridências, ora
                    lembrava um lampejante bater de ferros, ora tinha de um sarcasmo demolidor os
                    silvos justiceiros. Igualmente o Esticado era um violento e querido hipnotizador
                    das massas, quando na quente improvisação da sua barbara eloquência as narinas
                    fogosas lhe rufiavam, e uma alta e vingadora febre lhe envidraçava os olhos
                    negros.</p>
                <p>A prisão dos três determinou portanto, no jorro estercoral de lázaros que os
                    seguia, uma funda comoção de rancor, afervorou em todos esses peitos de lama
                    atávicas reações, os seus ímpetos incipientes de revolta. Era o primeiro
                    conflito entre eles e a ordem social estabelecida; a primeira dificuldade séria
                    que ao seu emancipador plano opunha o Estado, em nome do convencional interesse
                    coletivo. E a certeza deste fato, exasperando-os, dava-lhes a envaidecida noção
                    da sua importância, do seu valor, da sua força; despertava-lhes, equivalente à
                    nítida visão do perigo, a candente floração de novas e ignoradas energias. Os
                    presos jaziam, rigorosamente incomunicáveis, no Governo Civil. Constava que,
                    apenas terminados os inquisitoriais interrogatórios a que estavam sendo
                    submetidos, — e dos quais nem uma única palavra transpirava para os jornais, —
                    eles seriam postos à disposição do governo, o que era o vago eufemismo
                    consagrado para designar o seu desterro indefinido. O Mateus andava desolado.
                    Pungia-lhe sinceramente na alma boa e generosa este pródromo fatal de
                    sacrifício, a dura sorte preparada àquela dezena de honestos e limpos
                    trabalhadores, pela imprudente impulsão da sua propaganda. — Inapelavelmente
                    desterrados, votados a uma sumaria supressão para os confins do mundo! Não podia
                    ser!... E isto por aquela forma tumultuária e iniqua... sem defesa, sem o exame
                    sereno dos seus atos, sem corpo de delito, por mera presunção, sem provas! Era
                    espantoso! Antes a forca... Era o cúmulo do cesarismo, da arbitrariedade, da
                    infâmia!</p>
                <p>Foi e procurou, com a cabeça perdida, o Azinhal. perante esta clara e perentória
                    intervenção da força legalizada, os seus teóricos furores, os seus lindos ideais
                    revolucionários sofreram o primeiro estremeção de dúvida. — Estaria ele
                    realmente condenado, ele e todos quantos o seguiam, a irem bater inutilmente de
                    encontro ao imobilismo brônzeo da autoridade, nulos diante do seu querer
                    absoluto, vítimas inofensivas da sua força brutal?... Se o resultado tinha de
                    ser esse, não valia a pena. Mil vidas que ele tivesse, ofertá-las-ia todas de
                    bom grado, heroica, espontaneamente, em holocausto ao bem comum... mas com a sua
                    consoladora isenção arrastar à mesma inevitável necrofagia tantos milhares de
                    entes humanos, já no antecipado convencimento da inutilidade fatal do
                    sacrifício, não lho consentia o coração, não estava no seu ânimo, não era
                    tolerável nem digno, não podia ser! — O Azinhal, ceticamente, com facilidade lhe
                    provou que aquelas prisões tinham sido providenciais; que onde há luta, há
                    vítimas, que a sorte não escolhe; e que, nos campos de batalha, tanto mais
                    ardente é o estímulo, a ralé de vencer por parte daqueles que a morte poupa,
                    quanto mais acrescido se amontoa de roda deles o número dos cada veres. — E o
                    velho estudante tinha razão; porque era agora que, com efeito, o Mateus via como
                    nunca, bravas e impetuosas como as vagas de um mar em fúria, as mais cegas
                    dedicações assediarem-no; era agora que verdadeiramente ele começava a sentir
                    rugir em cachões de ameaça os seguros gérmens de odio que havia semeado. Todos
                    vinham falar-lhe, convulsivamente, em desagravo, em vingança; cada um o incitava
                    a que não esmorecesse, a que andasse para frente... cada um para si reclamava,
                    na próxima e suprema liquidação, o lugar primeiro. E vinha também à ferina
                    indignação dos homens juntar-se o gritado protesto das mulheres. Sublinhavam
                    estas pela sensibilidade o que aqueles reclamavam na vingadora impulsão do seu
                    querer. Todas quantas de repente se viram mergulhadas naquela irremissível
                    viuvez, sem defesa, sem proteção, sem carinho, todas vinham para o meio das
                    companheiras lamuriar as suas vozes de agonia; e mais perdida e mais só do que
                    nenhuma, a pobrezita da Ana, que extenuada e rouca percorria, lavada em
                    lágrimas, a ilha do Grilo e imediações, deblateratido alto a sua desgraça,
                    socavando num aflitivo soluçar o peito, pedindo esmola, com a Idazita, parva e
                    atonita, pela mão e a outra filhita pendente dos tetos dessangrados. E este coro
                    ululante de pragas e lástimas, arrastado e gemido como um pregão de extermínio,
                    quebrando-se em lúgubres plangências na ruina dos prédios encardidos, encapelava
                    de dor o coração das mães, fazia simpaticamente engrossar essa atroadora fúria
                    feminina.</p>
                <p>Em meio de toda esta agitação, uma ignominiosa interrogação se formulava. —
                    Evidentemente, tinha havido um traidor: quem fora ele?... Era indispensável
                    descobri-lo, para sua completa escarmenta, para a reabilitação e o sossego dos
                    demais. Mas quem teria sido?... — Então começou a esfriar aquela sórdida
                    sociedade, deslaçando-a, ameaçando desorganiza-la, um vento incómodo de
                    desconfiança. Entre os nomes apontados à odienta suspeição de cada um, o que
                    maior número de opiniões colhia era o do Lourenço, do Almargem. várias
                    circunstancias, todas terrivelmente conjugadas, depunham contra ele: os seus
                    antecedentes de calaceiro brigão, frases soltas que lhe ouviram, o seu rancoroso
                    despeito pelo despedimento da fábrica, finalmente, a sua cobarde agressão ao
                    Tobias, na azinhaga da Bruxa. — Não tinha sido senão ele... Era capaz disso e de
                    muito mais! — E gradualmente foi crescendo e engrossando, na ávida osga da
                    multidão, esta vaga suspeita. Vertida de orelha em orelha, passada de boca em
                    boca, progressivamente ela tomou corpo até converter-se para o maior numero numa
                    convincente realidade. Passadas quarenta e oito horas sobre a inesperada rusga
                    ao pátio do Fiúza, havia na vila Dias, em casa do Queimadela, um secreto
                    conciliábulo, no qual foi votada a morte do Lourenço. O primeiro que o apanhasse
                    a jeito... Baldadamente o Serafim, quase isolado e em riscos de ser acoimado
                    também de traidor, combateu essa resolução extrema. — Era preciso ver bem
                    primeiro... ele pensava de outro modo. Não havia provas. — A sede vingadora da
                    assembleia passou como uma língua de fogo sobre a sua intervenção. Ninguém o
                    ouvia. O Lourenço era um homem perdido.</p>
                <p>O que determinou o tanoeiro, no dia seguinte, logo de manhã, a fazer-se
                    encontrado com ele. Mais que provável que o toparia lá para as bandas da tenda
                    do Zé Pequeno. E com efeito. De sorte que, mal viu o seu vulto sombrio e tardo
                    apontar ao fundo da estrada de Marvila, correu a ele, e com afável expressão
                    :</p>
                <p>— Anda cá, meu malandro!</p>
                <p>— Também tu?... — repontou, de cabeça baixa, o fiandeiro, fazendo alto e juntando
                    ainda mais a crespa celha dos olhos rancorosos.</p>
                <p>— Eu o quê!?... — disse-lhe conciliador o Serafim. — Anda cá... não fales antes
                    de tempo. — E, numa inflexão singular: — Salvo se lá por dentro te roí alguma
                    coisa...</p>
                <p>— Ah, não! Isso não! — exclamou de salto o Lourenço, numa convicta
                    sinceridade.</p>
                <p>— Bem! Então ouve... Sabes que toda gente está aí contra ti!</p>
                <p>Os dentes patibulares do Lourenço apareceram, num lívido <seg rend="italic">rictos</seg> de ameaça.</p>
                <p>— Canalha!</p>
                <p>— Todos te culpam... menos eu! As minhas ideias são outras... — Tranquilizado e
                    confiante, o Lourenço, desanuviado o rosto, avançou dois passos; enquanto com
                    intimativa o Serafim: — E é sobre isso que temos que falar.</p>
                <p>Então, por um instante, mudamente, os dois mediram-se, como que na mutua e
                    definitiva inquirição das suas respetivas lealdades; e ao cabo o Serafim, com
                    familiar decisão, batendo no ombro do interlocutor:</p>
                <p>— De quem desconfias tu?</p>
                <p>— Queres que te diga? — murmurou com ar misterioso o Lourenço, enviesando os
                    olhos.</p>
                <p>— Desembucha! — disse o outro, impaciente.</p>
                <p>Então o Lourenço descaiu-lhe sobre o ombro, e com uma voz recalcada, mas cheia de
                    convicção:</p>
                <p>— Ó Silvério!</p>
                <p>— Pois está entendido! — exclamou num relance o Serafim, com a face glabra
                    instantaneamente aquecida por um raio de alegria. — Também eu... É minha opinião
                    há muito tempo; não foi senão ele. Olha, um dos que não podiam ouvir falar mal
                    dele era o pobre Esticado... Vê lá tu! Àquilo, sim! Aquilo é dos tais que nem o
                    diabo lhe aproveitava a alma.</p>
                <p>— Alma de cântaro!</p>
                <p>— Mas é que te entala!</p>
                <p>— É o que ainda havemos de ver...</p>
                <p>— Não tem dúvida nenhuma! Dele ninguém desconfia. Caem-te em cima... Por isso já
                    vês, deves tratar, quanto antes, de lhe pôr a calva ao léu.</p>
                <p>— Há de ser custoso... o demónio é fino!</p>
                <p>— Não sei, não sei... mas despacha-te. Quem te avisa, teu amigo é... Anda, que se
                    não lavras ligeiro, dão-te cabo do canastro! Jogas nisso a vida.</p>
                <p>Intimidado e confuso, numa receosa hesitação, o Lourenço coçava a cabeça.</p>
                <p>— Mas como diabo hei de eu?... Raio de azar!</p>
                <p>— Bem, não temos mais que dizer, — epilogou, estendendo-lhe a mão, o Serafim. —
                    Vou à vida. E o que te juro é que também cá pela minha parte vou ver se o
                    enrasco. Olé!</p>
                <p>— Anda aqui beber meia lata... — convidou enternecido o Lourenço, demorando a mão
                    do Serafim nas suas.</p>
                <p>— Não, não, obrigado... já tenho a conta para outra vez. Adeus!</p>
                <p>E rancorosamente, afastando-se e renovando no ar o seu manejo habitual do
                    cutelo:</p>
                <p>— Refinadíssimo malandro! Se o apanho a jeito, rachava-o!</p>
                <p>Depois de ficar mirando com delícia o descadeirado vulto do amigo, té vê-lo
                    sumir-se no alto da rua, o Lourenço enfiou para a taberna.</p>
                <p>Ainda nesse mesmo dia, à tardinha, o tanoeiro despegou um pouco mais cedo do
                    trabalho, e tendo despedido o pessoal e fechado a loja, tomou logo direito ao
                    Almargem, na intenção firme de encontrar o Mateus. Disseram-lhe que já tinha
                    saído; para onde, ninguém sabia. E esta imprevista contrariedade fazia-o
                    agitar-se com impaciência, desconjuntava-lhe o arcaboiço esquelético num
                    exaspero de arrelia. Começou então a procura-lo, num confiado afã, pelas tascas
                    e armazéns da redondeza. Por fim, um aprendiz da fábrica soube explicar-lhe que
                    tinha visto entrar o contramestre para o parque, com o Fagulha. — Estaria
                    seguramente em casa..., a trabalhar na coisa! — Pediu ao rapazito que o
                    conduzisse; ensaiaram a aldraba do portão, que felizmente estava só encostado; e
                    daí a minutos alcançavam os dois a sabida clareira, e o aprendiz batia à porta
                    da residência do Mateus.</p>
                <p>Logo se ouviu um miudinho passo claudicante, e, aberta a porta, a figurita
                    inflamada e esperta do Fagulha apareceu.</p>
                <p>Mal que o viu, confiadamente, o tanoeiro avançou; e com rapidez o Fagulha,
                    abrindo-lhe espaço:</p>
                <p>— Entra! — Depois imperiosamente, para o garro-to: — Roda!</p>
                <p>Ao que o rapazito num instante desandou e sumiu-se a correr, carreiro abaixo,
                    pelo arvoredo, encolhido e murcho como um cão vadio.</p>
                <p>Quando viu o tanoeiro diante de si, o Mateus, visivelmente contrariado,
                    interrogou:</p>
                <p>— Que me queres?</p>
                <p>— Coisa muito séria e urgica, Sr. Mateus!</p>
                <p>— Faço ideia... — observou o contramestre com um sorriso incrédulo.</p>
                <p>— Nada menos que a vida de um homem! — disse o Serafim, com intimativa.</p>
                <p>— O quê!? — fez, de repente sério, o Mateus, aprumando e voltando-se na
                    cadeira.</p>
                <p>Também o Fagulha viera já, num agudo interesse, encostar-se à mesa, sobre a qual
                    se baralhava uma grande profusão de listas de nomes, mapas, uma régua graduada e
                    boletins cifrados.</p>
                <p>— É o que eu lhe digo, patrão! — disse o Serafim com firmeza, adiantando-se. —
                    Toda gente culpa o Lourenço, e é preciso valer-lhe... atinar com a ovelha
                    ranhosa do rebanho, pôr as coisas no são. Que culpa tem o rapaz!</p>
                <p>— Essas coisas não são para agora, — volveu o Mateus, dando aos ombros, novamente
                    aborrecido.</p>
                <p>— Ah, isso é que elas são! — insistiu o tanoeiro, com uma energia que fez o
                    Mateus fita-lo de espanto. — Desculpe, mas o Sr. Mateus não sabe da missa a
                    metade... Olhe que ontem à noite, lá em baixo, em casa do Queimadela,
                    decidiram-lhe a morte!</p>
                <p>— Sério?...</p>
                <p>— Mas a valer!</p>
                <p>— Não sabia... — exclamou o Mateus, pondo-se em pé, enquanto o Fagulha, com
                    sincera insistência, abanava aprobativamente a cabeça.</p>
                <p>O Serafim, gingando convicto, acrescentou:</p>
                <p>— Agora, é um mais decidido encontra-lo e ir de maré... e o Lourenço é um homem
                    arrumado!</p>
                <p>— É grave, isso é... — monologava, carregando a expressão, o Mateus, medindo a
                    passos largos o aposento.</p>
                <p>— Ora e então isto admite-se?... há de o malandro que nos encravilhou ficar-se a
                    rir, e o outro, um inocente... que eu não digo que ele não fosse capaz do mesmo,
                    mas, era suma, agora está inocente... pois há deste marchar para a outra
                    vida?</p>
                <p>O contramestre parou, e intimativamente, cruzando os braços:</p>
                <p>— Mas quem foi então o traidor, vamos a saber?</p>
                <p>— Cá o nosso palpite é que foi o Silvério! — acudiu, de pé no ar, o Fagulha.</p>
                <p>O Mateus teve um gesto de mortificada dúvida.</p>
                <p>— Mas isso era preciso provar-se, valha-os Deus!</p>
                <p>— Está entendido! — apoiou o Serafim, com os olhos chispando claros de
                    evidência.</p>
                <p>— Não havemos de ir, sem mais detido exame, para salvar um presumido inocente,
                    desgraçar um pretendido criminoso.</p>
                <p>— Qual presumido! Certinho que nem um raio, patrão!</p>
                <p>— Ah, isso está-se mesmo a ver! — apoiou o Fagulha, numa irreprimível pirueta de
                    rancor.</p>
                <p>— Não foi senão ele quem deu a senha ao tal marau do assobio... que eu ainda hei
                    de varar, olé!</p>
                <p>— Eu sei lá... — objetou triste o Mateus, voltando a sentar-se o vergando a
                    cabeça perplexo.</p>
                <p>— Vejam vocês bem...</p>
                <p>Aqui o Serafim cingiu-se muito a ele, e todo dobrado, com uns olhos irascíveis e
                    a glabra epiderme muito esticada sobre os malares desguarnecidos:</p>
                <p>— Olhe que esse porco sujo, Sr. Mateus, há muito que se entende cos da secreta...
                    come de lá. Andava ralado por dinheiro e agora prometeu pagar a todos.</p>
                <p>— E mais não lhe saiu a sorte grande!</p>
                <p>— Como se há de apurar? — disse, depois de uma pausa, o contramestre.</p>
                <p>— Era pôr-lhe um cão à perna! — alvitrou logo o Serafim.</p>
                <p>E ao mesmo tempo o Fagulha, levando a mão ao peito, com espontaneidade
                    insinuante:</p>
                <p>— Se o patrão quiser...</p>
                <p>Complacente e risonho, com afetuosa bonomia, o Mateus disse:</p>
                <p>— O que é que tu vais fazer?...</p>
                <p>— O que vou? Ora essa! Pôr-me ao lado dele como um cão de fila. Cá de largo, está
                    entendido, para o gajo não desconfiar... Mas não faz mal, tenho lume no olho...
                    nem assim me escapa. E vai chorando-me ali assim, cozidinho, inseparável, que
                    nem a sua sombra. De noite e de dia! Até que o apanhe na ratoeira.</p>
                <p>— Está bem, anda lá! — condescendeu o Mateus com entusiasmo.</p>
                <p>E o caso foi que já a contar dessa mesma noite o ubíquo e incansável Fagulha
                    tomou o seu justiceiro papel a sério. Ao entardecer lá estava ele, marroazmente,
                    de atalaia, espreitando no vale de Chelas a saída do Silvério da fábrica, o seu
                    exíguo corpito parapeitado à cautela por um tronco de oliveira. Quando o
                    opressivo estrondear das máquinas cessou e a misera turbamulta começou a sair,
                    carregando a paisagem de tristeza, não lhe foi difícil dessa derrancada jolda de
                    rôtos destacar a obesidade paradoxal da sua presa. Foi-lhe então, a distância,
                    no encalço. O Silvério fora dos últimos a sair, pausada, refletidamente; e mesmo
                    assim, numa agorafobia de ocasião, como que numa preocupação instintiva de
                    defesa, deixou muito de calculo que todos os outros se distanciassem, marchando
                    então ossinho. Depois seguiu, isolado e depressa, quanto possível cosido com os
                    taludes altos da azinhaga, empapuçando o deslaçado abdómen com esforço, não
                    parando de rolar inquieto os olhitos de camaleão a um e outro lado, e
                    voltando-se num sobressalto ao menor ruido. Assim alcançou, a direito pelas
                    terras, o alto da Belavista e tomou logo, cada vez mais apressado, à direita, ao
                    longo da ilha do Grilo, no extremo da qual enfiou para casa.</p>
                <p>Então o Fagulha rodando-lhe na orbita provável de expansão, por ali assim se
                    ficou vagabundeando, e falava a um, falava a outro, sem desamparar o campo, com
                    o olho sempre na porta. Ainda o Silvério saiu, e ele inflexivelmente atrás dele.
                    Deitou a baixo, ao correio, na vila Dias, e como não tivesse nada, num patente
                    desalento voltou para casa. E novamente perambulando nas imediações o Fagulha,
                    entretendo e disfarçando, quanto podia, pela roda dos conhecidos; a começar pelo
                    Manaio, que lhe narrou longamente, por uma forma sensibilizante e ingénua, o
                    galopante deperecer e os vesânicos desvarios da filha. Mas para tão cruciantes
                    penas mal tinha o azougado coxo vagos monossílabos de piedade; andava-lhe o
                    pensamento tão longe... E dali passava a outro, e a outro, ao caprichoso sabor
                    do acaso, onde quer que pilhasse uma porta, uma janela aberta. Se lhe ofereciam
                    para entrar, por serem horas de ceia, agradecia, passava adiante. E falavam de
                    tudo e de todos, mormente desse projeto de vasta conspiração em que
                    despoticamente o Mateus lhes trazia enliçada a vontade e espertos os
                    cuidados.</p>
                <p>Mas o sudoeste soprava rijo, mas àquela ínfima escoria humana impunha-se
                    fatalmente a parcimónia de luz, a urgência de dar descanso aos nervos
                    estrompados, aos músculos doridos. Gradualmente, uma a uma, todas essas imundas
                    tocas reassumiram a sua gélida feição de túmulos, todas essas lúgubres lucarnas
                    se fecharam. Desatou a chover. E inalteravelmente o Fagulha ficou ainda, agora
                    sem o menor rebuço na mais absoluta escuridão, incansável e firme, tiritando,
                    até altas horas, quando o mau tempo e o repetido cantar dos galos tirara já a
                    qualquer nova escapada do Silvério toda a plausibilidade.</p>
                <p>Mas, daí a pouco, vinha ainda indecisa a madrugada e voltava ele inflexível ao
                    seu posto outra vez. Á sua hora de hábito, o Silvério saiu, com a insípida face
                    fria de cera, e muito caparrosado o nariz no ar fino da manhã. Tornou logo
                    direito ao correio, onde indagou com o mais vivo interesse se ainda não tinha
                    vindo nada para ele. E, exasperado pela negativa do empegado, — que era
                    impossível! Visse bem... havia de ter por força!</p>
                <p>Impassivelmente, o empregado limitava-se a pendular num gesto negativo a cabeça.
                    Ao que por fina o Silvério, colhido num grande embaraço, muito branco,
                    exclamava, erguendo ao frontal as gordas mãos crispadas:</p>
                <p>— Esta só a mim!</p>
                <p>E o Fagulha, que tinha entrado também, a perguntar correspondência, seguiu
                    esperto atrás dele, esfregando as mãos.</p>
                <p>Pelo dia adiante, como tivesse sido o marcado, abateu basta e incessante sobre a
                    casa do Silvério, qual um bando de corvos, a romaria implacável dos credores.
                    Eram aos cardumes. Desde o marçano da tenda, o padeiro, o carvoeiro, o
                    sapateiro, um emissário do Zé Pequeno e outro do Barateiro de Xabregas até ao
                    sacristão das Comendadeiras, a quem o recheio discreto da caixa das almas dava à
                    vontade com que agiotar. As três mulheres, em clamoroso uníssono, diziam que o
                    seu homem não estava, descompunham-nos, atiravam-lhes a porta com estrondo. E
                    eles na sua insofrida berrata também, desatavam-se em impropérios e afrontas de
                    toda a ordem; apodavam-no a ele de impostor, intrujão, caloteiro; a elas
                    chamavam-nas «bestas mansas de serralho». Escarninhamente os garotos faziam
                    roda. Por fim, no inapelável convencimento da ineficácia dos seus esforços, os
                    sucessivos cordões da matilha lá iam debandando, e deixavam numa atenuada
                    esteira peio estrangulamento lôbrego da rua o seu raivoso carpir de
                    ludibriados.</p>
                <p>Ao meio dia o Silvério, no cuidado de evitar esse importuno encontro, nem veio a
                    casa. Mas nem por isso o implacável bando, julgando pilha-lo, deixou de voltar.
                    E vendo-se segunda vez iludidos, em mais exasperado tom repetiam as vexatórias
                    homílias da manha, despertando o chalrar trocista dos papagaios e dando
                    escandaloso pasto ao gaudio dos vizinhos, que de rótulas fechadas escutavam
                    sorrateiros.</p>
                <p>Nessa mesma tarde o Fagulha voltou ao correio. Dirigia-lhe neste sentido os
                    passos uma suspeita de instinto; o vivo interesse, a vaga convicção de que
                    qualquer coisa apreenderia, para os seus fins preciosa e decisiva, na aclaração
                    do móbil que tão de rijo aguilhoava o Silvério à sua insistente inquirição
                    epistolar. E, entrando, logo, espertalhotão e sonso, disse para o chefe, com a
                    maior naturalidade :</p>
                <p>— Ó tio Simões! E então esta tarde também não veio nada pro Silvério, de
                    Chelas?... — O velhote verificava a correspondência, segurando os óculos:</p>
                <p>— O homem está ralado!</p>
                <p>— Cá está... — informou o empregado. — Diga-lhe que tem um bilhete postal. Veio
                    agora...</p>
                <p>— Bem bom! Bem bom! Obrigado... Vou num pulo, adeus!</p>
                <p>E convencido de que estava finalmente na pista exata do seu objetivo, o Fagulha
                    saiu a correr da estação, de passo lesto e nariz no ar, denunciando na rapidez e
                    na extensão das grandes pernadas claudicantes o seu triunfante e ruidoso jubilo.
                    E quando já longe, teve então oportunidade de notar que o mesmo Silvério aí
                    tornava, muito açodado, do vale à vila. Para entrar na estação e sair logo, com
                    o seu ansiado bilhete postal junto aos olhos, devorado num regalo indizível.</p>
                <p>Ao despegar do trabalho, noite feita, foi ele então num instante a casa, enfiando
                    com precaução a ilha do Grilo; ouviu-se dentro a ruidosa galhofa das mulheres; e
                    eis que em breves minutos o pecaminoso sultão saía, sem tempo de haver ceado, e
                    retomava rua abaixo, direito ao rio. Foi-lhe inseparavelmente no rasto o
                    Fagulha. Enquanto o grosso sátiro, sempre apressado e a pé, consultando o
                    relógio a quando em quando, tomava ao longo da grande artéria marginal, e,
                    atingindo Santa Apolónia, passava o Terreiro do Trigo e a Alfandega, onde dobrou
                    à direita para subir a rua da Prata. O Fagulha esperto sempre na cola do
                    malandrim, ia muito intrigado; e a sua surpresa subiu de ponto quando o viu,
                    quase ao cimo da rua, à esquerda,, entrar na Estrela de Oiro.</p>
                <p>Num salto alcançou a mesma porta, estava dentro também; e como já não visse
                    aquele dorso bisarmal da sua presa, um momento parou, em silêncio, de ouvido
                    alerte, no corredor. Então, mal distinguiu a voz amaricada do Silvério, que,
                    travada com a de outro interlocutor, saía de um dos repartimentos próximos, foi
                    e instalou-se na cafua contígua. E sentado, enquanto o criado lhe trazia os
                    pratos, talher e meio bife, tratou de escutar, colando com precaução o ouvido ao
                    tabique intermedio.</p>
                <p>Lastimava-se o Silvério, baixando suspeitoso a fala, daquela demora. — Que lhe
                    tinha feito uma diferença! — Ao que o companheiro, numa voz pipiada e perra, do
                    Fagulha desconhecida: — Que a todo o tempo era tempo.</p>
                <p>E, ignobilmente servil, o desabusado polígamo dizia:</p>
                <p>— Então, não foi boa a colheita?</p>
                <p>— Podia ter sido pior...</p>
                <p>— Ah, que só minha precisão me faria prestar a uma coisa destas!</p>
                <p>— Ora tu agora com dó daquela malandragem tem graça!</p>
                <p>— Tinha lá amigos... palavra!</p>
                <p>— Olha lá não te matem!</p>
                <p>— Matavam, sim! Se soubessem...</p>
                <p>Os olhos ardentes do Fagulha tinham lampejos vingadores na escuridão.</p>
                <p>— O quê!? — exclamou o desconhecido, num sarcasmo incrédulo.</p>
                <p>— Fala baixo, diabo! — soprou-lhe com intimativa o Silvério.</p>
                <p>— Tomaram eles que eu os chamasse... tomaram também comer!</p>
                <p>Aqui uma pausa dilatória se abriu, cortada pelo tilintar dos garfos nos pratos e
                    o grosso gorgolhar do vinho. E veio a tempo este parêntesis no diálogo, porque
                    coincidiu com a aproximação também do jovem que servia o Fagulha, o que o fez
                    retomar apressado o seu lugar. E logo disse então para o boçal serventuário:</p>
                <p>— Bom, quando precisar eu chamo.</p>
                <p>Depois, apenas o rapaz, correndo a cortina, voltou costas, aí estava ele de novo
                    no seu posto de observação. Distinguiu agora um vago e surdo arranhar, como de
                    quem mexia em papéis; e a misteriosa personagem intimando :</p>
                <p>— Bem, vamos a contas.</p>
                <p>Num grave silêncio, monotonamente, o espaçado contar dos papelinhos continuou. Ao
                    cabo:</p>
                <p>— Quanto é que você me dá?... Isto é pouco! — objetava o Silvério,
                    chicanando.</p>
                <p>— São as ordens que tenho.</p>
                <p>— É mesmo muito pouco! Por um lance arriscado como este a que eu me aventurei,
                    que me podia ter custado a vida... Nada, não, isto assim não dá a conta. Vê
                    lá!</p>
                <p>— Não sei, menino... Olha, tudo o que vêm é ganho, vai guardando sempre...</p>
                <p>— Coitado de quem precisa. — suspirou o gordo espião com hipocrisia.</p>
                <p>— Pois sim, mas anda lá... — rosnava desprezivelmente o outro, batendo-lhe no
                    ombro. — E agora, já sabes... se te convêm, continua.</p>
                <p>Congestionado, o Fagulha, com os punhos crispados pendulando ameaças e os olhos
                    chamejantes, desamparou o tabique, voltou à mesa e descarregou um sonoro murro
                    sobre o mármore, a que espantado logo o criado acudiu. Então o indignado acolito
                    do Mateus, sem mais querer saber, sem haver tocado no bife, sem um monossílabo
                    de explicação, num instante pediu a conta, pagou e saiu.</p>
                <p>E num instante correu da rua da Prata a Marvila, atalhando pela calçada do
                    Caldas, bairro da Sé, Alfama e S. Vicente, veleiro e rápido como se levasse azas
                    nos pés, direito à Bela Vista, a casa do Serafim. Mas a despeito de toda a sua
                    diligência e rapidez, não conseguiu alcançar o termo da estirada excursão senão
                    já bem tarde da noite.</p>
                <p>Chegado ali, e salva em dois pulos cambos a escada, nervoso e impaciente, bateu,
                    bateu... Volvidos minutos, rosnou de dentro irritada a voz da Clara:</p>
                <p>— Quem é?</p>
                <p>E logo com calorosa intimativa o Fagulha:</p>
                <p>— Ó tia Clara, abra! Sou eu!</p>
                <p>A enferrujada lingueta da fechadura recolheu-se, num chilrido áspero, e à porta
                    entreaberta apareceu a estremunhada Clara, de candeia na mão, o busto cingido
                    por um chale, descalça e sob a fímbria da camisa apontando, muito grossas e
                    negras, as tíbias nuas.</p>
                <p>— Que dianho quer você?... — disse ela com enfado.</p>
                <p>— O Serafim?... — atacou, sem tomar folego, o Fagulha.</p>
                <p>— Está a dormir.</p>
                <p>— Pois acorde-o!</p>
                <p>— Você está doido!</p>
                <p>— Já lhe disse! — disse o outro, com decisivo império e avançando. — Ande,
                    mexa-se, mulher!</p>
                <p>— Nessa não caio eu...</p>
                <p>— É indispensável! Ai, que demónio de lesma!</p>
                <p>— E você leva depois a lambada por mim?...</p>
                <p>Neste momento intervinha a figurita derreada e sumida da Ana, a qual depois da
                    prisão do seu homem nunca mais soubera que coisa fosse ter sossego, e que
                    acudira também ao estrondo da inesperada visita, num alvoroço de susto, puxando
                    afogueada para traz do lenço o cabelo.</p>
                <p>Mal que a viu, o Fagulha alegremente:</p>
                <p>— Ai, a nossa Anica! Bem, bem, é a mesma coisa… deixa, — disse ele agora à Clara;
                    e dizendo à improvisada viúva, com carinho: — Não sabes, filha? Estás vingada!
                    Já sei!... Apanhei o melro na ratoeira!</p>
                <p>— Então? Então?... — inquiriu a Ana com furor, arpoando os braços do intruso, com
                    os olhos regaladamente abertos.</p>
                <p>— O Silvério! Vejam vocês!...</p>
                <p>— Palavra!? — Pode lá ser!</p>
                <p>— Não há dúvida nenhuma! — E o Fagulha rugia numa convulsão de ameaçai — Que
                    malandro!</p>
                <p>— Tão chisnada tenha ele a alma como este inferno em que me meteu! — disse a
                    Ana.</p>
                <p>A Clara benzia-se apalermada:</p>
                <p>— Padre, Filho, Espirito Santo!</p>
                <p>— Agora já sabes... digam cá ao Serafim. Foi esse alma danada que nos vendeu! Mas
                    tem que as pagar todas juntas, o refalsissimo Judas! E há de ser amanhã mesmo,
                    olé! Parabéns...</p>
                <p>E lestamente, numa grossa tropeada, o Fagulha descia e alcançava a rua; enquanto
                    ao cimo da escada a Ana, pregada de pasmo, erguia as mãos a conter o
                    desapoderado galopar do coração, onde um raio de perversa alegria descera a
                    iluminar a álgida noite da sua dor.</p>
                <p>No dia seguinte, logo com os primeiros alvores da manhã, começou a correr pela
                    ilha do Grilo e imediações a abominável noticia. Um dos primeiros a sabê-la foi,
                    da boca da própria Ana, o Manaio, que no mesmo instante desarvorou, num
                    insofrido ingranzéu, a jorrar a torrente da sua indignação pelos vizinhos. Ao
                    mesmo tempo o Serafim, despedido de casa como um raio, fora assoalhar o caso
                    para a tenda do Zê Pequeno, onde entre cominatórias apóstrofes e justiceiros
                    protestos de aversão uma formidável conjura se formou, de completa e imediata
                    vingança. E dali o pregão da famosa descoberta, — a inevitável condenação do
                    Silvério e o apoteótico louvor ao Fagulha, — alastrou com a empolgadora rapidez
                    do relâmpago por todas as oficinas, estancias, fábricas, alambiques e tabernas
                    da redondeza, desde os fornos de cal do alto até aos cais, por toda a parte
                    acendendo a mesma tempestade unanime de irritadas fúrias, engrossando a
                    abominação e aquecendo todas as vontades na mesma implacável com moção de
                    extermínio, com esta avassaladora e crescente segurança das coisas fatais e
                    iniludíveis. Isto ao tempo em que também, pelo interior de cada lar, portas a
                    dentro de cada ínfima toca, a Ana e a Clara, cada uma ao modo do seu
                    temperamento e na medida do seu sentir, iam concitando contra o traidor a
                    generosa ira dos corações, uma na lamuriada plangência dos seus males, a outra
                    num praguejado vociferar contra a ignominia.</p>
                <p>Entretanto o Silvério, logo também de manhã, muito cedo, descera diligente à vila
                    Dias, onde foi pagar à tenda parte do seu débito, fazendo ao mesmo tempo correr
                    boato pela copiosa legião dos credores, para que ao meio-dia fossem, ou lhe
                    mandassem a casa. Assim, fizeram; desta vez com melhor êxito do que na véspera,
                    valha a verdade. Todos foram de algum modo contemplados, num rateio de ocasião,
                    ali muito à boa paz improvisado pelo Silvério., consoante as exigências de cada
                    um e em atenção aos recursos de que ele dispunha. Á porta de casa plantado,
                    afável e sorridente, aí mesmo, à medida como chegavam, os ia recebendo... umas
                    escusas banais primeiro, depois parlamentava-se um ajuste qualquer e
                    despediam-se em bons termos... saudados de dentro, numa espécie de coro bachico,
                    pelas vozes avinhadas das mulheres, destemperadas na orgíaca fartura do jantar
                    daquele dia.</p>
                <p>Naquele momento, pela ilha fora, ás portas e janelas de quase todas as barracas,
                    havia fartas pinhas de gente, principalmente de homens, que assistiam à cena com
                    rasgado interesse. Esta espécie de desavergonhado bodo, a céu aberto, era para
                    eles a odiosa confirmação do repulsivo atentado. Sacudia-os num odio de morte a
                    natural facilidade, a impudência como o Silvério jogava com aquele dinheiro, que
                    devia escaldar-lhe as mãos! — Não havia duvida... as vis notas com que o biltre
                    estava pagando aqueles seus torpes minutos de ventura, eram o preço porque ele
                    ajustara a entrega, ao inimigo, da liberdade, da vida, da honra dos seus irmãos!
                    E como estava fresco e lépido, o maldito! Só cosido a facadas! Até parece que
                    remoçara... Não os indignava só o banditismo, a perfídia dó ato em si, mas
                    também o desplante da sua exibição; aquele contraste exasperante entre o cinismo
                    feliz do delator e a irremediável desgraça dos vendidos. E este cúmulo de
                    impudor incendiava a alma de cada um dos espetadores da ignóbil farsa em fúrias
                    de punição imediata e cabal. Cada um queria ser simultaneamente juiz e executor
                    no infamíssimo pleito.</p>
                <p>O Silvério, lá da sua porta, no extremo da rua, notava, toda de olhos postos
                    nele, aquela afluência de curiosos, tão fora do comum; mas sem lhe atinar com a
                    exata significação. Chegou até a rejubilar com o fato, que atribuía a qualquer
                    comovido interesse pela sua pessoa. Queria agradecer... Nesta cega inconsciência
                    dos irremediavelmente perdidos, não pode alcançar de que intima origem vinha o
                    palpitante, o intenso lume que direitas a ele pregava as expressões, que ardia
                    em todos os olhos. Tomava à conta de um simpático agrado pela sua sorte a
                    impiedosa revolta contra o seu crime.</p>
                <p>Ao aproximar-se a noite, — parecia um dia santo, — começaram com estranha
                    insistência a definir-se, aqui, ali, subtis e espertos ao abrigo da penumbra,
                    pequenos grupos de curiosos. A cada momento de todas as direções surdiam,
                    silenciosos como conspiradores, suspicazes vultos de homens, avançando com
                    precaução, tomando posições de recato ao abrigo dos portais, na sombra escassa
                    das árvores, mascarados pela aresta das esquinas. Depois, simultânea e
                    progressivamente, como se obedecessem a uma senha comum, encaminharam-se todos
                    para o extremo da ilha, diametralmente oposto à habitação do Silvério e onde
                    vinha desembocar o caminho que subia do vale de Chelas. Aqui se agruparam então
                    de preferência, tomando a boca do atalho, vagamente escalonados pelo declive da
                    ladeira. Já não eram agora conglomerações de acaso, débeis formações sem nexo ou
                    coesão aparente disseminadas, mas uma grande massa negra, uma ameaçadora e
                    compacta mancha, cujas vivas arestas na crista do outeiro alternavam, carvoadas
                    no esmaio lilás do céu, com as duras laminas recurvas das piteiras. E um grosso
                    borborinho se erguia do extravagante amontoamento. Pragas soltas cruzavam-se no
                    ar. Por vezes altercavam.</p>
                <p>Como fossem já mais que horas do despegar do trabalho, a mulher do Silvério,
                    impaciente porque o seu homem chegasse, veio à porta, olhou; e ao ver no outro
                    extremo da rua aquela imprevista e turbulenta jolda, disse para dentro ás
                    irmãs:</p>
                <p>— Querem vocês ver? Ali há sarilho!</p>
                <p>Disse e voltou à porta, curiosamente, a observar. E então, de repente, tendo-se
                    erguido em bicos dos pés, como que a afirmar-se, enlivideceu, soltou um grito
                    lancinante, um supremo arranco de agonia, partido das mais fundas arcas do
                    peito.</p>
                <p>— Ai, que é o meu homem!</p>
                <p>E partiu, louca e desapoderadamente, com os olhos brancos de terror, com as mãos
                    nos cabelos, alarmando pelo seu apavorado gritar a rua. E na mesma alucinada
                    carreira, chorando e bramindo, atordoadas de pavor, partiram logo também as
                    irmãs na esteira dela.</p>
                <p>Sobranceira naquele minuto à bravia confusão do juntamento, apercebia-se com
                    efeito, sacudida e oscilante, sobrenadando, a grossa figura do Silvério a
                    debater-se aflito, numa ansia pávida de náufrago, entre a selvática fúria da
                    multidão. Mal que o viram apontar ao cimo da ladeira, tinham caído todos sobre
                    ele. Num relâmpago a impetuosa onda apertou, cresceu, gruiu de todos os lados,
                    lês-lha um céreo de morte. E ele, perplexo e atónito, assim coibido de
                    improviso, num atribulado momento de incerteza, movia desesperadamente os
                    braços, queria furtar o corpo, ensaiava uma ginástica de defesa incompatível com
                    o seu físico, suplicado sempre: — Não me matem, não! Oiçam! Por piedade! Mas
                    vingadoramente o enraivecido bando cobria-lhe as súplicas com impropérios,
                    jogava-lhe ferozmente, como uma pela, o corpo imundo a poder de murros e de
                    sarcasmos. E cá de longe as três mulheres, numa atribulada anda, sem poderem
                    romper aquela implacável parede humana, gesticulavam renhiam clamorosamente. E
                    pela vasta extensão da ilha as janelas, uma a uma, iluminavam-se; dezenas de
                    cabeças avidas avançavam e penduravam-se a esquadrinhar com ferino interesse a
                    escuridão; para o que havia, projetados à frente e rompendo a treva, lumes
                    friorentos de velas e candeias, que afogueavam em baixo a viscosidade negra do
                    lodaçal de trémulos sulcos sanguinolentos.</p>
                <p>Irremediavelmente, o Silvério estava perdido... Agora sentiu ele rasgar-lhe o
                    ventre o frio gume de uma faca; e um arrepio cobarde lhe correu a espinha.
                    Prestes a-sucumbir, levou as mãos ao abdómen, num protesto alto de dor abriu
                    desmesuradamente a boca; e logo um braço vingador se alongou pelo ar, vindo não
                    se sabia donde, brandindo uma grande torquês, a qual mergulhou fundo entre os
                    lábios da vítima e lhe arrancou pela raiz a língua, que um momento sacudida ao
                    alto, triunfalmente, como um rubro pendão de revolta, foi depois despedida
                    longe, na sua trajetória sinistra cuspindo sobre a multidão uma chuva de sangue
                    ainda quente.</p>
                <p>A inesperada barbaridade, a trágica violência desta mutilação determinaram na
                    feroz alcateia de algozes um estremecimento de horror. Os mais deles hesitaram e
                    acuaram, numa vaga comoção de piedade, quase arrepesos. Mas foi um instante.
                    Esse mesmo imprevisto batismo de sangue, arrefecendo-lhes por um momento a
                    coragem, não tardou a servir-lhes mais um ácido estímulo e a enardecer a sua
                    sanha homicida; acabou de exasperar a cega perversão do seu instinto. Já cada um
                    reassume o seu papel vingador, e de novo todos caem, todos abatem em brutal
                    competência sobre o ignóbil delator, a poder de maus tratos e cruas agressões os
                    raios vingadores da sua cólera. Todos com igual fúria o agridem. Uma floresta de
                    ferros, cacetes punhos fechados sarilham pelo ar. Na sua justiceira febre
                    marinham uns pelos outros, travam-se em conflitos parciais que por momentos
                    deslaçam e embrulham aquela mutua solidariedade no extermínio-</p>
                <p>Enquanto, sempre no mesmo clamoroso bramir, as três mulheres se debatem na orla
                    do grupo, longe da vítima, procurando agora desesperadamente, â unhada e à
                    dentada, abrir caminho, — as suas estranguladas suplicas doloridamente
                    prolongadas, rua em fora, desde o lugar onde elas esbravejam até casa pela fiada
                    lamuriosa dos filhitos, que tinham vindo também, de mãos dadas e estendidos a
                    chorar e a grazinar, na sensibilidade impulsiva da inocência.</p>
                <p>O desgraçado Silvério, no enternecido dó de si mesmo, com a expressão
                    horrivelmente devastada, nem voz tinha já para se queixar. O seu desespero e a
                    sua dor, doidos bailando na congestionada alucinação dos olhos, rompiam dos
                    lábios desguarneci dos em sons guturais, surdamente roncados, como um estertor,
                    por aquele hiato negro e sanguinolento... Tinha o fato todo em farrapos, uma
                    orelha derrubada, um braço partido, e do rosto opado e roxo de equimoses, a cada
                    nova contusão esparrinhava o sangue em abundancia. Começaram então os joelhos a
                    vergar-lhe, na irremissível compreensão do seu destino. O abominado colosso ia
                    aluir, quando um formidável calhau, erguido por quatro vigorosos braços, lhe
                    apanhou a nuca e o acabou de arrastar, abolachando-lhe o crânio contra a
                    terra.</p>
                <p>E ao passo que o alarido feminino redobrava, tudo o mais, como por encanto,
                    emudeceu. Definiu-se logo uma repulsiva e prudente debandada. As luzitas
                    bisbilhoteiras que estrelavam as tocas da ilha, cautamente, recolheram-se. E os
                    bárbaros executores passavam rápidos por diante do alvo abjeto do seu rancor,
                    jogavam-lhe um último olhar de execração e sumiam-se na invisível proteção das
                    trevas, deixando ao mais impiedoso abandono aquele grande e obeso cadáver, com o
                    encéfalo derramado sobre a pupila espavorida.</p>
                <p>Então finalmente puderam as três mulheres aproximar-se e recumbir, ululantes, de
                    encontro à grossa massa inerte, sobre a qual a fita loira das crianças,
                    prematuramente orfanadas, vencidas de fadiga e pavor, vinham poisar as cabecitas
                    adormecidas... E as três viúvas, ali, desamparadas e perdidas, agitando a cabeça
                    e torcendo aflitivamente os braços na insensibilidade total do céu, das negras
                    casas fechadas como túmulos, ficaram numa interminável lutuosa arrastando o seu
                    carpir, bailada lúgubre que desafiava os magoados uivos dos cães peles casais
                    distantes.</p>
            </div>
            <div>
                <head>CAPÍTULO XVI</head>
                <p>Com a inexorável evidência das coisas necessárias e fatais, começava agora a
                    sentir o Mateus que lhe não seria decoroso nem fácil recuar. O primeiro impulso
                    estava dado; e decisivo e certo fora ele, estava-se a ver. Despedido em tão
                    promissoras condições de êxito, que era corolário forçado a sua renovação.
                    Bastaria só dora avante imprimir direção e alento à emancipadora violência da
                    velocidade adquirida, para que toda essa imensa multidão de párias e de humildes
                    lhe garantisse o triunfo ao seu ideal, a vitoriosa evangelização do seu plano. O
                    ímpeto de reação contra a tirania for malista do Estado era mais que evidente. A
                    cada momento ele colhia, da intensa unanimidade da corrente revolucionária que
                    eletrizava os seus sequazes, as mais iniludíveis provas. Agora a justiceira
                    imolação do Silvério fora o testemunho convincente da sua sinceridade. Tinha-os
                    prontos e unidos, faria deles o que quisesse. — Não havia pois tempo a
                    perder.</p>
                <p>Intimidar, desnortear, abater o burguês pelo terror, — tinha comandado com
                    insistência Bazeleerts. Por aí ia ele começar. Para o efeito contava com a
                    famosa máquina infernal, prometida invenção do Anacoreta, e bem assim com as
                    manipulações empiristas do João dos Unguentos. Mas a matéria prima para elas?
                    Mas a base teórica, a conjugação científica dos elementos a empregar, quem havia
                    de fornecer-lha, com a indispensável segurança e com o sigilo requerido?... — De
                    repente o Mateus lembrou-se dos largos conhecimentos químicos do velho Gomes. E
                    então, forte com esta descoberta verdadeiramente providencial, assim que
                    anoiteceu tomou um carro em direção à Baixa, e sabidamente enfiou logo para a
                    saudosa república da rua da Glória.</p>
                <p>Subiu de esfuziote, mesmo ás escuras, a escada, tão sua conhecida; e, tendo
                    batido, num momento defrontava em cima com a velha e boa Maria, no último
                    patamar. Tinha esta conhecido o Mateus pelo andar e saudou-o com afetuosa
                    familiaridade, abraçando-o; a sua pequenina figura espetral toda na sombra, e só
                    ao alto fosforando a austeridade das lisas farripas brancas, a que arrancava
                    clarões de fogo-fátuo a luarenta luz coada pela claraboia do teto.</p>
                <p>— Adeus, tia Maria! — correspondeu carinhoso o Mateus, conchegando ao peito
                    aquele feixe estoico de farrapos. — Quem está por cá?</p>
                <p>— Olhe, está o menino aspirante, mailo o nosso Gomes... — E arrastando
                    piedosamente os lábios:</p>
                <p>— Coitado!</p>
                <p>— Então?</p>
                <p>Á comovida patroa chegou-se mais ao contramestre, e baixando discretamente a voz,
                    numa compunção generosa:</p>
                <p>— Não tem agora lição nenhuma... E vai, como já me deve seis meses de casa e tem
                    um génio muito independente, não há quem o arranque do quarto, não quer
                    comer!</p>
                <p>— Sempre teve uns feitios...</p>
                <p>— Ah, mas é que isto assim, meu amor, não tem jeito nenhum! Com tudo empenhado!
                    Os rapazes vão lá, chamam-no, batalham com ele, mas não há meio... Já o quiseram
                    trazer para mesa em charola, e nem assim! O diabo do homem!</p>
                <p>— Isso é mesmo dele, — disse o Mateus, no íntimo contente.</p>
                <p>— E é que me estica para aí assim, se continua a teimar! Veja o menino Mateus que
                    lindo passo... Eu nem sei como ele vive! Faz hoje três dias que aquela alminha
                    não prova não que nem uma sede de água. Valha-me Nossa Senhora!</p>
                <p>— Ora vamos lá a ver!</p>
                <p>Dizendo, o contramestre tomou à sala de jantar, onde logo viu, à esquerda, o
                    retângulo iluminado da porta da alcova do Valentim. E direito a ela,
                    enquadrando-se no limiar:</p>
                <p>— Boa noite, Valentim!</p>
                <p>— Olé! — exclamou, num pequeno salto de surpresa, o militar, estremecendo e
                    dobrando-se todo, como a querer ocultar alguma coisa, sobre a camba mesa de
                    velho vinhático a que abancava.</p>
                <p>— Então, estudar, hein? — disse, naturalmente, o outro.</p>
                <p>Mas o Valentim, com a expressão meio vexada, sem responder, dobrava mais o busto
                    e despedia um sorriso singular ao amigo, um sorriso misterioso e envaidecido;
                    enquanto procurava encobrir com as mãos um pequeno papel dobrado.</p>
                <p>— Que é Isso, que tamanho segredo demanda?... — fez então o Mateus, num curioso
                    estímulo, adiantando-se. — Estás a fazer versos?</p>
                <p>— Não, filho... — corrigiu amigavelmente o outro, sempre com o mesmo esfíngico
                    sorriso. — Coisa muito mais séria...</p>
                <p>— Desembucha!</p>
                <p>Então finalmente, depois de uma pausa, perante a imperiosa insistência do olhar
                    do Mateus, o militar puxou-o a si, num gesto que era como que a antecipada
                    catação da sua complacência, e aclarou:</p>
                <p>— Ouve lá... Isto que tu aqui vês, é o meu maior tesouro... não o dava por
                    dinheiro nenhum! É a primeira carta, ali, da minha amada!</p>
                <p>— Boa vai ela! — exclamou trocista o contramestre.</p>
                <p>— Não te rias, homem... não brinques com o que é grave! Sabe Deus à custa de que
                    trabalhos, penas e receios ela conseguiu escrevê-la... Não vês que foi mesmo a
                    lápis? — E agora, no progressivo calor da confidência, estendia alto a carta,
                    junto aos olhos do amigo. — Passou-ma com custo, sabes? Insinuando-ma no forro
                    do barrete. É a demonstração primacial do seu amor, como se fosse o seu primeiro
                    beijo... adoro-a!</p>
                <p>— Por alguma coisa havia dela começar…</p>
                <p>— A carta é que começa a estar um pouco sumida, com especialidade nas dobras... e
                    eu estou-lhe a avivar cuidadosamente os traços.</p>
                <p>— Ó filho, isso é um sacrilégio! — disse o Mateus, na mesma sublinha irónica.</p>
                <p>— Não é! Que eu apuro-me em conservar escrupulosamente a forma da letra. Só uns
                    ligeiros retoques... Quero-a aqui bem nítida, inalteravelmente viva... o que
                    aliás era supérfluo, porque o texto desta mensagem preciosa sei-o eu de cor,
                    tenho-o gravado aqui!</p>
                <p>E tendo esmurrado com enfática convicção o peito, já o amavioso militar voltava à
                    sua lucubração piegas, aplicando em amorosos toques o lápis sobre o papel, com
                    os olhos ardendo numa preocupação lamecha.</p>
                <p>Quando tal viu, o Mateus deu-lhe costas, vituperando com desprezo:</p>
                <p>— Meu rico, olha, sabes que mais?... Em vez de espada, deves por à cinta uma
                    roca!</p>
                <p>Mas, ao sair, lembrava-lhe agora, e num vago desgosto contrariava-o, a sua cena
                    também com o leque de Adriana...</p>
                <p>Na sala de jantar outra vez, entrou, mesmo ás escuras, pela porta do quarto do
                    Gomes, onde a escassa toalha de luar que entrava pela janela, apenas deixava,
                    muito indecisamente, aperceber um longo e arredondado vulto, moldado imóvel
                    sobre a cama.</p>
                <p>— Ó seu Gomes! Que diabo faz você aí? — disse o Mateus afetuosamente.</p>
                <p>— Quem é o maçador?... — arrastou, num enfadado ar, uma voz fatigada e áspera,
                    molemente saída da escuridão.</p>
                <p>— Sou eu... o revolucionário, o terrível Mateus! — disse numa sorridente ironia o
                    contramestre.</p>
                <p>E logo com viva familiaridade o índio:</p>
                <p>— Ah, areia... entra, entra!</p>
                <p>Antecipando-se ao convite, já o Mateus tinha avançado; e plantado firme perante o
                    vago escorço de homem que mal distinguia avolumando sobre o leito,
                    continuava.</p>
                <p>— Sou eu que venho verificar pelos meus próprios olhos as inverosímeis coisas que
                    me disseram de você...</p>
                <p>— De mim?... Essa agora!</p>
                <p>— Que demónio quer isto dizer? — dizia, cada vez toais junto à cama, o Mateus,
                    cruzando repreensivo os braços. — Temos um rival do Suci? Deste-te agora a
                    ensaiar habilidades de faquir?</p>
                <p>— Estou a fazer uma experiencia...</p>
                <p>— Dura experiencia, pelos modos.</p>
                <p>— Quero ver quantos dias é capaz um homem de estar sem comer.</p>
                <p>O Mateus não pode suster um froixo de riso; e piruetando de troça pelo
                    quarto:</p>
                <p>— Mas o pior... vê lá se te acontece como ao burro da anedota.</p>
                <p>— Olha que o caso não é para rir... — acudiu o Gomes, formalizado.</p>
                <p>— Ah, isso é que ele é! Pelo menos, enquanto não chegamos ao lúgubre epílogo que
                    pela ordem fatal das coisas lhe estaria preparado... e que eu de modo nenhum
                    quero que suceda!</p>
                <p>— Obrigado, rapaz...</p>
                <p>— Ah, não me agradeças... Isto não é amizade, é egoísmo. É que eu preciso muito
                    de você!</p>
                <p>— Ó filho, estou ás ordens.</p>
                <p>— Mas primeiro hás de comer... hás de me dar sinceras provas de que estás
                    disposto a continuar a ser contado no mundo dos vivos.</p>
                <p>Agora o Gomes, momentaneamente distraído, sentara-se na cama, e de joelhos ao
                    alto, com as mãos à frente enlaçadas, tornara, com jovial interesse:</p>
                <p>— Está bem... viverei o tempo preciso para bem te servir. Que mais queres?... diz
                    lá!</p>
                <p>— Sabe você o que eu quero? — aclarou o Mateus com intimativa, caindo em peso
                    sobre o leito e todo dobrado para o amigo. — Quero a fórmula química para um
                    explosivo!</p>
                <p>— Deste agora em pirotécnico? — interrompeu o Gomes de chacota, a derivar.</p>
                <p>— Não chalaceies...</p>
                <p>— Olha que não é fácil jogar competências com o fogueteiro de Gaia... vens
                    tarde.</p>
                <p>— E tu a dar-lhe! Você bem me entende... Não se trata de fogo de vistas. Quero um
                    explosivo que se preze... bem sério e bem eficaz... que me dê garantias de
                    desempenhar honestamente a sua missão terrorista e homicida!</p>
                <p>— Endoideceste!?</p>
                <p>— Pelo contrário, nunca estive tanto no meu juízo como agora!</p>
                <p>— Sucia de lunáticos! — murmurou filosoficamente o índio, afagando as barbas.</p>
                <p>E ardidamente o Mateus, a convencê-lo, com o gesto copioso e a pupila felina a
                    chispar na sombra:</p>
                <p>— É que vocês não sabem, não fazem a mínima ideia do avanço em que as coisas
                    estão... do odio vingador da canalha, da sua crescente, da sua implacável sede
                    de extermínio!</p>
                <p>— Faço ideia, faço... — disse o Gomes, abanando a cabeça em ar de mofa.</p>
                <p>— Tenho-os todos aqui! — E, dizendo, fechava o Mateus a mão com arreganho. — Vão
                    comigo para onde eu quiser! Pergunta ao Azinhal...</p>
                <p>— Não queres então que eu morra, mas empandeiras-me para Timor... Olhem que
                    amigo!</p>
                <p>— A responsabilidade é toda minha... Indica-me um explosivo, anda! E não só a
                    fórmula química, os elementos, mas o modo de os combinar. Quer-se a sua génese
                    orgânica e a sua preparação. Coisa expedita e simples, que sem grande risco
                    qualquer fármaco para aí me possa manipular. — E como o sábio não despegava do
                    seu silêncio altivo: — Então?...</p>
                <p>Por fim o Gomes, vagamente alheado, numa piedade generosa:</p>
                <p>— Sim, meu rapaz... visto que isso te dá gosto, deixa estar... não tenho dúvida
                    nenhuma. Arranjo-te talvez um picrato qualquer... Amanhã penso nisso.</p>
                <p>— Arranjas, sério!?</p>
                <p>— Já te disse que sim... — confirmou o Gomes com pachorra.</p>
                <p>— Dás-me a tua palavra de honra?</p>
                <p>— Dou-te quantas palavras tu quiseres.</p>
                <p>— Ó Gomes da minha alma, obrigado! Mil vezes obrigado, meu grande amigo! Que bela
                    inspiração eu tive... — E na quente impulsão do entusiasmo, novamente de pé, o
                    contramestre erguia em peso de sobre o leito, estreitando-o com reconhecida
                    efusão, o acobreado busto do amigo. — Obrigado! Obrigado por mim e por todos
                    esses milhares de desherdades que na miséria e no opróbrio suportam iniquamente
                    o estrago das calamidades sociais... Bem, amanhã não te largo!</p>
                <p>— Então larga-me ao menos hoje... — disse bonacheiro o Gomes, desembaraçando-se
                    com dificuldade do estrangulamento grato do amigo. E depois de uma pausa, tendo
                    tomado fôlego, com singular expressão: — E agora deixa-me perguntar-te: para que
                    é isso bom?...</p>
                <p>— Ainda o perguntas?... — disse Mateus com sincero espanto.</p>
                <p>Languidamente, o Gomes descaíra sobre o travesseiro o torso curto e redondo, e
                    com a face apoiada no braço em angulo, fitando o Mateus com espiritual desdém,
                    explicou de pausa, os dentes brilhando, muito brancos e iguais, num sorriso
                    inteligente:</p>
                <p>— Diabo! Eu no assunto sou leigo... Nunca fui ás vossas reuniões...</p>
                <p>— Porque não tens querido!</p>
                <p>— Apenas sei o pouco que de fugida posso forragear nos livros, ou no exame rápido
                    à papelada do Azinhal... Mas por isso mesmo, porque estou de fora, é que
                    disponho de condições de visão exata, de exame sereno e imparcial ao carater, à
                    orientação, ao plano, ao alcance da vossa obra.</p>
                <p>— E então?...</p>
                <p>— E então o que vejo é que vocês dois, tanto tu como o Azinhal, são hoje uns
                    ingénuos, uns rotineiros... são dois cegos e transviados caturras, perdidos
                    pelas regiões lunares da sociologia... ridiculamente fora, — mais do que eu! —
                    dos sentimentos e das ideias do seu tempo!</p>
                <p>Aprumado num sobressalto de estranheza, o Mateus exclamou:</p>
                <p>— Mas que demónio está você para aí a dizer!?</p>
                <p>— É isto mesmo! — disse o outro com firmeza. — Digo-te que sois dois confessos
                    retrógrados... nas opiniões e nos processos. Benza-vos Deus!</p>
                <p>— Lá vêm você com esquisitices!</p>
                <p>— Não há tal! Ó filho, repara bem... A era metafisica e heroica do socialismo
                    passou. E o mesmo podemos dizer do anarquismo, que não é senão a sua expressão
                    paroxísmica, a mais requintada e violenta integração do seu ideal
                    revolucionário. Vê lá se eu digo asneira... mas quer-me parecer que esse
                    atropelado período romântico da pandestruição, que vos fascina, que vos atraiçoa
                    ainda, está sendo substituído, nos países mais francamente progressivos, por um
                    período que eu chamarei crítico, mais manso e mais fecundo, todo de remodelação,
                    de reorganização interior. Uma espécie de exame de consciência, um tudo-nada
                    sacrílego, ás ideias consagradas pela catequização abstrata de Karl Marx e
                    Engels. Não é isto?... Sim, há alguns anos já que essa velha crença, terrorista
                    e mística, de um grande crack em que toda a sociedade devia ruir de uma
                    assentada, podrida e rôta pela própria decomposição, deixou de ser do vosso
                    partido um dogma, um credo vivo e militante, para se converter numa anotação
                    arqueológica, uma respeitável curiosidade de museu.-</p>
                <p>— O que aí vai!</p>
                <p>— Ah, não tem dúvida nenhuma! Atualmente, essa formidável utopia da demolição
                    geral não goza de melhores créditos perante a mentalidade humana, do que a
                    conceção do desabamento teatral do mundo ao som das trombetas do Juízo
                    Final!</p>
                <p>— Mas onde diabo viu você isso? — atalhou, um pouco desconcertado, o Mateus.</p>
                <p>— No que dizem, no que fazem, no que apregoam os teus mais afamados
                    correligionários.</p>
                <p>— Ora! — E o contramestre sacudia contrariado os ombros.</p>
                <p>— Eu estou vendo os mais deles agora, sim... emanciparem-se do dogmatismo
                    teológico, do formalismo tradicional do velho culto socialista, para procederem
                    analiticamente, segundo a lição da experiencia, de acordo com a eloquência real
                    dos factos.</p>
                <p>— É um ou outro...</p>
                <p>— É, entre outros, o teu grande, o teu adorado Bernstein. Sabes a história
                    dele... Depois de ter enchido muito papel e de ter atordoado muito ouvido
                    crédulo com a sua revolucionária propaganda, em tão perigosa evidencia se pôs
                    que o condenaram a uns anos de desterro. O que tu precisavas... para abrires os
                    olhos!</p>
                <p>— Tomara eu! — suspirou o Mateus com olhos de mártir, olhando o teto.</p>
                <p>— Vai o nosso homem teve de deixar a Alemanha, e a sua boa estrela encaminhou-o
                    para a Inglaterra, país, pelos modos, cujo clima é fatal à cultura do haciltus
                    das formulas doutrinarias e das puras especulações teóricas, as quais em
                    sociologia são um perigo. Por lá andou, e o que viu?... É ele quem o diz...
                    naquele seu livro... como demónio se chama?</p>
                <p>— As Hipóteses do socialismo, bem sei...</p>
                <p>— Exato! Sabes pois muito bem o que esse livro vale... e que ele estoirou nos
                    arraiais marxistas que nem um obus carregado a dinamite! Foi uma razia completa!
                    Lá se foram, entre outras, a teoria do valor, e a doutrina da concentração
                    capitalista, que ainda de bem recente data tinha foros de axioma no socialismo
                    internacional.</p>
                <p>— Tem coisas muito discutíveis, — arriscou o Mateus, desdenhoso. E batido numa
                    súbita impaciência, topando inquieto os móveis pela escuridão do quarto. — Mas
                    com quem imagina você que fala! Puseste na tua ideia dissuadir-me?</p>
                <p>— Ora vamos lá... — continuou mascando deliciadamente o índio, na consciência da
                    própria superioridade de momento e tendo deixado sossegar o contramestre. — E
                    afinal Bernstein veio simplesmente, como bom espirito pratica, relatar as
                    singelas conclusões do que viu!</p>
                <p>— É um cérebro paradoxal!</p>
                <p>— E disse: que em vez da tal ferina luta de classes, esse clássico antagonismo
                    entre o milhão e a fome, — de um lado o monopolismo da concentração capitalista,
                    cada vez maior, e do outro por consequência a exaustiva exploração do
                    proletário, — ele presenciara exatamente a evolução de uma tendência para o
                    fenómeno contrário, quer dizer, a disseminação crescente da propriedade, tanto
                    movei como imóvel, o formigueiro das iniciativas, a multiplicação das empresas,
                    a vulgarização do capital. Ele diz que verificou, tomado a principio da mais
                    ingénua surpresa, que por toda a parte o solo se desmembra... e que, assim como
                    se estava fragmentando espontaneamente a posse e a exploração da terra, também a
                    grande industria, longe de esmagar as pequenas oficinas, pelo contrário, até
                    lhes favorecia e estimulava o desenvolvimento, criando nelas outros tantos
                    auxiliares. De sorte que também aqui, em vez da concentração, da absorção, é
                    exatamente o fenómeno contrário que se observa. De roda de cada grande
                    estabelecimento fabril pululam e crescem constantemente, chocadas ao seu alento
                    criador, as oficinas rudimentares, as pequenas indústrias subsidiarias. São os
                    primeiros passos para a sua disseminação... E com o dinheiro, finalmente?...
                    Quererás negar que por igual este tende a democratizar-se, dia a dia, pelo
                    barateamento do juro e pela pulverização associativa do capital? — E como o
                    Mateus, numa mordente perplexidade, permanecesse mudo, com uma impagável
                    intenção irónica o índio acrescentou: — Que, isto é, tu afinal sabes melhor
                    desta coisa do que eu... Se tenho vomitado heresias, perdoarás!</p>
                <p>— Mas que heresias! — exclamou com superior desdém o visionário.</p>
                <p>Provarás...</p>
                <p>— Estávamos arranjados, se nós íamos agora a regular-nos e a fazer obra pelas
                    superfetações cerebrais de meia dúzia de lunáticos, — estes é que o são — como
                    esse tal Bernstein, como o belga Vandervelde, que não quer ouvir falar em
                    questões de salários, ou como o inglês Hindman, que acha as greves prejudiciais,
                    ou como o italiano Turati, que se pronuncia com furor contra a propaganda pelo
                    fato e todas as correlativas demasias terroristas... São uns reles oportunistas,
                    são uns tímidos. O nosso credo é outro!</p>
                <p>— Mas o critério certo é o deles!</p>
                <p>— Quer talvez você negar que sem a violência e o terror, sem o individualismo
                    mais feroz erigido em dogma, a sociedade é suscetível de avançar uro passo?</p>
                <p>Soerguendo manso o busto, o índio encolheu incredulamente os ombros.</p>
                <p>— É uma calamidade, é um mal, bem sei... — prosseguiu com veemência o Mateus, —
                    mas era mal inevitável, fatal, necessário!</p>
                <p>— Já ninguém que se preze pensa hoje assim... e acredita nisto, meu velho, —
                    disse dogmaticamente o provecto Gomes, que agora se sentara, atirando a custo as
                    pernas para fora da cama, e carregando a mão em peso do ombro do amigo. — Tu
                    sabes... hoje a observação direta do que dá prova, não é do alastramento do
                    proletariado, mas, pelo contrário, da extensão e da difusão progressiva da
                    propriedade. A lição científica dos fatos traz bem à evidencia que essa tão
                    apregoada e tão mal compreendida luta das classes, a vossa fobia predileta,
                    repito.</p>
                <p>é apenas a alucinada ficção de um mau sonho, a envenenada secreção de espíritos
                    doentios... uma pura figura de retórica.</p>
                <p>— Não digas isso!</p>
                <p>— Ah, isso é que é... e a mais ingénua, a mais falsa, a mais ridícula de
                    todas!</p>
                <p>E, dizendo, à beira da cama o índio, de tíbias pendentes e raspando com as pontas
                    dos pés o sobrado, procurava alcançar as chinelas sob a cama. Depois, na quente
                    impulsão do diálogo, erguendo-se:</p>
                <p>— Cá o que a minha razão me diz é que, pelo menos no campo económico, que é
                    afinal, socialmente, o que mais interessa, esse revoltante e odioso antagonismo
                    não existe.</p>
                <p>— É uma contumaz cegueira essa! — exclamou, sinceramente irritado, o
                    contramestre, cruzando os braços com violência e demandando num agastamento o
                    vão da janela.</p>
                <p>— Será... Mas o certo é que eu não consigo enxergar a tal tão radical e tão
                    infamada antinomia entre a mão calosa do operário e a arrogância egoísta do
                    pequeno burguês, estúpido e avaro. São tudo coisas para rir, à força de
                    estafadas e gastas no epitético zabumbar da vossa propaganda!</p>
                <p>— Só a minha paciência...</p>
                <p>— Que eu não sei nada disto... é o teu Bernstein quem mo diz! — insistia com
                    espiritual ironia o Gomes, que tinha vindo ao vão da janela também, apoiados os
                    rins contra o parapeito, e a sua bela cabeça grisalha acesa pela carinhosa
                    toalha do luar em doces cintilações de prata. — Mas não há, não... nem há
                    diferenças de essência ou carater, nem anomalias profundas de condição, na
                    passagem de um para outro desses dois degraus na escada social. Repara que a
                    transição está-se fazendo gradativa e suavemente, dia a dia, sem um sobressalto,
                    sem um atrito sério.</p>
                <p>O proletário, o pária, o miserável de hoje, se acerta em viver com parcimónia e
                    trabalha com industria e tino, em pouco tempo junta um pequeno pecúlio, valoriza
                    em bens imoveis o rendimento do seu coeficiente individual, e ei-lo feito um
                    burguês… Subiu um furo na escala, sem abalos nem cruezas... sem precisar de
                    matar nem de roubar, melhorou de situação. E, assim, como queres tu que os que
                    vivem do salario invejem e odeiem uma condição que eles sentem tão próxima da
                    sua? Cuja relativa prosperidade é ao seu esforço tão fácil de alcançar?</p>
                <p>— Tão fácil que se torna preciso fazer correr ondas de sangue para o
                    conseguir!</p>
                <p>— Mas onde vês tu isso?</p>
                <p>— Em toda a parte!</p>
                <p>— Não digas asneiras! A tendência hoje das sociedades vivas é toda, não para a
                    eliminação da classe média, mas era o seu engrossamento progressivo à custa da
                    incorporação cada vez maior do elemento popular. Todo o mundo burguês! — eis a
                    fórmula redentora do futuro.</p>
                <p>— Meu Deus, que heresia!</p>
                <p>— Abre os olhos, pateta! O carater dogmático, sanguinário e feroz do teu querido
                    anarquismo deu em droga... é hoje uma coisa sem proveito e sem sentido. Pertence
                    ao período teológico da seita e por isso, como o Jeová dos católicos,
                    liquidou!</p>
                <p>— Eu nem te contradigo... — murmurou o Mateus com doçura. E como visse a grossa
                    boca do Gomes desfrisar-se num sorrir de desdém: — Não porque não tivesse
                    argumentos de sobra...</p>
                <p>— Bem sei...</p>
                <p>— Mas, em suma, quero-o poupar a você, que não come há três dias...</p>
                <p>E, bem contra o seu querer, o Mateus ficou-se a contemplar esquecidamente, numa
                    admirativa hipnose de respeito, a encanecida cabeça do contraditor, que o
                    cansaço fizera languida descair contra a vidraça. E por algum tempo assim
                    permaneceram os dois, reflexivos e mudos frente a frente, cada um alheado na
                    tirania obsidiante da sua ideia, contidos ambos no mútuo acatamento pela
                    sinceridade e o fervor do pensamento alheio.</p>
                <p>Por fim o índio aprumou a cabeça, devagar, e forcejando reanimar-se:</p>
                <p>— Mas, seja que não seja... dado mesmo que sem esses providenciais esticões, sem
                    essas trágicas violências não possa haver renovação possível nas fases sociais,
                    diz-me lá — quê ganham vocês com isso?</p>
                <p>— Pomos as coisas no são! Damos a cada um o quinhão de felicidade a que tem
                    direito, melhoramos finalmente as deploráveis condições atuais do viver
                    coletivo.</p>
                <p>— Deixa-me rir...</p>
                <p>— O quê! Você duvida?...</p>
                <p>— Não duvido... tenho a plena certeza da ineficácia do vosso plano, o qual seria
                    ridículo se não fosse sanguinário.</p>
                <p>— Ao menos sempre fazemos mais do que os que se anulam na inércia de um
                    imobilismo impassível e cético, como este seu!</p>
                <p>— Como tu te enganas!</p>
                <p>— Esse indiferentismo, essa filosófica passividade perante os conflitos materiais
                    da existência, será uma coisa muito comoda, mas de vantagem nula até mesmo para
                    vocês!</p>
                <p>O Gomes, com intimativa, voltou a poisar a mão no ombro do amigo, e, pausadamente
                    sempre:</p>
                <p>— Ouve... Olha que quando o homem menos mostras exteriores dá de atividade, é
                    exatamente quando a sua ação é mais intensa e a sua atividade mais fecundai O
                    pensamento é o primeiro estalão do nosso poder, o propulsor essencial da vida; e
                    todavia não tem órgãos exteriores, ninguém é capaz de lhe ver do maquinismo as
                    molas delicadas... Sentes tu por acaso, ou alguém dá conta do fenómeno íntimo da
                    elaboração das células? Pelo contrário. E até mesmo, passando das células aos
                    órgãos, sabes muito bem... órgão que se não sente é um órgão perfeito. — Pois
                    para que o espirito do homem avoeje ás mais altas regiões até onde é capaz de
                    erguer-se, torna-se preciso que pelo repouso se deslacem as suas prisões
                    materiais. A inação é a felicidade... porque por efeito dela as nossas células
                    orgânicas, aliviadas do trabalho propriamente material e contingente, podem
                    então, espiritualizando-se, exercitar a porção imaterial da sua labuta
                    transcendente e misteriosa. E só assim nos tornamos grandes, só assim
                    progredimos; porque só também é este o modo de libertarmos e erguermos a nossa
                    compreensão da relatividade dos fenómenos à sua origem, ás suas causas... da
                    colisão efémera dos fatos à eterna harmonia das leis!</p>
                <p>— Ou você não tivesse costela árabe!</p>
                <p>— Eu por mim falo, neste momento... Não imaginas, meu rapaz! Anteontem, ontem
                    mesmo, sofri muito... As solicitações da materialidade orgânica do meu ser
                    torturavam-me por uma forma horrível. Tinha em cada molécula um estomago; e este
                    era como uma grande ventosa interior. Mas, depois, não... Á medida como vão
                    passando as horas, a carne como que se afeiçoa e resigna à nova situação...
                    apura-se, subtiliza-se, já me não apoquenta com as suas reclamações
                    grosseiras... e ao mesmo tempo o cérebro afina-se também, faz-se no meu espirito
                    uma claridade de oráculo, as ideias saltam e rompem em arestas de evidência, em
                    proféticos lampejos. Já nem tenho debilidade, nem fome... e vejo muito
                    melhor!</p>
                <p>Agora, no inspirado alor da sua prédica, toda a figura da estranha personagem
                    vibrava persuasivamente. Alongado e hirto como um acobreado muezzim, envolvia-se
                    todo, friorentamente, cingido o gesto, na coberta de ramagens que trouxera da
                    cama, e apenas os olhos de fogo dardejavam inquietos sobre o bárbaro aparelho
                    desta antecipada mortalha.</p>
                <p>A termos que o Mateus, que o contemplava deliciado, exclamou:</p>
                <p>— Por pouco não me está você a invejar a sorte dos seus patrícios fakira...</p>
                <p>— E tomara eu! — acudiu logo o Gomes, muito convicto, cingindo-se mais na colcha,
                    e agora imóvel como uma múmia, cerrando beatificamente os olhos. — Tomara eu
                    poder atingir essa acuidade estranha de visão, esse incompreendido e hipnótico
                    poder, que lhes dá a chave do universo e o segredo da sucessão secular das
                    coisas! É um fato averiguado que os fenómenos chamados sobrenaturais só se nos
                    tornam acessíveis pela emancipação, quanto possível completa, ao despotismo
                    nocivo da matéria. O adormecimento fisiológico dos sentidos dá-nos os sonhos, a
                    sua narcotização psíquica faz-nos videntes. Se a pudéssemos tornar absoluta,
                    seriamos iguais a Deus! — E carinhosa, suasivamente, soltando a coberta e
                    afagando uma das mãos do Mateus, que não cessava de o admirar, o fanático e
                    extenuado Gomes continuou: — Agora me estou eu a lembrar... era bem pequenino:
                    tinha ido a Pendjab com o meu avô, quando ao chegarmos, de tarde, vimos na
                    calcinada planura que circunda a cidade, uma grande multidão rodeando cheia de
                    interesse um escasso conto negro. Aproximámo-nos. Era um faquir que momentos
                    antes ali viera estabelecer um dos seus postos errantes de meditação, e, de
                    cabeça mergulhada na terra, erguia a pino no espaço o tisnado tronco, nu e
                    imóvel como um arbusto seco, com os pés no ar. Apenas uma ligeira faixa de linho
                    lhe cingia os rins. A perna direita, dobrada em angulo de joelho contra o solo,
                    servia como que de escora à outra, que se mantinha tesamente alongada e firme,
                    projetada numa inalterável tensão muscular. E de rojo sobre a terra, como duas
                    cobras repletas, dobravam-se também imovelmente os braços, cheios de rosários,
                    manilhas e pulseiras.</p>
                <p>— Viu você isso?...</p>
                <p>— Eu mesmo! Meu avô já dali não arredou pé... Tomado do mesmo supersticioso
                    interesse da multidão, cruzou as pernas e sentou-se, mandou-me com várias
                    incumbências à cidade. Depois, quando eu regressei, foi então ele; mas
                    deixando-me a mim de atalaia ao fenómeno. E desta sorte nos fomos
                    invariavelmente revezando; desta sorte eu tive ocasião de pessoalmente
                    verificar, a ponto de arredar as últimas dúvidas do meu espirito, a absoluta
                    sinceridade, a correção, a obstinação e a fé naquele sobre-humano sacrifício...
                    Passei muitas horas ali assim, entre as gentes de toda a casta, em torno do
                    padecente convocadas, por um sentimento que era um misto de desconfiança e
                    adoração, de precaução fiscal e de fascinação religiosa; pois nunca vi, nunca
                    surpreendi o mais insignificante movimento, a mais subtil tentativa de burla ou
                    a mais ligeira contração de dor na rígida insensibilidade daquele corpo
                    petrifeito, daqueles nervos anestesiados e inteiriços pelo esforço da vontade.
                    De roda ouvia-se o compenetrado marmotar das orações, choviam a quando e quando
                    as esmolas, improvisavam-se pequenas merendas barbaras, verdadeiros picnics do
                    sertão... mas a tudo era absolutamente alheio aquele morto aparente, imóvel e
                    hirto sempre, sem tomar alimento, sem se desconcertar, sem se queixar, na serena
                    celebração do sacrifício que voluntariamente se impusera!</p>
                <p>— E depois?...</p>
                <p>— Depois, finalmente, ao cabo de cinco semanas, a perna estendida estremeceu,
                    começou a dobrar-se lentamente... a outra distendeu-se debaixo dela, as mãos
                    apoiaram-se, com os braços em abobada, sobre a terra, houve como que um
                    espreguiçamento... e a estranha cabeça do faquir apareceu, sacudindo a humidade
                    dos cabelos corredios, abrindo uns vagos olhos-pávidos de estremunhado... E vai
                    ele então, enquanto recolhia as esmolas, predisse dois anos de fome, predisse a
                    morte de um rajá, não me lembra donde, predisse mais a futura sorte de um ou
                    outro dos presentes... e tudo saiu certo!</p>
                <p>— É curioso, é... Não se me dava de ver também.</p>
                <p>— Mas isto não é nada! São realmente de assombrar os resultados a que por vezes
                    chegam estes iluminados apóstolos do ascetismo e do sofrimento físico, sectários
                    ardentes de Buddha, que comungam de gala na miséria e acham um volutuoso prazer
                    no sacrifício há djorghis que aguentam indefinidamente violentas aposturas como
                    essa que eu presenciei; que são capazes de se manter inalteravelmente em pé,
                    dobrados e torcidos, mergulhados na terra, ou de braços para o ar, não durante
                    semanas, mas durante anos... a ponto de se lhes atrofiarem então os membros, de
                    se lhes anquilosarem às articulações, e elefantisarem-lhes o corpo anémico toda
                    a casta de deformidades. Pois não morrem, não embrutecem! Antes desta sua formal
                    abdicação do mundo físico parece que mais iluminados e rijos emergem para a
                    perfeição moral... Por isso te digo: o nosso mais perfeito estado é o repouso
                    extático, porque faculta o livre exercício da porção mais nobre e santa do nosso
                    ser... porque prepara a transição para a outra vida, restitui ao seu trono
                    espiritual a alma e aproxima o homem do Infinito.</p>
                <p>— Se todos nós fôssemos a pensar assim, — acudiu trocista o Mateus, — estava o
                    mundo bem aviado!</p>
                <p>— O que é que lhe faltava?...</p>
                <p>— Faltava-lhe tudo! Ora vamos nós todos a pôr-nos aí assim, de pernas torcidas
                    como saca-rolhas e braços especados para o ar, à espera de que as unhas nos
                    furem a palma das mãos, e eu sempre quero saber quem há de estudar, lutar, fazer
                    caminhar na sua natural progressão as coisas!</p>
                <p>— Quer não, que o vosso progresso vale de muito! — atalhou o Gomes com
                    vivacidade. — Com todos os vossos inventos e perfeições vocês arranjaram isto: o
                    homem nunca chega a morrer da morte fisiológica, mas muitíssimo mais cedo! Dá
                    prematuramente cabo dele a civilização. A maior parte das nossas doenças são
                    verdadeiros suicídios a que nos impele o excesso das comodidades, a
                    multiplicidade e intemperança, dos gozos, a tirania dos vícios. Sob este ponto
                    de vista, que é o essencial, o homem primitivo era-nos infinitamente superior...
                    O exemplo de Matusalém não é só um fato tradicional, é um símbolo; é a
                    condenação mais fulminante ás condições do viver atual. Repare você: todos os
                    animais vivem, termo médio, um período aproximadamente equivalente a oito ou dez
                    vezes o ciclo da sua formação completa. Ora, aplicando ao homem esta lei, como o
                    nosso inteiro desenvolvimento não se atinge antes dos 25 anos, segue-se que,
                    segundo as leis da Natureza, cada um de nós devia viver, pelo menos, 200 anos...
                    Estamos reduzidos à quarta parte! Vê lá tu que linda coisa! É no que deram as
                    vossas eletricidades, as vossas indústrias e artes, as vossas filosofias:
                    abreviaram-nos estupidamente a vida... E cada vez hão de abrevia-la mais!</p>
                <p>— Estás então apologista da inação nirvânica?</p>
                <p>— Completamente!</p>
                <p>— Já sei... tudo isso é escusa para me não servires.</p>
                <p>— Não te entendo...</p>
                <p>— Não me queres dar a fórmula do explosivo.</p>
                <p>— Ah, dou... Que me faz a mim isso?</p>
                <p>— Falas verdade?...</p>
                <p>— Já te disse que sim... No meu ponto de vista, é-me absolutamente indiferente
                    que dês cabo de um homem, ou de dez, ou de duzentos!</p>
                <p>— Para salvar todos os mais, note você bem! — completou o Mateus com sinceridade.
                    E depois de uma pausa, com grande intimativa, muito chegado ao índio, que não
                    deixara ainda a janela: — Mas que quer você afinal dizer com esse filosófico
                    desdém, com todo esse pessimismo?</p>
                <p>— Quero dizer que da verdadeira civilização os estádios quem vos tem dado, quem
                    vos tem ensinado a marcar por esses séculos fora, ao longo do tedioso e agro
                    caminho da vida, tem sido o Oriente, tem sido o país clássico do sonho, têm sido
                    os meus! — E agora aprumado e solene na indecisa penumbra do quarto, o Gomes
                    transfigurara-se. Tendo deixado cair a frágil colcha que o envolvia, já sem frio
                    e sem resguardo, deslocava num convicto furor, todo em largos gestos, os braços
                    grossos e negros, a voz saía-lhe impetuosa e quente da mais persuasiva
                    convicção, e um grande orgulho de casta lhe sacudia a cabeça num arreganho
                    altivo e palpitava na ansia ardente dos olhos em chispas de triunfo. — Vocês sem
                    nós não valem nada... foi a minha raça que os educou, que lhes abriu os olhos,
                    que lhes deu a mão! A vossa tão apregoada civilização é uma obra toda de
                    empréstimo, é um pálido plágio da nossa. O vosso progresso, a vossa vertiginosa
                    atividade são filhos do imobilismo transcendente e fecundo dos meus irmãos...
                    Oh, como esta nobilitante evidencia me consola! Tudo quanto o Ocidente possui e
                    conserva de fundamental, de perdurável, de útil, de bom e necessário, a verdade
                    é que lhes veio de nós. Vê lá tu: a religião, a moral, as línguas, até o feitio
                    poético das lendas, o modo como cultivais os erros da superstição, tudo nos
                    devem... tudo generosamente lhes viemos nós trazer!</p>
                <p>— Isso dito assim em absoluto é uma afirmação um pouco ousada... não pode ser! Eu
                    aceito o fato da vossa hegemonia moral e mental, mas só até um certo ponto.
                    Tutelaram-nos a infância, é certo; mas depois que a emancipação social do
                    Ocidente se afirmou, que de brilhantes e formidáveis conquistas não temos nós
                    feito em todos os ramos da atividade humana! Que progressivo e largo afinamento,
                    que avanço colossal!</p>
                <p>— Venha um exemplo!</p>
                <p>— Como deploravelmente vos deixámos já ficar para traz!</p>
                <p>— Prova o que dizes!</p>
                <p>— Ó homem! Então a reconstituição politica, jurídica e moral da sociedade no
                    período mediévico, por efeito do cristianismo?</p>
                <p>— Não fizestes mais que repetir os antigos ciclos épicos, já descritos nos Vedas;
                    assim como também o nosso Buddha foi o verdadeiro, o inédito inspirador da
                    doutrina do vosso Jesus.</p>
                <p>— E então o período das descobertas?</p>
                <p>— Foi um fenómeno grosseiro e subalterno, sem ideal, sem causa subjetiva... uma
                    simples questão de mercantilismo, pelo seu carater material muito longe e muito
                    abaixo da natureza essencial das coisas. Passou então a sociedade a gozar mais,
                    a conhecer-se melhor... mas continuou a falar, a julgar, a amar, a orar da mesma
                    forma.</p>
                <p>— E a revolução francesa?</p>
                <p>— A mesma coisa. Mudastes a direção, o ponto de aplicação das vossas forças, mas
                    o seu centro gerador, a sua causa, a sua origem subsistem as mesmas... E
                    subsistirão sempre, meu filho, enquanto nós quisermos... — continuou
                    profeticamente o Gomes, agora ralentando a frase e emitindo as palavras com
                    esforço, dobrado ao jugo indominável do cansaço. — Vós aqui sois como os clarões
                    de agonia do sol no ocaso. Sois uns tristes filhos da matéria e da sombra... não
                    tendes o gosto, a compreensão espiritual da vida, e por isso vos falta o alento
                    criador! Enquanto que, lá longe...</p>
                <p>Mas, por completo vencido da fadiga, o extraordinário índio, de repente,
                    emudeceu; vergaram-lhe as pernas, a cabeça pendeu para o peito num delíquio; e
                    teria caído desamparado se não acudisse solicito o Mateus a segura-lo,
                    reconduzindo-o com carinho ao leito e aconselhando:</p>
                <p>— Ora vamos, caladinho, agora!</p>
                <p>— Pois sim... mas hei de primeiro repetir e deixar bem assente que vocês aqui só
                    conseguirão melhorar de condição, não a poder de greves e explosões de estúpidos
                    petardos, mas quando nós quisermos! — E, já deitado outra vez, sorria de
                    vaidade.</p>
                <p>— Quando o novo verbo redentor chegar desse meu país estremecido... o maravilhoso
                    berço do sol e da virtude, onde solitárias as almas podem sonhar tranquilas, e
                    onde a vida não tem segredos para nós porque o nosso amor por ela é todo
                    impregnado de religiosa ternura, é feito exclusivamente de curiosidade e de
                    esperança... Mas que demónio tenho eu?... Foge-me a vista, arde-me como uma
                    brasa, aqui...</p>
                <p>— E apertava com as mãos o estomago. — Diabo! Vieste-me tirar do meu sossego e o
                    caso é que agora tenho fome... para que me fizeste falar?...</p>
            </div>
            <div>
                <head>CAPÍTULO XVII</head>
                <p>Naquele ano passou quase despercebido o Entrudo para a gente da ilha do Grilo.
                    Nem havia alegria nas almas nem sossego nas consciências. Um como véu de morte
                    parecia que fora sobre a misera estancia corrido lugubremente. Nenhuma diversão
                    local se organizou, nem tampouco qualquer dessas farrapentas chulas da
                    exploração que o faminto bairro costumava naqueles dias destacar, ao seu
                    gandaiar de acaso pela embriaguez munificente da cidade. Faltava o Adelino, o
                    emérito ensaiador da tertúlia com sede na vila Dias, e faltava o Esticado
                    organizador crónico de todas as cegadas, parodias e danças da redondeza. E
                    faltaram por forma que ao esmorecimento, filho da ausência do seu comando e
                    direção, se juntava no orfanado bairro a condoída saudade, a ferina indignação
                    pelo imerecido rigor da sua sorte.</p>
                <p>Com efeito, sabia-se que no mesmo sábado magro, mal rompia a madrugada, eles dois
                    e o Romão tinham sido baldeados de improviso, em aviltante amalgama com uma
                    jolda de malfeitores e farroupilhas, do Limoeiro para o couves de um paquete que
                    imediatamente levantara ferro com destino à África. — Um rigor positivamente
                    inquisitorial! Nivelava-se o mais nobre, o mais sagrado atributo do homem, a
                    liberdade do seu pensamento, com as mais repugnantes aberrações da escória. Já a
                    independência era um labéu e a sinceridade um crime! — Quando a triste e
                    odiosíssima nova circulou por Marvila, uma grande comoção de rancor alvorotou
                    todo o bairro, funda ao ponto de dar a ilusão que com o seu abalo tremera a
                    terra. Alguns dos operários, contumazmente incrédulos, amparados no estímulo de
                    uma generosa esperança, ainda correram pressurosos à cadeia, donde trouxeram o
                    esmagador testemunho da verdade... Outros, impróvidos sebastianistas, dando
                    costas ao trabalho, tomaram pelo Aterro fora e seguiram por terra e por mar, a
                    pé e utilizando toda a casta de transportes, até à barra, doidos no alucinado
                    empenho de verem ao menos uma vez os seus pobres irmãos proscritos, de os
                    salvarem nalgum leonino rasgo de audácia, travarem a hélice do vapor e
                    furtarem-nos aquele sequestro infamante. Mas nem já o vapor viram! E então a
                    evidencia da irremediável desgraça, a estes e aos mais que gradativamente dela
                    tiveram noticia, amortalhou-lhes a alma numa aflitiva tristeza.</p>
                <p>Á medida como, passada de boca em boca, a desoladora certeza daquela torpe
                    expatriação alastrava pelo bairro, era como um grande pano de luto e dor que se
                    fosse desdobrando também, correndo com ela... as cabeças dos miseráveis abatiam
                    e os seus ombros vergavam, não ao desânimo porem ao odio, e uma torva caligem de
                    ameaça, extravasando dos peitos, inundava-lhes os olhos de trevas. Como a cadela
                    que, amorosa e desconfiada rodando em torno dos cachorritos, ladra e arremete
                    indistintamente contra tudo e todos, contra perigos que mal presente, contra as
                    pessoas que não conhece, assim bramia dorido e selvagem o coração de todos
                    aqueles apavorados párias, indignados por tão despótica violência, por tão
                    cobarde e vil atrocidade. Para mais, depois do subversivo assassinato do
                    Silvério, cujos verdadeiros autores não houvera afinal meio de destrinçar, a
                    irritante insistência das inquirições e a vigilância mais estreita da polícia
                    exasperavam-nos. Passavam agora as escassas horas de descanso enjaulados na
                    ominosa noite da sua dor, guardados e repudiados sempre, como feras, com o
                    sangue grosso de humilhações e inviperada a alma de vingança. Os próprios
                    velhos, na corrente avassaladora do odio, aqueciam. Era de odio a lição primeira
                    das mães ás crianças, cada manhã. — E no seu lar solitário a pobre da Ana caíra
                    de cama para não mais se erguer!</p>
                <p>Na véspera à noite, havia a filha do Manaio predito o fato, diante do pai, da
                    mãe, o Serafim e aquela esperta e ardente predestinada que era o Contrapeso, a
                    quem instintivas afinidades de temperamento, a irmanação no abandono do Ventura
                    e a mordente atração pelo fenomenal viver da sua amiga de infância, faziam agora
                    muito da casa. Estavam os quatro ruminando tristemente a sua ceia de carapaus
                    com azeitonas, sobre uma velha e gordurenta arca improvisada em mesa, quando a
                    alucinada hipnopata, arrancando súbito, num acesso de histeria lucida, do seu
                    grabato imundo, e tendo com ímpeto atirado ao lado a velha cortina de chita, que
                    um rasgão de alto a baixo abateu, avançou direita ao grupo, atabalhoada e
                    abstrata, com um ar sobrenatural e grandes olhos claros de vidente, prolongando,
                    de braços ao ar, o mórbido adelgaçamento das formas sumidas, toda a esmaída
                    anatomia do débil corpito negro patente a trechos, por entre os retraços, mais
                    negros ainda, da camisa.</p>
                <p>Tendo-a sentido, os quatro comensais voltaram-se; e seguiam com desgosto o
                    fantasmático arrastar daquela como que sonâmbula, que agora, com o rosto de cera
                    enrodilhado na mais aflitiva ansia, e apontando para um velho retrato de Vítor
                    Hugo que na salitrosa parede amarelecia, pregado junto ao candeeiro, rompera a
                    dizer:</p>
                <p>— Ali! Ali!... vejo muito bem... Eles lá vão! Adeus! Coitadinhos...</p>
                <p>— Que demónio está ela a bramar!? — exclamou, irritado e surpreso, o Manaio
                    atirando longe o garfo e dando um murro na mesa.</p>
                <p>Mas, sem o ouvir, a filha continuava, perante o silêncio pávido dos outros três,
                    a avançar para o retrato numa pungente hipnose de terror, com o cabelo ruço
                    voando em crispas de aflição, as mãos acolchetando o vácuo, os olhos brancos. E
                    lastimava convictamente:</p>
                <p>— São eles, são... E lá vão todos três... e nenhum deles volta!</p>
                <p>— Mas eles quem?... — disse o pai com império.</p>
                <p>— Ai a pobre da Ana, coitadinha!... — lamuriava ela, num profético alheamento. —
                    O teu Esticado ficas sem ele! Lá vai...</p>
                <p>— O quê!? Que raio diz ela?... — exclamou também, pondo-se de salto em pé, o
                    Serafim, com a face e os grossos lábios lívidos de terror. — Querem ver que isto
                    entende-se com os nossos irmãos presos!</p>
                <p>— Santinha! — balbuciou a mãe, de piedade.</p>
                <p>— Oh, longe vá o teu agoiro! — credulamente o Serafim tornava.</p>
                <p>A mãe, des nos olhos, tinha ido carinhosamente deitar-lhe pelos ombros o tramposo
                    xaile com que se cobria; enquanto, sem força para desarredar-se da mesa, a
                    subjugada e viva figurinha do Contrapeso repetia em contraturas maquinais da
                    expressão todos os gestos, momos e esgares da inculta pitonisa.</p>
                <p>— Ora este estupor que me há de sempre estragar o comer! — rosnava entretanto o
                    Manaio coçando ameaçador a gaforina.</p>
                <p>— Deixa-a... que até é um pecado! — defendeu a mulher.</p>
                <p>Mas o Manaio, com o olhar despedido rancorosamente à filha:</p>
                <p>— Raios te partam!</p>
                <p>— Dela tenha providencia Deus!</p>
                <p>— Ou o diabo!</p>
                <p>Agora a iluminada Chica, extaticamente, com as mãos juntas à frente do corpo
                    retesando os braços longos, imobilizara-se, e de olhos sempre na tisnada
                    gravara, como quem seguia de misteriosas peripécias o movimento, monologava um
                    rosário de orações com os lábios enternecidos.</p>
                <p>— Dá-me que cismar esta coisa! — murmurou abalado, de mão na testa, o
                    Serafim.</p>
                <p>— Parece que nos está a rezar os responsos... — acudiu o Manaio.</p>
                <p>E numa religiosa compunção o Contrapeso:</p>
                <p>— Está-me a ensinar o caminho...</p>
                <p>A mãe chorava sempre, silenciosamente.</p>
                <p>E no aterrado silêncio de todos quatro, daí a instantes, a Chica, sacudida num
                    estremeção nevrótico, desandou a rodar, atabalhoada e abstrata outra vez, pelo
                    acanhado recinto, agora a gritar e a correr, gemendo a espaços frases
                    destacadas, numa voz que não era já deste mundo:</p>
                <p>— Agarraram-nos e vocês deixaram-nos ir... tão cobardes uns comos outros! E os
                    padres e os grandes ficam-se a rir... Ninguém sabe o que quer... Os bichos no
                    mato são melhores!</p>
                <p>— Até parece coisa do demo! Deus Nosso Senhor me perdoe... — dizia a mãe,
                    estarrecida de pasmo, juntando as mãos.</p>
                <p>O pai, muito pálido, num colérico arranco, ergueu-se a tomar o passo à filha; e
                    num tom rude, apontando-lhe a enxerga, com os olhos chamejantes:</p>
                <p>— Rapariga! Que me levas duas cervejas... Anda-me lá para dentro! Cala-te!</p>
                <p>A Chica fitou-o com uma expressão idiota, e num rir de irreverencia, encolhendo
                    os ombros, ladeou o molosso, continuou a correr. Foi quando, impetuosamente,
                    cego de ira, o Manaio, indo-lhe na cola, breve a fisgou pela nuca, e
                    projetando-a de arremesso para o canto:</p>
                <p>— Ah, ele é isso?... Se eu já te disse aí!</p>
                <p>Ao cair, a escanzelada criança rangeu oco, como um molho de ossos; e ao embate do
                    esterno contra o soalho, um cavernar seco de tosse fê-la jorrar duas grossas
                    lufadas de sangue.</p>
                <p>Logo a mãe, logo o Contrapeso se abatiam lamuriantes sobre a vítima inconsciente
                    daquela barbaridade intempestiva, — aquela em pragas de execração, esta em
                    gemidos condoídos; e erguiam-lhe carinhosamente a cabeça, afagavam-na, limpavam
                    o sangue da sua branca figura, hirta e imóvel que parecia uma defunta. O
                    Serafim, dolorosamente embaçado, olhava as unhas, escorregando para a porta. E
                    num violento acesso de dor o Manaio, tomado de um supersticioso receio,
                    sinceramente arrependido, dobrava-se sobre o corpo inerte da filha também, aos
                    murros na cabeça, vociferando:</p>
                <p>— Raios parta minha vida!</p>
                <p>E com o mais religioso respeito, delicadamente, tomou a Chica em peso e, a
                    soluçar como uma criança, foi muito de manso acomoda-la na sua própria
                    cama...</p>
                <p>No domingo gordo, duas vezes fez o passeio lúgubre da ilha do Grilo ao alto de S.
                    João, a singela carreta negra da Voz do Operário. Para levar, primeiro, a Chica
                    da qual era voz corrente entre o povo que as brutalidades do pai tinham
                    abreviado a existência; e depois, vitimada pela discrasia galopante do desgosto,
                    a héctica e inconsolável Ana, com a filha mais nova, mortinha de inanição.</p>
                <p>E quando se sumiu à quina do largo da Belavista o rapadinho caixão com este duplo
                    despojo, então pode comovida a multidão ver sair da antiga habitação do
                    Esticado, e movendo-se com esforço, tomar em direção oposta, a grossa mulher do
                    Manaio, a desolada mãe da Chica, levando ao colo e beijocando, lavada em
                    lágrimas, a Idazita, que engalhava dizendo-lhe com ternura:</p>
                <p>— Anda comigo, anda comigo, filha! Foi um voto que eu fiz... Serás a minha
                    companhia... Não chores, anjinho, eu serei tua mãe!</p>
                <p>O Mateus seguiu escrupulosamente uma e outra ao cemitério, dizendo à beira das
                    sepulturas sentidas palavras que de roda as mulheres sublinhavam com soluços;
                    capitaneando doces ranchadas de crianças que foram juncar os dois humildes
                    covais de flores. Depois, de ambas as vezes que um triste dever o obrigou a
                    fazer o lúgubre caminho, também o Mateus aproveitou para ir cordialmente
                    afervorando, na cruel evidenciação daqueles dois exemplos, as libertarias
                    aspirações dos seus apaniguados; mostrando-lhes como, se eles se não resolvessem
                    afinal a sacudir o jugo, era inevitável o aniquilamento exaustivo da sua raça, e
                    sem esperança a sua servidão, o seu ladeiramento na miséria.</p>
                <p>Mas no meio da triunfante progressão da sua obra, quebrando-lhe a iniciativa e
                    invalidando-lhe o entusiasmo, a quando em quando um grave e profundo desgosto
                    lhe pungia... Para esse empreendimento colossal não achava suficientemente
                    batida a solidez estrutural da sua alma. Havia momentos em que a sensibilidade o
                    atraiçoava. Insidioso o coração batia e abria brecha na fria impassibilidade do
                    seu ânimo. Eram os nervos enleando-lhe o pensamento, enliçando-lhe a vontade.
                    Mortificadamente a lembrança, o cuidado, o amor de Adriana assediavam-no com
                    insistência, ao arrepio embora do seu desejo; vinham e travavam à generosa
                    querença do seu ideal a limpidez rasante da trajetória. Temia pela sorte dela,
                    Certo que a tenebrosa aventura em que tão empenhado andava, ele e os seus,
                    constituía para essa divina e singular criatura, produto exceção de uma casta
                    maldita, fatalmente um perigo... e este traço de piedade individual,
                    amolecendo-o, chegava a alargar o seu pernicioso influxo até análogas
                    considerações de ordem coletiva. Como se toda a sociedade fosse Adriana, nos
                    seus momentos de volutuosa desfalencia já o rendido coração do Mateus queria
                    poupar a sociedade! — e esta convicção trazia-o descontente.</p>
                <p>Quantas vezes, de noite, ao chegar ele a casa em demanda de repouso, vindo da
                    excitação enervante das associações secretas, todo vibrante ainda ao estimulo
                    dos inflamados discursos que acabara de proferir, das homilias candentes que
                    ouvira, do estrugir raivoso e insalubre da multidão, quantas vezes ele chegava
                    e, mal fechava a porta sobre si e a sua alma se sentia isolada, que logo, como
                    um vento de insânia, toda essa rebarbativa comoção se lhe varria para longe, e
                    era agora de Adriana a grande figura branca que vinha carinhosa insinuar-se-lhe
                    em todo o ser entronar-se-lhe no coração e num amavioso exclusivismo povoar o
                    seu espirito! — Ele queria reagir... obstinava-se sinceramente em ver se
                    conseguia afugentar esta dúlcida usurpação, este insidioso assalto, pela
                    rememoração entusiasta e incessante, pela quente visionação material das suas
                    mais recentes cenas e projetos de revolta. Mas sempre sem êxito... Essas suas
                    tão conhecidas impressões obedeciam, sim, ao aflitivo apelo; vinham umas após
                    outras, vagamente, recordações de datas, reconstruções de lugares, a bruta
                    expressão dos cúmplices, a mímica patibular da comparsaria... mas tudo isto era
                    frio, indeciso, efémero; desenhava-se um instante e logo se apagava,
                    progressivamente reduzido, como, num final poeirento de batalha, o enovelamento
                    instantâneo de um esquadrão que foge... E sobranceira e única, como uma imagem
                    de altar, a dominadora figura de Adriana ficava sempre, a auspiciosa estrela do
                    lugar, a imprescindível aza tutelar do solitário ninho, — firme e naturalmente
                    desenhada com familiar império.</p>
                <p>Mudava ele então, exasperado, de lugar, sacudia a cabeça, cerrava os olhos,
                    agitava diante de si as mãos como a repelir qualquer objeto importuno; mas todos
                    estes esforços saíam baldados contra um fenómeno cuja origem era toda
                    interior... De sorte que, por fim, o Mateus resignava-se. Deixando a alma
                    volutuosamente vogar ao delicioso embalo da emoção, procurava então, naquele
                    religioso isolamento, no tabernáculo ideal do seu amor, avivar os traços da
                    mulher singular que o prendera. E revia-os por trechos... ora o desesperava a
                    irresistível expressão daqueles lábios enigmáticos, infixavelmente raros,
                    intraduzivelmente lindos; ou voltava a sentir a ligeira pressão da mão dela no
                    seu ombro, quando saltara a cavalo; ou era ainda a lembrança do toque nervoso do
                    pé que tornava a acender-lhe uma impressão de calor nas pontas dos dedos...
                    Depois, progressivamente renhindo na sua doce evocação, ainda o Mateus queria
                    apreender melhor, fazer reviver ali, integra e completa diante de si, aquela
                    figura prestigiosa. E porque o não conseguia, desesperava-se também... Não podia
                    compreender como era que, revendo ele imediatamente, nas suas mais ínfimas
                    particularidades, os traços fisionómicos, a figura inteira de qualquer
                    conhecido, do primeiro indiferente que lhe lembrasse, — Jorge, o Azinhal, o
                    Anacoreta, o João, o Serafim, — só não fosse capaz de reconstituir mentalmente,
                    com a minúcia e nitidez que procurava, a única criatura que o interessava
                    realmente, que humanamente ele amava! — Porque não se dava bem conta, quando
                    afervorava nessa ardente evocação, da tímida perturbação da sua alma... A perda
                    da serenidade empanava-lhe a limpidez da impressão. Não há meio de encarar fito
                    o sol, ou de recortar no seu radioso deslumbramento a Divindade.</p>
                <p>Entretanto, muito havia que o contramestre invariavelmente mantinha a linha de
                    austera isenção, que a si mesmo se impusera, de não mais lhe falar, de a não
                    tornar a ver. Penosa e arrastadamente, por vezes com toda a dolorosa aversão de
                    um verdadeiro sacrifício, o certo é que continuara a furtar-se sempre a toda a
                    fortuita aproximação com Adriana, sob qualquer pretexto que fosse; e desde essa
                    vergonhosa cena do álbum que nunca mais a tornara a ver. Sentia-a vivendo ali
                    perto tele, despreocupada, feliz, independente, — e isto lhe bastava... Porém,
                    nesse fúnebre domingo gordo, ao entrar para a sua humilde casota, não teve mais
                    mão em si, foi à janela do norte e abriu-a, no deliberado propósito de ensaiar
                    se por um feliz acaso naquela marmórea sensaboria do Almargem não conseguiria
                    avistar alguém... A vidraça da primeira sacada da esquerda estava, como quase
                    sempre, fechada; mas na opulenta trepadeira que lhe fazia moldura e toldo,
                    começava risonho a pintar o roxo aveludado e fresco das primeiras glicínias; e a
                    caricia doirada do sol aquecia e alegrava as caliças seculares do palácio, como
                    que beliscando-o de alentos novos. Então o Mateus sentiu-se também
                    insensivelmente tomado desta comoção criadora, este ressurgimento primaveril que
                    entrava de fazer palpitar num claro rejuvenescimento todo o mundo exterior. Uma
                    epicúria beatitude, uma ansia de expansão deslaçava-lhe a alma... já dava razão
                    à inércia extática do índio… e então, para se defender do perturbador veneno,
                    cerrou num instante a janela e fugiu.</p>
                <p>Foi ao tempo que começavam a demanda-lo os mais íntimos e graduados caudinhos da
                    sua gente, conforme agora sempre aos dias de folga acontecia. Entre todos o
                    primeiro, o arguto e incansável Fagulha, espécie de lugar-tenente improvisado ás
                    suas múltiplas diligencias de conspirador e propagandista, o qual, à falta de
                    melhor, centralizava todas as funções, desde simples ordenança e estafeta até ás
                    de confidente, e por vezes de secretario; suprindo por uma grande perspicácia
                    natural a sua carência infantil de ilustração, e a sua rudeza e canhestro feitio
                    ingénito por uma ralé de dedicação inexcedível.</p>
                <p>— Trazia-lhe a correspondência mais recente recebida na rua da Glória, cartas
                    também das diretorias de alguns centros socialistas, e um recado urgente do
                    Tranca-ruas para aparecer no dia seguinte em Alcântara, onde ele, á! Hora da
                    noite, «havia de aproxima-lo das pessoas que sabia». Vieram ainda, o
                    contramestre da Vidreira; com o Manoel António, e mais alguns considerados e
                    temidos encarregados de várias oficinas, entre eles, pela primeira vez, o maior
                    agitador de Alhandra, olheiro havia longos anos na Companhia Fabril. O Serafim
                    trazia-lhe notícia de novas adesões. O Zanaga veio apresentar-lhe dois chefes de
                    oficina de uma grande marcenaria, aos Olivais, que tinha fechado de repente, os
                    quais, na aterradora previsão da fome, queriam não só oferecer ao Mateus os seus
                    serviço, mas punham também à disposição de qualquer tentativa futura de
                    movimento quantas garlopas, formões, machadinhas, serras, maços e mais
                    ferramentas havia na fábrica.</p>
                <p>Por fim, já sobre a tarde, veio também o João dos Unguentos, que, impaciente por
                    dar vantajosa prova das suas habilidades, reclamava com intimativa a fórmula do
                    explosivo. A sua inconsciência de charlatão era refrataria à consideração do
                    dano. Nivelava pela mesma recreativa inocência dos seus elixires a odiosa
                    preparação dessa grave droga homicida. A gostosa imposição do hábito e a
                    envaidecida prosápia dos seus méritos furtavam-no ao criminoso e bárbaro alcance
                    daquele desatino. Ficou pois sinceramente pesaroso quando o Mateus lhe disse que
                    ainda não estava de posse do maravilhoso segredo. Instou muito com ele para que
                    não largasse de mão o Gomes; depois, explicou com importância que até já tinha
                    para as suas novas manipulações adaptado uma parte importante do laboratório.
                    Betumara umas , das tinas, nivelara outras, pusera as torneiras a funcionar, e
                    comprara e instalara junto à chaminé um maçarico. E, interrogado para quê? — não
                    que ele tivera uma grande ideia! Ideia bem mais engenhosa e simples do que a
                    complicação das latas do italiano... Para que era precisa tanta madureza?...
                    Ele! Resolvi o problema muito melhor... Comprava-se uma porção de tinteiros,
                    destes grandes, redondos, de zinco, atirava-se-lhes para dentro com a tal coisa,
                    depois um pequeno taco, ligavam-se com arame soldado ao maçarico, e aí estava...
                    Dava uma coisa superior!</p>
                <p>E ali entreteve horas o João, esquecidamente, sempre que podia falando de si,
                    entrando com picante interesse nas combinações, por momentos dementado também na
                    assoladora vertigem de resoluções dos arruaceiros, de cujos tenebrosos planos
                    aligeirava o peso trauteando em surdina as suas modinhas favoritas.</p>
                <p>Quando chegou a casa, para jantar, era noite feita. E ali, mal subiu a escadaria
                    e transpôs o alpendre da entrada, viu logo na primeira sala, arrumada de
                    pachorra contra a secretária, a amasia, e junto delia a linha emaciada e esguia
                    do Contrapesos amarfanhada esta sobre o banco, como adormecida, com os olhos
                    mortais e pendentes num desalento os braços.</p>
                <p>— Salve-as Deus! Boas noites! — disse afável o João, atirando com o chapéu para
                    cima da mesa.</p>
                <p>E logo, correndo a envolvê-lo, a virago, num sonoro beijo:</p>
                <p>— Com efeito, juju! Cuidava que ficavas lá hoje...</p>
                <p>— Vontadinha ao jantar, hein?... Pois também eu!</p>
                <p>— Se te parece!</p>
                <p>— Bem, pega então nesse candeeiro, vamos! — ordenou o trampolineiro, tomando já à
                    esquerda, com rumo à cozinha; mas, atentando no Contrapeso: — E então esta
                    pequena o que é que quer?</p>
                <p>A amasia, benevolamente, sorriu; ele disse:</p>
                <p>— Quer comer também?... Que venha!</p>
                <p>— Agradecida... — balbuciou humildemente a arveloasita, erguendo-se, com as
                    grandes pálpebras roxas em repregos de tristeza: — Não tenho vontade... eu saio
                    já.</p>
                <p>— Deixa-te de asneiras, rapariga! Graças a Deus, chega bem... Anda daí!</p>
                <p>— Não vou, não, Sr. Joãozinho... — disse com delicada firmeza a predestinada
                    criança; e numa inflexão singular acrescentou: — Eu já comi o que tinha a
                    comer...</p>
                <p>— Que quer ela dizer?... Esta agora! — perguntou para a amasia o João.</p>
                <p>— Criancices! — explicou esta com maternal carinho.</p>
                <p>— Bera, mas então, se não vens, despacha-te! Que o meu estomago não está para
                    esperas.</p>
                <p>Timorata e gravemente, o Contrapeso adiantou-se, estendeu ao João o braço
                    direito, com um minúsculo retângulo de papel na mão.</p>
                <p>— Isto que é?...</p>
                <p>— O resto dos poses que fez favor de me dar.</p>
                <p>— Ah, sim... e então? — disse com lascarinho interesse o João, colhendo o
                    embrulho das mãos da rapariga.</p>
                <p>— Não fizeram nada!</p>
                <p>— Palavra?...</p>
                <p>— Nem me aparece! Deixou-me!</p>
                <p>— Vês?...</p>
                <p>— É sorte minha, senhor!</p>
                <p>— Ainda não é tarde... então?</p>
                <p>— Isso lhe disse eu... — observou de inteligência a amasia do João.</p>
                <p>Mas inflexivelmente a lograda amante do Ventura, afilando os grossos lábios, o
                    que quer que fosse de doloroso e irrevogavelmente assente endurecendo-lhe a
                    expressão:</p>
                <p>— Ah, não, não... eu já devia esperar... isto são favas contadas! E a minha jura
                    hei de cumpri-la!</p>
                <p>— Ergueu ao alto os macerados olhos negros: — Minha querida Chica! Não esperarás
                    muito por mim...</p>
                <p>— Não estás boa de cabeça!</p>
                <p>— Sabe? Eu ainda lhe misturei raspa das unhas dos pés... diz que é bom... mas foi
                    o mesmo que nada! — E num desalento mortal, encolhendo os ombros: —
                    Acabou-se!</p>
                <p>— Acabou-se o quê?... Não me sejas idiota! — reprimendou com doçura a mulher do
                    João, tomando o candeeiro de cima da mesa. — Homens há muitos.</p>
                <p>— Com aquele nenhum! — murmurou num convicto ardor a rapariga.</p>
                <p>— Então não querem ver?... Ora o fedelho!</p>
                <p>— Tenho mais pensar que muita gente grande...</p>
                <p>— Se todas as que ele enganou antes de ti fossem a fazer o mesmo...</p>
                <p>— E então?...</p>
                <p>— Não cabiam no céu!</p>
                <p>— Podiam fazer parelha com as onze mil virgens... do outro lado! — disse o João
                    lascarinamente.</p>
                <p>Festejou a amasia por um grosso rir esta laracha equivoca, e com um maligno
                    renovo de interesse, voltando a poisar o candeeiro, perguntou ao Contrapeso:</p>
                <p>— Olha lá... e a Chica viste-a?</p>
                <p>— Então não vi! Nem me quero lembrar... — disse logo a pequena, com uns olhos de
                    espanto e um frio de palidez mortal a macerar-lhe a epiderme alva e
                    translúcida.</p>
                <p>— E tiveste animo?</p>
                <p>— Eu nem sabia... Tinha lá estado a manhã toda e ninguém esperava aquela
                    fatalidade tão cedo. Vai, à noite, na minha simplicidade, voltei... Nisto,
                    entro, vejo-a morta de repente... a mãe a chorar para um lado, para o outro o
                    pai a arrepelar-se... Ia-me dando uma coisa!</p>
                <p>— Olha o milagre!</p>
                <p>— Fugi logo e larguei por essa rua fora, a gritar... mas não sei o que é que eu
                    tinha, que os pés escorregavam-me... parecia que me fugiam para ela. Era a pobre
                    da Chica, era, coitadinha! A chamar-me... Eu bem na entendo... — E agora,
                    entresilhando as mãos e erguendo ao alto numa supersticiosa fé os olhos
                    amauróticos:</p>
                <p>— Deixa estar!...</p>
                <p>— Mau! Que tolice é essa?... Volta a asneira outra vez?</p>
                <p>O Contrapeso com a melindrosa figurinha paresiada numa inflexibilidade de
                    predestinada, num fatalismo de instinto, sorriu tristemente. O João
                    considerava-a com respeito. A virago disse:</p>
                <p>— Vê se pensas noutra coisa... Agora morrer por uma coisa tão trivial!</p>
                <p>— Se eu não tenho gosto nenhum à vida!</p>
                <p>— Uma rapariga nova!</p>
                <p>— Também lhe garanto, — disse num ar de mistério o delicado pegulho. — Se o fizer
                    deixo sinal... Sabem-no logo!</p>
                <p>— Anda, meu pivete! Que te fecho à chave.</p>
                <p>— Ou entrega-se à polícia! — confirmou o João, um pouco desconcertado.</p>
                <p>— Bem me importava a mim isso! Queira eu... — disse obstinada a pequena. E com um
                    estranho ar de decisão, tomando à porta, de braços pendentes e a oblonga cabeça
                    desmanchada na sua habitual instabilidade: — Cada um é para o que nasceu!</p>
                <p>— Mas então, se assim estás deixada do mundo, como é que andas em visitas? Que
                    vieste aqui fazer?</p>
                <p>— Era uma das obrigações do meu testamento, explicou singelamente, num sorriso
                    crepuscular, a interpelada. — Vim trazer o que lhe devia.</p>
                <p>O João trocou com a amasia um comiserativo olhar, enquanto no apreensivo ranilhar
                    da testa lhe tremia pressagamente a gaforina.</p>
                <p>— Bem e então agora, adeus!? — disse a pequena. — Muito boas noites... — Apertou
                    a mão ao João, demoradamente, e depois, arrancando de ao pé dele, num mal
                    contida suspiro e, com a falia ogre des, acrescentou afável, a derivar: — E
                    então esse jantar, já passou a vontade?</p>
                <p>— Vamos já a ele! — disse a amasia do João, tomando o candeeiro outra vez e
                    seguindo atrás da rapariga.</p>
                <p>— Mãezinha, adeus! — disse esta, pendurando-se-lhe amorável do pescoço.</p>
                <p>— Espera, eu vou-te iluminar.</p>
                <p>— Não! Não! Muito obrigada... — acudiu com estranha vivacidade o Contrapeso,
                    sustando-lhe o passo. E nos grandes olhos faiscava-lhe uma aflitiva
                    contrariedade. — Não é preciso!</p>
                <p>— Ó filha, não me custa nada... podes cair.</p>
                <p>— Não caio... Eu conheço bem a escada. Não quero! Já lhe disse, não é
                    preciso.</p>
                <p>— Que teima! Ao menos, só aqui da porta.</p>
                <p>— Nem isso! Nada, não senhora... Olhe, com a sua licença... — E sempre com a
                    mesma expressiva o inflexível firmeza, deitando mão â porta, que fechou na noite
                    sobre si: — Adeus!</p>
                <p>Mal a obstinada criança desapareceu, logo a amasia do João, distraída do
                    incidente, voltava costas à porta e inquiria com interesse o homem:</p>
                <p>— Então, trazes a coisa?</p>
                <p>— Ainda não.</p>
                <p>— Diabo! Para quando se guardam?...</p>
                <p>— A culpa não é do Mateus, mas é que ainda lhe não deram a fórmula dos
                    ingredientes.</p>
                <p>— Vê lá no que te vais meter...</p>
                <p>— Não é o que tu pensas, descansa.</p>
                <p>— Pois sim, mas é que isto assim não tem jeito nenhum! — dizia a virago com
                    dureza. — Há aí muito Sicativo para fazer, e por causa dessas lérias tomos tudo
                    empatado.</p>
                <p>— Tem paciência, mulher...</p>
                <p>— A gente não pode star agora a perder tanto por causa das tintineiras de cada
                    um!</p>
                <p>— É para bem de todos, filha... deixa lá! — E com uns famintos olhos de piedade,
                    direito à cozinha: — Se tu me desses de comer!</p>
                <p>Tomaram então, mano a mano, os dois à calcinada porta da esquerda, enquanto ela
                    ia interrogando:</p>
                <p>— Que me dizes tu, hein? Ao desembaraço desta seresma?</p>
                <p>— Na minha vida nunca assim vi...</p>
                <p>— Estas raparigas de agora sempre são umas atordoadas!</p>
                <p>— Desta tenho pena... — disse o João com sinceridade. E de repente, parando,
                    assaltado por um funesto pressentimento: — Mas, espera! Tu sentiste-a
                    sair?...</p>
                <p>— Eu não.</p>
                <p>— Eu também não dei fé... O portão não bateu!</p>
                <p>— Isso é que a gente não fez reparo.</p>
                <p>Mas apreensivo o João, parado sempre, já alheio ao jantar outra vez:</p>
                <p>— Diabo! Não fosse ela fazer para aí alguma maluquice...</p>
                <p>— Que maluquice querias tu que ela aqui fizesse?</p>
                <p>— Ou deixasse o portão aberto...</p>
                <p>— Isso sim!</p>
                <p>— Homem... vai ver, vai ver!</p>
                <p>— Tu não estás bom... a rapariga pegou-te a doença.</p>
                <p>— Anda, mexe-te! Que senão vou eu! — com mandou o João com energia.</p>
                <p>Intimidada pela imperativa atitude do amigo, resolveu-se ela afinal a tomar à
                    porta; e em silêncio apalpou com o pé o lajedo e foi descendo com precaução a
                    escada, levando cuidadosamente a mão esquerda em pala à frente do candeeiro. Sem
                    bem saber-se dar fé porquê, também um vago receio agora a invadia. Recordava com
                    inquietação as estranhas palavras da pequena, o seu ar triste e decidido, o seu
                    obstinado empenho em sair só, e não achava para tamanha exaltação uma explicação
                    plausível. E perante o seu ânimo suspeitoso e bronco a hipótese do suicídio
                    adquiria foros de plausibilidade, formulava-se com terror... Chegada a baixo, ao
                    pátio, tinha um caminhar incerto por entre os cacos e o lixo, em que a cada
                    passo topava; e movia-se num supersticioso receio, como esperando ver de
                    improviso surdir qualquer coisa sobrenatural, o espetro álgido da morte, da
                    toalha lúgubre das sombras. Assim foi esquadrinhando timoratamente, a correr, ao
                    longo dos muros, as portas de todas as lojas, até que, na outra extremidade,
                    chegou junto ao portão que dava para a rua. — Tinha a tranqueta no seu lugar,
                    estava muito bem fechado. Por ali não havia novidade... Mas que entretidos eles
                    estavam, em cima, que o não tinham ouvido bater! — E agora já tranquila,
                    retirava, quando, ao passar cerca do poço, ouviu ranger a cremalheira de ferro
                    que corria na roldana. Teve um calafrio de susto, aproximou-se, e então viu, por
                    um momento, a corrente sacudida num violento estremeção que vinha do interior,
                    quem sabe se um sinistro estrebuchar de agonia... Aproximou-se mais, com os
                    cabelos em pé, com as mãos de gelo, e mal se afirmou que rompia a gritar
                    desapoderadamente:</p>
                <p>— Ai, ó João! Meu João! Vem cá, depressa... acode! Que grande desgraça! Avia-te!
                    Bem dizias tu... Traze uma corda, uma fateixa, uma escada… depressa! Valha-me
                    Nossa Senhora!</p>
                <p>Tinha ela visto os pequeninos chinelos do Contrapeso inexoravelmente alinhados na
                    borda do poço.</p>
            </div>
            <div>
                <head>CAPÍTULO XVIII</head>
                <p>Com os primeiros rebates primaveris do seguinte mês de março agravaram-se a
                    miséria, o abandono e o desconforto naquele arrebentado palácio do Marquês de
                    Vai de Madeiros, à Mouraria. A escabiosa ruina das suas paredes, o esbeiçamento
                    pelintra das cantarias venerandas, davam a diagnose exata do ignominioso
                    descalabro que lhe devastava o interior. Havia muito que o sostro e intonso
                    Marquês, este puro escanzelo social, a mais grotesca e pungente ironia à altiva
                    e isenta vaidade do fidalgo português antigo, deperecia irremediavelmente numa
                    galopante ruma física, numa abominável defeção moral. Á medida como a sua grossa
                    infeção podágrica avançava, e as diversas formas da litíase lhe oxidavam as
                    articulações e empederniam os membros, também do entorpecido cérebro o
                    funcionamento emperrecia e cada vez mais tardo, aberrativo e preguiçoso se
                    tornava. A degeneração trófica do organismo refluíra-lhe para uma como que
                    esclerose do pensamento; com a sua mórbida acidez embaciara-lhe a consciência e
                    brutalizara-lhe o instinto.</p>
                <p>Havia quinze dias que ele não saía do leito. Supinamente egoísta, como todo o bom
                    artrítico, frialão e insensível a todas as imposições, tanto materiais como
                    afetivas, do mundo exterior, tudo ele subordinava agora ao só instinto da
                    conservação. Tornara-se um glutão insaciável. Quando não gemia com dores, e a
                    implacável invasão da doença lhe concedia alguma generosa intercadência de
                    repouso, toda a sua preocupação, todo o seu empenho era mentalmente renhir no
                    modo de arranjar dinheiro com que mandar vir copinhos de cana branca e doce de
                    compota. E neste quase exclusivo cuidado fazia agora consistir todo o seu viver
                    inerte, todo o imperioso esforço da sua vontade, inútil e rebelde para tudo o
                    mais. Como um velho madeiro, ressequido e podre, recusava-se duramente ao
                    movimento o seu corpo salitrado de humores espessos. A mais insignificante
                    deslocação alfinetava-o de guinadas súbitas, era como um chuveiro de agulhas a
                    verminar-lhe agudamente as fibras. Como se então esse desmoronado arcaboiço,
                    estalidando em lascas, se partisse... O que obrigava o velhusco e intratável
                    Marquês aquela insofrida imobilidade, antecipação cruel do sono eterno, que com
                    a sua fatalidade irremissível lhe ia numa vertiginosa progressão inviperando o
                    sangue e tornando o trato irritante.</p>
                <p>Nunca o grande portão armoriado do velho solar fora tão mal frequentado como
                    agora. A cada momento vinham cocheiros, vinham credores, vinha toda a sorte de
                    gandaeiros, tunos e ínfimos vibriões das ruas, como deletérios gusanos em volta
                    de um cadáver, arrepanhar a sua parte no arrastado espólio de mais esta casa em
                    bancarrota de interesses e em liquidação de glórias. Vinham, audazes e ávidos,
                    ver se ainda haveria qualquer esquecido valor a fisgar, dentro desse enorme
                    casarão sem mobília abrigando um entrevado sem juízo. Vinham e transpunham com
                    insolência o aparatoso frontão dórico, evo quase de dois séculos, cujos leões
                    rompantes antigamente estavam afeitos apenas a ver passar sob as suas garras
                    senhoriais a linha arrogante dos senhores de prol e das donas de jerarquia; e de
                    cuja missão o atual abastardamento como que ofendia a sua impassibilidade
                    heráldica e lhes arrepiava a rigidez marmórea em indignados frémitos de
                    revolta.</p>
                <p>É de saber que o parasitário Marquês, forçadamente refugado para o isolamento
                    enfermiço do seu quarto, e quase sem descanso a braços com a sua hemosuria
                    dolorosa, não recebia ninguém também só muito raro saía dos seus aposentos uma
                    achacosa tia do Marquês, septuagenária e idiota, que, alheia por inteiro ao
                    mundo, sobre o inseparável vestido negro usando uma espécie de escapulário roxo,
                    da sua invenção, passava os dias invariavelmente a sonolear e a rezar. Com os
                    parentes nobres da casa tinha obstinadamente o Marquês as relações cortadas, e
                    havia ordem expressa para sob pretexto nenhum se lhes dar quartel. De sorte que
                    era um velho escudeiro da casa, — o Damião, — quem a todos os fregueses de agora
                    falava e atendia, quem regulava as transações, concertava os vários expedientes
                    trapaceiros e resistia à pilhagem, quanto possível. Agora, à falta de pessoa
                    legalmente mais idónea, era este, pela forçada contingência das coisas,
                    realmente ali o patrão e o arbitro, perante a inutilização formal do dono da
                    casa, e a inutilidade por igual completa da sua ataroucada parenta, a qual
                    levava a vida imobilizada numa apatia mansa de sáurio, os olhos e o entendimento
                    mineralmente fechados a toda a comunicação do exterior, submissa e dócil a tudo
                    quanto dela quisessem, contanto que a deixassem sossegadamente passar as contas
                    do rosário e dormir.</p>
                <p>Mas o pior era que as dificuldades, as precisões eram cada vez mais instantes. As
                    despesas seguiam sempre e a perdularia fonte com que as cobrir, estancara. Não
                    havia já que empenhar nem que vender. Esses trágicos salões estavam
                    completamente nus e começava a retrair-se de cansaço a caritativa munificência
                    dos amigos. — De todo o opulento recheio antigo do palácio restava apenas,
                    intata, a chamada sala do dossel, onde, nas grandes festas do período áureo da
                    casa, era recebida a família real. A esta sala o Marquês respeitara-a sempre,
                    considerando o seu desmantelamento como uma profanação. Ali a dentro dela
                    condensara e entronara ciosamente, como num relicário, os escassos restos do seu
                    pundonor de fidalgo. Uns últimos rebates de pudor atávico, o religioso freio da
                    tradição faziam quebrar-se diante da austera solenidade dessas paredes o frialão
                    cinismo do seu dono, tornavam para o vandálico ataque a sua vontade impotente.
                    Assim, nas suas mais angustiadas crises de penúria, se por acaso a tentação o
                    assaltava de desfazer-se por último daquela redentora soma de valores, ele
                    repelia-a, indignado e pronto, num instante. Nesse sentido resistiu sempre,
                    inflexivelmente, ás tentadoras propostas de vários mercadores de antiguidades,
                    ás mais fulgurantes seduções da ambição, do gozo e do dinheiro.</p>
                <p>O palácio da Murtosa, apesar das suas enormes dimensões, não era facilmente
                    percetível, entaliscado como se achava numa das imundas ravinas daquele bairro
                    mesquinho e insalubre. Datava a sua fundação do século XIII, ordenada e paga
                    pelo seu primeiro senhor, um dos do conselho privado d’el-rei D. Afonso m.
                    Depois, o terremoto de 1755 aluíra-o quase por completo, e da sua posterior
                    reconstrução resultara a incaracterística sensaboria da fachada atual. Era
                    preciso transpor o grande portão heráldico dos leões para a avistar. Este
                    portão, perdido e refugado na sombra bafienta de um recanto de duas vielas,
                    rasgava-se, singelo e único, na pesada monotonia de uma grossa parede, toda de
                    pedra e lisa, apenas com um renque de simulacros de janelas esboçadas no
                    ressalto das padieiras. Mas, entrado o portão, avistava-se então um extenso
                    pátio, ao longo do qual, pela esquerda, se desdobrava a linha monacal do
                    palácio, e no termo a capela; vendo-se do lado oposto um troço de construções
                    irregulares, que eram as abegoarias, armazéns, palheiros, cavalariças e
                    cocheiras; e ao fundo um barracão que fora picadeiro, e um gradeamento abrindo
                    para um trecho escasso de jardim.</p>
                <p>Em cima, correndo a frente de todo o andar nobre, estendia-se a filada imponente
                    dos salões, agora em osso, com a cama dos rodapés de azulejo a descoberto, do
                    teto descendo, verticais, varões inúteis, grandes escapulas comidas de ferrugem
                    pelas paredes, pregos com restos de tapeçarias, molduras com estilhas de
                    espelhos. Totalmente desmantelados... Apenas, no topo do último, restava
                    respeitada e perfeita a aludida sala do dossel, fazendo com tudo o mais um
                    doloroso contraste. Fora-lhe religiosamente conservada a feição austera e
                    principesca, a sua integridade de exceção, como se majestática ali pairasse
                    ainda a sombra Augusta das pessoas reais, quando elas se dignavam vir honrar com
                    a sua presença os serões magníficos do palácio. — Ela era uma deliciosa e rica
                    peça histórica, puro espécimen desse estilo de fins do século XVIII, tão bera
                    caracterizado pela transição do abastardamento estético da época Luís XVI para o
                    neoclassicismo do primeiro Império. Tinha a forma retangular, com os quatro
                    ângulos quebrados por arcos de elipse e vazados em portas, envernizadas a branco
                    com filetes de oiro nas almofadas. O teto, convexamente erguido em baú, era de
                    estuque branco, todo numa cercadura sóbria, em laçarias e singelas grinaldas
                    pintadas a fresco, que amorinhos de gesso sanefavam. Este mesmo era o estilo do
                    rodapé e das sobreportas. As paredes eram forradas de precioso damasco antigo,
                    de seda fulva, expluindo flores. Sobre os finos tremós de acaju, com tampo de
                    mármore e os pés linearmente afusados, não havia uma única bugiganga ou
                    minúscula obra de arte, mas apenas ricas serpentinas de bronze cinzelado,
                    análogas aos candelabros que poisavam aos cantos, sobre plintos de ébano, bem
                    como aos que arrancavam a meio das paredes e faziam apurado circuito ao grande
                    lustre de pingentes de cristal. Finalmente, na parede fronteira à sequencia
                    imponente dos salões, avultava ao alto o chapitéu de um elegante dossel, de
                    damasco carmesim, com fartas cortinas do mesmo estofo abrindo aos lados, o qual
                    abrigava neste recinto de honra um aparatoso divã com almofadões de brocado; e à
                    frente deste, completando o severo arranjo da sala, estendia-se um sumptuoso
                    tapete oriental, todo em caprichosas sinuosagens polícromas saltando sobre um
                    fundo carmesim também, e que adoçava com a sua macia mancha a fria tonalidade do
                    mosaico encerado, de madeiras tropicais, do pavimento.</p>
                <p>Era esta pequenina e inédita maravilha o único compartimento ainda íntegro e
                    interessante do palácio. Sobre ele incidiam pois, e cada vez mais bastas e
                    insistentes, as esperanças, os lanços e as pretensões dos vários mercadores do
                    género. De algumas sabidas casas da rua de Santo Antão e Avenida choviam todos
                    os dias ofertas, relativamente vantajosas. Havia também propostas de
                    estrangeiros. — O mais tinha sido tudo impiedosamente disperso e bruta e
                    levianamente cedido ao desbarato, por irrisórios preços de que uma quantiosa
                    parte ainda ficava nas mãos dos intermediários. Tudo, desde as deslumbrantes
                    decorações e estofos que vestiam os salões de receção, até à custosa mobília em
                    carvalho entalhado que guarnecia a sala de jantar, e os aparadores ajoujados de
                    profusão de pratas lavradas e translúcidas louças do Japão, Saxe, Sévres e
                    Viena, algumas brasonadas; até uma afamada coleção de faianças, entre as quais
                    algumas de Wedgood, todas elas de altos preços; até ás mesmas altaias e para
                    mentos da capela. Assim, a delapidação não conhecia termo, porque a dissipadora
                    voragem não tinha fundo. Apenas tinham sido poupados, além da sala do dossel, os
                    aposentos particulares do Marquês e da tia, e as humildes acomodações dos
                    criados.</p>
                <p>O desmantelo afinal daquela última e tão apetecida peça estava naturalmente
                    indicado, parecia inevitável e fatal. A cada momento assediavam nesse sentido o
                    meticuloso espirito do escudeiro, com toda a ordem de pressões e instancias. —
                    Era uma teima estúpida! Tinha ali o Marquês para o resto da sua vida... O valor
                    de contos de réis! — Mas, inflexível, o cauto velho resistia sempre, fazendo um
                    caso de consciência do acatamento formal aos sabidos sentimentos do Marquês, seu
                    amo. — Nem a este ousaria falar em tão bárbaro sacrilégio, nem também ele pela
                    sua parte teria a coragem de lhe tocar... Escondera até as chaves do
                    compartimento cubicado, receoso de que a gananciosa ambição de algum mais
                    atrevido o levasse a alcançar pela força aquilo que por jeito ele
                    intransigentemente recusava.</p>
                <p>Numa linda manhã em que o pobre e aflito Damião, sem cinco réis de portas a
                    dentro, precisava de mandar com urgência à botica, apareceu-lhe, com o Cara
                    linda e mais outro boleeiro, o Cavalinho-mosca, cuja boémia multiplicidade de
                    funções o tinha feito, já de há muito, íntimo da casa. E então, como o
                    valetudinário serviçal, desalentado e triste, se lastimasse, o Cavalinho-mosca
                    teve uma ideia genial.</p>
                <p>Aproximou-se do velho com iluminada intimativa, e algareiro e esperto, bolinando
                    o busto, piscando malicioso os olhos:</p>
                <p>— Ó amigo Damião, oiça lá! E se você?... — E todo na envaidecida fruição do
                    próprio pensamento, interrompia-se, a esfregar as mãos e a rir, muito
                    contente.</p>
                <p>— Se eu o quê?... — interrogou o escudeiro com interesse.</p>
                <p>Os outros dois, também com a curiosidade estimulada, aproximaram-se. E o
                    irrequieto e pequenino tuno, num salto sugestivo:</p>
                <p>— Vamos dar aqui um baile campestre?...</p>
                <p>— Tu estás doido!?</p>
                <p>— Ágora estou! É o tempo... cai aí gente em barda. Um resultadão!</p>
                <p>O Cara linda e o companheiro acenavam aprobativamente. Mas, indignado, o
                    Damião:</p>
                <p>— Isso não pode ser... O Sr. Marquês consentia lá!</p>
                <p>— Ele escusa de saber! — acudiu, de olho gázeo, o Cara linda.</p>
                <p>— Está visto! — reforçou o amigo.</p>
                <p>Entretanto o azougado propulsor da ideia, com um misterioso ar, o longo rosto de
                    símio aquecido por uma sagacidade perversa, voltava a insistir:</p>
                <p>— Eu ainda lhes não disse o meu pensamento todo... — Interessadamente os outros
                    apertaram círculo; e ele, a impar de importância: — Aanh! Isto tem de ser um
                    baile que dê brado... uma coisa de estalo, sensacional, catita... como nunca se
                    viu!</p>
                <p>— Mas qual baile nem qual diabo! — vociferava exasperado o velho.</p>
                <p>— Homem, cala-te! — gritou o Cara linda, — deixa ouvir!</p>
                <p>O do baile disse:</p>
                <p>— Arma-se aí assim ao fundo do pátio um grande estrado, com degraus...</p>
                <p>— Para a música?...</p>
                <p>— Sim, a música, em baixo... — continuava a aclarar o tagarela, sempre num tom
                    progressivo de importância, pausadamente, assentando uma das mãos em concha
                    sobre a outra e baixando a voz. — Mas em cima fecha-se com ripas uma espécie de
                    camarim... bem alto... forra-se com as sedas da sala rica... pespega-se-lhe em
                    cima com o dossel, os coxins, as velas, as colunas...</p>
                <p>— Bem digo eu que este homem está doido!</p>
                <p>— E põe-se a fidalga velha a presidir!</p>
                <p>Uma gargalhada retumbante dos dois cocheiros vitoriou a ideia, que o lascarinho
                    atirara com calorosa audácia, alargando de roda do pescoço o cache-nez.</p>
                <p>— Não pode ser! Isso não pode ser! — protestava o fiel serviçal, de mãos na
                    cabeça.</p>
                <p>— Ó meu tanso e porquê?...</p>
                <p>— O fidalgo, lá ralado a curtir as suas dores, nem dá fé...</p>
                <p>— Ora e o que ele quer é massa!</p>
                <p>— Pois que rica massa que isto dava! — disse a sugestionar o Cavalinho-mosca. E
                    acotovelando os cocheiros, persuasivo, com os olhos reluzentes:</p>
                <p>— Hein?...</p>
                <p>— E a velha estará pelos autos?</p>
                <p>— Oh, essa é de gesso!</p>
                <p>Perplexo e abatido, o Damião ruminava a ideia, e num começo de transigência
                    objetou:</p>
                <p>— Mas nem a gente pode mexer nas alfaias e mobília da sala.</p>
                <p>— Então porquê?...</p>
                <p>— Estão hipotecadas ao Banco ali debaixo, à Sé.</p>
                <p>— Oral bem sabem disto os do Banco. Tu não os convidas...</p>
                <p>— Nem a gente estraga coisa nenhuma.</p>
                <p>— Pois já se deixa ver!</p>
                <p>E tentador insistia o fura-vidas:</p>
                <p>— Então, vá feito?... Que dizes, meu salsa?</p>
                <p>Empolgados, os cocheiros batiam palmas.</p>
                <p>— Valeu! Valeu!</p>
                <p>O caso foi que o Damião teve que irresistivelmente submeter-se ao macabro plano
                    dos outros dois. Ele era, na verdade, tentador; e por mais que o honrado servo
                    na sua acomodatícia consciência esquadrinhasse, não encontrava embaraço de maior
                    a invalida-lo. Nada se destruía, nada se arriscava de valor; as tapeçarias ricas
                    voltavam depois ao seu lugar, e o cangalho velho da fidalga até havia de achar
                    graça àquela sua improvisação patusca de rainha. Não havia nada perdido. Pelo
                    contrário, havia imenso a ganhar, porque o inédito carater da diversão devia
                    trazer àquela ardilosa armadilha uma concorrência doida. Quem não aproveitaria a
                    ocasião para, à troco de uma bagatela, invadir e profanar aquele recinto defeso,
                    irmanar-se por momentos, na fruição do mesmo privilegiado espaço, com os desdéns
                    senhoris da fidalgaria, e meter olhos bisbilhoteiros nas vedadas magnificências,
                    nas misteriosas lendas do palácio?... E o Marquês escusava de saber toda a
                    verdade. Informava-se apenas do baile, mas sem os pormenores decorativos que
                    eram todo o orgulho dos organizadores e em que residia todo o segredo do seu
                    êxito. Mesmo porque, naturalmente, ainda que o exaurido fidalgo alguns melindres
                    ou dúvidas manifestasse, saberiam eles muito a tempo cobrir-lhas com o argumento
                    sonante do resultado.</p>
                <p>— Era este um dos tais casos em que os fins justificavam os meios. Mãos pois à
                    obra!</p>
                <p>Uma bela manhã, veio um troço de carpinteiros e com meia dúzia de apodrecidos
                    pranchões e velhas ripas, desencafuadas das abegoarias e cocheiras, armaram um
                    grande estrado ao fundo do pátio, parte encostando ao picadeiro, parte à grade
                    do jardim. Tinha um primeiro degrau à frente, alto de um metro sobre o solo,
                    largo bastante que desse cabimento aos músicos; e depois, outro metro mais
                    acima, um amplo o tablado com três faces fechadas e teto, formando camarim. Ao
                    mesmo tempo, em cima, na sala do dossel, alguns antigos serviçais da casa,
                    chamados sob promessa de espórtula, atacavam sem piedade o quietismo e a
                    majestade secular das guarnições; e era para eles motivo de grossa galhefa a
                    caça mortífera que iam fazendo na infinidade de baratas e ratazanas, pelo seu
                    picar iconoclasta desaninhadas. Assim, com um grande e atropelado aparato de
                    cordas, serrotes, martelos e escadas, foi o aristocrático dossel apeado, foram
                    colhidos os preciosos panos de seda das paredes, que esgarçavam a trechos, onde
                    havia manchas podridas da humidade, e que, quando não cediam facilmente, os
                    assalariados vândalos arrancavam à força de rasgões. E um vivo e insalubre
                    prazer os enardecia nesta faina irreverente. Ela era como que a sua vingança de
                    humildes. Esta última enxadada de achincalho no poderio secular de um grande
                    acendia-lhes na alma um clarão perverso.</p>
                <p>Atormentado e nervoso, num vago desgosto, o Damião acompanhava da porta da sala
                    com a vista aquela demolição sacrílega, batido de negras duvidas, tomado a
                    instantes de um frio instintivo de remorso... e, sobre tudo, atento sempre a que
                    não viesse o amo, por milagre e para cúmulo de azar, por aí assim aparecer! Por
                    fim, dossel, panos, tapete, tremós, espelhos, candelabros, tudo foi trazido para
                    o pátio, numa algareira confusão; e desde esse momento solene o portão dos leões
                    passou a manter-se invariavelmente fechado a indiscretas vistas do exterior.
                    Enquanto prosseguia, sob a direção esfervilha do Cavalinho-mosca, o revestimento
                    e armação do camarim do estrado, cujo vértice, ao cabo de dois insanos dias de
                    trabalho, se aprumava altivo no espaço, numa linha arrogante de trono
                    principesco, muito acima da aresta do telhado do picadeiro. Contra este lhe
                    aplicaram posteriormente algumas escoras. Galhardetearam-no de bandeiras. O
                    Marquês, já anteriormente exasperado pela forçada imobilidade no leito,
                    enfureceu-se com o desacostumado ruido, e ao notar a sua insistência, mandou
                    entre obscenas pragas de arrelia chamar o escudeiro, que era quem lhe havia de
                    explicar... quem havia de responder por aquela pouca vergonha. — Porém quando o
                    Damião veio e meio engasgado, ensaiou uma explicação ao caso, gradualmente o
                    Marquês, de principio surpreso, foi desanuviando, e já aplaudia enternecido a
                    ideia, e num orgasmo de comoção, filho daquele seu esfacelamento de ruina, disse
                    — que se pudesse sempre havia de ir ver... e chorava de gratidão.</p>
                <p>Entretanto, correu logo boato da extraordinária festa em embrião, o que trazia em
                    alvoroto todo o bairro. Os anúncios nos jornais fizeram o resto. De sorte que,
                    logo ao anoitecer do sábado, 9 de março, — o dia aprazado para o primeiro baile,
                    — muito antes de começarem a acender-se as luzes, já era assaltada por uma
                    turbamulta, selvagem e implacável na sua avidez, o canzil em forma de chalet
                    que, à boca do portão e assente sobre um cavalete, fora improvisado em
                    bilheteira. Travavam-se ruidosos conflitos na impetuosa ansia deste assalto
                    brutal, em que os pávidos gritos das mulheres sobressaíam. Chegou a haver
                    atropelamentos, surdas escaramuças a soco, fatos rasgados, cabeças partidas.
                    Teve que vir regularizar a venda a polícia. — Dentro, o vasto recinto encheu-se
                    num instante. De espaço a espaço, marginando a esquadria pouco regular dos
                    prédios, havia postes ligados por fio de arame com balões venezianos suspensos,
                    e tendo no topo acesos grandes fachos de petróleo, cuja luz fumarenta arrastava
                    alucinadamente pelo ar o vento áspero que fazia. Pela frente da linha dos postes
                    corriam bancos. A uma das cocheiras encostava uma barraca de bebidas, iluminada
                    por dois lampiões de caserna e forrada de chitas de feira trapejando ao vento. E
                    em pouco tempo a multidão, impetuosa e compacta, tinha invadido tudo... uma
                    sostra multidão tresandando a vicio, sórdidos exemplares dos mais ínfimos
                    escalões da miséria, vadios, marujos, loureiras, faias, o escol da boémia
                    patibular do sítio, em cuja promiscua confusão davam um tom de realce, punham
                    uma nota que poderíamos dizer aristocrática, os militares, os estudantes e os
                    caixeiros, os artífices sem préstimo e as costureiras sem fregueses. Tudo isto
                    bravamente esfuriando e dançando, dando-se afáveis cotovelões, bebendo, pulando,
                    conjugando nos seus termos mais triviais as várias formas da bestialidade
                    humana: tudo na pleniposse desta barata saturnal deslocando-se em cabriolas,
                    esgares, gestos e atitudes cujo grotesco horror em grande parte se perdia,
                    delido no asfixiante fumaçar do pó, na fuliginosa pulverização do fumo.</p>
                <p>E a tonta parenta do Marquês lá veio, muito do seu gosto, presidir. Foi trazida
                    em amável charola, pelo Damião e o Cavalinho-mosca fazendo cadeirinha das mãos,
                    para aquele deslumbramento de luzes e brocados, do estrado. A multidão deu-lhe
                    palmas, saudou-a com vivas ao vê-la aparecer. Muda e impassível, a doce
                    mentecapta subiu, e, sentada sobre o divã ao fundo do camarim, imobilizou-se
                    numa rigidez hierática, num alheamento vago de sonho, enquanto lhe iluminava a
                    expressão um místico ar de beatitude. Era uma santa num altar. Os pares
                    amorosos, os satíricos ranchos do baile vinham a cada momento e paravam diante
                    do estrado, a contempla-la, tomados de um religioso respeito, principalmente as
                    mulheres. Penetrava-os de submissão e espanto o espiritual ascetismo daquela
                    figura serena e imóvel, contrastando pelo seu brilho transcendente e frio, como
                    de um astro, com a magnificência pagã em volta, as mordeduras fulvas das sedas e
                    a quente irisação dos lumes resplendentes. Intimidava-os o alto e invariável
                    desdém do seu rosto apático, cortado fundo dos anos, de uma alvura estranha de
                    fantasma, a mover sempre impassível o rosário entre as mãos de cera... Mas, pela
                    noite adiante, a permanência da estranha fidalga no seu posto familiarizou-os
                    com ela. E da familiaridade breve descambaram na irreverencia. Agora os mais
                    birbantes do vulgacho falavam-lhe de baixo, ao passar, tratavam-na por tu,
                    punham-lhe alcunhas chulas, citavam-na como a um toiro, atiravam-lhe os chapéus,
                    acenavam-lhe com as mãos. — O ídolo de há momentos tornado um bonifrate.</p>
                <p>Porém, como o vento era muito, veio o momento em que as velas de um dos
                    candelabros, obliquamente projetadas de encontro a uma das cortinas do dossel, a
                    incendiaram. E daí o fogo alastrou e subiu num instante. Mal tinha ainda tido
                    tempo apavorada a multidão de dar conta do desastre, que já as labaredas em
                    grossos rolos lambiam e comiam por completo aquela improvisada armação de feira.
                    Não se poupou uma tabua, não escapou um fio. Assim terminou bruscamente a festa.
                    Os estúrdios grupos chocavam-se em todas as direções, como vagas batidas do
                    vendaval, erguendo um alto e clamoroso alarido, demandando a saída numa grande
                    debandada de pavor. Quando a primeira bomba de incêndio chegou, a decoração
                    pelintra do camarim estava reduzida a cinzas.</p>
                <p>Jorge Meireles, que, por ter visto o anúncio do baile nos jornais, correra à
                    Murtosa na justiceira disposição de protestar indignado e fazer cessar,
                    empregando a violência se tanto fosse preciso, aquela bambochata, chegou justo
                    ao tempo de, escalando ousadamente o braseiro, salvar a espantalhada tia do
                    Marquês. Não sem grande relutância por parte dela, que, ao sentir-se de perto
                    envolvida pelos rodilhões das chamas, ria beatificamente e, longe de fugir,
                    apegava-se em êxtase aos toros das ripas que estalavam, clamando — que queria
                    ficar ali... que estava já no Purgatório.</p>
                <p>Mortal e intraduzível desgosto foi, no resto da noite e dias seguintes, o do
                    velho e fiel Damião.</p>
                <p>— Que tremenda desgraça aquela! Quem havia de futurar?... Até parecia castigo do
                    céu! Como havia de ele agora remediar o mal, restituir à sala a sua antiga
                    riqueza, ali num instante estupidamente perdida?... E, se o Sr. Marquês
                    melhorava, que contas lhe havia de ele dar de tão criminoso desacato? Que havia
                    de fazer à sua vida?... — Estas e outras semelhantes considerações afogavam-no
                    de remorsos, baralhavam-lhe as ideias num pavoroso dédalo para que não tinham
                    capacidade de resistência bastante os acanhados limites da circuição do seu
                    espirito. Então, no isolamento contrito da sua dor, desatava-se em raivosas
                    imprecações contra os malignos sugestionadores do seu crime, chegava a aceitar
                    como recurso único a solução do suicídio.</p>
                <p>Mas permitiu a sorte que esta sua pungente atribulação se não prolongasse por
                    muito tempo. A ruina patológica do Marquês, na sua progressiva assolação,
                    caminhou rapidamente. Avançando no sentido lateral, pelo engrossamento
                    degenerativo dos humores a hemiplegia foi-se generalizando, até empedernir-lhe
                    também o coração e pôr-lhe termo à vida. O que constituiu para o desolado
                    escudeiro, no meio de todo o seu saudoso afeto, um enorme alívio.</p>
                <p>Concertado modestamente o enterro, por subscrição, alguns raros amigos do Marquês
                    trouxeram de motu espontâneo à Murtosa, junto com o seu óbolo, o piedoso
                    concurso da sua presença na fúnebre homenagem. Entre estes, virara naturalmente
                    Afonso e Jorge Meireles, os quais bem admirados ficaram quando, contra a sua
                    espectativa, começaram a notar nas proximidades do velho e desmantelado solar
                    uma desusada afluência de trens, logo enchendo compacta, em baixo, o largo do
                    Poço do Borratem e estendida ainda pela ladeira da calçada do Caldas. Os últimos
                    chegados já não puderam passar do Rossio.</p>
                <p>— Era pois positivo que o seu desditoso amigo ia ter afinal um acompanhamento
                    imponente. A despeito de todo o rebaixamento do seu crapuloso viver, ainda tinha
                    consideração, ainda tinha prestigio... Um desgraçado, coitado! — E esta
                    observação calava na pesarosa alma dos dois senhores do Almargem como um
                    balsamo, era um traço de reconhecido orgulho legitimando a sua camaradagem
                    póstuma, atenuando o enternecido espinho da sua dor.</p>
                <p>Mas ainda aqui nova surpresa esperava os dois... Do grande portão do pátio a
                    dentro eles não viram quase ninguém. Subiram, estranhos do fato, ao andar nobre,
                    e aí verificaram a mesma significativa e estranha solidão. Natural seria que
                    todos quantos tinham ali afluído para incorporar-se no fúnebre saimento,
                    subissem a inscrever o seu nome no registo lutuoso daquele ato, ou a deixarem o
                    seu cartão… E todavia não se via o menor sinal deles... não aparecia, não se
                    inscrevia ninguém. — Estariam de roda do ferreiro, na capela?... também não. Era
                    singular!</p>
                <p>Chocado pela estranha e incompreensível anomalia, disse Afonso Meireles para o
                    filho:</p>
                <p>— Mas onde diabo se meteu toda esta gente?...</p>
                <p>— Isso pergunto eu! Não percebo nada.</p>
                <p>— Só se estão já dentro dos trens.</p>
                <p>— O quê!? Logo todos... — contestou Jorge. — Era lá possível!</p>
                <p>E incertamente, interrogando-se a espaços com os olhos mudos, muito intrigados,
                    pai e filho seguiram a tomar no cortejo o seu lugar.</p>
                <p>Então, quando este se pôs em marcha, tiveram finalmente a chave do enigma. — O
                    préstito era quase exclusivamente formado pelos mesmos cocheiros, — os mais
                    assíduos e diletos amigos do Marquês, — os quais tinham vindo em massa e do alto
                    da boleia comboiavam gravemente, nesse original e interminável séquito, as
                    traquitanas vazias.</p>
            </div>
            <div>
                <head>CAPÍTULO XIX</head>
                <p>Já por esse abril em fora, numa linda manhã, clara e cantante, erguera-se o
                    Mateus um pouco tarde, num amnesiamento animal, rendido de fadiga. Abatia-o um
                    grande peso inerte, sentia-se cansado. Durante as últimas semanas a sua
                    atividade atingira um desdobramento inverosímil. Ainda na véspera, quase toda a
                    noite levara em claro, primeiro discursando e ouvindo, dando instruções e
                    distribuindo conselhos, no conhecido centro da rua do Bem formoso; depois finque
                    e esperto ali assim, à sua banca de trabalho, amadurando resoluções e espertando
                    energias novas. De sorte que, ao deitar-se, tomara-o uma prostração mortal, que
                    era a logica reivindicação do seu organismo extenuado. E agora o seu despertar
                    fora arrastado e lento, como se, falto ainda de repouso, o corpo lhe quisesse
                    naquela madorna de réptil furtar-se indefinidamente à vida. — Para mais, era
                    domingo, não tinha que fazer na fábrica. Isolar-se-ia... e bem o precisava, que
                    tinha tanto que concertar e prevenir!</p>
                <p>Ergueu-se devagar, com o cérebro toldado ainda e confuso, sujo dessa como que
                    saburra espiritual que se segue ás noites mal dormidas; e, tendo notado a
                    amenidade do dia, depois de fazer as suas elementares abluções matinais, foi à
                    janela do norte, junto aos pés da cama, e abriu-lhe de par em par a vidraça.
                    Atraía-o epicureamente o estimulado brilho que ele via fora vivificando a
                    Natureza, queria entregar-se também à embriagante irradiação do exterior. Não
                    era agora só a sua carne quê reclamava a volutuosidade do remanso, mas também a
                    sua alma anceiando pela beatitude do prazer... E, fora, o espetáculo era
                    realmente soberbo, desafiava pela sua maravilhosa e ridente harmonia uma
                    contemplação enternecida. — O sol ia alto e chocava sob a sua aza de oiro o
                    palpitante renascer das coisas. Pelo suave ladeirar da encosta que se erguia na
                    frente do Mateus, jorrava abundantemente a seiva, espolinhava-se a vida
                    alegremente, num luxuriamento pagão, em plena orgia de tons e de perfumes;
                    exuberante sinfonia em todas as imaginadas gamas do verde, ora cavada em
                    bucólicos ninhos de sombra, ora clara e vibrante nos arredondamentos tenros do
                    arvoredo, que o sol toucava docemente. Pelo sopé das árvores os tabuleiros,
                    verdes também e lançados ao acaso, alfombrando de capricho a terra, tufavam com
                    arrogância, arterializados de cicas e begónias, debruados de hera, fetos, catos,
                    violetas e hortênsias. E a cambiante harmonia deste mar de esperança, que vestia
                    totalmente aquele espaço imenso, — desde a orla crepuscular da fábrica, em
                    baixo, até ao antigo moinho, improvisado em mirante ameiado, que coroava a
                    colina, com as suas bandas escarlates a rir por entre os pinheiros, — toda era
                    nitidamente polvilhada por uma grande variedade de cores, em pinceladas leves,
                    cores delicadas e saltantes, cores que davam frescura. Predominava o branco,
                    riscado primeiro pelos troncos das árvores, bastos e afusados como tubos de
                    órgão, — os troncos brancos, bandados de manchas de cetim, das ginjeiras, o
                    branco seco das faias, o branco sujo dos plátanos, de muitas variedades de
                    ficas, das magnólias e das tílias; depois, o branco marmóreo ainda de algumas
                    camélias (plena alba), as radiolas minúsculas dos <seg rend="italic">pitósporos
                        mitecus</seg>, o recortado deslumbramento dos malmequeres, e a ténue e
                    efémera inflorescência, branca também, das macieiras, pereiras e nespereiras,
                    embebedando estas o ambiente com o seu perfume pecaminoso e ardente. Mas havia
                    também a macieza aurorai das roseiras, o sangue das azáleas, o luto dos goivos,
                    o oiro petulante dos amores-perfeitos, o esmaiado verde das faias e ulmeiros, e
                    a carnuda flor magenta dos pessegueiros e das olaias, que com uma parcimónia de
                    japonismo galante apenas peneiravam ao de leve, aqui, ali, em finos matizes, a
                    alva bordadura daquele amplo brocado verde.</p>
                <p>Deliciadamente, o Mateus enristava a alma e deslaçava os nervos no saborido exame
                    deste trecho de paisagem encantadora. Havia estalidos genésicos pelo bosque;
                    como que se via, instante a instante, crescer e definir-se no azul o emaranhado
                    recorte das folhas. O cantado trinar das águas confundia-se com o fluido
                    gargantear dos passarinhos. E a extenuada, a visionária alma do Mateus, triste e
                    abatida de tanto considerar em misérias, farta de lutas, endurecida ao
                    perseverante e condoído atrito dos problemas sociais, sentia agora, um santo e
                    balsâmico prazer em abandonar-se ao acariciador amplexo desse iluminado poema de
                    paz e de harmonia. Um como que espreguiçamento languido amolecia-a. E,
                    momentaneamente arredado da sua habitual preocupação, todo o seu empenho era
                    agora aligeirar o ânimo, alhear-se da terra e dos homens, emancipar-se,
                    esquecer... e numa promiscuidade feliz consubstanciar-se com a suavidade
                    esplendorosa e cantante dá Natureza que o rodeava, — à semelhança desses rútilos
                    insetos que ziguezagueando via na folhagem, como numa tapeçaria verde alfinetes
                    de oiro rolando, encabeçados de pedras finas.</p>
                <p>Nesta sua panteísta adoração, os olhos extáticos do Mateus foram por fim poisar
                    sobre a opulenta trepadeira, toda em fartos recamos de glicínias, pendentes e
                    roxas como cachos, que fazia moldura e toldo, à esquerda, sobre a última sacada
                    do solar. E logo, daí a instantes, como que obedecendo ao sugestivo império do
                    seu desejo, a longa figura branca de Adriana apareceu, — com um nobre corte
                    clássico sob aquele magnifico toucado de corimbos de veludo, — baixando-lhe a
                    cabeça afetuosamente, mandando-lhe um aceno familiar com a mão.</p>
                <p>O Mateus fez-se pálido. Acobardou-se e desviou com humildade os olhos, como se
                    tivesse cometido uma indiscrição, um ato censurável. E tendo correspondido
                    maquinalmente ao comprimento, largou a janela, deu algumas voltas ambíguas pelo
                    quarto... até que por último, dócil porventura ele também à vontade alheia,
                    tomou o chapéu de relance, foi direito à porta e saiu.</p>
                <p>Cá fora, na orla da pequena clareira, vagueava já a patrícia figura de Adriana,
                    risonha e complacente, dando indicações ao jardineiro que lhe andava colhendo
                    flores. Vinha singela e despretenciosamente vestida, toda em fustão branco, —
                    bolero, saia e Colete afogado, — em cabelo; e o ígneo reflexo do forro da
                    sombrinha de seda aquecia a austeridade esfíngica do seu rosto, fazendo-o mais
                    comunicativo, mais humano.</p>
                <p>Mal o contramestre apareceu, foi ela desta vez a primeira a falar.</p>
                <p>— Bom dia, Sr. Mateus... Ora até que enfim!</p>
                <p>— Apertou-lhe a mão com afabilidade e continuou:</p>
                <p>— Alguma vez havia de dar mostras de que é um homem de juízo.</p>
                <p>— Obrigado, minha senhora! — balbuciou desconcertado o Mateus. — Mas não percebo
                    realmente... sim, não posso atingir...</p>
                <p>— Pois olhe, é bem fácil!</p>
                <p>— Perante o seu espirito.</p>
                <p>Adriana aproximou-se e de busto à frente, arrastando amimadamente a falia:</p>
                <p>— Quero eu dizer que fez muito bem em resolver-se a deixar por algum tempo os
                    seus cuidados, essa atormentada vida que leva de meditação e estudo constante,
                    para vir fora gozar a excecional amenidade deste dia encantador.</p>
                <p>— É que gozos destes, minha senhora, apesar da sua simplicidade e inocência,
                    são-me por via de regra defesos.</p>
                <p>— Porque os não aprecia... já sei.</p>
                <p>— Porque os não posso ter! É outra a minha missão.</p>
                <p>Adriana teve um movimento incrédulo. E insistindo o Mateus, mas com disfarce:</p>
                <p>— É a verdade, minha senhora... A direção da fábrica dá-me muito que fazer.</p>
                <p>— Só a fábrica?... — disse Adriana, num risinho inteligente.</p>
                <p>— Pois que mais há de ser?...</p>
                <p>— Deixe-se de ocupar tanto o seu coração com o mal dos outros, viva um pouco
                    também para si... Nem eles lhe merecem tanta canseira!</p>
                <p>— Pois Vossa Excelência sabe!? — rompeu de salto o contramestre, aterrado, num
                    espanto súbito.</p>
                <p>E Adriana, sempre a rir, com dissimulado garridismo:</p>
                <p>— Eu não sei nada... Apenas suponho, imagino... — Depois, muito
                    significativamente, com um lampejo casto no olhar e o seio inquieto: — É uma
                    suspeição de instinto... esta faculdade de adivinhar que nos trazem as coisas
                    que nos dão interesse...</p>
                <p>Houve uma pausa de enleio. Sem confiança em si próprio, sinceramente o Mateus
                    desejaria ver-se a cem léguas dali. Em frente dele Adriana, que, agora ao recato
                    das árvores, fechara a sombrinha, garatujava distraída no saibro acamado do
                    carreiro. Veio então o jardineiro adonde a ela, com uma molhada de flores na
                    mão. Adriana disse-lhe:</p>
                <p>— Olhe, leve-mas para casa... que as ponham no meu quarto... assim mesmo em
                    molho. Eu depois as disporei. — E num gesto breve: — Vá andando!</p>
                <p>Dobrado numa grande reverência, o jardineiro partiu; o que fez aumentar no
                    contramestre a contrariedade, o receio, o molesto pressentimento não sabia bem
                    dizer-se de quê... Mas, implacavelmente insinuante, tomando ao lado dele,
                    Adriana continuou:</p>
                <p>— Precisamos convencer-nos disto, meu caro amigo : a vida é já de si coisa bem
                    triste, não nos fica mal tentar aligeira-la, indo discretamente em cata do
                    prazer... Uma distração honesta que se procura, é como um vaso de flores que se
                    traz para cima de um movei. Nada mais natural!</p>
                <p>— Para quem tem tempo de pensar nisso.</p>
                <p>— Todos têm! Até os mais degradados e ínfimos seres... até os doentes nos catres
                    dos hospitais e os aleijados à torreira do sol na orla dos caminhos.</p>
                <p>— E então as nossas obrigações?</p>
                <p>— Obrigações... — contestou ligeiramente Adriana, encolhendo os ombros. — Cada um
                    tem as que quer! Olhe, meu caro, uma obrigação bem grave tinha eu para hoje, e
                    mais deitei-a provisoriamente para traz das costas. E não estou arrependida…
                    Sabe o que foi?</p>
                <p>Sem responder, o Mateus abriu os olhos com interesse. Adriana explicou:</p>
                <p>— Não fui à missa! A boa da minha mãezinha lá foi, ela só com o padre Sebastião,
                    a resmungar... mas logo perdoa-me, há de me dar razão... No seu claro espirito
                    bem calcula que a assoalhada e quente limpidez deste dia valem mais que o
                    arrastado Cantochão das Comendadeiras, naquela igreja escura e húmida como uma
                    enxovia, — não é assim?</p>
                <p>— Mas não terá o mesmo valor teológico... — arriscou irónico o Mateus.</p>
                <p>— Ora essa! Então não é tudo obra do mesmo Deus?... Eu creio que o adoro tanto,
                    admirando este deslumbrante alento criador que aqui nos rodeia, como
                    fanaticamente imobilizada sobre o degrau bafiento de um altar.</p>
                <p>Encantado e surpreso por esta insistência carinhosa de Adriana, o Mateus
                    mantinha-se cautamente silencioso, com os olhos semicerrados e os lábios numa
                    contração beatífica de prazer. Extasiava-o e apavorava-o ao mesmo tempo a
                    benévola atitude para com ele daquela criatura superior. O temor da sua rendição
                    pela sensibilidade, o ignominioso espetro da sua defeção moral, punham-no de
                    atalaia e faziam-lhe acolher com um frio de desconfiança e de receio a
                    espontânea solicitude daquela alma demandando em demasias de fraternal atenção a
                    sua.</p>
                <p>Mas Adriana, adivinhando e saboreando essa luta interior, continuou
                    docemente:</p>
                <p>— O Sr. Mateus, segundo eu imagino, é um temperamento excessivo... o que não
                    depõe senão no seu favor. Mas prejudica-o! O seu generoso ideal atraiçoa-o.
                    Dá-se todo ao bem dos outros, em vez de viver para si.</p>
                <p>— Cada um é para o que nasceu!</p>
                <p>— Ora não me faça rir... Isso é um transparente sofisma a pretender justificar a
                    sua simpática mania altruísta. Sinceramente, não vale a pena. Seja prudente,
                    modere-se. Tem coração de mais... Poupe-o, aplique-o melhor.</p>
                <p>— Posso afiançar-lhe, minha senhora, que, boa ou má, a minha norma de vida é o
                    fruto da experiencia e da meditação de longos anos.</p>
                <p>— Muitos é que não podem ser... — contestou Adriana, num lisonjeiro sorriso, com
                    doçura.</p>
                <p>— E porquê, minha senhora?</p>
                <p>— Diz-mo a sua juventude...</p>
                <p>Colhido de improviso pelo galanteio, o Mateus corou como um colegial, abatendo a
                    cabeça, fechando os olhos. Enquanto, envaidecida e risonha no seu implacável
                    plano de sedução, Adriana continuava :</p>
                <p>— Olhe, eu estou a ver... irresistivelmente o Sr. Mateus afeiçoa-se àqueles que
                    vê moirejando e sofrendo abaixo de si, quer fazer deles seus irmãos...</p>
                <p>— Não sei realmente que razões tenha V. exa para teimar assim em me investir
                    dessas messiânicas funções de paladino da miséria.</p>
                <p>— Ah, sei-as eu e é quanto basta! Sei e tenho a garantia da exatidão das minhas
                    informações. Talvez não seja verdade?... — E, como o contramestre vergasse
                    perante a evidência a cabeça resignada:</p>
                <p>— Queria vê-los a todos pelo menos iguais a si, não é assim?... honestos,
                    felizes, contentes... Para isso tenta ergue-los, embora lançando mão da
                    violência, embora recorrendo ao crime.</p>
                <p>— Ó D. Adriana! — murmurou, estremecendo, o contramestre.</p>
                <p>— Ao crime, sim! Sei o que digo... Paz, a benefício deles, da vontade uma
                    alavanca, do coração um escudo... Pois é tudo isto que eu lhe digo que não
                    merece a pena. Nem lho agradeceriam, nem seriam capazes de se manter na nova
                    altura sem vertigens. Deixe-os lá!</p>
                <p>Num momento de impaciência, o Mateus aprumou a cabeça com altivez, e julgando
                    haver achado um bom argumento no seu favor, acudiu, num ligeiro azedume:</p>
                <p>— Contudo eu creio não laborar em erro, supondo que não sou único no piedoso e
                    comovido interesse que os escravos do Capital me inspiram.</p>
                <p>— Não será, não... isso conforme.</p>
                <p>— Vossa Excelência mesma...</p>
                <p>— Bem sei... — atalhou Adriana, indo-lhe ao encontro do pensamento, numa inflexão
                    inteligente. — Refere-se á, minha tentativa de creche, lá em baixo, na fábrica,
                    e que eles tão prematura e gentilmente me agradeceram. Aí tem! Eu interessei-me,
                    interesso-me por eles, é certo... tenho muito dó das mulheres... apenas este meu
                    cuidado tem uma esfera de ação muito limitada. Porque o único sentimento que
                    essa bruta casta de gente deve inspirar-nos é a caridade. Estendamos-lhes, sim,
                    a mão... não para os erguer até nós, mas para lhes deixar tuna esmola.</p>
                <p>— Mas isso é humilha-los ainda mais! É abater pelo desprezo aqueles que
                    sujeitaram pela fome!</p>
                <p>— É o mais que pode ser! Merecem-nos dó pela inferioridade da sua condição, mas
                    por modo nenhum o absurdo sacrifício de tentar iguala-la à nossa.</p>
                <p>— E não me dirá porquê, minha senhora?</p>
                <p>— Porque seria impossível!</p>
                <p>— Quanto podem os preconceitos de educação e de raça, — exclamou o Mateus,
                    erguendo ao alto com indignação os braços, — que até as mais puras organizações
                    estragam e corrompem!... Assim!</p>
                <p>Impassivelmente, Adriana disse:</p>
                <p>— Para que semelhante gentinha tenha jus ás suas reivindicações, falta-lhe a
                    perfeição moral. Veja bem... o Sr. Mateus, que é um espirito esclarecido e reto,
                    deve compreender-me. Bem sabe que as relações entre a vida pública e a vida
                    particular são infalíveis, não enganam. Dão a fisionomia exata do carater tanto
                    dos indivíduos, como das raças. Sempre foi assim... Ora como quer então o meu
                    amigo que tenham direito a queixar-se, a revoltar-se contra supostas iniquidades
                    sociais e a estigmatizarem os pretendidos vícios das outras classes, esses
                    homens sem brio, essas crianças sem inocência, essas mulheres sem honra, — uns
                    desgraçados mostrengos todos eles! — que se embrutecem e inutilizam na
                    embriaguez, na sensualidade porfiada e constante, que não têm dinheiro para a
                    renda da casa mas a quem nunca falta o amor e o vinho que atraiçoam os amigos,
                    roubam os patrões e vendem as filhas?...</p>
                <p>— Todos esses aberrativos desvarios são filhos das miseras condições do seu
                    viver.</p>
                <p>— Ou antes do fatalismo perverso da sua essência.</p>
                <p>— No dia em que recuperarem a igualdade, a independência, a alegria, renascerão
                    também para a bondade, para a confraternidade, a paz e a virtude.</p>
                <p>— Foi coisa que nunca tiveram!</p>
                <p>— Vossa Excelência desculpe-me, mas labora em erro...</p>
                <p>— Então?...</p>
                <p>A beleza, a perfeição moral não é uma coisa contingente e variável, por outra,
                    não é uma criação dos homens. Ela vêm da Eternidade, como o erro, que deu origem
                    à matéria. Gerou-se na mesma essência do pecado, e dele tem sido, através todos
                    os acidentes da existência humana, a sua inseparável companheira e irmã... A
                    perfeição moral não é deste ou daquele, não é de hoje nem de ontem; vêm da queda
                    de Deus, que foi a origem da dor. Já iluminava a terra, quando o primeiro ser
                    acordou do nada para o sofrimento... A perfeição moral tem fulgurado invariável
                    em todas as civilizações, por esses séculos fora. E é, ainda hoje, a sua luz e
                    pureza ideal que aquece e aviventa na caliginosa alma de todos esses miseráveis
                    o bem-dito clarão da esperança!</p>
                <p>E, adiantando-se em convicta expressão para Adriana, que o escutava deliciada, o
                    Mateus rematou:</p>
                <p>— Quando triunfarem, eles serão bons! Vossa Excelência não os conhece bem...</p>
                <p>Após uma pausa de enleio, Adriana aventurou:</p>
                <p>— Conheço-os o bastante para ter como segura esta minha opinião.</p>
                <p>— Pelo que ouve, pelo que lhe insinuam nessa sociedade convencional em que
                    vive.</p>
                <p>— Engana-se... Pela minha observação direta, acentuou Adriana com singular
                    expressão, cravando no contramestre profundamente os olhos. — O senhor é que me
                    não conhece a mim!</p>
                <p>E, dizendo, alçou os ombros com desdém e avançou alguns passos, internando-se
                    mais na sombra mansa do arvoredo.</p>
                <p>Como um dócil podengo, instintivamente, o Mateus seguiu-a, e de novo plantado
                    diante dela, inquiria com humildade, meigamente:</p>
                <p>— Mas como sabe V. Exa que eu me irmano e confraternizo com a turbamulta dos
                    rôtos, os meus irmãos na desgraça... com esse ínfimo rebanho de máquinas
                    vivas?</p>
                <p>— Se fosse só confraternizar... O senhor faz pior: incita-os, inflama-os,
                    conspira abertamente com eles!</p>
                <p>— Não conspiro, abro-lhes os olhos! — disse rasgadamente o Mateus. E logo,
                    dominando-se, untuoso e meigo outra vez, com sincero espanto: — Mas como é que a
                    Sra. D. Adriana conseguiu sabe-lo?... É singular! Vive tão longe, paira lá tão
                    alto, tão acima de nós! Quem a informou tão bem?... Que íntimo e ignorado móbil,
                    que generoso interesse poderá tê-la levado a aproximar da noite do nosso
                    infortúnio a redentora luz da sua alma?</p>
                <p>Adriana manteve silêncio um momento, e depois, de mãos apoiadas na sombrinha e
                    descaído com graça à frente o busto, enconchou os lábios no seu sorriso
                    esfíngico, murmurando:</p>
                <p>— É o meu segredo!</p>
                <p>— Não! Não! — insistia o Mateus com calor. — Seja franca como eu... Porque é que
                    não há de dizer?</p>
                <p>— Porque não posso... — dizia, irresistivelmente, aquela criatura de eleição,
                    quebrando em insinuantes velaturas de carinho o alinhamento austero dos seus
                    olhos. — Apenas posso, como sua amiga sincera, insistir no meu conselho:
                    deixe-se de aventuras arriscadas, de tenebrosas empresas que não podem
                    trazer-lhe nem honra, nem proveito... Isso mesmo é contrafazer-se horrivelmente!
                    Porque não pode em consciência pregar e praticar o odio uma organização que eu
                    vejo, eu sinto, foi de preferência fadada para amar...</p>
                <p>— Já uma vez disse a Vossa Excelência: não amo senão a humanidade.</p>
                <p>— E quer destrui-la?</p>
                <p>— Pelo contrário, trabalho para a sua reabilitação, quero, e quer muita gente
                    comigo, firmar em solidas bases a felicidade de todos nós!</p>
                <p>— Que doido! — insistia carinhosamente Adriana, sempre com os mesmos olhos
                    circunflexos, sempre com o mesmo enigmático sorriso. — Pois o senhor não vê, não
                    presente quê semelhantes desvarios,, em vez do acarinhado ideal, em vez da
                    sonhada glória a que aspira, não farão mais que enche-lo de ignominia?</p>
                <p>— Bera se me dá a mim disso! O vitupério de uns? Será a bênção dos outros!</p>
                <p>— Eu não vou denuncia-lo, calcula bem... mas tudo se sabe! Pode ser despedido da
                    fábrica...</p>
                <p>— Estão no seu direito.</p>
                <p>— Ter de deixar estes lugares...</p>
                <p>Ao doloroso choque desta última ameaça, o Mateus fez-se pálido, estremeceu; mas
                    num instante readquiria o domínio de si mesmo, e agora era ele que sacudia
                    altivo os ombros para dizer com rudeza:</p>
                <p>— Paciência!</p>
                <p>Na azeitona translúcida das pupilas de Adriana faiscou um relâmpago de
                    contrariedade. Girou sobre os calcanhares, no meticuloso disfarce da emoção; e
                    daí a instantes, recobrando-se, voltava a atacar docemente:</p>
                <p>— Ora diga-me cá... Que prazer acha o senhor, que é bom, que é amorável, em
                    aparentar de rude?</p>
                <p>— Rudes foram os apóstolos do Senhor... e consolidaram a obra do Mestre! As
                    multidões seguiam-nos arrebatadamente, fixavam-lhes as máximas como dogmas,
                    obedeciam-lhes como a oráculos. Eram rudes e legaram-nos uma religião, uma moral
                    nova, uma compreensão da vida mais sã e mais perfeita. Os contemporâneos
                    adoravam-nos, a tradição santificou-os!</p>
                <p>— Aí está o que me faltava saber... — comentou ironicamente Adriana. — Que o meu
                    amigo aspirava a figurar, de cruzinha ao lado, no Calendário!</p>
                <p>Resvalou ineficaz o gracejo pelo prevenido anima do Mateus, que continuou:</p>
                <p>— Nem eu sou rude, sou apenas sincero. Digo o que sinto, desafogadamente, sem
                    restrições, sem peias! — E progressivamente inflamado, com ardente convicção,
                    num pleno arranque de todo o seu querer cujo sugestivo domínio Adriana suportava
                    com delícia: — E a que maior fortuna podemos nós aspirar?... Oh, decididamente
                    não há nada melhor! Nada que mais regale a nossa ambição, cumule a nossa vaidade
                    e engrandeça perante nós mesmos o nosso espirito! Acaso já pensou bem nisto
                    Vossa Excelência?... A sinceridade é a grande ambição das almas puras e
                    nobres... como a sua. A franqueza é a emancipação. Quanto não vale gritar a
                    gente, bem alto, a todas essas mascaras de impostura que nos rodeiam, tudo
                    quanto pensamos e tudo quanto queremos! O segredo dos grandes dominadores é
                    este. Parece que se nos alarga o peito... e que perante essa imperiosa dilatação
                    da nossa vontade tudo o mais, homens, feras brutas e frias coisas inanimadas,
                    tudo passivamente se humilha e se amesquinha!</p>
                <p>— E nada haveria então capaz de o dissuadir dessa abominável loucura?</p>
                <p>— Não, minha senhora, não! — jurou com energia convicta o Mateus. — Atualmente,
                    coisa nenhuma no mundo teria força para me arredar do meu caminho!</p>
                <p>— Veja bem o que diz... — arriscou Adriana com intenção.</p>
                <p>Porém o Mateus, que percebeu a cilada, disse inflexivelmente:</p>
                <p>— Ninguém!</p>
                <p>Na irreprimível carfologia que correu os despeitados nervos de Adriana,
                    escapou-se-lhe das mãos a sombrinha, que muito gentilmente o Mateus aparou na
                    queda, antes que tocasse o chão, restituindo-lha com respeito.</p>
                <p>— Que lastima me faz ver essa sua pertinácia em perseverar no erro! — dizia ela,
                    muito de manso, voltando ao amavioso assalto mais uma vez. — Pois terá alguma
                    graça deixar um nome execrável... andar toda a vida preparando o seu descredito
                    póstumo... ter na morte por séquito um coro jubiloso e feroz de maldições, de
                    cóleras?...</p>
                <p>Mas, desesperadamente estimulado na áspera insistência daquele duelo moral, o
                    Mateus exclamou:</p>
                <p>— Que grande fortuna que isso seria também! Quem me dera! Ser num dado momento o
                    alvo da cólera de todo o mundo... Mas é esse o triste apanágio, em vida, de
                    todos os grandes reformadores.</p>
                <p>Nem Jesus escapou a ele... Quem me dera! Então é que eu me sentia maior!</p>
                <p>— Vai sacrificar centenas de vidas... — para salvar milhares!</p>
                <p>— Arrisca-me a mim...</p>
                <p>Mateus olhou Adriana com infinita doçura, e subitamente acobardado, com frio no
                    coração, perante esta hipótese horrorosa, exclamou com ar aflitivo, agitando as
                    mãos diante da cabeça em fogo:</p>
                <p>— Não sei! Não sei!</p>
                <p>E rodava inquieto em torno de Adriana, mortificado por uma dolorosa e grande
                    perplexidade, sem ânimo para firmar inabalavelmente a sua ideia, sem força ao
                    mesmo tempo para arredar pé dali.</p>
                <p>Entretanto Adriana, que continuava a ler-lhe na alma, deu largas a que esse
                    condoído exaspero passasse, e aproximando-se mais do contramestre, com a sua
                    aparente humildade traída pelo lume de triunfo que lhe radiava da expressão,
                    murmurou com calculada pausa, numa leve sublinha de carinho:</p>
                <p>— No entanto, venha cá... peço desculpa. Eu não sou tão falta de compreensão que
                    não avalie toda a generosa nobreza do seu pensar, nem tão cegamente imbuída de
                    preconceitos que tenha de tornar-me sua declarada inimiga... Não era
                    possível!</p>
                <p>Mateus fitou-a com desconfiança; mas logo baixou rendidamente a cabeça, vergado
                    ao domínio daquela figura imperiosa e doce, que continuava:</p>
                <p>— Os senhores vão ter breve a sua grande festa, não é verdade?...</p>
                <p>— Sim, minha senhora.</p>
                <p>— O primeiro de maio! É de um simbolismo bem simpático esta data, já agora
                    consagrada pela comoção unanime dos revoltados.</p>
                <p>— Pela cruzada do Infortúnio!</p>
                <p>— Olhe e é verdade! Diz bem... Porque é com efeito uma luta toda pacífica essa,
                    sem ferocidades, sem sangue... luta mansa e serena, sem precedente igual na
                    história. Irresistivelmente os adversários têm de olha-la com tolerância e
                    considera-la com respeito. É uma forma de protesto que se impõe à atenção...</p>
                <p>— E hão de atendê-la!</p>
                <p>— Parece-lhe?</p>
                <p>— Indubitavelmente!</p>
                <p>— E não quer o senhor que eu lhe chame doido! — contestou Adriana com
                    superioridade, voltando ao seu rir incrédulo. — Não será isso já nos nossos
                    dias... Por esse lado pode estar tranquilo.</p>
                <p>— Engana-se... Está para mais breve do que Vossa Excelência pensa o grande
                    dia!</p>
                <p>— Mau! Lá íamos nós insensivelmente voltar a discutir, quando apenas o que eu
                    pretendo é provar-lhe, neste assunto, a inteira conformidade da minha alma com a
                    sua.</p>
                <p>— Obrigado, minha senhora!</p>
                <p>— É que eu quero este ano, embora por uma forma indireta, colaborar com os
                    senhores, contribuir para o brilho da sua festa! — Elevadamente, os olhos do
                    Mateus iluminaram-se. — Os senhores, repito, escolheram para esse grande passeio
                    simbólico uma época admiravelmente bem ajustada. Fazem coincidir a revista
                    aparatosa da sua força, a sua marcha de emancipação e de esperança, com o
                    rejuvenescimento primaveril da Natureza. As suas libertárias aspirações
                    desabrocham simultâneas com as flores. Pois bem! Este ano, Sr. Mateus, as flores
                    hei de forneceras eu...</p>
                <p>— Oh, minha senhora!</p>
                <p>— Tudo quanto de melhor por aí vir, em todo esse parque fora, mandar-lho-ei
                    cortar de véspera... vai ali assim para sua casa. Se é que a intransigência
                    feroz das suas crenças lhe não proíbe aceitar... — acrescentou, a sorrir.</p>
                <p>— Todos os elementos de êxito para a nossa propaganda são bem-vindos... mormente
                    aqueles que inspira a instintiva subtileza do espirito feminino.</p>
                <p>— Muito obrigada! Digo agora eu... — murmurou afavelmente Adriana, com
                    encantadora ironia. — E diga-me uma outra coisa: Quem era esse ignorado apóstolo
                    do Bem, cuja memória os senhores tão religiosamente veneram e cultivam, indo por
                    ele anualmente em piedosa romagem ao cemitério?</p>
                <p>— Era um incorrigível idealista, um visionário, um lunático... um doido como
                    eu!</p>
                <p>— Há doidos felizes!</p>
                <p>— Era um santo, um almo e límpido coração, que prematuramente se esgotou por
                    demasiado aquecer e pulsar pelos outros! Dava-lhe que pensar que das três
                    palavras desta trilogia sublime que o grito da emancipação humana consagrou, uma
                    haja que, apesar de todas as conquistas do progresso, ainda nem teve aplicação
                    nem as honras do triunfo. Essa palavra é a Fraternidade.</p>
                <p>— É a mais bela de todas! — confirmou Adriana, numa seriedade convicta.</p>
                <p>— E por isso mesmo a mais sistematicamente repudiada, a combatida com mais
                    odienta intolerância pelos nossos inimigos sociais! Pois José Fontana,
                    recém-vindo da Suíça, — o país singular onde a Natureza e a obra humana se
                    aliaram intimamente para o tornarem privilegiado berço de todas as aspirações,
                    de todos os ideais justos e generosos, — viu o espetáculo doloroso da miserável
                    inércia do nosso povo e tremeu de indignação, consumiu-se de piedade, quase
                    simultaneamente, o estrondear do canhão nas ruas de Paris, os paroxismos
                    iconoclastas da Internacional, anunciavam ao proletariado de todo o mundo que
                    havia soado a hora de ele impor a sua vontade, de fazer ouvir dominadoramente a
                    sua voz. E então José Fontana foi o arrojado clarim da Ideia nova em Portugal.
                    Veio soletrar-nos o novo Verbo. Reanimou pela miragem de largos e inéditos
                    horizontes o entusiasmo de todos aqueles que o desalento e a dor tinham
                    entorpecido.</p>
                <p>— E que conseguiu ele afinal com tudo isso?</p>
                <p>— Preparou a nossa união, abriu-nos os olhos, leu-nos o diagnóstico redentor do
                    futuro... remodelou-nos a alma e bateu-lhe de luz o caminho. Transformou uma
                    horda numa classe. Legou-nos as tabuas da Lei do nosso credo político,
                    deixou-nos como norte, como lema é incitamento, como signa eterna de redenção, a
                    memória do seu nome imaculado! — E impetuosa e energicamente o Mateus, tendo
                    recobrado, na quente sucessão das próprias palavras, o frio domínio de si mesmo:
                    — Aqui tem, minha senhora, porque veneramos e adoramos desse extraordinário
                    homem a lembrança querida. Trouxe-nos um mundo novo... foi como um Deus!</p>
                <p>— Pois bem, já lhe disse, — disse afetuosamente Adriana. — Para lhe engrinaldar
                    este ano o túmulo pode contar com as minhas flores.</p>
                <p>— O que será da mais alta e comovente significação! Agradeço por todos...</p>
                <p>— Ah, mas minha mãe decerto já veio da missa; são horas de almoço. Vou-me
                    embora... Adeus, grande revolucionário! — Estendeu num gesto complacente a mão
                    ao Mateus, que ele beijou com ternura. — Só lhe peço uma coisa... quando esse
                    terrível dia da destruição chegar, vejam lá... façam essa sangueira o menos
                    melodramática que puder ser! Uma meia dose de revolução, hein?... Para condizer
                    com a meia dose de miséria do nosso proletariado será bastante. — E Adriana,
                    tendo já avançado dois passos na ladeira, graciosamente, rematou: — E, por
                    último, veja também... tenho muito medo... lembre-se de mim!</p>
                <p>Dizendo, e enquanto o Mateus se alheava num aturdimento envaidecido, Adriana ia
                    subindo a encosta, lentamente, de sombrinha aberta outra vez, com a jubilosa
                    claridade que lhe vinha da alma casando-se na mesma ígnea tinta em que o sol,
                    coado pelo forro de seda, lhe acendia a austeridade virginal do rosto
                    oblongo.</p>
                <p>Havia muito que ela seguia com carinhoso interesse os complicados meandros da
                    vida do Mateus, sem que este de tal suspeitasse. Á alma suspicaz e ardente de
                    Adriana não escaparam as insistentes e duvidosas visitas que a cada momento
                    demandavam o contramestre, bem como a sua inquietação, o seu turbado ar de
                    conspirador constante, a sua altivez, a sua vida solitária. Procurou então,
                    sigilosamente, profundar o mistério. Pela Bandeirinha, a quem ela dava roupa
                    usada e pequenas gratificações por acidentais serviços domésticos, veio a saber,
                    pouco a pouco, a verdade. A ladina urdideira conhecia bem, e de longa data vinha
                    seguindo, a íntima trama dos planos emancipadores do bairro. Assim,
                    astuciosamente, foi industriando Adriana no segredo, apenas em termos genéricos,
                    vagos, sem nada arriscar que podasse comprometer este ou aquele; mas adiantando
                    em todo o caso o bastante para deixar entrever em toda a sua ameaçadora largueza
                    a vasta e decisiva conspiração que o proletariado andava minando na sombra, ao
                    favor da desprevenida inércia dos patrões e da cegueira negligente da
                    policia.</p>
                <p>E Adriana, atolambada e incrédula, fazia repetir as sacrílegas coisas que ouvia;
                    achava, a poder de extraordinário, inverosímil; não podia, não queria crer... De
                    princípio um revoltado espanto, depois um agudo e compenetrado interesse a
                    tomava, perante a imprevista, a abominável e colossal audácia do atentado. —
                    Como era que tantos milhares de miseráveis podiam comodamente e em comum
                    manobrar e concertarem-se, nessa execranda obra de rancores, sem a
                    comprometedora delação de um traidor, sem qualquer indiscreto alarme que
                    espertasse a defensiva reação das vítimas prováveis do seus ódios? Como era que
                    aquele homem singular ousava atentar assim contra o existente, querer baralhar a
                    cidade num mar de horrores, converter-se num implacável executor, num bárbaro
                    assassino coletivo; e, mais, pôr-se em declarada e pérfida rebelião contra
                    aqueles mesmos de quem confiada mente recebera agasalho, proteção, estima; que
                    não tinham só contratado os seus serviços, mas lhe estavam dispensando a mais
                    franca e generosa amizade?... Era o cúmulo da deslealdade e da torpeza. Se o
                    caso se desse com um homem vulgar, não poderia atribuir-se-lhe maior infâmia.
                    Mas tratando-se de Mateus, convinha refletir... Ele lá sabia! Certamente que
                    esse tenebroso plano de destruição, essa teia imensa e formidável de extermínio
                    e dor, havia de ter atenuantes, havia de achar a sua logica explicação quando
                    encarada pelo prisma do Absoluto e medida nos indeferíveis moldes de verdade que
                    o alto espirito do contramestre aplicava aos homens e ás coisas. — Então, quando
                    Adriana assim pensava, invadia-lhe traiçoeiramente a alma, junto com esse antigo
                    apetite de sujeição, que as alarmantes revelações exacerbavam, o que quer que
                    fosse de compadecido pasmo, uma comovida ansia, ao mesmo tempo, de domínio e de
                    perdão... este começo de admirativo êxtase que nas almas nobres e cândidas
                    prepara, não raro, o insensível resvalo ao amor.</p>
                <p>E começou de manda-lo espiar, desvelada, contínua, incessantemente. A cada
                    momento recolhia pormenores, particularizava fatos, amontoava cuidados,
                    estremecia a surpresas. Daí a intensidade perene do sobressalto, que trazia ao
                    seu temperamento forte um ácido estímulo. Por cada nova descoberta feita, aquele
                    seu áspero interesse multiplicava-se! Era o atormentado receio pela sorte, pela
                    vida das pessoas suas queridas e as suas iguais, da casta e da família; e era
                    pela enigmática e arisca figura do Mateus um desvelo inquieto e carinhoso.
                    Resolvera aqui aproximar-se dele quanto possível... para o conhecer melhor... a
                    ver se conseguiria com alguma parcela de bom senso interferir ainda, a poder de
                    amigos e prudenciais avisos, na alucinada perversão da sua vida. Esta ideia
                    ousada, extravagante, talvez pouco decorosa, desenhara-se primeiro com receio no
                    seu espirito. — E se ela o tentasse?... — começou a interrogar-se a medo, num
                    vago pique de desejo. Mas, progressivamente, à força de nele renhir, este
                    pensamento empolgador fazia-lhe febre, criou raízes, corporalizou-se, por assim
                    dizer... por fim deu-lhe foros de vida definitivos o imperioso lume da sua alma.
                    — Incapaz ela entretanto de bem medir todo o pavoroso alcance da conjura a que o
                    Mateus andava assoprando q_ temerário incêndio. Desprevenidamente dançando sobre
                    aquela tenebroso urdidura de justiceiras cóleras, o comovido interesse de
                    Adriana era como um jogo infantil sobre a boca latente de um vulcão. Á própria
                    confiança no seu império sobre a alma indefesa do Mateus juntava a tranquila
                    inconsciência no exato valor do perigo.</p>
                <p>O certo foi que a austera e ardente filha dos Meireles não faltou à promessa. Na
                    véspera do dia 1.° de maio, — uma quarta-feira, — sobre a tarde, um estouvado
                    rancho de raparigas, entre as quais a doidelas da Bandeirinha, todas sob a
                    rigorosa vigilância do jardineiro, puseram positivamente o vasto recinto a
                    saque. Foi uma devastação completa. Ordem expressa para manobrarem com
                    precaução, por forma que, em cima, nem os pais de Adriana nem Jorge dessem tino
                    do atentado. Para isso havia até algumas aprendizas da fábrica a postos, afim de
                    avisarem ao menor sinal de perigo. Mas tudo se fez sem incidente desagradável.
                    Com o deslumbrante avental colhido à frente e de tesoura em punho, perpetraram
                    elas de abalada, por entre o seu grazinar travesso, aquele grande assalto
                    tolerado, mandado por quem podia... Onde quer que o colorido fresco de uma
                    florita as desafiasse, por mais insignificante que esta fosse, por muito em
                    botão que estivesse ainda, as graciosas Parcas acercavam-se dela num pronto e
                    abatiana, mergulhando-a na perfumada fartura do regaço. E num instante elas aí
                    estavam à porta da casa do Mateus, afogueadas e contentes, carregando braçados
                    de flores que em torno do contramestre desparziam, a chalrar e a rir, formando
                    adoráveis grupos mitológicos no assoalhado tempo que fazia, e voltando logo a
                    partir. E o Mateus recebia-as com alvoroço, recolhia comovidamente a delicada
                    profusão da oferenda, cuja afetuosa origem conhecia. E, de envolta com o balsamo
                    capitoso das flores, a perturbadora evocação de Adriana embriagava-lhe a termos
                    a alma, que ele certamente naquele momento no que menos pensava era na
                    revolução...</p>
                <p>O dia seguinte amanheceu um encanto. Nem iluminado e aquecido pelo bom Deus de
                    propósito, se apresentaria melhor o introito a esse doce mês de glória, de luz e
                    de perfumes. Era como se aparatosamente a Natureza viesse também comungar na
                    festa. Amaciava o ar e brunia as coisas uma plenitude de paz e de harmonia. Do
                    cristalino azul do céu descia, como bênção ampla e fecunda, uma alegria
                    infinita, que cá em baixo o cântico das aves, o ar endomingado da multidão
                    brincadamente continuavam, e que através a umbela polícroma das árvores a
                    resplendente hóstia do sol santificava. — E neste ano o cortejo do 1.° de maio
                    ia ter um desenvolvimento inusitado, um brilho nunca visto; porque também a sua
                    significação assumia um alcance excecional. Era como que a guarda-avançada das
                    reclamações do proletariado, agora desdobradas sob aquele aspeto loução e
                    pacífico, para dentro em breve estalarem triunfantes em toda a sinistra
                    epilepsiação do seu exaspero, em toda a assoladora e formidável evidenciação do
                    seu poder.</p>
                <p>Ás 7 da manhã, já era enorme a multidão que esfervilhando se acumulava de roda do
                    obelisco, no extremo sul da Avenida. A partir daí tomavam escalonadamente lugar,
                    pela ampla artéria acima, os peões que deviam servir de pontos de reunião ás
                    diversas associações e grupos, segundo o programa publicado nos jornais e
                    procurando o seu número de ordem nas pequeninas tabuletas suspensas das árvores,
                    desde a praça dos Restauradores à rua das Pretas. O Mateus viera muito cedo
                    presidir à concentração, — todo de negro, gravata branca, e na botoeira do
                    jaquetão flamulando um grande ramo de perpetuas. E a cada momento em volta dele
                    o bulício, o pitoresco, a animação cresciam. Um surdo, um vago murmúrio
                    marulhava primeiro no recinto, que foi depois engrossando e subindo até alagar,
                    arrogante e vitorioso, o espaço, numa cintilação mordente de metais, e feito do
                    dissonante algarar das vozes, do concertante estrídulo das vaias, das
                    aclamações, dos vivas, e do ronquido petulante das filarmónicas que chegavam
                    incessantes, arranhando aquela serenidade de oiro de barbaras melodias.</p>
                <p>O Mateus conseguira que desta vez os operários, orgulhosos da sua profissão,
                    vestissem todos blusa. Ranchos e ranchos chegavam, instante a instante,
                    interminavelmente, envergando todos com brio o seu emblema humilde de trabalho,
                    o que tornava imponente e expressiva deveras aquela aglomeração imensa. Longe do
                    sujo mesclamento, da confusão pelintra dos anos anteriores, a sua concentração
                    em massa tinha agora um solido carater de uniformidade que lhe emprestava
                    grandeza e a enobrecia. Assim, uns, como os tanoeiros do Beato, o Serafim à
                    frente, vestiam todos blusas novas de paninho negro; apresentara-se outros de
                    amarelo, de verde, a maior parte de azul; os padeiros vinham de branco; e foi
                    acolhida com uma vibrante salva de palmas a galharda representação da Companhia
                    União Fabril, a Alcântara, a qual estreava neste dia solene, as suas boinas
                    brancas e fartas blusas de riscado, cortadas num molde elegante e inédito com
                    cabeção à maruja e biscoitos de nastro cor de laranja a agaloar os punhos e
                    guarnecer as costuras.</p>
                <p>Mas nem só no vitorioso recinto da Avenida se concentrava naquele momento a
                    emancipadora afirmação das classes de sujeição e de miséria. A sua
                    reivindicadora expansão abrangia toda a cidade por toda a parte aqueles mesmos
                    que não podiam vir incorporar-se à comovente demonstração da Baixa, sabiam dar
                    mostras de que estavam de posse do seu dia; todos, obedecendo à mesma libertaria
                    senha, por toda a parte agitavam em triunfo a sua ideia, todos vestiam esse
                    grande protesto coletivo de qualquer sinal exterior que o consagrasse. — Era
                    como os condutores de carroças traziam as alimárias enfeitadas. Os cestos dos
                    jovens de padeiro tinham flores de papel espetadas, baloiçavam grosseiros
                    crochets de alvas toalhas pendentes, com datas simbólicas marcadas a linha
                    vermelha. As parelhas dos trens de aluguer traziam guizeiras. Os carros da
                    Lusitana lá se arrastavam claudicando, embandeirados, pelas ruas. Embandeirado
                    tinham também quase todas as tascas e locandas, entre os Olivais e Xabregas. E
                    até os pequenos vendedores de jornais, os varinos, os cauteleiros, os catraeiros
                    no rio, ás esquinas os jovens de recados, todos tinham camisa lavada e blusas,
                    barretes novos, com laços cor de sangue nos ombros ou penachinhos de
                    perpétuas.</p>
                <p>Entretanto, ao longo da rua central da Avenida enfileirava-se, basta e ruidosa
                    também, uma outra sorte de multidão, o mesclado e insofrido montão dos curiosos.
                    Predominava a baixa burguesia, o mundo pelintra dos serventuários do Estado, o
                    parasitário bando de quantos trazem uma vida estéril, e entre todos eles doidas
                    e impacientes, as mulheres. Grossos matulões disputavam os primeiros lugares a
                    murro, outros insinuavam-se de gatas pelos grupos, outros traziam bancos a que
                    trepavam para ver melhor. Das travessas a cada momento lufavam cordas de gente,
                    inundando as ruas laterais, por onde os últimos americanos avançavam devagar. De
                    espaço a espaço intervalados, os polícias retesavam os dedos dentro das luvas
                    brancas, faziam ressacar a onda para o <seg rend="italic">beton</seg> dos
                    passeios. Circulavam pregões de água fresca. E em toda a assoalhada extensão do
                    festivo alinhamento prolongavam-se à frente turbulentas as cabeças, polarizadas
                    avidamente na direção por onde havia de começar o desfile do cortejo; enquanto,
                    ao centro, sobre o pastoso remoinhar da turba, apontavam já numerosos e lindos
                    os carros alegóricos, como ainda em ano nenhum tinham aparecido, amplos e
                    atrevidos uns, outros de uma fatura tosca e ingénua; quase todos trazendo este
                    traço de carater comum, — medíocres litografias emolduradas, figurando o retrato
                    de José Fontana; todos eles filhos, sentia-se bem, desta unidade estrutural e
                    desta espontânea e fácil fantasia que só um pensamento superior é capaz de
                    suscitar, ou a viva sinceridade de uma crença.</p>
                <p>Num dado momento, quando se verificou que tudo estava a postos, quando o Mateus,
                    que tinha organizado o serviço militarmente, recebeu aviso de que todos os
                    pontos de concentração estavam convenientemente guarnecidos, uma girandola de
                    foguetes subiu ao ar, junto ao obelisco, e começou trabalhosamente a
                    desdobrar-se, como algum pré-histórico réptil deslaçando os membros, o sinuoso
                    rabejar daquele cortejo enorme. — Marchava na testa gravemente o Mateus, altivo
                    e sereno, com o inquieto lume dos seus olhos negros ardendo dominador na
                    frialdade marmórea do rosto impassível. Rodeavam-no os principais chefes
                    socialistas, compenetrados e graves também, evidentemente sob a sua influência e
                    comando, cortando nervosos a cada passo em pequeninos torcicolos a rua; e havia
                    um, de barba grisalha e obeso, que acavalava na base do nariz os óculos azuis,
                    com os dedos trémulos. Seguia-se a filarmónica Aluirmos de Minerva, — de bonés
                    agaloados de oiro, jaquetão azul e calça branca, — timbaleando com brio o hino
                    do dia, essa melodia dolorida e singela em que se arrasta um carpir de queixume,
                    aquecido por clarões de esperança. Depois, processionalmente, desenvaginando-se
                    com esforço do promiscuo empilhamento para ir dar em baixo a volta ao obelisco,
                    vinha a bicha interminável das associações, cada uma com o respetivo pendão à
                    frente, os presidentes de faixa a tiracolo e coroa de flores no braço, os mais
                    marchando disciplinadamente em massa, muitos de ramos na mão; e a reduzidas
                    distâncias as carangueiras músicas sucediam-se, todas toando o mesmo estribilho,
                    repercutindo ao infinito na claridade mansa do ar o mesmo carpir dorido e
                    insistente, batido de clarões de revolta e, próximos e abundantes também, lá iam
                    derivando com lentidão os baldaquins de flores dos carros, sobranceiros aquele
                    confuso e grosso mar, sacudidos em reverências aos embates eventuais da multidão
                    e parando a miúde.</p>
                <p>Alguns eram lindos. Destacava entre os primeiros o Carro internacional do
                    Trabalho, — uma carreta do serviço de incêndios, tirada por duas pare-lhas de
                    muares montadas por sotas-bombeiros, as dianteiras, varais e rodas vestidas
                    literalmente por um viçoso brocado de flores. Sobre o leito do carro erguia-se
                    uma elegante tarima, a vermelho e oiro, profusamente festoada e guarnecida de
                    toda a espécie de ferramentas, as quais, entressachadas com bandeiras, lhe
                    rodeavam ainda à guisa de trofeus o vértice, donde rompia para o azul um braço
                    com um facho, e ao lado um estandarte vermelho com esta legenda a branco:
                    PROGRESSO E TRABALHO. Na frente do carro, entre cestos vindimos, pás e encinhos,
                    lia-se em grandes letras de fogo: QUEREMOS 8 HORAS DE TRABALHO; e na cauda: A
                    JOSÉ FONTANA, o povo, FARTO DE SOFRER. Aos lados baloiçavam-se escudetes com os
                    dísticos: PROLETÁRIOS DE TODO O MUNDO, UNAMO-NOS! E BREVE CHEGA A NOSSA HORA! —
                    O carro dos Catraeiros vinha soberbo; arrancava na passagem clamorosos aplausos
                    à multidão. Era, sobre uma carroça, um grande catraio em lona, com mastro e vela
                    armados, tripulado por crianças trajando à moda do mar. No tope do mastro
                    flutuava a bandeira verde da associação, à popa ia a bandeira portuguesa. Nos
                    flancos os retratos de João de Deus e Antero, à frente José Fontana, todos em
                    molduras de flores e algas marinhas. A carroça da base vinha disfarçada por uma
                    espécie de túnica, formando rodapé, de redes pendentes. Completavam a
                    ornamentação o competente jack os remos, cordas, ferramentas, roupas de oleado,
                    lambazes, batedores e salva-vidas. — Passava depois o carro dos Operários de
                    tecidos de seda, com um belo corte artístico. Era uma fina carreta vermelha,
                    toda em ferro, poisando alto nas rodas, ricamente almofadada de verdura e
                    flores, e sobrepujada ao centro por uma grande pirâmide cónica, panejada de
                    sedas berrantes, sobre as quais se distribui e repousa com arte, era esmaltados
                    lavores e matizes, uma pintalgada abundancia de laçadeiras, aviadoras, canelas,
                    debuxos e carros de dobar. No vértice do carro vai uma dobadoira. Aos quatro
                    ângulos, erguem-se linearmente quatro prumos verticais, com fartos laços de seda
                    batendo ao vento, ligados no alto por um fio com passamanerias formando franja,
                    e terminados depois na mesma linha por umas graciosas rodelas de fio cujos raios
                    eram carreteis de seda multicores. — Mas eram por igual interessantes todos os
                    mais carros que na estatuída ordem iam seguindo, ás dezenas, infindavelmente,
                    desde as carretas dos pedreiros, dos serralheiros, dos curtidores e dos
                    tipógrafos, até à fábrica em miniatura dos saboneiros, o tonel monstro dos
                    tanoeiros e o chalet dos ceramistas, até à grande máquina Singer com a legenda :
                    MATA SEM RUÍDO, levada num grupo de costureiras.</p>
                <p>Na altura da rua Barata Salgueiro o Mateus, em vista do extraordinário
                    desenvolvimento do cortejo, não tomou por ela, como era uso, mas seguiu
                    direitamente, Avenida acima, até à rotunda, onde enfiou à esquerda por Vai do
                    Pereiro. Então, ao dar a volta, parou um momento a olhar, eletrizado por um
                    legítimo e indizível orgulho, positivamente desvairado de prazer. Valera-lhe bem
                    aquele intraduzível instante toda a penúria, incerteza e desordem anterior da
                    sua vida. — Trazia ali assim na mão um povo inteiro. Eram os escravos da sua
                    vontade, faria deles o que quisesse! — Olhava e media deliciadamente do alto,
                    como um general no seu mamelão estratégico, o desdobramento infindável da
                    pacífica e esmagadora avalancha, que na fatalidade brutal da sua força vinha
                    subindo. Evidentemente, vinha ali humanizada e viva toda a generosa ansia do seu
                    ideal, a libertária síntese do seu sonho. Não era só o platónico protesto de uma
                    classe, a aspiração mansamente eloquente de uma cidade que se afirmava nesse
                    extraordinário e luzido juntamento; sentia-se alguma coisa mais... eram de todo
                    um século de iniquidade e opressão as palpitantes reivindicações acumuladas.
                    Evidentemente, o violento abalo, o sinistro e inevitável esbravejar da próxima
                    remodelação social fermentava latente no cândido remanso desta revolta feita
                    ordeiramente, por entre flores e por entre túmulos.</p>
                <p>Os vários grupos de manifestantes avançavam arrogantes com efeito, julgando-se
                    antecipados senhores da situação. Retesavam a cabeça com orgulho e cravavam
                    olhos de petulante achincalho nos altos prédios, empapuçados de sombrinhas
                    caras. E pelo caminho iam jogando chocarreiros motes à pasmaceira alvar da
                    multidão.</p>
                <p>— Olha estas tolas, de quico não vês?... Para aquilo não comem senão
                    carapaus!</p>
                <p>— E aquela... tão pintada! É mesmo um prédio em obras.</p>
                <p>— E esta bruxa desta beata que raio de olhos que nos deita!</p>
                <p>— Figas!</p>
                <p>Já a frente do cortejo alcançava ao Rato e ainda a sua complicada cauda se não
                    desembrulhara completamente do roda do obelisco, ao fundo da Avenida.
                    Serpenteamento colossal de muitos milhares de homens, bastos, disciplinados,
                    limpos e unidos como os outros muitos milhares de testemunhas do surpreendente
                    espetáculo sinceramente confessavam que ainda não tinham visto em ano nenhum! O
                    comendador Sulpício, cuja calva solene bretoejava num primeiro andar, junto à
                    rua dos Condes, segredou a uma obesa matrona, ao lado, «que receava pelas
                    instituições». Agora a imponente manifestação faiscava em brilhos de esmalte,
                    tinha um relevo impetuoso e quente a sua carapaça imensa, assim desdobrada nesta
                    manhã vitoriosa de sol, tocada do fino aroma das flores, e acalentada na
                    luminosidade pagã do Espaço, que um encanto imaterial subtilizava... encanto
                    pleno vibrando, ressoando em tudo, e que só as almas são capazes de saber
                    sentir. Quando o seu traço triunfante tomou de alto a baixo toda a ampla
                    artéria, um comovido e admirativo enlevo imobilizava a multidão que fazia alas
                    nos passeios também os passaritos nas árvores, como que para aprenderem o
                    ritornelo sofredor das músicas, tinham emudecido. E o cortejo magnifico seguia
                    sempre, interminavelmente, desdobrando ladeira acima a sua bela linha sinuosa,
                    acesa em raios súbitos, sonora de cadenciadas plangências, eriçada de signas de
                    ameaça, por entre os renques das acácias e das olaias, que corridas pela aragem
                    num como frémito de entusiasmo, espargiam sobre essa grande voluta simbólica uma
                    chuva de pétalas soltas.</p>
            </div>
            <div>
                <head>CAPÍTULO XX</head>
                <p>Aproximava-se entretanto a celebração do centenário de Santo António, o qual, nas
                    condições especiais em que ia ser realizado, representava um desafio irritante
                    ao sentimento público; tanto mais insolente e ousado quanto se sentia forte com
                    a cumplicidade tacita do poder. Averiguava-se com efeito que o governo, por
                    cobardia, por imposição superior, ou por um mal compreendido interesse, dera
                    carta branca à reação para desdobrar a aparatosa afirmação da sua força. E isto
                    inquietava progressivamente os ânimos; cada um receosamente pressentia a
                    aproximação do que quer que fosse de funesto e inevitável. Ninguém se sentia
                    bem, ninguém se julgava seguro. Numa crescente exacerbação também, os jornais
                    continuavam a tocar a rebate; e agora não já só os mais avançados, como os
                    moderados e os, independentes, aqueles mesmos que dentro da sua ortodoxia
                    monárquica não podiam furtar-se ao exame severo, e à convicta reprovação
                    portanto, deste vento de insânia, desta nuvem de ameaça tão imprudentemente
                    amontoada entre o paço de S. Vicente e a rua do Quelhas.</p>
                <p>Daqui um mal-estar montante, uma sobrexcitação dos espíritos, um secreto alarme
                    nas consciências, cujo alastrador incêndio poderia bem logicamente resolver-se
                    numa deflagração geral. Porque por toda essa cidade fora, mas com especialidade
                    nos bairros centrais, o povo estava assistindo, numa latente comoção de revolta,
                    ao caprichoso adulterar das coisas, a pejamentos e demasias de ornamentação, por
                    vezes grotescas, a um como que delírio de peralvilhismo canónico, a uma fúria
                    decorativa que sem ordem, sem gosto e sem medida ia deturpando e estragando ao
                    seu bel-prazer praças, fontes, jardins, templos, palácios e monumentos. Era por
                    toda a parte, como não havia memória, uma sem-cerimónia pedante, um acatitamento
                    beato obstruindo passagens, rebuçando estátuas, carregando fachadas e
                    desfigurando com apostólicos aleijões as principais linhas arquitetónicas da
                    cidade. A Praça do Comercio estava convertida num arraial. Em promíscua confusão
                    uma partida de operários da camara andava-lhe esburacando o piso, para o crivar
                    de prumos pelintras, de pinho em esquadria, improvisado esqueleto a barraquinhas
                    e bazares de corte de feira, cujos balcões hipócritas serviriam de montra e
                    chamariz ao beatério elegante, em três noites seguidas de função também, ao
                    centro, tinham amesquinhado a estatua equestre, como que afundando-a numa
                    escarpa de lenha verde, rodeando-a por um circulo perfeito de sem-sabores e
                    enormes barracões, elevados a tal altura que pudessem mascarar por completo o
                    medalhão odiado do Marquês de Pombal. As graciosas colunas, o soberbo grupo
                    terminal do Arco de triunfo, estavam sendo estrangulados por abomináveis espiras
                    de chumbo, com furos. E dos vãos das arcarias em volta pendiam profusamente
                    tigelinhas e lampiões de importação, lanternas nostálgicas, exóticos poliedros,
                    alguns descomunais, de um feitio extravagante e aqui deslocado, refrangendo
                    policromias complicadas que com a desproporção das suas formas e o seu patente
                    ar industrial ainda mais ajudavam a perturbar a euritmia impecável e a clássica
                    nobreza do recinto.</p>
                <p>No roais, em toda a Baixa, era por toda a parte a mesma fúria desorganizadora, a
                    mesma tonsurada ausência de critério. A cada esquina havia um coreto, a cada
                    passo se esbarrava com um tapume. Tuneis banais, também de chumbo, começavam de
                    arredondar-se sobre as ruas principais, entremeadas as respetivas colunas pelos
                    sabidos plintos de lona suportando, em mastros cambos, tramposos farrapos
                    bicolores e escudetes de papelão. Nas fontes do Rossio, postas a seco e
                    atravancadas de estranhas maquinetas, iam ser ensaiados inéditos efeitos
                    luminosos. No teatro de D. Maria o camartelo dos armadores fazia em lascas os
                    mármores, que caíam na rua como neve. E em tudo o mais assim: uma inestética
                    desordem, uma assolação completa. Era como que uma cidade de fancaria
                    improvisada sobre a outra. Não se viam por toda a parte senão andaimes e
                    destroços. As correntes do movimento, os ruídos habituais das ruas perdiam-se,
                    totalmente dominados pelo estrugido daquele caboucar insano, a ressonância do
                    pregar das madeiras e o frio golpe das picaretas. E a sujeição pelo chumbo, a
                    imposição do entusiasmo canalisado, era avassaladora e completa. Para onde quer
                    que a multidão desviasse, numa sincera ansia de repouso, a vista, lá deparava
                    sempre implacavelmente com a mesma curva inquisitorial, crescendo e desdobrando
                    sobre a lisa alvura dos mármores a sua teia negra, ora eriçada de pontas como a
                    gargalheira de um molosso, ora abrindo direita aos lados como uma estola. Graças
                    à sumaria intervenção da autoridade militar, apenas o obelisco da praça dos
                    Restauradores escapou à aplicação vandálica do aparelho.</p>
                <p>O Mateus seguia de perto o delírio arrogante dos ultramontanos e rejubilava. Bem
                    conhecia ele que todas essas manobras de estúpida regressão ao passado vinham de
                    molde a estimular o libertário fermento da sua ideia. Nem ele contara com esta
                    providencial colaboração. Tão providencial e tão valente que ia até faze-lo
                    antecipar a formidável execução do seu plano.</p>
                <p>Este era muito simples. Deixara-lhe dele o gérmen no cérebro a incendiária visita
                    do belga Bazeleerts. Tinha de ser um assalto em massa à cidade, empreendido com
                    alma por todos aqueles a quem fazia o sangue negro esta odiosa organização
                    social, a desigualdade intolerável das castas e as abusões tirânicas do poder. A
                    Bazeleerts continuara o Mateus a comunicar periodicamente o andamento das suas
                    resoluções, a solidez e o progresso da sua propaganda, a disciplinada coragem e
                    submissão da sua gente; e tele paralelamente recebia, não só constante lição,
                    conselho e estimulo, como também algumas quantiosas subvenções em dinheiro,
                    religiosamente aplicadas pelo contramestre à sua obra messiânica de redenção e
                    de igualdade.</p>
                <p>Para mais, o elemento obrigado de cooperação nesta espécie de revoltas, — o
                    indispensável e misterioso explosivo, — estava achado. Andava-o fabricando
                    alegremente o João dos Unguentos mala amasia, naquela sua recreativa
                    inconsciência de charlatão de fama. Porque o alquimista Gomes cumpriu enfim a
                    sua promessa. Aconselhara ao seu amigo Mateus, como devendo sair formidável para
                    os requeridos efeitos destruidores do seu plano, o picrato de amónio, tratado
                    pela nitromanite. E explicara: — que seria mais corriqueiro e mais fácil de
                    obter o picrato de potássio; andava a fórmula e a preparação dele nos livros;
                    mas este, em virtude de um excesso de carbonato de potássio que ficava por
                    decompor, tinha um poder de expansão relativamente fraco; e além disso era muito
                    sensível ao choque, perigoso portanto de manusear. O picrato de amónio, não;
                    tinha uma composição mais estável, não detonava tão facilmente. Subsistia com
                    este também a mesma deficiência relativa de força explosiva, a qual era, ainda
                    assim, muito superior à da dinamite; mas, oxigenando-o por meio da nitromanite,
                    não se imaginava! Devia obter-se um produto de energia explosiva enorme... Por
                    cada molécula de picrato, nada menos que uma molécula mais de oxigénio; enquanto
                    os outros compostos análogos não davam senão meia molécula. Devia ser uma coisa
                    terrível! — Foi o que o Mateus escolheu.</p>
                <p>Depois, juntas com estas explicações teóricas, o Gomes forneceu também ao amigo
                    as mais minuciosas instruções sobre a escolha dos reagentes a empregar, o modo
                    de os pôr em contato, de os combinar e unir; mais os indispensáveis pormenores
                    sobre os aparelhos, as reações, as lavagens, a secagem, a pressão, a
                    temperatura. E tudo isto se estava agora secretamente manipulando, naquele
                    casarão extravagante do alto de Marvila, com um grande esmero de execução, e um
                    confiado e ardente afinco ao trabalho.</p>
                <p>Sucedeu também que, por esta ocasião, a Bandeirinha , que, por sugestão do
                    Mateus, havia em tempo solicitado admissão na fábrica de cartuchame, em Braço de
                    Prata, recebia aviso para se apresentar ali. Agora, na fábrica, passara a ser
                    desempenhado por mulheres o serviço tanto da pesagem das cargas, como do
                    carregamento das capsulas e cartuchos. Por isso, maquiavelicamente, o Mateus
                    pensara em fazer lá admitir uma criatura que lhe fosse bem dedicada e se
                    prestasse a uma traição. Um assalto com êxito, no momento oportuno, àquela casa,
                    fá-los-ia senhores de uma porção considerável de magníficas munições.</p>
                <p>Veio pois a Bandeirinha, uma tarde, ao escritório mesmo do Almargem,
                    agradecer-lhe; e muito viva, entrando de rompante:</p>
                <p>— Ó Sr. Mateus, sabe?... Muito “<seg rend="italic">agardecida</seg>”... Até que
                    era fim!</p>
                <p>— Então?...</p>
                <p>— Lá estou admitida em Braço de Prata.</p>
                <p>— Sim l? — exclamou de salto o Mateus, com um calor de alvoroço a afoguear-lhe a
                    face, arregalando os olhos.</p>
                <p>— É verdade... Desde ontem.</p>
                <p>— E então?... — voltou com interesse o contramestre.</p>
                <p>— Ai, aquilo é muito bom! é um serviço reinadio... Eu gosto muito!</p>
                <p>— Ainda bem!</p>
                <p>— Trabalha a gente com balancinhas. Já me lembra as casas de prego...</p>
                <p>Na inflamada antevisão do seu triunfo, o Mateus nem a ouvia.</p>
                <p>— E depois, — continuava ela, — “<seg rend="italic">intés</seg>” que o salario é
                    fraco, mas trabalhando por empreitada, posso fazer os meus seis tostões por dia.
                    Estou que nem uma fidalga!</p>
                <p>E batia palmas, de contente.</p>
                <p>— Eu não te dizia?...</p>
                <p>— O Sr. Mateus é o meu anjo da guarda! — continuava a toleta, muito mocanqueira e
                    doce, aproximando-se. — Bem mo dizia uma voz cá dentro... aqui! — Espalmava a
                    mão sobre o peito, com os olhos húmidos; e depois, com ternura e decisão,
                    avançando o busto: — Deixe-me lhe beijar as mãos!</p>
                <p>— Estás doida! — repeliu Mateus com frieza. — Acomoda-te...</p>
                <p>Depois, quando a viu arredada e humilde, os braços longos, nas pálpebras paradas
                    um peso de tristeza:</p>
                <p>— És-me então muito grata?</p>
                <p>— Não lho disse já?...</p>
                <p>— Muito dedicada? — para vida e para morte, Sr. Mateus!</p>
                <p>— E queres-me dar uma prova?</p>
                <p>— É só mandar!</p>
                <p>— Pois bem... Ouve! — E compenetradamente, tendo-se levantado, e muito próximo da
                    ouvido da rapariga, que abria uns grandes olhos curiosos, quase de susto,
                    continuou, baixando a voz: — Escuta... A fábrica naturalmente tem um portão...
                    bem solido, tal vez chapeado?</p>
                <p>— Ele muito forte não é... Mas tem lá sempre um guarda.</p>
                <p>Os músculos faciais do contramestre traíram uma contrariedade. Ela aclarou:</p>
                <p>— Agora pelas traseiras é que há outra porta, sem ninguém, e um cercado grande,
                    uma espécie de quintal... com um muro.</p>
                <p>— Muito alto?....</p>
                <p>— Isso sim! — disse a Bandeirinha com intimativa. — Salva-se bem., e é uma
                    casquinha de noz.</p>
                <p>— Muito bem! — exclamou o contramestre, num intenso júbilo; e com grave entonação
                    outra vez, olhando cauto em roda: — Ora sabes o que eu quero, o que eu exijo de
                    ti... com o maior segredo?... Que me tragas o molde em cera da fechadura dessa
                    porta.</p>
                <p>— Só isso?...</p>
                <p>— Já não é pouco! Fazes-me isto?</p>
                <p>— Ó Sr. Mateus, que duvida! Está servido.</p>
                <p>— Mas toma conta como fazes isso... Que ninguém suspeite, nem por sombras!</p>
                <p>— Ah, esteja descansado, meu rico. Então quem sou eu?... — E com um acento
                    inteligente, em admirativa atitude diante do contramestre: — Mas que grande
                    ideia! Sim senhor... Sempre se me saiu um espertalhão!</p>
                <p>— Muita cautela com a língua, toma conta!</p>
                <p>— Isso é dos livros.</p>
                <p>— Bem e então, adeus! Fazes-me isto, sim?...</p>
                <p>— Ai, pelo meu rico menino, o que é que eu não faria por ele!</p>
                <p>E cravando no contramestre os pequeninos olhos impudentes, a Bandeirinha num
                    suspiro guloso, voltou costas e afastou-se a correr.</p>
                <p>Conheceu então o Mateus que o tempo apertava, e incansavelmente prosseguiu na
                    execução do seu grande e generoso ideal. Os quinze dias da celebração do
                    centenário vinham próximos, o proletariado estava disposto a tudo, um terror
                    latente abalava as consciências e cavava insónias na perturbada pacatez da
                    população da cidade; de sorte que era este por excelência o momento asado para
                    procurar subjuga-la, levando rápido de vencida qualquer timorata resistência, e
                    subvertendo assim de improviso a organização social e refundindo cerce a ordem
                    das coisas. Para mais, o Diretório republicano, deixando toda a liberdade de
                    ação aos correligionários, abstivera-se também os principais chefes socialistas,
                    avessos a soluções violentas, se tinham retraído, recomendando entretanto aos
                    seus numerosos e bem organizados centros que secundassem, quanto em si coubesse,
                    o movimento acrata. Portanto o Mateus via agora, por último, inesperada o
                    providencialmente, o fio de todo o poder de resistência e revolta do país,
                    inteiramente na sua mão; ele ia ser, de tudo quanto viesse a empreender-se, o
                    mandante absoluto, o supremo e essencial inspirador. E este íntimo
                    convencimento, a nítida noção da tremenda responsabilidade, longe de o
                    acobardar, temperava a sua alma de aço de energias novas, iluminava-lhe o
                    espirito de uma alegria infinita.</p>
                <p>O seu favorito centro de operações passara a ser certa drogaria do Pote das
                    Almas, com a pequenina porta, lambuzada a cores relumbrantes, afrontando, mesmo
                    em frente, a Boa Hora. Pois nas traseiras dessa anonima lojita todas as noites
                    se conspirava; aí vinha o contramestre, por escala, passar as suas instruções ao
                    negro e imenso bando que comandava; convocando-os fragmentariamente, expondo a
                    cada grupo, a cada classe apenas o papel que no grande dia lhes incumbiria; mas
                    da síntese e carater geral do seu plano guardando ciosamente o segredo.</p>
                <p>Ele tinha com efeito concebido, de colaboração com o Azinhal, um vasto e hábil
                    plano estratégico.</p>
                <p>— O assalto, é claro, seria dado alta noite, e tinha de ser simultâneo, cingindo
                    e afogando no mesmo decisivo instante, dentro da sua gargalheira implacável, a
                    desprevenida inação de toda a cidade. Caminharia o ataque, ao mesmo tempo, por
                    cinco zonas ou setores. O primeiro, mais oriental, ao longo do rio, teria por
                    guarnição o formigueiro enorme de operários que labutavam entre Braço de Prata e
                    o Beato, e a sua missão consistiria era apoderarem-se de todos os
                    estabelecimentos oficias que por ali marginam o Tejo, o quartel de artilheria, o
                    Arsenal, a Alfândega, o Terreiro do Paço. O segundo setor teria a sua
                    concentração em Chelas, para marchar daí, pelo alto de S. João, a tomar o
                    castelo de S. Jorge. O terceiro setor, reunindo os revoltosos do Areeiro para o
                    sul, por Sete Castelos, até ao alto do Pina, entraria simultaneamente pelas
                    portas do Poço dos Mouros e da Penha, ocupando esta altura, o Monte, a Graça e
                    toda a linha de contrafortes que limitam por este lado a cidade. Uma quarta zona
                    conglobaria, junto do Arco do Cego, toda a população fabril do Campo Grande,
                    para marchar sobre Vai do Pereiro e a Baixa. Finalmente, a quinta zona,
                    abrangendo Campolide, terras do Seabra e Fonte Santa, estava a cargo dos
                    revoltosos de Alcântara, e incumbia-lhe, entre outras coisas, arrasar o colégio
                    de Campolide e opor uma barreira aos socorros que tentassem vir de Belém e da
                    Ajuda.</p>
                <p>E tinha o Mateus matematicamente contados e marcados sobre a carta, não só os
                    pontos de concentração para as diferentes frações, e os caminhos que tinham de
                    seguir, como as suas horas de partida, para entrarem depois todas em ação ao
                    mesmo tempo. Nessa grande noite do assalto, — que ainda estava por fixar, — ele
                    postar-se-ia no mirante ameiado que coroava o parque do Almargem, onde receberia
                    comunicação da chegada dos diferentes grupos aos pontos designados. Os que
                    vinham de mais longe eram os do primeiro e quarto setor, que tinham de
                    concentrar-se, respetivamente, a 2 e a 3 quilómetros da estrada da
                    circunvalação. Esperaria pois pela participação destes; mas também, apenas a
                    recebesse, quarenta minutos depois eles estavam ás portas. Podia dar o sinal
                    para o assalto.</p>
                <p>Este sinal seria provavelmente uma girandola de foguetes, de cor convencional,
                    deitada pelo mesmo Mateus, do mirante do Almargem. Era, para de noite, o sinal
                    mais aparente; e era o que, naquela quadra de festas, despertaria menos
                    suspeitas. Do Almargem, o sinal seria bem visto do alto da Bela Vista, que o
                    transmitiria por meio de nova girandola, para oeste, ao alto de S. João. Daqui,
                    do terreiro ao lado do cemitério, nova girandola subiria logo, que seria aviso
                    bastante de avanço, não só para a quinta do Armador, ao norte de Chelas, na
                    secunda zona, mas também, já na terceira, para a Penha, quinta do Manique e alto
                    do Pina, aliás todos pontos visíveis dali. Finalmente, a estação da Penha
                    repetiria o sinal para as Picoas e Campolide; e Campolide para Estrangeira de
                    Cima, já ao norte de Alcântara. — Por esta forma, e não havendo indecisões nem
                    falhas, o formidável assalto a todos os pontos da cidade devia ser simultâneo, o
                    que era a sua principal condição de êxito. Convinha desorientar, desorganizar a
                    defesa, obrigando-a a dispersar-se, numa apavorada incerteza, por aquela área
                    imensa. E depois era deixar correr!</p>
                <p>O certo é que o Mateus contava realmente com um poderoso concurso de elementos,
                    não só morais como materiais, para confiar na temeraria execução do seu plano. A
                    esfaimada turbamulta em que se apoiava todo o seu poder, ia procurando
                    espontaneamente armar-se, e conseguia-o. Só à sua parte o Zé Pequeno arranjara a
                    pouco e pouco, pedindo a um, comprando a outro, converter o conhecido barracão
                    das traseiras da taberna num profuso e extravagante deposito de material de
                    guerra, cuja guarda e segredo lhe custava mil cuidados, quase tudo espingardas
                    de caça, algumas remotíssimas. Mas tudo servia. E então que, dos pequenos casais
                    e quintas suburbanas, começaram a trazer-lhe velhos exemplares arqueológicos, de
                    existência ignorada, cuja representação viva se julgava já por completo
                    desaparecida entre nos, constituindo alguns deles preciosíssimas peças para um
                    arsenal. Tais foram: algumas grossas carabinas raiunas, de pederneira,
                    bacamartes de metal, trabucos grandes e pequenos, mosquetes biscainhos,
                    arcabuzes flamengos e até velhos petardos de ferro e bronze, chuços, adagas,
                    alabardas. — Um positivo tesouro, uma riqueza. O Mateus vinha periodicamente ao
                    exame daquela extraordinária, daquela valiosíssima coleção, e não queria
                    crer!</p>
                <p>Mas, ao mesmo tempo, iam-se também em segredo munindo de toda a sorte de armas e
                    petrechos de morte Os dois grandes bairros sediciosos que flanqueiam a cidade.
                    Em Marvila, os tanoeiros e curtidores afiavam cuidadosamente os seus melhores
                    cutelos, arranjando-lhes bainhas de coiro, a modo de alfanges; os homens das
                    forjas encabeçavam as cunhas, martelos e marretas em longas hastes de madeira,
                    improvisando armas temíveis de brandir, de um grande aspeto primitivo; os
                    tecelões roubavam os pequenos eixos metálicos das rodas das cardas, dos torsos e
                    dos carretes, e aguçando-os faziam deles punhais também, em Alcântara, os
                    operários das fábricas de serração se passaram palavra para furtarem quanta
                    lâmina de serra pudessem, e assim as sonegavam, apertadamente enroladas, metidas
                    na algibeira, para depois as aplicarem longitudinalmente em hastes e toros de
                    madeira, formando alabardas de nova espécie. E o mesmo os ferreiros, os
                    serralheiros, os fundidores, os tanoeiros, os carpinteiros de carros, os
                    destiladores, os marceneiros. As grandes campânulas de refinação de assucar e
                    produtos esteáricos, subtraídas das fábricas e manejadas de feição, seriam
                    formidandos aparelhos de asfixia. Toda a ferramenta se aproveitava, de todo o
                    instrumento contundente se improvisava uma arma _homicida. Até os canteiros
                    afeiçoavam ao seu novo destino vingador os cinzéis e as picaretas. Os mesmos
                    calceteiros prometiam trazer à terrível deflagração do conflito o argumento
                    esmagador dos maços de bater as ruas.</p>
                <p>Havia que contar com a resistência das tropas, com a intervenção repressiva de
                    todos os elementos defensores das instituições. Mas isto mesmo não atemorizava o
                    Mateus. Pesara-lhe bem o valor, receitava-os pouco... Em primeiro lugar, a
                    Municipal. Essa toda seria pouca para o Centenário; andaria suficientemente
                    entretida com a manutenção da ordem, durante os festejos, para poder pensar na
                    revolta. Com um alarme a propósito, levantado no centro da cidade,
                    distrair-se-ia até a cavalaria, evitando que ela pudesse fornecer as habituais
                    patrulhas suburbanas, o que permitiria se efetuasse à vontade, no segredo e na
                    sombra, a formidável concentração dos revoltosos. Com as tropas da guarnição
                    mudava o caso de figura: estas estavam nos quartéis, prontas a acudirem à
                    primeira voz. Mas nem por isso o problema era insolúvel; também haveria meio de
                    lhes neutralizar a intervenção, pelo menos durante as primeiras horas; e,
                    depois, certamente os soldados, emancipando-se, viriam fraternizar com o povo. —
                    E o processo mais pronto e eficaz de intimidar as casernas, estava-se a ver...
                    seria a detonação de algumas bombas de picrato. Por exemplo, uma em caçadores 5,
                    na pequena cisterna que existe sob o terraço superior, mesmo junto ao alojamento
                    de duas companhias. Uma explosão a tempo, naquele lugar, derramaria logo a
                    indecisão e o pânico, se é que não custaria também algumas vidas... Em caçadores
                    2 era facílimo fazer coisa análoga, ainda melhor, mesmo em cima do paiol. O 2 de
                    infanteria fazia-se ir pelos ares, mesmo da rua. Todos os mais assim. O 46
                    estava com eles... E quanto à guarnição de Belém, uma rede forte de fio de arame
                    e meia dúzia de carroças voltadas, desde o Tejo à estação de Alcântara-terra, e
                    as eminencias da margem esquerda da ribeira bem ocupadas, partindo da ponte à
                    Fonte Santa, seriam obstáculo mais que bastante para que não passasse nem um
                    cavalo, nem um só homem.</p>
                <p>— Os meios de contraminar a defesa abundavam portanto. Sem contar que havia
                    guarnições militares insignificantes, que à onda dos revoltosos levaria
                    facilmente de vencida. Como os diferentes postos fiscais, sem tempo de serem
                    socorridos; como a guarda da Fundição de Baixo, uns doze homens, cuja inevitável
                    rendição poria era mãos dos vencedores toda a enorme quantidade de armamento e
                    equipamento armazenado ali.</p>
                <p>Que sairia depois de tudo isto?... Uma vez derribado o poder, baralhada pelo
                    terror a ordem social, arrasada toda a iniqua engrenagem do regímen burguês, que
                    nova e ideal construção iam os fanáticos da libertária ideia erguer-lhe nos
                    escombros?... Não o sabia o Mateus muito bem, nem isso lhe importava. Entregava
                    tudo ao sugestivo impulso da ocasião. Na alucinada febre, roçando pela
                    inconsciência deste seu sonho de redenção e de justiça, nada o preocupava, nada
                    o deslumbrava e atraía mais do que a execução de um implacável plano de
                    vingança. A fórmula construtiva deixava-a à inspiração do acaso... ela viria
                    depois. — E que era assim como sempre, afinal, tem sucedido por ocasião das
                    grandes comoções sociais.</p>
                <p>A esses decisivos abalos, primeiro o mundo estremece e sacode-se, como um leão
                    ferido; e as soluções de reparação só mais tarde irrompem, depois da derrocada,
                    instantâneas e cegas como relâmpagos. Pois também agora seria, mais uma vez,
                    assim. Derrubar primeiro, e seguidamente um toque providencial os ensinaria a
                    implantar a nova Lei sobre as odiosas ruinas fumegantes. Por enquanto, todo o
                    louco e pertinaz empenho do Mateus se resumia em conseguir que esta como que
                    atmosfera de repousada felicidade que envolvia Lisboa, — atmosfera tão cheia de
                    recordações e iluminada ainda por uma como claridade sobrenatural que se levanta
                    de glórias idas, — se convertesse, para esse supremo instante vingador, num
                    sinistro clarão de incêndio, numa torva e inflexível crepitação de
                    extermínio.</p>
                <p>E se ele tal conseguisse, — esta última consideração eterizava-o! — teria feito
                    com que Portugal, retomando o seu lugar à frente da civilização, merecesse pela
                    segunda vez o grato espanto do mundo. Iniciaríamos agora, pela emancipação
                    universal, uma era social inteiramente nova, assim como já o fizéramos também
                    com a descoberta de um hemisfério! E depois chamassem-lhe doido...</p>
            </div>
            <div>
                <head>CAPÍTULO XXI</head>
                <p>Numa das últimas noites de junho, via-se que tinha uma solenidade e um brilho
                    desusados o serão habitual dos Meireles, do Almargem. Dos pontos altos de
                    Xabregas distinguia-se o centelhar vitorioso do magnífico renque de sacadas do
                    palácio, profusamente repassadas de movimento, de luz e de alegria. E, no
                    interior, era o vestíbulo iluminado também, e o farto reposteiro granate do alto
                    da escadaria estava colhido a um lado, deixando franca e patente a aparatosa
                    antessala de rodapé de azulejos e negro teto apainelado, e logo depois, no mesmo
                    alinhamento a seguir, o grande salão das receções, um pequeno gabinete banal,
                    todo em vinhático, e a monástica sala de jantar, couraçada de pratas
                    reluzentes.</p>
                <p>Tinha-se realizado naquele dia a terceira sessão do Congresso Católico. Saíra
                    esta a mais significativa, a mais impressiva e eloquente das reuniões desse
                    atrevido conclave internacional, que entre nós, a pretexto do Centenário e com a
                    manifesta aprovação do Papa, o partido ultramontano imaginara e estava
                    impudentemente levando a efeito, burlando as leis do país e afrontando a letra
                    expressa da Concordata. Neste dia acabara de dissipar-se a calculada reserva, o
                    comedimento hipócrita dos oradores. A indiferença sem condições, por parte do
                    governo, assoprara gradualmente a sua rebelião sem limites. Tinham-se dito as
                    mais censuráveis e subversivas coisas. E a multidão preciosa dos assistentes
                    aplaudira, vendo-se entre eles muitas senhoras.</p>
                <p>Os clericais estavam radiantes. As afirmações reacionárias desse terceiro dia,
                    sob aquela nave marmórea do templo de S. Vicente, que marcava para Portugal um
                    ominoso período de opressão, tinham assumido também um largo e ameaçador alcance
                    no sentido da intolerância, da odiosa regressão ao regímen funesto do fanatismo
                    e da impostura. Fizera-se a exaltada apologia do poder temporal da Igreja;
                    proclamara-se a indefetivel justiça das pretensões de Roma ao domínio supremo,
                    não somente nas coisas religiosas, como também nas civis. Sustentara-se com um
                    desplante que chegara a ser ofensivo das leis do Estado, o absoluto poder da
                    teocracia estreme; o direito que, pelo seu carater de infalível, pertence ao
                    Sumo Pontífice, de muito ao seu bel-prazer e sem nenhuma ordem de dependência,
                    poder ordenar que as suas soberanas determinações se cumpram em todo o orbe
                    católico, sem a mínima contemporização com o poder civil. Fora em todos os seus
                    capítulos um rasgado e audacioso programa de emancipação clerical, vibrante nos
                    discursos dos oradores, fortalecido nos aplausos do auditório. Conjugada mente,
                    reclamara-se também a liberdade de fundação e exercício das congregações
                    religiosas, fizera-se a apologia da ingerência suprema do clero no ensino. — Uma
                    perfeita revolução pela palavra, tanto mais grave e criminosa que a sintetizavam
                    as mais altas sumidades da Igreja, escudando-se e movendo-se na impunidade que
                    lhes derivava da consagração e da tolerância oficial.</p>
                <p>Por isso Afonso Meireles, com as suas predileções atávicas vivamente estimuladas
                    pelo entusiasmo beato da mulher, condescendera em oferecer um jantar, seguido de
                    uma grande receção de homenagem, aos prelados estrangeiros que tinham vindo
                    honrar o Congresso com a sua presença; e cumulativamente punha-os em contato com
                    os mais valiosos e altamente cotados elementos da reação entre nós. Seria um bem
                    aproveitado momento para aproximação de inteligências, para troca de impressões
                    e consolidação da obra do bando negro. Aproveitava ao partido e enaltecia-o a
                    ele: não havia que hesitar.</p>
                <p>Ás 10 horas da noite, naquela vasta e majestosa sucessão de salas, era tão
                    ruidosa e intensa a animação, como o pejamento era completo. A luz jorrava
                    abundante de numerosos bicos de gaz, metidos à última hora, espolinhando-se em
                    toda a sorte de arestas e contrastes pela numerosa profusão das sedas, das
                    fardas, casacas e grã-cruzes, pelas faixas dos vereadores e as bandas dos
                    deputados. Os loiros mocinhos da Juventude Católica circulavam com o mesmo trajo
                    cerimonioso e austero com que em S. Vicente, no Congresso, faziam as honras da
                    casa, — todos de preto, calção e meia, a medalhinha simbólica na lapela. Cortava
                    a espaços este confuso bariolamento, este faustuoso turbilhão de cores vivas e
                    saltantes, a severidade agoureira das batinas. Mas no grande salão Luís XV, todo
                    forrado a púrpura, com tremós doirados, e onde em volta do Núncio estavam
                    agrupadas as altas sumidades da Igreja, aí era que a reunião ostentava todo o
                    seu pomposo carater sagrado, e revestia toda a sua togada imponência a
                    cerimónia; porque, casando-se e fundindo-se na mesma autocrática mancha as
                    purpuras prelatícias com o rubro canónico das paredes, somente num destaque
                    antigo realçavam as cabeças das suas eminencias, tosquiadas e lambidas como as
                    dos vultos históricos, suspensos de roda em telas denegridas, — conjugados assim
                    cenário e figuras para darem naquele simbólico conclave a mais sugestiva, a mais
                    intensa e flagrante evocação do passado.</p>
                <p>Sentado ao fundo, num grande canapé baroco, todo cetins e oiros, o Núncio
                    engatilhara espertamente no pequenino rosto, rosado e macio, a sua untuosa
                    expressão habitual, e desatava-se em amoráveis aplausos aos prelados,
                    dignitários, ministros e várias gentes de prol que o rodeavam:</p>
                <p>— Felicito-os sinceramente, meus amigos, pela obra imponente que empreenderam, e
                    de um modo tão vitorioso e cabal conseguiram executar! Nunca imaginei! Merece
                    ficar na história.</p>
                <p>— Obrigado, eminencia! — cantaram em coro, curvando-se reverentes, os
                    circunstantes.</p>
                <p>— Bem se vê que os tocou Deus da divina chama do seu espirito!</p>
                <p>— A sociedade sem Deus seria um cadáver, — disse sentenciosamente um obeso bispo,
                    de beiço belfo e o queixo sensualmente afogado numa grande barbela adiposa. —
                    Havemos de salva-la!</p>
                <p>— E vingar a dignidade, a supremacia da Igreja! — apoiou um outro, esguio,
                    pequenino, de crânio teutónico e olhos de toupeira.</p>
                <p>— Sim! Apesar de toda a diabólica sanha dos nossos inimigos! — exclamou também um
                    jovem leigo, de rosto enérgico e pálpebras inquietas, cofiando nervoso as
                    barbichas loiras.</p>
                <p>— É verdade! Pois não ousaram eles até... isto é um cúmulo! — dizia o grave
                    prelado da papeira, erguendo com indignação ao alto as mãos redondas, — não
                    ousaram improvisar aí assim um chamado Congresso socialista... ignóbil vazadoiro
                    de farroupilhas, de mentecaptos, vadios e impios da ínfima espécie, onde têm
                    sido vomitadas em plena licença toda a sorte de baboseiras, impropérios e
                    blasfémias!</p>
                <p>— Oh, mas as resoluções do nosso esmagaram-nos!</p>
                <p>O Núncio sem nada dizer, encolhia os ombros, tolerante.</p>
                <p>— Ainda assim, têm-nos feito todo o mal que têm podido... — volvia outro do
                    grupo. — Ainda ontem...</p>
                <p>— Exato! Exato! Aquele lindo cortejo histórico...</p>
                <p>— Um pensamento tão patriótico, tão largo!</p>
                <p>— Em que todos os grandes ciclos, todas as glórias de Portugal vinham
                    representadas.</p>
                <p>— Acolhido assim à gargalhada!</p>
                <p>— Pouco faltou para o correrem à pedrada!</p>
                <p>— É uma canalha! — murmurou num irreprimível impulso o nervoso barbichas,
                    deixando o grupo.</p>
                <p>— Tudo isto, meus senhores, vejam! é devido à crescente invasão da impiedade. Não
                    me farto de o pregar... — disse com enfâse o bispo pequenino. — A falta de fé é
                    a principal causa da ruina moral deste nosso pobre povo... ruina que se
                    manifesta hoje, pior do que tudo, infelizmente, na dissolução das famílias. Não
                    há disciplina, não há respeito, não há laços de coração. E vão por isso
                    alargando-se progressivamente o livre pensamento, o protestantismo, o socialismo
                    e todas essas falsas crenças perniciosas... Bem-dito seja Deus!</p>
                <p>— Tem Vossa Excelência razão... — apoiou convicto o Núncio, cerrando
                    beatificamente os olhos.</p>
                <p>Neste momento o beato círculo alargava-se, a pedido de Afonso Meireles, que vinha
                    apresentar ao Núncio os congressistas estrangeiros. Alguns deles, homens de fama
                    universal, como: o deputado alemão Lieber; o padre Pascal, da universidade de
                    Lile, celebre pela torrentosa virulência e a impetuosidade intolerante do seu
                    verbo; o superior do colégio de S. Clemente, em Roma, padre Hickei, que se
                    apresentou com as suas claras vestes de dominicano; mais os cardeais Sancha e
                    Gibons, e o carlista arcebispo de Valência.</p>
                <p>O Núncio, invariavelmente sorridente, tinha para cada um sua frase amável, dita
                    na própria língua do apresentado; e parecia contente, tocado de religiosa emoção
                    pelo significativo carater deste sacro desfile, que diante da sua fina e
                    dulcerosa figurinha perpassava devagar, enquanto, na casa de jantai ao lado, um
                    sexteto de corda executava uma sinfonia de Perosi, e, curiosas de assistir à
                    grave cerimonia, as damas, em pontas de pés e alongando os colos, se erguiam das
                    cadeiras.</p>
                <p>Jorge e Adriana andavam quanto possível arredios da festa. Ele, a pretexto de
                    receber os convidados, primeiro, depois propositalmente embebido no empenho de
                    organizar algumas mesas de jogo, quase não desarredara ainda da antessala dos
                    azulejos. Adriana, que tivera que acompanhar a mãe na afetuosa acolhida feita ás
                    senhoras que iam chegando, à primeira favorável refugiou-se com um estúrdio
                    rancho de amigas junto do piano, onde todas agora em chalreio bando se
                    conservavam, aflorando todos os assuntos, tratando minúsculas coisas inocentes,
                    rindo deste ou daquele, e na sua despreocupação infantil votando ao desdém o
                    aparatoso cerimonial do salão vermelho.</p>
                <p>Adriana vestia toda de branco, sem um enfeite, sem uma joia. Apenas, em leves
                    ondas de sonho, uma ligeira pluma branca, pedunculada de pérolas, se lhe
                    baloiçava sobre as breves fissuras naturais do cabelo castanho. As amigas
                    achavam-na magra, mais pálida que de hábito. A linha reta que lhe alongava com
                    severidade as sobrancelhas, a contração linear dos lábios, denotavam que
                    qualquer perturbador cuidado laborava apreensivo o seu espirito... Visivelmente
                    distraída, respondia ás perguntas por monossílabos, por vezes acudia com
                    observações excêntricas e risadinhas fora de propósito. E a cada instante que se
                    sentisse mais isolada, nos caprichos de travamento da conversa, logo ela deixava
                    o piano e corria a alguma das sacadas do sul, onde marruava numa imobilidade de
                    estatua, de costas ao movimento, alheada e atraída pelo vago mistério da noite,
                    pregada numa meditação enternecida, indefinidamente a olhar...</p>
                <p>De uma das vezes veio adonde a ela o irmão que, naturalmente:</p>
                <p>— Então deixaste as tuas amigas?... Que fazes aqui?</p>
                <p>— Uma noite linda, não achas? — acudiu Adriana,, de disfarce.</p>
                <p>— E nós a aturarmos estes reverendos maduros!</p>
                <p>— Ai, Jorge, que penitencia!</p>
                <p>Jorge Meireles teve um sorriso aborrecido; &amp; ao mesmo tempo, vendo que o pai,
                    com um grave personagem, de grã-cruz da Torre e Espada, se aproximava da
                    janela:</p>
                <p>— Oh, com a breca, Adriana! Temos massada no horizonte... Toca a safar!</p>
                <p>Adriana logo rodou veleira para o interior da sala; mas já não teve tempo de a
                    acompanhar o irmão, a quem o pai comandara de longe:</p>
                <p>— Ó Jorge, espera... anda cá. — E quando os dois estavam próximos dele: — Quero
                    apresentar-te ao Sr. presidente do conselho.</p>
                <p>Trocado o aperto de mãos do estilo, já o chefe do governo, com o seu ar
                    protetor:</p>
                <p>— Simpático rapaz! Estimo sinceramente...</p>
                <p>— Ó Sr. conselheiro...</p>
                <p>— É insinuante deveras... sem favor. Um digno continuador das tradições da
                    casa... — Parava complacente a observa-lo: — Há de ser inteligente! — Depois,
                    dobrado à orelha do pai desvanecido: — Se quiser para ele alguma das
                    candidataras que reservo ao partido católico, tem a eleição segura.</p>
                <p>— Infinitamente agradecido!</p>
                <p>— É de justiça.</p>
                <p>Chegavam agora ao vão da sacada, através de cuja vidraça se distinguia, vigoroso
                    e próximo, o confuso borrão do parque, mais o grande retângulo negro da chaminé
                    da fábrica, cortando transversalmente a placa fosca do rio.</p>
                <p>— São estes então os seus domínios? — dizia atencioso o ministro, olhando
                    fora.</p>
                <p>— É verdade, graças ao Senhor! — explicava com bonomia Afonso Meireles, de mão em
                    pala diante dos olhos. — Por toda essa ladeira abaixo, e a um e outro lado, até
                    onde daqui se alcança com a vista, tudo é nosso.</p>
                <p>— É importante... Lá em baixo é a sua fábrica, não é assim?</p>
                <p>— Toda aquela bisarma, sim senhor. — E encolhendo os ombros, numa desculpa: —
                    Modernices... ideias do meu filho.</p>
                <p>Mas agora o grave interlocutor do Meireles, após uma pausa de circunstância,
                    interrogou com intencional expressão:</p>
                <p>— E, diga-me, tem confiança na gente que lá traz empregada?</p>
                <p>— Eles cumprem...</p>
                <p>— Conhece-os bem? — disse com intimativa o conselheiro da coroa, de mãos cruzadas
                    sobre o ventre, sacudindo a perna.</p>
                <p>— A falar a verdade, — balbuciou, embaraçado, o Meireles, — eu nem os vejo... O
                    Jorge é quem lida com eles. Lá os fiscaliza, lá os admite e despede… faz o que
                    muito bera quer.</p>
                <p>— É que as minhas informações, pesa-me dizer-lho, meu caro Meireles, mas brigam
                    deploravelmente com esse seu otimismo... não têm nada de tranquilizadoras.</p>
                <p>Vexado e confuso, o velho Meireles fizera-se excessivamente pálido, sem atinar
                    com uma resposta. E muito afavelmente, a meia voz, o outro:</p>
                <p>— Todo este bairro é demasiado turbulento, sabe? Composto de gente suspeita...
                    Aqui conspira-se abertamente contra as instituições, há temíveis focos de
                    rebelião, infelizmente por enquanto incoercíveis. A cada momento rebentam
                    distúrbios, motins... cometem-se assassinatos que ficam impunes. Lembra-se Vossa
                    Excelência daquela rusga ao pátio do Fiúza? Pois os capturados eram quase tudo
                    gente daqui!</p>
                <p>— Gente perdida!</p>
                <p>— Ah, mas eu agora, tão depressa acabem os festejos, vou mandar policiar este
                    sítio com todo o rigor!</p>
                <p>— Faz Vossa Excelência muito bem!</p>
                <p>— O pior, meu bom Meireles, repito, é que o mais perigoso centro de propaganda
                    dissolvente passa por ser exatamente... a fábrica do Almargem.</p>
                <p>— Que me diz!? — rompeu de salto o Meireles, muito trémulo, com os lábios
                    brancos.</p>
                <p>— São as informações que tenho. Tudo ali trama e conspira, incluindo as mulheres!
                    E com especialidade então creio que o contramestre, um tal...</p>
                <p>— O Mateus?... Isso não é possível! — protestava, sinceramente aflito, o
                    velho.</p>
                <p>— É positivo... — confirmava o ministro, num piedoso sorriso, com doçura.</p>
                <p>— Não me faltava mais nada! — barafustou com veemência o Meireles, todo vibrando
                    em gestos indignados. — Dar eu alento à canalha, abriga-los dentro de prédios
                    meus, mante-los com o meu dinheiro! Eu bem não queria... parece que adivinhava.
                    Mas este meu filho, tanto teimou... — E alongava a vista pela sala, procurando
                    Jorge. — Afinal não tivemos remédio, a irmã era por ele, e lá se fez essa
                    asneira da fábrica!</p>
                <p>— Asneira, em absoluto, não...</p>
                <p>— Por vontade da minha mulher já ela estava fechada! — acrescentou em tom
                    sacudido o Meireles, cravando olhos de rancor na vaga escuridão da noite.</p>
                <p>— Não digo tanto... Mas chame Vossa Excelência a atenção do seu filho para o
                    assunto. Bem vê, ele é jovem e generoso... falta-lhe a prática dos homens; porém
                    com um pouco de penetração e cuidado, feita uma prudente escolha, tudo se
                    remedeia.</p>
                <p>— Onde estará ele?...</p>
                <p>— Aliás, a segurança do Estado prevalece a tudo… Terão que sofrer algum desgosto.
                    — E logo, a minorar no timorato espirito do velho o efeito da ameaça, olhando as
                    paredes: — Belas fotografias tem ali assim... sim senhor!</p>
                <p>— São reproduções de desenhos do nosso Sequeira. Os entendidos atribuem-lhes
                    grande valor.</p>
                <p>— E aquele grande quadro a óleo?</p>
                <p>— É cópia de um Rubens.</p>
                <p>— Rubens, bem sei. Uma das mais retumbantes glórias da Itália.</p>
                <p>E tendo soltado empafiamente esta blasfémia, o grave ministro, que parara um
                    momento sob a porta a contemplar com ar superior o grande retábulo, reentrou no
                    salão vermelho com o velho Meireles, que o admirava sempre.</p>
                <p>Tinha-se aqui formado, tendo por centro a D. Mafalda Meireles, uma curiosa roda
                    de conversa. O pequenino e irrequieto bispo deixara o Núncio para vir
                    cumprimenta-la; e então a sua proverbial loquacidade, posta à prova no tiroteio
                    picante das interrogações das senhoras, ia-se desatando numa pretensiosa
                    torrente de máximas e conceitos que a cada momento faziam crescer, curioso de o
                    ouvir, o auditório. Lá estavam agora, entre outros, o comendador Sulpício, o
                    padre Sebastião. Versava-se também naturalmente a audácia e despejo dos
                    socialistas, com a celebração do seu Congresso; estranhava-se que o governo
                    tivesse consentido. E logo, de mão erguida numa náusea, o bispo:</p>
                <p>— Oh, os socialistas! Não me fálera nessa praga, minhas senhoras... A só
                    enunciação do seu nome constitui um pecado!</p>
                <p>O feminino círculo confrangeu-se, numa simultânea mutuação de olhares pávidos e
                    arrependidos. O prelado continuou:</p>
                <p>— Eu considero os socialistas piores, mais perigosos ainda e mais odientos que
                    mesmo os ateus. Estes ao menos compreendem-se, são uma nova incarnação do
                    Espirito das trevas... dentro da sua doutrina são coerentes. Negam tudo, porque
                    negam a Divindade. Agora os socialistas, não! Estes pretendem substituir à nossa
                    religião sublime a fórmula hipócrita e egoísta dos seus ideais, o materialismo
                    dos seus processos. O seu fim é arrastar a sociedade a adorar-se a si própria,
                    como ainda na sessão desta manhã disse ali o reverendo Pascal, e é verdade...
                    Vejam se pode haver mais perniciosa, mais imoral e dissolvente doutrina!</p>
                <p>— São a peste da sociedade. Apoiado! — exclamou, num ímpeto irreprimível, o padre
                    Sebastião.</p>
                <p>— São os filisteus do seculo. Idólatras e cruéis... Abrenúncio!</p>
                <p>— Eu também assim o entendo, — interveio com gravidade o comendador, sorvendo uma
                    pitada.</p>
                <p>— No meu fraco modo de ver, foram eles, com o dementado exagero das suas
                    prédicas, que estragaram a liberdade. — Baixou o bispo numa aprovação a cabeça.
                    — Pois isto não é evidente?... Estava o mundo tranquilo, cada um se ia
                    resignando com a sua sorte, quando esses doidos maus desataram a gritar aos
                    pobres: «Sofreis? Tendes desejos?... Pois revoltai-vos; que os vossos direitos
                    são iguais aos dos ricos». E o povo, com efeito, revoltou-se, pondo
                    confiadamente em ação a inveja e o crime. Porém o pior foi então., quando
                    reconheceu que por cada desejo satisfeito, um outro desejo mais forte lhe
                    nascia! Sonhara saciar os seus apetites e não conseguia senão
                    multiplica-los.</p>
                <p>— Muito bem, comendador! Muito bem! — apoiou o bispo. — É isso mesmo...</p>
                <p>— Vê, senhora D. Mafalda?... — aproveitou o padre Sebastião para insinuar.</p>
                <p>— Ah, eu é gente que detesto! — disse a Meireles com calor.</p>
                <p>— E contudo admite-os por cá... bem perto de casa!</p>
                <p>— Isso vai acabar!</p>
                <p>— Hoje os pobres, — disse, com importante gravidade, o comendador, — que mais
                    adivinham do que conhecem os requintes da opulência, julgam-nos realidades de
                    perfeita bem-aventurança e procuram desvairadamente afogar a sede do luxo no
                    vinho. E, assim, encontrara a morte pelo alcoolismo, em vez da vida de
                    felicidade que tinham sonhado...</p>
                <p>— Agora já não é vinho, mas sangue, que querem beber!</p>
                <p>— Que horror! — gritou o coro feminino.</p>
                <p>— Vinham em demanda de uma absurda emancipação e ficaram chumbados à tirania de
                    um vício! Suicídio e escravidão, — diz bem, comendador, — é a triste síntese da
                    liberdade de hoje... Façamos ato de contrição e mudemos de assunto.</p>
                <p>Depois de uma pausa de respeito, D. Mafalda disse:</p>
                <p>— E a respeito de conventos, que me dizem vossas eminencias? Consegue-se que
                    voltem?</p>
                <p>— Ah, pois que duvida! Havemos de consegui-lo, minha senhora. É negócio
                    assente.</p>
                <p>— Ainda bem!</p>
                <p>As senhoras apertaram mais o círculo, com uns grandes olhos estimulados.</p>
                <p>— Pois há nada mais natural, mais logico, mais humano? — continuou o bispo. — há
                    nada mais conforme mesmo com a história?... A ociosidade é a grande escola! Dá
                    todas as largas ao pensamento, emancipa-nos do despotismo nocivo da matéria.
                    Todos os grandes progressos dimanam do recolhimento. A vida é a oração!</p>
                <p>E, beatificamente, o ladino prelado erguia ao alto a sua testa teutónica,
                    arregalando os olhos; enquanto mudas expressões de admirativo aplauso se
                    cruzavam no auditório.</p>
                <p>— Entretanto, — objetou a medo uma grande matrona grisalha, de buço e ametistas,
                    — há de ser difícil... Os frades deixaram tão má fama!</p>
                <p>— Infames calúnias dos pedreiros-livres! — exclamou o padre Sebastião, num
                    trejeito impaciente.</p>
                <p>— Creia que foram uns beneméritos, minha senhora, — disse o bispo. — Apesar de
                    todas essas caluniosas invenções, os frades têm sido os maiores, os mais
                    profundos e intensos propugnadores do trabalho.</p>
                <p>— Tal qual! — apoiou convicto o comendador.-</p>
                <p>— Aqui no nosso querido Portugal, dessa tão verberada e combatida ociosidade
                    brotaram, nas ciências, nas artes e nas letras, quantas glórias!</p>
                <p>— E por toda a parte! — reforçou o prelado com calor. — Vejam como o regímen
                    claustral foi o propulsor do século de Luís XVI em França, e, na Itália, do
                    século de Leão X.</p>
                <p>— Isso! Isso!</p>
                <p>— Tudo o mais assim!</p>
                <p>— Eu cá por mim, meus caros senhores, — disse desenfastiadamente Bernardo
                    Gonzaga, que acabava de chegar, — com respeito a frades, só conheço as histórias
                    que em pequenino a minha boa ama me contava à lareira, lá na província... e
                    essas, verdade, verdade, são bem pouco edificantes.</p>
                <p>— Oral ora! — protestaram as senhoras em coro, enquanto riam. — Já ele
                    tardava!</p>
                <p>— No entanto, se o restabelecimento das ordens religiosas vier, — disse o
                    Gonzaga, — desde já o declaro... vou logo para lá! Não quero outra vida.</p>
                <p>— Se lá o quiserem... — reprimendou a Meireles com doçura.</p>
                <p>— E porque não?... — acudiu logo o bispo, a compor. — Nem há modo de vida,
                    creiam, mais propicio à salvação da nossa alma. É indispensável readquirir o
                    direito a abraça-lo, a refugiar-se nele todo aquele que muito bem quiser... Pois
                    não é um absurdo, por exemplo, que o homem, num momento de desespero, possa
                    cometer o crime do suicídio, que é o cúmulo da cobardia, que é o maior atentado
                    contra a vontade de Deus, e não possa antes encerrar-se num claustro e ajoelhar
                    aos pés de Cristo, para lhe pedir lenitivo e consolação a suas mágoas e dores?
                    Não salvava isto tanta alma, evitando tanto pecado? Não poupava tanta vida?... O
                    recolhimento contemplativo dos espíritos é indispensável à criatura humana,
                    tanto individual como coletivamente considerada. Se para muitos é um refúgio,
                    para outros é uma necessidade.</p>
                <p>— Quem me dera! — suspirou irreprimivelmente uma jovem loira, presumível
                    milionária, de pele diáfana e longo colo medieval.</p>
                <p>— Para lá vamos, minha filha... Em breve poderá satisfazer o seu desejo. Pela
                    porta taciturna e mansa do claustro poderá entrar na vida eterna. E faz muito
                    bem! Que vale o mundo terreno?... Desgraçadamente, está-se a ver! Nada, a uma
                    existência digna, pura, e verdadeiramente própria de uma alma virginal e santa,
                    como a sua, não é outra, minha senhora, senão essa incomunicabilidade austera do
                    claustro, entre o mundo que se fechou e o céu que ainda se não abriu…</p>
                <p>Dizendo, o prelado cravava a pupila imperiosa na esguia e melindrosa loira, que
                    em mística volúpia, e corando, baixara com recato os olhos de noviça.</p>
                <p>Vinham agora da casa de jantar, e dispersavam solícitos pela multidão, criados de
                    libré com grandes bandejas, servindo a ceia volante. Mas, quase ao mesmo tempo,
                    avançava também com vivacidade, do lado oposto, Jorge Meireles, em demanda do
                    Núncio, com um papel amarelo na mão. Arredava todos com importância, pedia alto
                    que o deixassem passar. Por fim, chegado junto ao canapé doirado:</p>
                <p>— Um telegrama para Sua Eminência!</p>
                <p>O Núncio tomou o telegrama, abriu e desdobrou devagar; depois, apenas leu, teve
                    nos olhos um rápido brilho envaidecido e ergueu-se, acabando de solicitar por
                    este movimento as atenções de toda a sala, que já o incidente do telegrama
                    interessara.</p>
                <p>— Meus senhores! — proferiu ele, alto e pausado, num comovido jubilo. — Acabo de
                    receber, de Roma, um telegrama do cardeal Rampola, no qual se me transmite a
                    bênção apostólica, e se manifesta o desejo, espontaneamente expresso pelo Súnio
                    Pontífice, — e passava a ler: — «de que os trabalhos do nosso Congresso revertam
                    em bem da nação portuguesa e da religião cristã».</p>
                <p>— Louvado seja o Senhor! — exclamou com religiosa unção, ao lado do Núncio, o
                    bispo belfo, enquanto um lisonjeiro e grosso murmúrio corria significativamente
                    toda a sala.</p>
                <p>— Viva Sua Santidade Leão XIII! — bradou o irrequieto barbicas com
                    arrogância.</p>
                <p>Quando o eco atroador dos aplausos passou, o Núncio ergueu com solenidade a mão
                    direita, alongou o braço, de farta manga pendente, sobre a bariolada confusão
                    das cabeças abatidas, e traçando largo uma cruz:</p>
                <p>— <seg rend="italic">In nomine Patris, et Fili et Spiritus santis</seg>! Enquanto
                    os criados se imobilizavam alvarmente, com as bandejas altas, semeados ao acaso
                    pela sala; e dentro o sexteto rompia arrastada mente com o hino do Papa.</p>
            </div>
            <div>
                <head>CAPÍTULO XXII</head>
                <p>No sábado, 29 de junho, logo de manhã, o Mateus saía cedo do Almargem e
                    dirigiu-se logo à tenda do Zé Pequeno, para onde tinha aprazado uma conferência
                    com todos os principais chefes do seu grande movimento revolucionário. Ali
                    naquele casarão esmadrigado e deserto, onde tivera a sua primeira aproximação
                    séria com os explorados e os humildes, era que ele queria também transmitir,
                    para o seu libertamento comum, a ordem definitiva de batalha. Uma secreta
                    intuição, uma como que fé supersticiosa, fazia-o ver dependente da aproximação
                    destes dois extremos o êxito da sua aventura. Dali, onde apontara a génese
                    colossal do movimento, é que tinham de partir agora, formidavelmente aprestados
                    para a luta, os míseros e mesquinhos servos de ontem, transformados nos homens
                    imperantes e livres de amanhã!</p>
                <p>Na tarde deste dia realizava-se em Lisboa a grande procissão, o mais aparatoso
                    número do programa reacionário dos festejos, aquele em cuja imponente e
                    impressiva celebração o partido clerical punha o mais essencial empenho e a mais
                    acalorada esperança. Pois seria ele também o ponto de partida para as classes de
                    emancipação entrarem no caminho da violência. Aproveitariam a oportunidade para
                    baralharem pelo pânico e a desordem o irrequieto alvoroço das massas, fossem
                    quais fossem as consequências... custasse o abalo embora alguma efusão de
                    sangue, ou a antecipada anulação de várias vidas. E depois, na noite seguinte, a
                    última da arrogante bambochata, dar-se-ia, a horas mortas, o grande assalto
                    decisivo. — A população da cidade achava-se nas mais favoráveis condições
                    recetivas para tão larga e arrojada empresa. Demonstrara-o bem eloquentemente,
                    ainda nas vésperas, a atitude ameaçadora e impaciente da multidão perante o
                    cortejo alegórico, prestes a investir a cada momento com essa mascarada
                    torpíssima. O estado dos espíritos era anormal; cada um sentia desconfiadamente
                    em torno a si um fermento latente de mistério. Os que não eram revolucionários,
                    eram descontentes. E todos, todos sem exceção, ainda os vadios na sua
                    inconsciência, ainda as mulheres na sua leveza, todos ansiavam por libertar-se
                    deste mal-estar e sair desta aterrada e negra incerteza, fosse ele à custa de
                    uma grande hecatombe, fosse pelo preço do maior dos cataclismos. Portanto a
                    oportunidade era excecionalmente favorável; tudo ajudava. Era cerrar
                    implacavelmente o coração à piedade e andar! Raro viria uma outra ocasião
                    assim.</p>
                <p>Nesta conformidade, à tenda do Zé Pequeno vieram, logo de manhã, receber a ordem
                    os chefes e colaboradores mais importantes do movimento, os comandantes das
                    zonas e os capatazes das secções de todas as fábricas. Mais de cem homens,
                    representando cinquenta mil. Pois, além das instruções verbais mais minuciosas,
                    dadas na ocasião, para cada um deles havia o Mateus pacientemente elaborado, e
                    escrito pelo seu próprio punho, claras e precisas instruções especiais, em
                    sóbrio estilo militar com marchas, estações e horas marcadas. Um modelo de
                    harmonia, largueza e concisão, todo aquele plano. Á foiça de bem concebido e
                    pratico, chegava a parecer a sua execução facílima, o que era um novo estímulo
                    aos broncos conspiradores. Assim, depois de duas horas seguidas de conferência,
                    cada um deles dobrava agora e guardava o seu papel, com os ademanes olímpicos de
                    um César. E confiadamente o Mateus, ao despedi-los, aprazou-lhes ainda nova
                    reunião para a manhã seguinte. — Teriam de vir receber as últimas, instruções,
                    em harmonia com o que sucedesse logo, de tarde, com o alarme da procissão; e
                    acertar pelo dele os relógios.</p>
                <p>Tinha por igual o Mateus militarmente organizado o seu serviço de transmissão de
                    ordens, para essa noite decisiva. Um verdadeiro piquete de prontos e hábeis
                    correios, destinados a fazer-lhe chegar sucessivamente à residência do Almargem
                    os avisos da concentração e marcha das diferentes frações do ataque. Era um
                    bando de rapazes valentes e decididos, todos bem armados, e capitaneados pelo
                    Ventura, que lhes arranjara para montadas algumas das mais suportáveis alimárias
                    das carroças. O Fagulha manobraria nas imediações do Almargem. O Tranca-ruas
                    mais o filho, tinham adestrado os dois burritos em doidas correrias. O
                    Cavalinho-mosca arranjara um velocípede. E ainda este havia sido investido de
                    missão sobre todas honrosa e difícil, pois era o encarregado de semear a
                    perturbação e o terror por ocasião da passagem da procissão.</p>
                <p>Da clandestina baiuca saiu por fim o Mateus, com um estranho ar de iluminado,
                    todo vibrante de entusiasmo e de fé; e tomou logo para casa do João dos
                    Unguentos onde se estava também a toda a pressa ultimando mais um dos artigos do
                    seu plano, uma das escandecentes invenções do seu engenho. — Era a manipulação e
                    decoração das bandeiras, estandartes e mais simbólicas signas de guerra que ele
                    queria que os diferentes grupos levassem ao combate. Isto imprimia-lhes união;
                    seria a sua consagração, a sua força. Tinha ali assim nessa obra dezenas de
                    mulheres empregadas. Era a extensa galeria da direita, toda cheia. Passava-se
                    com dificuldade neste esguio e atravancado recinto, onde reçumava o nauseante
                    azedume de muita gente acumulada, com o ar espesso cortado pelo chocarreiro
                    canto das mulheres, trabalhando e chalrando alegres, como que aquecidas na feliz
                    antevisão de uma existência nova. Das velhas cordas do teto, cruzadas entre as
                    traves combalidas, pendiam lugubremente, como sanefas de luto, grandes panos
                    negros, comendo a luz e escondendo as baterias dos frascos, arrastando larga
                    ainda pelo chão a sua pressaga tristeza. E nesses fúnebres lençóis iam
                    ameaçadoramente destacando, em grandes letras brancas, toda a casta de fórmulas
                    sediciosas. Letras que umas mulheres talhavam no pano, pelos moldes, e outras
                    aplicavam a correr. Todo um programa implacável de morte se condensava nessas
                    amplas tiras de treva e de ameaça, francamente enunciado, em grossas letras de
                    evidência.</p>
                <p>Quase tudo conceitos e máximas dos grandes mestres espirituais do Mateus,
                    amorosamente colhidas e apontadas dos seus livros. — Tais como estas:</p>
                <p>A terra é de todos. — BOSSUET.</p>
                <p>Faze o que quiseres. — RABELAIS.</p>
                <p>O céu é cá na terra. — BUCHNÈR.</p>
                <p>Deus é um fantasma. — BAKOUNINE.</p>
                <p>O Estado vive da violência. — L. TOLSTOI.</p>
                <p>Ou o Estado ou Eu! — MAX STIRNER.</p>
                <p>Havia ali de todas as épocas, de todas as raças, de todas as civilizações, de
                    todas as escolas. Eram máximas tendo todas de comum o seu intelectível traço de
                    verdade, eram a inauferível cristalização do mesmo pensamento através da
                    História. Assim, havia-as de Lafontaine, Rousseau, Diderot, E. Reclus, H.
                    Spencer, Kropotine, Proudhon. Outras remontavam aos primitivos tempos da
                    humanidade, como as bebidas nas profundas oitenta páginas de sociologia, que se
                    conhecem, do pensador mongólico Lao-Tseu.</p>
                <p>Por último, até ao sermonário admirável do santo agora consagrado, — Santo
                    António, — o incansável revolucionário fora beber argumento e esteio para a sua
                    obra. Era dele a seguinte fórmula sintética da antinomia entre o Capital e o
                    Trabalho:</p>
                <p>Não pôde haver acordo entre cristo e Baal — SANTO ANTÓNIO.</p>
                <p>O Mateus ia percorrendo, afável e alegre, os grupos, encarando numa expressão ao
                    mesmo tempo imperiosa e grata as mulheres, que o fitavam com carinhoso interesse
                    ao passar. Ia verificando as legendas já prontas, insinuava rapidez onde via
                    atraso, depois mandava dobrar e acamar em fardos, que tinham de ir à noite para
                    sua casa. E para todas entretanto tinha um sinal de agrado, um hábil dito a
                    tempo, uma frase lisonjeira. Elias ao sentirem-no ao pé, sensualmente
                    estimuladas, pegavam-se com mais ardor ao trabalho, tranquilizavam-no :</p>
                <p>— Ficava tudo pronto, — dizia-lhe uma. — Estivesse descansado!</p>
                <p>— Nem que tivessem de suar sangue, aquilo acabava-se num rufo!</p>
                <p>— Para irem depois ver a parodia da procissão!</p>
                <p>Quando saiu de casa do João e tomou, rua abaixo, direito a Xabregas, notou o
                    Mateus que as ruas, os cais, os prédios estavam, por assim dizer, desertos. Fora
                    já tudo para Lisboa, nomeadamente para a Baixa, levado no sensacional empenho de
                    assistir ao desfile dessa grande parada religiosa, que se anunciava com um
                    luzimento excecional.</p>
                <p>Devia ser, no coração da cidade, uma imensidade de gente... Que esplendida
                    ocasião para manobrar! — Por isso o Zanaga tinha desesperadamente insistido para
                    que se lançassem então algumas bombas de explosivo sobre essa canalha, sem campo
                    para se defender, sem tempo para fugir... Mas o piedoso coração do Mateus
                    opôs-se tenazmente. — Não era preciso; seria demais... — O Fagulha esperava-o
                    impaciente, junto ao portão do parque. Estavam sendo horas, era tempo de irem
                    andando. Assim ficou deveras surpreendido quando o Mateus lhe disse que não ia.
                    Teve este que repetir categoricamente a afirmativa, para que o seu dedicado
                    satélite o acreditasse. — Futurava aproximadamente o que ia suceder, não
                    precisava lá ir para isso; nem mesmo os chefes dos grandes movimentos deviam
                    nunca abandonar os seus centros de comando, para se irem misturar à confusão das
                    primeiras escaramuças. No entanto, ele, Fagulha, que fosse. Até convinha... para
                    lhe contar depois.</p>
                <p>E logo que aquela pequenina figura grisalha se afastou rua abaixo, claudicando, a
                    correr, o Mateus, na aparência tranquilo, entrou para casa.</p>
                <p>Era quase ao tempo em que, lá longe, o filipino pórtico da igreja de S. Vicente
                    de fora começava bolsando os primeiros anéis, as primeiras dobras dessa serpe
                    imensa, na gloriosa reverberação do sol, por entre a irrequieta avidez da
                    multidão e o festivo bimbalhar da sinarada. Dentro da igreja ia entretanto um
                    grosso empilhamento e confusão de gente. Sob a curva luminosa da nave principal,
                    as irmãs da Caridade, as freiras e as fidalgas formavam e dispunham, num passivo
                    automatismo de bonecos, os milhares de crianças dos diferentes institutos de
                    caridade; pelas naves laterais enfileiravam-se os ricos estandartes, os andores,
                    os ciriais e cruzes das irmandades; na sacristia acabavam de paramentar-se à
                    pressa os sacerdotes. Cá fora, à direita, vinte praças de cavalaria municipal
                    aguardavam ordem para pôr-se em marcha, a abrir o cortejo; e à sua esquerda
                    formavam ainda as várias bandas regimentais, que deviam escalonadamente
                    incorporar-se no desfile, segundo o seu número de ordem no programa. Depois,
                    pela rua de S. Vicente até ao Arco de Santo André, formava em linha o 16, de
                    guarda de honra, e seguidamente toda a infanteria municipal. O resto da
                    cavalaria distribuía-se em patrulhas pelas ruas.</p>
                <p>Foi moroso e difícil o desdobrar das primeiras figuras. Tornava-se trabalhoso o
                    desembricar individual, para a evidência e para a luz, de cada símbolo, de entre
                    aquele amontoamento colossal de lhamas, oiros, cetins, azas, bandeiras, alvas,
                    sobrepelizes, opas e grã-cruzes. Por fim, pausada e majestosamente, o
                    incomensurável monstro, esse desafio arrogante do fanatismo, lá foi desenhando o
                    seu luzido e arrastado perfil, cheirando a novo, escamoso de sagrados brilhos,
                    na serenidade triunfal do céu, pelo dédalo tortuoso das vielas de Alfama. — Na
                    frente do préstito, as patas dos cavalos punham em respeito a multidão. Vinha a
                    seguir o velho pendão, de damasco roxo, da cidade, com os oiros denegridos, e
                    que teve de abater-se para sair do templo; e logo depois uma curiosa figura de
                    Anjo anunciador, com estandarte branco, de largas franjas doiradas, tendo as
                    armas de Lisboa a matiz, em relevo. Vestia este anacrónico anjo à romana, túnica
                    branca, manto vermelho e capacete de crista. Ladeavam-no seis anjos pequeninos,
                    paramentado cada um também pela sua forma, no mais solto e grotesco capricho.
                    Aparecia seguidamente, em passitos minúsculos, em torcicolos infantis, uma
                    fieira infindável de adultos e crianças: primeiro os alunos da Casa Pia, por
                    pelotões, equipados e armados marcialmente; depois as criancitas das várias
                    creches e asilos, também todas uniformizadas, umas de crépon azul com chapéus de
                    palha escura, outras de cor de castanha com enfeites de tule branco, ou de preto
                    com cabeção à maruja, ou de boné escocês e bibes e chambrinhos de riscado. Havia
                    ainda os rapazitos das catequeses de Santa Engrácia e Coração de Jesus, com os
                    rostitos engoiados e anémicos muito sumidos sob a pala negra dos bonés. Fechava
                    esta vanguarda pueril do cortejo o grupo dos jovens rebentões da Juventude
                    Católica, de casaca e medalha na lapela. Depois um grande pendão de cetim
                    branco, suspenso de hastes doiradas, articulando em cruz, com um lindo painel ao
                    centro, figurando Santo António idealizado entre nuvens. Era o primeiro dos onze
                    que tinham sido mandados fazer em Antuérpia, elegantes e aparatosos, cortados
                    todos em cetins, coruscantes de cores diversas, sobrepujados por largas sanefas
                    com franja, cortados inferiormente em largas tiras flutuantes, e com a biografia
                    milagreira do Santo pintada a fresco, em cada um seu episódio. Iam eles
                    alternando, a longos espaços, com o estirado desfilar das irmandades,
                    vitoriosamente desfraldados sobre essa policromia alada de opas caras,
                    palpitando ao vento. A partir do primeiro pendão, a infanteria municipal começou
                    a incorporar-se também no cortejo, ladeando por meio de patrulhas, de vinte em
                    vinte passos, a procissão. E as caricatas miniaturas de anjos salpicando-a
                    sempre, alguns ajaezados muito comicamente, com trapos de guarda-roupa, das mais
                    disparates combinações, de alegorias absurdas. Intervalados por entre as
                    irmandades vinham igualmente os andores; entre eles, na sua peanha gongórica, o
                    pequenino Santo António da Sé, e o Santo António guerreiro, de Cascais. Depois,
                    em dupla fila, a crua mancha, branca e negra, dos seminaristas; a seguir os
                    priores, os desembargadores, os cónegos, os cantores da Sé, os sacristães com a
                    cruz e o cirial, e as almofadas com as mitras; o cabido, de pluvial, alçada à
                    frente a cruz patriarcal; e sob o palio, de mitra e dalmática, o Patriarca,
                    acolitado pelo deão e o chantre, levando as relíquias do Santo. Pegava ao palio
                    gente do cabido, nos flancos balanceavam-se os dois leques de penas. Finalmente,
                    na cauda, os prelados das outras dioceses, deputações das duas casas do
                    parlamento, as primeiras autoridades civis e militares do distrito, a
                    representação pitoresca das camaras municipais de todo o reino. E, a fechar, em
                    ruidosa desordem, o costumado tropel de povo.</p>
                <p>Era deveras imponente e majestoso. Impunha-se pela grandiosidade, pela
                    diversidade, pela riqueza, pela sua extensão descomunal. Levou duas horas a
                    desfilar. Já o primeiro pendão chegava ao Limoeiro, e ainda o portão enfeitado
                    de S. Vicente estava golfando corporações. Jatancioso e enternecido, numa
                    patente emoção piedosa, o Núncio assistia à cerimónia, da varanda, estilo
                    rústico, de uma casa senhorial, frente ao arco de Santo André, ladeado por
                    grandes damas com lágrimas nos olhos. Á passagem de cada andor, de cada benta
                    imagem, ajoelhava; e diante do palio imobilizou-se por segundos em fervorosa
                    oração.</p>
                <p>Quando chegava ás alturas da Sé a colegiada, saíram de dentro os cones joaninhos
                    das basílicas, a incorporarem-se também na procissão, cujo interminável dorso
                    refulgente já a esse tempo tomara toda a Magdalena e rua dos Capelistas, tendo
                    voltado à direita, rua do Oiro acima, por entre as janelas e os telhados
                    acogulados de cabeças, ombro a ombro com a efervescência sempre crescente da
                    multidão. O Cavalinho-mosca postara-se em observação, próximo do Rossio, a meio
                    das escadinhas de Santa Justa, improvisado palanque onde a pressão do povo era
                    esmagadora e a acumulação insofrível, de roda a um tosco altar com uma grande
                    cruz simbólica, que com ripas e lonas de entremês os festeiros tinham fantochado
                    ali. O inflamado agitador estava pálido, nervoso, inquieto; os seus olhos de
                    lince tinham duras reverberações metálicas; sobraçava um grosso maço de papéis,
                    que a intervalos procurava solicito com a mão, como que a afaga-los, a
                    certificar-se da sua presença. — Parecera-lhe ser aquele talvez o melhor centro
                    de operações para a sua manobra. Dali, daquele ponto central e dominante,
                    qualquer pequeno sinal de alarme irradiaria fácil em todas as direções, tomando
                    rápido volume e incremento, achando logo ama repercussão formidável no
                    marulhante mar de gente que, ali a dois passos, refervia impetuoso e compacto em
                    toda a vastidão do Rossio.</p>
                <p>Vinham agora passando na frente dele as emaciadas crianças da catequese, com a
                    espinha amolgada e o ar embrutecido, acompanhadas por senhoras de negro, com o
                    peito constelado de emblemas religiosos. A excitação nos espetadores era
                    manifesta; o desagrado, a rebelião, a troça cada vez maiores. Havia gestos
                    claros de achincalho, atitudes de provocação, frases injuriosas, que faziam
                    corar algumas das grandes damas de preto, e os municipais franzirem para o lado
                    os olhos de ameaça, distribuindo algumas coronhadas. — Era o momento... O
                    Cavalinho-mosca fez sinal a um pequeno moina que estava em baixo, marinhado num
                    candeeiro, e que soltou um escarninho assobio; e ao mesmo tempo ele arrancou do
                    sovaco e mandou para a frente num arremesso os papeluchos, que voaram rufiando,
                    como pombas, pelo ar. E gritava:</p>
                <p>— Abaixo a reação! Viva a anarquia!</p>
                <p>Os mais próximos dele, naturalmente, voltaram-se primeiro com espanto, depois
                    agitaram-se, acotovelando-se, pretendendo correr, no estimulado empenho de
                    apanhar os papéis. Isto determinou uma oscilação violenta, que de camada em
                    camada, transmitida à rua, levou adiante de si a onda do povo, penetrando,
                    estripalhando a procissão e atropelando as crianças. Então romperam angustiados
                    para o ar os primeiros gritos, quase simultaneamente, o embate inconsiderado da
                    multidão, na sua atabalhoada ansia, pregou com o altar em terra, ferindo os
                    destroços muita gente, produzindo um fragor medonho; e foi como, por entre
                    imprecações e por entre clamores e choros, esta primeira ondulação de terror,
                    alastrando, cresceu assoladora e instantânea pelo espaço, tanto mais dominadora
                    quanto mais caminhava, produzindo, súbita, indomavelmente, uma apavorada e
                    grande debandada.</p>
                <p>Então o pânico, o alarido, a confusão, o tropel foram uma coisa indescritível.
                    Rompendo, cortando alucinado o povo por toda a parte, envolvida numa como
                    ressaca humana a luzida serenidade do cortejo, fragmentada sacrilegamente a
                    procissão, não se ouviam nas ruas senão gritos de: — Fujam! Fujam! — ; e das
                    varandas dos prédios também figuras aterradas, debruçando-se, indagavam: — O que
                    é, meu Deus!? Mas o que é?... — E ninguém sabia, ninguém queria, ninguém era
                    capaz de responder... Esses subversivos papeis soltados pelo Cavalinho-mosca
                    eram umas inofensivas folhas volantes de jornal, em oitavo, — SUPLEMENTO AO N.º
                    61 DA «PROPAGANDA», — lia-se ao alto de cada um deles, com a subepígrafe: Os
                    anarquistas ao povo trabalhador. Mas no momento ninguém tinha tempo nem
                    serenidade para os ler. A ordem era cada um fugir, salvar-se como pudesse. O
                    primeiro grito soltado foi um rastilho. Ninguém se entendia agora, ninguém se
                    conhecia. Conquistavam espaço adiante de si, implacáveis e cegos como feras. Em
                    instantes tudo estava deploravelmente baralhado e introvertido: um turbilhão de
                    tochas, cruzes, hastes de pendões, trapos, bengalas, rendas, imagens, alvas de
                    clérigos e chapéus de senhoras rodopiavam pelo ar. Padres e leigos, velhos,
                    mulheres e crianças, polícia e povo, tudo tomava atabalhoadamente a fuga, no
                    horror a um misterioso e imaginário perigo, tanto mais empolgante que ninguém
                    sabia ao certo o que ele fosse... e as suas proporções assumiam assim uma
                    ampliação enorme no interior desses espíritos cavados de incerteza. A titânica
                    abalada era geral, em definidas linhas para as embocaduras das ruas, pelidando
                    em desespero pelas sabidas, e nesta grande fuga ao estricote levando tudo de
                    rojo diante de si, como se arrastados fossem na tromba gigante de um ciclone, ou
                    se renovasse a lendária catástrofe do terremoto. Chegava a determinar estranhas
                    aberrações visuais este louco remoinho, esta precipitada corrida em massa, sem
                    ordem e sem medida. Parecia que tinha escurecido o ar; esperava-se a todo o
                    momento ver aparecer esses anjos terríveis de que falia a Escritura, voando
                    entre nuvens de chumbo e soprando o <seg rend="italic">Dies illes! Dies
                        irae</seg>! Nas suas brônzeas tubas de extermínio; e naquela atropelada
                    extensão do Rossio, literalmente varrido pela toalha imensa da multidão, chegava
                    a estranhar a gente que a coluna do monumento ficasse no seu lugar, que não
                    fugissem também ou não aluíssem os prédios.</p>
                <p>Por parte dos clericais, de toda a beata multidão que por qualquer forma ia
                    colaborando no grande préstito religioso, a confusão e o terror não conheciam
                    limites. Alijavam os andores, largando-os de alto e deixando-os de repente ao
                    abandono, com os santos esmurrados e os varais partidos; atiravam fora os
                    brandões, os bentinhos, as relíquias, os ciriais as cruzes, rasgavam as opas,
                    tapavam furtivamente as coroas sofraldando as batinas. Os seminaristas atacavam
                    os portais abertos e acoitavam-se nos vãos de escadas, despindo as alvas, a
                    rezar alto e a tremer, com os olhos enresinados. As mulheres, descompostas e com
                    as saias em frangalhos, tombavam desmaiadas. Prelados de todas as categorias
                    foram vistos a fugir também perdidamente, arregaçando as fraldas, sem recato nem
                    vergonha. Houve lojas arrombadas pelo choque homérico da multidão. E no meio de
                    toda aquela algarada cobarde, alguns raros traços de animosidade destacaram,
                    como: valentes varinas que, com o ar decidido, carregavam ao colo os filhinhos
                    que iam de anjos na procissão; como um padre que atravessou rápido a grande
                    praça, duro e enérgico, de revólver apontado ao povo e berrando:</p>
                <p>— Povo indigno! Estás a pedir Inquisição! — Não faltavam igualmente as notas
                    cómicas: homens graves escalando as árvores, com o fato rasgado; outros com o
                    chapéu sem abas; brigando outros com os soldaditos da Casa Pia, a tirarem-lhes
                    as armas para se defenderem; e uma senhora em cabelo, com o olhar desvairado, a
                    correr, descalça, já com os pés em sangue e com três sapatos numa das mãos.</p>
                <p>Ficou assim, num momento, completamente desbaratado o incomensurável monstro da
                    procissão. Os pendões tinham abatido todos como por encanto. Os símbolos
                    religiosos, ou tinham desaparecido, ou jaziam desacatados, estrompados e soltos
                    pelo chão. Quando o pânico se deu, a testa da procissão, a meio da Avenida,
                    voltava já para o largo da Anunciada, e o palio vinha ao fundo da rua do Oiro.
                    Pois em poucos minutos esta ficou quase completamente deserta. A evacuação foi
                    quase subitânea e total, naquela grande rajada de terror. Houve virgens, anjos,
                    filarmónicos e seminaristas que chegaram a atingir esbaforidos, numa doida
                    carreira seguida, a praça de Luís de Camões, parando só aí. Alguns soldados da
                    municipal chegaram a carregar as armas. Um tiro perdido e haveria uma hecatombe,
                    seria o Dia do Juízo! De roda do palio tudo também desatou na mesma pusilânime
                    debandada, incluindo o alto clero. Ficaram apenas, com as autoridades militares,
                    o conde de Bretiandos e o bispo de Coimbra. Do mais, somente os portadores do
                    palio, por dever do cargo, se mantiveram, com o olhar atolarabado e as varas a
                    tremer-lhes nas mãos; e sob a sacra umbela, entre o deão e o chantre, a figura
                    lívida e imovei do Patriarca, na sua bronca ingenuidade porventura sonhando já
                    com as palmas do martírio... Isto enquanto na grande extensão da rua, quase
                    deserta, se via o pavimento todo salpicado de destroços: sapatos, saias,
                    báculos, medalhas, lacinhos, chapéus, mamarrachos e ídolos de toda a sorte;
                    enquanto, a perder de vista, a multidão continuava desaurida a correr para as
                    travessas; e em cima, na balaustrada do teatro de D. Maria, apontava a linha
                    esbelta da Rainha, para numa piedade aflitiva fazer sinal de alto! Ao esquadrão
                    que avançava da rua do Príncipe.</p>
                <p>Por fim, laboriosa e cansadamente, a ordem foi-se restabelecendo. Passados os
                    primeiros minutos de pânico, foi entrando cada um em si e tranquilizando-se, por
                    não ver justificação consequente ao seu terror. Assim, uns sossegaram, outros
                    voltaram a tomar serenos o seu lugar à beira dos passeios. Os estropeados e os
                    feridos, que eram muitos, enchiam as farmácias. E a procissão, desmantelada e
                    num receio, lá procurou mesmo assim recompor-se e retomou o seu itinerário; mas
                    agora descosida e já sem imponência nem grandeza, com deploráveis soluções de
                    continuidade, lembrando a retalhada cauda de um grande réptil, já morto, mas
                    debatendo-se ainda e chicoteando a terra na epilepsiação da agonia. E, tendo
                    recebido ordem para apressar o andamento, lá logrou a esfarrapada milícia
                    terminar, já com as primeiras sombras da noite, o seu falhado passeio triunfal
                    pela cidade, entrando finalmente na Sé, onde ia celebrar-se o Te-Deum do
                    programa.</p>
            </div>
            <div>
                <head>CAPÍTULO XXIII</head>
                <p>Este borrascoso e terrível fim de tarde Dão fez senão, corroborando as previsões
                    do Mateus, afervora-lo mais na completa e integral execução do seu plano. — Não
                    havia duvida... estava definitivamente estabelecida a desordem, a confusão e o
                    terror em toda a cidade; ela ficava assim à mercê de um golpe de mão ousado. A
                    coisa não podia falhar! — Por isso ele no dia seguinte confirmou as suas ordens:
                    dar-se-ia naquela madrugada o grande assalto armado à cidade. Era a noite
                    escolhida pelos festeiros para o desfile do cortejo iluminado a fogachos e
                    balões de cores, — corrida de gente fina, — o qual devia ir do Terreiro do Paço
                    até à Avenida. Bela ocasião, magnifica oportunidade para tentar frustrar mais
                    essa pândega pela violência, repetindo o processo do dia anterior! Manter-se-ia
                    assim a perturbação nos ânimos; e, o que era essencial, distrair-se-ia a
                    municipal e a polícia de sorte que não fosse a ronda habitual das patrulhas
                    impedir em volta da cidade a concentração dos revoltosos.</p>
                <p>Pois este efeito conseguiu-se com uma exatidão, uma bravura e um êxito que nada
                    deixaram a desejar. Cerca das 8 da noite, começou a engrossar e a crescer no
                    Terreiro do Paço e imediações, mormente à esquina para o Arsenal, uma multidão
                    turbulenta e compacta, emporcalhada a espaços pela mancha patibular dos tunos e
                    malandrins da ínfima espécie, falados e assoldadados expressamente para
                    intervirem na ocasião. Sabia-se que devia partir dali o cortejo, e a senha era
                    fazê-lo abortar <seg rend="italic">ab initio</seg>, dissolvendo-o pela desordem,
                    aniquilando-o pelo ridículo. Aberta a escancaras, centelhava convidativa na
                    escuridão a porta de um grande ripado provisório, improvisado armazém onde em
                    caótica profusão se amontoavam muitas dezenas de caixotes com velas, e milhares
                    de balões polícromos de papel, tigelinhas, escudos, rolos de canos de chumbo,
                    lonas, archotes, bandeiras e quejandos ornamentos obrigados da festança.</p>
                <p>A um sinal dado, saíram de dentro cinquenta condutores-bombeiros, empunhando
                    altas e grossas hastes de madeira que tinham no topo um reservatório com torcida
                    e petróleo, formando fogacho. Estenderam alas sobre os dois flancos da porta e
                    acenderam os fachos, ao tempo exato em que as primeiras carruagens se
                    aproximavam, no seu romper moroso e difícil através a grossa pinha do povo. Tudo
                    carruagens descobertas, num rodilhão alegre de cabeças, transportando famílias
                    inteiras, os cavalos enfeitados de guizos, algumas vestidas também de flores.
                    Assim a primeira carruagem avançou, até vir recortar-se no retângulo iluminado
                    da porta, donde surdiram outros bombeiros que vieram oferecer aos que iam
                    dentro, a cada um sua haste com um balão aceso; até o garotito sentado na
                    almofada, ao lado do cocheiro, foi brindado com uma; e já o chicote fustigava os
                    cavalos e a carruagem dispunha-se cedendo o lugar a outro, a dar a volta e
                    partir. Mas, quase no mesmo instante, um grande alarido de assobios, vaias,
                    apupos, morras! Estrugiu e alastrou, numa dura ressonância de ameaça, por sobre
                    o amontoamento anonimo do recinto. E, simultaneamente, a desprevenida carruagem
                    era assaltada, as hastes dos balões arrancadas das mãos dos pávidos festeiros e
                    partidas em estilhas, e logo os balões rasgados ou calcados a pés na rua. Veio
                    segunda carruagem, aconteceu-lhe o mesmo. Igualmente ao terceiro e ao quarto e a
                    outro e outro. E numa progressiva ansia o borborinho, a algazarra, um
                    estrupidante ferver de revolta cresciam na multidão. Cabriolava em toda a sorte
                    de excessos o vulgacho, contando com a impunidade. A polícia, longe, não ousava
                    intervir. Os trens eram escalados com impetuosidade, com uma sanha barbara,
                    travando-se dentro de muitos deles surdas lutas a murro. As crianças e as
                    mulheres com os seus gritos exacerbavam os conflitos, complicavam o alarido.
                    Agora os distribuidores dos balões já nem os acendiam; defendiam-se com as
                    hastes, à paulada. Silvavam pedras pelo ar.</p>
                <p>Muitos cocheiros, prudentemente, desertaram. Outros aconselhavam os fregueses a
                    que recebessem os balões apagados, e partindo rápidos, iam acendê-los longe,
                    procurando organizar o cortejo na rua da Prata. Mas foi debalde. Aqui também os
                    seguiu como por encanto aquela bruta jolda irreverente. Atacavam-nos e
                    desarmavam-nos da mesma forma, faziam-nos atabalhoadamente destroçar. E como a
                    esto tempo esses apavorados farrapos de cortejo eram já uma coisa truanesca e
                    lúgubre no seu crepuscular desmantelamento, ainda em cima vozes de troça lhe
                    cobriam vergonhosamente a debandada:</p>
                <p>— Miserere! — Ó medo, larga essa carruagem! — para a onde vai o enterro?...</p>
                <p>Entretanto, umas carroças de lavadeiras que passavam, tiveram uma ruidosa
                    ovação.</p>
                <p>Outra corda de trens ainda procurou, dando volta pelo arco da rua Augusta e
                    Alfandega, ir reformar-se junto ao cais das Colunas. Não foram mais felizes. Aí
                    lhes burlou também a tentativa a mesma implacável e barbara multidão. Mas se a
                    audácia do populacho não conhecia termos, também a teimosia e perseverança dos
                    organizadores daquela festa não tinha limites. A proximidade do rio sugeriu-lhes
                    a ideia de recorrerem aos catraeiros, que eles fariam desfilar numa imponente e
                    pitoresca marcha, levando, não já balões, mas archotes acessos. Porém os cautos
                    e frios homens do mar escusaram-se. Havia ainda a lançar mão dos garotos;
                    prometeu-se-lhes uma gratificação de três tostões por cada coto de archote que
                    trouxessem. E a promessa deu logo como efeito um grande recrutamento, buliçoso e
                    alegre. Tomavam então galhofeiramente, numa pressa, os archotes, tombando uns
                    por cima dos outros, e acendiam-nos cantando. Alguns levavam um archote em cada
                    mão. Mas davam poucos passos e eram subjugados... O povo apagava-lhes os
                    fogaréus, fazia-os despedir a correr.</p>
                <p>E durou horas seguidas, sem tréguas, sem repouso, esta agitação estúrdia. Por
                    fim, a ca vali ar ia entrou em manobra. A municipal pela rua do Oiro, e da banda
                    do Arsenal os lanceiros, carregaram com brandura sobre o povo, que começou a
                    dispersar, ululando, em tropel, por entre uma espessa fumarada resinosa, catado
                    pela polícia que agora desatara num furor de prisões, logo desfeitas.</p>
                <p>Entretanto o Mateus, impaciente no seu centro de operações do Almargem, aguardava
                    pormenores do conflito, que devia ser como que a escaramuça preparatória da
                    grande batalha. Confrangido e excitado, agitando nervoso as mãos, despedidos à
                    terra em meditativa inquietação os olhos, média com passo breve e incerto, a
                    todo o comprimento, a casita da sua residência, desde a saleta de entrada,
                    completamente ás escuras, até ao extremo oposto, junto à mesa, no seu quarto de
                    dormir e gabinete de trabalho. Aqui ardia apenas, atenuada ainda pelo para-luz,
                    a chama avermelhada do candeeiro de petróleo. Tudo estava no conhecido arranjo
                    habitual; mas viam-se mais… — algumas bandeiras que tinham sobrado em negro
                    monte ao lado da porta, esparsas sobre a mala várias das bombas fabricadas pelo
                    João, e uma barrica de picrato no chão, aos pés da cama.</p>
                <p>Um leviatanesco turbilhão de ideias lhe tumultuava no cérebro. Sentia-se esmagado
                    de apreensões e terrores nesta hora tormentosa. Assoberbava-o, desta medonha
                    crise que ia ferir-se, a magnitude colossal, o enigmático mistério. A termos
                    que, por momentos, arrependia-se... e na sua angustiada febre, na sua dolorosa
                    impaciência, chegava a perder a noção do tempo, parecendo-lhe, ora que este
                    parara, ora que já não era ocasião do ataque porque ia amanhecer.</p>
                <p>Por fim, chegou esbofado e radiante o Fagulha, a contar-lhe o que tinha sucedido:
                    a impetuosidade e decisão do povo, o cortejo apagado e desfeito numa onda de
                    troça, o travamento geral da população com a força pública; e que tudo andava
                    armado, tinha a municipal durante horas com que se entreter! — Assim a coisa de
                    cá não falhasse!</p>
                <p>O Mateus ouviu-o numa imobilidade de êxtase, volutuosamente, com as narinas
                    palpitantes; e ao cabo disse-lhe apenas, despedindo-o:</p>
                <p>— Bem! Vai para o teu posto.</p>
                <p>Também ele saiu, logo atrás do Fagulha, e tendo fechado a porta, guardando a
                    chave, encaminhou-se ao lindo mirante zebrado que encimava o parque, no seu
                    recorte marcial, sobranceiro à esfumada renda dos pinheiros. E agora aqui,
                    chamando a si toda a sua coragem, transfigurara-se. Já não era o mesmo hesitante
                    e atribulado homem de há minutos antes. Perante a inevitável fatalidade do lance
                    fizera-se-lhe frio na alma, tomara-o uma grande e absoluta serenidade. Parecia
                    desprevenido, indiferente, e nunca a sua preocupação fora tão forte. Dominador e
                    atento naquele ponto sobranceiro a todas essas colinas de miséria, cuja
                    felicidade e libertação ele se propusera alcançar, agora a sua tranquilidade era
                    como que a suprema integração, a cristalização ao máximo, de toda a sua
                    mortificada inquietação naquele instante definitivo. — Já não havia que hesitar!
                    — E numa histeria lucida, num orgulho triunfante, o Mateus, firme e de cabeça
                    descoberta, erguia para o céu os seus claros olhos de confiança, faiscando
                    promessas na opaca mansidão da noite, na cumplicidade amiga das estrelas.</p>
                <p>Daquele vértice desafogado e alto podia ele abranger uma vastíssima área em
                    torno, desde as grossas artérias marginais do Beato, por todo esse resfolgante
                    vale de Chelas, até depois ao Arco do Cego, e ainda aos valeiramentos negros que
                    acusavam o formigueiro fabril de Alcântara e Campolide. Pois em toda essa enorme
                    e problemática extensão cravava o inflamado agitador ansiadamente a vista, no
                    empenho absorvente de surpreender os primeiros sinais de começo de execução ao
                    seu plano. E galopava-lhe o coração apressadamente. Não por qualquer tibieza ou
                    receio; não por falta de fé na cooperação decidida e unanime da sua gente. Nada!
                    A estes experimentara-os bem, sopesara-os no exato valor durante os últimos
                    dias, para que podasse a este respeito alimentar a mínima desconfiança. Estava
                    seguro de que nem um faltaria. Contava com eles. Mas laborava-o a apreensiva
                    suspeita de que qualquer incidente casual viesse fazer falhar a completa
                    execução da sua ideia. O traçado geral do plano era tão complicado, dependia de
                    tantos e tão dispersos fatores... Nada mais fácil! Qualquer involuntário azar,
                    uma ordem mal compreendida, um avanço fora de tempo, podiam fazer naufragar o
                    seu trabalho de tantos anos, a sua propaganda homérica de todos os instantes, a
                    sua desfibrinante meditação de tantas vigílias. — E é que, então, a causa,
                    comprometida agora, ficava talvez comprometida para sempre! Tarde apareceria
                    aqui um segundo Mateus. E ele é que, se esta excecional ocasião se perdia, não
                    teria vida nem animo bastante para recomeçar.</p>
                <p>E ele aí se obstinava afincadamente a olhar, a um e outro lado, sempre na mesma
                    atormentada ansia, interrogando o impenetrável borrão da noite. E sem conseguir
                    lobrigar o que desejava, o que esperava, o que devia dar-se, o que o retinha
                    ali... Porque, indefinida e monotonamente, no confuso carvoamento daquela hora
                    de repouso, na ampliação sem limites que a escuridão lhe emprestava, esbatia-se
                    e alastrava para toda a parte, sem uma vibração, sem uma luz, sem um movimento,
                    sempre a mesma negra solidão implacável, de campos e campos sem fim, em que as
                    árvores eram como espetros e os casais apagados tinham linhas de sepulcros. Pior
                    que um deserto... porque sob aquela lutuosa toalha adivinhavam-se almas, sob
                    aquela inércia lúgubre escabujava o sofrimento! E já o Mateus, cansado de olhar
                    em vão, quebrava num começo de desalento, quando finalmente, — agora! — lhe
                    pareceu começar a distinguir, arrastando-se vagamente, aqui, ali, por aquela
                    extensão de léguas, primeiro um indeciso rolar de sombras, sinuosas cordas de
                    treva na transparente escuridão dos vales; depois, progressivamente, à medida
                    como estas esfumadas fitas iam crescendo, finas arestas saltavam, coroando-as,
                    no suave reflexo da luz sideral, picando-as de cadenciados brilhos. — Era como
                    uma floresta de pequeninas pontas de aço que viessem pregadas nesse cortado e
                    flutuante dorso escamoso, brunido a trechos em fosforescências metálicas, em
                    instantâneas palpitações de fogos-fátuos... que aparecia agora e logo fugia,
                    para reaparecer depois... a cada momento interrompido no enfiamento dos cabeços,
                    por vezes recortado em negro no alto das colinas, e com a sua morosa ondulação,
                    com o seu bracejar lento e espontâneo povoando numa arrogância a solidão. Agora,
                    sim! Ele via o que quer que fosse de disciplinado e contumaz a afirmar-se
                    naquela incerta agitação, naquela densa anastomose de sombras pelo espaço. Eram
                    os seus! Não se tratava de qualquer ilusória visionação do seu espirito, não era
                    a escandecida objetivação do seu desejo, mas a ansiada e flagrante realidade;
                    pois que a caprichosa fluidez dessas cordas fantásticas esboçava-se e rompia ao
                    acaso, de todos os lados, imprevista, atoadamente, na total independência do seu
                    querer, mesmo antes que ele para lá olhasse. Finalmente! Aí vinha o inexorável
                    circuito, essa temerosa gargalheira de aço que ele havia sonhado e ultimado; aí
                    vinha ela crescendo e estreitando nas suas malhas de ameaça, prestes a afogar
                    num círculo de morte o manso lasseiro distante da cidade desprevenida... Eles aí
                    vinham, sim, não havia duvida! Certos e numerosos como se o campo estivesse
                    coalhado de pirilampos, como um atropelado bando de faúlas a correrem num papel
                    queimado.</p>
                <p>— E agora elevadamente o Mateus, debruçado sobre as ameias do mirante, não se
                    fartava de olhar... colhendo, numa alegria doida, a triunfante verificação desse
                    grande movimento decisivo, incendido numa tão intensa e trasbordante vibração de
                    felicidade que estremeceu, no sincero receio de perder naquele mesmo instante a
                    vida!</p>
                <p>Eram então horas de tornar para baixo, entrando em casa, para onde havia ordem de
                    lhe levarem as primeiras participações do movimento. — Até que fosse o momento
                    de ele dar o sinal para o assalto e partir! — Verificou, tateando a sombra, que
                    a girandola estava pronta; depois desceu, fechou cuidadosamente a porta do
                    mirante e voltou a casa. Aí, junto à mesa, consultou o relógio, — meia noite.
                    Como implacavelmente o tempo estava andando depressa! Num rebate novo de
                    impaciência, voltou-se, já de ouvido à escuta, direito à porta; e então
                    pareceu-lhe que uma forma vaga, que um estranho vulto branco vinha avançando
                    para ele da indecisa penumbra da saleta... Num incrédulo espanto, adiantou um
                    passo, afirmou-se. Não havia duvida! Tinha agora ali assim, súbita e
                    inesperadamente, diante do seu espirito acobardado, ao seu coração desprevenido,
                    a figura imperiosa e séria de Adriana, recortando-se, clara e suave como uma
                    alvorada, no retângulo negro da porta.</p>
                <p>Tomado de um grande e timorato assombro, julgando-se vítima de alguma alucinação
                    visual, de qualquer traiçoeira aberta de fraqueza na inflexibilidade estoica da
                    sua alma, o contramestre afirmou-se mais, correndo com a mão os olhos. E perante
                    a inexorável evidência exclamou:</p>
                <p>— A Sra. D. Adriana aqui!?</p>
                <p>— Eu mesma! — disse ela com firmeza.</p>
                <p>— Mas como? Com que fim, porque motivo?...</p>
                <p>— Já o vai saber!</p>
                <p>E decidida e pronta ela entrou pela sala, fazendo do mesmo passo recuar diante do
                    seu nobre vulto austero o Mateus, dulcidamente subjugado.</p>
                <p>Mas breve, recobrando-se, uma áspera contrariedade o impacientava, fazendo-o
                    balbuciar:</p>
                <p>— Pesa-me bem ter de lho dizer, minha senhora... mas Vossa Excelência veio na
                    pior das ocasiões!</p>
                <p>— Eu penso exatamente o contrário... — disse com significativa intenção Adriana,
                    cravando nele um olhar inteligente.</p>
                <p>— É singular! — murmurou desnorteado o Mateus.</p>
                <p>E agora Adriana, avançando mais, ameigando intencionalmente a expressão, com as
                    pálpebras doces, com o lábio irónico:</p>
                <p>— Dir-se-á que o contrário com esta minha amável visita...</p>
                <p>— Talvez...</p>
                <p>— É um caso único em situações como esta!</p>
                <p>— Porque é única também neste momento a minha condição!</p>
                <p>Adriana fez-se outra vez séria, e com viril intimativa, sacudindo a cabeça com
                    altivez, unidas à frente as mãos nos braços longos:</p>
                <p>— Basta de comédia, Mateus!</p>
                <p>— Comedia em quê?... — disso ele sinceramente, com uns grandes olhos
                    espantados.</p>
                <p>— Oiça-me... Sei tudo! Estou na inteira posse do seu segredo.</p>
                <p>— Ó roeu Deus!... — exclamou o Mateus com terror, aflitivamente perplexo,
                    apertando o crânio nas mãos.</p>
                <p>— Mas descanse que não venho para o prender... — dizia, com afetada serenidade,
                    Adriana. — Nem o denunciei, nem trago a policia comigo.</p>
                <p>— É supérfluo afirma-lo, minha senhora...</p>
                <p>— Venho simplesmente, — entenda-me bem! — venho restitui-lo a si próprio... venho
                    chama-lo à razão, à benignidade, à justiça, ao dever. Venho salva-lo! Intervindo
                    a tempo de lhe deter essa mão, prestes a ser milhares de vezes homicida.</p>
                <p>— Homicida, não! Adriana... Protesto! Modifique o seu juízo.</p>
                <p>— Venho aqui para conseguir, — pela persuasão ou pela violência, se tanto for
                    preciso! — que no seu alto espirito volte a fazer-se a repousada luz do bom
                    senso, que o embate das mais abomináveis paixões lhe apagou... Venho para lhe
                    fazer ver claro dentro de si mesmo e mostrar-lhe que, assim como a vaidade
                    vulgar é a geradora do erro, também essa sua generosa ambição podia ser o
                    prólogo sanguinolento do crime!</p>
                <p>Com um sorriso amargo, o Mateus cruzou os braços, e um pouco perversamente, com o
                    olhar metálico, bamboando a perna:</p>
                <p>— E não mediu o grave risco deste seu passo,., o desaire, a inconveniência, o
                    descredito, para o seu nome e dos seus, desta sua entrevista, a sós comigo,
                    aqui, a esta hora... se acaso viesse a saber-se?</p>
                <p>— Eu saberia defender-me! — contestou com dignidade Adriana.</p>
                <p>— Veja bem como é grave... Seria o naufrágio irremediável da sua reputação! — E
                    perante a desdenhosa inflexibilidade dela — Vamos! Peço-lhe... retire-se,
                    deixe-me... salve-se enquanto é tempo!</p>
                <p>Adriana, impassível, manteve a sua atitude altiva; e depois de uma pausa de
                    desafio deblaterou demoradamente esta frase heroica:</p>
                <p>— Se me perder, a santidade e a grandeza do fim que aqui me trouxe vale bem esse
                    sacrifício!</p>
                <p>— Eu por mim não lho agradeço!</p>
                <p>— Nem eu preciso!</p>
                <p>O Mateus estava positivamente desconcertado. Nunca imaginara em mulher uma
                    coragem assim! Não sabia como tirar-se desta dificuldade e remover sem desprimor
                    o amavioso obstáculo que tão fora de propósito ameaçava baldar-lhe a mais
                    exclusiva e ardente preocupação de toda a sua vida. Depois de um silêncio,
                    disse:</p>
                <p>— Adriana! Então?... peço-lhe... Quer que eu endoideça?</p>
                <p>— Quero que recobre o juízo.</p>
                <p>— Não ponha por mais tempo a minha paciência à prova! Saía, deixe-me... É o que
                    eu neste momento lhe imploro, com todas as forças da minha alma! Por muito que
                    saiba, não imagina a gravidade e a importância excecional da minha missão neste
                    momento!</p>
                <p>— Imagino muito bem!</p>
                <p>— Não posso perder um momento agora! — dizia ele, imperiosamente, agitando-se com
                    furor ao longo da sala. — É-me impossível... Saía! Saía não tenho tempo para a
                    atender.</p>
                <p>Mas Adriana, muito serena, com expressão ao mesmo tempo grave e carinhosa:</p>
                <p>— Que remédio terá o senhor!</p>
                <p>Neste instante rufaram do lado de fora pancadas violentas na janela, que tinha os
                    batentes cerrados. E logo com febril intimativa a voz do Fagulha:</p>
                <p>— Senhor Mateus! ó senhor Mateus!</p>
                <p>— O que é!?</p>
                <p>— Abra-me a porta!</p>
                <p>O Mateus trocou um olhar de admiração com Adriana, que sorria. E, percebendo que
                    fora dela o estratagema, disse para fora:</p>
                <p>— Ah, és tu, Fagulha?... Fala mesmo daí.</p>
                <p>— A gente de Chelas vêm toda! — disse o Fagulha com entusiasmo.</p>
                <p>— Ouve?... — disse a meia voz o Mateus para Adriana, com os olhos muito
                    brilhantes.</p>
                <p>E quase ao mesmo tempo, de fora, o outro:</p>
                <p>— Já passaram a quinta da Conceição, e estão ás ordens, em baixo, entre o
                    Carrascal e a linha férrea.</p>
                <p>— Bem! Está entendido, — disse alto, rapidamente, o Mateus; e de novo para
                    Adriana, num tom de voz que ele procurava tornar enérgico, mas sem ousar
                    encara-la, rodando tímido em volta dela: — Então, Adriana! Porque espera?...
                    Quantas vezes quer que lhe repita a minha intimação?... É forçoso que se retire!
                    Que me deixe o campo livre. Eu daqui a minutos tenho que sair!</p>
                <p>Ela porém, inexoravelmente plantada sempre no mesmo lugar, disse com infinita
                    doçura, cravando nele repreensivamente os olhos:</p>
                <p>— Mas que inacreditável cegueira, que loucura! Que perversão dos mais sagrados
                    sentimentos! Que pavorosa e colossal monstruosidade!</p>
                <p>— Não importa... O essencial é que me deixe!</p>
                <p>— O essencial é que eu fique!</p>
                <p>— E pode ficar, sim... é até o mais conveniente. Contanto que eu passe, fique à
                    vontade!</p>
                <p>E o Mateus ensaiou com presteza ladear a posição de Adriana, para tomar direito à
                    porta. Ela porém, adivinhando-o, recuou e interpôs-se num relance, dizendo com
                    império:</p>
                <p>— Ficaremos os dois!</p>
                <p>De novo o contramestre estacou, assombrado, doido, com o espirito oprimido e
                    indeciso perante a tenacidade inverosímil deste obstáculo, na aparência tão
                    frágil, que assim zombava da sua vontade, em riscos de comprometer toda a sua
                    obra. Para mais, neste momento, a comunicação do Fagulha acabara de
                    escandecer-lhe o cérebro, onde galopava a alucinativa visão de todos esses
                    milhares de homens rastejando na sombra, atentos ao seu sinal, espertos ao sou
                    mandado. E palpada assim a iminência, pressentido o êxito mais do que provável
                    do seu gigante empreendimento, a turbadora presença de Adriana fazia-o
                    deslocar-se em gestos de atropelada incerteza, acendia-lhe clarões de desespero
                    dentro da noite das pupilas. E tornava com aflição:</p>
                <p>— Ó Adriana! Mas diga-me... por amor de Deus! Que significa tudo isto?... Que
                    duro e implacável coração é o seu? A que sinistro, a que odioso e infernal plano
                    obedece esta sua intervenção maldita!?</p>
                <p>— Já lho disse.</p>
                <p>— Que mal lhe fiz eu para me odiar tanto, para me crucificar assim?...</p>
                <p>— Pelo contrário, estou-lhe até dando a mais elevada prova de estima.</p>
                <p>— E quer fazer de mim um bandalho, um vil traidor? Vêm aqui no propósito
                    manifesto de me aniquilar, pondo em jogo a minha honra?...</p>
                <p>— E não ponho também em jogo a minha?...</p>
                <p>O Mateus, subjugado, hesitante, baixou a cabeça e voltou a medir em rodeios
                    ávidos o quarto, como uma fera numa jaula; mas de repente, tendo encarado a
                    barrica de picrato, parou e aprumou-se, e os olhos faiscaram-lhe em antecipados
                    relâmpagos de triunfo.</p>
                <p>— Adriana! Tome bem conta no que lhe vou dizer... O pó acinzentado que enche esta
                    barrica é um explosivo terrível Ouviu bem?...</p>
                <p>— Já suspeitava isso, — disse Adriana singelamente, sem trair o menor receio. —
                    tem um poder de destruição incalculável!</p>
                <p>— Bem, já sei... e depois?</p>
                <p>— E depois... eu sou doido... posso num arrebatamento atirar-lhe para dentro, por
                    exemplo, este candeeiro — E avançava resoluto com o candeeiro para junto da
                    barrica, num grande gesto de ameaça. — Já vê... será a morte inevitável!
                    Deixe-me o campo livre, senão...</p>
                <p>Adriana, pálida e inteiriça como um bloco de mármore, sem pestanejar, sem tremor,
                    disse com arrogância:</p>
                <p>— Senão o quê?...</p>
                <p>— Sai ou não sai?... — intimou ele novamente, com o braço esquerdo estendido à
                    porta.</p>
                <p>— Não!</p>
                <p>— Adriana! Que eu faço ir tudo isto pelos ares... — rugiu ainda o
                    contramestre.</p>
                <p>E ela impassível, cruzando os braços, olhando-o com firmeza:</p>
                <p>— Sempre quero ver!</p>
                <p>Quebrado de ânimo, o Mateus cerrou as pálpebras inquietas, colheu o braço
                    suspenso sobre o perigo e voltou à mesa, onde poisou de repelão o candeeiro.
                    Então, quase simultaneamente, novas pancadas de alarme soaram, primeiro na porta
                    da rua, depois na mesma janela ao lado. E o contramestre estremeceu num salto de
                    exaspero, com áscuas de lume nas pontas dos dedos.</p>
                <p>— Quem é!?</p>
                <p>— Sou eu! — clamou com força a abaritonada voz do Tranca-ruas. — Sr. Mateus!
                    Apronte-se... vai tudo ás mil maravilhas!</p>
                <p>— Que informações trazes?</p>
                <p>— O alto do Pina está ocupado! Temos ali gente em barda, desde o caminho para o
                    Poço dos Mouros até à Curraleira, pronta a avançar!</p>
                <p>— Está bem, fico ciente... Volta para lá!</p>
                <p>E novamente o Mateus encarou numa ansiada suplica Adriana, que se mantinha
                    imóvel, envolvendo-o no mesmo olhar repreensivo e triste. Ele insistiu.</p>
                <p>— Bem, Adriana! Quando tem então fim esta sua comédia?... — E como ela
                    perseverasse no silêncio:</p>
                <p>— Ah, espera... também não tem duvida... vou por aqui!</p>
                <p>E dispunha-se, num relâmpago, a saltar pela janela. Porém, mais ligeira, Adriana
                    tomou-lhe o passo. Ele despediu então numa corrida à porta; mas ainda ela
                    conseguiu embargar-lhe o intento mais uma vez. A termos que por fim o
                    contramestre, no que do desespero, lívido de morte, com a voz estertorada e o
                    olhar torvo e perverso, ameaçou:</p>
                <p>— Ó Adriana, tome sentido! Não abuse mais da minha sensibilidade... não me
                    obrigue a começar as violências por si! Vamos! Para traz... — E perante a
                    ineficácia ridícula da sua ordem: — Bem, tenho então que recorrer à força, já
                    que me não faço obedecer por outra forma! Compreendo... isto não é uma luta
                    entre homem e mulher, é o conflito implacável entre duas castas! Raça contra
                    raça, não é assim?... Pois vamos a ver quem vence!</p>
                <p>Alucinado, perdido, o Mateus ia a crescer para Adriana, resolvido a maltrata-la
                    para a fazer arredar da sua frente, de punhos erguidos, com os lábios brancos e
                    rolando-lhe em istras de sangue as órbitas rancorosas. Mas de repente outra vez,
                    ao encarar com aquela delicada e austera figura, ali assim mansa e indefesa
                    diante da sua bravia cólera, uma onda de ternura ensopou-lhe o coração, as
                    pernas vergaram, os braços caíram impotentes.</p>
                <p>E agora, de joelhos primeiro, depois de rojo pelo chão, impacientava-se,
                    debatia-se humildemente, arrastava-se como um escravo, como um condenado á pena
                    última, lamuriando uma atropelada torrente de vozes de compaixão, de suplicas
                    inflamadas: — que de todos esses milhares de miseráveis, naquela hora tão
                    deploravelmente comprometidos, fora ele o oráculo, o mestre, o grande
                    iniciador... abandona-los agora, na última extremidade, faltar-lhes com a
                    direção e o exemplo neste instante supremo da sua ansiada libertação, era a
                    maior das cobardias!... E que, assim, retê-lo ali naquele momento era
                    aniquila-lo moralmente! Cem vidas que ele tivesse esbarrondariam todas
                    vergonhosamente naquele abismo de ignomínia! — E sem trégua nem descanso,
                    estrebuchando, arfando, procurava envolver os joelhos de Adriana, afagava-lhe os
                    pés em rasteiras caricias de lebréu, mordia o chão, arrancava os cabelos... numa
                    tão violenta crispação de dor, num destempero tão completo de todo o seu ser,
                    que do alto da sua impassibilidade Adriana fazia grandes esforços por
                    dominar-se, envolvendo-o num húmido olhar de piedade.</p>
                <p>Novo alarme voltou a tamborinar com ímpeto na janela. Era o Ventura. Trazia
                    notícias da concentração entre o Campo Grande e as Picoas. E quase ao mesmo
                    tempo tornava também o Fagulha, e impacientava-se, gritando para dentro ao
                    Mateus — que se estava perdendo a ocasião! Que queria dizer aquele segredo? Que
                    demora ora aquela!?</p>
                <p>Porém o Mateus, de novo em pé, mas extenuada e vencido, nom animo tinha para
                    ensaiar uma palavra de desculpa... Somente balbuciou, baixando os olhos mortais
                    para Adriana, que, a segura-lo melhor, lhe tinha passado em volta do pescoço os
                    braços.</p>
                <p>— Diga-me finalmente, Adriana! Porque é que veio talhar aqui a minha infâmia?
                    Porque me prende assim?...</p>
                <p>E ela, docemente, pendurada, descaída num delíquio:</p>
                <p>— Porque o amo!</p>
                <p>— E quer-me ver desonrado, odioso, inútil para o mundo?...</p>
                <p>— Não o será para mim!</p>
                <p>Ia ainda o Mateus a formular nova objeção; mas ela, fazendo peso e dobrando-lhe a
                    nuca, trouxe o rosto do contramestre mais perto do dela e cerrou-lhe a boca
                    ardente com os seus lábios frios. Enquanto, num carinhoso abandono,
                    murmurava:</p>
                <p>— O mundo! Que lhe importa o mundo, se me tem a mim?... Veja o caso que eu faço!
                    A felicidade é o isolamento. Dora avante, para as nossas almas irmãs e unidas, o
                    único, o verdadeiro mundo seremos nós dois... Teremos com que povoar e alegrar
                    sobramente a existência, no inteiro gozo da nossa ventura, na plenitude do nosso
                    amor!</p>
                <p>Num alheamento de sonho, numa volúpia indizível, o Mateus deixava-se mansamente
                    conduzir... Amarfanhado agora sobre a mesa, ficou-se indefinidamente, ansiado,
                    inerte, com a cabeça entre os braços, soluçando devagar. Enquanto, fora, passos
                    inquietos se atropelavam no saibro do parque, cortados de indignadas vozes de
                    surpresa; e Adriana lhe acariciava maternalmente os cabelos, continuando a
                    embala-lo na sua melopeia divina...</p>
                <p>Passados tempos, ela aplicou o ouvido, certificou-se de que estava restabelecido
                    o silêncio no parque deserto; e, olhando a janela, verificou que lhe debruava já
                    exteriormente os alizares, um vitorioso clarão matinal. — Finalmente! Estava
                    conjurado o perigo! — Numa violenta expiração de alívio, ergueu gratos olhos ao
                    céu; depois afastou-se, pé ante pé, subtilmente, e atravessando rápida o parque,
                    já desperto nos primeiros alvores da manhã, entrou em casa.</p>
                <p>Chegando ao seu quarto, ia a fechar a janela do sul, que deixara aberta, quando
                    súbito, mesmo ali na sua frente, um grande e alucinado clarão ensanguentou o
                    espaço, e um pavoroso estremecimento sacudiu a terra, seguido por formidável
                    estampido, enquanto uma temerosa sarabanda de pedras, caliças, terras, árvores e
                    vidros partidos arremetia numa impetuosa girandola de morte pelo ar.</p>
                <p>Vivamente assustada, Adriana recuou um passo, com os joelhos trémulos, pondo as
                    mãos erguidas. Mas no mesmo instante um grosso projétil, despedido do exterior
                    com violência, veio rolar-lhe aos pés... Ela abaixou-se, e viu que era a
                    despegada cabeça do Mateus, numa pasta informe, fitando nela amargamente os
                    olhos gelatinosos... Então, compreendendo, sucumbida de dor e de remorso, deu
                    toda a alma num arranco de suprema angustia e tombou aniquilada de pavor sobre
                    aquele crânio fumegante.</p>
            </div>
        </body>
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            <div>
                <ab type="dateline">Outubro 1895 a novembro 1896.</ab>
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</TEI>
